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segunda-feira, 15 de julho de 2013

Sugestão televisiva

Foi noticiado que a RTP cancelou as encomendas de documentários para a RTP2. O pretexto será o do costume, de que não há dinheiro. Mas o facto é que assim degradará a prestação do serviço público. Objetivamente, o panorama das televisões portuguesas é dominado por lixo, lamentando considerar assim a preferencia das audiências. Parafraseando Beethoven, em questões de arte e cultura nem sempre se deve ir atrás das preferências das maiorias. Aliás, como se verificou com o exemplo das eleições que deram a maioria a Hitler, nem sempe a democracia é a aritmética dos votos. Por isso, para compensar o lixo da televisão, e a agressão de incultura que isso representa para a população, especialmente a jovem, seria assim tão difícil lançar um imposto proibitivo sobre a transmissão de lixo televisivo um dia por semana, segundas feiras, por exemplo, e com esse imposto pagar os documentários da RTP2? Que pensará disto o senhor ministro Maduro, tão cercado da aura de valia intelectual?

sábado, 1 de dezembro de 2012

O serviço publico na televisão, o câmara clara, as vespas e as abelhas


Quando se tem o poder de decisão,
mas não se tem sensibilidade e gosto pela arte,
quando não se tem sentido crítico para avaliar o mérito de quem trabalha em atividades artisticas,
quando se têm outras preocupações,
porque se acha que a arte não é uma emanação da própria natureza humana e uma forma de interpretar o mundo de que somos parte,
quando, inconscientemente ou não, se deixam polarizar em torno de ideias chave meramente ideológicas,
querendo que a realidade se sujeite a elas, e não o contrário,
quando se pensa que se detem a verdade a que os outros não são julgados capazes de chegar,
quando não se é capaz de imaginar o que sentem os que são afetados por quem tem o poder de decisão,
então,
é natural que se diga que não se sabe em que consiste o serviço público, seja na saúde, na educação, na segurança social, seja na cultura, e que é preciso discuti-lo, embora todos saibam que será imposta a vontade de quem tem o poder,
é natural que se suprima o câmara clara da RTP2
(sim, gasta-se muito dinheiro e há poucos espetadores)



por decisão superior, chega ao fim o programa cultural câmara clara da RTP2

Enquanto os nibelungos não suprimem a RTP2 e a sua transmissão do National Geographic (pois, nem toda a gente tem o serviço pago, pelo que é serviço público “passar” o National Geographic na RTP2), fico fascinado com a história das vespas e das abelhas.
As abelhas europeias, pacificas e entretidas a fazer mel, não têm defesa contra a invasão da sua colmeia por uma espécie predatória de vespas (por sinal, as vespas têm certas semelhanças com os homens; há espécies que se matam umas às outras, mas, tal como os homens da guerra, sempre com o elevado desígnio de obter proteínas para as suas larvas). Todas as abelhas são mortas para servirem de alimento às larvas das vespas.
Porém, as abelhas japonesas desenvolveram, ou os mecanismos da evolução por elas, um sistema defensivo. Um grupo de abelhas sentinelas deteta a vespa batedor que procura colmeias para depois avisar o exército de vespas com emissão de feronomas. Mas as sentinelas rapidamente e amavelmente conduzem o batedor até à colmeia, onde todas as abelhas formam um cacho à volta do batedor e, não tendo armas que sem o sacrifício de alguns insetos possam vencer as mandíbulas e o ferrão da vespa, libertam calor através da agitação das asas e dos abdomens, tirando partido da menor resistência das vespas à temperatura. E assim, as abelhas assam a vespa a 40º antes que ela emita feronomas.

Interessante, esta metáfora, em como nem sempre os que detém a força e o poder conseguem destruir quem produz.
Longe de mim sugerir que os detentores do poder politico, ou do poder financeiro, ou os académicos economistas que dizem às populações onde elas devem cortar os seus serviços essenciais, devam ser assados pelas mesmas populações.
Mas achei interessante a metáfora, em como a democracia, depois de ter resolvido a dificuldade de existir escravidão e existir realeza e aristocracia em desigualdade de nascimento,ainda não resolveu o problema da defesa contra predadores.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

O melhor povo do mundo









Beneficiando por enquanto da programação com interesse da RTP2, à espera que o seu novo orçamento de 3 milhões de euros, o anuncio do fim das indemnizações compensatórias e a proibição de publicidade (teria a vantagem de se poder reduzir a taxa da fatura da eletricidade…) a asfixiem, vejo um programa sobre o genocídio dos tainos pelos espanhóis.

Os tainos eram o povo índio pré-colombiano que desapareceu enquanto povo com Colombo e os seus sucessores nas ilhas de S.Domingos, Porto Rico e Cuba, devido à guerra, à escravatura em minas de ouro e na agricultura, e às doenças como a varíola.
Apenas subsistiram genes pela mestiçagem com os espanhóis (que tomavam mulheres taino) e os africanos trazidos depois como escravos.

Os documentos históricos que contam a história do fim dos tainos e os vestígios arqueológicos permitem fazer uma análise “darwiniana” da luta entre espanhóis e tainos e são um episódio que ilustra o processo histórico, desde a ganância pela exploração de uma mina de ouro que rapidamente foi esgotada e pela apropriação da força produtiva do povo escravizado, até ao desrespeito pelo sistema ecológico, que culminou com a morte coletiva dos primeiros colonos espanhóis em La Isabela, vitimas da recusa em se alimentarem dos recursos naturais da ilha (o que provocou a morte por deficiencia de vitamina C e escorbuto).

Dos tainos ficaram palavras transmitidas pelos espanhóis, como tabaco, amoque, canoa, barbecue, hurricane (huracan), Cuba (cubacan) … não é engraçado?

E também é muito interessante recordar as palavras de Cristóvão Colombo sobre os tainos na carta para os reis católicos, comunicando-lhes a descoberta das índias ocidentais:
 “Eles são um povo amável e amigável… são o melhor povo do mundo … trouxeram-nos papagaios, bolas de algodão, lanças e muitas outras coisas … darão uns bons escravos … com cinquenta homens podemos subjugá-los a todos e fazer deles o que quisermos”.

Curioso, como Cristóvão Colombo lhes chamava o melhor povo do mundo e como justificava por que lhes chamava isso.

domingo, 21 de outubro de 2012

A incultura de quem não vê, não ouve, não fala




Diz quem está dentro destes assuntos que o orçamento que atribuíram à RTP2 de 3 milhões de euros é uma forma de a estrangular, de impedir o seu trabalho.
Mas como os bárbaros dizem, o numero de espetadores é muito reduzido e não se pode gastar muito dinheiro.
Eu penso que se deve responder com o exercício da competência e da intervenção, pelo menos enquanto seja humanamente possível com um mínimo de dignidade.
Entretanto Jorge Wemans já se demitiu do cargo de diretor da RTP2.
Programas como as sete irmãs (as grandes companhias de petróleo) conseguiram passar, como o documentário "Os donos de Portugal":
http://www.rtp.pt/programa/tv/p28826/c81758
Mas não existe só a RTP2, existe ainda a Antena2, a quem já amputaram programas de análise e intervenção cívica (recordo “Um certo olhar”), mas que ainda produz serviço cultural de qualidade, nomeadamente no campo da chamada musica clássica.
Hoje aprendi (devemos aprender sempre) que Luigi Nono, compositor falecido em 1990, também ele era interventivo.
Graças ao programa Caleidoscópio – A idade do génio

ouvi um excerto da obra de Luigi Nono dedicada à memória de Luciano Cruz, militante chileno do MIR (movimento de esquerda revolucionaria) , morto em circunstancias não esclarecidas em 1971, antes da eleição de Salvador Allende.
O texto intitula-se “Como una ola (onda)  de fuerza y luz”, e declara a perenidade do ideal de liberdade em que Luciano Cruz acreditava, numa altura em que a generosidade e  a ingenuidade faziam crer num futuro melhor para as pessoas :

Tudo ponderado, boas razões para as pessoas crescidas, muito sérias, muito competentes e bem postas, que decidem por todos nós, acharem que os orçamentos da RTP2 e da Antena2 são alvos a abater.
É mais ou menos o argumento do filme Farenheit451: depois dos bárbaros tomarem o poder, grupos de cidadãos reuniam-se para celebrar a cultura, cada um com a incumbência de decorar um livro.

Isso esperamos da incultura e do complexo de salvador único do primeiro ministro, que cantou a Nini vestida de organdi,  mas nunca sentiu as canções de Ari, nem ultrapassou as canções estouvadas das Doce.
Da incultura e da incompreensão do ministro das finanças, que acredita que os seus modelos são mais reais do que a realidade, que cita imagens literárias que se viram contra ele como o otimismo de Pangloss ou a história trágico-maritima, e que conjuga o verbo precluir como se fosse anglo-saxónico.
Da incultura e da incapacidade do presidente da República de realizar a análise, segundo todas as perspetivas que o povo português votou, e a síntese das ações a tomar, talvez porque, como dizia Saramago, confundia Tomas More com Tomas Man.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Falas de governantes - histeria, disse o senhor primeiro ministro.

O programa eleitoral do partido que ganhou as eleições falava em privatizar um canal da televisão pública. Não falava em fechar a RTP2. Não pode portanto invocar-se o cumprimento de um programa eleitoral.

Tampouco, em assunto tão sério e definido na constituição da Republica, se poderá invocar legitimidade para, sem 2/3 da vontade dos eleitores, fechar a RTP2.
O mal é admitir-se o ato bárbaro.
Depois, é só esperar uma oportunidade.
Certamente invocando que não há dinheiro (provavelmente os senhores da troika não exigirão o fecho da Antena 2, pois têm aspeto de ir a concertos na terra deles).

Falou ingenuamente o senhor primeiro ministro, acusando de histeria quem quis debater o tema (em democracia debatem-se os temas, não se chama "histérico" a quem não pensa como nós) que “ainda não sabiam que solução iam escolher, que se estava a estudar”.

Pena dizer isso, porque os profissionais destas coisas já vão sabendo há muito como se resolvem as questões do seu negócio.
É ingénuo e padece da sindroma do mundo fechado dos teóricos do movimento do sol à roda da terra dizer que as coisas só são compreendidas depois do próprio as compreender.
É por isso que a humanidade é gregária, para poder trabalhar em grupo e não estar à espera que tudo passe pelo entendimento de um dos da sua espécie.

E para completar a barbárie, o programa eleitoral do partido vencedor das eleições (com 29% dos votos relativamente ao universo dos eleitores inscritos) promete estender à RDP o mesmo procedimento.
Confirmam-se os receios depois de, há cerca de um ano, ouvir a entrevista do atual senhor secretário de estado da cultura à própria Antena 2.
Estes senhores provavelmente não ouvem a Antena 2.
Não devem ter preocupações com os temas que lá se debatem.
De música sinfónica, de câmara, de piano, orgão ou cravo, ou de ópera, devem fugir.
Nem uma orquestra de Antónios Vitorinos de Almeida conseguiria sensibilizar os seus tímpanos.

Por isso lhes dedico este post, sugerindo que sigam a ligação e ouçam, durante 60 minutos, o programa “Véu diáfano”, de Pedro Amaral, na Antena 2, dedicado ao erotismo na poesia renascentista de Guarini e na musica a capella (a vozes), também renascentista, de Jesualdo.

Poema Tirsi, morir volea, de Guarini:

“Tirsi queria morrer,
olhos nos olhos com aquela que adorava,
e ela lhe disse:
não morras já que eu também quero morrer
e quando ele fixava os olhos dela, belos, divinos,
a bela ninfa que sentia perto os mensageiros do amor, disse:
Ah, morre, meu amor,
que eu também morro
E Tirsi disse:
Ah, eu, minha vida, também morro
E assim morreram os afortunados amantes,
de morte tão suave e agradável,
que de assim morrer,
regressaram à vida”

Ouvir, especialmente se não entenderam como se pode regressar à vida depois de se morrer assim, em:
http://www.rtp.pt/programa/radio/p3110/c89047

(make love, not jeopardy of public service)


segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Mr Sachs, make love, not jeopardy of public service

Mr Sachs, ou senhor doutor António Borges, faça amor, não estrague o serviço público.
É verdade que, como diz Marc Roche, autor de "O banco, como o Goldman Sachs dirige o mundo", citado pelo cronista do DN, o Goldman Sachs "destroi o que existe para, a posteriori, criar riqueza para os amigos" , e que a intervenção do senhor doutor na televisão é típica de um tratamento de choque para escandalizar.
Mas permita-se-me uma correção: não parece ser verdade o que disse o senhor doutor, que o Estado não é bom gestor.
O Estado nem é mau, nem é bom, não é gestor.
Um gestor vê-se, tem rosto e nome de pessoa, e é essa pessoa que é um bom ou mau gestor (ou assim assim, ou gestor de má fé, ou gestor de boa fé, ou nem uma coisa nem outra) .
O facto de uma empresa ser pública ou um orgão público gerir um serviço de interesse p´blico é apenas para reservar o direito dos contribuintes controlarem melhor uma coisa que lhes diz respeito, muitas vezes uma externalidade que ´beneficia alguns, mas que exige o contributo de todos.
Infelizmente isso não acontece, muitas vezes porque os partidos que ganham as eleições colocam nas administrações maus gestores ou simplesmente ignorantes do negócio do que vão gerir.
Profissionalmente conheci tantos.
E o senhor doutor António Borges, conhecerá os negócios de que fala?
Talvez não, a avaliar pelas palavras de Eunice Munoz, que não é suspeita de apoiar partidos de esquerda: "fico triste, a RTP2 é muito importante para o nosso trabalho... vamos esperar que haja bom senso".
Ou pela rápida informação que quem conhece o negócio logo divulgou: que a Alemanha, a Espanha, a França, a Inglaterra, os USA, todos têm canais públicos... como disse Joaquim Letria, "não é uma eutanásia, é um crime".
Ou como receou este blogue, a propósito da deriva do ministério da cultura no governo anterior e da excessiva especialização do atual senhor secretário de estado da cultura, os pequenos, mesquinhos e selvagens nibelungos tomaram o poder e estão a destruir a cultura.

PS em 29 de agosto - de repente, depois do choque das declarações do senhor doutor António Borges, muita gente terá percebido o atentado que é acabar com a RTP2. Eu ficaria mais satisfeito se as pessoas aumentassem a audiencia da RTP2, porque, na verdade, inclui muitos programas de interesse. Mas a audiencia de programas culturais depende de politicas culturais do governo que não existem. Por isso insisto na ideia dos nibelungos que tomaram o poder ajudam a manter a população afastada da cultura.
Aplausos entretanto para os profissionais da RTP que não deixaram cair os braços nem que a desmotivação os vencesse, e reagiram e demonstraram o valor do seu trabalho.
É o caminho para os profissionais das empresas públicas de transportes.
E agora que o "esquema" de concessão subsidiada da RTP1 e de fecho da RTP2 já foi debatido (não digo que é o que vai acontecer para não ser malcriadamente acusado pelo senhor primeiro ministro de "histérico"), já é mais fácil chamar a atenção das pessoas para que é o mesmo caso, por exemplo, da Fertagus, que recebe mais indemnização compensatória por passageiro.km do que o metropolitano de Lisboa; por exemplo. Assim, é natural que as empresas privadas apresentem bons resultados.