Mostrar mensagens com a etiqueta festival de musica sacra. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta festival de musica sacra. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Rothko Chapel, ou a continuação do festival de musica sacra do Baixo Alentejo, Terras sem sombra

Continuou o festival Terras sem sombra, desta vez na basílica real de Castro Verde, no dia 30 de Abril de 2011.
Chama-se basílica real porque houve aqui o patrocinio de D.João V e o ouro do Brasil.


Como o ouro vem e vai, é dificil manter agora o património monumental das igrejas do Baixo Alentejo.
O festival chama tambem a atenção para isto.
É bom saber que neste país alguém se mexe para promover a cultura e para lutar pelo património, mesmo sem apoios do ministério da cultura, nem de empresas ligadas à terra alentejana, como a Somincor.
Fico assim a dever à diocese de Beja, eu, ateu confesso, mais um concerto musical de alto nível, dedicado a duas peças muito pouco ouvidas e pouco apelativas pela sua natureza contemplativa:
Rothko Chapel, de Morton Feldman, e Via Crucis, de Liszt, pelo coro da arena de Verona.

Interessa-me destacar a ideia de Feldman ao compor em 1971 a sua peça para coro, violeta, celesta e percussão em homenagem ao espírito ecuménico e de tolerancia universal da capela desenhada e pintada por Rothko, em Houston, Texas.
A capela pretende ser um lugar de meditação aberta a todas as religiões e, julgo eu , também aos sem religião, com o objetivo de convivermos em paz.
A musica, como disse, não é apelativa e não seduz ninguem pela facilidade da audição, mas a mensagem que ela transporta deve ser repetida, por mais dificil de aceitar pelos intolerantes que ela seja.

Perante o entusiasmo dos aplausos, o coro de Verona ofereceu, extra programa, o coro dos prisioneiros hebreus da ópera Nabucco, de Verdi.
Pode ter sido pela boa acustica da igreja, ou talvez por me lembrar que há maneiras sofisticadas de aprisionar um povo, mas o coro soou-me como se fosse composto só por vozes solistas, bem colocadas, expondo com clareza e potencia sonora a mensagem de independencia de Verdi:




Va, pensiero, sull'ali dorate;                  Vai, pensamento, sobre asas douradas;
va, ti posa sui clivi, sui colli,                  vai, poisa nas encostas e nas colinas,
ove olezzano tepide e molli                   onde a brisa doce do solo natal
l'aure dolci del suolo natal!                    traz um cheiro morno e suave!                  

Que viva Verdi.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Terras sem sombra - 7º festival de musica sacra do Baixo Alentejo - 2011

Eu, ateu confesso, por força da teoria das probabilidades que não me deixa ficar pelo agnosticismo discreto e respeitador, estou agora em dívida para com o senhor bispo de Beja.
E tambem para com o Departamento do Património Histórico e Artístico da Diocese de Beja e todos os mecenas que viabilizaram  mais esta edição do festival de musica sacra do Baixo Alentejo, incluindo os senhores presidentes das câmaras municipais da região.
A ideia é realizar concertos de musica sacra nalgumas igrejas de interesse histórico.
Consideremos o programa, todo ele de assistencia gratuita, desde que os interessados consigam lugar na igreja:
2 de Abril  - igreja matriz de Santiago do Cacem - Vivaldi, Ferrandini e Alexandre delgado com a soprano Maria Bayo e o Divino sospiro (orquestra de câmara barroca do CCB)
16 de Abril - igreja matriz de Almodovar - Bach, Handel e Scarlatti em cravo
30 de Abril - basílica real de Castro Verde - Morton Feldman e Liszt com o coro da arena de Verona
28 de Maio - igreja matriz de S.Cucufate (Vila de Frades,Vidigueira) - Gyogy Kurtag, Bach e Olivier Messiaen em piano, celesta e violoncelos
18 de Junho - igreja matriz de Grandola - Bach, Sofia Gubaidolina em violoncelo e acordeão
9 de Julho - igreja da Misericórdia de Beja - Marcello Panni e Berlioz, com o tenor Mário Alves e a banda sinfónica da GNR

A verdade é que por esse país fora deveria haver mais realizações como esta.
Até as posições oficiais do senhor presidente da comissão europeia e do senhor presidente da republica concordam.
Pelo menos é o que dizem as respetivas mensagens, justificadoras do "alto patrocínio".
Eu detesto esta expressão "alto patrocínio", bem como a seletividade dos mecenatos.
Acabam por ser  manifestações para as senhoras finas das vilas e cidades, dum lado , e do outro, para as pessoas que podem prescindir das preocupações com a subsistencia, que é assim que Eduardo Lourenço define a cultura.
Em tudo isto se vê a ausencia do ministério da cultura.
Não interessa democratizar a cultura, nem a preocupação com o património.
Tampouco aplicar as conclusões do estudo sobre a cultura do gabinete Mateus e Associados, cuja mensagem é identica à do presidente da republica no programa deste festival: "A produção cultural ... conduz... a uma revitalização económica".
Estou de acordo, mas infelizmente vejo muito limitada a ação do festival sobre as populações, embora não tivesse sido o unico, nem o mais velho, a fazer os 300 km necessários para assistir ao concerto.


Mais informações:  
http://www.patrimoniodiocesebeja.com/


Calçada romana reconstituida nas ruinas de Mirobriga, junto de Santiago do Cacem

Igreja matriz de Santiago Maior, junto do castelo


Porta do lado sul


Antes do concerto, com girafa para  a gravação video

Aplausos para o programa e os intérpretes, com três peças de Vivaldi, o Pranto de Maria de Ferrandini, um contemporaneo de Vivaldi, em estreia em Portugal, para soprano, e o original Peregrinação interior: Cinco sonetos quinhentistas de Alexandre Delgado, compositor português atual, 
Espero que a diocese de Beja não altere os seus critérios. Gostei muito de ouvir os sonetos quinhentistas.
De Luis Vaz de Camões:

Bem sei, Amor, que é certo o que receio;
mas tu, porque com isso mais te apuras,
de manhoso mo negas, e mo juras
no teu dourado arco; e eu to creio.

A mão tenho metida no teu seio,
e não vejo meus danos às escuras;
e tu contudo tanto me asseguras,
que me digo que minto, e que m'enleio.

Não somente consinto neste engano,
mas inda to agradeço, e a mim me nego
tudo o que vejo e sinto de meu dano.

Oh poderoso mal a que me entrego!
que no meio do justo desengano,
me possa inda cegar um moço cego!

E como encerramento do concerto e extra-programa, a soprano e o Divino Sospiro ofereceram do Rinaldo de Handel:
Lascia ch'io pianga
mia cruda sorte,
e che sospiri
la libertà.

Deixa que eu chore
a minha sorte cruel,
e que suspire
pela liberdade.











http://youtu.be/kriKyxeNYng

.