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terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Os pinhões

Os pinhões não entram no cabaz de compras típico, e portanto não contam para a inflação.
Não parece ser dos frutos secos mais apreciados em pastelaria.
Mas eu gosto muito.
Na minha terra havia (não sei se ainda) várias empresas de descasque e embalagem.
Há dois anos podiam comprar-se, descascados, por 30 euros o quilo.
Este ano estão a 90 euros, que fi onde se encontraram a curvas da procura e da oferta.
Mesmo nas grandes superfícies importadoras.
Pode ser consequencia da processionária, dos incendios, do avanço da eucaliptização, da desestruturação dos solos agrícolas e silvicolas, do alheamento e da ignorancia dos decisores do respetivo  minstério ou secretaria, não sei.
Mas é pena.
Os pinhões são muito bons.

sábado, 26 de outubro de 2013

Neorrealismo na Europa do século XXI



http://www.youtube.com/watch?v=IK3Iflfyyls

O video do youtube mostra imagens de Ribnovo, aldeia bulgara, perto da fronteira com a Grecia.
A Bulgaria integra a UE e sofre os efeitos da crise.
Muitos dos habitantes estão desempregados e trabalham as terras produzindo tabaco. Toda a familia, incluindo as crianças em idade escolar, tem um trabalho intenso durante 8 meses, obtendo um rendimento anual de cerca de 4.000 euros .
A emigração tambem já não rende, uma vez que a maioria dos emigrantes ia para Espanha para trabalhar na agricultura.
Sabe-se o efeito nefasto que a privação da escola ou o trabalho infantil tem sobre o desenvolvimento das crianças e sobre as condições sociais.
Recolhi estes elementos de uma reportagem sobre o trabalho infantil na Europa, que passou na RTP Informação (por um lado cumpre-se o serviço público, por outro distrai-se a população com telenovelas e reality shows e oculta-se-lhe a realidade do falhanço da politica económica dominante).
Depois das imagens de Ribnovo o programa ocupou-se de Napoles, mostrando um rapaz de 13 anos trabalhando clandestinamente num café e as condições em que vive a familia: pais desempregados, duas irmãs de 4 e 9 anos.
O pai trabalhava numa pizaria que fechou.
A mãe mostra alimentos fornecidos pelo programa europeia de ajuda alimentar.
Passa-se fome na Europa, como na Coreia do Norte, como na Ucrania dos anos 30.
As 3 crianças, mal alimentadas, frequentam a escola.
A diretora informa que 60% das crianças faltam à escola para irem trabalhar clandestinamente.
Sabe-se o que isto dá no futuro: regressão e vandalismo.
A economia de Napoles está a regressar aos tempos do neorrealismo italiano do pós-guera.
Pode-se extrapolar da reportagem que 40% da população europeia vive na pobreza, que o desemprego afeta essa parte da população (não são os doentes e os inválidos que estão desempregados, são adultos válidos e que querem trabalhar) e que as desigualdades aumentam (a economia funciona para a população que tem emprego).
Salvo melhor opinião, tudo isto evidencia o falhanço da politica económica da UE que não está centrada no combate ao desemprego, antes se preocupa mais com a redução dos custos de produção, precisamente reduzindo os encargos com salários.
Não parece ser fisicamente possivel combater o desemprego sem emissão de moeda para pagar aos empregados, controlando a inflação, mas os sacerdotes da religião de Chicago não querem.
Nem os do centro burocrático da UE nem os seus seguidores do governo português, nem obviamente os banqueiros.
Como diz o poema de Vinicius,

                           "... Tende piedade dos homens públicos e em particular dos políticos
                                 Pela sua fala fácil, olhar brilhante e segurança dos gestos de mão
                                Mas tende mais piedade ainda dos seus criados, próximos e parentes
                                Fazei, Senhor, com que deles não saiam políticos também.
...."

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Vitor Bento e a sua solução para o nó cego da economia

Habituei-me a ver a figura sensata de Vitor Bento, economista presidente da SIBS, a analisar com rigor as circunstancias e as causas das coisas que nos atormentam.
As entrevistas que deu e os livros em que sugere caminhos confirmaram essa boa impressão.
Especialmente no livro "O nó cego da economia - como resolver o principal bloqueio do crescimento económico" , o seu diagnóstico deveria ser entendido por todos os portugueses: a principal fraqueza da economia portuguesa é a prioridade do setor não produtivo, nomeadamente o setor financeiro,  relativamente ao setor produtivo de bens transacionáveis, isto é, suscetíveis de ser vendidos ao exterior. (Cito por palavras minhas, mas penso que está correto, e muito perto do que já dizia o meu professor de economia em 1968: o que equilibrava as finanças do país eram as divisas dos emigrantes, ou venda de mão de obra ao estrsangeiro, e dos turistas, ou venda de férias).

"... o nó cego da nossa economia é a transferencia, desde 1990, da rentabilidade do setor transacionável para o setor não transacionável ... que, sendo o setor de menor produtividade,  vai retirando renda e recursos ao setor transacionável, de maior produtividade, mas que vai assim reduzindo a sua produção ... à volta do setor não transacionável desenvolveu-se uma aliança de interesses que resistirá a qualquer mudança (Estado, empresas públicas e grandes empresas) ..."
               - e bancos, acrescento eu, sempre preocupado por ver as mesmas sentenças aplicadas a todos,   
                 independentemente do seu comportamento correto ou incorreto, e por continuar a ver a maior parte da culpa ser
                 atribuida ao setor publico, que não detem a maior fatia da divida, nem a maior fatia do PIB,  nem a maior fatia da
                 população ativa.
"... a solução terá de passar pela alteração da rentabilidade relativa dos dois setores, tornando o setor transacionável mais rentável do que o não transacionável ... o que só será possível, dado os preços do setor transacionável serem impostos pela concorrencia internacional, e não ser possível desvalorizar a moeda, 1 - baixando os preços no setor não transacionável; 2 - aumentando a produtividade no setor transacionável"
                - só que, como Vitor Bento reconhece, os efeitos do aumento da produtividade só se verificam a médio e a longo 
                  prazo, pelo que estamos de acordo, há que baixar os preços no setor não transacionável através do aumento do
                  período de retorno do investimento (parece que nas telecomunicações e talvez na habitação nova não será dificil,
                  mas nos transportes, em que os preços estão tão abaixo dos custos, é complicado e lá vem outra vez o cortejo
                 das privatizações, parciais, claro, para não privatizarem os prejuizos)
"... a crise estrutural da economia portuguesa dura há cerca de uma década mas faz parte de uma crise mais geral que afeta toda a zona euro ..."
"... uma das medidas mais eficazes como sucedâneo da desvalorização da moeda é a diminuição das contribuições para a segurança social compensando a perda de receitas com o aumento do IVA,... mas isso só terá efeitos se os preços no setor não transacionável baixarem efetivamente ..."
                 - parece lógico; se os custos da saúde baixassem, também se poderiam baixar as taxas sociais, mas como baixar os
                   custos da saúde? isto é, não parece haver receitas universais; cada unidade produtiva, transacionável ou não, 
                  deveria ter autonomia para gerir convenientemente os seus problemas desde que, e só desde que, tivesse uma
                  cultura de auto-regulação e compressão dos custos, e desde que centralizadamente não se impusessem soluções
                  de economia parcial e de curto prazo (por exemplo, fecho de unidades com economia nas unidades e desperdicio
                  no transporte para as unidades sobreviventes)
"... economistas já se questionam se não deverá substituir-se o atual teto de 2% para  a inflação por um valor de 4%, de modo a penalizar os credores que descuraram os riscos dos seus investimentos ..."
                - parece contrariar a recomendação de baixar os preços no setor não transacionável, não é?
"... incompreensivelmente, não existem estatisticas oficiais que separem os rendimentos dos ssetores transacionável e não transacionável ..."
               - na verdade, o secretismo na informação com relevancia no interesse publico é uma das fragilidades do nosso
                 país

O provincianismo novo-rico que acompanhou a adesão dePortugal à UE desprezou a produção de bens, dos alimentares aos industriais, quer para venda ao exterior quer para consumo interno evitando a importação.
Também acredito que a crise especulativa financeira internacional haveria de nos prejudicar por mais produtivos que tivessemos sido, de modo que concordo com Vitor Bento para tudo o que seja minimizar os danos, aumentando a produção (ele preferirá dizer  a produtividade).
Porém, desiludiu-me uma recente entrevista, quando a simpática entrevistadora lhe perguntou, sendo as privatizações das empresas de transportes recomendadas (ou impostas) pelas negociações com o FMI/BCE/UE, onde encontrar quem esteja disposto a comprar empresas deficitárias.
A resposta pareceu-me indefinida e indiciadora de que os principais economistas ignoram as condições reais das empresas de transportes e se limitam a seguir a fé cega na religião das privatizações.
As politicas de privatização de Tatcher e da reaganomics conduziram ao esvaziamento dos quadros técnicos das grandes empresas de transporte, obrigando os técnicos a ganhar a sua vida no mercado liberal e a oferecer o seu "know-how" a grandes gabinetes e empresas de engenharia.
Por outro lado, a empresa de transportes original era decomposta no setor operacional e no setor de manutenção, analisando-se caso a caso o que tinha mais interesse para o grupo económico privado, se explorar a operação, se explorar os setores mais lucrativos da manutenção.
Do ponto de vista financeiro, a solução era muito simples: as contas públicas absorviam os custos das infraestruturas enquanto equipamento social (coisa que já devia ter sido feita em Portugal há muitos anos para as empresas públicas, uma vez que para a Fertagus já foi feita, mas que não foi porque a divida das empresas publicas de transportes e das parcerias publico-privadas parece que chega aos 40% do PIB), libertando assim as novas empresas de exploração ou de manutenção das dívidas dos investimentos.
Paradoxalmente, contrastando com as regras da concorrencia da UE, os concessionários estão dispensados dos procedimentos de concursos públicos para o fornecimento de equipamentos e serviços.
No fundo, é um esquema semelhante ao das companhias aéreas "low-cost", que não precisam de se preocupar com os investimentos nas infraestruturas de manutenção e depois vêm dizer que cobram bilhetes mais baratos porque gerem melhor.
Por manifesta inexperiencia dos grupos económicos no setor dos transportes (especificidade da formação dos maquinistas, por exemplo), ocorreu no seguimento das privatizações uma série de acidentes ferroviários em Inglaterra e a falencia de uma das três companhias que faziam a manutenção do metro de Londres, obrigando a uma reestruturação da empresa publica e ao relançamento do programa de modernização do metro.
Sem prejuízo do reconhecimento da capacidade técnica dos grupos como a Transdev, a Veolia e outros para explorar redes de transporte urbanas, registo que as recomendações dos senhores economistas da UE para privatização de empresas de transportes têm como principal objetivo abrir mercados aos grandes grupos económicos privados do setor.
O mais provável será que os contratos que vierem a ser assinados com eles sejam prejudiciais para as finanças publicas, temendo-se que sejam libertados no todo ou em parte (aí cairemos nas famosas parcerias publico-privadas) do ónus dos investimentos em infraestruturas pesadas e de amortização longa (caindo-se assim na velha diretriz: socialização dos custos e privatização dos lucros).
Se escrevo assim, é apenas por indignação, porque esta política, para ser justificada, necessita do pressuposto de que os técnicos das empresas públicas de transportes foram incompetentes.
Na parte que me toca, não posso de facto considerar-me um expoente modelar, mas também não posso classificar-me nem como ignorante nem como incompetente e, especialmente, sou completamente incapaz de achar que os senhores economistas sabem mais de transportes urbanos do que eu.
É que os seus argumentos parecem-me muito fracos, e não vejo contra argumentação ao que eu escrevo.
Foi pena os senhores economistas estarem calados quando alguns técnicos do metropolitano não conseguiram fazer ouvir a sua voz contra os gastos asiáticos nas estações entregues com carta branca aos arquitetos de renome na primeira metade dos anos noventa, quando havia dinheiro provincianamente novo-rico para fazer estações artísticas em vez de quilómetros estruturantes da economia.
Ou, por outras palavras, foi uma pena os senhores economistas, no princípio dos anos noventa, não terem travado o crescimento imprudente do setor não transacionável, por exemplo, estações de metro artisticamente decoradas e com grandes vazios para iluminar, em vez de estimular o crescimento do setor transacionável, através da construção de mais quilómetros de linhas de metro que servissem industrias manufatureiras como a metalomecânica, por exemplo, as quais teria sido muito bom  não as terem deixado fechar para substituir por empreendimentos imibiliários.

Perante este histórico e este panorama, continuo a pensar que as 25 medidas enunciadas e justificadas no livro de Luis Monteiro, os ultimos 200 anos da economia portuguesa e os próximos 30, deveriam ser, salvo melhor opinião, as diretrizes principais a seguir.
Independentemente do que dizem os politicos dentro ou fora de campanhas eleitorais, de partidos, do Parlamento, da presidencia da Republica, do governo, do conselho de Estado, dos supremos...
Ver:
http://fcsseratostenes.blogspot.com/2010/10/economicomio-lxi-as-medidas-contra.html

terça-feira, 14 de julho de 2009

Economicómio XV – o deficit das contas públicas

Leio hoje no DN que o deficit nos USA atingiu cerca de 800 mil milhões de euros. Como sou ignorante em Economia, fiquei sem ter a certeza de que este valor será a diferença entre as despesas e as receitas desde o inicio do ano (a menos das variações dos activos e da moeda, dizem os manuais).
Mas o que interessa para o caso, como não temos bem a noção precisa da grandeza (o deficit em Portugal será este ano cerca de 6 mil milhões de euros e o PIB de 160 mil milhões de euros?), é que os economistas dos USA começam a preocupar-se com as ameaças de inflação (pudera, com aquele esforço de guerra) e de aumento das taxas de juro.
Nós por cá, desde o sr Trichet do BCE, achamos que que o que é bom é taxas de juro baixas e inflação nula.
Eu, que sou ignorante em Economia e não tenho habilitações para fazer afirmações técnicas da especialidade, diria que esse é um comportamento lesivo do nosso bem estar futuro, agravado pelas dificuldades de abastecimento energético.
Mas tudo isso é muito discutível e a altura é para comemorar o projecto Nabuco.