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quinta-feira, 17 de maio de 2012

O principal problema do País

Das notícias: a requalificação do pavilhão "Rosa Mota" perdeu os fundos comunitários.

Há desemprego porque não há obras nem o seu efeito indutor; não há obras porque o QREN não foi devidamente dinamizado, sendo que o primeiro passo é a elaboraçao de projetos bem feitos.
Como os decisores geralmente nunca fizeram projetos ou processos para empreendimentos (pequeno esclarecimento: há projetos que só podem ser feitos por fabricantes mas quem faz os processos de compra tem de perceber alguma coisa da técnica envolvida), desvalorizam a urgencia de os fazer.
Como também não são muito bons em planeamento (exige capacidade de memorização e seriação de prioridades de barras de execução temporal e interdependentes, que normalmente falta a quem tem muito jeito para falar em público), o tempo passa sem que os projetos se desenvolvam e a oportunidade passa.
Os decisores depois comunicam que os fundos se perderam e apresentam explicações exdruxulas como a que pretende justificar a perda dos fundos para o "Rosa Mota".
Deprimente.
E se quiserem ficar mais deprimentes, vejam o estado do "Carlos Lopes", em Lisboa.

Eis o grande problema deste país: falta de planeamento, falta de projetos.
E muita gente que não sabe fazer nem uma coisa nem outra (sem desprimor pelas respetivas atividades, que tudo é preciso neste mundo) a opinar e a decidir...

sábado, 13 de novembro de 2010

Erros de gestão, de projeto e de manutenção, e o desmoronamento da casa dos gladiadores de Pompeia

Caro José Bagarrão



Por falta de espaço nos comentários à mensagem "Carta ao diretor geral da minha empresa", aqui respondo ao seu comentário:
Então estamos mesmo perante um problema de manutenção. E não só, um problema de gestão, ao nível mais alto dos decisores, e um problema de projeto. Tentemos analisar cada um dos tipos.

Problema de manutenção

Risco, ou a combinação da probabilidade de ocorrência de um acidente (para um dado critério de manutenção, se estamos a analisar questões de manutenção) com a gravidade das consequências desse acidente. Definido nível dessa combinação, os decisores aceitam ou não esse nível de risco em função do que custa eliminá-lo (não querem correr o risco) ou atenuá-lo (suportam algum risco).

Vale a pena à administração de um prédio do centro de Lisboa gastar 150.000 euros para substituir uma série de painéis de vidro cuja fixação exige um rigoroso cumprimento do procedimento de montagem e de verificação periódica?

Imaginemos que a fiscalização conseguiu garantir que todas as peças do kit de montagem (ai, desculpe, do conjunto de montagem) foram corretamente montadas; não basta, agora é necessário que periodicamente a equipa de manutenção vá verificar o binário de aperto; e mais, que não exagerem no aperto, porque se exagerarem, sujeito às dilatações das variações de temperatura, o vidro poderá fendilhar.

Durante uns meses largos puderam ver-se numa rua ao Saldanha vedações provisórias que impediam o estacionamento por baixo dos painéis ameaçadores.

Até que a administração do prédio fez as contas, ponderou a probabilidade de convergência de todos os fatores conducentes à queda e combinou com o cálculo das indemnizações e o tempo da sua amortização.

Claramente suportável, gritou triunfante o gestor, e as vedações saíram da rua ao Saldanha.

E na verdade, já foi isto há uns anos, ainda nenhum painel caiu, nem de pedra nem de vidro, “je touche le bois”.

Onde se falhou aqui? Na minha opinião de ignorante, na decisão provinciana de, numa região sísmica e mediterrânica, ter fachadas de revestimento de pedra e de vidro (curioso, é a mesma opinião do arquiteto Ribeiro Teles). Erro de gestão? Erro de projeto? Erro de manutenção?



Problema de gestão

Valeu a pena à companhia de aviação Pulkovo poupar dinheiro na revisão dos reatores do avião às 5.000 horas quando o intervalo recomendado pelo fabricante é de 2500 horas? Deixe-me batizar de coeficiente Pulkovo a relação entre o numero de horas do intervalo recomendado e o numero de horas sem manutenção ao fim das quais o avião cai : 2500/9000 = 0,278 .

Pode ter sido um erro de gestão, que pode ter sido: revejam a 0,5 ;, o que foi um erro porque, de per si, o fator 0,5 não provocava o acidente, isso só aconteceria por sobreposição de outros erros; mas sobrepôs-se um erro de exploração: deixaram passar as 5.000 horas e não avisaram a manutenção; sobrepôs-se um erro (ou omissão) de manutenção e atingiram-se as 9.000 horas fatais. É por isso que o fabricante recomenda 2.500 horas.

Mas podem voar com segurança 5.000 horas. 9.000 horas é que não. E o risco aqui é aparecerem decisores a fixar em 5.000 o intervalo. Inocentemos aqui o projetista.

Demos um salto a Itália, às ruínas de Pompeia. As infraestruturas romanas da época de Vitruvius não podem ser acusadas de erros de projeto. Os pilares das pontes viram proas de barco para montante para que os pilares não se descalcem. As dolomites vulcânicas ainda resistem à chuva nas juntas das pedras.

Mas não resistiram ao sismo que antecedeu a erupção de 79 DC. Menos resistiram ao ataque da aviação norte-americana que as bombardeou em 1943 (bárbaros, só comparável à destruição parcial do museu de Bagdad em 2003 – é o que eu quero dizer quando falo na conjetura do cantoneiro e na falta de cultura que por aí vai). E ainda menos está agora a resistir ao ataque (ou da omissão, ou do pacto com a ganância dos senhores das obras) do ministério da Cultura italiano. Lá como cá. Que encomendou uma reparação defeituosa das paredes da casa dos gladiadores, que se desmoronou no seguimento das ultimas chuvadas. O cimento aplicado pela equipas selecionadas na era das tecnologias avançadas não fez o que as dolomites vulcânicas normalizadas por Vitruvius fizeram em 2000 anos nas pontes romanas e nas termas de Caracala. Deixou que a casa dos gladiadores, não porque morassem lá os gladiadores, mas porque os frescos que de lá foram para o museu representavam gladiadores. Erro de projeto não foi, foi erro de gestão, porque se o operário que aplicou mal o cimento podia não saber como deveria proceder, alguém no circuito deveria saber.



Erro de projeto

Deixa-me preocupado quando fala nos erros de projeto, porque de facto estamos muito sujeitos a eles.

É que é costume, na cerimónia de corta-fitas nas inaugurações, tantas vezes em período eleitoral, serem os projetistas incensados. Nem se fala das falhas dos projetos. Nem se fala do esforço coletivo de quem antes e durante a obra tentou compensar as ditas falhas. Também não me parece haver muito conhecimento da matéria (claro que conhecimento é mais bonito do que “skills” ou “know-how”) por parte de quem incensa e de quem contratou projetistas de renome, que desenvolvem os seus projetos com grande insensibilidade relativamente a quem depois vai fazer a manutenção daquelas infraestruturas.

Quando me falam assim, de erros de projeto, lembro-me sempre do grande arquiteto Calatrava, quando na cerimónia de assinatura do contrato para ampliação da gare do Oriente para receber o TGV, sem concurso publico, confessou os erros do projeto original que não iria agora repetir.

Claro, legalmente pode isentar-se de concurso público quem faz uma ampliação, por razões de direitos de autor; mas quem precisa de ampliar quando se podia fazer uma infraestrutura para o TGV independente, com a vantagem de “fugir” à presença incómoda da estação de metro mesmo por baixo, na vertical da ampliação? – que falta de visão integrada.

Diga-me, por favor, como podíamos ter evitado os erros de Calatrava, com aquela cobertura que deixa o noroeste em dias de chuva descer até aos cais (coitados dos passageiros, recolhidos na sala de espera um piso abaixo, a ter de correr escada rolante acima quando sentem o comboio na Centeeira).

Deixe-me citar-lhe uma troca de palavras numa reunião de obra durante a discussão dos projetos da gare do Oriente e da estação do metropolitano: Santiago Calatrava: Sabe quem eu sou? Yo soy Calatrava, e o interlocutor: e eu sou o diretor de Exploração. Mas vingou o erro de Calatrava.

Como pode, assim limitado pelas linhas de orientação superiormente definidas, um técnico convencer o projetista de que está a laborar em erro, sem ter ao seu dispor os mecanismos descritos na “Sabedoria das multidões “ de James Surowiecky?



Comentário final

Receio que alguém possa interpretar algumas passagens do seu comentário como falta de confiança, sua ou minha, em alguns executantes das tarefas de manutenção das nossas redes de transportes. Devo reiterar a minha confiança nos técnicos de manutenção que no último ano desempenharam as suas tarefas nos nossos operadores de transportes, muitas vezes sem os meios para isso e outras vezes sendo preteridos pelo recurso a contratação exterior, com as pechas burocráticas e os riscos de sujeição a entidades que privilegiam o lucro em detrimento do bem estar da comunidade. Apenas chamei a atenção para que, se os técnicos qualificados ficaram em Houston ou em San Diego, e não embarcaram na Deepwater ou no Carnival Splendor, os técnicos que lá estavam foram vítimas e não responsáveis. Como diz, erros de gestão.



Porém, a conclusão do seu comentário tem a minha admiração e peço licença para utilizar a sua frase, perfeitamente integrável no espírito do “Sabedoria das multidões” de James Surowiecky: “O trabalho em equipa – projectistas, técnicos de manutenção – …é a única forma de poder reduzir a probabilidade de acidentes.”

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Carta a um jovem arquiteto

O jovem e impetuoso arquiteto andava orgulhoso.
Tinha recebido diretamente da alta direção da empresa a incumbência do projeto de uma das novas estações e a coordenação da integração dos projetos que os colegas das especialidades iriam desenvolver.
Mas a estação inseria-se num empreendimento mais abrangente e era preciso conhecer o andamento do projeto da estação para o integrar no planeamento do empreendimento.
Era também importante que os projetistas observassem as normas de contenção que pacientemente tínhamos atualizado.
Por isso se faziam as reuniões gerais de coordenação e de ponto de situação do planeamento, a que o jovem e impetuoso arquiteto não gostava de ir, pois se era muito mais gratificante dizer de viva voz à alta direção sem registo, que tudo ia bem…sem ter de aturar curiosos que nada sabiam do trabalho de um arquiteto ilustre…
E por isso lhe enviei a missiva seguinte.

Caro Arquitecto

Acredite que os seus colegas arquitectos, com quem tenho trabalhado em ligação directa que está prestes a terminar, com alguma pena minha e algum alívio dos arquitectos, me ensinaram muito.
Infelizmente não poderei dizer que aprendi o que me ensinaram, por manifesta incapacidade minha.
Porém, todos os processos neste mundo e neste nossa empresa em mudanças, são inter-activos, multi-direccionais e em ambos os sentidos e por isso espero ter transmitido algo de útil para o trabalho futuro dos arquitectos que agora se vêm libertos de mim.
Ninguém é detentor do verdadeiro método a seguir, nem pode (nem deve) ter a pretensão de chegar sozinho a uma solução melhor do que a resultante do esforço colectivo.
Porém, ou por isso mesmo, alguns de nós buscam métodos ou procedimentos que outros já testaram e passaram a texto de norma ou de padrão.

Estranhará o Arquitecto uma missiva assim iniciada.
Tranquilize-se, porque nas mudanças que se avizinham foi-me retirado qualquer vínculo institucional com a equipa de projecto da sua estação (aliás nunca houve vínculo institucional entre mim e o Arquitecto) e portanto o que lhe escrevo é já apenas como cidadão ou colega de empresa.
Tranquilize-se também porque não venho argumentar com base em concepções minhas sobre trabalho (que não posso garantir que sejam as mais correctas), as quais divergem de facto num ou noutro ponto das conceções do Arquitecto (que não poderá também garantir que sejam as mais correctas), embora pense que as divergências são mínimas, apenas empoladas por conceitos também diferentes sobre a caraterização das nossas especializações profissionais.
Como escrevi acima, tenho esperança de que alguma coisa de útil transmiti aos arquitectos com quem agora deixo de trabalhar, nomeadamente na necessidade de integração em equipa com os outros técnicos e à necessidade de os contactar constantemente, com vista a objectivos bem definidos, com atenção constante aos obstáculos burocráticos institucionalizados e aos passos necessários a dar para os ultrapassar, com uma visão integrada das disciplinas envolvidas, registando a “história” do processo, nunca deixando o assunto “morrer” e combatendo sempre o arrastar dos prazos, muitas vezes trabalhando em hipóteses, mas trabalhando, isto é, nunca ficando à espera do que as burocracias se encarregam de não deixar chegar, e sabendo apresentar as propostas conforme as burocracias precisam para dar resposta.
Digo as burocracias, ou, neste caso sem carga pejorativa, o real interesse da comunidade da população e da nossa empresa na satisfação dos requisitos de segurança, de funcionalidade, de facilidade de manutenção, de economia. Será uma tarefa impossível na nossa casa, mas deveremos comportar-nos, como dizia o Poeta, como se fosse possível.

Porque lhe envio então esta missiva?
Simples.
Porque o ar sincero de surpresa que fez quando na reunião de coordenação e planeamento lhe falei de “rastreio” (da circulação dos documentos ou das versões dos ante-projectos ou projectos, ou do registo das decisões de uma reunião) me levou a considerar que lhe devia uma explicação.
Uma explicação por eu, ao longo da minha, parca em resultados, experiência na nossa empresa e nos contactos com o exterior, no âmbito da especialização profissional, ter tentado introduzir na nossa casa os conceitos expressos nos padrões ou normas da Comissão Eletrotécnica Internacional.
Conceitos esses que, relativos à “rastreabilidade” relativa à vida útil do projecto e obra, vou tentar esclarecer.
Como sabe, as normas desta Comissão são validadas pelo Governo dos países aderentes, não têm força de lei, mas vinculam o Governo a esforçar-se para que sejam respeitadas.
Por outro lado, perdoar-me-á que destaque a palavra “eletrotécnica” quando me refiro à comissão e a normas eletrotécnicas, que não posso impor, mas que considero essenciais, numa empresa como a nossa, resultando que a minha preocupação reflectirá uma deformação profissional.
É o que acontece quando decidem pôr um eletrotécnico a tratar de assuntos gerais de engenharia civil e de arquitectura (felizmente, para quem não aceita os meus argumentos, com termo anunciado).

Diziam os latinos “rastru” quando queriam dizer sinal, ou vestígio, ou indício de pessoa, animal ou objeto.
Donde rastrear significa ir na pista de, ou no encalço, desse indício da passagem do objeto (no nosso caso o tal email ou a versão do projeto com que foi enviado, com os ficheiros dos desenhos em anexo, que a informática é para isso que serve, e que em qualquer fase da evolução do processo permite saber essa mesma evolução, quanto mais não seja para justificar a utilização dos meios em causa, e ponderar as outras tarefas que esses meios têm de executar).
Foi esse termo que os fazedores de normas foram buscar, e criaram logo os neologismos “rastreável” e “rastreabilidade”, para caracterizar a qualidade ou facilidade em se encontrar mais tarde o rasto, i.é, em qualquer fase do processo, deverão ser sempre deixados sinais fáceis de seguir (qualquer explorador respeita religiosamente estes princípios, “et pour cause”, por metáfora podemos considerar o Arquitecto um explorador).
Os ingleses e americanos dizem “trace”, aquilo que lhes permite seguir o desenvolvimento de um projeto, e “traceability”, a qualidade que permite seguir o desenvolvimento do projeto.

Eis por que pode ver no anexo a este email duas normas, a EN 50 128 (Requisitos para o desenvolvimento de software de segurança para aplicações ferroviárias) e a EN 50 126-2 (aplicação RAMS – fiabilidade, disponibilidade, manutenibilidade e segurança), e que estão aí apenas para o caso de ter paciência, se chegou até aqui, de verificar as palavras no contexto.
É interessante (bom, eu acho interessante, como resultado da investigação e da experiência humanas) ver como se sistematizou a evolução de um projecto, empreendimento ou sistema no esquema em “V”, com as suas fases sucessivas de projecto, testes, execução, ensaios, vida útil.
No caso da 50 128, aparecem nos pontos 3.25 (pág.12), 3.42 (pág.14) e 7.2.6 (pág.19).
No caso da 50 126-2, ver a tabela 4 (págs 44 e 45) e o ponto 6.5.12 (pág.51).

E pronto, eis o que eu lhe queria dizer quando falei em “rastreio”, em plena discussão, ou troca de impressões, sobre o conceito de evolução de um projecto.

Espero que não considere nada do que escrevi como menos respeitador, embora possa ser um exemplo fundamentador do alívio dos ainda meus colaboradores directos (e dilectos também).
Perdoar-me-á, por me parecer, talvez imodestamente, que este texto tem algum valor didáctico, que o distribua por eles.

As melhores saudações.


Informação sobre as normas 50128 e 50126-2:

http://cid-95ca2795d8cd20fd.office.live.com/browse.aspx/Nomas%2050128%20e%2050126-2