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sábado, 16 de novembro de 2013

La fille du regiment

Penso que é precipitada a ideia de que La fille du regiment é uma ópera ligeira e sem pretensões.
A ópera pode ser subversiva como a canção de intervenção e de protesto.
O primeiro ministro da Hungria foi vaiado quando se dirigia ao teatro de ópera.
Talvez por isso, e pela sua grande insensibilidade ao que seja arte, não se veem nem o senhor presidente da República nem o senhor primeiro ministro no camarote principal do São Carlos.
E não será por vergonha por estarmos tão longe do 1% do PIB no orçamento da cultura.
Não sentem mesmo a ópera.
Toleram quem trabalha nesta área.
Aplausos para o teatro de São Carlos eu conseguiu apresentar duas óperas neste final de ano.
E permita-se-me a interpretação da Fille du regiment: uma sociedade anquilosada sob a estrutura do domínio feudal e sem instituições participativas (a nobreza austríaca na ocupação do Tirol) é contrariada pelos ideais da revolução francesa (libertando a filha da marquesa para que possa casar com o jovem lavrador tirolês dos seus afetos – que ironia do destino ser um ditador como Napoleão a espalhar ideiass de fraternidade, igualdade e liberdade). Não admira que o encenador tenha apresentado a heroína como se fosse a estátua da Liberdade.
Liberdade que, nos termos dos ideais da revolução francesa, não parece estar de saúde no país dirigido pelas estruturas anquilosadas do senhor primeiro ministro e do senhor presidente da Republica.
Aplausos especialmente para os intérpretes, de que se destaca o soprano Cristiana Olveira, sem desemerecer no bom nível dos restantes.

sábado, 25 de maio de 2013

O pensamento silencioso da grande diretora

La grande diretrice do grand fond reflechissait en silence:
-"Mais, qu'es ce que? Pense t'ils qu'on est à nouveau à la Revolution Française?
De m'accuser de mal menager les fonds publics... en benefice d'un privé.
S'ils poursuivaient la classe moyenne, a la bonne manière maoïste maintenant installé, mais moi ...
Ignorant, les pauvres, les glorieux enseignements de l'École de Chicago, que l'initiative privée de succès doive être récompensé par de l'argent public, que le transfert vertueux des revenus se fait toujours dans le sens du travail pour le capital, que les banques sont toujours protégés pour les retraites des gens, et que les technologies innovantes permettent aux gens de s'amuser avec l'iPad et les performances de Justin Biber et se nourrir de filets de pangasius bon marché, au lieu de marcher pour faire des révolutions ... mais c'est quoi çá, maintenant?
... Ah, on dirait qu'ils disent quelque chose.
... Ah, enfin ils enlève la charge.
Eh bien, je respire.
Les pauvres, ils sont encore plus cons. "


A grande diretora do grande fundo refletia em silencio:
- "Mas o que é isto? Pensam que estão outra vez na revolução francesa?
Acusarem-me de gerir mal dinheiros públicos... favorecendo entidades privadas.
Ainda se perseguissem a classe média, à boa maneira maoista agora instalada, mas a mim...
Ignoram, os pobres, os ensinamentos da gloriosa escola de Chicago, que a iniciativa privada de sucesso deve ser premiada com os dinheiros públicos, que a transferencia virtuosa dos rendimentos se faz sempre no sentido do trabalho para o capital, que os bancos estão sempre protegidos pelas pensões, e que as tecnologias inovadoras permitem que a população se divirta com os iPads e com os espetáculos do Justin Biber, e se alimente de filetes baratos de Pangasius, em vez de andar a fazer revoluções... mas o que é isto?
... Ah, parece que estão a dizer qualquer coisa.
... Ah, afinal retiram a acusação.
Bem, respiro.
Coitados, são mesmo cons."

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Alberto Pimenta e a revolução francesa


A história da Revolução Francesa contada em Poesia, por Alberto Pimenta:




o rei Henrique IV
de França
mandou eliminar
para todo o sempre
o registo
das sangrentas lutas religiosas
entre católicos e protestantes

quase duzentos anos depois
em 1789
havia em Paris
para cima de 7.000
fabricantes de perucas
para a cabeça do alto clero e
da aristocracia
da e do capital

40 anos antes
sem tufados nem perucas
o Estado tinha pedido
um empréstimo de
240 milhões de libras
que no ano em causa
eram já 810 milhões

nos 12 anos de miséria geral
que tinham antecedido
o dito ano
a coroa tinha pago
a essas princesas e a esses príncipes
empoados e emproados
para cima de 200 milhões de libras

o empréstimo
gastava-se aí
e claro na defesa
porque
dum orçamento de defesa
de 270 milhões
metade
mal chegava para as pensões
de um milhar de generais
e oficiais da aristocracia

os lavradores
mecânicos e artesãos
pagavam de imposto
mais de meio salário
e não havia fuga
e acrescia um terço do restante
que era em partes iguais
para a Igreja e
para o dono da terra

viviam em pardieiros
que fazianm jus ao nome
pardos fora e pardos dentro
porque o luxo da janela
pagava imposto
e além doutros
havia ainda mais um assalto
o imposto sobre o sal
por cada quilo de sal
o trabalhador
pagava o equivalente
ao seu salário médio diário
e o consumo era obrigatório
no mínimo uns 4 quilos anuais

era um iva
parcial antecipado
sobre a vida
é a estratégia da mente parasita
eterna mente
sempre o mesmo
sempre os mesmos

e eram 200.000
os cobradores de impostos
que corriam o país
a recolher e multar
e um dos principais
era o temido Foulon

no mesmo ano de 1789
o abade Sieyès
escreveu “é o povo
que constrói as estradas
as pontes os canais os tribunais
as creches os manicómios
as escolas de esgrima e
de equitação”

pois constrói é claro
com as mãos
e com os impostos que paga
e vive
nas proximidades
dos castelos
e das abadias
que construiu
e que hoje
turistas de shorts
rotos na elegância do cu
e óculos ray-ban
postos para cima da testa estreita
mascando pastilhas
contemplam como bois
enquanto ouvem aos guias declarar

que maravilha
era a vida naquela época
comparada com a nossa

os camponeses
e os pedreiros de ofício
não os intitulados livres
os parasitas bem falantes
da época e de sempre
pensaram

nós até aqui sobrevivemos
daqui em diante vamos viver
e assim foi
ou pelo menos
assim começou por ser

Foulon o cobrador
anunciou a sua  morte
e o seu funeral
travestiu-se
encheu as malas de dinheiro
preparava-se
para fugir
decerto para a Suíça
mas foi apanhado

enforcaram-no
teve de ser à terceira
porque ele era tão gordo
que a corda rebentou
duas vezes

cortaram-lhe a cabeça
encheram-lhe a boca
de palha

e seguiu-se Berthier
o genro
tudo família como sempre

esse depois de morto
foi posto
a enfeitar
um lampião
um belo ciclope

“admirável
este lampião
faz mais em dois dias
que todos os heróis
em cem anos”
disse Camille Desmoulins
percebe-se agora
por que estão a ser retirados
de praças e ruas
de toda a Europa
os antigos lampiões
que eram bonitos
davam aquela luz suave
do vapor de sódio

estão a ser substituídos
por leds rios de luz cega
que vêm do alto das paredes
olhos de pedra
como a Boca da Verdade de Veneza

quer dizer
a gota de água
deve estar quase outra vez
a transbordar
os saqueadores do costume
tal como Maria Antonieta
estão a cheirá-la
bola de Berlim
brioche churro
pastel de nata
um docinho qualquer
a substituir
o pão
porque alem do mais
as colheitas de trigo
dos próximos dois anos
já estão compradas
e açambarcadas

há uma gravura que mostra
o grande Luís XVI reclinado
numa poltrona
a observar o modelo em  miniatura
da guilhotina
a primeira sentença
calhou
no dia 25 de Abril de 1792

vai fazer
não tarda muito para lá chegar
222 anos
número fatídico

mas a história
é uma série de interrogações
não de respostas

                                em
                               “ De nada”, de Alberto Pimenta, áudio livro da editora Boca;
                               visto em
                              “Resumo – a poesia de 2012”, antologia de poesia    
                                                       publicada em 2012, ed. Documenta



Se o leitor teve a persistência de chegar até aqui, com elevado grau de probabilidade concordará comigo que é extraordinário escrever-se poesia assim, interventiva e real, incomodativa para o poder que se sente deste modo retratado, porque o poder não é estúpido e compreende que os impostos que lançou são exagerados e fazem encolher a economia, que os empréstimos do Estado estão ao serviço dos grandes grupos , que a compra por futuros das colheitas de trigo dos próximos anos é uma ameaça de fome, etc, etc..
Levantar-se-ão talvez vozes, receosas de que se esteja propagandeando a função executiva dos candeeiros (é que até já há iluminação led de cores suaves, tão quente como a do vapor de sódio; que perigo para quem sente ameaças). Mas talvez não. O poder é suficientemente inteligente para limitar a miséria em bolsas, enquanto faz os possíveis por que a outra parte da população, que ainda tem emprego, se distraia, ou se comova em caridades para com a outra parte. Talvez que a gota de água não esteja prestes a transbordar, que a tecnologia é fecunda em recursos, que os poucos que têm emprego mantém a parca economia a funcionar.
Mas que a poesia é preclara, é; isto assim não pode continuar.