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terça-feira, 20 de maio de 2014

Bruxelas desconfia...

http://abola.pt/mundos/ver.aspx?id=478800

Bruxelas acusa três bancos de manipulação das taxas Euribor.
É natural, forçando as taxas de juro, os bancos podem obter condições de lucro nos seus contratos derivados, como os famosos swap, agredindo quem os contratou.
Na verdade, se as forças do mercado ou que dominam o mercado são deixadas sem regulação, é natural que isto suceda, beneficiando  mais uma vez, em condições de desigualdade, uma pequena faixa de cidadãos.
Só que o conceito de regulação é dificil de definir e de acordar entre os representantes dos cidadãos  e entre os cidadãos.
Resultará da acusação aos três bancos uma multa simbólica.
A essencia, salvo melhor opinião, a estrutura de propriedade dos  meios financeiros, continuará a não ser tratada.
Apenas mais um exemplo, a um nivel mais modesto, da agressão que os bancos, na melhor tradição do usurário do mercador de Veneza de Shakespeare, continuam a fazer aos cidadãos, de um empréstimo de 12.000 euros a 72 meses: para comprar um Mercedes, o banco pede uma taxa de juro de 10,2%; mas para fazer obras de conservação numa casa para aluguer a turistas, ou para fazer férias no Caribe, a taxa de juro será de 14,9%.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Fome em Portugal


Um amigo enviou-me este texto do blogue Aventar.
Trata da fome em Portugal.
Numa altura em que é divulgado o enriquecimento dos mais ricos e o aumento da distancia entre os mais ricos e os pobres, parece evidente que o sistema económico e financeiro dominante na UE não serve, porque afinal há geração de riqueza, com apropriação concentrada em menos, e há investimento financeiro sem produção de bens transacionáveis.
Não cumpre dois critérios básicos da Declaração Universal dos Direitos Humanos: direito ao trabalho e direito a condições dignas de vida.
Não vale apena entretermo-nosem discussões frívolas do tipo da discussão com Isabel Jonet, tudo indica ser uma questão estrutural do sistema.
Devia mudar, é inútil os senhores da troika, os seus seguidores que deteem o poder em Portugal, os financeiros, os comentadores apoiantes do governo, virem dizer que por via indireta ospobres saem beneficiados quando a economia melhorar.
Ficam os senhores do BCE muito contentes com a baixa da taxa de juro.
De facto dá jeito a quem tem de pagar a prestação da casa, mas acreditam em fadas? acreditam que os "investidores" (que preferem "investir" em virtualidades financeiras e não na produção de bens transacionáveis) vão investir, nomeadamente no que reduziria os seus beneficios derivados da cumplicidade e promiscuidade com ospoderes politicos? Quem vai investir numa fábrica cujos produtos vão render menos do que a taxa de juro que têm de pagar aos bancos, para eles poderem ter uma "margem financeira"?
As equações do PIB e do saldo orçamental são claras:

            PIB = consumo privado + investimento privado + despesas públicas +
                       exportações – importações

saldo orçamental = investimento privado ou comunitário - poupanças  
                                 privadas + exportações – importações

- Não basta aumentar as exportações (sabendo-se que 50% das exportações são de combustíveis refinados após importação dos combustíveis brutos),
- as importações têm de ser contidas, não por diminuição abusiva do poder de compra mas por aplicação de taxas de carbono (justifica-se uma politica de contenção da procura interna, não se justifica uma politica de empobrecimento)
- não devem conter-se cegamente as despesas publicas, devendo aplicar-se fundos comunita´rios no desenvolvimento das infraestruturas que dão suporte à economia com mais eficiencia energética
- não devem deixar-se acumular as poupanças sem serem aplicadas no investimento na produção de bens transacionáveis, embora se saiba que isso vai prejudicar o negócio dos importadores
- Se o PIB crescer, ou se simplesmente for melhor contabilizado incorporando economia paralela (sem perseguições), o mesmo valor do défice em percentagem corresponderá a um valor absoluto superior, permitindo maior despesa pública, por exemplo. 
- é essencial aumentar o investimento (se  o privado o não fizer, esse aumento só poderá vir através dos fundos comunitários que para isso prevêem 20 mil milhões de euros de 2014 a 2020, temendo-se que se queira utilizar esse dinheiro como banco de empréstimos a pequenas empresas, quando para isso há os bancos resgatados com dinheiro do BCE)

Que não venha o governo dizer que não há alternativas aos cortes.
Deixem-se de recusas sistemáticas de considerar as sugestões que a sociedade civil lhes faz.
Deixem-se de desmerecer da utilidade da proposta, por exemplo, de protelar o pagamento das rendas das PPP
Aceitem o parecer dos técnicos que calcularam que as obras realizadas pelos concessionários das PPP e financiadas pelos bancos poderiam ter sido realizadas por metade do preço de custo se geridas pelas empresas públicas dos respetivos domínios (esta a base para renegociar o volume de pagamentos)
Considerem a taxa Tobin, há mais de 5 anos proposta na Assembleia da Republica e recusada pelos 3 partidos do “arco da governação”
E para que não digam que não há dinheiro, considerem a proposta já com 2 anos do reitor da universidade de Coimbra, uma taxa por cada transação no multibanco sem repercussão no cliente (até as cadeias de supermercados inventam campanhas de arredondamento).
Mas não digam que não há alternativa nem dinheiro.
Há sim incapacidade de organização da comunidade em formação de combate à crise.
Ou então aceitem a sugestão do FMI, tímida, muito tímida por enquanto, de taxar os depósitos e as aplicações financeiras de mais de 100.000 euros.
Não se escandalizem, nem rasguem as vestes gritando que os investidores vão sair do país.
Talvez não fosse mau, deixando espaço para outros investimentos, que os há, sempre.

As fórmulas do PIB e do saldo orçamental foram retiradas de "Economia para todos" de David Moss, ed. Academia do livro, de onde retirei tambem a seguinte citação:
"... alguns estudiosos de Macroeconomia ... preferem acreditar que as relações económicas definidas nos seus manuais são regras invioláveis. Este tipo de arrogancia, ou estreiteza de pensamento, torna-se um verdadeiro perigo para a sociedade quando afeta os responsáveis politicos pela macroeconomia. O responsável pela politica que acredita que sabe exatamente como a economia irá responder a um estímuloo específico é, na verdade, um responsável politico muito perigoso".
Impressionante, como um distante professor de Harvard diagnosticou o pobre Portugal destes anos de fome, onde se ouve no Parlamento um membro do governo dizer que este sabe muito bem para onde vai.

terça-feira, 7 de maio de 2013

O triunfo do regresso aos mercados

Contentinhos que ficaram, um exito.
De longe um sucesso superior ao fracasso da diminuição do PIB e do crescimento do desemprego.
Que bom para quem vive em gabinetes poder ostentar um triunfo assim, um empréstimo a 5,6% a 10 anos, tomado por credores de confiança que já conhecemos.
Já não é preciso propor alterações aos tratados da Europa.
Não pensam agora em defender a união bancária, a mutualização da dívida e a harmonização fiscal.
Um exito, os credores já não se enervam connosco.
E contudo, tão escandalizados que ficaram por causa dos "swaps" indexados toxicamente à baixa das taxas de juro.
Que foi o que aconteceu, as taxas de juro baixaram, a taxa de cedencia do BCE já está em 0,5%.
Grande exito, portanto, uma taxa de 5,6%.
Foi preciso Silva Lopes explicar que, apesar do valor de 5,6% ser melhor do que o esperado, uma dívida de 5,6% não é sustentável, porque só é possível o desendividamento se a taxa de crescimento do PIB for superior à taxa de juro da dívida.
Esta é uma condição sine qua non.
Tenham pudor, não cantem vitória enquanto a taxa de juro da dívida for superior à taxa do PIB.
Que triunfo este, nem sequer é uma vitória de Pirro, mas vamos ter de ouvi-los a gabarem-se e a sorrirem na televisão, a dizer que o caminho que traçaram está certo.
É isto o funcionamento regular das instituições?

PS em 8 de maio - Segundo o DN, os senhores governantes não consideraram o leilão da divida um sucesso, mas sim "um grande sucesso". Mais acrescentou o senhor ministro das finanças que o ajustamento orçamental em Portugal era "muito mais bonito". Devia ter sido o subconsciente cego pelo exito do leilão. Eu diria que é um verso de um poema surrealista, para não invocar outra vez a frase de Marx, que ao princípio o erro é uma tragédia e depois uma sucessão de farsas, trágicas, mas farsas. O atual plano de pagamento de dívida termina em 2041, e como a taxa de variação do PIB continua inferior à taxa de juro, lá vamos nós vivendo em divida permanentemente crescente. Mas claro que é tudo culpa do governo anterior, como até o senhor ministro Maduro, apesar das suas credenciais intelectuais, já veio dizer, culpa da bancarrota do governo anterior (anteriores? até ao fim dos anos 80, com a desindustrialização, desarmamento pesqueiro e desertificação agrícola dos governos de Cavaco Silva?). 
E outra correção: afinal o juro conseguido não foi de 5,6%, foi de 5,669%. É um erro de comunicação no montante de 1,2% . É pequeno, o erro, mas é mais uma amostra da imprecisão dos senhores governantes. E nem é assim tão pequeno, é 240% da taxa de cedencia do BCE, de 0,5% .

quarta-feira, 24 de abril de 2013

A fusão fria, a correlação divida publica-crescimento económico e o plano de crescimento

Há uns anos, um par de cientistas pândegos fez uma conferencia para demonstrar a sua descoberta da "fusão fria".
Claro que era uma fraude, uma violação dos princípios do método científico de verificação rigorosa por terceiros da metodologia e dos resultados de uma investigação.
Este episódio contrastou com a demonstração do teorema de Fermat, concluida depois do seu demonstrador ter corrigido uma deficiencia apontada pelos matemáticos.
Pelos vistos o método científico tambem falhou na teoria da correlação entre níveis elevados de dívida pública e baixas taxas de crescimento.
A apresentação dos resultados pela dupla R-R foi feita em 2010 ("Growth in time of debt") e serviu para fundamentar as politicas de austeridade, na medida em que associava as baixas taxas de crescimento de muitos países ao seu elevado grau de endividamento publico.
Os resultados da sua observação estatística davam para uma correspondencia entre dividas publicas superiores a 90% e recessão de média de 0,1% do PIB (crescimento de -0,1%).
Poderia portanto concluir-se que paises com elevada divida publica deveriam suspender o seu crescimento para não aumentar ainda mais a divida.
Ou dizer-se que baixando a dívida através de cores e sacrifício de vendas de património a recessão induzida não seria grave.
Só que os cálculos foram refeitos e concluiu-se que a uma dívida publica superior a 90%  corresponde para os respetivos países uma taxa de crescimento de 2,2% do PIB.
Ou que o multiplicador da austeridade afinal tem um efeito superior "ao esperado", para repetir o que o senhor ministro das finanças português diz muitas vezes, e como há poucos meses a senhora diretora do FMI envergonhadamente reconheceu.
Ficou assim provado que a surpresa da recessão (ou da espiral recessiva, como o referido senhor ministro e os seus secretários de Estado não gostam de ouvir) só era surpresa para quem se tinha enganado nas contas do Excel.
De facto, descobriu-se que os senhores R-R, ao fazerem a soma de uma coluna de dados no Excel, deixaram de fora algumas células, o que naturalmente alterou a correlação.
Depois, verificou-se que os "investigadores" dispunham de dados ao longo de 110 anos de observações, mas que só utilizaram dados de 96 anos (que nome tão feio que isto pode ter).
E finalmente, a ponderação dos dados forçou a conclusão (idem).

A conclusão é simples, e que é a de que andam uns senhores economistas académicos a recolher dados e a trabalhá-los no sentido que lhes convem  e a quem lhes paga, e não com o objetivo científico de estudar soluções concretas para os problemas das comunidades.
Claro que é esta a impressão que nos dão tambem os nossos académicos quando vociferam contra a despesa pública.
Mais valia que se preocupassem tambem com a despesa privada, sem prejuizo, naturalmente, de trabalharmos todos para a melhoria da eficiencia dos sistemas públicos, nomeadamente com a taxa de rentabilidade dos investimentos.
Afinal, no país do "que parte da frase não há dinheiro não percebe?" apareceram 3.500 milhões de euros para a CGD emprestar às pequenas e médias empresas.

Pena, tudo isto, a falta de espírito científico dos académicos do FMI e seus representantes no governo português, e pena a incapacidade da sociedade portuguesa se organizar para pôr de pé um plano consistente de crescimento.
Que o apresentado pelo senhor ministro Álvaro Pereira é uma boa relação de boas intenções (muitas delas repetidas por quem discorda do atual governo desde que ele tomou posse), que faz lembrar a anedota do salão de beleza (a senhora explicou ao marido que tinha chegado tarde porque tinha ido ao salão de beleza, e o marido questionou, então porque não ficaste mais bonita?). A referencia à desburocratização depois do Siplex ter sido torpedeado tambem faz parte do estilo farsa. Com tanto dinheiro para investir, porque é que não se investe bem? Um método de abordagem para bem investir poderia ser, talvez, analisar por que, por esse país fora existem tantos parques industriais ao abandono? (resposta: falta de um plano estratégico integrado e participado a todos os níveis; esperança vã de que as empresas, por si só, dinamizem a economia).
Não esquecer ainda uma condição básica: é que não basta ter uma taxa de crescimento do PIB (o plano fala em 2% até 2020) . É essencial que essa taxa seja superior à taxa de juro (sabe-se que os nossos benfeitores nos emprestam entre 3 e 4%, sem o que o endividamente subirá como o balão que sobia que sobia. Ou, como diria Fernão Lopes, a taxa de juro tem de ser inferior à taxa de crescimento, senão, não.

Sintetizando, mantem-se válida a observação do prof.Carvalho Rodrigues: é indispensável que a ciência faça parte da equação (o que infelizmente não se tem verificado até aqui).

Referencias:
- Análise de Luis Reis Ribeiro sobre o estudo de R-R em
              www.dinheirovivo.pt

- plano de crescimento até 2020 em




quinta-feira, 18 de abril de 2013

A parte dos juros

Com a devida vénia ao DN e ao cartonista José Bandeira


José Bandeira consegue explicar as coisas em menos do que um minuto.
Não é possível reduzir a dívida pública se a taxa de crescimento do PIB  for inferior à taxa de juro dos empréstimos.
Situação agravada quando a dívida é superior a 120%.
Todos os senhores ministros das finanças sabem isso, incluindo o senhor ministro finlandes.
O problema das taxas é um problema típico da matemática e da física, é o problema da velocidade com que uma grandeza varia em relação a outra. 
A análise da relação entre o crescimento do PIB e o crescimento acumulado dos pagamentos ao credor (taxa de juro) é semelhante à avaliação que o condutor da carrinha que vem atrás de mim faz quando eu consigo deixar um espaço maior; ao ver esse espaço maior o condutor acelera e depois trava a fundo para não bater no  meu carro.
Como qualquer problema complexo presta-se à demagogia dos governantes e dos académicos ao serviço dos governantes e dos grupos financeiros.
Uns dizem que o problema da dívida se resolve com cortes na despesa pública, outros que em vez de construir centrais hidro elétricas se deve reduzir o consumo, ignorando a necessidade essencial da taxa de crescimento para corrigir as assimetrias de condição da população. 
Outros só reparam nas variações homólogas (mês dum ano para o mês do outro, por exemplo) das grandezas de impacto económico, esquecendo a importancia dos valores absolutos (o numero de funcionários publicos não é elevado, o que é elevada é a percentagem da despesa relativamente ao PIB; se o PIB crescesse o indicador seria razoável).
Complicado, discutir estas coisas sem os conceitos de taxa, quociente, derivada, estarem bem assimilados por quem discute.