quarta-feira, 24 de abril de 2013

A fusão fria, a correlação divida publica-crescimento económico e o plano de crescimento

Há uns anos, um par de cientistas pândegos fez uma conferencia para demonstrar a sua descoberta da "fusão fria".
Claro que era uma fraude, uma violação dos princípios do método científico de verificação rigorosa por terceiros da metodologia e dos resultados de uma investigação.
Este episódio contrastou com a demonstração do teorema de Fermat, concluida depois do seu demonstrador ter corrigido uma deficiencia apontada pelos matemáticos.
Pelos vistos o método científico tambem falhou na teoria da correlação entre níveis elevados de dívida pública e baixas taxas de crescimento.
A apresentação dos resultados pela dupla R-R foi feita em 2010 ("Growth in time of debt") e serviu para fundamentar as politicas de austeridade, na medida em que associava as baixas taxas de crescimento de muitos países ao seu elevado grau de endividamento publico.
Os resultados da sua observação estatística davam para uma correspondencia entre dividas publicas superiores a 90% e recessão de média de 0,1% do PIB (crescimento de -0,1%).
Poderia portanto concluir-se que paises com elevada divida publica deveriam suspender o seu crescimento para não aumentar ainda mais a divida.
Ou dizer-se que baixando a dívida através de cores e sacrifício de vendas de património a recessão induzida não seria grave.
Só que os cálculos foram refeitos e concluiu-se que a uma dívida publica superior a 90%  corresponde para os respetivos países uma taxa de crescimento de 2,2% do PIB.
Ou que o multiplicador da austeridade afinal tem um efeito superior "ao esperado", para repetir o que o senhor ministro das finanças português diz muitas vezes, e como há poucos meses a senhora diretora do FMI envergonhadamente reconheceu.
Ficou assim provado que a surpresa da recessão (ou da espiral recessiva, como o referido senhor ministro e os seus secretários de Estado não gostam de ouvir) só era surpresa para quem se tinha enganado nas contas do Excel.
De facto, descobriu-se que os senhores R-R, ao fazerem a soma de uma coluna de dados no Excel, deixaram de fora algumas células, o que naturalmente alterou a correlação.
Depois, verificou-se que os "investigadores" dispunham de dados ao longo de 110 anos de observações, mas que só utilizaram dados de 96 anos (que nome tão feio que isto pode ter).
E finalmente, a ponderação dos dados forçou a conclusão (idem).

A conclusão é simples, e que é a de que andam uns senhores economistas académicos a recolher dados e a trabalhá-los no sentido que lhes convem  e a quem lhes paga, e não com o objetivo científico de estudar soluções concretas para os problemas das comunidades.
Claro que é esta a impressão que nos dão tambem os nossos académicos quando vociferam contra a despesa pública.
Mais valia que se preocupassem tambem com a despesa privada, sem prejuizo, naturalmente, de trabalharmos todos para a melhoria da eficiencia dos sistemas públicos, nomeadamente com a taxa de rentabilidade dos investimentos.
Afinal, no país do "que parte da frase não há dinheiro não percebe?" apareceram 3.500 milhões de euros para a CGD emprestar às pequenas e médias empresas.

Pena, tudo isto, a falta de espírito científico dos académicos do FMI e seus representantes no governo português, e pena a incapacidade da sociedade portuguesa se organizar para pôr de pé um plano consistente de crescimento.
Que o apresentado pelo senhor ministro Álvaro Pereira é uma boa relação de boas intenções (muitas delas repetidas por quem discorda do atual governo desde que ele tomou posse), que faz lembrar a anedota do salão de beleza (a senhora explicou ao marido que tinha chegado tarde porque tinha ido ao salão de beleza, e o marido questionou, então porque não ficaste mais bonita?). A referencia à desburocratização depois do Siplex ter sido torpedeado tambem faz parte do estilo farsa. Com tanto dinheiro para investir, porque é que não se investe bem? Um método de abordagem para bem investir poderia ser, talvez, analisar por que, por esse país fora existem tantos parques industriais ao abandono? (resposta: falta de um plano estratégico integrado e participado a todos os níveis; esperança vã de que as empresas, por si só, dinamizem a economia).
Não esquecer ainda uma condição básica: é que não basta ter uma taxa de crescimento do PIB (o plano fala em 2% até 2020) . É essencial que essa taxa seja superior à taxa de juro (sabe-se que os nossos benfeitores nos emprestam entre 3 e 4%, sem o que o endividamente subirá como o balão que sobia que sobia. Ou, como diria Fernão Lopes, a taxa de juro tem de ser inferior à taxa de crescimento, senão, não.

Sintetizando, mantem-se válida a observação do prof.Carvalho Rodrigues: é indispensável que a ciência faça parte da equação (o que infelizmente não se tem verificado até aqui).

Referencias:
- Análise de Luis Reis Ribeiro sobre o estudo de R-R em
              www.dinheirovivo.pt

- plano de crescimento até 2020 em




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