A insegurança limita-nos, condiciona-nos.
Freud explicou isso muito bem.
A insegurança torna-nos desconfiados e leva-nos a criar certezas que só existem dentro de nós.
A insegurança reforça as nossas convicções, independentemente de elas terem fundamento.
A insegurança reforça as forças policiais.
A insegurança é um dos males maiores do nosso país.
Faz-nos crer que somos bons, através da nossa autoestima, leva-nos a contentarmo-nos com o nosso umbigo, mas leva-nos a rejeitar um jovem válido, com medo de que nos roube o lugar, ou a rejeitar um bom negócio, com medo de que nos queiram vigarizar.
A insegurança leva a que dois partidos não se entendam para uma ação comum numas eleições, com medo que um esvazie o outro.
A insegurança é um caso de psiquiatria.
Quando um político diz que o país é ingovernável porque o sistema é proporcional, que é um sistema que dá voz às minorias, esse político devia reconhecer que está a precisar de uma análise psiquiátrica por insegurança.
Quando uma central sindical ou um partido que defende o Estado social dizem que há coisas que tornam impossível um entendimento com outra sindical sindical ou outro partido que defende o Estado social, é a insegurança que não os deixa ver a solução.
Quando um político pede uma maioria absoluta, devia reconhecer que está a evidenciar a fraqueza psicológica da insegurança.
Se houve coisa que o século XX ensinou em prática política, é que a diversidade é essencial. Não o governo de partido único, mesmo com maioria, nem de coligação, apenas do que agora chamam arco de governação.
É preciso mais do que isso, como provou a experiencia islandesa, com cidadãos a participar na revisão da Constituição.
A insegurança não nos deixa que todos trabalhemos na gestão da coisa pública.
A insegurança e outros males do nosso país.
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sexta-feira, 2 de maio de 2014
A insegurança
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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014
O marquês de Pombal e o senhor professor Vitor Gaspar
Contam as más-línguas, como se costuma
dizer, que o processo de nomeação por D.José do marquês de Pombal para secretário
de Estado se deveu ao conselho da mãe do rei, viúva de D.João V e filha de um imperador austríaco. Perguntando à sua aia, Dona Leonor Ernestina de Daun, da
alta nobreza da imperial Viena, mulher do marquês de Pombal, quem deveria
recomendar ao filho, a senhora com a maior das franquezas respondeu que devia
ser o marido.
Lembrei-me
do episódio ao ver a noticia do livro de Maria João Avillez sobre o ex-ministro
Vítor Gaspar, escrito sob a forma de entrevista.
O
senhor ex-ministro conta que, no período em que Catroga negociava
o memorando com o governo de Sócrates, antes das eleições que este perdeu,
tomou a iniciativa de falar com Catroga para lhe explicar “como funcionavam as
negociações financeiras internacionais e como se podia consolidar a
credibilidade junto dos mercados de obrigações”. Depois das eleições, o convite
para ministro das finanças veio através de António Borges, tendo aceite depois
de falar com a esposa.
São
assim os mecanismos de escolha em Portugal. Na câmara da mãe de um decisor
ignorante como um rei, ou no círculo de oriundos de juventudes partidárias em
torno do gestor não menos ignorante de empresas de formação, embevecido com os
seus professores da escola de Chicago.
Maria
João Avillez terá tido neste livro o mérito dos psiquiatras, de, perante um
caso difícil de narcisismo e de subordinação da perceção da realidade a crenças
ou manias (anteriormente, neste blogue, foi
apresentada a argumentação para o diagnóstico de hipomania para o senhor
ex-ministro das finanças) ter conquistado a confiança do paciente, deixando-o
falar com franqueza e sem a noção, como é típico dos que têm dificuldade de
perceção da realidade, da gravidade dos sintomas do seu comportamento, como, por exemplo, quando diz,
para justificar o contacto com Catroga: “Vi qualquer coisa na televisão que me
pareceu errado, e pensei: o melhor é tentar corrigir isto depressa, porque este
erro de perceção pode ser custoso para o país”.
Nenhum
psiquiatra pensará convencer por palavras, sem terapia de grupo e sem
fluoxetina, o seu paciente a deixar de ser imodesto, mitómano na sua obsessão
de proximidade com os grandes financeiros que têm conduzido as finanças da
Europa à ruína (para eles ao sucesso da deflação, da desindustrialização, do
desemprego e da redução das prestações sociais) e a convencer-se de que errou
no seu Excel.
A
própria carta de renuncia não é o reconhecimento de um cientista que errou e
aprendeu com o erro, mas sim que não aplicou a sua receita como deveria.
É
típico, é a realidade que tem de se submeter aos dogmas em que acredita, e não
a teoria económica que deve refletir a realidade.
E
segundo as más línguas, também, o senhor ex ministro escreveu a carta depois de
falar com a mulher sobre a célebre ida ao supermercado, quando a perceção da
realidade esteve muito próximo da realidade impactante do contacto físico com
concidadãos discordantes da sua politica económica.
É
agora o senhor ex ministro consultor do Banco de Portugal. Estará descansado.
Quando se reformar a sua reforma virá por inteiro, sempre, como ele repetiu à
entrevistadora, “no interesse nacional”.
Transcrevo
uma conclusão do livro de um professor de Harvard, "Economia para todos"
de David Moss, ed. Academia do livro:
"... alguns estudiosos de Macroeconomia ... preferem acreditar que as relações económicas definidas nos seus manuais são regras invioláveis.
"... alguns estudiosos de Macroeconomia ... preferem acreditar que as relações económicas definidas nos seus manuais são regras invioláveis.
Este tipo de arrogancia, ou estreiteza de
pensamento, torna-se um verdadeiro perigo para a sociedade quando afeta os
responsáveis politicos pela macroeconomia.
O responsável pela politica que acredita que
sabe exatamente como a economia irá responder a um estímulo específico é, na
verdade, um responsável politico muito perigoso".
Muito perigoso, de facto, o senhor professor
Vítor Gaspar.
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Vitor Gaspar
terça-feira, 11 de junho de 2013
Psicologia do poder politico em Portugal
Nós portugueses somos um bocadinho diferentes, não muito, mas o suficiente para caraterizar algumas síndromas.
1 - os eleitores delegam, na prática apenas no primeiro ministro e no presidente da República, em detrimento da sua representação por deputados, governantes e poder judicial; sintoma de que não participam (aliás a elevada abstenção confirma-o); na realidade, a burocracia e os formalismos predominantes dificultam a compatibilização da vida particular de cada um com a representação por deputados ou grupos de cidadãos; é uma falha grave da democracia, com o carater direto, que deveria ser assegurado pelas freguesias (no sentido exatamente oposto, o atual governo extinguiu freguesias) e um sistema de comunicação destas com o poder central,cada vez mais longínquo e uma legião de comentadores a criar ruído;
2 - o poder executivo tem tendencia a considerar-se a sede do poder legislativo, através do controle pelos poucos do executivo dos mais deputados no Parlamento do partido ou partidos com maioria relativa ou absoluta. O controle por poucos consegue-se através de mecanismos eleitorais internos dos partidos, com a agravante da tendencia de polarização do pensamento desse partido em torno do seu dirigente máximo; trata-se duma falha interna do partido que limita a escolha do primeiro ministro e, consequentemente, a sua qualidade técnica e gestionária deixando de fora personalidades mais competentes. Primeiro nos partidos e depois no seio do executivo, a opinião cristaliza ou polariza-se em torno de um ou dois governantes chave, em pensamento unico, as mais das vezes configurando um modelo de representação da realidade que a simula muito mal (como se pôde ver pelo falhanço dos multiplicadores da recessão em função da austeridade e do crescimento da dívida e do desemprego)
3 - os governantes atuais comportaram-se como os jovens inexperientes que chegam a uma empresa e paralisam os orgãos e alteram a estrutura; ensinam os especialistas de gestão que por pior que funcione uma empresa, são maiores os prejuizos de uma paralisação instantanea do que transição progressiva e participada; a paralisação do tunel do Marão e do troço Poceirão-Caia (que já previa uma linha de mercadorias) e as informações de que o atual governo afinal a quer desbloquear, e a obsessão de cortar despesas públicas e reduzir os quadros de pessoal, são um bom exemplo desta furia destrutiva do trabalho dos outros;
4 - igualmente o conflito geracional que os novos governantes criaram a propósito da redução das receitas da Segurança Social e dos cortes das reformas configura um comportamento semelhante ao dos guardas da revolução na revolução cultural maoista, perseguindo os acusados de conduta burguesa e prática de uma cultura contrária ao interesse nacional; em domínios como este, é como se o MRPP tivesse subido ao poder para terminar com os privilégios dos burgueses e social-revisionistas dos anos 70 do século passado (guardadas as devidas distancias, dado que os apoiantes do atual governo não andam a atacar fisicamente ninguem, contrariamente ao que faziam os militantes do MRPP nos tempos da militancia do atual presidente da Comissão Europeia);
5 -da mesma forma, a aplicação do pensamento único tem o objetivo muito restrito de entregar a atividade económica a grandes grupos económicos ou financeiros, suportado por uma pequena parte da opinião pública que tem horror à participação cidadã e à prioridade ao interesse coletivo e ao Estado de bem estar (por isso este é apodado de Estado assistencial ou previdencial, com a conotação negativa dessa designação), tudo subordinado à teoria de Hayeck e de Friedman como modificadora da estrutura da sociedade, configura uma prática estalinista e vanguardista de imposição desse pensamento único com menosprezo e calúnia de qualquer oposição. Um bom exemplo é a necessidade já reconhecida pelo governo de renegociação de tempo e taxas de juro, coisa que desde os primeiros dias do memorando os partidos de esquerda tinham reclamado no Parlamento (guardadas as devidas distancias entre a prática sanguinária de campos de concentração de uns e a prática desprovida de empatia dos atuais governantes para com as vítimas dos cortes nas despesas assistenciais e de saúde e da politica de desemprego necessária à contenção de custos)
6 - a inexperiencia e o isolamento da realidade dos atuais governantes leva-os ainda a ignorar os riscos da política suicida de dependencia alimentar e energética do exterior , satisfazendo-se com indicadores de melhorias em áreas restritas, como o sucesso de algumas, poucas, grandes empresas agroindustriais ou empresas de importação e processamento de combustíveis fósseis; esta é a atitude normal de quem não compreende o funcionamento real da economia nem das atividades primária e secundária, embasbacando-se com o aparato e a imagem dos setores terciário e quaternário a que associam como quinta essencia a inovação.
7 - o encantamento e a obsessão dos atuais governantes com as teorias de Haieck e Friedman pode seguir os mesmos esquemas mentais da reação das crianças que não aceitam a disciplina escolar e aderem com entusiasmo infantil às teorias demolidoras do ordenamento que rejeitam; no fundo encaram estes pais da revolução da nova economia como justiceiros libertadores e tentam emulá-los; as críticas das pessoas mais experientes e sensatas são recebidas como prova de que estão certos e acabam por desencadear os mecanismos cerebrais de satisfação dos centros de prazer;
8 - finalmente, o comportamento dos atuais governantes, muito dependente de critérios de imagem e marketing, reproduz o comportamento de crianças mal comportadas quando são apanhadas: apressam-se a chamar a atenção para as falhas dos outros para ver se escapam à censura dos educadores. Não faltam exemplos, como a insistencia nos erros do governo anterior (que são de facto evidentes, que foram atempadamente registados neste blogue, mas que não contribuiram tanto para o desastre como os atuais governantes querem fazer crer), quando já está comprovado que o comportamento do setor bancário e financeiro, interno e externo, com a especulação, a bolha imobiliária e a subida das taxas de juro,e a abertura da União Europeia à Europa de Leste foram os principais fatores para o desastre. A recente perseguição aos comissários politicos membros de administrações de empresas públicas associados a contratos swap é também exemplo de uma furia justiceira para encandear a opinião pública, sem esclarecer convenientemente as cláusulas prejudiciais e desviando a atenção das verdadeiras razões da divida das empresas públicas: o crescimento das taxas de juro dos empréstimos, o investimento por conta das empresas em vez de sair do orçamento do Estado ou em maior percentagem dos fundos QREN e os preços artificialmente baixos dos títulos de transporte; o paradoxo é evidente, quando os derivados credit default swap são uma emanação das teorias de livre mercado financeiro tão do agrado dos atuais governantes; o criticável na triste história dos swap é a submissão à banca e à finança, coisa que o atual governo é o primeiro a dizer querer respeitar especialmente quando desfralda a bandeira da conquista da confiança dos mercados (os swap são um produto típico "dos mercados"). Outro exemplo é a recente acusação de ocultação de uma auditoria aos Estaleiros de Viana do Castelo; é verdade que o comportamento do governo anterior foi incorreto ao nomear alguns comissários politicos para a adminstração dos estaleiros e ao deixar na gaveta a auditoria realizada pela inspeção de finanças em 2009, mas também é verdade que o que lá vem é do conhecimento público de quem tem seguido a triste, tristissima novela dos estaleiros. Mais grave, muito mais grave é o atual governo ter deixado passar 2 anos sem ter tomado medidas de recuperação para os estaleiros (nomeadamente ter deixado passar tempo demasiado para o cumprimento do contrato dos asfalteiros venezuelanos e deixado apodrecer o caso do Atlantida, casos que não têm nada que ver com a auditoria ocultada). E a propósito disto, um esclarecimento para quem ainda não reparou: as diretivas europeias falam explicitamente que, em casos de defesa, que é o caso dos estaleiros e dos seus "patrulhões" construidos e por construir, um estado europeu é livre de injetar o capital e por isso o estado português não tem que "devolver" 181 milhões de euros. O próprio comissário Almunia já reconheceu que os estaleiros de Gdansk também receberam fundos públicos.
Defesa Nacional está fora das leis da concorrencia, o que é lógico, porque se não estivesse, a lei da concorrencia estaria a prejudicar a segurança militar de um estado. Pode não ser o entendimento dos gabinetes de advogados que os senhores governantes contratam para analisar este caso, e devo reconhecer que os senhores ministros e os senhores deputados da comissão de defesa do Parlamento têm mais experiencia do que eu de trabalho conjunto com esses advogados (por exemplo, o atual e o anterior presidente da comissão de defesa do Parlamento são sócios do mesmo escritório de advogados). Assim, para não se crer numa promiscuidade entre gabinetes de advogados e poder político, teremos de considerar, a exemplo dos professores que detetam dificuldades de interpretação de textos nos seus alunos, a hipótese de perturbações no desenvolvimento cognitivo (capacidade de reconhecer e processar padrões e imagens).
Conclusão - os factos anteriores recomendam o que já se propôs neste blogue: que os atos dos senhores governantes sejam submetidos a uma análise cuidada por parte de psiquiatras cujo relatório deveria ser tornado público.
1 - os eleitores delegam, na prática apenas no primeiro ministro e no presidente da República, em detrimento da sua representação por deputados, governantes e poder judicial; sintoma de que não participam (aliás a elevada abstenção confirma-o); na realidade, a burocracia e os formalismos predominantes dificultam a compatibilização da vida particular de cada um com a representação por deputados ou grupos de cidadãos; é uma falha grave da democracia, com o carater direto, que deveria ser assegurado pelas freguesias (no sentido exatamente oposto, o atual governo extinguiu freguesias) e um sistema de comunicação destas com o poder central,cada vez mais longínquo e uma legião de comentadores a criar ruído;
2 - o poder executivo tem tendencia a considerar-se a sede do poder legislativo, através do controle pelos poucos do executivo dos mais deputados no Parlamento do partido ou partidos com maioria relativa ou absoluta. O controle por poucos consegue-se através de mecanismos eleitorais internos dos partidos, com a agravante da tendencia de polarização do pensamento desse partido em torno do seu dirigente máximo; trata-se duma falha interna do partido que limita a escolha do primeiro ministro e, consequentemente, a sua qualidade técnica e gestionária deixando de fora personalidades mais competentes. Primeiro nos partidos e depois no seio do executivo, a opinião cristaliza ou polariza-se em torno de um ou dois governantes chave, em pensamento unico, as mais das vezes configurando um modelo de representação da realidade que a simula muito mal (como se pôde ver pelo falhanço dos multiplicadores da recessão em função da austeridade e do crescimento da dívida e do desemprego)
3 - os governantes atuais comportaram-se como os jovens inexperientes que chegam a uma empresa e paralisam os orgãos e alteram a estrutura; ensinam os especialistas de gestão que por pior que funcione uma empresa, são maiores os prejuizos de uma paralisação instantanea do que transição progressiva e participada; a paralisação do tunel do Marão e do troço Poceirão-Caia (que já previa uma linha de mercadorias) e as informações de que o atual governo afinal a quer desbloquear, e a obsessão de cortar despesas públicas e reduzir os quadros de pessoal, são um bom exemplo desta furia destrutiva do trabalho dos outros;
4 - igualmente o conflito geracional que os novos governantes criaram a propósito da redução das receitas da Segurança Social e dos cortes das reformas configura um comportamento semelhante ao dos guardas da revolução na revolução cultural maoista, perseguindo os acusados de conduta burguesa e prática de uma cultura contrária ao interesse nacional; em domínios como este, é como se o MRPP tivesse subido ao poder para terminar com os privilégios dos burgueses e social-revisionistas dos anos 70 do século passado (guardadas as devidas distancias, dado que os apoiantes do atual governo não andam a atacar fisicamente ninguem, contrariamente ao que faziam os militantes do MRPP nos tempos da militancia do atual presidente da Comissão Europeia);
5 -da mesma forma, a aplicação do pensamento único tem o objetivo muito restrito de entregar a atividade económica a grandes grupos económicos ou financeiros, suportado por uma pequena parte da opinião pública que tem horror à participação cidadã e à prioridade ao interesse coletivo e ao Estado de bem estar (por isso este é apodado de Estado assistencial ou previdencial, com a conotação negativa dessa designação), tudo subordinado à teoria de Hayeck e de Friedman como modificadora da estrutura da sociedade, configura uma prática estalinista e vanguardista de imposição desse pensamento único com menosprezo e calúnia de qualquer oposição. Um bom exemplo é a necessidade já reconhecida pelo governo de renegociação de tempo e taxas de juro, coisa que desde os primeiros dias do memorando os partidos de esquerda tinham reclamado no Parlamento (guardadas as devidas distancias entre a prática sanguinária de campos de concentração de uns e a prática desprovida de empatia dos atuais governantes para com as vítimas dos cortes nas despesas assistenciais e de saúde e da politica de desemprego necessária à contenção de custos)
6 - a inexperiencia e o isolamento da realidade dos atuais governantes leva-os ainda a ignorar os riscos da política suicida de dependencia alimentar e energética do exterior , satisfazendo-se com indicadores de melhorias em áreas restritas, como o sucesso de algumas, poucas, grandes empresas agroindustriais ou empresas de importação e processamento de combustíveis fósseis; esta é a atitude normal de quem não compreende o funcionamento real da economia nem das atividades primária e secundária, embasbacando-se com o aparato e a imagem dos setores terciário e quaternário a que associam como quinta essencia a inovação.
7 - o encantamento e a obsessão dos atuais governantes com as teorias de Haieck e Friedman pode seguir os mesmos esquemas mentais da reação das crianças que não aceitam a disciplina escolar e aderem com entusiasmo infantil às teorias demolidoras do ordenamento que rejeitam; no fundo encaram estes pais da revolução da nova economia como justiceiros libertadores e tentam emulá-los; as críticas das pessoas mais experientes e sensatas são recebidas como prova de que estão certos e acabam por desencadear os mecanismos cerebrais de satisfação dos centros de prazer;
8 - finalmente, o comportamento dos atuais governantes, muito dependente de critérios de imagem e marketing, reproduz o comportamento de crianças mal comportadas quando são apanhadas: apressam-se a chamar a atenção para as falhas dos outros para ver se escapam à censura dos educadores. Não faltam exemplos, como a insistencia nos erros do governo anterior (que são de facto evidentes, que foram atempadamente registados neste blogue, mas que não contribuiram tanto para o desastre como os atuais governantes querem fazer crer), quando já está comprovado que o comportamento do setor bancário e financeiro, interno e externo, com a especulação, a bolha imobiliária e a subida das taxas de juro,e a abertura da União Europeia à Europa de Leste foram os principais fatores para o desastre. A recente perseguição aos comissários politicos membros de administrações de empresas públicas associados a contratos swap é também exemplo de uma furia justiceira para encandear a opinião pública, sem esclarecer convenientemente as cláusulas prejudiciais e desviando a atenção das verdadeiras razões da divida das empresas públicas: o crescimento das taxas de juro dos empréstimos, o investimento por conta das empresas em vez de sair do orçamento do Estado ou em maior percentagem dos fundos QREN e os preços artificialmente baixos dos títulos de transporte; o paradoxo é evidente, quando os derivados credit default swap são uma emanação das teorias de livre mercado financeiro tão do agrado dos atuais governantes; o criticável na triste história dos swap é a submissão à banca e à finança, coisa que o atual governo é o primeiro a dizer querer respeitar especialmente quando desfralda a bandeira da conquista da confiança dos mercados (os swap são um produto típico "dos mercados"). Outro exemplo é a recente acusação de ocultação de uma auditoria aos Estaleiros de Viana do Castelo; é verdade que o comportamento do governo anterior foi incorreto ao nomear alguns comissários politicos para a adminstração dos estaleiros e ao deixar na gaveta a auditoria realizada pela inspeção de finanças em 2009, mas também é verdade que o que lá vem é do conhecimento público de quem tem seguido a triste, tristissima novela dos estaleiros. Mais grave, muito mais grave é o atual governo ter deixado passar 2 anos sem ter tomado medidas de recuperação para os estaleiros (nomeadamente ter deixado passar tempo demasiado para o cumprimento do contrato dos asfalteiros venezuelanos e deixado apodrecer o caso do Atlantida, casos que não têm nada que ver com a auditoria ocultada). E a propósito disto, um esclarecimento para quem ainda não reparou: as diretivas europeias falam explicitamente que, em casos de defesa, que é o caso dos estaleiros e dos seus "patrulhões" construidos e por construir, um estado europeu é livre de injetar o capital e por isso o estado português não tem que "devolver" 181 milhões de euros. O próprio comissário Almunia já reconheceu que os estaleiros de Gdansk também receberam fundos públicos.
Defesa Nacional está fora das leis da concorrencia, o que é lógico, porque se não estivesse, a lei da concorrencia estaria a prejudicar a segurança militar de um estado. Pode não ser o entendimento dos gabinetes de advogados que os senhores governantes contratam para analisar este caso, e devo reconhecer que os senhores ministros e os senhores deputados da comissão de defesa do Parlamento têm mais experiencia do que eu de trabalho conjunto com esses advogados (por exemplo, o atual e o anterior presidente da comissão de defesa do Parlamento são sócios do mesmo escritório de advogados). Assim, para não se crer numa promiscuidade entre gabinetes de advogados e poder político, teremos de considerar, a exemplo dos professores que detetam dificuldades de interpretação de textos nos seus alunos, a hipótese de perturbações no desenvolvimento cognitivo (capacidade de reconhecer e processar padrões e imagens).
Conclusão - os factos anteriores recomendam o que já se propôs neste blogue: que os atos dos senhores governantes sejam submetidos a uma análise cuidada por parte de psiquiatras cujo relatório deveria ser tornado público.
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terça-feira, 3 de julho de 2012
Almoço na esplanada da Gulbenkian – os governantes vaiados
Há tempo que não almoçava com o meu amigo na esplanada da Gulbenkian.
Desta vez comunicou-me que também tinha convidado um grande amigo dos tempos da adolescência em Moçambique, e que tinha feito carreira no serviço nacional de saúde como psiquiatra, até atingir os escalões mais altos; que eu iria achar graça às suas ideias.
De facto achei.
No meio do vol-au-vent, da salada de beterraba com vinagrete, dos ovos verdes sobre rúcula, da beringela recheada e das fatias de quiche lorraine com salada de queijo, maçã e maionese, que se espalharam pelos três pratos, a conversa fluiu entusiasmante em torno da proposta do doutor psiquiatra.
Basicamente, tratava-se de aplicar à situação do país aquilo que se faz nos consultórios médicos.
O doutor observa o doente, faz umas perguntas, pede-lhe que faça uns exames e umas análises, e depois prescreve.
O tratamento pode envolver várias especialidades, mas qualquer que ela, ou elas, sejam, é indispensável, tal como diz a primeira fase do método científico, observar e recolher dados.
Assim, independentemente do tratamento necessário em função dos resultados dos exames e das análises, pode ser também preciso aplicar medidas do foro da psiquiatria se o paciente disser coisas em dissonância com a realidade, escondida ou evidente.
Por exemplo, se o paciente se queixa de níveis de stress psicológico por o seu trabalho não ser devidamente apreciado quando ele garante ser de elevado valor, é dever do psiquiatra avaliar a qualidade desse trabalho e comparar o resultado dessa avaliação com a auto-avaliação do paciente.
Tudo isto foi explicado pelo doutor psiquiatra a propósito do episódio das vaias do senhor ministro da economia, na Covilhã.
Viu-se na reportagem televisiva o senhor ministro a caminhar corajosamente ao encontro dos manifestantes (aqui o doutor psiquiatra explicou que coragem é, normalmente, um bloqueio da consciência do perigo, uma inibição da zona cerebral que comanda as ações de sobrevivência, que pode ter origem precisamente numa dissonância cognitiva com a realidade).
Viu-se depois um senhor engravatado (o doutor psiquiatra ficou com a ideia de que era o senhor presidente da câmara da Covilhã, que interveio como moderador dos ânimos) a explicar calmamente ao senhor ministro que quem protestava eram trabalhadores despedidos e que o único governo que tinha tomado medidas francamente favoráveis aos trabalhadores tinha sido o do general Vasco Gonçalves (numa tentativa de corrigir o desequilibrio entre os rendimentos do capital e do trabalho).
O doutor psiquiatra chamava a atenção para a resposta do senhor ministro, voltando-se com ar triste enquanto caminhava para o seu carro, sobre o qual alguns manifestantes se deitariam depois, com bandeiras negras da fome: “se há governo que tem trabalhado para o bem dos trabalhadores é este”; e para o comentário rude do senhor preidente da associação empresarial do interior: “o senhor ministro não sabe nada destes assuntos” Melhor exemplo de auto-comiseração e auto-valorização perante a incompreensão alheia não haverá.
Tome-se o caso do ministério da defesa, ou da administração interna, o doutor psiquiatra não estava seguro. Que em entrevista a uma estação de rádio e a um jornal, o senhor ministro afirmara veementemente que o correto é o governo comunicar o que faz à população, sem esconder nada, mas entretanto ele próprio vem arrastando a solução dos estaleiros navais de Viana do Castelo de insucesso em insucesso, de modo semelhante ao do BPN, até quase nada valer “no mercado”.
E depois surgem os estados de confusão perante a realidade, sem se saber se é a marinha que continua a tomar conta dos assuntos do mar (por isso se chama marinha…por isso entendem a linguagem do mar) e das praias ou se é a PSP (agora com esta idade é que os senhores agentes vão aprender a tabela das marés?). Sem se saber se os helicópteros da Força aérea vão ajudar aos fogos, apesar da área ardida em 2012 já ultrapassar a área ardida em 2011 em igual período, ou se a GNR deixa de fiscalizar o transito nas auto-estradas das áreas metropolitanas, substituída pela PSP (a PSP, de repente, cresce em valências).
Perante estes exemplos, o doutor psiquiatra comunicou a sua ideia central.
Se a república dispõe de um procurador geral , de um provedor geral, de um presidente do supremo tribunal, se o país já dispôs, quando ainda não era república, de um correio-mor, de um armador principal, de um valido do rei, então, o estado em que se encontra, a república, e as dissonâncias cognitivas reveladas pelos seus governantes, impõem a existência de um psiquiatra geral da república, pronto a intervir de cada vez que os senhores governantes mostrem fragilidades de comportamento psicológico.
Mediante notificação, o senhor governante ver-se-ia obrigado a comparecer no consultório do psiquiatra geral e o diagnóstico e a prescrição seriam tornados públicos enquanto o senhor governante estivesse em funções.
O tratamento de obsessões compulsivas de quem se sentiu investido na tarefa de salvar o país da crise, e porque a crise é tamanha que a obsessão degenerou em complexo megalómano messiânico; de quem primeiro sofreu uma perturbação de humor no sentido depressivo por não serem compreendidas as suas propostas, e depois passou a fase hiperativa e legislou fora da realidade; de quem, sem consultar nenhum psiquiatra, tomou estabilizadores de humor para poder aceitar, pausadamente, a enorme distancia entre as previsões e a realidade, deverá ser entendido como uma manifestação de solidariedade para com as vítimas da incompreensão da população.
E, concluiu o doutor psiquiatra, um tratamento eficaz levaria os senhores governantes a abrir os olhos para a realidade e, reconhecendo a gravidade da situação, a entenderem-se com todas as sensibilidades, ao menos para que a responsabilidade das medidas tomadas se reparta equilibradamente por todos, para que não haja benefícios para uns e prejuízos para outros.
E para que todos se entendessem, o que entre portugueses é sempre difícil, fazer planeamento e trabalhar em equipa, lá estaria ainda o psiquiatra geral da República.
Apoio a ideia.
Desta vez comunicou-me que também tinha convidado um grande amigo dos tempos da adolescência em Moçambique, e que tinha feito carreira no serviço nacional de saúde como psiquiatra, até atingir os escalões mais altos; que eu iria achar graça às suas ideias.
De facto achei.
No meio do vol-au-vent, da salada de beterraba com vinagrete, dos ovos verdes sobre rúcula, da beringela recheada e das fatias de quiche lorraine com salada de queijo, maçã e maionese, que se espalharam pelos três pratos, a conversa fluiu entusiasmante em torno da proposta do doutor psiquiatra.
Basicamente, tratava-se de aplicar à situação do país aquilo que se faz nos consultórios médicos.
O doutor observa o doente, faz umas perguntas, pede-lhe que faça uns exames e umas análises, e depois prescreve.
O tratamento pode envolver várias especialidades, mas qualquer que ela, ou elas, sejam, é indispensável, tal como diz a primeira fase do método científico, observar e recolher dados.
Assim, independentemente do tratamento necessário em função dos resultados dos exames e das análises, pode ser também preciso aplicar medidas do foro da psiquiatria se o paciente disser coisas em dissonância com a realidade, escondida ou evidente.
Por exemplo, se o paciente se queixa de níveis de stress psicológico por o seu trabalho não ser devidamente apreciado quando ele garante ser de elevado valor, é dever do psiquiatra avaliar a qualidade desse trabalho e comparar o resultado dessa avaliação com a auto-avaliação do paciente.
Tudo isto foi explicado pelo doutor psiquiatra a propósito do episódio das vaias do senhor ministro da economia, na Covilhã.
Viu-se na reportagem televisiva o senhor ministro a caminhar corajosamente ao encontro dos manifestantes (aqui o doutor psiquiatra explicou que coragem é, normalmente, um bloqueio da consciência do perigo, uma inibição da zona cerebral que comanda as ações de sobrevivência, que pode ter origem precisamente numa dissonância cognitiva com a realidade).
Viu-se depois um senhor engravatado (o doutor psiquiatra ficou com a ideia de que era o senhor presidente da câmara da Covilhã, que interveio como moderador dos ânimos) a explicar calmamente ao senhor ministro que quem protestava eram trabalhadores despedidos e que o único governo que tinha tomado medidas francamente favoráveis aos trabalhadores tinha sido o do general Vasco Gonçalves (numa tentativa de corrigir o desequilibrio entre os rendimentos do capital e do trabalho).
O doutor psiquiatra chamava a atenção para a resposta do senhor ministro, voltando-se com ar triste enquanto caminhava para o seu carro, sobre o qual alguns manifestantes se deitariam depois, com bandeiras negras da fome: “se há governo que tem trabalhado para o bem dos trabalhadores é este”; e para o comentário rude do senhor preidente da associação empresarial do interior: “o senhor ministro não sabe nada destes assuntos” Melhor exemplo de auto-comiseração e auto-valorização perante a incompreensão alheia não haverá.
Tome-se o caso do ministério da defesa, ou da administração interna, o doutor psiquiatra não estava seguro. Que em entrevista a uma estação de rádio e a um jornal, o senhor ministro afirmara veementemente que o correto é o governo comunicar o que faz à população, sem esconder nada, mas entretanto ele próprio vem arrastando a solução dos estaleiros navais de Viana do Castelo de insucesso em insucesso, de modo semelhante ao do BPN, até quase nada valer “no mercado”.
E depois surgem os estados de confusão perante a realidade, sem se saber se é a marinha que continua a tomar conta dos assuntos do mar (por isso se chama marinha…por isso entendem a linguagem do mar) e das praias ou se é a PSP (agora com esta idade é que os senhores agentes vão aprender a tabela das marés?). Sem se saber se os helicópteros da Força aérea vão ajudar aos fogos, apesar da área ardida em 2012 já ultrapassar a área ardida em 2011 em igual período, ou se a GNR deixa de fiscalizar o transito nas auto-estradas das áreas metropolitanas, substituída pela PSP (a PSP, de repente, cresce em valências).
Perante estes exemplos, o doutor psiquiatra comunicou a sua ideia central.
Se a república dispõe de um procurador geral , de um provedor geral, de um presidente do supremo tribunal, se o país já dispôs, quando ainda não era república, de um correio-mor, de um armador principal, de um valido do rei, então, o estado em que se encontra, a república, e as dissonâncias cognitivas reveladas pelos seus governantes, impõem a existência de um psiquiatra geral da república, pronto a intervir de cada vez que os senhores governantes mostrem fragilidades de comportamento psicológico.
Mediante notificação, o senhor governante ver-se-ia obrigado a comparecer no consultório do psiquiatra geral e o diagnóstico e a prescrição seriam tornados públicos enquanto o senhor governante estivesse em funções.
O tratamento de obsessões compulsivas de quem se sentiu investido na tarefa de salvar o país da crise, e porque a crise é tamanha que a obsessão degenerou em complexo megalómano messiânico; de quem primeiro sofreu uma perturbação de humor no sentido depressivo por não serem compreendidas as suas propostas, e depois passou a fase hiperativa e legislou fora da realidade; de quem, sem consultar nenhum psiquiatra, tomou estabilizadores de humor para poder aceitar, pausadamente, a enorme distancia entre as previsões e a realidade, deverá ser entendido como uma manifestação de solidariedade para com as vítimas da incompreensão da população.
E, concluiu o doutor psiquiatra, um tratamento eficaz levaria os senhores governantes a abrir os olhos para a realidade e, reconhecendo a gravidade da situação, a entenderem-se com todas as sensibilidades, ao menos para que a responsabilidade das medidas tomadas se reparta equilibradamente por todos, para que não haja benefícios para uns e prejuízos para outros.
E para que todos se entendessem, o que entre portugueses é sempre difícil, fazer planeamento e trabalhar em equipa, lá estaria ainda o psiquiatra geral da República.
Apoio a ideia.
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