Nós portugueses somos um bocadinho diferentes, não muito, mas o suficiente para caraterizar algumas síndromas.
1 - os eleitores delegam, na prática apenas no primeiro ministro e no presidente da República, em detrimento da sua representação por deputados, governantes e poder judicial; sintoma de que não participam (aliás a elevada abstenção confirma-o); na realidade, a burocracia e os formalismos predominantes dificultam a compatibilização da vida particular de cada um com a representação por deputados ou grupos de cidadãos; é uma falha grave da democracia, com o carater direto, que deveria ser assegurado pelas freguesias (no sentido exatamente oposto, o atual governo extinguiu freguesias) e um sistema de comunicação destas com o poder central,cada vez mais longínquo e uma legião de comentadores a criar ruído;
2 - o poder executivo tem tendencia a considerar-se a sede do poder legislativo, através do controle pelos poucos do executivo dos mais deputados no Parlamento do partido ou partidos com maioria relativa ou absoluta. O controle por poucos consegue-se através de mecanismos eleitorais internos dos partidos, com a agravante da tendencia de polarização do pensamento desse partido em torno do seu dirigente máximo; trata-se duma falha interna do partido que limita a escolha do primeiro ministro e, consequentemente, a sua qualidade técnica e gestionária deixando de fora personalidades mais competentes. Primeiro nos partidos e depois no seio do executivo, a opinião cristaliza ou polariza-se em torno de um ou dois governantes chave, em pensamento unico, as mais das vezes configurando um modelo de representação da realidade que a simula muito mal (como se pôde ver pelo falhanço dos multiplicadores da recessão em função da austeridade e do crescimento da dívida e do desemprego)
3 - os governantes atuais comportaram-se como os jovens inexperientes que chegam a uma empresa e paralisam os orgãos e alteram a estrutura; ensinam os especialistas de gestão que por pior que funcione uma empresa, são maiores os prejuizos de uma paralisação instantanea do que transição progressiva e participada; a paralisação do tunel do Marão e do troço Poceirão-Caia (que já previa uma linha de mercadorias) e as informações de que o atual governo afinal a quer desbloquear, e a obsessão de cortar despesas públicas e reduzir os quadros de pessoal, são um bom exemplo desta furia destrutiva do trabalho dos outros;
4 - igualmente o conflito geracional que os novos governantes criaram a propósito da redução das receitas da Segurança Social e dos cortes das reformas configura um comportamento semelhante ao dos guardas da revolução na revolução cultural maoista, perseguindo os acusados de conduta burguesa e prática de uma cultura contrária ao interesse nacional; em domínios como este, é como se o MRPP tivesse subido ao poder para terminar com os privilégios dos burgueses e social-revisionistas dos anos 70 do século passado (guardadas as devidas distancias, dado que os apoiantes do atual governo não andam a atacar fisicamente ninguem, contrariamente ao que faziam os militantes do MRPP nos tempos da militancia do atual presidente da Comissão Europeia);
5 -da mesma forma, a aplicação do pensamento único tem o objetivo muito restrito de entregar a atividade económica a grandes grupos económicos ou financeiros, suportado por uma pequena parte da opinião pública que tem horror à participação cidadã e à prioridade ao interesse coletivo e ao Estado de bem estar (por isso este é apodado de Estado assistencial ou previdencial, com a conotação negativa dessa designação), tudo subordinado à teoria de Hayeck e de Friedman como modificadora da estrutura da sociedade, configura uma prática estalinista e vanguardista de imposição desse pensamento único com menosprezo e calúnia de qualquer oposição. Um bom exemplo é a necessidade já reconhecida pelo governo de renegociação de tempo e taxas de juro, coisa que desde os primeiros dias do memorando os partidos de esquerda tinham reclamado no Parlamento (guardadas as devidas distancias entre a prática sanguinária de campos de concentração de uns e a prática desprovida de empatia dos atuais governantes para com as vítimas dos cortes nas despesas assistenciais e de saúde e da politica de desemprego necessária à contenção de custos)
6 - a inexperiencia e o isolamento da realidade dos atuais governantes leva-os ainda a ignorar os riscos da política suicida de dependencia alimentar e energética do exterior , satisfazendo-se com indicadores de melhorias em áreas restritas, como o sucesso de algumas, poucas, grandes empresas agroindustriais ou empresas de importação e processamento de combustíveis fósseis; esta é a atitude normal de quem não compreende o funcionamento real da economia nem das atividades primária e secundária, embasbacando-se com o aparato e a imagem dos setores terciário e quaternário a que associam como quinta essencia a inovação.
7 - o encantamento e a obsessão dos atuais governantes com as teorias de Haieck e Friedman pode seguir os mesmos esquemas mentais da reação das crianças que não aceitam a disciplina escolar e aderem com entusiasmo infantil às teorias demolidoras do ordenamento que rejeitam; no fundo encaram estes pais da revolução da nova economia como justiceiros libertadores e tentam emulá-los; as críticas das pessoas mais experientes e sensatas são recebidas como prova de que estão certos e acabam por desencadear os mecanismos cerebrais de satisfação dos centros de prazer;
8 - finalmente, o comportamento dos atuais governantes, muito dependente de critérios de imagem e marketing, reproduz o comportamento de crianças mal comportadas quando são apanhadas: apressam-se a chamar a atenção para as falhas dos outros para ver se escapam à censura dos educadores. Não faltam exemplos, como a insistencia nos erros do governo anterior (que são de facto evidentes, que foram atempadamente registados neste blogue, mas que não contribuiram tanto para o desastre como os atuais governantes querem fazer crer), quando já está comprovado que o comportamento do setor bancário e financeiro, interno e externo, com a especulação, a bolha imobiliária e a subida das taxas de juro,e a abertura da União Europeia à Europa de Leste foram os principais fatores para o desastre. A recente perseguição aos comissários politicos membros de administrações de empresas públicas associados a contratos swap é também exemplo de uma furia justiceira para encandear a opinião pública, sem esclarecer convenientemente as cláusulas prejudiciais e desviando a atenção das verdadeiras razões da divida das empresas públicas: o crescimento das taxas de juro dos empréstimos, o investimento por conta das empresas em vez de sair do orçamento do Estado ou em maior percentagem dos fundos QREN e os preços artificialmente baixos dos títulos de transporte; o paradoxo é evidente, quando os derivados credit default swap são uma emanação das teorias de livre mercado financeiro tão do agrado dos atuais governantes; o criticável na triste história dos swap é a submissão à banca e à finança, coisa que o atual governo é o primeiro a dizer querer respeitar especialmente quando desfralda a bandeira da conquista da confiança dos mercados (os swap são um produto típico "dos mercados"). Outro exemplo é a recente acusação de ocultação de uma auditoria aos Estaleiros de Viana do Castelo; é verdade que o comportamento do governo anterior foi incorreto ao nomear alguns comissários politicos para a adminstração dos estaleiros e ao deixar na gaveta a auditoria realizada pela inspeção de finanças em 2009, mas também é verdade que o que lá vem é do conhecimento público de quem tem seguido a triste, tristissima novela dos estaleiros. Mais grave, muito mais grave é o atual governo ter deixado passar 2 anos sem ter tomado medidas de recuperação para os estaleiros (nomeadamente ter deixado passar tempo demasiado para o cumprimento do contrato dos asfalteiros venezuelanos e deixado apodrecer o caso do Atlantida, casos que não têm nada que ver com a auditoria ocultada). E a propósito disto, um esclarecimento para quem ainda não reparou: as diretivas europeias falam explicitamente que, em casos de defesa, que é o caso dos estaleiros e dos seus "patrulhões" construidos e por construir, um estado europeu é livre de injetar o capital e por isso o estado português não tem que "devolver" 181 milhões de euros. O próprio comissário Almunia já reconheceu que os estaleiros de Gdansk também receberam fundos públicos.
Defesa Nacional está fora das leis da concorrencia, o que é lógico, porque se não estivesse, a lei da concorrencia estaria a prejudicar a segurança militar de um estado. Pode não ser o entendimento dos gabinetes de advogados que os senhores governantes contratam para analisar este caso, e devo reconhecer que os senhores ministros e os senhores deputados da comissão de defesa do Parlamento têm mais experiencia do que eu de trabalho conjunto com esses advogados (por exemplo, o atual e o anterior presidente da comissão de defesa do Parlamento são sócios do mesmo escritório de advogados). Assim, para não se crer numa promiscuidade entre gabinetes de advogados e poder político, teremos de considerar, a exemplo dos professores que detetam dificuldades de interpretação de textos nos seus alunos, a hipótese de perturbações no desenvolvimento cognitivo (capacidade de reconhecer e processar padrões e imagens).
Conclusão - os factos anteriores recomendam o que já se propôs neste blogue: que os atos dos senhores governantes sejam submetidos a uma análise cuidada por parte de psiquiatras cujo relatório deveria ser tornado público.
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terça-feira, 11 de junho de 2013
Psicologia do poder politico em Portugal
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quarta-feira, 4 de julho de 2012
As castas, mutatis mutandis - ou a explicação por que não há revoluções na rua, apenas vaias aos governantes
Podemos colocar a hipótese de que, depois do 25 de Abril de 1974, o povo português foi desenvolvendo uma cultura política, segundo critérios pacíficos.
Também podemos pôr a hipótese de que, quem vai para a rua manifestar-se, o faz integrado em estruturas, ou respeitando as regras acordadas com estas estruturas e as entidades oficiais com que acordam a realização das manifestações.
Pelo que, apesar de tudo, o ambiente em Portugal é relativamente pacífico, e não se vêem revoluções na rua contra as difíceis condições económicas em que cada vez mais portugueses vivem.
Também podemos admitir uma hipótese menos idealista do que esta, embora mantendo o gosto pela paz nas ruas.
Uma grande fatia da população portuguesa teve de reduzir custos, embora sem afetar a área dos bens e serviços essenciais. Trata-se de trabalhadores por conta de outrem que viram os seus rendimentos diminuídos da ordem de 15 a 20% (não foi só o corte de 14% nos salários através do corte dos subsídios de natal e de férias dos funcionários públicos e reformados; foi a redução do consumo destes cidadãso que afetou muitas ativdas privadas, nomeadamente restauração e turismo, foi a concentração nas poupanas, foi a cessação de apoios a familiares que trabalham em atividades privadas com a subsequente redução dos rendimentos, daí a estimativa de 15 a 20% para todos).
A questão não será muito grave para essa população, na medida em que parece que a procura dos particulares, isto é, o consumo, não terá caído mais de 5 a 8% (não tenho os dados corretos, nem confiança nos dados do INE, dada a pujança da economia paralela).
Porém, outra fatia crescente da população entrou na faixa das carências do essencial, incluindo os desempregados. Para alem das carências, há a acrescentar os efeitos do desemprego na psicologia das pessoas, diminuindo a auto-estima e contribuindo para perturbações do tipo de depressões, as quais atuam precisamente no sentido inverso de considerar o desemprego como uma nova oportunidade; isto é, as depressões diminuem as hipóteses de desenvolvimento de iniciativas particulares. Serão 20% da população.
Há ainda a contar com a faixa da pobreza, presa na respetiva armadilha (isto é, os rendimentos obtidos são insuficientes para investir em condições de aumento dos rendimentos – estão numa zona de rendimentos descrescentes apesar do valor dos seus rendimentos ser muito baixo). Acrescem os efeitos negativos da depressão . Serão 20% da população.
Temos então que a depressão e a consequente falta de estímulo e de iniciativa podem, por hipótese, justificar o clima pacifico em que se vive.
Podemos ainda admitir que 10% dos portugueses trabalha ou é empresário em atividades que estão em crescimento ou que não sofreram recessão, beneficiando dos preços baixos que o desemprego “segura”, de acordo com a lei de Philips, e das taxas de juro baixas (excessivamente, na minha humilde opinião) do BCE; apesar da ameaça da inflação devida aos custos da energia e dos alimentos e sustentando assim um razoável nível de vida de 25% de portugueses.
Admitindo que 5% dos portugueses são os donos de Portugal (na linguagem corrente) e suas famílias e círculos restritos, e que, com ou sem mérito, com ou sem ética, têm beneficiado do contexto, temos que a primeira fatia referida, a da classe média que viu os seus rendimentos diminuidos mas teve a felicidade de não mergulhar na faixa da pobreza ou da sua ameaça, terá a dimensão de 100% - (20 + 20 + 25 + 5)% = 30%
Admitamos as seguintes taxas de abstenção para as várias categorias, repetindo entre parênteses o peso da categoria, e recordando que um dos efeitos da depressão é o de ficar em casa em vez de ir votar:
(30% - classe média) -------- 40%
(20% - desempregados) ---- 50%
(20% - pobreza) -------------- 90%
(25% - beneficiários) -------- 30%
(5% - donos de Portugal) ---- 20%
Admitindo que as três primeiras categorias castigarão em eleições a coligação do governo (20% de votos), mas as duas ultimas não (80% de votos) , teríamos como resultado das eleições, para o governo (igualando, para simplificar, a população ao universo dos eleitores):
0,3 x 0,2 (1-0,4) + 0,2 x 0,2 (1 - 0,5) + 0,2 x 0,2 (1 – 0,9) + 0,25 x 0,8 (1 – 0,3) + 0,05 x 0,8 (1 – 0,2) = 0,232
Isto é, o governo recolheria 23,2% dos votos dos eleitores inscritos, com uma abstenção de 0,3 x 0,4 + 0,2 x 0,5 + 0,2 x 0,9 + 0,25 x 0,3 + 0,05 x 0,2 = 0,485 , isto é, 48,5% de abstenções.
A percentagem de votos expressos de apoio à politica do governo seria assim de
100% (0,232/(1 - 0,485)) = 45%
Valor muito lisonjeiro para a coligação do governo, e que não garante uma alternativa melhor, no formalismo democrático existente e no dificil entendimento entre outras forças politicas. Pelo menos, enquanto não for alterado esse formalismo, no sentido de permitir a formação de governos integrando o maior numero possível de sensibilidades e representando o melhor possível todos os cidadãos e cidadãs.
No fundo, a hipótese não é simpática, porque me faz lembrar o problema das castas na Índia, mutatis mutandis, claro, claro, não quero ofender ninguém, embora quem se sentisse ofendido talvez estivesse tambem a sentir-se superior à cultura da India.
Até para instalar uma rede de águas as castas superiores protestaram, há uns anos, que não queriam estar ligadas à mesma rede a que estavam ligadas castas inferiores.
No nosso caso, muitos dos que se sentem bem talvez não vejam razão para mudar de política do governo; não sentirão a solidariedade de quem está pior, que a obrigação já foi cumprida quando doaram para o banco alimentar ("não vamos brincar à caridadezinha" de uma canção política de José Barata Moura, no princípio dos anos 70).
Por isso não gosto de ver os nossos intelectuais a criticar o “amorfismo” da população que não protesta mais organizadamente nas ruas.
Na realidade protesta, mas em manifestações sempre consideradas pouco frequentadas pelos destinatários das suas mensagens, ou em vaias a senhores ministros ou ao senhor presidente que, devendo ser respeitadas, facilmente são enquadradas pelo governo nos meandros de uma politica local.
Mas por isso, pelas hipóteses sobre a vontade de paz social, também não concordo com os apelos à luta, por mais que se diga que só com a luta se conquista aquilo que se merece.
Não discuto esse argumento, mas do ponto de vista estratégico dou mais importância à correlação de forças, e essa mostra a balança a pender mais para o lado do governo, que pode sempre invocar o contexto internacional desfavorável que impede o relançamento da economia, que agravam a quebra do consumo e das receitas, nomeadamente fiscais. E também hipocritametne, como fez a senhora do FMI a propósito das crianças do Níger, o governo pode sempre dizer que há outra parte da população que está ainda pior do que aquela que protesta (por exemplo, quando trabalhadores de empresas públicas de transportes fazem greve para defender os seus acordos de trabalho, o governo pode sempre dizer que a maior parte dos passageiros nem sequer beneficia de acordos coletivos, com a agravante de que o desemprego também fez diminuir a procura do transporte, apesar de alguma transferência do transporte individual para o coletivo).
Na insignificante opinião do escriba deste blogue, o esforço deveria concentrar-se na eficaz representação de todas as categorias sociais no governo (podia começar-se pelo Conselho de Estado, com obrigação de estarem representadas as minorias politicas) e na definição dos métodos de trabalho em equipa do governo e da sua ligação às freguesias, autarquias e à sociedade civil, excluindo o método atual de entregar a uma ideologia ou a uma orientação politica a condução de todos os negócios da coisa pública.
Poderá ser imodéstia, mas parece-me que seria uma luta mais eficaz, atendendo à atual correlação de forças, rever os princípios da democracia e da sua prática, analisando casos como o da Islandia, por exemplo, em que grupos de cidadãos participam ativamente na vida poltica, fora do contexto partidário.
PS em 5 de julho de 2012 - Nem de propósito, como se costuma dizer, hoje as notícias são a diminuição da taxa de juro do BCE, o que é um prémio para a classe média que reduz a prestação da casa, e a inclusão do subsidio de arrendamento social no rendimento das pessoas com rendimento social de inserção, levando assim à exclusão de parte significativa de beneficiários deste rendimento (uma vez que não consideram a renda como dedução) e deslocando a linha de separação dos rendimentos mais para o lado dos maiores rendimentos.
Trata-se de uma ideia cara a Friedman, castigar os pobres porque são uns incompetentes que não contribuem para o PIB, e premiar a classe média que tem emprego e sustenta o sistema político.
Existem, porém, várias questões, que ficam pendentes:
1 - o direito de mobilidade dos senhores governantes e presidente da República fica comprometido uma vez que a segurança proibirá deslocações a zonas de excluidos , o que contraria a Constituição e a Declaração Universal dos Direitos Humanos;
2 - a decisão de baixar as taxas de juro do BCE é tomada por pessoas que não foram eleitas pelos cidadãos e cidadãs, apesar de ter implicações políticas, como se viu, quanto mais não seja no acentuar das desigualdades; isto é, a decisão é abusiva e ilegítima, os eleitores não delegaram nos senhores financeiros o poder de a tomar;
3 - contrariamente a uma ideia feita, o rendimento social de inserção não foi uma invenção de partidos de esquerda empenhados em exaurir as finanças públicas, mas funciona em países como os USA, entre outras razões, para garantir a obrigatoriedade da frequencia da escola pelas crianças
Questões a resolver, na verdade.
Também podemos pôr a hipótese de que, quem vai para a rua manifestar-se, o faz integrado em estruturas, ou respeitando as regras acordadas com estas estruturas e as entidades oficiais com que acordam a realização das manifestações.
Pelo que, apesar de tudo, o ambiente em Portugal é relativamente pacífico, e não se vêem revoluções na rua contra as difíceis condições económicas em que cada vez mais portugueses vivem.
Também podemos admitir uma hipótese menos idealista do que esta, embora mantendo o gosto pela paz nas ruas.
Uma grande fatia da população portuguesa teve de reduzir custos, embora sem afetar a área dos bens e serviços essenciais. Trata-se de trabalhadores por conta de outrem que viram os seus rendimentos diminuídos da ordem de 15 a 20% (não foi só o corte de 14% nos salários através do corte dos subsídios de natal e de férias dos funcionários públicos e reformados; foi a redução do consumo destes cidadãso que afetou muitas ativdas privadas, nomeadamente restauração e turismo, foi a concentração nas poupanas, foi a cessação de apoios a familiares que trabalham em atividades privadas com a subsequente redução dos rendimentos, daí a estimativa de 15 a 20% para todos).
A questão não será muito grave para essa população, na medida em que parece que a procura dos particulares, isto é, o consumo, não terá caído mais de 5 a 8% (não tenho os dados corretos, nem confiança nos dados do INE, dada a pujança da economia paralela).
Porém, outra fatia crescente da população entrou na faixa das carências do essencial, incluindo os desempregados. Para alem das carências, há a acrescentar os efeitos do desemprego na psicologia das pessoas, diminuindo a auto-estima e contribuindo para perturbações do tipo de depressões, as quais atuam precisamente no sentido inverso de considerar o desemprego como uma nova oportunidade; isto é, as depressões diminuem as hipóteses de desenvolvimento de iniciativas particulares. Serão 20% da população.
Há ainda a contar com a faixa da pobreza, presa na respetiva armadilha (isto é, os rendimentos obtidos são insuficientes para investir em condições de aumento dos rendimentos – estão numa zona de rendimentos descrescentes apesar do valor dos seus rendimentos ser muito baixo). Acrescem os efeitos negativos da depressão . Serão 20% da população.
Temos então que a depressão e a consequente falta de estímulo e de iniciativa podem, por hipótese, justificar o clima pacifico em que se vive.
Podemos ainda admitir que 10% dos portugueses trabalha ou é empresário em atividades que estão em crescimento ou que não sofreram recessão, beneficiando dos preços baixos que o desemprego “segura”, de acordo com a lei de Philips, e das taxas de juro baixas (excessivamente, na minha humilde opinião) do BCE; apesar da ameaça da inflação devida aos custos da energia e dos alimentos e sustentando assim um razoável nível de vida de 25% de portugueses.
Admitindo que 5% dos portugueses são os donos de Portugal (na linguagem corrente) e suas famílias e círculos restritos, e que, com ou sem mérito, com ou sem ética, têm beneficiado do contexto, temos que a primeira fatia referida, a da classe média que viu os seus rendimentos diminuidos mas teve a felicidade de não mergulhar na faixa da pobreza ou da sua ameaça, terá a dimensão de 100% - (20 + 20 + 25 + 5)% = 30%
Admitamos as seguintes taxas de abstenção para as várias categorias, repetindo entre parênteses o peso da categoria, e recordando que um dos efeitos da depressão é o de ficar em casa em vez de ir votar:
(30% - classe média) -------- 40%
(20% - desempregados) ---- 50%
(20% - pobreza) -------------- 90%
(25% - beneficiários) -------- 30%
(5% - donos de Portugal) ---- 20%
Admitindo que as três primeiras categorias castigarão em eleições a coligação do governo (20% de votos), mas as duas ultimas não (80% de votos) , teríamos como resultado das eleições, para o governo (igualando, para simplificar, a população ao universo dos eleitores):
0,3 x 0,2 (1-0,4) + 0,2 x 0,2 (1 - 0,5) + 0,2 x 0,2 (1 – 0,9) + 0,25 x 0,8 (1 – 0,3) + 0,05 x 0,8 (1 – 0,2) = 0,232
Isto é, o governo recolheria 23,2% dos votos dos eleitores inscritos, com uma abstenção de 0,3 x 0,4 + 0,2 x 0,5 + 0,2 x 0,9 + 0,25 x 0,3 + 0,05 x 0,2 = 0,485 , isto é, 48,5% de abstenções.
A percentagem de votos expressos de apoio à politica do governo seria assim de
100% (0,232/(1 - 0,485)) = 45%
Valor muito lisonjeiro para a coligação do governo, e que não garante uma alternativa melhor, no formalismo democrático existente e no dificil entendimento entre outras forças politicas. Pelo menos, enquanto não for alterado esse formalismo, no sentido de permitir a formação de governos integrando o maior numero possível de sensibilidades e representando o melhor possível todos os cidadãos e cidadãs.
No fundo, a hipótese não é simpática, porque me faz lembrar o problema das castas na Índia, mutatis mutandis, claro, claro, não quero ofender ninguém, embora quem se sentisse ofendido talvez estivesse tambem a sentir-se superior à cultura da India.
Até para instalar uma rede de águas as castas superiores protestaram, há uns anos, que não queriam estar ligadas à mesma rede a que estavam ligadas castas inferiores.
No nosso caso, muitos dos que se sentem bem talvez não vejam razão para mudar de política do governo; não sentirão a solidariedade de quem está pior, que a obrigação já foi cumprida quando doaram para o banco alimentar ("não vamos brincar à caridadezinha" de uma canção política de José Barata Moura, no princípio dos anos 70).
Por isso não gosto de ver os nossos intelectuais a criticar o “amorfismo” da população que não protesta mais organizadamente nas ruas.
Na realidade protesta, mas em manifestações sempre consideradas pouco frequentadas pelos destinatários das suas mensagens, ou em vaias a senhores ministros ou ao senhor presidente que, devendo ser respeitadas, facilmente são enquadradas pelo governo nos meandros de uma politica local.
Mas por isso, pelas hipóteses sobre a vontade de paz social, também não concordo com os apelos à luta, por mais que se diga que só com a luta se conquista aquilo que se merece.
Não discuto esse argumento, mas do ponto de vista estratégico dou mais importância à correlação de forças, e essa mostra a balança a pender mais para o lado do governo, que pode sempre invocar o contexto internacional desfavorável que impede o relançamento da economia, que agravam a quebra do consumo e das receitas, nomeadamente fiscais. E também hipocritametne, como fez a senhora do FMI a propósito das crianças do Níger, o governo pode sempre dizer que há outra parte da população que está ainda pior do que aquela que protesta (por exemplo, quando trabalhadores de empresas públicas de transportes fazem greve para defender os seus acordos de trabalho, o governo pode sempre dizer que a maior parte dos passageiros nem sequer beneficia de acordos coletivos, com a agravante de que o desemprego também fez diminuir a procura do transporte, apesar de alguma transferência do transporte individual para o coletivo).
Na insignificante opinião do escriba deste blogue, o esforço deveria concentrar-se na eficaz representação de todas as categorias sociais no governo (podia começar-se pelo Conselho de Estado, com obrigação de estarem representadas as minorias politicas) e na definição dos métodos de trabalho em equipa do governo e da sua ligação às freguesias, autarquias e à sociedade civil, excluindo o método atual de entregar a uma ideologia ou a uma orientação politica a condução de todos os negócios da coisa pública.
Poderá ser imodéstia, mas parece-me que seria uma luta mais eficaz, atendendo à atual correlação de forças, rever os princípios da democracia e da sua prática, analisando casos como o da Islandia, por exemplo, em que grupos de cidadãos participam ativamente na vida poltica, fora do contexto partidário.
PS em 5 de julho de 2012 - Nem de propósito, como se costuma dizer, hoje as notícias são a diminuição da taxa de juro do BCE, o que é um prémio para a classe média que reduz a prestação da casa, e a inclusão do subsidio de arrendamento social no rendimento das pessoas com rendimento social de inserção, levando assim à exclusão de parte significativa de beneficiários deste rendimento (uma vez que não consideram a renda como dedução) e deslocando a linha de separação dos rendimentos mais para o lado dos maiores rendimentos.
Trata-se de uma ideia cara a Friedman, castigar os pobres porque são uns incompetentes que não contribuem para o PIB, e premiar a classe média que tem emprego e sustenta o sistema político.
Existem, porém, várias questões, que ficam pendentes:
1 - o direito de mobilidade dos senhores governantes e presidente da República fica comprometido uma vez que a segurança proibirá deslocações a zonas de excluidos , o que contraria a Constituição e a Declaração Universal dos Direitos Humanos;
2 - a decisão de baixar as taxas de juro do BCE é tomada por pessoas que não foram eleitas pelos cidadãos e cidadãs, apesar de ter implicações políticas, como se viu, quanto mais não seja no acentuar das desigualdades; isto é, a decisão é abusiva e ilegítima, os eleitores não delegaram nos senhores financeiros o poder de a tomar;
3 - contrariamente a uma ideia feita, o rendimento social de inserção não foi uma invenção de partidos de esquerda empenhados em exaurir as finanças públicas, mas funciona em países como os USA, entre outras razões, para garantir a obrigatoriedade da frequencia da escola pelas crianças
Questões a resolver, na verdade.
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