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sexta-feira, 16 de agosto de 2013

O Dr Ox, ou o verão fútil

Júlio Verne devia ser mais bem estudado. Com uma boa formação técnica, conseguiu uma obra literária vasta e de interesse.
Um (ou vários?) dos seus livros trata a figura do Dr Ox, que tinha descoberto um método de tornar eufóricas as pessoa e levá-las a fazer disparates.
Tratava-se de aumentar sub-repticiamente o teor de oxigénio na atmosfera, enquanto a euforia e a irresponsabilidade tomavam conta das pessoas.
Não tenho provas nem indícios de que um ou vários doutores Ox andem pelo país, pela Europa, pelo norte de África, pelos USA, por aí fora, sem que nos apercebamos de que se lembraram de um método não detetavel equivalente ao aumento do teor de oxigénio.
Não há evidencias, de facto, mas muito do que se vê ou ouve é como se fosse mesmo verdade.
Por exemplo, num programa de televisão a propósito dos custos com as auto-estradas, um empresário da banca de sucesso criticou asperamente (e com razão, quanto a mim) as privatizações da EDP e da REN. Contudo, o próprio tinha sido beneficiado, para o seu banco, por uma privatização ingénua e infeliz, com uma venda pelo Estado de 40 milhões de euros depois de uma injeção de capitais públicos de 600 milhões de euros e antes de uma “transferência” de 100 milhões do Estado para o banco depois de privatizado (parece que coisas de dividendos, não percebi bem).
Isto sem falar que o tal banco era um “bad-bank” (notável criação de engenhosos economistas financeiros - apenas um esclarecimento: de acordo com a teoria, os "bad-bank" não se vendem, mas os nossos práticos acharam por bem vender) também ingénua e infelizmente separado da parte lucrativa da sociedade geral de que era propriedade, a qual continua a distribuir dividendos aos seus anteriores acionistas.
Mas é facto que não foi possível detetar no estúdio de telvisão nenhuma alteração do tipo da do Dr Ox de Júlio Verne.
Alem de que fiquei grato ao comentador por ter explicado que o investimento inicial nas auto-estradas teve justificação, tendo-se atingido porem o limiar de saturação das melhorias dos custos de transação para os clientes das auto-estradas (ou rapidamente se ter atingido o ponto dos rendimentos decrescentes).
Males de uma pequena e dependente economia como a nossa.

Noutro programa de televisão, a propósito da promiscuidade entre o setor financeiro e o poder politico, um senhor de gravata explicava que o novo ministro dos negócios estrangeiros sempre teve uma conduta irreprensível, quer no caso da compra e venda de ações da tal sociedade do banco que é alvo de injeções de capitais públicos (aliás, tal como o atual presidente da Republica portuguesa que também comprou e vendeu ações com lucro assinalável e dificil de alcançar por quem não fosse das relações do presidente do banco).
Infelizmente para o senhor engravatado, o moderador do programa lembrou que o senhor ministro tinha tido um comportamento pouco ético (não ilegal) em questão tornada pública há quase 20 anos.
Que não, que o senhor ministro sempre fora irrepreensível.
Foi quando o moderador informou que tinha sido ele, o moderador, a fazer a investigação em 1995 e que tinha apurado comportamento pouco épico entre gabinetes de advogados. Coitado do senhor engravatado, que cara de frustração que fez.
Mas ainda aqui nada de anormal na atmosfera do estúdio.

Num artigo de jornal, faz-se uma descoberta extraordinária: que o negócio dos “call centrers” tem sido ótimo para as contas portuguesas porque Portugal agora é um país desenvolvido com mão de obra qualificada e barata.
Afinal Manuel Pinho tinha razão quando disse na China que a mão de obra era barata e concretizou-se a anedota do revolucionário esquerdista que a seguir ao 25 de abril de 1974 se gabou na Suécia de que em Portugal tinham acabado os ricos, ao que o sueco respondeu que na Suécia tinham acabado os pobres.
E eu que pensava que o objetivo da economia era nivelear por cima, pelos paises desenvolvidos, mas isso terá sido antes da escola de Chicago ter descoberto a mina de ouro de ir cortando nos rendimentos do trabalho.
Parece que a grande vantagem é a rede de fibra ótica em Portugal que facilita a instalação dos servidores necessários (e pensar que que se critica tanto o investimento noutras áreas, quando os investimentos são mesmo assim, quer de iniciativa pública quer de iniciativa privada, uns dão outros não, vá-se lá saber porquê).
E que não são só os call centers, são o outsourcing.
As empresas pagam a recibo verde e só têm de dar formação, por exemplo, com o catálogo de intervenções na rede informática de uma empresa de prospeção de petróleo.
Penso por momentos que uma das causas ou circunstancias do acidente da plataforma petrolífera no golfo do México foi ela estar em e-drilling, a partir do centro de operações do Texas, com poucos técnicos qualificados a bordo. Mas isto são pensamentos de um técnico da escola clássica, ciosos do “know how” detido pela própria empresa nas frentes de trabalho (com maiores custos de pessoal, claro, mas menos probabilidade de acidententes).
Não consta que pela redação do jornal tivesse passado o Dr Ox.

Ou ainda noutro programa de televisão, o lamento de um antigo secretário de Estado por terem sido extintos o gabinete de estudos e a escola superior de administração pública (afinal a tarefa de minimizar o Estado não é só do atual governo, esta extinção já foi há mais de 10 anos).
Tem uma certa lógica, estrangular não só a parte estrutural da administração pública, mas também o seu cérebro.
O organismo que devia ser a comunidade organizada para defender e exercer os seus direitos fica assim em estado comatoso, à espera que a iniciativa privada tome conta de tudo o que dê lucro sem oposição ou com o apoio de técnicos medíocres (raramente é falada no nosso país a época dos barões ladrões, quando os principais grupos económicos dominaram sem regras a economia dos USA; também duvido que os nossos governantes e seus apoiantes se preocupem com o seu estudo, apesar dos barões terem violado a regra da responsabilidade social de Adam Smith).
Mais uma vez aqui não constou que o Dr Ox tivesse frequentado os ministérios que tão zelosamente extinguiram a capacidade intelectual da administração pública.

Não admira assim que neste verão fútil se assista ao espetáculo triste de alguns governantes virem dizer que graças ao caminho escolhido finalmente o PIB cresceu no 2ºtrimestre de 2013 relativamente ao 1º trimestre. Felizmente que ainda há algum pudor, e que nem todos os governantes o fizeram, sabendo que do 2ºtrimestre de 2012 para o 2º trimestre de 2013 o PIB caiu quase 2% e que graças às ligeiras subidas do PIB da Alemanha e da França as nossas exportações crescem (com destaque para a exportação do gasóleo só possível graças aos investimentos nas refinarias decididos e contratados muito antes do atual governo).

É uma pena as pessoas não terem a noção de que a estatística não permite conclusões deterministas e que os pontos de evolução ocupam manchas de incerteza, mas que fornece dados para decisão que, neste caso, devem ser, para alem das exportações, as de insistir no investimento e na substituição de importações.

Claro que tem de se ir aos fundos do QREN/Horizonte 2020, mas será que os 15 sábios vão mesmo escolher ou avaliar as escolhas da iniciativa privada? e terão a noção de conjunto necessária ou apenas académica? e as valências de engenharia, resumem-se a dois dos sábios? pode-se retomar o crescimento sem a contribução dos engenheiros? ou prevalece a doutrina de um dos economistas sábios que acha que os engenheiros só sabem gastar dinheiro? que serviços "já estão a trabalhar na apresentação de propostas"? ou o Dr Ox também faz parte do comité? não pode mesmo implementar-se uma discussão pública com propostas para submissão às candidaturas QREN? 

E quanto à substituição das importações, não pode mesmo haver um tratamento fiscal preferencial para as empresas produtoras de bens transacionáveis que reduzam a importação e um tratamento penalizador para as que insistem em importar quando há bens nacionais disponiveis?

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Económico XXII - Reflexão sobre o Verão: o Verão na Irlanda, a lei de Philips, a razão de Marx e a idiossincracia portuguesa


O Verão irlandês
Discorrendo por aí, dou com um folheto turístico irlandês, perdido nos papeis do meu colega que calculou os diagramas de marcha para uma nova linha do metropolitano de Dublin.
Não vou repetir o lugar comum de que a Irlanda preferiu investir na educação e no desenvolvimento da industria com mão de obra altamente qualificada, em detrimento das suas infra-estruturas (tem poucas auto-estradas, não tem caminho de ferro de alta velocidade, Dublin não tem metropolitano que se veja).
Não vou porque a Irlanda, para além de ter tido uma quebra acentuada nos principais indicadores das suas estatísticas, está agora a desenvolver um programa intensivo para as suas infra-estruturas.
Além de que também em Portugal temos empresas de mão de obra altamente qualificada como a empresa do Prof.António Câmara (embora a fazer jogos e toques para telemóveis ou iPods) ou as nano tecnologias bio ou não - moleculares.
É bonito ver, em termos de planeamento integrado, que a Irlanda assume claramente que a região da capital tem de ser o motor do desenvolvimento de todo o país, e para isso precisa de infra-estruturas.
Mas o que me chamou a atenção e para o que vos peço também a vossa, se chegaram pacientemente até aqui, foram os termos do folheto: “Aproveite os maravilhosos dias de Verão na Irlanda, em Maio”.
Para nós Maio é o mês das flores, das giestas e da Primavera, mas as agências turísticas irlandesas querem lá os turistas e o Verão no primeiro dia de Maio.
A ser assim, o Verão irlandês será Maio-Junho-Julho. Agosto já é Outono, juntamente com Setembro e Outubro. E sim, o Inverno começa implacável em Novembro, quando a legião dos parentes mortos, ou de Todos os Santos, se abate sobre o mundo dos vivos na noite de Halloween.
E depois de, no último fim de semana de Outubro, Greenwich impor a sua vontade e repor a hora de Inverno, sincronizando-a com a hora TMG (é meio-dia quando o sol culmina por sobre o meridiano de Greenwich), para que as madrugadas de Inverno não sejam tão escuras (a hora atrasa, eliminando o convite da hora de Verão ao lazer de mais uma hora de luz solar ao fim do dia).
Novembro-Dezembro-Janeiro é o Inverno, para que a Primavera seja Fevereiro-Março-Abril.
De facto, os prunus florescem em Fevereiro (até antes, as nossas amendoeiras, em Janeiro, mas eu preferiria a variedade de florescer em Fevereiro, para proteger os frutos das geadas tardias).
Isto é, vejo consistência na proposta do Verão começar no dia dos trabalhadores.

A lei de Philips
E por falar em trabalhadores, graças aos aumentos da produtividade, serão os trabalhadores cada vez menos, até porque a lei de Philips convida ao desemprego.
Recordam-se? a lei de Philips traduz aquela correlação entre o aumento do desemprego e a diminuição do custo de vida (por outras palavras: a inflação combate-se aumentando o desemprego). Ou ainda, por outras palavras, os políticos que asseguram que vão combater o desemprego vão aumentar o custo de vida, o que é mau para todos, mas melhor para quem não tem emprego do que para quem tem emprego.
O que é óptimo para dividir de um lado os que têm emprego e vêem o seu poder de compra aumentar se houver níveis elevados de desemprego, e do outro quem não tem mas gostava de ter, só que não vai conseguir o poder de compra de quem já tem emprego.
Não há assim uma luta de classes no sentido simplista do termo, mas há um conflito de interesses.
Claro que não apenas um conflito de interesses, mas muitos conflitos, consoante o lugar ocupado por cada um na estrutura produtiva da comunidade e na sua estrutura social e cultural.
Donde, havendo muitos conflitos de interesse e diversas formas de estar nas estruturas (e ia a escrever super-estruturas, mas soaria a marxista), é natural que os eleitores estejam divididos.
E eleitores divididos é bom porque contribuem para que não haja maiorias absolutas que ignorem as preferências das minorias (temos de aprender alguma coisa com o fracasso da organização soviética, não acham? Um partido só a decidir o rumo da coisa pública não dá, pois não é verdade?).

A razão de Marx
Mas talvez eu esteja enganado e o número de trabalhadores não esteja a diminuir e então tenho de reflectir sobre isto.
Achei muita graça a um livrinho de dois senhores que se auto definem como dois académicos suecos que circula por aí : Funky Business, capitalism for ever.
“Funky” significa bem cheiroso, se bem que bem cheiroso aqui entronca na concepção antropológica dos cheiros de atracção sexual, digamos de maneira mais fina, cheiro a feromonas, e será aqui aplicado no sentido de inovador, balanceado e provocador como a musica “funk” (mistura de jazz, soul e blues ritmados), divertido, de olhos bem abertos para a realidade para progredir (não quero aborrecer ninguém, mas este é um dos princípios básicos de qualquer disciplina científica, adoptado também por Karl Marx na economia: observar a realidade, pôr hipóteses , testar a teoria, aplicar a teoria para melhorar o mundo ou dar felicidade às pessoas).
Perguntar-se-á, como na anedota do marido quando a mulher lhe disse que tinha ido ao salão de beleza; então porque não dão felicidade às pessoas?
E é aqui que entra o tal livrinho “Funky business”.
Dá, afinal dá; a teoria dá felicidade às pessoas. Porque foi a teoria da informação mais o teorema de Shannon da amostragem ,mais a teoria quântica da física electrónica que permitiram os toques de telemóvel e os televisores de LCD e de plasma que alegram o pessoal.
A tecnologia pode dar felicidade às pessoas. Gandhi também dizia isso, se bem que referindo-se à roca de fiar. Mas o investimento em software da nova Índia está de acordo com o pensamento de Gandhi.
Assim como a explosão tecnológica actual está de acordo com o pensamento de Marx.
Porquê?, porque Marx, tal como todos os seguidores do método científico, considerou o desenvolvimento tecnológico indissociável do desenvolvimento do processo histórico.
Apenas foi ingénuo, quando quis que os benefícios do progresso tecnológico permitissem uma vida mais feliz para as pessoas.
E na realidade permitiu, permitiu subir o nível de vida.
Apesar do triunfo das ideias neo-liberais, dos leitores precipitados de Adam Smith, terem cavado e alargado o fosso entre ricos e pobres (não vale a pena citar estatísticas, mil milhões de seres humanos a passar fome é o melhor atestado de incompetência dos economistas e políticos que nos conduziram ao ponto onde estamos, apesar das potencialidades da tecnologia e de já não haver a desculpa do bloco comunista para justificar a fome).
A acumulação de fortunas para além de um certo limite é um mau sinal do funcionamento da economia.
As listas das fortunas da Forbes e da Fortune, por mais felicidade que tragam aos seus leitores (não posso comprar o BMW de 550 CV, mas se a revista de automóveis não publicar um artigo circunstanciado sobre ele, deixo de comprar a revista), são um indicador da falência dos circuitos distributivo e dinamizador da economia. Se a fortuna se acumulou aqui, neste ponto, foi porque foi incapaz de gerar moeda a circular (possivelmente porque, de forma deliberada, a retiveram, em vez de a deixarem ir à sua vida). Se fossem o resultado das análises de um paciente num laboratório, seriam indicadores de que o sistema digestivo estava com prisão de ventre, em estado, diriam os médicos pré-Pasteur, hidrópico, a inchar o estômago e a deslassar os músculos do peritoneu.
Ingenuamente, podemos sugerir aos acumuladores que cortem ligeiramente nas suas margens de lucro, que façam isso porque os seus negócios ficarão pela certa mais competitivos.
E contudo, como dizem os dois académicos suecos citados, alguém, para produzir a riqueza acumulada, teve de trabalhar, i.é, sujeitar-se a actividades penosas, conscientes e úteis (definição do sociólogo Gurvitch).
Mesmo que esse alguém incluísse o principal accionista, ou que essas actividades fossem ilegais, como transportar armas clandestinamente, ou droga, ou diamantes (sendo um negócio de morte, o negócio das armas alimenta muitos outros seres humanos).
E embora os níveis de remuneração de toda a cadeia necessária para haver acumulação de fortunas sejam desiguais, e de uma forma gritantemente desigual, o facto é que muitos dos intervenientes nessas cadeias foram senhores do seu trabalho, não foram servos da gleba. E se o senhor russo quer ser dono duma grande equipa de futebol, os seus adeptos optam livremente por o financiar (ao dono).
Dominaram os seus processos de trabalho (quanto mais não seja convencendo a direcção de uma fábrica de que ao sábado, de momento, não pode ser; ou então fazendo o que era preciso, criar uma frase publicitária para ajudar à imagem do produto e da empresa, e depois calar-se até à próxima frase-sucesso).
É, os académicos suecos são capazes de ter razão quando explicam (logo ao princípio do livro, acrescentando que não deixem de comprar o livro por causa disso, se estiverem a apreciar as primeiras páginas, na dúvida compro, não compro) que, afinal Karl Marx tinha razão, porque muitos dos trabalhadores da actualidade (cujo conceito não coincide com o da classe operária; lembram-se de Lenine a escrever um opúsculo: A classe operária irá desaparecer? e por isso não dão o seu voto aos partidos chamados comunistas ou ex-comunistas) dominam os seus meios de produção, de uma forma ou outra.
Cinjamo-nos, para definir “trabalhador”, à relação biunívoca : trabalhador<>mais valia gerada (já imaginaram aonde pode levar este raciocínio: a opção em bolsa pelo desejo de comprar uma acção de uma empresa valorizou-a, a empresa ganhou uma encomenda por causa disso e então o pequeno investidor gerou mais valia? Isso é capitalismo popular ou é, como os suecos dizem, Marx a funcionar?).
E se generalizarmos a boutade de Lenine (bem, ele não disse bem o que eu vou dizer agora, mas estou a citar de cor e a ver se ajeito os factos à teoria, para ver depois se a teoria ficou bem sem deformar muito os factos) subimos do nível da produção de mais valias (direito ao emprego, direito ao trabalho, consignado no art.23º da Declaração Universal dos Direitos do Homem) aos níveis do lazer e da cultura (artos 24º e 27º da mesmissima Declaração) quando definirmos que a primeira tarefa depois dos trabalhadores subirem ao poder é absorver a cultura burguesa. I.é, o requinte de bem viver.
Pena que Malthus ainda esteja bem vivo, e que Adam Smith, com o seu interesse individual tão mal compreendido (não vou cansar-me de repetir que a mão invisível de que falava Adam Smith não era a mão invisível que remunera os audaciosos, era a mão invisível que castigava Macbeth e a sua mulher demasiado audaciosa, que certamente teriam aplicações tóxicas do Lehman Bros e dos “off-shores” se já houvesse Lehman Bros no tempo deles, porque “off-shores” sempre os houve, salvo melhor opinião) não deixe repartir fraternalmente o pouco que há para tantos.
Daí dependermos do avanço da tecnologia para fazer um bolo com fatias suficientes para todos, com a ameaça de a maioria do pessoal não querer estudar as maravilhas da tecnologia nem reduzir o consumo dos combustíveis fósseis... Não têm paciência, e agora com o IC16 e o IC30 inaugurados...
Admirável mundo novo.
Fascinante, como dizia o senhor Spock do Star trek.

A idiossincracia dos portugueses
Tudo isto a propósito de uma data para começar o Verão.
Afinal, talvez valha mais concordar que o Verão começa mesmo em Maio e que Agosto é mês para voltar ao trabalho, em lugar de debandar da cidade.
Apesar do calor.
Já repararam que, quanto mais importante é o cargo que um português exerce, ou que pensa que é, mais tarde em Agosto ele marca as suas férias, mas tem de ser em Agosto, porque a importância mede-se pelo grau de insubstituibilidade (a intensidade deste barbarismo é proporcional ao grau de auto-estima) do cidadão, pela vontade de adiar o mais possivel a separação do local de trabalho (vêem, por mais importante que a pessoa seja, tem um local de trabalho, logo é trabalhador, como dizia Marx, e o partido em que vota é marxista, quod eramus demonstrandum).
A menos que seja um grande proprietário de terras acima do centro do País. E aí pode ser Setembro por causa das vindimas.
Mas Portugal está a sincronizar-se com a Europa e as vindimas são cada vez mais cedo. (Ou será o aquecimento global? Ou a escolha das castas? Ou o recurso a estufas?).
E as azeitonas portuguesas não querem ficar atrás e já pedem o varejo em Novembro.
Insistamos no vinho e no azeite. Não liguem ao desabafo infeliz do presidente do instituto do apoio à exportação (“Portugal não pode continuar a ser o país do bacalhau e do azeite”). Portugal não deverá nunca deixar de ser um país de vinho e de azeite (Drucker dixit, lembram-se, chamando-lhes clusters ou grupos tradicionais).
Aproveitem a azeitona para tudo, até para lubrificante e óleo de iluminação; não a deixem estragar-se ingloriamente.
Talvez a questão seja simples e não passe de mais uma influência determinista do clima na idiossincracia de um povo. Gostamos que seja Verão para o tarde, e que ele se prolongue por Setembro.
Somos periféricos e por isso gostamos de fazer as coisas de maneira diferente.
Infelizmente vamos ter de nos adaptar a trabalhar com o calor, em Agosto e Setembro também.
Saudemos a chegada do Verão no dia dos trabalhadores.
Aproveitemos as férias em Maio, Junho ou Julho.
Como disse, é um direito, consignado na Declaração dos Direitos do Homem, artigo 24º.
Acham muito radical, o primeiro de Maio?
Pronto, adiemos por um mês, podem ir de férias a 1 de Junho, dia de início do Verão (e da época balnear…), e mais próximo do dia do solstício, quando a noite é mais curta.
Mas então o Verão acaba a 31 de Agosto, quando a transumância regressa, auto-estrada acima, do Algarve para o Norte, e se desmontam as discotecas de praia.
Eu sabia que íamos chegar a um acordo.