Devo a Medina Carreira a explicação da lei de Philips, que ao aumento do desemprego corresponde a diminuição da procura e a contenção dos preços, pelo que é um mecanismo utilizado pelos governos seguidores da nova economia, de desvalorização dos fatores de produção, nomeadamente do trabalho.
Não é bom viver em deflação.
Aparentemente as pessoas podem gostar de pagar menos pelas coisas, como a prestação da casa ou os produtos alimentares, mas já não gostam de ver os próprios rendimentos diminuidos nem o valor dos seus bens.
Por isso é suicida esta obsessão do BCE em perseguir uma inflação baixa, ignorando que nenhuma lei segue curvas lineares em todos os dominios.
Por exemplo, um investimento pode ter retorno num dado ponto da curva de rendimentos em função do volume de investimentos, mas para um menor volume global de investimentos o retorno pode não existir e o investidor ficar mais pobre depois do investimento (zona da armadilha da pobreza, de onde não se sai sem auxilio exterior, isto é, sem investimento externo).
Porém, por mais respeito que Medina Carreira me mereça por isso, até porque a sua formação abrange as duas culturas (tem formaçáo técnica de engenharia e juridico-fiscal), a sua obsessão no programa Olhos nos olhos, em culpar o crescimento dos custos com a segurança social parece-me inaceitável.
A segurança social não é uma despesa pública, é o resultado das contribuições do trabalho e das empresas.
Depois da crise de 2008 é evidente que a contribuição para a segurança social dos fundos públicos deixou de ser razoável e devem tomar-se medidas, é certo, mas afirmar repetidamente que é totalmente uma despesa pública é distorcer a verdade.
Além de que, mais uma vez, o estímulo artificial do desemprego para combater a inflação aumenta as despesas de segurança social.
O próprio Medina Carreira reconhece que as despesas com a saúde e a educação são razoáveis. E que a unica solução é o crescimento económico.
Porem, como isso não é imediato (porquê? por afinal não se saber onde aplicar os fundos comunitários?) apoia o governo atual nos sucessivos cortes nas despesas.
Penso que incorre na falha de ignorar que os cortes têm um efeito destruidor na capacidade produtiva, reduzindo a economia mais do que o valor dos cortes e levando por isso a uma redução do defice muito menor (cerca de um terço, já temos a experiencia de 3 anos de austeridade cega e destrutiva) do que o valor dos cortes (no fundo, arrastando o ponto de funcionamento para a zona da armadilha da pobreza).
Tenho pena que Medina Carreira não aproveite o seu programa para apontar pistas e medidas de estimulo ao crescimento.
Que se considere como tendo o monopólio do aviso que o país caminhava para o desastre (por acaso não tem o monopólio; neste blogue estão criticas ao anterior governo, antes da crise de 2008, sobre a insustentabilidade de uma economia assente na importação de energia e de alimentos).
E que não aproveite para tratar do problema da dívida privada (155% do PIB?) e do consumismo que leva ao aumento das importações (logo a seguir ao programa, um anuncio apelativo convidava os espetadores a comprar um carro alemão, vermelho e inovador, seguindo-se o anuncio de outro automóvel, um hibrido japonês, indicando um falso consumo de combustivel de 1,9 litros /100 km - assim se engana o público, beneficiando do facto de que ele não vota com base em cálculos matemáticos mas sim em impulsos emocionais).
Assim, apesar do rigor e validade dos seus gráficos (tirando a referida classificação das contribuições para a segurança social como despesa pública) o programa parece-me pouco razoável.
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terça-feira, 10 de junho de 2014
Uma crítica ao programa Olhos nos Olhos, na TVI, de Medina Carreira e Judite de Sousa
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quinta-feira, 19 de setembro de 2013
Vocês não são boas pessoas
Vocês não são boas pessoas.
Vocês são uns convencidos de que sabem mais do que os outros.
Dizia Jô Soares que só contaram para vocês.
Como se não nos tivessem ensinado nas escolas o mesmo que a vocês ensinaram.
Vocês não são humildes.
Não têm humildade para se porem na pele dos outros.
Vocês só tomariam as decisões eficazes para as redes de transportes públicos se todos os dias tivessem de viajar para as vossas ocupações de transportes coletivos, sem motorista e carro de luxo pagos pelos contribuintes.
Só tomariam as medidas eficazes e justas para o equilíbrio orçamental se tivessem um rendimento de 600 euros por mês.
Vocês apresentam sintomas de hipomania, de esconderem a realidade com as vossas convicções, de terem recebido uma missão salvífica, que no entanto ninguém vos atribuiu, porque eleições não é messianismo.
De nada serve chamarmos a vossa atenção para os vossos erros e para a vossa insensibilidade.
Por definição não são sensíveis.
Só percebem a vossa incompetência pela força dos factos e pela crítica que os vossos próprios mentores vos fazem.
Mas os factos são distorcidos pelos vossos mecanismos cerebrais e vocês querem convertê-los em sucessos e assim se vêem, como sucesso.
Por isso os factos têm de ser violentos, têm de vos deixar a falar sozinhos e sem poder para nos impor o que quer que seja.
Não, não estou a propor uma revolução violenta, porque temos de respeitar a vontade das pessoas humildes e enganadas por vocês, que são ainda muitas porque vocês têm falas mansas e bem moduladas que iludem quem vos ouve.
Estou a propor apenas a força da não violência, da paciência, mas da firmeza com que propomos medidas concretas contra a crise e com que vos dizemos:
Vocês não são boas pessoas.
Vocês não querem aplicar as medidas que vos propomos porque não querem afetar o negócio dos bancos, dos grupos financeiros, dos grupos económicos que têm sede, ou caixa postal para remessa de lucros, na Holanda.
São medidas concretas: combater a fuga aos impostos desses grupos, aplicar a taxa Tobin (vocês são mesmo uns convencidos de que os outros são parvos; não podem aplicar a taxa Tobin porque isso é discriminatório? cortar 10% a uma pensão de 1050 euros de um aposentado de 90 anos não é? tende tento), aplicar uma taxa nos movimentos do multibanco que não se reflita nos clientes, acabar com as isenções de IMI da igreja católica e dos fundos imobilários, invocar os casos de “force majeure” para renegociar contratos desfavoráveis para as finanças publicas reduzindo as rentabilidades excessivas desses contratos, sejam eles PPP (parceria publico privada) ou CDS (credit default swap), aplicar fundos QREN na construção de centrais elétricas de fonte eólica, hídrica, marítima e solar e em linhas de transmissão elétrica para os Pirineus (integrar os projetos destas linhas com os das ferrovias de bitola internacional será pedir demais) , aplicar fundos QREN na produção alimentar de substituição de alimentos importados, nomeadamente em piscicultura, subir o IVA de artigos de luxo e importados (não tenham receio dos vossos mentores, os turistas que comprem artigos de luxo em Portugal poderão refundir o IVA no aeroporto; não será por isso que as grandes companhias de luxo deixarão de vir para a avenida da Liberdade, mas será desejável que deixem de se ver tantos carros de luxo por aí…), aumentar a base tributária e de contabilização do PIB através de medidas amigáveis e não punitivas de inclusão na economia oficial da economia paralela de trocas informais e de subsistência (admitindo que a economia paralela, desde venda de queijos em feiras até aluguer de quartos, é da ordem de 40% do PIB e que metade da economia paralela seria suscetivel de ser integrada através de acordos pessoais com contrapartida de benefícios da segurança social, teríamos uma subida do PIB de 160 mil milhões para 190 mil milhões, o que possibilitaria a manutenção das prestações sociais que tanto afligem há tantos anos o senhor doutor Medina Carreira “só podemos cortar no pessoal da função pública e nas prestações sociais”; não poderia era haver nem medidas punitivas nem faturas obrigatórias, porque isso é o mesmo que dizer faturas falsas, apenas acordo entre duas pessoas de bem) .
Vocês não querem acreditar porque têm a vossa auto-estima de adolescente, mas se não aplicam estas medidas não é só por serem contrárias à vossa ideologia de servirem os grandes grupos. É também porque são incompetentes. Não percebem como elas funcionam, logo não as podem aplicar. Incompetência simples. Não percebem. Os ingleses tambem não percebiam por que Gandhi queria as rocas a fiar e o sal a ser transportado à cabeça pelos seus compatriotas.
Mas vocês também são hipócritas e pouco corajosos (como todos os que são fortes com os fracos e fracos com os fortes).
Vocês nunca dizem o que também se ensina nas escolas de economia por onde andaram a louvar Haiek e Friedman (há coisas que não se podem fazer numa democracia, escreveu uma vez a Haiek a própria Thatcher):
1 – o desemprego elevado é para vocês um objetivo bem definido. Um desemprego elevado permite a manutenção de preços baixos, uma inflação baixa (em agosto deste desgraçado ano de 2013 a inflação estava em Portugal a 0,2% e na Europa a 1,5%! não quero os preços baixos, quero aumento do PIB e poder de compra). É a curva de Philips. É o desemprego elevado que permite baixar os preços dos produtos, dos alimentos, do aluguer das casas, isto é, é o desemprego que estrangula a economia. Mas vocês têm dificuldade em aceitar esta evidencia
2 – pelas mesmíssimas razões, de baixar os preços, vocês perseguem e difamam os funcionários públicos. Vocês sabem que há um efeito de contágio. O setor público é principalmente não transacionável (permitirão que discorde dos vossos mentores e que diga que não é só não transacionável; entidades públicas podem produzir e produzem, bens ou serviços transacionáveis, exportáveis e sujeitos à concorrência internacional; a vossa ideologia fundamentalista é que não quer aceitar este facto; daí o vosso slogan bacoco de que o Estado não tem vocação para gerir atividades produtivas; não tem nem deixa de ter; quem tem vocação são as pessoas, e essas devem ter o direito de escolha, como vocês gostam de encher a boca, entre entidades privadas e entidades públicas para exercer atividades produtivas) e como setor não transacionável “puxa”, na nossa economia, pelos salários do setor transacionável. É por isso que ficamos à espera, depois da estouvada e escrupulosa (psicoticamente escrupulosa na definição ao milímetro dos limites para os cortes das pensões) informação do senhor secretário de Estado Rosalino sobre os cortes das pensões, que também o setor não transacionável dos bancários, nomeadamente o plano de pensões do Banco de Portugal de que ele foi gestor, contribua para o abaixamento dos preços. Como as pensões dos magistrados e dos policias, por exemplo (como perguntava Juvenal há dois milénios: quem guarda o guarda?).
PS em 21 de setembro:
Amável comentador enviou-me a propósito deste post um artigo no Publico de 3 de setembro de 2013 sobre a falta de sentido da decencia dos governantes e manifestando surpresa por os portugueses "quase se não moverem" contra as medidas castigadoras de pensionistas (10% sobre 600 euros!?!?) e de quem trabalha.
Respondi assim:
Dá, de facto, que pensar.
Mas há razões para o povo português "quase não se mover".
É um facto que se assiste à transferencia de rendimento do trabalho para o capital. Que são as pensões e os salários e as regras da austeridade que pagam o reequilibrio e o novo sucesso dos bancos (o BES não precisou de recorrer ao dinheiro da troika, fez o que o governo devia ter feito: subscrição publica) .
Mas 40% da população tem emprego ou fontes de rendimento que permitem ver na televisão imagens de admiradores em atitude veneradora e beatífica dos governantes, ou que em agosto deste ano se tenham vendido mais automóveis do que em agosto de 2012. Muitos destes 40% preferem não mudar de governo nem de presidente da republica. Aliás receiam qualquer mudança.
Outros 20% vivem na pobreza marginal.
Outros 20% para lá caminham. Destes 20+20% são raros os que votam nos partidos opostos ao governo. São marginais (marginalizados, mais corretamente) e abstencionistas.
Sobram 20% de classe média agora baixa em que a maior parte diz que os politicos são todos iguais e não vai votar ou vota em branco.
Ora, o formalismo da democracia determinou a entrega do poder aos partidos do governo. Foi a população que o elegeu. Assim como foi a população dos respetivos países que elegeu Hitler e depois o referendou (tal como Estaline foi referendado). Faltaram a essas democracias os orgãos corretores. Como estão a faltar à nossa (Cavaco faria provavelmente o mesmo que Hindenburg, mas felizmente não chegámos aí). E falta conhecimento das causas das coisas ao orgão corretor, o poder judicial. Fecham-se muito no seu circulo de elite. Os mecanismos internos dos próprios partidos não impedem o afloramento destes casos perversos, pese embora haver muita gente séria nos partidos.
No caso vertente, em que a melhor definição me parece a de Gabriela Canavilhas (ministra de cultura que ajudou a criar as condições para a desgraça que a cultura é agora em Portugal) - este governo é uma turma de adolescentes da disciplina de contabilidade prática. Que teve uns paizinhos e uns padrinhos que lhes pagaram os cursos tardios e as aventuras em empresazinhas de brincar às formações, que se encantaram com os dogmas de Haiek e de Friedman, que se derretiam sempre que viam filmes com a Thatcher ou Reagan.
E que se recusam, obviamente, a beliscar o que quer que seja dos rendimentos do capital (taxa Tobin? sobretaxa em cada movimento do multibanco sem repercussão no cliente? eliminação das isenções de IMI dos fundos imobiliários? taxação dos lucros em off-shores como a Holanda? negociação da aproximação da taxa da divida pública à Euribor? limitação da taxa de rendibilidade das PPP? nem pensar).
Mas a explicação talvez não seja complicada:
1 - a população tem experiencia (porque estas coisas transmitem-se de geração para geração no interior das familias e porque Portugal sempre teve uma taxa altissima de economia paralela que aldraba qualquer estatistica de PIB) - quando a rede de segurança social falha, a população prefere à violencia nas ruas o recurso a tecnicas de sobrevivencia adicionais e de subsistencia (produção caseira para venda de roupas, confeção caseira de alimentos, criação domestica de animais, reciclagem, aluguer de quartos - deem uma vista de olhos pelo OLX...- penhores, lotarias, solidariedade familiar e de vizinhos, precariedade de trabalho como empregadas de limpeza clandestinas...) . E sobrevive, com indicadores gerais piores (a mortalidade infantil está a subir mais do que a queda do PIB a desacelerar), mas sobrevive
2 - a tal turma de contabilidade prática, é apenas um exemplo de psicoses adolescentes de obstinação e perversidade (até certo ponto, são inimputáveis). Com que prazer escondido criticam e castigam os professores, os funcionários públicos. Provável consequencia de dificuldades de aprendizagem que estimularam a indisciplina e a recusa da realidade e das normas da educação. Cresceram e atenuaram um pouco a psicose. Transformou-se em hipomania, que é uma forma menos grave embora derivada da obsessão compulsiva, mas que permite a interação social com os seus seguidores . A hipomania é a convicção que têm sempre razão, que a realidade se submete aos seus desejos e que estão incumbidos de uma missão. E como bons adolescentes indisciplinados ou crianças dificeis, acusam os outros de terem problemas com a realidade, que ninguem pode estar convencido de ser detentor da verdade (sintoma típico de falta de "insight", de capacidade de auto-avaliação, de introspeção; sintoma típico em psiquiatria) lamentando-se que estão sozinhos a salvar o país contra todas as dificuldades. Mentem, e dois anos depois dizem o contrário mas justificam-se com subtilezas de sofista reclamando sempre que é com eles que está a justiça. Não têm empatia para se porem na pele dos outros nem medem com rigor o que dizem e o que disseram . Por isso só percebem a linguagem da força, mas o povo não quer a violencia.
Pena o povo não querer a não violencia mais à moda de Gandhi.
Pena.
Compete-nos a nós continuarmos a exprimirmo-nos.
Livremente.
Ainda temos isso.
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sábado, 2 de fevereiro de 2013
Silogismo desemprego - suicídios - cumplicidade
Seja o seguinte raciocínio:
A lei de Philips estabelece a correlação entre o aumento do desemprego e o abaixamento do nível de preços.
O nível de preços baixa se diminuirmos a procura.
A procura diminui se reduzirmos os rendimentos.
De acordo com as observações de David Stuckler (ver http://www.csap.cam.ac.uk/network/david-stuckler/ )
a uma subida do desemprego de 3% corresponde um aumento da taxa de suicídios de 4,45%.
Logo, a confirmar-se esta correlação, quem decide a redução de rendimentos, seja governante deste país ou credor do FMI, BCE ou CE, provoca o aumento da taxa de suicídios, é cúmplice na mortalidade.
Num estado de direito em que as instituições funcionassem regularmente, este raciocínio poderia ser um argumento de acusação de homicídio por negligencia em tribunal.
No próprio parlamento já se ouve que esta austeridade é crime (pelo menos contraria a Declaração Universal dos direitos humanos).
Possivelmente os governantes argumentam que não há outro caminho senão a recessão e os cortes na despesa.
Claro que há outros caminhos, mas eles só se podem quantificar depois de auditadas as dívidas pública e privada, sabendo quem são os credores e qual o destino do dinheiro correspondente às dívidas, obrigando ao levantamento do sigilo bancário, coisa que os senhores governantes não quererão por respeito ideológico.
Os senhores governantes, certamente por falta de tempo, não disponibilizam essas informações.
E também não parecem compreender muito bem a necessidade de sair da zona da armadilha da pobreza (aquela em que, por o PIB ser muito pequeno, por mais investimentos que se façam, não há retorno).
Mas mesmo que não houvesse outro caminho, e se os senhores governantes não são capazes de compatibilizar austeridade e crescimento com diminuição do desemprego, então a questão não é politica nem ideológica. É um problema de gestão, de organização e métodos. Tem de se alargar a composição do governo, um governo de inclusão de representantes de todas as sensibilidades e potencialidades.
E não seria necessário substituir todo o governo.
Bastava substituir o primeiro ministro, o adjunto, o ministro das finanças.
Não é uma questão politica, é uma questão de gestão, um governo de inclusão segundo o método proporcional de Hondt.
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sexta-feira, 18 de janeiro de 2013
18 de janeiro de 1934
Já se vê pouco nos jornais, a referencia à efeméride da revolta da Marinha Grande, em 18 de Janeiro de 1934.
O gauleiter de Leiria foi muito eficaz. Consta que chegou a acorrentar sindicalistas à frente de uma locomotiva para evitar a sabotagem das linhas.
Muitos cidadãos de então terão apoiado a repressão da revolta, para se poder viver a paz salazarista.
Tal como muitos cidadãos agora reprovam as greves contra a politica pró desemprego do atual governo.
Como os economistas explicam com a lei de Philips, aumentar o desemprego é necessário para reduzir a procura e as importações, e assim conter os preços; isto só é possível porque os progressos tecnológicos permitem reduzir os custos de produção; entretanto, o crescimento económico, que poderia evitar o desemprego, é limitado gravemente devido aos elevados custos de produção da energia primária, que têm de ser artificialmente, isto é, politicamente contidos de modo a evitar o desenvolvimento das energias renováveis.
Enfim, repito o “post” de 18 de janeiro de 2010:
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terça-feira, 26 de junho de 2012
Semiótica, a interpretação dos sinais dos governantes
Um dos interesses dos blogues é o de permitir aos psicólogos e sociólogos recolherem elementos para avaliação da vida quotidiana dos cidadãos e cidadãs.
Do ponto de vista de quem escreve, há ainda a irresistível necessidade de exprimir o que se pensa de fenómenos que nos afetam.
Para este humilde escriba, a semiótica dos decisores é uma fonte de grande interesse.
Por se ver por exemplo o senhor ministro de voz pausada encravado com o reconhecimento de que receita fiscal, ao fim de 5 meses, caiu 2,8% relativamente ao ano anterior. Ele foi avisado, inclusivamente por correlegionários seus, dos malefícios da lei de Laffer, que chega um momento em que aumentar impostos significa perda de receita. A forma como se exprime, e por isso invoco a semiótica, indicia pouca capacidade em relacionar os seus cálculos financeiros com as leis da física e com a técnica de navegação.
Indicia uma fé cega nos objetivos, só desmentida quando é evidente o afastamento do objetivo (é a diferença entre a ciência e o senso comum: a demonstração cientifica dispensa a evidencia próxima) paradoxalmente à prática da marcha à vista.
No fim dos anos 40 do século XX, Norbert Wiener desenvolveu a teoria da predição, que no fundo foi a generalização do que os engenheiros militares balísticos já sabiam. Por isso não é aceitável virem senhores ministros das finanças e primeiros ministros dizerem que “ainda é cedo” para considerar seja que medidas forem, embora tristemente (indiciando, pela calma forçada e contida com que respondem a acusações de graves atentados aos princípios da democracia, uma preparação específica) vão colocando a hipótese de afinal não atingirem o défice objetivo sem renegociação (podem sempre justificar que os condicionalismos externos a isso obrigam, uma vez que que parece estar esgotada a desculpa do governo anterior).
Em marinharia, desprezam-se os navegadores à vista, os que só reagem à vista do rochedo, os que não sabem ler uma carta, nem identificar os rochedos e as ameaças à navegação, nem traçar uma rota de longa distancia considerando os desvios devidos às influencias externas das correntes e dos ventos.
Ministros das finanças e primeiros ministros que navegam à vista ignoram as conquistas da ciência, e só colocando a ciência na equação, como costuma dizer o professor Carvalho Rodrigues, a rota será segura.
A surpresa com os números do desemprego (excluindo a hipótese hipócrita de que os governantes apenas estão a aplicar a lei de Philips de modo a reduzir a procura e as importações) e da redução da receita fiscal assim o mostram.
De 1 de Janeiro a 31 de maio de 2012:, relativamente a igual período de 2011:
- aumento do IRS de 13,1% para 3.333 milhões de euro
- redução do IRC de 15% para 1.819 milhões de euro
- redução do IVA de 2,8% para 5.719 milhões de euro
PS em 2 de julho de 2012 - defice público no 1ºtrimestre de 2012: 7,9% do PIB; sendo o objetivo para 2012 de 4,5%, seria necessário que em cada um dos três trimestres seguintes o défice fosse de 3,4%, o que parece muito dificil com as medidas trecessivas tomadas pelo governo. Entretanto, ignora-se qual o défice privado, de particulares, de bancos e de empresas, o que significa que não está a haver monitorização e controle do endividamento; tinham pois razão os econmistas que reivindicaram uma auditoria à dívida, para se saber para onde está a ir o dinheiro. Enfim, malefícios do contexto.
Do ponto de vista de quem escreve, há ainda a irresistível necessidade de exprimir o que se pensa de fenómenos que nos afetam.
Para este humilde escriba, a semiótica dos decisores é uma fonte de grande interesse.
Por se ver por exemplo o senhor ministro de voz pausada encravado com o reconhecimento de que receita fiscal, ao fim de 5 meses, caiu 2,8% relativamente ao ano anterior. Ele foi avisado, inclusivamente por correlegionários seus, dos malefícios da lei de Laffer, que chega um momento em que aumentar impostos significa perda de receita. A forma como se exprime, e por isso invoco a semiótica, indicia pouca capacidade em relacionar os seus cálculos financeiros com as leis da física e com a técnica de navegação.
Indicia uma fé cega nos objetivos, só desmentida quando é evidente o afastamento do objetivo (é a diferença entre a ciência e o senso comum: a demonstração cientifica dispensa a evidencia próxima) paradoxalmente à prática da marcha à vista.
No fim dos anos 40 do século XX, Norbert Wiener desenvolveu a teoria da predição, que no fundo foi a generalização do que os engenheiros militares balísticos já sabiam. Por isso não é aceitável virem senhores ministros das finanças e primeiros ministros dizerem que “ainda é cedo” para considerar seja que medidas forem, embora tristemente (indiciando, pela calma forçada e contida com que respondem a acusações de graves atentados aos princípios da democracia, uma preparação específica) vão colocando a hipótese de afinal não atingirem o défice objetivo sem renegociação (podem sempre justificar que os condicionalismos externos a isso obrigam, uma vez que que parece estar esgotada a desculpa do governo anterior).
Em marinharia, desprezam-se os navegadores à vista, os que só reagem à vista do rochedo, os que não sabem ler uma carta, nem identificar os rochedos e as ameaças à navegação, nem traçar uma rota de longa distancia considerando os desvios devidos às influencias externas das correntes e dos ventos.
Ministros das finanças e primeiros ministros que navegam à vista ignoram as conquistas da ciência, e só colocando a ciência na equação, como costuma dizer o professor Carvalho Rodrigues, a rota será segura.
A surpresa com os números do desemprego (excluindo a hipótese hipócrita de que os governantes apenas estão a aplicar a lei de Philips de modo a reduzir a procura e as importações) e da redução da receita fiscal assim o mostram.
De 1 de Janeiro a 31 de maio de 2012:, relativamente a igual período de 2011:
- aumento do IRS de 13,1% para 3.333 milhões de euro
- redução do IRC de 15% para 1.819 milhões de euro
- redução do IVA de 2,8% para 5.719 milhões de euro
PS em 2 de julho de 2012 - defice público no 1ºtrimestre de 2012: 7,9% do PIB; sendo o objetivo para 2012 de 4,5%, seria necessário que em cada um dos três trimestres seguintes o défice fosse de 3,4%, o que parece muito dificil com as medidas trecessivas tomadas pelo governo. Entretanto, ignora-se qual o défice privado, de particulares, de bancos e de empresas, o que significa que não está a haver monitorização e controle do endividamento; tinham pois razão os econmistas que reivindicaram uma auditoria à dívida, para se saber para onde está a ir o dinheiro. Enfim, malefícios do contexto.
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domingo, 3 de junho de 2012
Austeridade-crescimento
http://fcsseratostenes.blogspot.pt/2012/04/voltando-as-analises-de-dados-e-taxa-de.html
Voltando ao tema do post de 7 de Abril de 2012, com a evolução da taxa de desemprego ao longo das ultimas décadas.
Talvez que o dilema que se discute hoje na politica portuguesa não esteja bem traduzido pelas palavras – ou austeridade ou crescimento.
A politica do governo não é de austeridade, que com austeridade até se vive bem.
Trata-se antes de uma politica declaradamente de desemprego, para conter a procura (lei de Philips: a inflação varia inversamente relativamente ao desemprego) , diminuir as importações e assim equilibrar as balanças de pagamentos e o deve-haver do orçamento, dentro dos limites acordados para o défice (já que para o endividamento já se sabe que, graças ao aumento dos juros, a divida publica continua a subir). Apesar de não ser na fatia dos rendimentos de trabalho que está a maior quota das despesas.
A politica da oposição não deveria ser tão só de crescimento. A diminuição do PIB já é uma fatalidade; impor-se-ia uma politica de diminuição de danos. Julgo que seria assim correta uma seleção de atividades a desenvolver para incluir no PIB. Isso obrigaria a um grande esforço de planeamento e de elaboração de projetos (nomeadamente para submissão ao QREN ou seu sucedâneo) a realizar transversalmente na sociedade portuguesa sem monopólios ou duopólios partidários.
Mas como se costuma dizer neste blogue, isto são vozes de burro que não chegam aos céus.
Voltando ao tema do post de 7 de Abril de 2012, com a evolução da taxa de desemprego ao longo das ultimas décadas.
Talvez que o dilema que se discute hoje na politica portuguesa não esteja bem traduzido pelas palavras – ou austeridade ou crescimento.
A politica do governo não é de austeridade, que com austeridade até se vive bem.
Trata-se antes de uma politica declaradamente de desemprego, para conter a procura (lei de Philips: a inflação varia inversamente relativamente ao desemprego) , diminuir as importações e assim equilibrar as balanças de pagamentos e o deve-haver do orçamento, dentro dos limites acordados para o défice (já que para o endividamento já se sabe que, graças ao aumento dos juros, a divida publica continua a subir). Apesar de não ser na fatia dos rendimentos de trabalho que está a maior quota das despesas.
A politica da oposição não deveria ser tão só de crescimento. A diminuição do PIB já é uma fatalidade; impor-se-ia uma politica de diminuição de danos. Julgo que seria assim correta uma seleção de atividades a desenvolver para incluir no PIB. Isso obrigaria a um grande esforço de planeamento e de elaboração de projetos (nomeadamente para submissão ao QREN ou seu sucedâneo) a realizar transversalmente na sociedade portuguesa sem monopólios ou duopólios partidários.
Mas como se costuma dizer neste blogue, isto são vozes de burro que não chegam aos céus.
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sexta-feira, 4 de maio de 2012
Falas de governantes - a conjugação do verbo "precular" pelo senhor ministro das finanças, Vitor Gaspar
Lido pelo senhor ministro das finanças na assembleia da Republica:
“o DEO (documento de estratégia orçamental) , como documento de trabalho para efeitos do MOU (memorandum of understanding) , não precule a sua apreciação em simultâneo pelo Parlamento, razão pela qual se prevê no calendário acima a obrigação de submissão à Assembleia da República antes da sua conclusão definitiva”.
Pode ser irrelevante debruçar-nos sobre isto, mas eu diria que é importante aplicar a semiótica para tentarmos ver se há algum problema de dificuldade de expressão do senhor ministro ou se o excesso de preocupações perturbou os seus mecanismos de linguagem.
Veja-se o caso do colega do senhor ministro das finanças com a pasta dos assuntos parlamentares, que confessou que o governo não consegue dormir por causa do desemprego (sugere-se que algum economista do governo explique ao senhor ministro a lei de Philips, que correlaciona o custo de vida baixo com a taxa de desemprego elevada).
Se assim for, esta crítica será bem mais útil ao senhor ministro das finanças, que assim poderá atacar as causas da sua instabilidade linguística, do que os aplausos dos admiradores de linguagem tão rebuscada.
Depois do senhor ministro ter citado Pangloss (personagem do Candide de Voltaire, defensor de “tudo vai pelo melhor no melhor dos mundos”) para criticar os adversários da austeridade “a tout prix”, foi criado um nível de exigência linguístico que justifica determo-nos um pouco sobre a frase supra.
1 – “precule”- Deduzo que se trata do tempo de um verbo. Talvez do verbo “precular”.
Perguntei à minha amiga professora de português se sabia deste verbo; não sabia. Consultei o Houaiss e a internet. Nada.Pensei ser uma corruptela de percolar, aquela assunção de humidade passando por capilaridade pelos interstícios do cimento, como se este fosse um filtro, mas fazia pouco sentido, dizer que o DEO não filtra ou não é filtrado na assembleia.
De modo que, por sugestão da internet, me pareceu que houve aqui uma confusão da linguagem anglo-saxónica com o raciocínio da expressão em português.
Tentemos o verbo “to preclude” (tornar impossível):
http://www.thefreedictionary.com/preclude
Talvez, talvez seja isso, a vasta experiencia internacional do senhor ministro, sempre a exprimir-se, longe da realidade portuguesa, na língua de Shakespeare, mesmo que recorrendo a termos de pouco uso como “preclude”, é natural que o lapso surja.
Ficaria então que “o DEO não se torna impossível de ser apreciado em simultâneo pelo parlamento…”
Mas a internet sugeriu outra coisa, também digna da cultura clássica do senhor ministro, uma criação de Rabelais:
http://www.jimena.com/cocina/apartados/rab_pant.html
Transcrevo uma frase do texto de Pantagruel e Gargantua, chamando a atenção para que os barbarismos neo-latinos de Rabelais são da sua lavra:
“Et submirmillant mes precules horaires, elue & absterge mon anime de ses inquinames nocturnes…”
Que talvez possa traduzir-se assim:
“e sussurrando as minhas preces diárias, elevo e liberto a minha alma das inquietações nocturnas…”
E aqui está, também faz sentido, “precule” como oração, prece, numa altura em que as preces da senhora ministra Assunção se converteram em água, como em rosas os pães da rainha santa. O senhor ministro das finanças a “precular” pela conversão dos mercados…
2 – “conclusão definitiva” – eu sei que a legitimidade democrática da maioria absoluta tem dispensado os senhores ministros de pensar bem e avaliar a extensão possível do que dizem, mas se não exercem esse auto-controle nos conceitos, podiam usar nas redundâncias, não?
PS em 9 de maio de 2012 - Ignorancia a minha, que o meu amigo jurídico me pôs a nu: o preclude anglo-saxónico é latim, e jurídico; tem o étimo precludis ou precludere, e deu em português o precluir ou precludir , que só os jurídicos usam, ou os senhores financeiros gostariam de usar na sua forma correta. Precule é que não, como se costuma dizer, a menos que se quisesse usar no sentido da prece gargantuesca.
“o DEO (documento de estratégia orçamental) , como documento de trabalho para efeitos do MOU (memorandum of understanding) , não precule a sua apreciação em simultâneo pelo Parlamento, razão pela qual se prevê no calendário acima a obrigação de submissão à Assembleia da República antes da sua conclusão definitiva”.
Pode ser irrelevante debruçar-nos sobre isto, mas eu diria que é importante aplicar a semiótica para tentarmos ver se há algum problema de dificuldade de expressão do senhor ministro ou se o excesso de preocupações perturbou os seus mecanismos de linguagem.
Veja-se o caso do colega do senhor ministro das finanças com a pasta dos assuntos parlamentares, que confessou que o governo não consegue dormir por causa do desemprego (sugere-se que algum economista do governo explique ao senhor ministro a lei de Philips, que correlaciona o custo de vida baixo com a taxa de desemprego elevada).
Se assim for, esta crítica será bem mais útil ao senhor ministro das finanças, que assim poderá atacar as causas da sua instabilidade linguística, do que os aplausos dos admiradores de linguagem tão rebuscada.
Depois do senhor ministro ter citado Pangloss (personagem do Candide de Voltaire, defensor de “tudo vai pelo melhor no melhor dos mundos”) para criticar os adversários da austeridade “a tout prix”, foi criado um nível de exigência linguístico que justifica determo-nos um pouco sobre a frase supra.
1 – “precule”- Deduzo que se trata do tempo de um verbo. Talvez do verbo “precular”.
Perguntei à minha amiga professora de português se sabia deste verbo; não sabia. Consultei o Houaiss e a internet. Nada.Pensei ser uma corruptela de percolar, aquela assunção de humidade passando por capilaridade pelos interstícios do cimento, como se este fosse um filtro, mas fazia pouco sentido, dizer que o DEO não filtra ou não é filtrado na assembleia.
De modo que, por sugestão da internet, me pareceu que houve aqui uma confusão da linguagem anglo-saxónica com o raciocínio da expressão em português.
Tentemos o verbo “to preclude” (tornar impossível):
http://www.thefreedictionary.com/preclude
Talvez, talvez seja isso, a vasta experiencia internacional do senhor ministro, sempre a exprimir-se, longe da realidade portuguesa, na língua de Shakespeare, mesmo que recorrendo a termos de pouco uso como “preclude”, é natural que o lapso surja.
Ficaria então que “o DEO não se torna impossível de ser apreciado em simultâneo pelo parlamento…”
Mas a internet sugeriu outra coisa, também digna da cultura clássica do senhor ministro, uma criação de Rabelais:
http://www.jimena.com/cocina/apartados/rab_pant.html
Transcrevo uma frase do texto de Pantagruel e Gargantua, chamando a atenção para que os barbarismos neo-latinos de Rabelais são da sua lavra:
“Et submirmillant mes precules horaires, elue & absterge mon anime de ses inquinames nocturnes…”
Que talvez possa traduzir-se assim:
“e sussurrando as minhas preces diárias, elevo e liberto a minha alma das inquietações nocturnas…”
E aqui está, também faz sentido, “precule” como oração, prece, numa altura em que as preces da senhora ministra Assunção se converteram em água, como em rosas os pães da rainha santa. O senhor ministro das finanças a “precular” pela conversão dos mercados…
2 – “conclusão definitiva” – eu sei que a legitimidade democrática da maioria absoluta tem dispensado os senhores ministros de pensar bem e avaliar a extensão possível do que dizem, mas se não exercem esse auto-controle nos conceitos, podiam usar nas redundâncias, não?
PS em 9 de maio de 2012 - Ignorancia a minha, que o meu amigo jurídico me pôs a nu: o preclude anglo-saxónico é latim, e jurídico; tem o étimo precludis ou precludere, e deu em português o precluir ou precludir , que só os jurídicos usam, ou os senhores financeiros gostariam de usar na sua forma correta. Precule é que não, como se costuma dizer, a menos que se quisesse usar no sentido da prece gargantuesca.
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segunda-feira, 26 de março de 2012
Arte de rua
Considere-se, por exemplo, Marie Cochon, que protesta através da sua arte contra a exorbitancia da ganancia às custas de terceiros:
http://www.eberstaller.at/en/marie-cochon/
Digamos que não é a argumentação ingénua e naife dos sindicatos que invocam a luta de classes por se assistir à redução do poder de compra dos assalariados e dos direitos dos empregados (considerados como regalias) e ao aumento da taxa de desemprego, que dá mais razão à acusação das primeiras edições do manifesto do partido comunista, no seu apelo, também naife, em termos modernos, à luta violenta.
Digamos que é a insistencia cega de quem detem o poder económico e financeiro no conceito do lucro e da ganancia como objetivo prioritário das empresas que defende essa visão naife.
Podemos não compreender os argumentos dos especialistas de economia, mas compreendemos esta arte de rua (suponho que não serão notas verdadeiras).
A ganancia, parafraseando Columbano Bordalo Pinheiro, a grande porca.
E vamos para Banksy,
http://en.wikipedia.org/wiki/Banksy
a fazer lembrar os cravos na ponta das espingardas. Se a policia revista jovens à procura de armas, porque não pôr uma criança a revistar um policia à procura de cultura?
E por falar em policia armado, seria desejável que os militares pensassem e vivessem a cultura de que falei a propósito da criança.
O exército tem uma função importantissima em democracia, por exemplo, o que a arma de engenharia tem feito na reconstruçao do Líbano (e é capaz de fazer em caso de catástrofes), o que o exército português fez numa altura em que o anafabetismo era um flagelo (e ainda devia fazer em termos de formação profissional, mas a ordem que vem de cima é cortar cegamente).
É essa a intenção desta caricatura, para se compreender melhor a necessidade de retirar do Afeganistão e de não repetir os erros que levaram à desgraçada intervenção, não é ofender:
Ver a análise de Spencer Oliver, secretário geral da assembleia parlamentar da OSCE (organização para a segurança e cooperação na Europa) em:
http://noticias.pt.msn.com/internacional/envolvimento-militar-dos-eua-no-afeganist%c3%a3o-foi-um-erro-hist%c3%b3rico-do-partido-democrata-2
E não sendo arte de rua, que dizer desta caricatura de José Bandeira, no Cravo e Ferradura do DN?
Possivelmente que, à boa maneira portuguesa, com raízes no comportamento pré-romano dos lusitanos, vai surgir da direita, por trás do senhor banqueiro ou investidor, não se vê bem na caricatura, um senhor salvador, que manda, muito preocupado com as dificuldades sentidas pelo povo português em plena austeridade, dificuldades essas que não tinham sido previstas (?!!?), assegurando que os sacrifícios serão por igual para todos (um corte de 10% em quem tem rendimentos insuficientes tem o mesmo efeito de um corte de 10% em quem tem acumulação de rendimentos?). Sugere-se a leitura do enunciado da lei de Philips, para melhorar a capacidade previsional em questões de taxa de desemprego.
http://www.eberstaller.at/en/marie-cochon/
| (com a devida vénia ao DN) |
Digamos que não é a argumentação ingénua e naife dos sindicatos que invocam a luta de classes por se assistir à redução do poder de compra dos assalariados e dos direitos dos empregados (considerados como regalias) e ao aumento da taxa de desemprego, que dá mais razão à acusação das primeiras edições do manifesto do partido comunista, no seu apelo, também naife, em termos modernos, à luta violenta.
Digamos que é a insistencia cega de quem detem o poder económico e financeiro no conceito do lucro e da ganancia como objetivo prioritário das empresas que defende essa visão naife.
Podemos não compreender os argumentos dos especialistas de economia, mas compreendemos esta arte de rua (suponho que não serão notas verdadeiras).
A ganancia, parafraseando Columbano Bordalo Pinheiro, a grande porca.
E vamos para Banksy,
http://en.wikipedia.org/wiki/Banksy
a fazer lembrar os cravos na ponta das espingardas. Se a policia revista jovens à procura de armas, porque não pôr uma criança a revistar um policia à procura de cultura?
| (com a devida vénia ao DN) |
E por falar em policia armado, seria desejável que os militares pensassem e vivessem a cultura de que falei a propósito da criança.
O exército tem uma função importantissima em democracia, por exemplo, o que a arma de engenharia tem feito na reconstruçao do Líbano (e é capaz de fazer em caso de catástrofes), o que o exército português fez numa altura em que o anafabetismo era um flagelo (e ainda devia fazer em termos de formação profissional, mas a ordem que vem de cima é cortar cegamente).
É essa a intenção desta caricatura, para se compreender melhor a necessidade de retirar do Afeganistão e de não repetir os erros que levaram à desgraçada intervenção, não é ofender:
![]() |
| (com a devida vénia a "urban art, best of 2011") |
Ver a análise de Spencer Oliver, secretário geral da assembleia parlamentar da OSCE (organização para a segurança e cooperação na Europa) em:
http://noticias.pt.msn.com/internacional/envolvimento-militar-dos-eua-no-afeganist%c3%a3o-foi-um-erro-hist%c3%b3rico-do-partido-democrata-2
E não sendo arte de rua, que dizer desta caricatura de José Bandeira, no Cravo e Ferradura do DN?
Possivelmente que, à boa maneira portuguesa, com raízes no comportamento pré-romano dos lusitanos, vai surgir da direita, por trás do senhor banqueiro ou investidor, não se vê bem na caricatura, um senhor salvador, que manda, muito preocupado com as dificuldades sentidas pelo povo português em plena austeridade, dificuldades essas que não tinham sido previstas (?!!?), assegurando que os sacrifícios serão por igual para todos (um corte de 10% em quem tem rendimentos insuficientes tem o mesmo efeito de um corte de 10% em quem tem acumulação de rendimentos?). Sugere-se a leitura do enunciado da lei de Philips, para melhorar a capacidade previsional em questões de taxa de desemprego.
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sexta-feira, 2 de março de 2012
Peculato e "reprogramação estratégica"
Do dicionário: peculato - crime de desvio, por abuso de confiança, de dinheiro público para proveito próprio ou alheio, por funcionário público que o administra.
Esgota-se-me a paciência para eufemismos.
Quando oiço o senhor primeiro ministro dizer que desviar o dinheiro de obras paradas mas de financiamento, anteriormente aprovado, pelos fundos do QREN, para medidas difusas contra o desemprego jovem é “reprogramação estratégica” desses fundos, não posso concordar, porque para mim é peculato.
Peculato é crime e poderá ter atenuantes em função dos objetivos.
Peculato é pegar numa verba orçamentada para uma coisa e gastá-la noutra coisa com prejuízo da primeira.
O QREN, no seu programa 2007-2013, já tem 37%, do total de 21 mil milhões de euros, alocado à qualificação dos recursos humanos
(http://www.qren.pt/item3.php?lang=0&id_channel=34&id_page=202 );
compete a quem foi eleito para o governo gerir o programa e administrar bem as verbas em vez de se queixar do governo anterior ou iludir os eleitores com medidas do tipo “o que era bom era”
QREN é um programa que visa operacionalizar fatores de competitividade e de valorização do território. Para esta função (valorizar o território, isto é, equipar o nosso país com infra-estruturas de que a sua economia depende, como modos de transporte mais eficientes energeticamente, e com menores emissões de CO2, do que viagens aéreas, refiro-me ao abortar do TGV) alocaram-se 55%.
Esta notícia vem sobrepor-se à recente notícia de que a receita fiscal está a ficar inferior ao orçamentado e poderá impor um novo orçamento retificativo para 2012 (situação previsível e motivo de aviso público ao senhor ministro das finanças com base na curva de Laffer, subindo a receita cobrada primeiro e descendo depois, entre o ponto de receita zero quando a relação entre o imposto e a receita é zero, até ao ponto de receita zero quando a relação entre o imposto e a receita é 1).
E à notícia de que o número de desempregados ultrapassou o que estava previsto no orçamento de estado.
Isto é, a dois terços do primeiro trimestre de execução orçamental existem desvios que indiciam claro desfasamento da realidade por parte de quem elaborou o orçamento (pondo de parte a elaboração deliberadamente errada do orçamento, o que configuraria crime) e evidente ignorância da lei de Philips, frequentemente referida neste blogue (existe uma correlação fortemente positiva entre as políticas de contenção de preços praticadas pelo BCE e pelos governos subservientes, e a taxa de desemprego da população ativa; isto é, para conter a procura do consumo que estimula o aumento dos preços, a arma mais eficaz é promover o desemprego).
E à terrível notícia de que o governo se comprometeu com um defice estrutural de 0,5% . Terrível pelo que isso significa de estrangulamento do investimento em infra-estruturas indispensáveis para o funcionamento regular da economia, e pelo que isso significa de incompreensão e falta de sensibilidade para as questões técnicas e físicas das comunidades.
Perante estes casos de indícios de peculato e de incapacidade de análise das tendências de variáveis económicas e financeiras, recordo da minha vida profissional a deficiência que os jovens economistas evidenciavam quando entravam na empresa: ignoravam completamente como o negócio da empresa funcionava, isto é, produzir passageiros.km, como se justificavam investimentos que concorressem para essa produção, que relações de causa e efeito existiam entre decisões concretas, nas frentes de trabalho e não nas análises de quadros de receitas e despesas (agora diz-se proveitos e gastos).
Verifico que se passa o mesmo com os decisores económicos do BCE e do governo português. As decisões são tomadas sem saber para que serve o túnel do Marão ou o TGV e que relações de causa e efeito existem entre a decisão de os parar, o desemprego e a recessão económica (claro que quanto maior for a recessão económica agora maior será o crescimento dentro de uns anos).
Penso que compete aos técnicos deste país denunciar esta situação. Que parar uma obra ou suspender uma atividade técnica é sinal de que o “now-how” se pode perder e que o rearranque se fará à custa de gastos adicionais.
É uma lei da física, mais vale manter uma pequena atividade (por exemplo, o ministério do fomento espanhol lançou recentemente o concurso para um pequeno troço para um túnel em via única, complementar de outro túnel á existente, para a ligação em TGV (AVE) entre Madrid e a Galiza). Gasta-se mais dinheiro parando tudo e voltando a arrancar mais tarde, do que manter uma ligeira atividade.
Mas os economistas decisores, que nunca trabalharam nas frentes de trabalho, ignoram isto e não acreditam no que os técnicos lhes dizem.
Salvo melhor opinião, propostas de peculato e desvios orçamentais deste calibre são indício de que as instituições não estão a funcionar corretamente, circunstancia prevista na constituição da república portuguesa.
Mas também é verdade que a democracia tem poucas armas para se defender desta circunstancia, num país em que é muito difícil as pessoas organizarem-se em equipas multi-disciplinares em que não interesse a filiação ideológica ou partidária do membros. E assim é muito difícil melhorar.
Contrariando o que dizem ilustres comentadores, inclusive o que o economista P.Krugman veio dizer, direi que existem alternativas, á referidas neste blogue, quando referi o manifesto dos economistas aterrados
(http://fcsseratostenes.blogspot.com/search?q=economistas+aterrorizados
http://fcsseratostenes.blogspot.com/2010/10/economicomio-lxi-as-medidas-contra.html)
e o livro de Luís Monteiro “Os ultimos 200 anos da nossa economia e os próximos 30 anos”
(http://fcsseratostenes.blogspot.com/search?q=um+livro+excecional ).
Mas como digo, quando não se quer ouvir o que o outro diz, é como se ele estivesse calado.
PS - Existe coerencia do governo em querer um defice estrutural de 0,5%, em paralisar os investimentos QREN com fundos europeus, em esvaziar as funções do ministério da economia ao transferir a getão do QREN para o ministéro das finanças. Como bom contabilista, o senhor ministro da finanças fará uma gestão cega, para cumprir o défice estrutural. Não sabem o que fazem, por um lado, mas sabem o que fazem por outro, quando criam a ilusão do passaporte jovem para os estágios.
PS em 14 de outubro de 2012 - Tomo conhecimento com repugnancia dos indícios de cronycapitalism nas relações entre o secretário de estado da administração interna do governo de Durão Barroso em 2004 e a empresa Tecnoforma em que então trabalhava o atual primeiro ministro, ao adjudicar a principal fatia dos fundos Foral para empresas de formação. A suspensão do QREN em 2011 e o desvio de fundos anteriormente alocados a obras de infraestruturas para ações de formação permite colocar a hipótese de que o governo ignora a importancia da construção de infraestruturas, mas conhece profundamente o negócio dos cursos de formação. Trata-se de uma situação que mereceria investigação por parte da procuradoria da República mesmo sem denuncia particular. Agiardemos.
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quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
Cenas da vida quotidiana de um cidadão em Portugal, Lisboa, em dezembro de 2011
Cena 1 - Talão abandonado numa caixa Multibanco, no Centro Comercial Colombo:
Levantamento, montante: 60,00 euros
saldo contabilistico: 593,51 euro
saldo disponivel: 601,41 euro
saldo autorizado: 19,73 euro
Após a operação de levantamento, o distraido detentor da conta ficou a saber que pode movimentar 19,73 euros, e que tem de aguardar que lhe depositem na conta o seu ordenado, de cerca de 600 euros, para poder usufrui-lo. Este tempo de espera resulta em beneficio para os bancos. O valor médio de uma renda de casa modesta em Lisboa é de 450 euro. Sobram 150 euro. Segundo um dos membros da troica, os salários em Portugal devem baixar porque atualmente são mais altos do que o valor que é produzido.
Cena 2 - Numa carruagem de metro na linha verde, um rapazinho, talvez de 9 anos, para o pai:
"porque não vamos à Assembleia falar com eles, com o primeiro ministro, para ajudar a resolver a crise? Há tantas lojas a fechar e pessoas desempregadas, que podiamos empregar essas pessoas nas lojas"
"Pois, dizia o pai, mas não pode ser só lojas, alguem tem de produzir nas fábricas, nos campos"
"É nisso que podiamos ajudar o Passos Coelho, dizer-lhe que podia empregar essas pessoas"
O pai sorria, mas era um sorriso triste.
O menino, que tem aspeto de inteligente e generoso, aprenderá um dia a lei de Philips: existe uma correlação fortemente positiva entre o desemprego e a contenção dos preços (a contenção dos preços é a politica oficial do BCE, a qual não foi sujeita a eleições pelos cidadãos e cidadãs europeus)
Cena 3 - Na sala de espera de um hospital privado, 01:30.
Ao fim de uma hora e dez minutos de espera, abriu-se a porta de um dos consultórios e é chamado o nome do cidadão que esperava. Não houve triagem para avaliar o estado de gravidade do cidadão.
No jornal desse dia vinha anunciado o aumento dos custos para os utilizadores dos hospitais públicos e, no jornal do dia seguinte, a de que qualquer cidadão ou cidadã sem capacidade para pagar as despesas no hospital público pode registar no sistema informático das finanças a sua isenção (antigamente, no tempo do para-fascismo, chamava-se atestado de pobreza, que era obtido na junta de freguesia).
Espera-se aumento da procura de hospitais privados.
Espera-se aumento do tempo de espera.
Levantamento, montante: 60,00 euros
saldo contabilistico: 593,51 euro
saldo disponivel: 601,41 euro
saldo autorizado: 19,73 euro
Após a operação de levantamento, o distraido detentor da conta ficou a saber que pode movimentar 19,73 euros, e que tem de aguardar que lhe depositem na conta o seu ordenado, de cerca de 600 euros, para poder usufrui-lo. Este tempo de espera resulta em beneficio para os bancos. O valor médio de uma renda de casa modesta em Lisboa é de 450 euro. Sobram 150 euro. Segundo um dos membros da troica, os salários em Portugal devem baixar porque atualmente são mais altos do que o valor que é produzido.
Cena 2 - Numa carruagem de metro na linha verde, um rapazinho, talvez de 9 anos, para o pai:
"porque não vamos à Assembleia falar com eles, com o primeiro ministro, para ajudar a resolver a crise? Há tantas lojas a fechar e pessoas desempregadas, que podiamos empregar essas pessoas nas lojas"
"Pois, dizia o pai, mas não pode ser só lojas, alguem tem de produzir nas fábricas, nos campos"
"É nisso que podiamos ajudar o Passos Coelho, dizer-lhe que podia empregar essas pessoas"
O pai sorria, mas era um sorriso triste.
O menino, que tem aspeto de inteligente e generoso, aprenderá um dia a lei de Philips: existe uma correlação fortemente positiva entre o desemprego e a contenção dos preços (a contenção dos preços é a politica oficial do BCE, a qual não foi sujeita a eleições pelos cidadãos e cidadãs europeus)
Cena 3 - Na sala de espera de um hospital privado, 01:30.
Ao fim de uma hora e dez minutos de espera, abriu-se a porta de um dos consultórios e é chamado o nome do cidadão que esperava. Não houve triagem para avaliar o estado de gravidade do cidadão.
No jornal desse dia vinha anunciado o aumento dos custos para os utilizadores dos hospitais públicos e, no jornal do dia seguinte, a de que qualquer cidadão ou cidadã sem capacidade para pagar as despesas no hospital público pode registar no sistema informático das finanças a sua isenção (antigamente, no tempo do para-fascismo, chamava-se atestado de pobreza, que era obtido na junta de freguesia).
Espera-se aumento da procura de hospitais privados.
Espera-se aumento do tempo de espera.
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quinta-feira, 10 de novembro de 2011
Economicómio LXXIV - Fluxo de capitais
Dum editorial do DN retiro a seguinte informação:
- cidadãos gregos depositaram em bancos suiços 280 mil milhões de euros, valor superior ao da dívida grega;
- no 3º trimestre de 2011 cidadãos italianos fizeram o mesmo no valor de 80 mil milhões de euros;
De acordo com um discurso de Francisco Louçã, aos 9 de novembro de 2011, a transferencia de divisas de Portugal para off-shores atinge 6 milhões de euros por dia, ou 1.600 milhões de euros por ano.
De acordo com informação de cuja origem não me recordo, os depósitos de particulares nos bancos portugueses atingiram o valor de 127 mil milhões de euros, valor superior à divida pública portuguesa, incluindo autarquias e empresas públicas.
Nestas condições, custa a um ignorante de economia como eu acreditar na tese bancária de que há problemas de liquidez.
Perante a existencia destes numeros, a proposta de Francisco Louçã é a de taxar os bens patrimoniais de luxo, incluindo depósitos elevados.
Isso permitiria reduzir os cortes do 13º e 14º meses.
Porém, subsiste a questão de se ter prometido à troica que as poupanças a obter viriam 1/3 do aumento da receita e 2/3 da diminuição das despesas.
Alguém se enganou na avaliação das "gorduras" do Estado, embora elas tivessem sido muito faladas durante a campanha eleitoral. Tanto falaram nelas que nelas acreditaram.
Afinal o Estado não era tão gordo como isso e os institutos e fundações, embora tivessem dado abrigo a correlegionários, e apesar da baixa produtividade, até prestavam serviço útil e agora há dificuldade em cortar nas suas despesas.
Mas vamos admitir que há problemas de liquidez.
Os manuais falam na possibilidade de emissão de moeda e de desvalorização da moeda (do euro), pagando o custo do aumento da inflação, mas beneficiando da diminuição do desemprego (lei de Philips: o custo de vida sobe quando o desemprego diminui).
Salvo melhor opinião, seria o programa de trabalho para os governos, mas algo me diz que não é isso que os senhores governantes desejariam, diminuir o desemprego.
É pena, porque Francisco Louçã diz que há alternativa ao orçamento para 2012 e que vai apresentar as contas que demonstram que não seria necessário cortar os 13º e 14º meses.
Aguardemos então essas contas.
- cidadãos gregos depositaram em bancos suiços 280 mil milhões de euros, valor superior ao da dívida grega;
- no 3º trimestre de 2011 cidadãos italianos fizeram o mesmo no valor de 80 mil milhões de euros;
De acordo com um discurso de Francisco Louçã, aos 9 de novembro de 2011, a transferencia de divisas de Portugal para off-shores atinge 6 milhões de euros por dia, ou 1.600 milhões de euros por ano.
De acordo com informação de cuja origem não me recordo, os depósitos de particulares nos bancos portugueses atingiram o valor de 127 mil milhões de euros, valor superior à divida pública portuguesa, incluindo autarquias e empresas públicas.
Nestas condições, custa a um ignorante de economia como eu acreditar na tese bancária de que há problemas de liquidez.
Perante a existencia destes numeros, a proposta de Francisco Louçã é a de taxar os bens patrimoniais de luxo, incluindo depósitos elevados.
Isso permitiria reduzir os cortes do 13º e 14º meses.
Porém, subsiste a questão de se ter prometido à troica que as poupanças a obter viriam 1/3 do aumento da receita e 2/3 da diminuição das despesas.
Alguém se enganou na avaliação das "gorduras" do Estado, embora elas tivessem sido muito faladas durante a campanha eleitoral. Tanto falaram nelas que nelas acreditaram.
Afinal o Estado não era tão gordo como isso e os institutos e fundações, embora tivessem dado abrigo a correlegionários, e apesar da baixa produtividade, até prestavam serviço útil e agora há dificuldade em cortar nas suas despesas.
Mas vamos admitir que há problemas de liquidez.
Os manuais falam na possibilidade de emissão de moeda e de desvalorização da moeda (do euro), pagando o custo do aumento da inflação, mas beneficiando da diminuição do desemprego (lei de Philips: o custo de vida sobe quando o desemprego diminui).
Salvo melhor opinião, seria o programa de trabalho para os governos, mas algo me diz que não é isso que os senhores governantes desejariam, diminuir o desemprego.
É pena, porque Francisco Louçã diz que há alternativa ao orçamento para 2012 e que vai apresentar as contas que demonstram que não seria necessário cortar os 13º e 14º meses.
Aguardemos então essas contas.
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quarta-feira, 22 de setembro de 2010
Noticiário do dia 22 de setembro de 2010
Do noticiário da RTP2 da noite do dia 22 de Setembro de 2010 cito de cor:
1 - Ministra do trabalho e da solidariedade social da república portuguesa: o nível do desemprego não vai baixar tão cedo
2 - Cidadão romeno, cigano, na sua terra na Roménia, depois de expulso de França: se aderimos à união europeia queremos que os nossos filhos tenham uma vida decente
O comentário seguinte é de um espetador do noticiário:
- 1 e 2 mostram claramente que a união europeia, apesar das suas manifestações de pureza de princípios, não tem como prioridade o cumprimento da Declaração Universal dos Direitos do Homem. Se é impossível ,ou insustentável como agora se diz, atribuir essa prioridade, pareceria importante explicar porquê. Igualmente seria interessante demonstrar a aplicabilidade ou não da lei de Philips (o custo de vida baixa com o crescimento do desemprego; para controlar o custo de vida, favorecer o aumento do desemprego) à situação atual, e quais as responsabilidades na política da globalização na atual situação de desemprego crescente. Para os cidadãos, de posse de mais informação, fazerem as suas opções de voto, desejavelmente extensível, o voto, à escolha dos governadores do banco central europeu.
Por outras palavras: a preocupação dos políticos e dos economistas devia ser arranjar empregos concretos para os cidadãos e cidadãs como o cidadão romeno do noticiário, em vez de estar à espera que as empresas privadas criem empregos. Como dizia o major Melo Antunes, há espaço para o setor público e para o setor privado, mas se um não cria emprego, tem de ser o outro a criar. Mesmo que o custo de vida suba um bocadinho (não é o que querem os senhores economistas, reduzir salários?). Dinheiro para investir vai havendo, pelo menos nos "off-shores" há.
1 - Ministra do trabalho e da solidariedade social da república portuguesa: o nível do desemprego não vai baixar tão cedo
2 - Cidadão romeno, cigano, na sua terra na Roménia, depois de expulso de França: se aderimos à união europeia queremos que os nossos filhos tenham uma vida decente
O comentário seguinte é de um espetador do noticiário:
- 1 e 2 mostram claramente que a união europeia, apesar das suas manifestações de pureza de princípios, não tem como prioridade o cumprimento da Declaração Universal dos Direitos do Homem. Se é impossível ,ou insustentável como agora se diz, atribuir essa prioridade, pareceria importante explicar porquê. Igualmente seria interessante demonstrar a aplicabilidade ou não da lei de Philips (o custo de vida baixa com o crescimento do desemprego; para controlar o custo de vida, favorecer o aumento do desemprego) à situação atual, e quais as responsabilidades na política da globalização na atual situação de desemprego crescente. Para os cidadãos, de posse de mais informação, fazerem as suas opções de voto, desejavelmente extensível, o voto, à escolha dos governadores do banco central europeu.
Por outras palavras: a preocupação dos políticos e dos economistas devia ser arranjar empregos concretos para os cidadãos e cidadãs como o cidadão romeno do noticiário, em vez de estar à espera que as empresas privadas criem empregos. Como dizia o major Melo Antunes, há espaço para o setor público e para o setor privado, mas se um não cria emprego, tem de ser o outro a criar. Mesmo que o custo de vida suba um bocadinho (não é o que querem os senhores economistas, reduzir salários?). Dinheiro para investir vai havendo, pelo menos nos "off-shores" há.
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terça-feira, 29 de setembro de 2009
Económico XXII - Reflexão sobre o Verão: o Verão na Irlanda, a lei de Philips, a razão de Marx e a idiossincracia portuguesa
O Verão irlandês
Discorrendo por aí, dou com um folheto turístico irlandês, perdido nos papeis do meu colega que calculou os diagramas de marcha para uma nova linha do metropolitano de Dublin.
Não vou repetir o lugar comum de que a Irlanda preferiu investir na educação e no desenvolvimento da industria com mão de obra altamente qualificada, em detrimento das suas infra-estruturas (tem poucas auto-estradas, não tem caminho de ferro de alta velocidade, Dublin não tem metropolitano que se veja).
Não vou porque a Irlanda, para além de ter tido uma quebra acentuada nos principais indicadores das suas estatísticas, está agora a desenvolver um programa intensivo para as suas infra-estruturas.
Além de que também em Portugal temos empresas de mão de obra altamente qualificada como a empresa do Prof.António Câmara (embora a fazer jogos e toques para telemóveis ou iPods) ou as nano tecnologias bio ou não - moleculares.
É bonito ver, em termos de planeamento integrado, que a Irlanda assume claramente que a região da capital tem de ser o motor do desenvolvimento de todo o país, e para isso precisa de infra-estruturas.
Mas o que me chamou a atenção e para o que vos peço também a vossa, se chegaram pacientemente até aqui, foram os termos do folheto: “Aproveite os maravilhosos dias de Verão na Irlanda, em Maio”.
Para nós Maio é o mês das flores, das giestas e da Primavera, mas as agências turísticas irlandesas querem lá os turistas e o Verão no primeiro dia de Maio.
A ser assim, o Verão irlandês será Maio-Junho-Julho. Agosto já é Outono, juntamente com Setembro e Outubro. E sim, o Inverno começa implacável em Novembro, quando a legião dos parentes mortos, ou de Todos os Santos, se abate sobre o mundo dos vivos na noite de Halloween.
E depois de, no último fim de semana de Outubro, Greenwich impor a sua vontade e repor a hora de Inverno, sincronizando-a com a hora TMG (é meio-dia quando o sol culmina por sobre o meridiano de Greenwich), para que as madrugadas de Inverno não sejam tão escuras (a hora atrasa, eliminando o convite da hora de Verão ao lazer de mais uma hora de luz solar ao fim do dia).
Novembro-Dezembro-Janeiro é o Inverno, para que a Primavera seja Fevereiro-Março-Abril.
De facto, os prunus florescem em Fevereiro (até antes, as nossas amendoeiras, em Janeiro, mas eu preferiria a variedade de florescer em Fevereiro, para proteger os frutos das geadas tardias).
Isto é, vejo consistência na proposta do Verão começar no dia dos trabalhadores.
A lei de Philips
E por falar em trabalhadores, graças aos aumentos da produtividade, serão os trabalhadores cada vez menos, até porque a lei de Philips convida ao desemprego.
Recordam-se? a lei de Philips traduz aquela correlação entre o aumento do desemprego e a diminuição do custo de vida (por outras palavras: a inflação combate-se aumentando o desemprego). Ou ainda, por outras palavras, os políticos que asseguram que vão combater o desemprego vão aumentar o custo de vida, o que é mau para todos, mas melhor para quem não tem emprego do que para quem tem emprego.
O que é óptimo para dividir de um lado os que têm emprego e vêem o seu poder de compra aumentar se houver níveis elevados de desemprego, e do outro quem não tem mas gostava de ter, só que não vai conseguir o poder de compra de quem já tem emprego.
Não há assim uma luta de classes no sentido simplista do termo, mas há um conflito de interesses.
Claro que não apenas um conflito de interesses, mas muitos conflitos, consoante o lugar ocupado por cada um na estrutura produtiva da comunidade e na sua estrutura social e cultural.
Donde, havendo muitos conflitos de interesse e diversas formas de estar nas estruturas (e ia a escrever super-estruturas, mas soaria a marxista), é natural que os eleitores estejam divididos.
E eleitores divididos é bom porque contribuem para que não haja maiorias absolutas que ignorem as preferências das minorias (temos de aprender alguma coisa com o fracasso da organização soviética, não acham? Um partido só a decidir o rumo da coisa pública não dá, pois não é verdade?).
A razão de Marx
Mas talvez eu esteja enganado e o número de trabalhadores não esteja a diminuir e então tenho de reflectir sobre isto.
Achei muita graça a um livrinho de dois senhores que se auto definem como dois académicos suecos que circula por aí : Funky Business, capitalism for ever.
“Funky” significa bem cheiroso, se bem que bem cheiroso aqui entronca na concepção antropológica dos cheiros de atracção sexual, digamos de maneira mais fina, cheiro a feromonas, e será aqui aplicado no sentido de inovador, balanceado e provocador como a musica “funk” (mistura de jazz, soul e blues ritmados), divertido, de olhos bem abertos para a realidade para progredir (não quero aborrecer ninguém, mas este é um dos princípios básicos de qualquer disciplina científica, adoptado também por Karl Marx na economia: observar a realidade, pôr hipóteses , testar a teoria, aplicar a teoria para melhorar o mundo ou dar felicidade às pessoas).
Perguntar-se-á, como na anedota do marido quando a mulher lhe disse que tinha ido ao salão de beleza; então porque não dão felicidade às pessoas?
E é aqui que entra o tal livrinho “Funky business”.
Dá, afinal dá; a teoria dá felicidade às pessoas. Porque foi a teoria da informação mais o teorema de Shannon da amostragem ,mais a teoria quântica da física electrónica que permitiram os toques de telemóvel e os televisores de LCD e de plasma que alegram o pessoal.
A tecnologia pode dar felicidade às pessoas. Gandhi também dizia isso, se bem que referindo-se à roca de fiar. Mas o investimento em software da nova Índia está de acordo com o pensamento de Gandhi.
Assim como a explosão tecnológica actual está de acordo com o pensamento de Marx.
Porquê?, porque Marx, tal como todos os seguidores do método científico, considerou o desenvolvimento tecnológico indissociável do desenvolvimento do processo histórico.
Apenas foi ingénuo, quando quis que os benefícios do progresso tecnológico permitissem uma vida mais feliz para as pessoas.
E na realidade permitiu, permitiu subir o nível de vida.
Apesar do triunfo das ideias neo-liberais, dos leitores precipitados de Adam Smith, terem cavado e alargado o fosso entre ricos e pobres (não vale a pena citar estatísticas, mil milhões de seres humanos a passar fome é o melhor atestado de incompetência dos economistas e políticos que nos conduziram ao ponto onde estamos, apesar das potencialidades da tecnologia e de já não haver a desculpa do bloco comunista para justificar a fome).
A acumulação de fortunas para além de um certo limite é um mau sinal do funcionamento da economia.
As listas das fortunas da Forbes e da Fortune, por mais felicidade que tragam aos seus leitores (não posso comprar o BMW de 550 CV, mas se a revista de automóveis não publicar um artigo circunstanciado sobre ele, deixo de comprar a revista), são um indicador da falência dos circuitos distributivo e dinamizador da economia. Se a fortuna se acumulou aqui, neste ponto, foi porque foi incapaz de gerar moeda a circular (possivelmente porque, de forma deliberada, a retiveram, em vez de a deixarem ir à sua vida). Se fossem o resultado das análises de um paciente num laboratório, seriam indicadores de que o sistema digestivo estava com prisão de ventre, em estado, diriam os médicos pré-Pasteur, hidrópico, a inchar o estômago e a deslassar os músculos do peritoneu.
Ingenuamente, podemos sugerir aos acumuladores que cortem ligeiramente nas suas margens de lucro, que façam isso porque os seus negócios ficarão pela certa mais competitivos.
E contudo, como dizem os dois académicos suecos citados, alguém, para produzir a riqueza acumulada, teve de trabalhar, i.é, sujeitar-se a actividades penosas, conscientes e úteis (definição do sociólogo Gurvitch).
Mesmo que esse alguém incluísse o principal accionista, ou que essas actividades fossem ilegais, como transportar armas clandestinamente, ou droga, ou diamantes (sendo um negócio de morte, o negócio das armas alimenta muitos outros seres humanos).
E embora os níveis de remuneração de toda a cadeia necessária para haver acumulação de fortunas sejam desiguais, e de uma forma gritantemente desigual, o facto é que muitos dos intervenientes nessas cadeias foram senhores do seu trabalho, não foram servos da gleba. E se o senhor russo quer ser dono duma grande equipa de futebol, os seus adeptos optam livremente por o financiar (ao dono).
Dominaram os seus processos de trabalho (quanto mais não seja convencendo a direcção de uma fábrica de que ao sábado, de momento, não pode ser; ou então fazendo o que era preciso, criar uma frase publicitária para ajudar à imagem do produto e da empresa, e depois calar-se até à próxima frase-sucesso).
É, os académicos suecos são capazes de ter razão quando explicam (logo ao princípio do livro, acrescentando que não deixem de comprar o livro por causa disso, se estiverem a apreciar as primeiras páginas, na dúvida compro, não compro) que, afinal Karl Marx tinha razão, porque muitos dos trabalhadores da actualidade (cujo conceito não coincide com o da classe operária; lembram-se de Lenine a escrever um opúsculo: A classe operária irá desaparecer? e por isso não dão o seu voto aos partidos chamados comunistas ou ex-comunistas) dominam os seus meios de produção, de uma forma ou outra.
Cinjamo-nos, para definir “trabalhador”, à relação biunívoca : trabalhador<>mais valia gerada (já imaginaram aonde pode levar este raciocínio: a opção em bolsa pelo desejo de comprar uma acção de uma empresa valorizou-a, a empresa ganhou uma encomenda por causa disso e então o pequeno investidor gerou mais valia? Isso é capitalismo popular ou é, como os suecos dizem, Marx a funcionar?).
E se generalizarmos a boutade de Lenine (bem, ele não disse bem o que eu vou dizer agora, mas estou a citar de cor e a ver se ajeito os factos à teoria, para ver depois se a teoria ficou bem sem deformar muito os factos) subimos do nível da produção de mais valias (direito ao emprego, direito ao trabalho, consignado no art.23º da Declaração Universal dos Direitos do Homem) aos níveis do lazer e da cultura (artos 24º e 27º da mesmissima Declaração) quando definirmos que a primeira tarefa depois dos trabalhadores subirem ao poder é absorver a cultura burguesa. I.é, o requinte de bem viver.
Pena que Malthus ainda esteja bem vivo, e que Adam Smith, com o seu interesse individual tão mal compreendido (não vou cansar-me de repetir que a mão invisível de que falava Adam Smith não era a mão invisível que remunera os audaciosos, era a mão invisível que castigava Macbeth e a sua mulher demasiado audaciosa, que certamente teriam aplicações tóxicas do Lehman Bros e dos “off-shores” se já houvesse Lehman Bros no tempo deles, porque “off-shores” sempre os houve, salvo melhor opinião) não deixe repartir fraternalmente o pouco que há para tantos.
Daí dependermos do avanço da tecnologia para fazer um bolo com fatias suficientes para todos, com a ameaça de a maioria do pessoal não querer estudar as maravilhas da tecnologia nem reduzir o consumo dos combustíveis fósseis... Não têm paciência, e agora com o IC16 e o IC30 inaugurados...
Admirável mundo novo.
Fascinante, como dizia o senhor Spock do Star trek.
A idiossincracia dos portugueses
Tudo isto a propósito de uma data para começar o Verão.
Afinal, talvez valha mais concordar que o Verão começa mesmo em Maio e que Agosto é mês para voltar ao trabalho, em lugar de debandar da cidade.
Apesar do calor.
Já repararam que, quanto mais importante é o cargo que um português exerce, ou que pensa que é, mais tarde em Agosto ele marca as suas férias, mas tem de ser em Agosto, porque a importância mede-se pelo grau de insubstituibilidade (a intensidade deste barbarismo é proporcional ao grau de auto-estima) do cidadão, pela vontade de adiar o mais possivel a separação do local de trabalho (vêem, por mais importante que a pessoa seja, tem um local de trabalho, logo é trabalhador, como dizia Marx, e o partido em que vota é marxista, quod eramus demonstrandum).
A menos que seja um grande proprietário de terras acima do centro do País. E aí pode ser Setembro por causa das vindimas.
Mas Portugal está a sincronizar-se com a Europa e as vindimas são cada vez mais cedo. (Ou será o aquecimento global? Ou a escolha das castas? Ou o recurso a estufas?).
E as azeitonas portuguesas não querem ficar atrás e já pedem o varejo em Novembro.
Insistamos no vinho e no azeite. Não liguem ao desabafo infeliz do presidente do instituto do apoio à exportação (“Portugal não pode continuar a ser o país do bacalhau e do azeite”). Portugal não deverá nunca deixar de ser um país de vinho e de azeite (Drucker dixit, lembram-se, chamando-lhes clusters ou grupos tradicionais).
Aproveitem a azeitona para tudo, até para lubrificante e óleo de iluminação; não a deixem estragar-se ingloriamente.
Talvez a questão seja simples e não passe de mais uma influência determinista do clima na idiossincracia de um povo. Gostamos que seja Verão para o tarde, e que ele se prolongue por Setembro.
Somos periféricos e por isso gostamos de fazer as coisas de maneira diferente.
Infelizmente vamos ter de nos adaptar a trabalhar com o calor, em Agosto e Setembro também.
Saudemos a chegada do Verão no dia dos trabalhadores.
Aproveitemos as férias em Maio, Junho ou Julho.
Como disse, é um direito, consignado na Declaração dos Direitos do Homem, artigo 24º.
Acham muito radical, o primeiro de Maio?
Pronto, adiemos por um mês, podem ir de férias a 1 de Junho, dia de início do Verão (e da época balnear…), e mais próximo do dia do solstício, quando a noite é mais curta.
Mas então o Verão acaba a 31 de Agosto, quando a transumância regressa, auto-estrada acima, do Algarve para o Norte, e se desmontam as discotecas de praia.
Eu sabia que íamos chegar a um acordo.
Discorrendo por aí, dou com um folheto turístico irlandês, perdido nos papeis do meu colega que calculou os diagramas de marcha para uma nova linha do metropolitano de Dublin.
Não vou repetir o lugar comum de que a Irlanda preferiu investir na educação e no desenvolvimento da industria com mão de obra altamente qualificada, em detrimento das suas infra-estruturas (tem poucas auto-estradas, não tem caminho de ferro de alta velocidade, Dublin não tem metropolitano que se veja).
Não vou porque a Irlanda, para além de ter tido uma quebra acentuada nos principais indicadores das suas estatísticas, está agora a desenvolver um programa intensivo para as suas infra-estruturas.
Além de que também em Portugal temos empresas de mão de obra altamente qualificada como a empresa do Prof.António Câmara (embora a fazer jogos e toques para telemóveis ou iPods) ou as nano tecnologias bio ou não - moleculares.
É bonito ver, em termos de planeamento integrado, que a Irlanda assume claramente que a região da capital tem de ser o motor do desenvolvimento de todo o país, e para isso precisa de infra-estruturas.
Mas o que me chamou a atenção e para o que vos peço também a vossa, se chegaram pacientemente até aqui, foram os termos do folheto: “Aproveite os maravilhosos dias de Verão na Irlanda, em Maio”.
Para nós Maio é o mês das flores, das giestas e da Primavera, mas as agências turísticas irlandesas querem lá os turistas e o Verão no primeiro dia de Maio.
A ser assim, o Verão irlandês será Maio-Junho-Julho. Agosto já é Outono, juntamente com Setembro e Outubro. E sim, o Inverno começa implacável em Novembro, quando a legião dos parentes mortos, ou de Todos os Santos, se abate sobre o mundo dos vivos na noite de Halloween.
E depois de, no último fim de semana de Outubro, Greenwich impor a sua vontade e repor a hora de Inverno, sincronizando-a com a hora TMG (é meio-dia quando o sol culmina por sobre o meridiano de Greenwich), para que as madrugadas de Inverno não sejam tão escuras (a hora atrasa, eliminando o convite da hora de Verão ao lazer de mais uma hora de luz solar ao fim do dia).
Novembro-Dezembro-Janeiro é o Inverno, para que a Primavera seja Fevereiro-Março-Abril.
De facto, os prunus florescem em Fevereiro (até antes, as nossas amendoeiras, em Janeiro, mas eu preferiria a variedade de florescer em Fevereiro, para proteger os frutos das geadas tardias).
Isto é, vejo consistência na proposta do Verão começar no dia dos trabalhadores.
A lei de Philips
E por falar em trabalhadores, graças aos aumentos da produtividade, serão os trabalhadores cada vez menos, até porque a lei de Philips convida ao desemprego.
Recordam-se? a lei de Philips traduz aquela correlação entre o aumento do desemprego e a diminuição do custo de vida (por outras palavras: a inflação combate-se aumentando o desemprego). Ou ainda, por outras palavras, os políticos que asseguram que vão combater o desemprego vão aumentar o custo de vida, o que é mau para todos, mas melhor para quem não tem emprego do que para quem tem emprego.
O que é óptimo para dividir de um lado os que têm emprego e vêem o seu poder de compra aumentar se houver níveis elevados de desemprego, e do outro quem não tem mas gostava de ter, só que não vai conseguir o poder de compra de quem já tem emprego.
Não há assim uma luta de classes no sentido simplista do termo, mas há um conflito de interesses.
Claro que não apenas um conflito de interesses, mas muitos conflitos, consoante o lugar ocupado por cada um na estrutura produtiva da comunidade e na sua estrutura social e cultural.
Donde, havendo muitos conflitos de interesse e diversas formas de estar nas estruturas (e ia a escrever super-estruturas, mas soaria a marxista), é natural que os eleitores estejam divididos.
E eleitores divididos é bom porque contribuem para que não haja maiorias absolutas que ignorem as preferências das minorias (temos de aprender alguma coisa com o fracasso da organização soviética, não acham? Um partido só a decidir o rumo da coisa pública não dá, pois não é verdade?).
A razão de Marx
Mas talvez eu esteja enganado e o número de trabalhadores não esteja a diminuir e então tenho de reflectir sobre isto.
Achei muita graça a um livrinho de dois senhores que se auto definem como dois académicos suecos que circula por aí : Funky Business, capitalism for ever.
“Funky” significa bem cheiroso, se bem que bem cheiroso aqui entronca na concepção antropológica dos cheiros de atracção sexual, digamos de maneira mais fina, cheiro a feromonas, e será aqui aplicado no sentido de inovador, balanceado e provocador como a musica “funk” (mistura de jazz, soul e blues ritmados), divertido, de olhos bem abertos para a realidade para progredir (não quero aborrecer ninguém, mas este é um dos princípios básicos de qualquer disciplina científica, adoptado também por Karl Marx na economia: observar a realidade, pôr hipóteses , testar a teoria, aplicar a teoria para melhorar o mundo ou dar felicidade às pessoas).
Perguntar-se-á, como na anedota do marido quando a mulher lhe disse que tinha ido ao salão de beleza; então porque não dão felicidade às pessoas?
E é aqui que entra o tal livrinho “Funky business”.
Dá, afinal dá; a teoria dá felicidade às pessoas. Porque foi a teoria da informação mais o teorema de Shannon da amostragem ,mais a teoria quântica da física electrónica que permitiram os toques de telemóvel e os televisores de LCD e de plasma que alegram o pessoal.
A tecnologia pode dar felicidade às pessoas. Gandhi também dizia isso, se bem que referindo-se à roca de fiar. Mas o investimento em software da nova Índia está de acordo com o pensamento de Gandhi.
Assim como a explosão tecnológica actual está de acordo com o pensamento de Marx.
Porquê?, porque Marx, tal como todos os seguidores do método científico, considerou o desenvolvimento tecnológico indissociável do desenvolvimento do processo histórico.
Apenas foi ingénuo, quando quis que os benefícios do progresso tecnológico permitissem uma vida mais feliz para as pessoas.
E na realidade permitiu, permitiu subir o nível de vida.
Apesar do triunfo das ideias neo-liberais, dos leitores precipitados de Adam Smith, terem cavado e alargado o fosso entre ricos e pobres (não vale a pena citar estatísticas, mil milhões de seres humanos a passar fome é o melhor atestado de incompetência dos economistas e políticos que nos conduziram ao ponto onde estamos, apesar das potencialidades da tecnologia e de já não haver a desculpa do bloco comunista para justificar a fome).
A acumulação de fortunas para além de um certo limite é um mau sinal do funcionamento da economia.
As listas das fortunas da Forbes e da Fortune, por mais felicidade que tragam aos seus leitores (não posso comprar o BMW de 550 CV, mas se a revista de automóveis não publicar um artigo circunstanciado sobre ele, deixo de comprar a revista), são um indicador da falência dos circuitos distributivo e dinamizador da economia. Se a fortuna se acumulou aqui, neste ponto, foi porque foi incapaz de gerar moeda a circular (possivelmente porque, de forma deliberada, a retiveram, em vez de a deixarem ir à sua vida). Se fossem o resultado das análises de um paciente num laboratório, seriam indicadores de que o sistema digestivo estava com prisão de ventre, em estado, diriam os médicos pré-Pasteur, hidrópico, a inchar o estômago e a deslassar os músculos do peritoneu.
Ingenuamente, podemos sugerir aos acumuladores que cortem ligeiramente nas suas margens de lucro, que façam isso porque os seus negócios ficarão pela certa mais competitivos.
E contudo, como dizem os dois académicos suecos citados, alguém, para produzir a riqueza acumulada, teve de trabalhar, i.é, sujeitar-se a actividades penosas, conscientes e úteis (definição do sociólogo Gurvitch).
Mesmo que esse alguém incluísse o principal accionista, ou que essas actividades fossem ilegais, como transportar armas clandestinamente, ou droga, ou diamantes (sendo um negócio de morte, o negócio das armas alimenta muitos outros seres humanos).
E embora os níveis de remuneração de toda a cadeia necessária para haver acumulação de fortunas sejam desiguais, e de uma forma gritantemente desigual, o facto é que muitos dos intervenientes nessas cadeias foram senhores do seu trabalho, não foram servos da gleba. E se o senhor russo quer ser dono duma grande equipa de futebol, os seus adeptos optam livremente por o financiar (ao dono).
Dominaram os seus processos de trabalho (quanto mais não seja convencendo a direcção de uma fábrica de que ao sábado, de momento, não pode ser; ou então fazendo o que era preciso, criar uma frase publicitária para ajudar à imagem do produto e da empresa, e depois calar-se até à próxima frase-sucesso).
É, os académicos suecos são capazes de ter razão quando explicam (logo ao princípio do livro, acrescentando que não deixem de comprar o livro por causa disso, se estiverem a apreciar as primeiras páginas, na dúvida compro, não compro) que, afinal Karl Marx tinha razão, porque muitos dos trabalhadores da actualidade (cujo conceito não coincide com o da classe operária; lembram-se de Lenine a escrever um opúsculo: A classe operária irá desaparecer? e por isso não dão o seu voto aos partidos chamados comunistas ou ex-comunistas) dominam os seus meios de produção, de uma forma ou outra.
Cinjamo-nos, para definir “trabalhador”, à relação biunívoca : trabalhador<>mais valia gerada (já imaginaram aonde pode levar este raciocínio: a opção em bolsa pelo desejo de comprar uma acção de uma empresa valorizou-a, a empresa ganhou uma encomenda por causa disso e então o pequeno investidor gerou mais valia? Isso é capitalismo popular ou é, como os suecos dizem, Marx a funcionar?).
E se generalizarmos a boutade de Lenine (bem, ele não disse bem o que eu vou dizer agora, mas estou a citar de cor e a ver se ajeito os factos à teoria, para ver depois se a teoria ficou bem sem deformar muito os factos) subimos do nível da produção de mais valias (direito ao emprego, direito ao trabalho, consignado no art.23º da Declaração Universal dos Direitos do Homem) aos níveis do lazer e da cultura (artos 24º e 27º da mesmissima Declaração) quando definirmos que a primeira tarefa depois dos trabalhadores subirem ao poder é absorver a cultura burguesa. I.é, o requinte de bem viver.
Pena que Malthus ainda esteja bem vivo, e que Adam Smith, com o seu interesse individual tão mal compreendido (não vou cansar-me de repetir que a mão invisível de que falava Adam Smith não era a mão invisível que remunera os audaciosos, era a mão invisível que castigava Macbeth e a sua mulher demasiado audaciosa, que certamente teriam aplicações tóxicas do Lehman Bros e dos “off-shores” se já houvesse Lehman Bros no tempo deles, porque “off-shores” sempre os houve, salvo melhor opinião) não deixe repartir fraternalmente o pouco que há para tantos.
Daí dependermos do avanço da tecnologia para fazer um bolo com fatias suficientes para todos, com a ameaça de a maioria do pessoal não querer estudar as maravilhas da tecnologia nem reduzir o consumo dos combustíveis fósseis... Não têm paciência, e agora com o IC16 e o IC30 inaugurados...
Admirável mundo novo.
Fascinante, como dizia o senhor Spock do Star trek.
A idiossincracia dos portugueses
Tudo isto a propósito de uma data para começar o Verão.
Afinal, talvez valha mais concordar que o Verão começa mesmo em Maio e que Agosto é mês para voltar ao trabalho, em lugar de debandar da cidade.
Apesar do calor.
Já repararam que, quanto mais importante é o cargo que um português exerce, ou que pensa que é, mais tarde em Agosto ele marca as suas férias, mas tem de ser em Agosto, porque a importância mede-se pelo grau de insubstituibilidade (a intensidade deste barbarismo é proporcional ao grau de auto-estima) do cidadão, pela vontade de adiar o mais possivel a separação do local de trabalho (vêem, por mais importante que a pessoa seja, tem um local de trabalho, logo é trabalhador, como dizia Marx, e o partido em que vota é marxista, quod eramus demonstrandum).
A menos que seja um grande proprietário de terras acima do centro do País. E aí pode ser Setembro por causa das vindimas.
Mas Portugal está a sincronizar-se com a Europa e as vindimas são cada vez mais cedo. (Ou será o aquecimento global? Ou a escolha das castas? Ou o recurso a estufas?).
E as azeitonas portuguesas não querem ficar atrás e já pedem o varejo em Novembro.
Insistamos no vinho e no azeite. Não liguem ao desabafo infeliz do presidente do instituto do apoio à exportação (“Portugal não pode continuar a ser o país do bacalhau e do azeite”). Portugal não deverá nunca deixar de ser um país de vinho e de azeite (Drucker dixit, lembram-se, chamando-lhes clusters ou grupos tradicionais).
Aproveitem a azeitona para tudo, até para lubrificante e óleo de iluminação; não a deixem estragar-se ingloriamente.
Talvez a questão seja simples e não passe de mais uma influência determinista do clima na idiossincracia de um povo. Gostamos que seja Verão para o tarde, e que ele se prolongue por Setembro.
Somos periféricos e por isso gostamos de fazer as coisas de maneira diferente.
Infelizmente vamos ter de nos adaptar a trabalhar com o calor, em Agosto e Setembro também.
Saudemos a chegada do Verão no dia dos trabalhadores.
Aproveitemos as férias em Maio, Junho ou Julho.
Como disse, é um direito, consignado na Declaração dos Direitos do Homem, artigo 24º.
Acham muito radical, o primeiro de Maio?
Pronto, adiemos por um mês, podem ir de férias a 1 de Junho, dia de início do Verão (e da época balnear…), e mais próximo do dia do solstício, quando a noite é mais curta.
Mas então o Verão acaba a 31 de Agosto, quando a transumância regressa, auto-estrada acima, do Algarve para o Norte, e se desmontam as discotecas de praia.
Eu sabia que íamos chegar a um acordo.
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