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terça-feira, 10 de junho de 2014

Uma crítica ao programa Olhos nos Olhos, na TVI, de Medina Carreira e Judite de Sousa

Devo a Medina Carreira a explicação da lei de Philips, que ao aumento do desemprego corresponde a diminuição da procura e a contenção dos preços, pelo que é um mecanismo utilizado pelos governos seguidores da nova economia, de desvalorização dos fatores de produção, nomeadamente do trabalho.
Não é bom viver em deflação.
Aparentemente as pessoas podem gostar de pagar menos pelas coisas, como a prestação da casa ou os produtos alimentares, mas já não gostam de ver os próprios rendimentos diminuidos nem o valor dos seus bens.
Por isso é suicida esta obsessão do BCE em perseguir uma inflação baixa, ignorando que nenhuma lei segue curvas lineares em todos os dominios.
Por exemplo, um investimento pode ter retorno num dado ponto da curva de rendimentos em função do volume de investimentos, mas para um menor volume global de investimentos o retorno pode não existir e o investidor ficar mais pobre depois do investimento (zona da armadilha da pobreza, de onde não se sai sem auxilio exterior, isto é, sem investimento externo).
Porém, por mais respeito que Medina Carreira me mereça por isso, até porque a sua formação abrange as duas culturas (tem formaçáo técnica de engenharia e juridico-fiscal), a sua obsessão no programa Olhos nos olhos, em culpar o crescimento dos custos com a segurança social parece-me inaceitável.
A segurança social não é uma despesa pública, é o resultado das contribuições do trabalho e das empresas.
Depois da crise de 2008 é evidente que a contribuição para a segurança social dos fundos públicos deixou de ser razoável e devem tomar-se  medidas, é certo, mas afirmar repetidamente que é totalmente uma despesa pública é distorcer a verdade.
Além de que, mais uma vez, o estímulo artificial do desemprego para combater a inflação aumenta as despesas de segurança social.
O próprio Medina Carreira reconhece que as despesas com a saúde e a educação são razoáveis. E que a unica solução é o crescimento económico.
Porem, como isso não é imediato (porquê? por afinal não se saber onde aplicar os fundos comunitários?) apoia o governo atual nos sucessivos cortes nas despesas.
Penso que incorre na falha de ignorar que os cortes têm um efeito destruidor na capacidade produtiva, reduzindo a economia mais do que o valor dos cortes e levando por isso a uma redução do defice muito menor (cerca de um terço, já temos a experiencia de 3 anos de austeridade cega e destrutiva) do que o valor dos cortes (no fundo, arrastando o ponto de funcionamento para a zona da armadilha da pobreza).
Tenho pena que Medina Carreira não aproveite o seu programa para apontar pistas e medidas de estimulo ao crescimento.
Que se considere como tendo o monopólio do aviso que o país caminhava para o desastre (por acaso não tem o monopólio; neste blogue estão criticas ao anterior governo, antes da crise de 2008, sobre a insustentabilidade de uma economia assente na importação de energia e de alimentos).
E que não aproveite para tratar do problema da dívida privada (155% do PIB?) e do consumismo que leva ao aumento das importações (logo a seguir ao programa, um anuncio apelativo convidava os espetadores a comprar um carro alemão, vermelho e inovador, seguindo-se o anuncio de outro automóvel, um hibrido japonês, indicando um falso consumo de combustivel de 1,9 litros /100 km - assim se engana o público, beneficiando do facto de que ele não vota com base em cálculos matemáticos mas sim em impulsos emocionais).
Assim, apesar do rigor e validade dos seus gráficos (tirando a referida classificação das contribuições para a segurança social como despesa pública) o programa parece-me pouco razoável.






segunda-feira, 11 de novembro de 2013

A manifestação pelos complementos de reforma


Chegada ao Terreiro do Paço; nesta perspetiva é visível a quebra  da linha das varandas; o assentamento do torreão poente é anterior à construção e reparação do tunel do metropolitano, com reforço dos terrenos com estacas de betão armado; no entanto, deverá contiuar a monitorizar-se a instrumentação instalada, desconhecendo-se se ela é feita

em frente do ministério das Finanças

Cartaz distribuido durante a manifestação
Dei por mim a lembrar-me de Galileu, ou melhor, da minha professora de filosofia a contar como Galileu, em prisão domiciliária por ter desafiado a teologia geocentrica dominante, se maravilhava como podia sentir prazer apesar de preso enquanto meditava nas duas novas ciências do tratado que haveria de publicar como fundamento da física experimental.
Assim também me senti no meio dos colegas que encontrei na reunião de reformados com as suas pensões complementares de reforma em risco de serem suprimidas pela lei do orçamento para 2014.
Estamos presos na armadilha de um governo incapaz de compreender o funcionamento das coisas e incapaz de sentir o que as pessoas sentem.
Mas o reencontro com antigos colegas é também um fator de contentamento.
De forma análoga ao que sentia Galileu, alegro-me ao ver o grupo quase completo a quem demos aulas para que fizessem o seu exame do antigo 1º ciclo e progredissem nas carreiras.
Ou o mestre das oficinas de material circulante com quem percorremos noites atrás de noites em ensaios para colocar o sistema de marcha automática em funcionamento na linha vermelha.
Ou o mestre serralheiro que no seu ultimo dia de trabalho, empurrado para a reforma antecipada, foi reparar a avaria de um motor de agulha, um parafuso deixado mal apertado pela empresa fornecedora, que paralisou a exploração no próprio dia da inauguração do prolongamento para Odivelas, depois dos senhores mnistros se terem retirado, muito contentes e ignorantes, como sempre.
Talvez algum governo peça desculpa mais tarde aos reformados a quem querem cortar os complementos de reforma, como a Igreja católica pediu três séculos depois da condenação de Galileu.
Mas de momento, os conselheiros de imagem do governo exploram as diferenças entre as pensões dos reformados do metropolitano e as da maioria da população.
Por isso a senhora que se senta ao meu lado num dos bancos da praça de Camões, enquanto se forma a manifestação de protesto do setor dos transportes contra a lei orçamento de 2014, protesta : “sou viúva e a minha pensão de sobrevivência vai ser cortada e é muito mais pequena do que os complementos que os senhores recebem, e ainda por cima fazem greve”.
Não vou contrariar a senhora, não gosto de arreliar ninguém, não lhe vou dizer que a asfixia que o governo pratica contra grupos a que chama “privilegiados”  acaba sempre por se repercutir em todos os outros escalões da sociedade, como se fosse o efeito de um multiplicador económico através dos mecanismos da procura interna. Por cada euro que se corta no rendimento de uns, mais do que isso acaba por se refletir no rendimento de outros.
Arreliada anda a senhora com o aumento da renda da casa e da eletricidade, que não vai poder repercutir ao hóspede a quem alugou um quarto.
Tão pouco lhe vou dizer que o nivelamento social se deve fazer por cima, não por baixo, e que a desigualdade de distribuição da riqueza tem mais a origem nas fontes do poder financeiro e económico do que nos reformados do metropolitano, como se prova com a cada vez maior concentração de riqueza em cada vez menos.
Mas o problema é real.
Como ganhar o apoio da população para as lutas dos trabalhadores do metro? como conseguir que os incómodos e desconforto que as greves provocam na população sejam menores do que  a solidariedade de todos contra um governo que os magoa e que não tem politicas de emprego e de investimento?
Volto-me para o meu amigo delegado sindical mas ele só me diz que já está marcado um programa de luta contra o governo através de greves em todos os setores.
Contraproponho “Está bem, não há dúvida que o atual governo é um obstáculo ao bem estar da população, mas vamos fazer greves que não prejudiquem a ida para o trabalho de quem ainda tem trabalho. Os comboios não deviam parar entre as 6:30 e as 10: 00 e entre as 17:00 e as 20:30 . As greves deviam ser de zelo, limitando as perturbações na circulação a pequenos atrasos nas estações para recordar normas de segurança, como nos aviões, partilhar com os passageiros a impotência para melhorar coisas como o acesso de pessoas com mobilidade reduzida, explicar por que as contas são negativas por incluirem o serviço da divida dos investimentos das expansões, por as indemnizações compensatórias serem insuficientes, por a repartição das receitas dos passes ser errada, por os governos não quererem dotar o metro de financiamento como o “versement” em França ou as mais valias imobiliárias em Hong Kong, explicar porque é um desperdício tanta deslocação em transporte individual e porque se justificam as multas por mau estacionamento e as portagens de acesso ao centro das cidades.
O prazer do reencontro é contrabalançado por notícias desagradáveis, de quem já faleceu, ou de quem não pode sair dos lares onde aguarda o fim.
“Você está mais gordo, tem de ter cuidado com a alimentação”.
Arrependo-me de ter dito isto. O moço, moço da minha idade, eletricista do material circulante responde : “É´dos tratamentos, estive a morrer com uma sepsis. Fiz uma biopsia num hospital privado por causa da prostata e sobreveio a infeção”
Oiço doutro lado a história do colega que morreu numa sessão de fisioterapia durante o período pós operatório da colocação de uma prótese na anca, noutro hospital privado muito cotado na opinião pública.
Se estes casos tivessem ocorrido num hospital público os consultores de imagem do governo tê-los-iam aproveitado para desmerecer no serviço nacional de saúde.
É´ doentia esta perseguição a tudo o que seja público.
Não é o ser público ou privado que define a qualidade de um serviço. Há espaço para todos, mas não para a mentira, para a ganancia e para a ignorância.
Doenças são conversas típicas de reformados.
A manifestação já arrancou.
“Transportes e comunicações, ao serviço das populações”, “Assim não vai dar, sempre os mesmos a pagar”, “Este governo hostil, quer destruir abril”.
Uma repórter de uma estação de TV aproxima-se do meu colega, atraída talvez pela sua boina basca:
- Posso fazer-lhe umas perguntas?
- Claro, mas não vai censurar o que eu disser?
- Não, não, só vamos ter de ajustar as respostas ao tempo disponível, por razões editoriais.
- Pois é, o editor faz cortes ao que o entrevistado diz, deixa   coisas importantes nos “brutos”, tal como o governo faz cortes cegos. Corta o que poderia contribuir para o PIB,  paralisa empresas como o metropolitano cortando-lhe o acesso aos fundos comunitários durante anos.
- Não acha que é injusto um grupo profissional como os reformados do metropolitano receberem complementos de reforma para os quais não contribuíram?
- Olhe menina, isso é verdade, uma parte da verdade, mas pedia-lhe que ouvisse o resto da verdade. O caso do metropolitano é mais grave do que na Carris e noutras empresas de transporte porque foi assim que foram negociadas as saídas antecipadas para poupar nos encargos de pessoal. Enquanto noutras empresas se negociaram indemnizações para saída antecipada, no metropolitano elas foram diferidas sob a forma de complementos de reforma. Devo dizer-lhe que na minha direção eu fiquei contrariadíssimo quando a administração negociou com as chefias intermédias, mestres e coordenadores técnicos, gente com muita experiencia, as suas saídas. Deixou-me sem enquadramento experiente para as tarefas de manutenção e de fiscalização das empreitadas. Também compreende-se, o objetivo era enfraquecer o metro para dar oportunidades ás empresas privadas para prestar serviços de manutenção.  
- São quase 14 milhões de euros por ano só de complementos de reforma.
- Pois são, mas também são cerca de 1400 reformados. Em média cada um recebe 670 euros por mês, e em média também, estimativa minha, cada um recebe uma pensão global bruta, pensão da segurança social mais complemento, de 2000 euros por mês.
Dir-me-á que é superior à da maioria dos reformados portugueses, mas repare que por comboios a andar e mantê-los em serviço em condições de segurança exige profissionais qualificados. E repare também que, para além dos cortes nas pensões da segurança social, para as quais descontaram, se a lei orçamento for aprovada assim
vamos ter um corte médio de 50% no rendimento.
Não parece que ninguém tenha um corte tão elevado.
Interrompo o meu colega para dizer à repórter:
- Quando entrei para o metro, antes do 25 de abril, vim ganhar 10 contos por mês. O meu colega que foi selecionado comigo pela EFACEC e quis lá ficar rapidamente atingiu 17 contos por mês. Na altura comprava-se um Toyota por 84 contos. Só nos anos 80, quando houve financiamento internacional para as expansões, começámos a ganhar tanto como os nossos colegas da CP.  A promessa do complemento de reforma era uma maneira de compensar o menor vencimento.
- Pode ser que o governo em vez de cortar todo o complemente de reforma só corte uma percentagem.
- Sabe – continuei - um dos objetivos do governo, para além de emular a revolução cultural na China do Mao Tse Tung, que pôs os professores e os engenheiros a varrer as ruas, é o de reduzir os encargos com pessoal das empresas públicas, e suprimindo os complementos de reforma torna o metro mais apetecível. É´ pena o senhor secretário dos transportes revelar ignorância sobre a qualidade dos indicadores do metro quando comparados com os das outras redes. Mas isso não interessa quando se pretende a todo o custo privatizar ou concessionar. Não lhe reconheço nem a ele nem aos senhores da troika experiencia e conhecimentos de transportes para decidirem que é mais eficiente a gestão privada. Isto é também uma forma de ofender quem dedicou a sua vida profissional ao metro.

A senhora reporter agradeceu-nos  muito e despediu-se com um sorriso bonito.
A manifestação chegava ao Terreiro do Paço.
Pouco depois, em frente do ministério das Finanças, foi recordado que existe uma lei da segurança social, o DL 4/2007 , que define o sistema previdencial português, que o divide em três pilares (art.8º,nº2, a segurança social contributiva, o financiamento por capitalização e os regimes facultativos complementares. Não é preciso vir agora aquele senhorinho das decisões irrevogáveis vir pregar “reformas de Estado”. Aliás, existe uma diretiva europeia que garante a proteção dos sistemas complementares das reformas em caso de insolvência das empresas que os contrataram com os seus trabalhadores (mais um caso de ignorância dos senhores governantes?).
Ouviu-se também Zeca Afonso, antes de finalizar a manifestação com um sentido UhUhUh! ao ministério das Finanças.
O fim  de tarde estava muito bonito.
O cais das colunas cheio de turistas.

turismo na praia do cais das colunas

fim de tarde na Ribeira das Naus
O terraço do arco da rua Augusta, agora acessível por elevador, também.
Como dizia Platão, dentro de nós todos há-de haver alguma coisa que sobreviverá.








quarta-feira, 26 de junho de 2013

Segurança Social por Raquel Varela

Era inevitável, com o ataque dos senhores governantes à Segurança Social, que se sucedessem os livros sobre o assunto.
Por exemplo:
-Segurança social, o futuro hipotecado, Fernando Ribeiro Mendes, ed. Fundação Francisco Manuel dos Santos
- Quem paga o Estado Social em Portugal? , Raquel Varela , ed. Bertrand
- Como salvar a minha reforma, David Almas e Joaquim Madrinha, ed. Lua de papel

Alguns comentam com serenidade os argumentos e as propostas dos senhores governantes e dos seus jornalistas e comentadores de serviço.
A doutrina oficial é de que o crescimento demográfico, aumentando o numero de reformados e diminuindo o numero de ativos, agravada esta diminuição pela crise internacional e globalização associada, tornou insustentável a Segurança Social.
Mais explicam os defensores do pensamento unico dominante que são os ativos que pagam as reformas.
De facto é verdade, é o sistema pay as you go ou de repartição que é o mais favorável se houver crescimento demográfico e emprego.
Nada impede portanto que o sistema se vá adaptando às condições reais aumentando a componente de capitalização.
Claro que o objetivo da alta finança internacional é privatizar a segurança social, absorver e acumular os seus capitais. O modelo até já está definido através do ministro de Pinochet José Piñeras e no Chile o sistema de reformas é mesmo por capitalização de contas individuais.
Mas lá está, ou 8 ou 80, um ""mix" seria mais conveniente, e a capitalização poderia não ser feita só por privados.
Mas parece que os senhores goernanates, ou por incapacidade ou por opção ideológica, têm dificuldade em resolver isto.
O numero de ativos e a taxa de emprego não diminuem principalmente por razões demográficas.
Diminuem por razões tecnológicas.
Graças ao desenvolvimento tecnológico e de técnicas de gestão, basta uma população ativa de 40% para manter a economia de um país.
E até para que ela cresça, se oprimirmos convenientemente os 60% restantes.
Com uma boa taxa de abstenção, levando esses 60% a desacreditar no sistema democrático e contando com a falta de solidariedade da maioria dos 40% empregados, é possivel manter o sistema a funcionar. Desde que se dê emprego aos policias de choque, evidentemente.
Temos então, por dedução lógica, que a insustentabilidade da segurança Social se deve a razões tecnológicas (quem me acusar de marxista dirá que por razões de modo de produção).
E para manter a sustentabilidade da segurança social em época de diminuição da população ativa, sem penalizar os pensionistas, é necessário e suficiente que o PIB cresça.
(ver
http://fcsseratostenes.blogspot.pt/2013/05/um-pouco-de-teoria-da-seguranca-social.html      )

Isto é, que haja investimento, que nas condições atuais só poderá vir do QREN/Horizonte 2020, mas isso exigiria que os senhores governantes compreendessem a problemática dos investimentos (há que investir na produção de energia, de combustíveis a partir das renováveis, em centrais solares de sais fundidos, em transportes coletivos, em aquacultura, na reabilitação urbana ... ) e que os técnicos tivessem autonomia para fazer os projetos (sem o que não haverá financiamento), e que não houvesse tanta fé no aumento da procura interna porque o peso da procura interna no PIB já é demasiado e porque a procura interna acabará por se desviar para a procura externa, nem que seja através da compra de camarões, ameijoas e pangasius vietnamitas ou laranjas da África do Sul, isto para não falar nos BMW, Audi, Mercedes e férias no Caribe ou no Dubai.

Tudo isto a propósito do ultimo livro coordenado por Raquel Varela, "A segurança social é sustentável, trabalho, estado e segurança social em Portugal", ed. Bertrand.
Algumas ideias:
- se a segurança social falhar, a população desenvolverá técnicas de subsistencia e de economia paralela, desde aluguer de quartos ao comércio informal de comida e vestuário
- nem sempre a segurança social é uma conquista das organizações dos trabalhadores; o primeiro sistema foi instituido por Bismarck e até no Chile dos ultimos anos de Pinochet, José Piñeras instituiu a segurança social, embora privada, depois de uma década da sua ausencia
- o pensamento unico atual neo-liberal pretende transferir a riqueza publica da segurança social para a riqueza privada, através da transferencia do rendimento do trabalho para o capital devida a salários baixos e cortes nas despesas públicas, sendo certo que a soma dos ativos investidos em todo o mundo por detentores de mais de um milhão de dólares é superior ao total das dívidas públicas de todo o mundo (isto é, afinal não há crise de crédito)
- em 1973 os rendimentos do trabalho eram 49,2% e os do capital 50,8%;
  em 1975 os rendimentos do trabalho eram  64,7% e os do capital 35,3%;
  em 1983 os rendimentos do trabalho eram  50,2% e os do capital 49,8%;
- Einstein, durante a crise de 1930, escreveu que  "esta crise...baseia-se num conjunto de condições inteiramente novo, devido ao rápido progresso nos métodos de produção. Apenas uma fração do trabalho humano disponivel no mundo é necessário para a produção da quantidade total de bens de consumo necessários à vida. Sob um sistema económico completamente livre, este facto conduz ao desemprego, enquanto a maioria das pessoas são obrigadas a trabalhar pelo salário minimo que permite mantê-las vivas".
Como solução, Einstein propunha que "em cada ramo de industria o numero de horas de trabalho deveria ser reduzido por lei de forma que o desemprego fosse sistematicamente abolido. Ao mesmo tempo, o salário minimo deveria ser estabelecido de forma que o poder de compra dos trabalhadores acompanhe o ritmo da produção".
Mas os economistas têm dificuldade em compreender os fenómenos físicos que Einstein dominava.
- as causas fundamentais da crise de 1929 são muito semelhantes às da crise de 2007-2008, continuando a não ser razoável fazer recair sobre os trabalhadores o seu ónus.
- o orçamento de estado de 2013 prevê o défice do sistema previdencial de repartição (pay as you go) para 2023.

A problemática da segurança social é efetivamente complexa e requer uma preparação matemática e uma capacidade de concentração, abstração e análise já razoáveis.
Precisamente por isso os senhores governantes e seus comentadores de serviço inundam a opinião pública
com a ideia da insustentabilidade da segurança social por causas exclusiva da demografia, ocultando a importancia dos modos de produção e da organização do trabalho.
Do ponto de vista técnico, não me parece ético.


PS em 16 de outubro de 2013, dia de divulgação do OE para 2014, em que 82% da "austeridade" vem de cortes na função publica, reformados, educação e saúde, e 4% vem de receita de taxas sobre a banca e empresas energéticas -  Amável comentador que não gosta de escrever chamou-me a atenção para outra perspetiva sobre a sustentabilidade da segurança social não depender apenas da pirâmide demográfica: com o progresso tecnológico, as grandes empresas passaram a ser de capital intensivo e não de mão de obra intensiva; logo, é natural que as contribuições do capital para a segurança social sejam mais elevadas do que o que se verifica (50% do rendimento nacional é atribuido ao trabalho e paga 75% da receita dos impostos). A menos que, graças à redução dos
salários, se volte ao tempo em que as fragatas britanicas perseguiam os negreiros porque as explorações agricolas com escravos davam mais rendimento do que as que tinham incipientes máquinas de vapor, e em que os escravos da barca Charles em moçambique preferiam viver alimentados numa fazenda do que morrer de fome no desemprego.



quarta-feira, 29 de maio de 2013

Um pouco de teoria da Segurança Social

Um pouco de teoria da Segurança Social

Métodos principais de financiamento:

1 – capitalização virtual – o dinheiro para as reformas e para a cobertura dos riscos sociais é obtido a partir de fundos de pensões e da capitalização de contribuições individuais (o que um reformado recebe deriva dos juros das suas contribuições)
2 – repartição ou “pay as you go” –  as reformas e a cobertura dos riscos são pagas com o dinheiro das contribuições das empresas e dos trabalhadores ativos (o que um reformado recebe deriva das contribuições das empresas e dos trabalhadores que estão no ativo durante o seu período de sobrevivência).

Ditas as coisas assim, parecerá que um sistema de financiamento não deverá ser nem um ou outro isoladamente, mas antes uma fusão dos dois.
Porém, a teoria oficial diz que o sistema atual é apenas “pay as you go”, o que estimula a reação primária dum conflito geracional (serem os jovens trabalhadores, vitimas do desemprego que fixa os salários em baixo, que são cada vez menos devido à baixa da natalidade, a sustentar cada vez mais velhos reformados que nunca mais  morrem porque a medicina preventiva progrediu).

Admitindo que o sistema é exclusivamente “pay as you go”, fica a dúvida, tendo o sistema de segurança social sido superavitário até aos anos da crise internacional de 2008 (coincidência que faz desconfiar das manipulações internacionais das taxas de juro e das criações virtuais dos tóxicos financeiros), para onde terão ido os juros desses rendimentos obtidos com as contribuições dos reformados de agora, uma vez que as reformas dos reformados de então eram pagas com as contribuições dos ativos que estão agora reformados (e cujas contribuições eram mais do que as reformas pagas aos reformados de então). Da dúvida nasce a hipótese, e a hipótese é a de serem as pensões que estão a pagar a recuperação financeira de modo a que tudo volte ao mesmo, isto é, “business as usual”.
Também nasce uma interrogação perante esta dependência exclusiva do  “pay as you go”. É que se é assim, porque estão os atuais governantes tão contentes com a exportação de mão de obra qualificada? É que deixam de contribuir para a Segurança Social portuguesa e vão pagar as reformas dos estrangeiros idosos (valha a verdade que poderemos recuperar alguma coisa se os convencermos a virem passar o inverno ao Algarve, perdendo novamente dinheiro porque eles vão consumir produtos agrícolas importados da América do Sul e peixe do Vietnam).

Mas dando de barato aos senhores governantes da atualidade que acham que o sistema de segurança social não tem nada de capitalização e que a única fonte é a atual TSU, analisemos o que se pode fazer para aumentar as receitas do sitema “pay as you go”, ou  melhor, para diminuir a despesa pública com as pensões e prestações sociais:

1 – aumentar o PIB e diminuir o consumo total da população (ou a taxa de crescimento do PIB deve ser superior à taxa de crescimento do consumo da população);
2 – aumentar o total da  população (natalidade e imigração) e diminuir o número de pensionistas (ou a taxa de crescimento da população deve ser superior à taxa de crescimento dos pensionistas);
3 – diminuir o nível de vida relativo dos pensionistas (ou a taxa de variação do consumo total da população por habitante deverá ser maior do que a taxa de variação do consumo dos pensionistas por pensionista), definido como a relação entre o consumo médio dos pensionistas pelo consumo médio da população total

Como se sabe, os atuais governantes só aplicam as medidas restritivas, como seja reduzir os encargos com pensionistas e prestações sociais, tendo nota negativa (que diabo, a nota é mesmo negativa, já estão no governo há dois longos anos) porque as taxas crescem em sentido desfavorável nas alíneas 1 e 2 e a diminuição do nível de vida da alínea 3 tem sido brutal.
Isto é, não só são parciais na escolha das medidas a aplicar para reduzir as despesas públicas (analogamente ao que se passa com os impostos: “em Portugal os ricos não pagam impostos - João César das Neves, em  “As 10 questões da crise”, ed.D.Quixote), como também não conseguem controlar a evolução das variáveis desfavoráveis.
Ignoram os senhores governantes deliberadamente, e muitos comentadores da praça pública, possivelmente por deformação ideológica, as outras medidas, aumento da natalidade, da imigração (alínea 2) e do PIB (alínea 1).
Compreende-se, porque aumentar a natalidade e a imigração requer medidas contra o desemprego, e isso os atuais governantes só dizem que vão fazer, mas não fazem porque um dos objetivos da política europeia é conter a inflação a todo o custo, e isso faz-se com desemprego.
Quanto ao aumento do PIB, é fatal, é a única solução para o caso atual, sendo que isso significa investimento, privado ou público, como quiserem, mas investimento (a obrigatoriedade de fatura e sua fiscalização contribui para isso através do alargamento da base tributária, mas deconfio que a ideia do governo é mais aumentar a receita fiscal do que aumentar o PIB, que era o essencial).

É uma pena estas coisas não serem analisadas com lógica matemática, em frente da fórmula que traduz os fenómenos, e  com monitorização da evolução de todos os fatores, especialmente das taxas que, sendo quocientes, são conceitos de mais difícel apreensão, em valor absoluto e em valor relativo. Mas nós, portugueses, com a rejeição conhecida à matemática, preferimos a discussão emotiva e infundamentada.

A fórmula que refiro pode ser estudada no livrinho da Fundação Francisco Manuel dos Santos, “Segurança Social, o futuro hipotecado”, de Fernando Ribeiro Mendes:

   despesa pública com a
      segurança social = (consumo da população/PIB) x
                                     (nºde pensionistas/população) x
                                     ((consumo dos pensionistas/nºde pensionistas)/(consumo  
                                                                                          da população/população))

PS em 19 de junho de 2013 - Graças aos emails que os amigos enviam, posso corrigir uma afirmação supra. A Segurança Social portuguesa tem efetivamente uma componente de capitalização, que é o Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social, gerido pelo Instituto de Gestão dos Fundos de Capitalização da Segurança Social. Em fins de 2011 (já com o atual governo em funções) o seu montante era de 8.872 milhões de euros.
Neste momento, o atual governo prepara-se para vender títulos de dívida estrangeiros deste fundo e trocá-los por certificados de aforro. Trata-se de mais uma medida que el coloquial se pode classificar como de "chico-esperto", sem consultar quem descontou ao longo da sua carreira contributiva para esse fundo.
Também contra a ideia do conflito intergeracional ou entre reformados do público e do privado, convirá sublinhar que a Segurança Social paga tambem as reformas por invalidez (não contributivas) devida a acidente quer o trabalhador seja do setor público quer seja do setor privado.
Mas enfim, está a população submetida à propaganda desinformativa intensa do governo