Um dos interesses dos blogues é o de permitir aos psicólogos e sociólogos recolherem elementos para avaliação da vida quotidiana dos cidadãos e cidadãs.
Do ponto de vista de quem escreve, há ainda a irresistível necessidade de exprimir o que se pensa de fenómenos que nos afetam.
Para este humilde escriba, a semiótica dos decisores é uma fonte de grande interesse.
Por se ver por exemplo o senhor ministro de voz pausada encravado com o reconhecimento de que receita fiscal, ao fim de 5 meses, caiu 2,8% relativamente ao ano anterior. Ele foi avisado, inclusivamente por correlegionários seus, dos malefícios da lei de Laffer, que chega um momento em que aumentar impostos significa perda de receita. A forma como se exprime, e por isso invoco a semiótica, indicia pouca capacidade em relacionar os seus cálculos financeiros com as leis da física e com a técnica de navegação.
Indicia uma fé cega nos objetivos, só desmentida quando é evidente o afastamento do objetivo (é a diferença entre a ciência e o senso comum: a demonstração cientifica dispensa a evidencia próxima) paradoxalmente à prática da marcha à vista.
No fim dos anos 40 do século XX, Norbert Wiener desenvolveu a teoria da predição, que no fundo foi a generalização do que os engenheiros militares balísticos já sabiam. Por isso não é aceitável virem senhores ministros das finanças e primeiros ministros dizerem que “ainda é cedo” para considerar seja que medidas forem, embora tristemente (indiciando, pela calma forçada e contida com que respondem a acusações de graves atentados aos princípios da democracia, uma preparação específica) vão colocando a hipótese de afinal não atingirem o défice objetivo sem renegociação (podem sempre justificar que os condicionalismos externos a isso obrigam, uma vez que que parece estar esgotada a desculpa do governo anterior).
Em marinharia, desprezam-se os navegadores à vista, os que só reagem à vista do rochedo, os que não sabem ler uma carta, nem identificar os rochedos e as ameaças à navegação, nem traçar uma rota de longa distancia considerando os desvios devidos às influencias externas das correntes e dos ventos.
Ministros das finanças e primeiros ministros que navegam à vista ignoram as conquistas da ciência, e só colocando a ciência na equação, como costuma dizer o professor Carvalho Rodrigues, a rota será segura.
A surpresa com os números do desemprego (excluindo a hipótese hipócrita de que os governantes apenas estão a aplicar a lei de Philips de modo a reduzir a procura e as importações) e da redução da receita fiscal assim o mostram.
De 1 de Janeiro a 31 de maio de 2012:, relativamente a igual período de 2011:
- aumento do IRS de 13,1% para 3.333 milhões de euro
- redução do IRC de 15% para 1.819 milhões de euro
- redução do IVA de 2,8% para 5.719 milhões de euro
PS em 2 de julho de 2012 - defice público no 1ºtrimestre de 2012: 7,9% do PIB; sendo o objetivo para 2012 de 4,5%, seria necessário que em cada um dos três trimestres seguintes o défice fosse de 3,4%, o que parece muito dificil com as medidas trecessivas tomadas pelo governo. Entretanto, ignora-se qual o défice privado, de particulares, de bancos e de empresas, o que significa que não está a haver monitorização e controle do endividamento; tinham pois razão os econmistas que reivindicaram uma auditoria à dívida, para se saber para onde está a ir o dinheiro. Enfim, malefícios do contexto.
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terça-feira, 26 de junho de 2012
Semiótica, a interpretação dos sinais dos governantes
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terça-feira, 27 de dezembro de 2011
Semiótica - continuação: a mensagem de Natal do senhor primeiro ministro Passos Coelho
Este blogue acha que não vale a pena insistir na semiótica aplicada ao senhor ministro das finanças. Apesar de ser um leitor de Candide, não aprofundou os argumentos de Voltaire e portanto o debate estará esgotado enquanto não for alem de Pangloss.
Mas eis que a semiótica encontra um novo tema na mensagem de natal do senhor primeiro ministro.
O senhor primeiro ministro, sentado num cadeirão, apresenta-se com as pernas traçadas em primeiro plano.
Dirá a semiótica que é uma postura a um tempo defensiva e com o significado de marcar uma distancia relativamente aos ouvintes.
É provável, pelo tom calmo, que por um grande esforço de contenção o senhor primeiro ministro tenha conseguido dominar a crispação de quem ensina ou revela à multidão o caminho de que ela não quer ouvir.
A não ser assim, o tom calmo poderia indiciar o recurso a tranquilizantes; mas talvez não, pelo alivio que o movimento da mãos revelou nas ultimas frases, como quem denota alivio pelo fim de uma tarefa desconfortável, terá sido uma contenção de auto-domínio.
As mãos estão pousadas sobre os joelhos durante a maior parte do tempo da comunicação, os dedos esticados na direção da câmara.
Nunca tomam a posição do professor a despejar sobre a audiencia a sua sebenta, o indicador apertado com o polegar, em movimentos verticais de quem estabelece doutrina a seguir.
Apenas de uma vez o indicador tocou com decisão o polegar, mas os movimentos foram na horizontal, no sentido da abertura comedida dos braços.
Foi quando mudou o registo incitando ao entusiasmo e ao restabelecimento da confiança das pessoas comuns como centro da democratização da economia.
Lembrei-me do capitalismo popular da Thatcher, a mesma convicção e fé na livre iniciativa, no interesse egoista que se traduz no bem comum.
Daí o acoplamento professoral do indicador e do polegar.
Mas não seria necessário o apelo, já muitos portugueses e portuguesas trabalham assim, com as suas capacidades no máximo e um rendimento pouco dignamente classificado por Paul Tomsen como superior ao valor do que produzem.
Não peça mais à inventiva dos portugueses, para não ouvir a portuguesa que vai para Macau onde esperará pelos filhos, dizer que "coragem seria ficar em Portugal sem ter dinheiro para pôr comida na mesa".
Antes, o registo pausado tinha recuperado o discurso da vitima que não resolve as coisas porque a culpa é dos outros, é das estruturas que não deixam retirar o potencial dos portugueses.
Raras foram as vezes em que as mãos sublinhavam o discurso, e as mais das vezes apenas a mão direita, levantando-se do joelho poucos centimetros, segundo uma rotação em torno de um eixo apontado aos espetadores.
A semiótica diria que era um gesto, esse levantar de mão, de persuasão, mas uma persuasão de quem se sente inseguro; por isso as mãos estiveram tanto tempo quietas, abrigadas de uma reação desconfortável do público, que nunca se sabe quando possa repetir-se o protesto da senhora com o filho ao colo a bater no tejadilho do carro oficial.
E os movimentos a duas mãos que pontuaram mais raramente o discurso significariam uma insistencia para reforço das próprias convicções quando fala da rede da confiança, ou o endosso aos cidadãos e cidadãs, depois do seu elogio, da culpabilização das estruturas e dos interesses que violam a mais elementar justiça, agora é convosco, se falharmos sereis vós que não estivestes à altura do meu superior entendimento, porque se eu tenho fé no principio do interesse egoista é porque ele é verdadeiro, mas isto só pode ser dito pelo movimento em amplexo contido das mãos, que rapidamente regressam ao contacto protetor dos joelhos.
Que serão as pessoas comuns (não apenas as de boa fortuna de nascimento... que elegancia enquanto as mãos se abrem e que delicadeza para com os desempregados) que estarão na base das transformações das estruturas.
Que o método será downtop, de baixo para cima.
Como na Sabedoria das Multidões, de James Surowiecky?
Quer que eu acredite nisso?
É assim que está a suceder com o plano estratégico de transportes, é?
Mas, mas...transformações? Se é transformação tem de ser discutida ao pormenor e com apoio amplo.
A avaliar pelo infeliz debate do plano estratégico de transportes, não creio que o governo seja capaz de assegurar esse apoio.
E portanto vamos mudar de estruturas (claro que é preciso mudar de estruturas, este blogue há anos que diz isso, apontando deficiencias na justiça, na segurança rodoviária, na segurança dos cidadão, na educação, na cultura, na saúde, a que continua a assistir após meio ano do novo governo), mas o conceito já discutido neste blogue de "structure follows strategy" mantem-se. E falta o debate amplo sobre as estratégias.
Estranho ouvir o senhor primeiro ministro apelar à confiança invisível, imaterial, intangível à moda de Keynes e à agilização da regulação (ter-se-ão crispado, os dedos das mãos? não se consegue perceber pelas imagens).
Infelizmente, é grande a probabilidade de que o discurso seja uma aplicação do velho hábito português, "o que era bom era" que houvesse uma transformação de estruturas, um aumento de confiança... e depois, não aparece a lista de medidas concretas discutida com os especialistas, sujeita a debate publico.
Nenhuma sociedade que se preze pode desperdiçar o saber acumulado dos mais velhos.
Dito assim, com o movimento persuasivo da mão direita, não impede que eu pense nos meus colegas que pediram a antecipação da reforma aos 55 anos.
Que continuarão na vida ativa, dirão os apoiantes do senhor primeiro ministro, talvez até contratados por operadores privados de transportes.
Mas eu direi que há muito trabalho para fazer nas empresas publicas de transportes, mesmo sem a construção de novas linhas; há muito trabalho na normalização técnica e na acessibilidade da documentação técnica. Para que continue a engenharia a melhorar a manutenção dos sistemas, construções e equipamentos, e a preparar o futuro, quando acabar o pesadelo, para não se cair numa dependencia absoluta do conhecimento técnico estrangeiro.
Mas, ao contrário das palavras bonitas do senhor primeiro ministro, é mais interessante para o governo a diminuição do numero de funcionários nas empresas publicas de transportes ("vamos acabar com as regalias", está escrito no plano estratégico de transportes).
Avaliará o senhor primeiro ministro o insulto que eu sinto em mim quando diz que não se deve desperdiçar o saber acumulado e depois o que eu vejo é exatamente esse desperdício?
Aceitará o senhor primeiro ministro, que pediu confiança, que para eu ter confiança numa pessoa é necessário que ela não diga uma coisa durante uma campanha eleitoral ("a minha garantia é que, se for necessário, lançarei impostos sobre o consumo e não sobre os rendimentos do trabalho") e faça outra depois?
Para poder escrever este texto, revi a mensagem no sitio de uma estação de televisão. Curiosamente, o video seguinte era o do assalto a um supermercado de Albufeira, gravado pelas próprias câmaras de vigilancia, no dia seguinte à da mensagem, vendo-se um grupo de jovens encapuçados roubando carne e outros produtos alimentares.
Fiquei a pensar no potencial de confiança desses jovens para realizar o assalto e na sua capacidade para transformar as estruturas do nosso país de modo a ficarem no centro da democratização económica com cada vez mais inovação nas suas iniciativas e cooperação no esforço para uma maior equidade social na repartição dos sacrificios.
Ou terá sido uma torpe manobra do paginador do sítio da estação televisiva, a querer associar os dois videos pela proximidade?
Mas eis que a semiótica encontra um novo tema na mensagem de natal do senhor primeiro ministro.
O senhor primeiro ministro, sentado num cadeirão, apresenta-se com as pernas traçadas em primeiro plano.
Dirá a semiótica que é uma postura a um tempo defensiva e com o significado de marcar uma distancia relativamente aos ouvintes.
É provável, pelo tom calmo, que por um grande esforço de contenção o senhor primeiro ministro tenha conseguido dominar a crispação de quem ensina ou revela à multidão o caminho de que ela não quer ouvir.
A não ser assim, o tom calmo poderia indiciar o recurso a tranquilizantes; mas talvez não, pelo alivio que o movimento da mãos revelou nas ultimas frases, como quem denota alivio pelo fim de uma tarefa desconfortável, terá sido uma contenção de auto-domínio.
As mãos estão pousadas sobre os joelhos durante a maior parte do tempo da comunicação, os dedos esticados na direção da câmara.
Nunca tomam a posição do professor a despejar sobre a audiencia a sua sebenta, o indicador apertado com o polegar, em movimentos verticais de quem estabelece doutrina a seguir.
Apenas de uma vez o indicador tocou com decisão o polegar, mas os movimentos foram na horizontal, no sentido da abertura comedida dos braços.
Foi quando mudou o registo incitando ao entusiasmo e ao restabelecimento da confiança das pessoas comuns como centro da democratização da economia.
Lembrei-me do capitalismo popular da Thatcher, a mesma convicção e fé na livre iniciativa, no interesse egoista que se traduz no bem comum.
Daí o acoplamento professoral do indicador e do polegar.
Mas não seria necessário o apelo, já muitos portugueses e portuguesas trabalham assim, com as suas capacidades no máximo e um rendimento pouco dignamente classificado por Paul Tomsen como superior ao valor do que produzem.
Não peça mais à inventiva dos portugueses, para não ouvir a portuguesa que vai para Macau onde esperará pelos filhos, dizer que "coragem seria ficar em Portugal sem ter dinheiro para pôr comida na mesa".
Antes, o registo pausado tinha recuperado o discurso da vitima que não resolve as coisas porque a culpa é dos outros, é das estruturas que não deixam retirar o potencial dos portugueses.
Raras foram as vezes em que as mãos sublinhavam o discurso, e as mais das vezes apenas a mão direita, levantando-se do joelho poucos centimetros, segundo uma rotação em torno de um eixo apontado aos espetadores.
A semiótica diria que era um gesto, esse levantar de mão, de persuasão, mas uma persuasão de quem se sente inseguro; por isso as mãos estiveram tanto tempo quietas, abrigadas de uma reação desconfortável do público, que nunca se sabe quando possa repetir-se o protesto da senhora com o filho ao colo a bater no tejadilho do carro oficial.
E os movimentos a duas mãos que pontuaram mais raramente o discurso significariam uma insistencia para reforço das próprias convicções quando fala da rede da confiança, ou o endosso aos cidadãos e cidadãs, depois do seu elogio, da culpabilização das estruturas e dos interesses que violam a mais elementar justiça, agora é convosco, se falharmos sereis vós que não estivestes à altura do meu superior entendimento, porque se eu tenho fé no principio do interesse egoista é porque ele é verdadeiro, mas isto só pode ser dito pelo movimento em amplexo contido das mãos, que rapidamente regressam ao contacto protetor dos joelhos.
Que serão as pessoas comuns (não apenas as de boa fortuna de nascimento... que elegancia enquanto as mãos se abrem e que delicadeza para com os desempregados) que estarão na base das transformações das estruturas.
Que o método será downtop, de baixo para cima.
Como na Sabedoria das Multidões, de James Surowiecky?
Quer que eu acredite nisso?
É assim que está a suceder com o plano estratégico de transportes, é?
Mas, mas...transformações? Se é transformação tem de ser discutida ao pormenor e com apoio amplo.
A avaliar pelo infeliz debate do plano estratégico de transportes, não creio que o governo seja capaz de assegurar esse apoio.
E portanto vamos mudar de estruturas (claro que é preciso mudar de estruturas, este blogue há anos que diz isso, apontando deficiencias na justiça, na segurança rodoviária, na segurança dos cidadão, na educação, na cultura, na saúde, a que continua a assistir após meio ano do novo governo), mas o conceito já discutido neste blogue de "structure follows strategy" mantem-se. E falta o debate amplo sobre as estratégias.
Estranho ouvir o senhor primeiro ministro apelar à confiança invisível, imaterial, intangível à moda de Keynes e à agilização da regulação (ter-se-ão crispado, os dedos das mãos? não se consegue perceber pelas imagens).
Infelizmente, é grande a probabilidade de que o discurso seja uma aplicação do velho hábito português, "o que era bom era" que houvesse uma transformação de estruturas, um aumento de confiança... e depois, não aparece a lista de medidas concretas discutida com os especialistas, sujeita a debate publico.
Nenhuma sociedade que se preze pode desperdiçar o saber acumulado dos mais velhos.
Dito assim, com o movimento persuasivo da mão direita, não impede que eu pense nos meus colegas que pediram a antecipação da reforma aos 55 anos.
Que continuarão na vida ativa, dirão os apoiantes do senhor primeiro ministro, talvez até contratados por operadores privados de transportes.
Mas eu direi que há muito trabalho para fazer nas empresas publicas de transportes, mesmo sem a construção de novas linhas; há muito trabalho na normalização técnica e na acessibilidade da documentação técnica. Para que continue a engenharia a melhorar a manutenção dos sistemas, construções e equipamentos, e a preparar o futuro, quando acabar o pesadelo, para não se cair numa dependencia absoluta do conhecimento técnico estrangeiro.
Mas, ao contrário das palavras bonitas do senhor primeiro ministro, é mais interessante para o governo a diminuição do numero de funcionários nas empresas publicas de transportes ("vamos acabar com as regalias", está escrito no plano estratégico de transportes).
Avaliará o senhor primeiro ministro o insulto que eu sinto em mim quando diz que não se deve desperdiçar o saber acumulado e depois o que eu vejo é exatamente esse desperdício?
Aceitará o senhor primeiro ministro, que pediu confiança, que para eu ter confiança numa pessoa é necessário que ela não diga uma coisa durante uma campanha eleitoral ("a minha garantia é que, se for necessário, lançarei impostos sobre o consumo e não sobre os rendimentos do trabalho") e faça outra depois?
Para poder escrever este texto, revi a mensagem no sitio de uma estação de televisão. Curiosamente, o video seguinte era o do assalto a um supermercado de Albufeira, gravado pelas próprias câmaras de vigilancia, no dia seguinte à da mensagem, vendo-se um grupo de jovens encapuçados roubando carne e outros produtos alimentares.
Fiquei a pensar no potencial de confiança desses jovens para realizar o assalto e na sua capacidade para transformar as estruturas do nosso país de modo a ficarem no centro da democratização económica com cada vez mais inovação nas suas iniciativas e cooperação no esforço para uma maior equidade social na repartição dos sacrificios.
Ou terá sido uma torpe manobra do paginador do sítio da estação televisiva, a querer associar os dois videos pela proximidade?
sábado, 3 de setembro de 2011
Semiótica V - os três símbolos japoneses
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sexta-feira, 5 de agosto de 2011
Semiótica I - o indicador e o polegar
Semiótica - o estudo dos sinais.
Quando Obama discursa e quer convencer os seus ouvintes das virtudes de uma sua proposta, reparem que a mão direita se levanta ligeiramente enquanto o indicador, em movimento contrário, se aproxima do polegar, para depois, repetidamente, apontar lenta e discretamente para baixo.
Será o sinal de que não há unanimidade e que é dificil convencer os adversários politicos.
Talvez inconscientemente os dois dedos unidos signifiquem que se está a pegar numa folha de papel com o decreto da medida proposta, aprovada após árduo esforço de negociação.
Isto é, que se atingiu o objetivo, e os dois dedos como que seguram a caneta com que assinou, ou desejaria ter assinado o decreto.
Ou significa simplesmente que se confundem desejos com realidades.
Ou será o sinal que mostra que a palavra e a argumentação não são suficientes para demonstrar a correção da proposta.
É natural que não.
A mente humana não é apenas razão, e a emoção não admite uma demonstração racional que poderia levar a uma unanimidade indesejada (de facto a unanimidade destroi a capacidade de deteção de erros num raciocinio).
Além de que o cérebro tem dificuldade em interpretar corretamente a realidade porque só apreende pequenas parcelas dela, preenchendo os vazios com o fruto da sua imaginação.
Ou aqueles movimentos repetidos com o indicador encostado ao polegar e a apontar lenta mas assertivamente o caminho a seguir tentarão transmitir a fundamentação da proposta e, de tão repetidos, conseguirem a sua aprovação.
Já repararam como fazem os atores das telenovelas brasileiras quando num diálogo é necessário sair do registo calmo?
Levantam as mãos ao nivel do coração, esticam os indicadores para o alto e agitam-nos em movimentos de aproximação e afastamento.
Sinal claro de que não conseguem só com o jogo fisionómico e o controle vocal transmitir o dramatismo pretendido pelo autor.
Tal como Obama não conseguiu convencer os seus eleitores, no confronto entre a conceção capitalista clássica de um lado, de quem não quer impostos porque quando se é rico foi porque se foi superior e por isso merece-se isenção de imposto e os pobres que paguem a crise, e a conceção assistencial do outro.
Isto é, no, we can't.
Não é possivel, por mais convictamente que se aperte o polegar e o indicador, abalar a fé religiosa e cega no interesse egoista de quem tem exito e de quem não tem exito mas espera que um dia venha a ter exito. No interesse egoista de quem pagou um seguro de saude que lhe dá tratamento preferencial relativamente a quem não o tem.
Não é possivel, numa economia de 10.000 mil milhões de euros de PIB e de valor semelhante de dívida pública,
haver acordo para aumentar o teto da dívida sem sacrificar a proposta do aumento dos impostos e do serviço de saúde abrangente.
Pena não se dar ouvidos ao financeiro chinês: "os USA estão a pedir dinheiro para pagar dívidas e isso não é bom".
Pena não se analisar a correlação entre o congelamento dos impostos nos USA e a subida da divida nas presidencias de Reagan (no tempo do petróleo abundante e barato) e de Bush.
Pena não se denunciar o impacto das despesas militares na divida publica dos USA, apesar de essas despesas irem ao encontro do interesse egoista do complexo militar-industrial de que Eisenhower falou no seu discurso de despedida.
E já repararam que, quando o primeiro ministro de Portugal, Passos Coelho, começa a falar de um assunto que sabe que vai contrariar os portugueses, aperta o indicador e o polegar e os move insistentemente, com ar professoral?
E que, nalguns registos televisivos que ficaram do professor de Santa Comba, tambem aparecem os dois dedos a impor aos portugueses a verdade que é só deles?
A semiótica é uma disciplina interessante.
Quando Obama discursa e quer convencer os seus ouvintes das virtudes de uma sua proposta, reparem que a mão direita se levanta ligeiramente enquanto o indicador, em movimento contrário, se aproxima do polegar, para depois, repetidamente, apontar lenta e discretamente para baixo.
Será o sinal de que não há unanimidade e que é dificil convencer os adversários politicos.
Talvez inconscientemente os dois dedos unidos signifiquem que se está a pegar numa folha de papel com o decreto da medida proposta, aprovada após árduo esforço de negociação.
Isto é, que se atingiu o objetivo, e os dois dedos como que seguram a caneta com que assinou, ou desejaria ter assinado o decreto.
Ou significa simplesmente que se confundem desejos com realidades.
Ou será o sinal que mostra que a palavra e a argumentação não são suficientes para demonstrar a correção da proposta.
É natural que não.
A mente humana não é apenas razão, e a emoção não admite uma demonstração racional que poderia levar a uma unanimidade indesejada (de facto a unanimidade destroi a capacidade de deteção de erros num raciocinio).
Além de que o cérebro tem dificuldade em interpretar corretamente a realidade porque só apreende pequenas parcelas dela, preenchendo os vazios com o fruto da sua imaginação.
Ou aqueles movimentos repetidos com o indicador encostado ao polegar e a apontar lenta mas assertivamente o caminho a seguir tentarão transmitir a fundamentação da proposta e, de tão repetidos, conseguirem a sua aprovação.
Já repararam como fazem os atores das telenovelas brasileiras quando num diálogo é necessário sair do registo calmo?
Levantam as mãos ao nivel do coração, esticam os indicadores para o alto e agitam-nos em movimentos de aproximação e afastamento.
Sinal claro de que não conseguem só com o jogo fisionómico e o controle vocal transmitir o dramatismo pretendido pelo autor.
Tal como Obama não conseguiu convencer os seus eleitores, no confronto entre a conceção capitalista clássica de um lado, de quem não quer impostos porque quando se é rico foi porque se foi superior e por isso merece-se isenção de imposto e os pobres que paguem a crise, e a conceção assistencial do outro.
Isto é, no, we can't.
Não é possivel, por mais convictamente que se aperte o polegar e o indicador, abalar a fé religiosa e cega no interesse egoista de quem tem exito e de quem não tem exito mas espera que um dia venha a ter exito. No interesse egoista de quem pagou um seguro de saude que lhe dá tratamento preferencial relativamente a quem não o tem.
Não é possivel, numa economia de 10.000 mil milhões de euros de PIB e de valor semelhante de dívida pública,
haver acordo para aumentar o teto da dívida sem sacrificar a proposta do aumento dos impostos e do serviço de saúde abrangente.
Pena não se dar ouvidos ao financeiro chinês: "os USA estão a pedir dinheiro para pagar dívidas e isso não é bom".
Pena não se analisar a correlação entre o congelamento dos impostos nos USA e a subida da divida nas presidencias de Reagan (no tempo do petróleo abundante e barato) e de Bush.
Pena não se denunciar o impacto das despesas militares na divida publica dos USA, apesar de essas despesas irem ao encontro do interesse egoista do complexo militar-industrial de que Eisenhower falou no seu discurso de despedida.
E já repararam que, quando o primeiro ministro de Portugal, Passos Coelho, começa a falar de um assunto que sabe que vai contrariar os portugueses, aperta o indicador e o polegar e os move insistentemente, com ar professoral?
E que, nalguns registos televisivos que ficaram do professor de Santa Comba, tambem aparecem os dois dedos a impor aos portugueses a verdade que é só deles?
A semiótica é uma disciplina interessante.
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segunda-feira, 1 de novembro de 2010
Microensaio de semiótica
A semiótica é a arte dos sinais.
Tome-se a fotografia de três políticos e estude-se os sinais dos seus rostos.
Estão os três, o português, o francês e a alemã, a fixar o rosto do senhor presidente da Comissão Europeia, que não se vê na fotografia.
Faço este microensaio porque estive nalgumas reuniões com colegas estrangeiros e gostava de analisar as suas expressões faciais, até porque tenho uma deficiência de discernibilidade auditiva que me dificultava a compreensão das palavras.
O politico português exprime o desencontro grande entre a realidade e a construção otimista que só existia na sua cabeça. Os músculos flácidos, descaídos, do seu rosto mostram a impotência, não só para resolver as questões, como de as compreender, às questões e às soluções. Mas a melancolia estará associada à esperança de as certezas viverem independentemente da realidade. E, até certo ponto, às vezes todos os esforços devem orientar-se para a transformação da realidade. Por exemplo, se se vive num deserto, há que plantar árvores e regá-las para deixar de ser deserto. Mas há que fazer contas. Será talvez uma visão marxista, esta de querer transformar o mundo.
O político francês mostra uma ligeira desconfiança. As tribos francas pouco se distinguiam das germânicas originalmente. Distinguem-se mais agora porque decidiram adquirir a língua latina. Fizeram bem, dos sons mais bonitos que existem são as falas de Racine e de Rostand. Mas tão desconfiados que eles são dos povos do sul. Recordo-me de um colega recém-chegado a Lisboa, para assistir à colocação em serviço da estação Campo Grande, equipada com os primeiros motores de agulha franceses. Assustou-se porque não viu os protocolos de ensaio realizados escrupulosamente de acordo com o manual da fábrica. Como bom francês, achava que ninguém em Portugal entendia a língua de Montesquieu e disse ao meu lado para o compatriota: “Ils vont tout casser”. Não partiram, os ensaios tinham sido feitos e o pessoal tinha compreendido como funcionavam os novos mecanismos.
A política alemã tem uma expressão olímpica no seu rosto. Torce o pescoço e franze (curioso, o som deste tempo de verbo é o mesmo de um nome próprio alemão muito usado) os músculos dos olhos e da boca, como se tivesse coisas mais importantes a dedicar a sua atenção do que à conversa dos povos do sul, mal esperando para poder voltar a cabeça para a frente. Os olhos semicerrados exprimem também desconfiança, e um certo mal estar por não poder dizer em claro: trabalhem para poderem pagar os BMW , os Audi e os Mercedes, para isso vos emprestamos dinheiro. Recordo-me dum colega alemão que “ralhou” comigo um belo dia por não ter recebido a minha resposta ao questionário que ele conduzia no grupo. Tive de esperar o intervalo para, a sós, lhe mostrar cópia do email que o colega do sul lhe tinha enviado atempadamente com a resposta que ele tinha recebido mas não tinha registado. Males de quem confunde uma produtividade mais baixa dos povos do sul com o valor da produção (para a nossa economia, não deveria ser prioritário, neste momento, aplicar medidas de aumento da produtividade,mas sim medidas de aumento da produção com retorno; depois de aumentada a produção, então será a fase de aumentar a produtividade, isto é, aproveitar os mesmos meios de produção para produzir ainda mais).
Enfim, talvez esta semiótica não fosse tão crua se os nossos políticos não quisessem voar tão alto, e se começassem a levar para as suas reuniões pessoal mais ligado às estruturas sindicais, assim a modos como que à maneira dos Lula e dos Morales.
Mas deliro, provavelmente, embora não me pareça errada a interpretação semiótica nem o método proposto.
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