terça-feira, 6 de março de 2012

Acidente ferroviário na Polónia, em 3 de março de 2012

Já estão mais tranquilas as pessoas importantes que tomam decisões na Polónia.
Já podem tranquilizar a população que o transporte ferroviário é seguro porque um procurador já acusou um ou dois controladores de tráfego como responsáveis. Estão duas pessoas presas.
Decorriam trabalhos de manutenção programada na estação de Szekociny e só uma das vias estava em serviço. Os comboios chocaram de frente, um deles a 95 km/h. Pensa-se que por decisão errada do controlador, que autorizou o comboio no sentido norte-sul a entrar na via unica (durante os trabalhos).
Ficam tranquilas as consciencias dos politicos e dos dirigentes ferroviários que tomam decisões.
Mas ter-lhes-á passado pela cabeça que em técnica ferroviária um erro humano deve poder ser anulado, ou pelo menos atenuado até não ter consequencia fatais, por equipamentos de segurança e por procedimentos de recurso?
E que nessas condições eles também são réus?
Terão pensado ao menos isso, embora o não digam?
Se os trabalhos de manutenção estavam programados, então um sistema simples de contagem de eixos, por exemplo, poderia ter sido instalado, com sinalização impeditiva no caso da via já estar ocupada,  no pressuposto de que os comboios circulam equipados com "train-stop" (dispositivo de travagem automática independene do maquinista em caso de ultrapassagem de um sinal vermelho).
Dir-se-á que não há dinheiro para estes equipamentos.
Respondo que há dinheiro para desperdiçar em combustíveis fósseis no transporte rodoviário com indicadores de eficiencia energética piores.
Respondo ainda que a técnica ferroviária desenvolveu de inicio procedimentos de recurso quando não se dispõe desses equipamentos, o famoso "bastão-piloto", por exemplo, mas isso exige que as empresas gastem dinheiro em formação dos seus maquinistas. Sabe-se que os dois comboios pertenciam a operadores diferentes (como no caso da colisão na Saxonia-Anhalt, em 2011) e provavelmente a formação em procedimentos de recurso não terá sido intensiva. Igualmente operadores diferentes dificultam a garantia de cumprimento rigoroso desses procedimentos e tendem, por razões económicas, a não limitar a velocidade em zonas de manutenção .
Não terão assim o mínimo peso, na consciencia, os decisores que privatizaram a exploração das linhas ferroviárias.
E como sempre, é mais fácil culpar o pobre controlador, que provavelmente cometeu o erro fatal.

Em 1997, vivia-se no metropolitano de Lisboa a euforia das obras de remodelação da rede conhecida como o PERI (plano de expansão da rede I). A linha sob a Almirante Reis estava interrompida e preparávamo-nos para cortar a ligação entre as estações do Rossio e do Restauradores. O presidente da altura, para minimizar a extensão de troços interrompidos e satisfazer o seu gosto pelo poder, determinou  que, enquanto o novo esquema da rede não estivesse concluido (prolongamento a Cais do Sodré da linha de Almirante Reis, e prolongamento à Baixa da linha da Avenida da Liberdade) os comboios continuassem a circular, em dois sentidos, numa via unica entre Restauradores e Rossio.
O corpo técnico chamou-lhe a atenção para os riscos de explorar em dois sentidos uma via unica em tunel com obras a decorrer na outra via. Mas o senhor achava que era muito determinado e impôs mesmo a ideia.
O corpo técnico fez o que devia, adquiriu equipamentos para montar um sistema de proteção contra erros humanos, os tais contadores de eixos.
Pouco tempo antes da obra chegar à altura de impor a via unica, deu-se o incendio na estação Alameda, com origem num projetor junto do depósito de tintas e vernizes.
O senhor presidente achou então, possivelmente por imaginar um aviso divino, que não devia correr mais riscos, e concordou que a obra nos Restauradores-Rossio prosseguisse com a interrupção completa de exploração.

Na verdade, em exploração ferroviária, a coexistencia de trabalhos na via com a circulação de comboios em exploração é uma situação de elevado risco que deve ser evitada ou controlada com apertadas medidas restritivas de segurança.

Gostaria que isso fosse tido em conta no julgamento dos pobres controladores polacos, como atenuante.

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