sábado, 10 de março de 2012

O serviço nacional de saúde em março de 2012

Do DN de 2012-03-09:


“O Ministério da Saúde deve 900 milhões de euros aos hospitais”

Com todo o respeito pelo senhor ministro da saúde e sob reserva da existência de constrangimentos da sua ação para além dos cortes do memorando da troica, esperava-se mais, ao fim de 8 meses de governo.

Se a notícia corresponde à verdade, contrariamente ao que a comunicação social veiculou anteriormente, e analogamente ao que se passa no ministério dos transportes (não são as empresas que devem ao Estado, é o Estado que deve às empresas), não são os hospitais os donos da dívida aos fornecedores, é o ministério que deve aos hospitais e que não cumpre os contratos de prestação de serviço que assinou com eles.

Como diz a sabedoria popular, corta-se em tudo, menos na saúde.

Como houve dinheiro para comprometer 5 mil milhões de euros com o BPN e um tão apreciado gestor financeiro não arranja um programa de saneamento desta dívida de 900 milhões de euros?

Acrescento os seguintes comentários:

1 – um cidadão que muito prezo sofreu a rotura completa do tendão de Aquiles; foi assistido no hospital do Barreiro e logo transferido para o hospital de S.José, onde foi operado; esteve internado duas semanas e foi semanalmente assistido durante dois meses até ter alta. O serviço recebido foi de nível elevado. Pagou por tudo 8 euros, apesar de ter rendimentos para poder pagar mais. É verdade que o serviço nacional de saúde deveria ser tendencialmente gratuito, mas nos tempos que correm, as despesas deveriam ser comparticipadas em função dos rendimentos do cidadão;

2 – no espaço de dois dias, o DN deu conta dos testemunhos de dois médicos com serviços relevantes no tratamento e investigação do cancro. Um afirmou que a fundação Champalimaud está muito bem instalada em consequência de um tratamento preferencial do Estado e desenvolve trabalho meritório mas tem uma grande insuficiência: não tem doentes; outro afirmou que os cortes na saúde vão provocar um retrocesso social;

3 – em mais um artigo de opinião sobre o serviço nacional de saúde, o dr José Correia

(ver

http://fcsseratostenes.blogspot.com/2011/11/servico-nacional-de-saude.html

e

http://www.dn.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=2349399&page=-1 )



critica a drenagem de recursos do público para as PPP, a excessiva concentração em hospitais centrais, e o excesso de equipamento não aproveitado. Diz o mesmo que este blogue, que fechar postos de atendimento e hospitais locais foi um disparate (por acaso também do governo anterior) e que a maioria dos pensionistas irá aguardar pacientemente, e muitos mortalmente, a sua vez nas listas de espera acumulada dos grandes hospitais centrais. E dá uma explicação: falta de sensibilidade.

4 – neste momento, já pode afirmar-se, com base nos dados estatísticos, que existe uma correlação entre os cortes na saúde e o aumento de mortalidade, agravada pelo frio e pela gripe; a relação de causa e efeito é uma hipótese, mas não parece poder afirmar-se ainda como efetiva; mas é uma hipótese, isto é, apesar do ar escandalizado do senhor primeiro ministro classificando-a como jogo politico em que não entra, é possível que exista a relação de causa e efeito, aguardando-se a evolução da mortalidade e o apuramento das causas e circunstancias de cada morte; qualquer governante deveria ter cuidado quando mexe em assuntos de saúde, porque pode tornar-se responsável por consequências graves; neste momento, é alarmante o aumento de mortes de pessoas com mais de 65 anos e de crianças com menos de 4 anos; os governantes deveriam ter sempre presentes, para não os repetir, mesmo em menor escala, os erros de quem privilegiou conceitos dogmáticos relativamente aos dados da realidade, deixando que circunstancias de seca precipitassem a ocorrência de mortes como as fomes da Ucrânia em 1933.

5 – Perante a gravidade da situação, o governo deveria alargar a outros setores políticos, sociais e profissionais a participação na análise e resolução das questões de saúde, privilegiando os critérios técnicos sobre os ideológicos.







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