segunda-feira, 15 de abril de 2013

O mercador de Veneza, consultor da troika

Vamos ver se percebi bem.
A divida à troika é de 78 mil milhões de euros.
Deste valor, 26 mil milhões, emprestados pelo FMI, têm de ser amortizados em 13 anos, até 2024, penso que pagando um total de 31 mil milhões (2,4 mil milhões de juros por ano, capital e juros).
Os nossos governantes e os nossos benfeitores, considerando que afinal a recessão tambem se deve aos erros de apreciação cometidos na elaboração do memorando e ao efeito recessivo das medidas aplicadas e da "conjuntura" internacional (estranho, há regiões do globo que nem por isso, mas tambem é verdade que não aplicam as medidas da UE) concederam o seguinte benefício: alargaram o prazo de amortização dos restantes 52 mil milhões de euros de 13 para 20 anos.
Então, aos 52 mil milhões de euros que teriam de ser pagos em em 13 anos, até 2024, corresponderia um valor total pago de 62,5 mil milhões de euros.
Mas como só é preciso pagar em 20 anos, até 2031, então o valor total será de 68,8 mil milhões de euros.
Acho que percebi bem, a oferta que recebemos é ter de pagar mais (não teriamos de pagar mais em valores reais se existir inflação e se a taxa de juro não for mexida, o que é uma hipótese destemida, além de que, se houver inflação, terá de se produzir mais para se obterem os mesmo euros e não haverá aumento de produtividade que consiga ganhar os tais euros).
Com a desculpa de que se paga menos por ano, e de que a taxa de juro nos "mercados" seria o dobro, acham os nossos governantes e os nossos benfeitores que foi uma grande ajuda e ficamos a ganhar.
Como comentou Jeronimo de Sousa, os credores ficam sempre a ganhar.
Shylock, credor de António, o Mercador de Veneza, não faria melhor.

Eu diria que o que ajudaria seria baixar a taxa de juro de 3 para 2 ou 1%, e ajudar este pais a produzir alimentos e energia (assegurando a compra dos excedentes, por exemplo) que lhe permitissem equilibrar a balança de pagamentos.
Mas os nossos governantes dirão que é uma utopia (além dos grupos financeiros e bancos perderem "mercado") e os grandes sábios do direito internacional explicarão que as diretivas comunitárias não o permitiriam (como disse? estas não permitiriam, mas outras, decididas para ajudar a resolver a crise, permitiriam).
A economia tem destas coisas, permite, como diria Dinis Machado,escolher um disparate ou o seu oposto, por maior que seja o disparate, e haver muita gente bem formada e instruida a dizer que sim, que é muito boa solução.





Excerto de "O mercador de Veneza" de Shakespeare, metáfora da ideologia das taxas de lucro e dos cortes. Ver em: 
http://www.elivros-gratis.net/livros-gratis-william-shakespeare.asp


SHYLOCK - Ora essa! Vede como vos exaltais! É meu desejo prestar-vos um obséquio, conquistar-vos a amizade, esquecer-me das injúrias com que me maculastes, suprir vossa necessidade, sem tirar proveito nenhum do meu dinheiro. No entretanto, não me quereis ouvir. É amiga a oferta.
ANTÓNIO - Realmente, muito amiga.
SHYLOCK - Quero dar-vos prova dessa amizade. Acompanhai-me ao notário e assinai-me o documento da dívida, no qual, por brincadeira, declarado será que se no dia tal ou tal, em lugar também sabido. a quantia ou quantias não pagardes, concordais em ceder, por eqüidade, uma libra de vossa bela carne, que do corpo vos há de ser cortada onde bem me aprouver.


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