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quarta-feira, 24 de setembro de 2014

os dez erros da troika

Transcrevo do Jornal de Negócios a notícia do lançamento do livro de Rui Peres Jorge. Penso que os senhores da troika, de forma sobranceira, mostraram grave ignorancia das condições reais das empresas e das pessoas em Portugal. É típico provocar estragos quando se ignora a realidade. Uma das mais eficazes formas de destruir uma empresa, ou um país, é substituir ou marginalizar os recursos humanos com o pretexto de que funcionam mal. É com as pessoas de que se dispõe e não com super-trabalhadores ou super-técnicos que se melhora uma empresa ou os seus processos de decisão e produção. Mas para aplicar isto é preciso ter experiencia do mundo real, coisa que os burocratas do FMI, BCE e CE não terão, pelo menos da realidade portuguesa (se duvidas houvesse, por mais que o sr Draghi diga que não, a ignorancia do caso do BES, quando já corriam investigações nos USA e no Luxemburgo, é o melhor exemplo).



Os resultados do programa de ajustamento negociado na Primavera de 2011 com Comissão Europeia, FMI e BCE ficaram aquém do previsto: a recessão foi maior, o défice e a dívida também. Boa parte do mau desempenho deve-se a erros na estratégia desenhada pelo governo português e pela troika, analisa Rui Peres Jorge, jornalista do Negócios, que acompanhou o programa nacional desde o início, numa obra intitulada "Os 10 erros da troika em Portugal", onde se contam a austeridade excessiva aplicada no País e na Europa, passando por um tratamento privilegiado do sistema financeiro, pela reforma do Estado que não aconteceu, ou pela guerra ao Tribunal Constitucional que por estes dias tem novos episódios. 

"Três anos depois da chegada da Comissão Europeia, FMI e BCE a Portugal. Três anos depois do início do Programa de Assistência Económica e Financeira. Três anos depois do empréstimo de 78 mil milhões de euros e de sucessivas medidas de austeridade agressivas sobre a vida dos portugueses, o balanço da passagem da Troika é desolador. A economia portuguesa passou por três anos de recessão e encontra-se aos níveis de 2003. O desemprego atingiu níveis nunca antes vistos, estimando-se que quase um quinto da população activa não tenha emprego. Quem mantém o seu posto de trabalho, viu-se sujeito a cortes salariais, aumento de impostos. Pensionistas e grupos sociais mais vulneráveis sofreram vários cortes nos apoios públicos. Como se justifica que o programa de assistência tenha falhado quase todas as previsões? Que 27 mil milhões de euros de austeridade só tenham reduzido o défice em nove mil milhões? Que o presidente da República preveja que até 2035 Portugal vá ficar sob vigilância apertada? E que os portugueses se sintam cada vez mais encurralados perante uma austeridade que se vai perpetuar e empurrou por ano mais de 100 mil pessoas para fora do País à procura de melhor vida?", lê-se na apresentação da obra editada pela Esfera dos Livros.

Rui Peres Jorge começa a viagem nos primeiros meses de 2011, com o chumbo do PEC IV, o documento que levou à demissão de José Sócrates e que moldou parte da estratégia orçamental da troika. Identifica depois dez erros de um programa que nasceu em poucas semanas, a partir de uma percepção da crise ainda deficiente. "Fraco conhecimento da realidade económica portuguesa e da verdadeira extensão da crise a nível europeu condicionaram à partida as regras de um programa que se revelou desajustado, aplicando medidas de contracção similares para todos os países resgatados. O tratamento privilegiado das instituições financeiras, a reforma do mercado de trabalho, que deu primazia à redução de salários em vez de promover soluções estruturais. Um desafio permanente aos limites constitucionais. E a chegada tardia e tímida de políticas virtuosas, como o combate a lucros excessivos de grandes empresas. Estes são alguns dos erros abordados nesta obra essencial para reflectir sobre o Portugal que a Troika nos deixa e pensar em soluções para o futuro", lê-se na sinopse do obra.

domingo, 15 de junho de 2014

Feira do livro, dois livros extraordinários


Pena não se poderem comprar e ler todos os livros que se queria.
Mas vejam só como são extraordina´rios estes dois livros que comprei.
Porque baseados na observação (normalmente com gráficos bem fundamentados), na formulação da hipótese e na sua comprovação. Com factos e números. Com estabelecimento de correlações reais.
Método diferente do usado pela troika e pelo governo que nos oprimem:

- "O espírito da igualdade, por que razão as sociedades mais igualitárias funcionam quase sempre melhor", Richard Wilkinson e Kate Pickett, ed. Presença

- "Os 10 erros da troika em Portugal, austeridades, sacrificios e empobrecimento, as reformas que abalaram o país", Rui Peres Jorge, ed. Esfera dos livros


Teoria da desigualdade, lendo um livro de Rui Peres Jorge

Se manobrares para ser diferente e superior aos outros, estarás a contribuir para o crescimento da economia. Por isso o pensamento dominante promove estímulos para a competição.
Porém, quanto mais desigual a sociedade, isto é, quanto maior a diferença entre o rendimento dos que maiores rendimentos têm, relativamente aos de menores rendimentos, piores os indicadores gerais.
Tinham razão quem fez a revolução francesa, em empunhar a bandeira da igualdade de direitos e de acesso às fontes de rendimento.
E há ainda a analogia com as leis do transito. Quem ultrapassa numa fila de transito entre outras filas, chega mais cedo a casa mas a velocidade média geral baixou e o tempo médio geral de percurso subiu.
Isto é, os penalisados pela vivacidade do ultrapassante estão a subsidiar o seu, dele, tempo.
Também por isso o código da estrada interdita essa manobra.
Curiosamente, na economia não é interdita a vivacidade da iniciativa de, por exemplo, destruir os pequenos negócios acordando com grandes fornecedores preços mais baixos à venda em grandes superfícies concentradas (transferindo os custos das deslocaçóes par aos clientes), nem o assenhoramento do controle de uma sociedade através do aumento de capital.
Concordo que as pessoas dedicadas à legislação ou à economia tenham dificuldade em aceitar estes argumentos, por fazerem apelo à compreensão física dos fenómenos. Uma lei de economia não surge de um movimento racional, antes é o resultado de comportamentos emocionais que, no conjunto da multidão, se aproxima de leis estocásticas independentes de análises racionais.

Isto a propósito de um comentário de João Salgueiro à afirmação de Judite de Sousa de que as desigualdades estavam a aumentar.
Que não, que estudos recentes indicavam que não, deixando a senhora admirada porque as evidencias observadas são as de que, com a crise, aumenta o fosso entre ricos e pobres.
O próprio relatório do FMI no 1ºtrimestre de 2014 gabava-se de ter cortado duas vezes mais no rendimento dos 20% mais ricos portugueses do que nos 20% mais pobres.
Os pequenos aprendizes de contabilistas do governo, como diria Gabriela Canavilhas, exultaram nas suas comunicações às TVs. Até falaram que o coeficiente de Gini tinha baixado por causa disso, de 34,5 para 34,3 (como não é demonstrado o cálculo, não interessa explicar se 0,2 é ou não significativo).

Mais uma vez a estatística é usada para enganar e para esconder a vergonha do desemprego e das suas consequencias no rendimento dos mais pobres.
Felizmente, um livro notável explica melhor as coisas.
Ficamos a devê-lo a Rui Peres Jorge, jornalista económico do Jornal de Negócios, autor de "Os 10 erros da troika em Portugal, austeridade, sacrificios e empobrecimento, as reformas que abalaram o país" .

34,3 é um valor inadmissível como indicador das desigualdades, sendo certo que as sociedades mais igualitárias, como a Noruega e a Suecia, ostentam indices de bem estar superiores aos dos paises menos igualitários, como os US e UK, como aliás o próprio FMI reconhece, em nota citada por Rui Peres Jorge ( J.Oistry, "Redistribution, inequality and growth").

Na verdade, segundo Rui Peres Jorge, a diferença de rendimentos entre os 20% mais ricos e os 20% mais pobres aumentou, em 2012, de 5,8 para 6 vezes, interrompendo a descida desde 2004.
E citando o relatório da OCDE, recorda que a despesa social em Portugal cresceu entre 2008 e 2013, em termos reais, 4% (escandalizando assim Medina Carreira), mas em Espanha cresceu 18% e na Irlanda 15%.

Mas valerá a pena argumentar com factos perante a visão tubular do governo, blindado por uma autoestima pouco saudável?

domingo, 29 de dezembro de 2013

o pequenino Sebastião

O pequeno Sebastião era muito determinado.
O tio Filipe tentou demovê-lo, dizendo-lhe que também andava encravado desde que o banqueiro de Augsburgo Fugger tinha deixado de lhe emprestar.
Mas que agora tinha arranjado uns pequenos banqueiros lá na terra, que esse banqueiros arranjassem os empréstimos para lhe emprestar depois a ele, Filipe, e que nunca se meteria numa aventura como a do sobrinho.
Porém, o pequeno Sebastião achava que tinha sido ungido por decreto divino e que ele é que era rei, e repetia "sou rei, sou rei, eu é que sei".
Alguns, com grandes interesses mas iludidos, seguiram-no, ao pequeno Sebastião, até Al-Troika-Kibir.
Outros ainda acreditam no pequeno Sebastião.
Mas eu espero que a maioria não, a ver se melhoramos.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

As coisas mudam...

As coisas mudam, vão mudando...quem diria, que ao fim de 18 meses de operação, a Easy Jet receba um pré aviso de greve par ao Natal e Ano Novo.
Terão de se habituar, os cidadãos e cidadãs que tanto criticam os trabalhadores das empresas publicas de transportes, à ideia de que os das empresas privadas tambem fazem greve.
A razão é simples:  a Easy Jet tem abusado, tal como a troika e os senhores governantes, na desvalorização do fator trabalho.
É uma forma de incentivar a luta de classes, e é uma forma errada de gerir, salvo melhor opinião.
A componente do fator capital nos custos de produção, graças às tecnologias que proporcionam aumentos de produtividade cresce. O custo do fator trabalho diminui. Não parece portanto lógico estar a diminui-lo artificialmente comprimindo os salários e dificultando a vida dos trabalhadores através de horários desfavoráveis.
Por outras palavras, se os senhores gestores querem melhorar as contas, invistam na racionalização do que tem maior peso nos custos, nos ativos do capital intensivo.
Eu penso que talvez seja isto também que o senhor presidente da CCP queria dizer quando comentou as afirmações do senhor vice presidente da comissão europeia que se manifestou muito feliz com o que viu em Portugal e que reduzir salários nesta fase é ótimo porque aumenta a "competitividade". Disse João Vieira Lopes: os economistas da troika desconhecem como funciona a economia portuguesa.
E assim sintetisou a grande questão: a troika desconhece como funciona a economia portuguesa, os senhores ministros também, nas respetivas áreas (exceção para os senhores ministros da saúde e da energia e ambiente). Assim não admira que os resultados sejam maus.
E quando vêm muito contentes dizer que o "empreendorismo" (extraordinário como o senhor ministro da Economia diz esta palavra) está a dar resultados, ou que as exportações são irrevogavelmente o máximo e o desemprego está a baixar (por mais que lhes expliquem que os critérios com que o Eurostat mede o desemprego tem uma margem de erro superior às melhorias que eles vêem, que o desemprego juvenil continua a subir, que a taxa teórica de desemprego pode estar a baixar mas a taxa de destruição de empresas e  de empregos continua a aumentar, que o peso das exportações no PIB continua demasiado pequeno, que a dependencia das importações continua insustentável, e que a principal componente das exportações são os combustíveis refinadas só possivel por decisões do anterior governo).
Não vale a pena, os pobres desconhecem mesmo, e o desconhecimento das coisas é maneira mais eficaz de destruir a economia, que parece ser o objetivo do atual governo (para depois dela destruida poder voltar a crescer, como diz o senhor primeiro ministro, por outras  palavras, mas é o que diz). Ou de como o maior grau de competencia para atingir um objetivo pode ser o desconhecimento e a ignorancia.
Como se pode ver no caso exemplar dos estaleiros de Viana do Castelo, contribuintes liquidos para o aumento da taxa de desemprego e para a diminuição da atividade produtiva do país. Ver o ar de auto satisfação do senhor ministro da defesa repetindo que tomou as melhores decisões ajusta-se perfeitamente à afirmação anterior, desconhecimento de como funcionam as coisa (neste caso, como se constroem navios como se põem ao serviço do país e como se justificam os 181 milhões de euros de "ajudas" porque nada proibe um Estado da UE de ter uma industria própria de defesa nacional). Aí temos pois um caso de competencia assegurada pelo desconhecimento. Se houvesse conhecimento, poderia acusar-se o senhor ministro de irresponsabilidade, por insistir que tomou boas decisões enquanto se ri. ou de má fé, o que não pode fazer-se porque o direito romano não autoriza fazer juizos de intenções. Além de que o senhorministro tem outra atenuante, que é a da fé cega que tem nos dogmas das privatizações. E sabe-se da psicologia que a fé pode ser uma barreira intransponível ao conhecimento.
Salvo melhor opinião, claro.
Mas como comecei por dizer, as coisas vão mudando, as empresas de transportes privadas já vão tendo as suas ameaças de greve (à atenção do senhor secretário de Estado das privatizações e concessões dos transportes).

segunda-feira, 15 de abril de 2013

O mercador de Veneza, consultor da troika

Vamos ver se percebi bem.
A divida à troika é de 78 mil milhões de euros.
Deste valor, 26 mil milhões, emprestados pelo FMI, têm de ser amortizados em 13 anos, até 2024, penso que pagando um total de 31 mil milhões (2,4 mil milhões de juros por ano, capital e juros).
Os nossos governantes e os nossos benfeitores, considerando que afinal a recessão tambem se deve aos erros de apreciação cometidos na elaboração do memorando e ao efeito recessivo das medidas aplicadas e da "conjuntura" internacional (estranho, há regiões do globo que nem por isso, mas tambem é verdade que não aplicam as medidas da UE) concederam o seguinte benefício: alargaram o prazo de amortização dos restantes 52 mil milhões de euros de 13 para 20 anos.
Então, aos 52 mil milhões de euros que teriam de ser pagos em em 13 anos, até 2024, corresponderia um valor total pago de 62,5 mil milhões de euros.
Mas como só é preciso pagar em 20 anos, até 2031, então o valor total será de 68,8 mil milhões de euros.
Acho que percebi bem, a oferta que recebemos é ter de pagar mais (não teriamos de pagar mais em valores reais se existir inflação e se a taxa de juro não for mexida, o que é uma hipótese destemida, além de que, se houver inflação, terá de se produzir mais para se obterem os mesmo euros e não haverá aumento de produtividade que consiga ganhar os tais euros).
Com a desculpa de que se paga menos por ano, e de que a taxa de juro nos "mercados" seria o dobro, acham os nossos governantes e os nossos benfeitores que foi uma grande ajuda e ficamos a ganhar.
Como comentou Jeronimo de Sousa, os credores ficam sempre a ganhar.
Shylock, credor de António, o Mercador de Veneza, não faria melhor.

Eu diria que o que ajudaria seria baixar a taxa de juro de 3 para 2 ou 1%, e ajudar este pais a produzir alimentos e energia (assegurando a compra dos excedentes, por exemplo) que lhe permitissem equilibrar a balança de pagamentos.
Mas os nossos governantes dirão que é uma utopia (além dos grupos financeiros e bancos perderem "mercado") e os grandes sábios do direito internacional explicarão que as diretivas comunitárias não o permitiriam (como disse? estas não permitiriam, mas outras, decididas para ajudar a resolver a crise, permitiriam).
A economia tem destas coisas, permite, como diria Dinis Machado,escolher um disparate ou o seu oposto, por maior que seja o disparate, e haver muita gente bem formada e instruida a dizer que sim, que é muito boa solução.





Excerto de "O mercador de Veneza" de Shakespeare, metáfora da ideologia das taxas de lucro e dos cortes. Ver em: 
http://www.elivros-gratis.net/livros-gratis-william-shakespeare.asp


SHYLOCK - Ora essa! Vede como vos exaltais! É meu desejo prestar-vos um obséquio, conquistar-vos a amizade, esquecer-me das injúrias com que me maculastes, suprir vossa necessidade, sem tirar proveito nenhum do meu dinheiro. No entretanto, não me quereis ouvir. É amiga a oferta.
ANTÓNIO - Realmente, muito amiga.
SHYLOCK - Quero dar-vos prova dessa amizade. Acompanhai-me ao notário e assinai-me o documento da dívida, no qual, por brincadeira, declarado será que se no dia tal ou tal, em lugar também sabido. a quantia ou quantias não pagardes, concordais em ceder, por eqüidade, uma libra de vossa bela carne, que do corpo vos há de ser cortada onde bem me aprouver.


segunda-feira, 25 de março de 2013

What did you say, doctor Abebe Selassie?


What did you say, doctor Abebe Selassie?
Unemployment result unhappy?
Worst than expected?
Disappointing to increase competition, lower demand and electricity prices not lowering?

Oh Dear!

Sabe, os manuais da London School nem sempre contêm a informação toda, especialmente a referente a países de economia pequena e com especificidades nem sempre compreendidas por estrangeiros.
É um pouco como a armadilha da pobreza.
Estar-se numa zona da curva dos rendimentos decrescentes em que os investimentos não trazem retorno, e em que medidas de austeridade se repercutem segundo leis de ressonância (fenómeno de amplificação de amplitudes de variáveis no tempo) aumentando cada vez mais a recessão do PIB.
Mas é estranho que o senhor doutor venha dizer que o desemprego foi pior do que o esperado.
Pensava que a London Schools tinha melhor conhecimento da interdependência das variáveis económicas, apesar dos seus economistas preferirem os gabinetes à realidade mal cheirosa dos indemnizados que foram despedidos por imposição da troika.
Sabe, os despedidos podem receber uma indemnização maior do que na Alemanha ou nos USA mas grande parte deles pode entrar em depressão e vão ter muita dificuldade em encontrar emprego.
Até podemos pensar que a troika acha muito bem estar-se a investir o dinheiro da segurança social para pagar indemnizações e subsídios de desemprego e esgotar assim os dinheiros da dita segurança social.
Ah, mas o senhor doutor acha que despedir aumenta o desemprego com os despedidos mas vai criar mais empregos graças à confiança dos empregadores.
Isto é, a London Schools e a escola de Chicago acham que despedir cria mais empregos do que suprime.
What fairy tales you believe, Dear!
E se fosse assim, estaria o governo português a usar o dinheiro das indemnizações e dos subsídios de desemprego para financiar novos empregos… não é ilegal, por prejudicar a concorrência que não despediu?(brinco com os seus argumentos, claro, porque eles são muito jocosos; dizer que o desemprego é pior do que o esperado é jocoso, embora também seja trágico).
Speak frankly, unemployment is a goal of London School and Chicago School.
Desemprego serve para conter os preços e fazer baixar os custos de produção do fator trabalho.
Sabe isso muito bem.
Porque veste então a pele do santo inocente e candido?
Ah, é verdade, quanto aos preços da energia.
Não quer aceitar a ideia de que a energia é um bem estratégico que deve estar subordinado ao conceito de serviço público, pelo que a concorrência não é para aqui chamada?
Eu sei que seria despedido se pensasse como eu, mas ao menos eu posso exprimir o que penso; não sei se o senhor doutor pode fazer o mesmo.
Quanto a preços de energia, conhece o senhor doutor o caso da desregulação da eletricidade na Califórnia e correspondente aumento de preço como consequencia da concorrencia?
Se não conhece recomendo.
Mundo cão, a economia da eletricidade.
Avessa aos dogmas da escola de Londres e da escola de Chicago.
Best Regards


terça-feira, 24 de julho de 2012

Entrevista do diretor do Diário Económico na RTP2 em 23 de Julho de 2012-07-23

A acusação é forte: o senhor ministro das finanças já tinha tido tempo, ao fim de mais de um ano de governo, de apresentar um plano de cortes na despesa pública. Especialmente depois de se ter enganado nas previsões da receita fiscal. Não deve por isso ficar contente por no 1º semestre de 2012 o défice público se ter quedado por 4.100 milhões de euros, abaixo do valor contratado com a troika de 4.400 milhões.

Já não é a acusação que tenho feito ao senhor ministro das finanças de mau desempenho e de uma experiencia até aqui longe das realidades comezinhas mas dramáticas que as cidadãs e cidadãos sofrem (no mesmo noticiário da RTP2: um desenhador-projetista desempregado está a poucos meses de ficar sem o subsídio e o centro de emprego não lhe arranja nada; também não recebe abono de família para os filhos; será que os senhores ministros não relacionam os cortes com estes casos?). É uma crítica especializada. Com a agravante de, durante a campanha eleitoral de 2011, o partido vencedor das eleições dizer nos seus comícios que sabia muito bem onde cortar “nas gorduras do Estado”. Afinal estavam a enganar os eleitores, naquela ótica de que podem prometer-se coisas e depois de eleitos não cumprirem, como disse o próprio primeiro ministro espanhol. Na ótica dos ciclos eleitorais que permite aos governos em períodos de excedentes aumentar a despesa pública e ganhar as eleições (caso das eleições de 1991 a seguir ao aumento de 12% dos salários da função pública e ao aumento de 7,8% do “peso” do Estado no PIB , num governo de Cavaco Silva).

Para além de inexperiência e de limitados conhecimentos da realidade, quando se diz que há muita gordura no estado para se cortar confundir-se-á possivelmente com ineficiências e burocracias a corrigir (evidentemente que não pode aceitar-se uma sinecura para Armando Vara numa fundação principescamente instalada para a segurança rodoviária, mas a verdade é que o ministério da administração interna entrava o funcionamento de entidades que devem existir para fiscalizar e dinamizar medidas corretivas para diminuição da sinistralidade rodoviária). E isso não se corrige com cortes cegos e sangrias. Nem a por a circular na Internet listas de observatórios que as pessoas não sabem para que servem. É o mesmo populismo de dizer que os engenheiros não são precisos num gabinete de estudos e desenvolvimento (pensarão as pessoas que as soluções são descidas de infusa, possivelmente graças à excelência das empresas e dos consultores privados que oferecem as suas soluções a administradores de empresas públicas ignorantes da essência do seu negócio). E que serve para deixar os ministros a falar a uma só voz, sem contradição.

Eis por que mais uma vez se deixa aqui registado que as soluções para esta crise não podem ser estudadas e decididas em secretismo, sem a participação alargada dos cidadãos e cidadãs. Os partidos que não estão no governo e a sociedade civil têm de participar. Apesar das conhecidas dificuldades portuguesas na organização de equipas mistas.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Falas de governantes - o esquerdismo de Alvaro Santos Pereira

Não resisto a citar o artigo de Alfredo Barroso sobre o esquerdismo de Álvaro Santos Pereira.


É uma pena o senhor ministro da economia ter de fazer o papel que faz no governo, porque até é um senhor com a capacidade de escrever uns livros e de analisar umas coisas, se bem que com alguma precipitação juvenil (exemplo do seu próprio blogue: afirmou que a produtividade decresceu a seguir ao 25 de Abril de 1974; teve porem de reconhecer que estava a esconder um facto justificativo essencial: o regresso de 500.000 pessoas das ex-colónias).

Mas enfim, são casos pessoais.

Alfredo Barroso citou extratos do livro do senhor ministro publicado em Abril de 2011, “Portugal na hora da verdade – como vencer a crise nacional”, pouco tempo antes da sua nomeação como ministro, a propósito da renegociação da dívida (coisa que, como se sabe, desde o princípio do memorando o PCP e o BE vêm defendendo; não por serem de esquerda, mas porque a realidade dos números é assim mesmo; a dívida não é pagável nesses termos):

-“para que seja sustentável, a dívida pública nacional tem de crescer a um ritmo inferior ao do crescimento económico” (deve ser por isso que agora desviou verbas do QREN de investimentos públicos para subsídios a pequenas empresas – mas também não é grave o “crime”: são 4milhões de euros a 8 anos)

- “de acordo com os cálculos do FMI, a dívida pública nacional, para ser sustentável, exige excedentes primários da ordem de 4 ou 5%” (na altura em que isto foi escrito até dava jeito, para sublinhar a incompetência dos senhores ministros das finanças que não identificaram atempadamente a ameaça)

- “face aos exorbitantes montantes da nossa dívida e ao crescente peso dos juros, é provável que um governo português se declare impotente para pagar a totalidade da dívida” (ui, caíram em cima do BE quando Francisco Louçã disse que tinha de se analisar se toda a dívida era legítima)

- “é muito possível que cheguemos a uma situação em que o Estado português se veja forçado a reestruturar a sua dívida pública junto dos credores externos e internos”

-“é provavelmente desejável que essa renegociação seja levada a cabo ao mesmo tempo que uma reestruturação da dívida de outros países europeus”

-“a reestruturação abrangeria não só um reescalonamento da dívida pública nacional (prazos) mas também a diminuição do valor da dívida (haircuts – o que não é o fim do mundo porque os empréstimos estão cobertos por seguros) … e englobar a divida pública detida pelos estrangeiros e a dívida interna, incluindo a renegociação das parcerias público-privadas” (parece que só esta parte foi autorizada).



Afinal, temos em Álvaro Santos Pereira uma pessoa que compreende os números e as forças em causa. Isto é, temos homem, em sintonia com o que o partido comunista e o bloco de esquerda sempre disseram a propósito da dívida.

Pese embora o senhor primeiro ministro persistir na sua obstinação juvenil, afirmando que quando tomou posse o país estava a dois passos da bancarrota e tinha necessidades de financiamento externo de dois dígitos, e agora só precisa de financiamento externo para 3,5% das suas necessidades (parece lógico, se aumentou a dívida, não só publica como privada, é natural que não precise de tanto financiamento externo).



Passe o aspeto anedótico da questão e a situação penosa para o senhor ministro no governo devida à dissonância entre o que está escrito no livro e o que o senhor primeiro ministro decide, penso que terá muito interesse relacionar tudo isto com duas questões:



1 – na mesma edição do DN, André Macedo recorda que o escudo desvalorizou, de 1980 até à entrada na moeda única em 2001, 244% face ao dólar. Perdeu-se assim, depois de 2001, a capacidade de melhorar as exportações e de compensar a inflação com o aumento de salários (e das taxas de juro). Por isso é natural que os senhores da troika insistam em reduzir os salários para o nível da Roménia e Bulgária, já que não se pode desvalorizar o euro (não poderá mesmo? desvalorizar-se um bocadinho o euro e aumentar-se ligeiramente a taxa de juro?  achava bem que os senhores do BCE pensassem nisso). De acordo com o teorema de Fermat-Weber, isto não tem solução com economias nacionais mais fracas em regime de economia global aberta (união fiscal, união bancária, união política, precisam-se, como diz Christine Lagarde no ignorado discurso de Tokio) . Isto é, basta uma economia de uma nação da união europeia crescer para absorver parte desse crescimento a uma economia mais fraca (penso que os senhores economistas, especialmente os académicos, deveriam estudar melhor o aspeto físico deste teorema, tão importante como a lei dos rendimentos decrescentes – aquela que diz que convem comprimir a economia até ela chegar a um ponto da curva dos rendimentos tão baixos que a taxa de crescimento possa ser elevada). E que o problema não se resolve culpando o Estado social, porque a dívida privada das famílias e das empresas (bancos incluídos) é superior à publica. (Eu diria que a solução não pode vir só de dentro, por mais heróico que seja o esforço das empresas que exportam e as que produzem para substituir as importações; bem podia perder-se o complexo de contra empresas públicas; as empresas públicas podem planear mais facilmente as coisas de forma integrada, não só associando-se e instalando empresas estrangeiras em Portugal, como fazendo isso no estrangeiro com empresas portuguesas; é a diplomacia económica, bem longe da teoria neo-liberal…e as diretivas europeias até têm exceções que podem, e devem ser invocadas, por mais dificuldade que os nossos jurídicos tenham em as compreender – condições excecionais para a instalação de centrais solares, por exemplo)



2 – ainda na mesma edição do DN, é citado um economista alemão recentemente saído do BCE por ter discordado da compra de dívida pública (se o homem discordou disto, o que discordaria ele das eurobonds e da união fiscal e bancária?), Jurgen Stark. O senhor afirmou que a zona euro deveria ser reduzida aos países economicamente estáveis e que as economias mais fracas deveriam sair. Na verdade, se não admitirmos a união bancária e a união fiscal, temos de dar razão ao homem. A questão é que a ideia da união europeia era mesmo a integração. E estas opiniões fazem lembrar a teoria dos 29% de alemães que votaram no partido nazi e lhe deram a maioria. E também fazem lembrar o perdão da dívida alemã correspondente à segunda grande guerra (como se calcula a dívida de um exército que ocupa Tessalónica e faz embarcar sem regresso 100.000 civis gregos?). Mas atenção que este blogue, quando fala nestas coisas, lembra sempre que a maioria (mais de 80%) dos colegas alemães com que trabalhou e dos turistas alemães com que fala no Algarve são pessoas civilizadas. Não há razão para não estarmos todos na mesma união europeia. Os senhores Schaubler e Stark não são suficientes para isso. Pelo menos por enquanto.

Lei dos rendimentos decrescentes - o risco de uma política ascética é o de provocar uma recessão que coloque a economia na zona da esquerda de rendimentos descrescentes, onde os investimentos não são reprodutores e são portanto inuteis