sábado, 4 de novembro de 2017

A expansão da rede do metropolitano de Lisboa


Há quase 1 ano que o XXI governo e a câmara de Lisboa vêm anunciando a expansão da rede do metropolitano sob a forma da transformação das linhas amarela e verde numa linha circular com a construção da ligação entre as estações Rato e Cais do Sodré.
Trata-se duma ideia do antigo MOPTC, de 2009, que na altura tive oportunidade de criticar, juntamente com outros colegas.
Trata-se também dum caso de formação de um plano e de decisão ao arrepio da opinião dos técnicos com experiencia na operação e na manutenção de metropolitanos.Mais uma vez se verifica a regra "quem decide não opera nem mantem". Nem, evidentemente, vai de metro para o trabalho.
Parecendo que a câmara de Lisboa, beneficiando dos rendimentos obtidos com as vendas de imobiliário e com as taxas turisticas, obteve ainda um empréstimo de cerca de 200 milhões de euros, existe o risco do projeto da linha circular ir mesmo para a frente.
Tenho feito o que posso para contrariar este projeto, propondo em alternativa o prolongamento da linha vermelha ou da linha amarela a Alcântara, em viaduto, com hipótese de prolongamento futuro a Algés. Com resultados nulos. A última tentativa é a mensagem que reproduzo abaixo, para os deputados  e deputadas da câmara de Lisboa.
Como não tenho o dom da comunicação atrativa, resultou uma escrita pesada a que os senhores deputados e deputadas pouco ligarão. Melhor fora que dissesse o que tinha a dizer de forma mais direta, por exemplo:

 - se querem aprovar um projeto feito por quem pouca ou nenhuma experiencia tem na operação e na manutenção de instalações de metropolitanos, votem no projeto da linha circular
- se querem aprovar um projeto que tem a desaprovação da maioria dos técnicos de operação, de manutenção e de desenvolvimento no ativo, votem no projeto da linha circular
- se querem ouvir a opinião desses técnicos, façam-no de forma que não possa haver constrangimentos sobre a sua livre expressão,
- se querem aprovar um projeto em que os novos troços dêem aos passageiros a sensação de estarem numa montanha russa, com curvas, contracurvas e declives, votem no projeto da linha circular
- se querem aprovar um projeto que piora os indicadores de fiabilidade e de manutenção, votem no projeto da linha circular
- se querem aprovar um projeto em que se gasta dinheiros públicos a estragar o que custou dinheiro a construir (viadutos poente de Campo Grande) sem que as vantagens justifiquem esses gastos, votem no projeto da linha circular
- se querem aprovar um projeto que, em vez de ir buscar passageiros a bairros não servidos e de se  aproximar dos limites da cidade,  fecha a rede sobre si própria e obriga um dos fluxos de tráfego a mais um transbordo, só para evitar um transbordo a outro fluxo de tráfego, votem no projeto da linha circular
- se acham que o voto dos eleitores significa um cheque em branco para decidir sobre assuntos técnicos sem para isso ter as devidas habilitações técnicas nem atender aos profissionais do setor (o que também se aplica por exemplo às decisões sobre localizações e desativações de hospitais como no caso da colina da saúde) , votem no projeto da linha circular



Mas não, foi este o texto enviado:







Exma Senhora Presidente da Assembleia Municipal de Lisboa
Exmos senhores deputados e deputadas da Assembleia Municioal de Lisboa

Assunto: expansão da rede do metropolitano de Lisboa através da linha circular

Na qualidade de reformado do metropolitano de Lisboa, onde desempenhei funções nas áreas de manutenção e engenharia de instalações fixas e de preparação das colocações em serviço das expansões,  em janeiro de 2017 enviei o meu parecer sobre a expansão do metropolitano de Lisboa aos senhores ministro do Ambiente, secretário de Estado adjunto, presidente da CML, presidente  do Metropolitano de Lisboa e grupos parlamentares da Assembleia da República. Junto ligação para essa carta.
Participei igualmente na 141ª reunião da Assembleia municipal de Lisboa em 16 de maio de 2017, onde expus a minha argumentação (https://www.youtube.com/watch?v=YL-lOp_LLQg
momentos 1.29 a 1.41).

Os argumentos que apresentei então e na documentação entretanto produzida que anexo baseiam-se na experiencia que testemunhei  e que vivi no metropolitano, nas áreas de operação e de manutenção. A linha circular foi proposta em agosto de 2009 pelo então MOPTC com base no trabalho de colegas da área de projeto de traçados e de construção, sem dúvida reconhecidamente competentes, mas desprovidos de experiência nas áreas  de operação e de manutenção.

Os inconvenientes graves de uma linha circular como a proposta são resumidamente:
- do ponto de vista operacional:
- em caso de perturbação, toda a linha, no caso de intervalos curtos entre comboios,  fica totalmente paralisada enquanto se criam as condições para uma exploração parcial; no caso das linhas atuais verde e amarela, uma avaria ou perturbação numa delas não prejudica a exploração da outra;
- como consequencia das caraterísticas dos novos traçados dos viadutos a construir no Campo Grande e das curvas da ligação Rato-Cais do Sodré, o conforto nas viagens será inferior aos padrões normais;
- caso se pense em manter os viadutos existentes no Campo Grande para uma exploração alternada (Odivelas-Cidade Universitária/Odivelas-Telheiras) a frequência dos comboios em cada troço ficará seriamente comprometida
- do ponto de vista de manutenção:
-   com base no histórico de  1 avaria por 14000 comboios.km, a probabilidade de ocorrencia simultanea de avarias nas duas linhas é 10 vezes menor do que na linha  circular que reune as duas, isto é, os indicadores de fiabilidade da linha circular equivalente são piores;
- como consequencia das curvas e declives dos novos traçados, haverá  desgaste e custos acrescidos de manutenção do material circulante e da via férrea, e um consumo adicional de energia;
- caso se pense em manter os viadutos existentes no Campo Grande para uma exploração alternada, os indicadores de fiabilidade agravar-se-ão graças aos aparelhos de mudança de via necessários: uma avaria num aparelho de via paralisa ambos os troços.

É importante ainda analisar os argumentos de que uma linha circular:
-  é estrutural por ser distribuidora de tráfego;
- serve melhor as zonas da cidade de mais emprego.  
O primeiro argumento é verdadeiro, mas é irrelevante para uma linha circular com as dimensões da proposta. Cruza apenas 2 linhas (vermelha e azul) e tem um diametro reduzido. Não é comparável com a linha circular de Madrid (cruza 8 linhas). Nem com a projetada em 2007 linha circular externa de metro ligeiro Algés-Amadora-Loures-Sacavem.
O conceito básico de uma rede de metro é o de uma malha de linhas independentes com transbordos, que permite um percurso alternativo quando ocorra uma avaria numa delas, e que assegure que qualquer ponto da cidade esteja a menos de um dado valor (por exemplo “half mile”, cerca de 800m) duma entrada de metro. A linha circular proposta como que “volta” para trás, deixando por servir a zona ocidental da cidade.
O segundo argumento segue uma lei perigosa em economia: acentua diferenças, em vez de as atenuar, favorecendo cada vez mais o que já está favorecido.

Tudo o que fica exposto poderá ser confirmado pela maioria dos técnicos do metropolitano das áreas de operação, manutenção e desenvolvimento, desde que sobre eles não seja exercido qualquer forma de constrangimento.

É curioso verificar que o plano base diretor da evolução da rede do metropolitano, elaborado em 1974 e mais ou menos cumprido com maiores ou menores desvios de 1995 a 2007, já justificava a expansão da linha amarela do Marquês de Pombal para Alcântara com a correspondência nesta com a linha de Cascais e com as carreiras fluviais.  A expansão do Marquês de Pombal e Rato para Alcântara, não a curva para trás, para o Cais do Sodré (nota-se que por razões de economia de construção e de manutenção a construção em Alcântara deverá ser em viaduto).
Igualmente deve destacar-se a maior área de atração, ou maior oferta, da linha férrea da Fertagus, com correspondência na futura estação Alvito, relativamente às carreiras fluviais para o Cais do Sodré.

Não tranquiliza a afirmação do senhor presidente da CML ao reiterar a atribuição de prioridade também à extensão da linha vermelha para Alcântara.
Não será a essencia da questão. Se se fundamenta a obra da ligação Rato-Cais do Sodré por já existir financiamento para isso e conhecidas as dificuldades financeiras do país, é quase certo que a extensão a Alcântara pela linha vermelha ou pela linha amarela não se concretizará, apesar de, de acordo com os princípios da operação e manutenção de metropolitanos, ser uma solução correta e o fecho em linha circular não, e de se tratar de um empreendimento elegível para financiamento comunitário.

Em conclusão, os argumentos apresentados são suficientes para fundamentar a reanálise dos planos de expansão, abrindo o debate sem o restringir ao plano do MOPTC de 2009 e ouvindo com recetividade e sem condicionamentos o parecer dos técnicos de operação, de manutenção e de desenvolvimento do metropolitano. Desse debate deverá sair a melhor solução.

Deixo pois a V.Exa e aos senhores deputados e deputadas, enquanto eleitos, esse apelo.


Com os melhores cumprimentos e votos de sucessos


Fernando Santos e Silva

Ligações:
carta de janeiro de 2017:
plano base diretor de 1974:
restante documentação:

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