Mostrar mensagens com a etiqueta Fernando Pessoa. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Fernando Pessoa. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Saí do comboio, poema de Fernando Pessoa

Poema de Fernando Pessoa, dedicado, nestes tempos em que tão sábios e preclaros relatórios dizem ao atual governo onde se devem investir os fundos comunitários, aos que acreditam no comboio como metáfora de vida e como meio de economizar energia primária.
Coisa dificil de entender pelos referidos preclaros e sábios.




Saí do comboio,
Disse adeus ao companheiro de viagem,
Tínhamos estado dezoito horas juntos.
A conversa agradável,
A fraternidade da viagem,
Tive pena de sair do comboio, de o deixar.

Amigo casual cujo nome nunca soube.
Meus olhos, senti-os, marejarem-se de lágrimas...
Toda despedida é uma morte...
Sim, toda despedida é uma morte.
Nós, no comboio a que chamamos a vida
Somos todos casuais uns para os outros,
E temos todos pena quando por fim desembarcamos.

Tudo que é humano me comove, porque sou homem.
Tudo me comove, porque tenho,
Não uma semelhança com ideias ou doutrinas,
Mas a vasta fraternidade com a humanidade verdadeira.

A criada que saiu com pena
A chorar de saudade
Da casa onde a não tratavam muito bem...

Tudo isso é no meu coração a morte e a tristeza do mundo,
Tudo isso vive, porque morre, dentro do meu coração.

E o meu coração é um pouco maior que o universo inteiro.


sexta-feira, 14 de março de 2014

De Álvaro de Campos/Fernando Pessoa, Livro de versos, 1934

Saí do comboio,
Disse adeus ao companheiro de viagem,
Tínhamos estado dezoito horas juntos.
A conversa agradável,
A fraternidade da viagem,
Tive pena de sair do comboio, de o deixar.

Amigo casual cujo nome nunca soube.
Meus olhos, senti-os, marejarem-se de lágrimas...
Toda despedida é uma morte...
Sim, toda despedida é uma morte.
Nós, no comboio a que chamamos a vida
Somos todos casuais uns para os outros,
E temos todos pena quando por fim desembarcamos.

Tudo que é humano me comove, porque sou homem.
Tudo me comove, porque tenho,
Não uma semelhança com ideias ou doutrinas,
Mas a vasta fraternidade com a humanidade verdadeira.

A criada que saiu com pena
A chorar de saudade
Da casa onde a não tratavam muito bem...

Tudo isso é no meu coração a morte e a tristeza do mundo,
Tudo isso vive, porque morre, dentro do meu coração.

E o meu coração é um pouco maior que o universo inteiro.


domingo, 1 de dezembro de 2013

O Dinheiro Vivo em 30 de Novembro: 1 – a evasão fiscal e a internet; 2 – quem quer empregos públicos; 3 – o livro do desassossego





                                                         

                                                              1

Devo agradecer ao DN e ao Dinheiro Vivo o excelente artigo de Paulo Querido na edição de 30 de Novembro, esperando que este meu aplauso não seja prejudicial ao autor, que teve a coragem de escrever algumas verdades incómodas a propósito da evasão fiscal via internet, numa altura em que o pobre governo confessa a sua incapacidade de legislar sobre o jogo online (depois de vários grupos de estudo proporem o que tinham a propor).
Por exemplo:
- entre 2009 e 2012 a Apple não pagou impostos sobre receitas internacionais de 54  mil milhões de euros
- o Facebook paga os impostos das operações internacionais na generosa Irlanda
- os USA têm um problema de receitas de impostos, não de despesa pública (onde já se viu este filme?)
- citando o economista Luís Bento: “é urgente refundar o sistema de financiamento dos estados modernos, pois a manutenção de uma estrutura de financiamento centrada em impostos e taxas sobre os rendimentos e o património está esgotada”; “os estados constituíram ao longo dos tempos largos setores empresariais que reprivatizaram, transferindo assim para o setor privado industrias chave, perdendo uma fonte extraordinária de receitas” “como o presidente da Google propôs, a quantidade de impostos e taxas devia ser reduzida e simplificada para que as empresas pudessem pagar mais imposto com menor custo”
- a ideia anterior devia ser aplicada à redução da economia paralela (26% em Portugal segundo o Obegef, mas eu penso que é maior), sem perseguições e imposições violentas.

                                                             2

Mas a edição do dia 30 de Novembro tem duas coisas que muito me desagradaram:

-  uma , a habitual provocaçãosinha do senhor professor da universidade de Columbia, para ver se as pessoas se irritam: “estudos mostram que  os jovens mais batoteiros são os que mais desejam concorrer a um emprego na função pública”. Os ditos estudos são experiencias com grupos; cada participante ficava fechado num compartimento a fazer 42 lançamentos de dados e a anotar o número que saía; receberia um pagamento igual ao somatório dos pontos anotados; a conclusão foi que os jovens mais batoteiros eram os que  queriam muito um emprego público. Na verdade, não contesto o rigor da experiencia nem a conclusão, especialmente se pensarmos nos cargos políticos como função pública. Porém, trata-se também de um insulto para quem faz ou fez uma vida profissional subordinada ao conceito de servidor público. Assim como os batoteiros querem um emprego na função pública , também houve e há muitos que não são nem foram batoteiros e também querem ou quiseram um emprego público. Pena não ter sido feita a ressalva, por uma questão de elegância de quem escreve.
  
                                                             3

- a outra, por parte do próprio diretor do dinheiro vivo, que terá como atenuante a qualidade da informação da publicação que dirige; mas que fez uma interpretação de Fernando Pessoa (mais precisamente de Bernardo Soares no seu livro do desassossego) que me parece equivocada. 
A propósito do aparecimento de muitos pequenos empresários (claro que numa época de crise o estímulo é maior) que aplaude, diz:
“Já não somos o Portugal dos mangas de alpaca, embora ainda hoje os haja, como também ainda subsiste aquela espécie diabólica que justifica o seu estado de torpor permanente e inação congénita apontando para as costas do patrão Vasques, personagem de Fernando Pessoa”.

 E cita a passagem do livro do desassossego, texto 91:
” Lembro-me já do patrão Vasques no futuro com a saudade que sei que hei de ter então. Estarei sossegado numa casa pequena nos arredores de qualquer coisa, fruindo um sossego onde não farei a obra que não faço agora, e buscarei, para a continuar a não a ter feito, desculpas diversas daquelas em que hoje me esquivo a mim”.
Não me parece que a interpretação esteja certa. Fernando Pessoa não estava a desmerecer no manga de alpaca que era o patrão Vasques, antes se lhe refere de todas as vezes com consideração e respeito por quem trabalha. Que não é uma espécie diabólica.

Veja-se a continuação do texto 91 do livro do desassossego:
“…Ou estarei internado num asilo de mendicidade, feliz da derrota inteira, misturado com a ralé dos que se julgaram génios e não foram mais do que mendigos com sonhos, junto com a massa anónima dos que não tiveram poder para vencer nem renuncia larga para vencer do avesso. Seja  onde estiver, recordarei com saudade o patrão Vasques, o escritório da rua dos Douradores, e a monotonia da vida quotidiana será para mim como a recordação dos amores que me não foram advindos, ou dos triunfos que não haveriam de ser meus”.

- excertos do texto 81: “…o patrão Vasques, o guarda livros Moreira, o caixa Borges, os bons rapazes todos, o garoto alegre queleva as cartas ao correio, o moço de todos os fretes, o gato meigo – tudo isso se tornou parte da minha vida; não poderia deixar tudo isso sem chorar…” “ Tenho amor a isto, talvez porque não tenha mais nada que amar – ou talvez, também, porque nada valha o amor de uma alma, e se temos por sentimento que o dar, tanto dá dá-lo ao pequeno aspeto do meu tinteiro como à grande indiferença das estrelas”.

- excerto  do texto 113: “…fui pagar a Cascais uma contribuição do patrão Vasques, de uma casa que tem no Estoril. Gozei o prazer de ir, uma hora para lá, uma hora para cá, vendo os aspetos sempre vários do grande rio e da sua foz atlântica..o comboio abranda, é o Cais do Sodré. Cheguei a Lisboa, mas não a uma conclusão.”

- excertos do texto 114: “…tive grandes ambições e sonhos dilatados – mas esses também os teve o moço de fretes ou a costureira, porque sonhos tem toda a gente: o que nos diferença é a força de conseguir ou o destino de se conseguir connosco…””…bem sei que há ilhas ao sul e grandes paixões cosmopolitas…”

Poderemos dizer que Fernando Pessoa, aliás era ele que o dizia, atravessava um período de depressão quando escreveu isto, mas daí a considerar os “mangas de alpaca”, cuja pele vestia, como uma espécie incapaz e diabólica, parece-me desajustado e fora do contexto cronológico. 
A menos que se dê mais importância à descrença em si próprio ou a consciência de que se atingiu o limite que Bernardo Soares descreve, do que à lucidez da interpretação da dualidade da realidade  por Fernando Pessoa.
                                                CONCLUSÃO

Torpor permanente? 
O diretor do dinheiro vivo não terá interpretado bem a definição de incompletude dos desígnios que é uma das ideias força de Fernando Pessoa. 
E que qualquer simples mortal experimenta sempre que anseia por mais do que o que pode. 
E em que todo um povo pode cair (ou pelo menos uma parte dolorosamente significativa), sofrendo a acusação de viver acima das possibilidades, quando na verdade por múltiplas e complexas razões vive muito abaixo das suas capacidades.

Veja-se este excerto do texto 36 do livro do desassossego:
“…que os deuses todos me conservem o instinto da minha inimportancia, o conforto de ser pequeno e de poder pensar em ser feliz”.
e este, de um dos poemas em língua inglesa (II) de Fernando Pessoa, “ever the sea”:
“…Tomorrow will tire us of all! But we lack heart to be tired indeed
The purpose our souls came for is lost and never stared at...
Let us at least by the shore construe our aches for a deed
Into a meaningless ache and a desolate and purposeless greed...
Become we one with the sea's lost purpose and dream and wish nothing but that …”     

(“… amanhã cansar-nos-emos de tudo! mas falta-nos a coragem para ficarmos 
                                                                                  verdadeiramente cansados
o propósito que nos guiou até aqui perdeu-se e nunca mais o veremos…
deixem-nos ao menos à beira mar transformar a  angustia de querer agir
numa dor sem sentido e numa ansia desolada e sem objetivo…
Tornemo-nos no desejo perdido do mar e não sonhemos nem desejemos mais nada  
                                                                                                             senão isso…”)

   

sábado, 23 de março de 2013

Ouvido na Antena 2: Prefiro rosas, meu amor, à pátria


Ouvido na Antena2, no dia internacional da Poesia:

Prefiro Rosas, meu Amor, à Pátria

Prefiro rosas, meu amor, à pátria, 
E antes magnólias amo 
Que a glória e a virtude. 

Logo que a vida me não canse, deixo 
Que a vida por mim passe 
Logo que eu fique o mesmo. 

Que importa àquele a quem já nada importa 
Que um perca e outro vença, 
Se a aurora raia sempre, 

Se cada ano com a primavera 
As folhas aparecem 
E com o outono cessam? 

E o resto, as outras coisas que os humanos 
Acrescentam à vida, 
Que me aumentam na alma? 

Nada, salvo o desejo de indiferença 
E a confiança mole 
Na hora fugitiva. 

Ricardo Reis, in "Odes" 
Heterónimo de Fernando Pessoa


Ainda existe serviço público na rádio, agora que os nibelungos que nos governam e à cultura entendem sinergias como maneiras de gastar menos e de baixar a qualidade.
No programa da Antena 2 falou-se da casa de Fernando Pessoa e da introdução de tecnologias visuais eletrónicas, um totem, até jogos (Fernando Pessoa a tentar agarrar Ofélia, ou só a fingir que queria agarrá-la, sabendo-se que Ofélia nem se importaria).
E afirmou-se uma coisa interessantíssima: que Fernando Pessoa, educado em criança na língua inglesa, pensava em inglês e escrevia em português.
Por isso foi inovador.
De facto, a língua portuguesa não é a ideal para a expressão clara de ideias e conceitos e terá provocado desvios de insuficiência de pensamento aos portugueses ao longo dos séculos.
É uma hipótese com muitos exemplos históricos a confirmá-la… com a atualidade a confirmá-la, desde a preferencia por discutir os comentadores em detrimento do estudo e análise das questões por eles comentadas para se pensar pela própria cabeça, de preferir as discussões bizantinas ao trabalho de equipa.
É isso, Fernando Pessoa como saída da crise.

sábado, 29 de setembro de 2012

Álvaro de Campos, Estou cansado da inteligencia

Ofélia Queiroz, com quem Fernando Pessoa manteve uma ligação, não gostava de Álvaro de Campos, um heterónimo, ou uma versão da personalidade de Fernando Pessoa.
Achava que a separava do seu Fernando.
Mas tem uma certa razão, Álvaro de Campos, por mais racional que seja uma coisa, prevalecem as emoções.
Também cansa, como dizia José Gomes Ferreira.




Estou cansado da inteligência.
Pensar faz mal às emoções.
Uma grande reacção aparece.
Chora-se de repente, e todas as tias mortas fazem chá de novo
Na casa antiga da quinta velha.
Pára, meu coração!
Sossega, minha esperança fictícia!
Quem me dera nunca ter sido senão o menino que fui…
Meu sono bom porque tinha simplesmente sono e não ideias que esquecer!
Meu horizonte de quintal e praia!
Meu fim antes do princípio!
Estou cansado da inteligência.
Se ao menos com ela se apercebesse qualquer coisa!
Mas só percebo um cansaço no fundo, como baixam na taça
Aquelas coisas que o vinho tem e amodorram o vinho.

                                              Álvaro de campos 1930













terça-feira, 19 de junho de 2012

Fernando Pessoa - o Banqueiro Anarquista

121, 122, 123, 124, 125, 126, 127, 128, 129, 130, 131, 132 … conto mentalmente 12 segundos depois do arranque.

Sinto um ligeiro balanço; o maquinista cortou a tração, entrou em deriva por inércia.
Atingiu os 45 km/h ao fim de 12 segundos com uma taxa de aceleração de 1 metro por segundo quadrado.
As políticas de poupança de energia obrigam ao limite de 45 km/h.

Enfio a mão esquerda no bolso para retirar os Contos Completos de Fernando Pessoa. Vou aproveitar a viagem de metropolitano para começar a ler o Banqueiro Anarquista.
Reparo na mulher ainda jovem mas pobremente vestida que se equilibra junto das portas.
Costumo vê-la quando viajo a esta hora, no princípio da noite.
É muito magra e tem o rosto precocemente envelhecido.
Não dobra o joelho esquerdo e por isso arrasta a perna com um movimento circular enquanto se debruça a pedir esmola.
Não reparou no título do livro e pede-me uma “small coin”.
Tento afastá-la com uma cara fechada mas ela diz que tem fome e corrige o pedido para uma pequena moeda, que também tem frio e está a juntar 8 euros para comprar um casaco ali, e aponta para a superfície; repete o pedido, uma moeda e um sorriso, foi o que disse.

Duas mulheres bem vestidas, de aparência nórdica, desviam a cara e interrompem a conversa animada.
Outro nórdico, seguramente um técnico que veio vender qualquer coisa neste país, de gravata amarela e casaco de riscas, rebusca nos bolsos e também contribui com uma moeda.
A meu lado uma mulher jovem e robusta masca obsessivamente uma pastilha elástica.
Recebo os eflúvios do mentol que não desejo, mas ela está alheada da cena que a rodeia e pressiona compulsivamente o visor do seu telemóvel onde se mostram as cartas de poker.
Obterá os seus rendimentos de algum negócio que consegue gerir mas depende completamente do jogo. Possivelmente terá deixado de fumar e não consegue retirar doutros centros de interesse que não a pastilha elástica e o poker do telemóvel a produção de dopamina nas suas sinapses de prazer.

Entra na estação seguinte mais um mendigo.
É negro, traz um barrete magrebino e usa uma barba rala e encaracolada.

Já iniciei a leitura do Banqueiro Anarquista e já sei que ele é anarquista, para grande espanto do seu interlocutor, no conto, em teoria e na prática, contrariamente ao comum dos anarquistas, que só o são em teoria.

Sigo o raciocínio do banqueiro:

“O que é um anarquista? É um revoltado contra a injustiça de nascermos desiguais socialmente, e daí resulta a revolta contra as convenções sociais que tornam essa desigualdade possível.
As injustiças da Natureza, vá: não as podemos evitar. Agora as da sociedade e das suas convenções – essas, por que não evitá-las?”

E eis como Fernando Pessoa, que não gostava de aventuras progressistas nas ideologias políticas, sabia identificar a origem dos males das sociedades e das suas incapacidades de solução.

“O mal verdadeiro são as convenções e as ficções sociais que se sobrepõem às realidades naturais, família, Estado, religiões, dinheiro.
As ficções são más porque não são naturais.
Qualquer sistema que não seja puramente anarquista, e que não queira como este a abolição de todas as ficções, será também uma ficção a implantar em vez de outra. Será mesmo um crime por ser uma perturbação social com o fim expresso de deixar tudo na mesma”

Ocorre-me que Fernando Pessoa estava desgostoso com a experiencia soviética (o Banqueiro anarquista é de 1922), e desiludido com a experiencia portuguesa da I Republica.

Que pensaria ele dos seguidores de Hayeck e Friedmann que, depois da crise financeira internacional de 2008 insistem nas teses neo-liberais e na cisão das sociedades castigando uma parte da população com medidas de rigor austeritário e de congelamento e decrescimento do PIB? Impondo os dogmas de desregulação do mercado e das formas de produção e de propriedade?

“Não será realizável o sistema anarquista? Se o atual sistema é injusto, há vantagem, porque há justiça, em substitui-lo por um mais justo. O critério de justiça é o de ser verdadeiro e natural (que é o que é do instinto) por oposição à mentira das convenções.
E o natural ou é realizável ou não é”


Será que Fernando Pessoa já tinha a consciência ecologista do que é sustentável?


“A sociedade pode ser natural e então pode haver a sociedade anarquista e livre.
Ou a sociedade não pode ser natural por ser essencialmente ficção e então, teremos de aceitar a ficção a que estamos habituados, o atual sistema burguês.
Mas a passagem material ao sistema anarquista não poderá ser feita de modo gradual através de realizações materiais e sociais. Só poderá haver uma adaptação mental, um estado intermédio de transição entre a sociedade burguesa e anarquista, uma adaptação dos espíritos à sociedade livre.
Ainda haveria uma hipótese de passagem material à sociedade livre, a ditadura revolucionária, a ditadura do proletariado.
Mas um regime revolucionário tem de ser despótico, tem de criar uma tirania, mesmo que seja nova, uma tirania.
E isso é o que os verdadeiros anarquistas não querem, embora na prática também acabem por fazer quando uns mandam e obrigam outros a ser o que eles querem .
Pelo contrário, a revolução social deve ser preparada por um trabalho intenso e contínuo, de ação direta e indireta, tendente a dispor todos os espíritos para a vinda da sociedade livre, e a enfraquecer até ao estado comatoso todas as resistências da burguesia”

Enquanto Fernando Pessoa teorizava sobre a revolução, ou o banqueiro por ele, entraram na nova estação, que era de correspondência, um grupo de alunas da universidade vestidas de preto, de uma tuna, que se puseram a ensaiar com duas violas, e mais um pedinte, equipado com uma trompa do Nepal, que se pôs a roncar com o instrumento estendido até ao chão.

“No estado social presente não é pois possível um grupo de homens trabalharem juntos pela liberdade, contra as ficções sociais, sem espontaneamente criarem tirania nova entre si. O que há a fazer? Simples … trabalharmos para o mesmo fim, mas separados”

Fernando Pessoa ainda não tinha vivido a crise da desregulação financeira de 1929, nem conheceria a de 2008, e não podia saber que não é por falta de coragem que as populações preferem manter-se sob o domínio dos grandes grupos financeiros. Talvez receiem o desconhecido de si próprios.

Seguramente, resolveram dar ouvidos à propaganda intensa de quem culpou ao longo dos anos o estado providencia por gastar dinheiro, de quem desacreditou o espírito do serviço público e os servidores públicos, de quem lhes inculcou o dogma da supremacia do individualismo ou da esperança na lotaria das oportunidades. Nas tentativas de revolução social aconteceu o previsto, criou-se tirania nova.

Mas isso, tanto sobre a desregulação financeira como sobre as revoluções falhadas, o banqueiro ainda não tinha dados históricos sobre que pudesse estabelecer doutrina. Nem dispunha dos desenvolvimentos da teoria da negociação de John Nash, nem do equilíbrio de Pareto, nem das técnicas de abordagem e resolução dos problemas, de coordenação e convergencia de trabalho em equipa de elementos de sensibilidades e vontades diversas.

“Por isso decidi subjugar a principal ficção social, o dinheiro, e fiz-me banqueiro. Deu em resultado eu enriquecer, portanto tive uma compensação egoísta e libertei-me do dinheiro conseguindo a liberdade. Posso ter usado a tirania contra quem precisou do meu banco, mas não criei nenhuma tirania nova. A tirania é das ficções sociais e não dos homens. Se destruirmos todos os capitalistas e subsistir o capital, outros capitalistas surgirão. Mas se destruirmos o capital deixará de haver capitalistas”.

O comboio chegou à minha estação ao mesmo tempo que o banqueiro terminava a sua fastidiosa peroração e se levantava da mesa com o seu paciente interlocutor.

Teria Fernando Pessoa querido traduzir para português o pessimismo de Scopenhauer e de Nietzsche, a incompletude dos objetivos falhados na organização da sociedade? Da decadência das soluções políticas que sistematicamente não dão resposta à humanidade e preferem deixá-la a contas com as leis da seleção natural e do interesse e da vontade do poder egoístas? Do fanatismo moral e da insustentável e irracional movimentação humana, como moléculas num recinto fechado?
É um facto que da sua poesia ressuma isso mesmo.
Mas não sou grande intérprete do seu pensamento nem da sua poesia.

Os mendigos do metropolitano lá continuaram.





Citações: Contos completos, Fernando Pessoa, ed.Antígona, Maio de 2012




terça-feira, 5 de julho de 2011

Senhor secretário da cultura

Senhor secretário de estado da cultura

Venho chamar-lhe a atenção para mais um caso em que o estado, perdulário, gasta o dinheiro dos contribuintes.
Junto duas fotografias atestando o facto.
No sábado, dia 2 de julho de 2011, passando pela zona do Chiado, verifiquei que o largo em frente do teatro nacional de S.Carlos se encontrava cheio de gente, e que uma orquestra tocava num palco improvisado, ao ar livre.
Informei-me do que tocavam e disseram-me que era a musica do Polichinelo, bailado com canto de Stravinsky, e do Amor brujo, de Manuel de Falla.
Ambas musicas que recolhem uma porção infima das preferencias dos cidadãos e cidadãs deste país e que precisam dos dinheiros do estado para se fazerem ouvir.
De vez em quando passava um elétrico da carreira 28, cheio de turistas e de carteiristas, e que pensarão eles, os turistas do elétrico e aqueles que passavam a pé pelo Chiado?
Possivelmente que Portugal é um país civilizado que mesmo com dificuldade em pagar as suas dividas prefere gastar o pouco dinheiro de que dispõe em cultura.
Resta-nos a esperança que o bom senso impere e acabe por impor uma solução correta para este abuso.
Aliás, como sabe, o bom senso é aquela entidade que deve prevalecer em todos os governos, e que acha que dez quilos de ferro, dentro de uma caixa fechada igual a outra caixa que contem um quilo de algodão, caem mais depressa do que o quilo de algodão quando lançadas  as caixas de uma janela, simultaneamente, sem impulso inicial e nas mesmas condições de pressão, temperatura, vento, densidade do ar e posição geométrica de lançamento (Aristóteles achava que o ferro caía mais depressa, mas desde Galileu e o método experimental que se sabe que cai ao mesmo tempo, como qualquer corpo sujeito à aceleração gravítica, 9,8 metros por segundo quadrado).
Com a agravante do concerto ser gratuito, apenas com o mecenato do turismo de Portugal, da fundação EDP, do Millenium BCP, e o apoio institucional da CP, SIC, Radio Renascença, embaixada da Austria, etc, etc.
Por isso, a esperança é a de que, para o ano, não se assista no verão a este desperdício de dinheiros publicos, o que certamente irá contribuir para o reequilíbrio financeiro das contas públicas   que o governo a que V.Exa pertence, tão voluntariosamente persegue.


Aplausos para a orquestra Gulbenkian, o seu jovem maestro, os cantores, a maioria portugueses (sujeitando a voz aos riscos de cantar ao ar livre, apesar da amplificação) e à organização. Destaque para o entusiasmo do maestro Cesar Viana, que partilha comigo a ideia de que às tantas não vale a pena perder tempo com muitas questões de administração e de organização, nem com os constrangimentos, que há que dar o esforço para produzir, neste caso musica e cultura.
Temo que os governantes não concordem, e achem que cultura não contribui significativamente para o PIB.
Mas tenhamos esperança, contrária àquela que eu mencionei acima.
Até porque, como homenagem a Fernando Pessoa, que nasceu neste largo, foi citada no inicio do espetáculo a sua quadra:


Numa quinta que não haverá
Há um poço que não há
Aonde há-de ir beber água,
alguém que te entenderá