Não resisto a citar o artigo de Alfredo Barroso sobre o esquerdismo de Álvaro Santos Pereira.
É uma pena o senhor ministro da economia ter de fazer o papel que faz no governo, porque até é um senhor com a capacidade de escrever uns livros e de analisar umas coisas, se bem que com alguma precipitação juvenil (exemplo do seu próprio blogue: afirmou que a produtividade decresceu a seguir ao 25 de Abril de 1974; teve porem de reconhecer que estava a esconder um facto justificativo essencial: o regresso de 500.000 pessoas das ex-colónias).
Mas enfim, são casos pessoais.
Alfredo Barroso citou extratos do livro do senhor ministro publicado em Abril de 2011, “Portugal na hora da verdade – como vencer a crise nacional”, pouco tempo antes da sua nomeação como ministro, a propósito da renegociação da dívida (coisa que, como se sabe, desde o princípio do memorando o PCP e o BE vêm defendendo; não por serem de esquerda, mas porque a realidade dos números é assim mesmo; a dívida não é pagável nesses termos):
-“para que seja sustentável, a dívida pública nacional tem de crescer a um ritmo inferior ao do crescimento económico” (deve ser por isso que agora desviou verbas do QREN de investimentos públicos para subsídios a pequenas empresas – mas também não é grave o “crime”: são 4milhões de euros a 8 anos)
- “de acordo com os cálculos do FMI, a dívida pública nacional, para ser sustentável, exige excedentes primários da ordem de 4 ou 5%” (na altura em que isto foi escrito até dava jeito, para sublinhar a incompetência dos senhores ministros das finanças que não identificaram atempadamente a ameaça)
- “face aos exorbitantes montantes da nossa dívida e ao crescente peso dos juros, é provável que um governo português se declare impotente para pagar a totalidade da dívida” (ui, caíram em cima do BE quando Francisco Louçã disse que tinha de se analisar se toda a dívida era legítima)
- “é muito possível que cheguemos a uma situação em que o Estado português se veja forçado a reestruturar a sua dívida pública junto dos credores externos e internos”
-“é provavelmente desejável que essa renegociação seja levada a cabo ao mesmo tempo que uma reestruturação da dívida de outros países europeus”
-“a reestruturação abrangeria não só um reescalonamento da dívida pública nacional (prazos) mas também a diminuição do valor da dívida (haircuts – o que não é o fim do mundo porque os empréstimos estão cobertos por seguros) … e englobar a divida pública detida pelos estrangeiros e a dívida interna, incluindo a renegociação das parcerias público-privadas” (parece que só esta parte foi autorizada).
Afinal, temos em Álvaro Santos Pereira uma pessoa que compreende os números e as forças em causa. Isto é, temos homem, em sintonia com o que o partido comunista e o bloco de esquerda sempre disseram a propósito da dívida.
Pese embora o senhor primeiro ministro persistir na sua obstinação juvenil, afirmando que quando tomou posse o país estava a dois passos da bancarrota e tinha necessidades de financiamento externo de dois dígitos, e agora só precisa de financiamento externo para 3,5% das suas necessidades (parece lógico, se aumentou a dívida, não só publica como privada, é natural que não precise de tanto financiamento externo).
Passe o aspeto anedótico da questão e a situação penosa para o senhor ministro no governo devida à dissonância entre o que está escrito no livro e o que o senhor primeiro ministro decide, penso que terá muito interesse relacionar tudo isto com duas questões:
1 – na mesma edição do DN, André Macedo recorda que o escudo desvalorizou, de 1980 até à entrada na moeda única em 2001, 244% face ao dólar. Perdeu-se assim, depois de 2001, a capacidade de melhorar as exportações e de compensar a inflação com o aumento de salários (e das taxas de juro). Por isso é natural que os senhores da troika insistam em reduzir os salários para o nível da Roménia e Bulgária, já que não se pode desvalorizar o euro (não poderá mesmo? desvalorizar-se um bocadinho o euro e aumentar-se ligeiramente a taxa de juro? achava bem que os senhores do BCE pensassem nisso). De acordo com o teorema de Fermat-Weber, isto não tem solução com economias nacionais mais fracas em regime de economia global aberta (união fiscal, união bancária, união política, precisam-se, como diz Christine Lagarde no ignorado discurso de Tokio) . Isto é, basta uma economia de uma nação da união europeia crescer para absorver parte desse crescimento a uma economia mais fraca (penso que os senhores economistas, especialmente os académicos, deveriam estudar melhor o aspeto físico deste teorema, tão importante como a lei dos rendimentos decrescentes – aquela que diz que convem comprimir a economia até ela chegar a um ponto da curva dos rendimentos tão baixos que a taxa de crescimento possa ser elevada). E que o problema não se resolve culpando o Estado social, porque a dívida privada das famílias e das empresas (bancos incluídos) é superior à publica. (Eu diria que a solução não pode vir só de dentro, por mais heróico que seja o esforço das empresas que exportam e as que produzem para substituir as importações; bem podia perder-se o complexo de contra empresas públicas; as empresas públicas podem planear mais facilmente as coisas de forma integrada, não só associando-se e instalando empresas estrangeiras em Portugal, como fazendo isso no estrangeiro com empresas portuguesas; é a diplomacia económica, bem longe da teoria neo-liberal…e as diretivas europeias até têm exceções que podem, e devem ser invocadas, por mais dificuldade que os nossos jurídicos tenham em as compreender – condições excecionais para a instalação de centrais solares, por exemplo)
2 – ainda na mesma edição do DN, é citado um economista alemão recentemente saído do BCE por ter discordado da compra de dívida pública (se o homem discordou disto, o que discordaria ele das eurobonds e da união fiscal e bancária?), Jurgen Stark. O senhor afirmou que a zona euro deveria ser reduzida aos países economicamente estáveis e que as economias mais fracas deveriam sair. Na verdade, se não admitirmos a união bancária e a união fiscal, temos de dar razão ao homem. A questão é que a ideia da união europeia era mesmo a integração. E estas opiniões fazem lembrar a teoria dos 29% de alemães que votaram no partido nazi e lhe deram a maioria. E também fazem lembrar o perdão da dívida alemã correspondente à segunda grande guerra (como se calcula a dívida de um exército que ocupa Tessalónica e faz embarcar sem regresso 100.000 civis gregos?). Mas atenção que este blogue, quando fala nestas coisas, lembra sempre que a maioria (mais de 80%) dos colegas alemães com que trabalhou e dos turistas alemães com que fala no Algarve são pessoas civilizadas. Não há razão para não estarmos todos na mesma união europeia. Os senhores Schaubler e Stark não são suficientes para isso. Pelo menos por enquanto.
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quinta-feira, 19 de julho de 2012
Falas de governantes - o esquerdismo de Alvaro Santos Pereira
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quinta-feira, 21 de outubro de 2010
A conjetura do economista envergonhado
Há médicos assim. Inibem-se de dizer a verdade ao doente. Mesmo que o assunto não seja sério, preferem manter a sua ciência longe da compreensão dos cidadãos e cidadãs.
Há economistas assim.
Uma análise psicanalítica poderia colocar a hipótese de ser por insegurança própria, resolvendo-se em vergonha ou inibição.
Têm pudor em explicar os efeitos nocivos das suas leis.
É apenas uma conjetura, a do pudor do economista.
Por exemplo, a lei de Philips, vive escondida, como já tenho dito.
A lei dos rendimentos decrescentes
A lei dos rendimentos decrescentes, também ( em inglês: rate to profit to fall - RTPF).
É uma lei de grande impacto na interpretação de fenómenos históricos e sociais. Aumentando um fator de produção mantendo os outros fixos, chegará uma altura em que a produtividade marginal decrescerá (por exemplo, uma exploração agrícola aumenta a produção e o rendimento total até ao momento em que há excesso de mão de obra; idem para uma empresa em que o número de acionistas ultrapassou o ponto de equilíbrio).
Mas não se fala nela, apesar de Adam Smith e,especialmente David Ricardo, a terem desenvolvido; como se se quisesse manter os cidadãos e as cidadãs na ilusão de que a descida dos rendimentos de um investimento pode evitar-se indefinidamente. Valha a verdade que depois de Adam Smith e David Ricardo foi Marx que desenvolveu as aplicações desta lei, e os economistas de agora não gostam disso.
Porém a lei explica o que aconteceu, por exemplo, em Opidium (a cidade romana a nascente de Óbidos, descoberta com a construção da A8) e em Conimbriga. As cidades floresciam e de repente desertificaram. Disse-se que tinham sido as invasões dos bárbaros. Ora, o conceito de invasão dos bárbaros é muito discutível e parece ser primário, preguiça de se pensar melhor, porque as populações "agarradas" às economias locais, principalmente à produção agrícola, sempre foram prevalecendo ao longo das misceginações que se foram fazendo (ver Claudio Torres sobre este conceito). O que a lei dos rendimentos decrescentes explica é que a economia das cidades romanas assentava na escravatura, e foram aumentando de forma insustentável, como se diz agora, o número de escravos necessários para manter as cidades em funcionamento (poderiam ter utilizado a força do vapor que já era conhecida, mas os decisores políticos da altura não perceberam as variáveis em jogo e insistiram na escravatura) até que o rendimento decrescente levou as cidades ao declínio e à constituição dos montes agrícolas, unidades de produção agrícola autónomas, que depois deram nos feudos e nos conventos religiosos que tinham carater descentralizado e dimensões adaptadas à tecnologia da época. Isto é, a lei dos rendimentos decrescentes, não sendo o único fator, ajuda a compreender o declínio do império romano (e também dos outros) e a ascensão do movimento religioso.
O indicador de Gini da desigualdade de rendimentos
E o indicador de Gini? Já tinham ouvido falar? Eu , pelo menos, desconhecia, apesar de ser um elemento estatístico.
Não, não se fala, mas é um indicador utilizado pelas Nações Unidas para estabelecer uma lista ordenada de países.
O indicador de Gini mede a desigualdade de rendimentos dos cidadãos de um país, ou média de todas as diferenças entre os rendimentos de todos os cidadãos (ver http://en.wikipedia.org/wiki/Gini_coefficient#Credit_risk e http://en.wikipedia.org/wiki/List_of_countries_by_income_equality ).
E o que é mais importante, é que este indicador é um dos critérios de avaliação das agencias de "ranking" do risco do crédito.
Porque são os economistas tão envergonhados que não nos explicam isto mais claramente?
Isto é, mantendo os outros parâmetros, se quisermos taxas de juros mais baixas temos de baixar o indicador de desigualdade de rendimentos.
Por exemplo, o da Dinamarca é da ordem de 0,25, e o de Portugal é de 0,38 (valores limite teóricos: 0 para todos os cidadãos com rendimentos iguais, e 1 para um cidadão detentor de todo o rendimento nacional).
Podem consultar a lista no endereço indicado.
Como dizia Fernando Pessa, e esta, hein?
Há economistas assim.
Uma análise psicanalítica poderia colocar a hipótese de ser por insegurança própria, resolvendo-se em vergonha ou inibição.
Têm pudor em explicar os efeitos nocivos das suas leis.
É apenas uma conjetura, a do pudor do economista.
Por exemplo, a lei de Philips, vive escondida, como já tenho dito.
A lei dos rendimentos decrescentes
A lei dos rendimentos decrescentes, também ( em inglês: rate to profit to fall - RTPF).
É uma lei de grande impacto na interpretação de fenómenos históricos e sociais. Aumentando um fator de produção mantendo os outros fixos, chegará uma altura em que a produtividade marginal decrescerá (por exemplo, uma exploração agrícola aumenta a produção e o rendimento total até ao momento em que há excesso de mão de obra; idem para uma empresa em que o número de acionistas ultrapassou o ponto de equilíbrio).
Mas não se fala nela, apesar de Adam Smith e,especialmente David Ricardo, a terem desenvolvido; como se se quisesse manter os cidadãos e as cidadãs na ilusão de que a descida dos rendimentos de um investimento pode evitar-se indefinidamente. Valha a verdade que depois de Adam Smith e David Ricardo foi Marx que desenvolveu as aplicações desta lei, e os economistas de agora não gostam disso.
Porém a lei explica o que aconteceu, por exemplo, em Opidium (a cidade romana a nascente de Óbidos, descoberta com a construção da A8) e em Conimbriga. As cidades floresciam e de repente desertificaram. Disse-se que tinham sido as invasões dos bárbaros. Ora, o conceito de invasão dos bárbaros é muito discutível e parece ser primário, preguiça de se pensar melhor, porque as populações "agarradas" às economias locais, principalmente à produção agrícola, sempre foram prevalecendo ao longo das misceginações que se foram fazendo (ver Claudio Torres sobre este conceito). O que a lei dos rendimentos decrescentes explica é que a economia das cidades romanas assentava na escravatura, e foram aumentando de forma insustentável, como se diz agora, o número de escravos necessários para manter as cidades em funcionamento (poderiam ter utilizado a força do vapor que já era conhecida, mas os decisores políticos da altura não perceberam as variáveis em jogo e insistiram na escravatura) até que o rendimento decrescente levou as cidades ao declínio e à constituição dos montes agrícolas, unidades de produção agrícola autónomas, que depois deram nos feudos e nos conventos religiosos que tinham carater descentralizado e dimensões adaptadas à tecnologia da época. Isto é, a lei dos rendimentos decrescentes, não sendo o único fator, ajuda a compreender o declínio do império romano (e também dos outros) e a ascensão do movimento religioso.
O indicador de Gini da desigualdade de rendimentos
E o indicador de Gini? Já tinham ouvido falar? Eu , pelo menos, desconhecia, apesar de ser um elemento estatístico.
Não, não se fala, mas é um indicador utilizado pelas Nações Unidas para estabelecer uma lista ordenada de países.
O indicador de Gini mede a desigualdade de rendimentos dos cidadãos de um país, ou média de todas as diferenças entre os rendimentos de todos os cidadãos (ver http://en.wikipedia.org/wiki/Gini_coefficient#Credit_risk e http://en.wikipedia.org/wiki/List_of_countries_by_income_equality ).
E o que é mais importante, é que este indicador é um dos critérios de avaliação das agencias de "ranking" do risco do crédito.
Porque são os economistas tão envergonhados que não nos explicam isto mais claramente?
Isto é, mantendo os outros parâmetros, se quisermos taxas de juros mais baixas temos de baixar o indicador de desigualdade de rendimentos.
Por exemplo, o da Dinamarca é da ordem de 0,25, e o de Portugal é de 0,38 (valores limite teóricos: 0 para todos os cidadãos com rendimentos iguais, e 1 para um cidadão detentor de todo o rendimento nacional).
Podem consultar a lista no endereço indicado.
Como dizia Fernando Pessa, e esta, hein?
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