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domingo, 28 de julho de 2013

Um pequeno estudo para um grande problema

Pequeno estudo de Jaime Reis do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa publicado na Economic History Review sobre a influencia dos salários baixos e do desinvestimento em educação na baixa estatura da população.
Com base nos registos dos recrutas desde o século XVII em Portugal e comparando com a Europa, a conclusão foi que a estatura da população portuguesa manteve-se dentro da média europeia até meados do século XIX, divergindo no sentido negativo a partir daí.
Já se sabia que a politica de cortes, para alem de provocar recessão a curto prazo, provoca a médio e longo prazo graves retrocessos intelectuais por deficiência de formação escolar, agravando o efeito do desinvestimento na educação (por outras palavras, é impossível uma escola publica produzir estatisticamente bons resultados se os pais ou encarregados de educação não tiverem capacidade financeira e educacional).
Foi por isso que Portugal divergiu, e diverge da Europa.
Por isso devia atacar-se aqui este problema, com grau prioritário.
Mas não.
Também foi um escândalo, em Inglaterra, quando os economistas “randomistas” (analistas dos dados estatísticos) concluíram que a politica de Thatcher de cortes na alimentação das escolas públicas estava correlacionada fortemente com a diminuição do rendimento escolar.
Tudo coisas que se sabem, mas que ideologia dos governantes não quer deixar ver.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Falas de governantes - o esquerdismo de Alvaro Santos Pereira

Não resisto a citar o artigo de Alfredo Barroso sobre o esquerdismo de Álvaro Santos Pereira.


É uma pena o senhor ministro da economia ter de fazer o papel que faz no governo, porque até é um senhor com a capacidade de escrever uns livros e de analisar umas coisas, se bem que com alguma precipitação juvenil (exemplo do seu próprio blogue: afirmou que a produtividade decresceu a seguir ao 25 de Abril de 1974; teve porem de reconhecer que estava a esconder um facto justificativo essencial: o regresso de 500.000 pessoas das ex-colónias).

Mas enfim, são casos pessoais.

Alfredo Barroso citou extratos do livro do senhor ministro publicado em Abril de 2011, “Portugal na hora da verdade – como vencer a crise nacional”, pouco tempo antes da sua nomeação como ministro, a propósito da renegociação da dívida (coisa que, como se sabe, desde o princípio do memorando o PCP e o BE vêm defendendo; não por serem de esquerda, mas porque a realidade dos números é assim mesmo; a dívida não é pagável nesses termos):

-“para que seja sustentável, a dívida pública nacional tem de crescer a um ritmo inferior ao do crescimento económico” (deve ser por isso que agora desviou verbas do QREN de investimentos públicos para subsídios a pequenas empresas – mas também não é grave o “crime”: são 4milhões de euros a 8 anos)

- “de acordo com os cálculos do FMI, a dívida pública nacional, para ser sustentável, exige excedentes primários da ordem de 4 ou 5%” (na altura em que isto foi escrito até dava jeito, para sublinhar a incompetência dos senhores ministros das finanças que não identificaram atempadamente a ameaça)

- “face aos exorbitantes montantes da nossa dívida e ao crescente peso dos juros, é provável que um governo português se declare impotente para pagar a totalidade da dívida” (ui, caíram em cima do BE quando Francisco Louçã disse que tinha de se analisar se toda a dívida era legítima)

- “é muito possível que cheguemos a uma situação em que o Estado português se veja forçado a reestruturar a sua dívida pública junto dos credores externos e internos”

-“é provavelmente desejável que essa renegociação seja levada a cabo ao mesmo tempo que uma reestruturação da dívida de outros países europeus”

-“a reestruturação abrangeria não só um reescalonamento da dívida pública nacional (prazos) mas também a diminuição do valor da dívida (haircuts – o que não é o fim do mundo porque os empréstimos estão cobertos por seguros) … e englobar a divida pública detida pelos estrangeiros e a dívida interna, incluindo a renegociação das parcerias público-privadas” (parece que só esta parte foi autorizada).



Afinal, temos em Álvaro Santos Pereira uma pessoa que compreende os números e as forças em causa. Isto é, temos homem, em sintonia com o que o partido comunista e o bloco de esquerda sempre disseram a propósito da dívida.

Pese embora o senhor primeiro ministro persistir na sua obstinação juvenil, afirmando que quando tomou posse o país estava a dois passos da bancarrota e tinha necessidades de financiamento externo de dois dígitos, e agora só precisa de financiamento externo para 3,5% das suas necessidades (parece lógico, se aumentou a dívida, não só publica como privada, é natural que não precise de tanto financiamento externo).



Passe o aspeto anedótico da questão e a situação penosa para o senhor ministro no governo devida à dissonância entre o que está escrito no livro e o que o senhor primeiro ministro decide, penso que terá muito interesse relacionar tudo isto com duas questões:



1 – na mesma edição do DN, André Macedo recorda que o escudo desvalorizou, de 1980 até à entrada na moeda única em 2001, 244% face ao dólar. Perdeu-se assim, depois de 2001, a capacidade de melhorar as exportações e de compensar a inflação com o aumento de salários (e das taxas de juro). Por isso é natural que os senhores da troika insistam em reduzir os salários para o nível da Roménia e Bulgária, já que não se pode desvalorizar o euro (não poderá mesmo? desvalorizar-se um bocadinho o euro e aumentar-se ligeiramente a taxa de juro?  achava bem que os senhores do BCE pensassem nisso). De acordo com o teorema de Fermat-Weber, isto não tem solução com economias nacionais mais fracas em regime de economia global aberta (união fiscal, união bancária, união política, precisam-se, como diz Christine Lagarde no ignorado discurso de Tokio) . Isto é, basta uma economia de uma nação da união europeia crescer para absorver parte desse crescimento a uma economia mais fraca (penso que os senhores economistas, especialmente os académicos, deveriam estudar melhor o aspeto físico deste teorema, tão importante como a lei dos rendimentos decrescentes – aquela que diz que convem comprimir a economia até ela chegar a um ponto da curva dos rendimentos tão baixos que a taxa de crescimento possa ser elevada). E que o problema não se resolve culpando o Estado social, porque a dívida privada das famílias e das empresas (bancos incluídos) é superior à publica. (Eu diria que a solução não pode vir só de dentro, por mais heróico que seja o esforço das empresas que exportam e as que produzem para substituir as importações; bem podia perder-se o complexo de contra empresas públicas; as empresas públicas podem planear mais facilmente as coisas de forma integrada, não só associando-se e instalando empresas estrangeiras em Portugal, como fazendo isso no estrangeiro com empresas portuguesas; é a diplomacia económica, bem longe da teoria neo-liberal…e as diretivas europeias até têm exceções que podem, e devem ser invocadas, por mais dificuldade que os nossos jurídicos tenham em as compreender – condições excecionais para a instalação de centrais solares, por exemplo)



2 – ainda na mesma edição do DN, é citado um economista alemão recentemente saído do BCE por ter discordado da compra de dívida pública (se o homem discordou disto, o que discordaria ele das eurobonds e da união fiscal e bancária?), Jurgen Stark. O senhor afirmou que a zona euro deveria ser reduzida aos países economicamente estáveis e que as economias mais fracas deveriam sair. Na verdade, se não admitirmos a união bancária e a união fiscal, temos de dar razão ao homem. A questão é que a ideia da união europeia era mesmo a integração. E estas opiniões fazem lembrar a teoria dos 29% de alemães que votaram no partido nazi e lhe deram a maioria. E também fazem lembrar o perdão da dívida alemã correspondente à segunda grande guerra (como se calcula a dívida de um exército que ocupa Tessalónica e faz embarcar sem regresso 100.000 civis gregos?). Mas atenção que este blogue, quando fala nestas coisas, lembra sempre que a maioria (mais de 80%) dos colegas alemães com que trabalhou e dos turistas alemães com que fala no Algarve são pessoas civilizadas. Não há razão para não estarmos todos na mesma união europeia. Os senhores Schaubler e Stark não são suficientes para isso. Pelo menos por enquanto.

Lei dos rendimentos decrescentes - o risco de uma política ascética é o de provocar uma recessão que coloque a economia na zona da esquerda de rendimentos descrescentes, onde os investimentos não são reprodutores e são portanto inuteis 




quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Cenas da vida quotidiana de um cidadão em Portugal, Lisboa, em dezembro de 2011

Cena 1 - Talão abandonado numa caixa Multibanco, no Centro Comercial Colombo:

Levantamento, montante: 60,00 euros
saldo contabilistico:      593,51 euro
saldo disponivel:           601,41 euro
saldo autorizado:            19,73 euro

Após a operação de levantamento, o distraido detentor da conta ficou a saber que pode movimentar 19,73 euros, e que tem de aguardar que lhe depositem na conta o seu ordenado, de cerca de 600 euros, para poder usufrui-lo. Este tempo de espera resulta em beneficio para os bancos. O valor médio de uma renda de casa modesta em Lisboa é de 450 euro. Sobram 150 euro. Segundo um dos membros da troica, os salários em Portugal devem baixar porque atualmente são mais altos do que o valor que é produzido.

Cena 2 - Numa carruagem de metro na linha verde, um rapazinho, talvez de 9 anos, para o pai:
"porque não vamos à Assembleia falar com eles, com o primeiro ministro, para ajudar a resolver a crise? Há tantas lojas a fechar e pessoas desempregadas, que podiamos empregar essas pessoas nas lojas"
"Pois, dizia o pai, mas não pode ser só lojas, alguem tem de produzir nas fábricas, nos campos"
"É nisso que podiamos ajudar o Passos Coelho, dizer-lhe que podia empregar essas pessoas"
O pai sorria, mas era um sorriso triste.
O menino, que tem aspeto de inteligente e generoso, aprenderá um dia a lei de Philips: existe uma correlação fortemente positiva entre o desemprego e a contenção dos preços (a contenção dos preços é a politica oficial do BCE,  a qual não foi sujeita a eleições pelos cidadãos e cidadãs europeus)

Cena 3 - Na sala de espera de um hospital privado, 01:30.
Ao fim de uma hora e dez minutos de espera, abriu-se a porta de um dos consultórios e é chamado o nome do cidadão que esperava. Não houve triagem para avaliar o estado de gravidade do cidadão.
No jornal desse dia vinha anunciado o aumento dos custos para os utilizadores dos hospitais públicos e, no jornal do dia seguinte, a de que qualquer cidadão ou cidadã sem capacidade para pagar as despesas no hospital público pode registar no sistema informático das finanças a sua isenção (antigamente, no tempo do para-fascismo, chamava-se atestado de pobreza,  que era obtido na junta de freguesia).
Espera-se aumento da procura de hospitais privados.
Espera-se aumento do tempo de espera.