sábado, 18 de junho de 2022

Sobre a discussão da petição 612 contra o fim da linha amarela do metro

Petição 612/XIII/4ª pedindo a suspensão da construção da linha circular 

Recebido o comunicado"contra o fim da linha amarela" (ver abaixo), enviei aos seus promotores o meu comentário à sessão na AR sobre a petição 612:


Caro(a)s Amigo(a)s
É um excelente texto o deste comunicado e o debate da petição na AR foi uma digna marcação de presença. Vi com apreço as intervenções dos deputado(a)s que mostraram estar dentro dos assuntos. Claro que a intervenção do deputado Anastácio, o porta voz de serviço do partido no poder, não foi digna. Infelizmente ainda não leu o artigo 165.1z) da CRP que determina contrariamente ao que o deputado afirmou, que a competencia legislativa para o ordenamento do território e urbanismo é da AR, não do executivo. Isso foi esclarecido na altura da lei 2/2020, o seu partido já teve tempo de ler esse artigo para nos poupar ao espetáculo que o deputado Anastácio deu. Por outro lado não terá ainda tido oportunidade para aceitar a ideia que a estruturação de um sistema de mobilidade numa área metropolitana não deve ser feita por arranques desintegrados de um planeamento geral (daí a linha circular prejudicar o projeto da ligação a Alcantara), cuja elaboração deve ser feita não por estudos que como muito bem observado, não são divulgados, mas de acordo com o art.65.5 da CRP. que garante a qualquer interessado a participação na elaboração dos instrumentos de planeamento urbanístico e físico do território.
Quanto á exploração em laço, nada impede que venha a fazer-se, desde que não misturem (partilha) a exploração em circulo com a exploração Odivelas-C.Grande-Rato-C.Sodré-Alvalade-Telheiras, isto é, ou fazem uma ou outra para evitar os cruzamentos de nível que por razões de segurança impedem intervalos curtos. Pena foi gastar-se o dinheiro nos novos viadutos inuteis do Campo Grande e na destruição do topo nascente sul da estação inviabilizando a ligação ao PMOII.
Interessante um dos deputados ter lembrado que a escolha da linha circular foi da própria administração do metro sem querer comparar com alternativas, e sobre este assunto deixo mais um episódio anedótico. A ideia da linha circular é uma criação dos anos 2009 da senhora engra Ana Paula Vitorino e do consultor da Trenmó, do Porto, Álvaro Costa, contratado pela CML, que na altura justificou a linha circular com os movimentos pendulares, que a linha circular iria ter uma grande procura durante o dia enquanto a linha de Odivelas só tinha movimento de manhã e ao fim da tarde. Pois vejam o que eu descobri num texto deste senhor, numa revista recente:"a nova procura é mais flexível a vários níveis, o peso da pendularidade reduz-se, bem como ... o número de deslocações será muito mais regular durante o dia".  Isto é, deixou de haver justificação segundo os argumentos dele próprio para a linha circular. Claro que se desculpará com o teletrabalho e nunca reconhecerá que cometeu um erro grave enquanto consultor de transportes ao desvalorizar a ideia de policentrismo e de disseminação da cidade em troca da pendularidade, porque isso equivale a chamar dormitório a partes da cidade e da área metropolitana. Recordo que quando entrei para o metro em 1974 uma das primeiras coisas que o  meu colega senior que me acolheu cheio de paciencia para me ensinar foi que tinhamos de trabalhar para alisar o diagrama de cargas ao longo do dia. Não é "adaptar" a oferta à procura, é assumir que estamos numa área metropolitana em que a mobilidade deve ser repartida pelos vários núcleos (com ou sem imobiliário e com ou sem turismo). Mas é positivo, quase 50 anos depois, o prof Alvaro Costa já concorda que o diagrama de cargas deve ser alisado, nunca é tarde para aprender, pena são os custos de certas aprendizagens. 
E já agora, outra coisa, o projeto original do metro tinha um erro, a curva Restauradores-Rossio, até parecia que queriam fazer, nos anos 50, uma linha a tender para  o circular. Foi corrigido, desfez-se a curva para a linha azul ir para Santa Apolónia e a linha verde ir para o Cais do Sodré. Pode ser que os jovens que ainda não entraram para o metro, daqui por uns anos, façam o mesmo entre Santos e a Estrela, prolongando para Alcantara Mar (esperemos que não façam o disparate de ligar a linha de Cascais à de cintura), reduzindo o comprimento da linha em laço e densificando o serviço de metro no centro da cidade (que na Estrela até podia ter sido feita por uma nova linha de elétrico) depois de assegurarem as ligações às periferias (por exemplo: http://fcsseratostenes.blogspot.com/2022/05/hipoteses-para-hipotese-remota-de.html). A menos que pensem melhor, já que o RECAPE do lote 2 ainda não foi aprovado, não sei se pelas implicações que vai ter no transito da 24 de julho e nos desvios do comboio de Cascais, dos elétricos e dos autocarros, e desistam da ligação C.Sodré-Estrela, podiam adjudicar ao consórcio respetivo a prolongamento para Alcantara, nada que não tivessem já feito  com as sedes da PJ.



De: contraofimdalinhaamarela@gmail.com <contraofimdalinhaamarela@gmail.com>Enviado: 14 de junho de 2022 13:17Para: santos.silva45@hotmail.com <santos.silva45@hotmail.com>Assunto: Comunicado: Democracia Descarrila e Atropela Cidadania

CONTRA O FIM DA LINHA AMARELA

14/06/2022

Comunicado

Democracia Descarrila e Atropela a Cidadania

 

Estimado Senhor Eng.º Fernando Santos e Silva

santos.silva45@hotmail.com

Amanhã, dia 15 de Junho de 2022, a partir das 15 horas, a Assembleia da República irá em sede plenária finalmente apreciar e pronunciar-se sobre a Petição n.º 612/XIII/4ª.

Esta Petição de origem popular que pretendeu levar o legislador e o executivo a agir "Contra o Fim da Linha Amarela do Metropolitano de Lisboa", deu entrada nos serviços do Parlamento aos 20 de Março de 2019.

Sabendo que:

1.    O plano de a Linha Amarela do Metro de Lisboa passar a ligar apenas Odivelas a Telheiras e que tal alteração está prevista ocorrer quando estiver concluída a ligação entre o Rato e o Cais do Sodré, que transformará a actual Linha Verde numa Linha Circular (ao incluir o percurso que actualmente integra a Linha Amarela entre o Campo Grande e o Rato numa rota circular pelo centro da cidade);

2.    Milhares de passageiros que diariamente apanham o metro no concelho de Odivelas e na parte alta de Lisboa vão ser obrigados a mudar de linha no Campo Grande para chegar a estações como o Rato, o Marquês de Pombal ou o Saldanha, que passarão a ser estações da futura Linha Verde Circular;

3.    A estação de Metro de Odivelas é a terceira mais movimentada da Linha Amarela, ultrapassando mesmo a estação do Marquês de Pombal, ficando só atrás das estações do Campo Grande e de Entre-Campos;

4.    O argumento principal para esta mudança, o aumento das frequências, é falacioso, porque a redução dos tempos de espera não depende do formato da Linha;

5.    Esta solução revelar-se-á uma opção menos atractiva para os passageiros que entram e saem nas estações da Linha Amarela situadas a norte do Campo Grande, pois empurrará muitos destes utentes de novo para os seus automóveis, com consequências no aumento do tráfego automóvel, no aumento da sinistralidade rodoviária, no aumento do stress e, pior, no aumento da poluição;

4.366 cidadãos assinaram a Petição n.º 612/XIII/4ª entregue a 20 de Março de 2019, solicitando a apreciação pelo Plenário da Assembleia da República visando as melhores medidas legislativas que se mostrassem justificadas, nomeadamente a aprovação de Resolução(ões) Parlamentar(es), proposta pela Comissão ou por qualquer Deputado, ou grupo de Deputados, ou Grupo Parlamentar, que eventualmente recomendassem ao Governo não avançar com o Plano de Expansão do Metropolitano em marcha, evitando com isso as alterações e prejuízos aos cidadãos acima descritos, moldando assim os princípios de expansão com os do Plano anterior ou com outro que lhe seja similar quanto aos propósitos, devendo quaisquer soluções a adoptar serem objecto de discussão pública, audição dos órgãos de Poder Local implicados, audição das ordens e organismos de vigilância técnica, bem como das organizações representativas dos trabalhadores do Metropolitano e organizações volvidas à defesa da mobilidade e transporte das populações implicadas.


Sentindo a lentidão do processo legislativo o Movimento de Cidadãos “Contra o Fim da Linha Amarela”, em conjunto com cidadãos quer de Telheiras, quer da Estrela, quer do Lumiar e em estreita parceria com todos os partidos que estavam de acordo com a necessidade de parar este processo (exceptuou-se aqui o PS), desdobrou-se num sem número de iniciativas próprias e impulsionando outras das quais se destacam as seguintes:

→    2019, Março: Entrega de Abaixo-Assinado popular e Reuniões com os Grupos Parlamentares;

→    2019, Março e Abril: Participação em Encontros em Telheiras e na Estrela;

→    2019, Abril: Intervenções em Sessões da Assembleia Municipal de Odivelas;

→    2019, Maio: Intervenção em Sessão da Assembleia Municipal de Loures;

→    2019, Julho: Acção de contacto com os utilizadores da Linha Amarela do Metropolitano de Lisboa;

→    2019, Julho: Aprovação pela Assembleia da República da Resolução n.º 167/2019, de 10 de Setembro recomendando ao Governo a suspensão da linha circular e o estudo de um plano de mobilidade da AML;

→    2019, Setembro: Acção de Informação à População na saída da Estação do Metropolitano de Odivelas, com a Participação do BE, do CDS/PP, do PAN, do PCP e do PPD/PSD e do Grupo da Estrela;

→    2020, Março: Audição Pública Parlamentar n.º 15-CEIOPH-XIV, dos proponentes da Petição n.º 612/XIII/4ª, por deputados da Assembleia da República, ocorrida em Odivelas;

→    2020, Março: Aprovação pela Assembleia da República da Lei n.º 2/2020, de 31 de Março (Lei do Orçamento do Estado de 2020), que nos artigos 282.º e 283.º manda suspender a construção da linha circular, estudar o prolongamento para Alcântara, estudar um plano de mobilidade para a AML e dotar as estações com meios de acessibilidade para pessoas com mobilidade reduzida;

→    2021, Fevereiro: Pedido ao Tribunal de Contas informação sobre a compatibilização dos vistos para os contratos dos 3 lotes de construção da linha circular, o primeiro ainda em 2020, face à Lei n.º 2/2020, de 31 de Março;

→    2021, Maio: Exposição à Senhora Provedora de Justiça das diversas incongruências e ilegalidades do processo.

 

projeto do governo


Num país onde a crise da cidadania é proclamada e até estranhada por muitos agentes políticos, ao vermos como este processo correu facilmente poderemos entender o desapego dos cidadãos à coisa pública. Neste longo caminho, que começou bem antes da Petição, um grupo de cidadãos, estudou dossiers, procurou técnicos e sustentação científica, verificou não-conformidades, formulou alternativas, organizou eventos públicos informativos, co-organizou até uma manifestação, apresentou-se perante os órgãos autárquicos de Loures e Odivelas, solicitou audiências ao Sr. Presidente da República, ao Sr. Primeiro Ministro e ao Sr. Ministro do Ambiente e da Acção Climática, pressionou os partidos políticos e colaborou com eles levando à apresentação de Propostas de Resolução e à aprovação de Resoluções da Assembleia da República, tendo tal culminado na introdução dos artigos 282.º e 283.º na Lei n.º 2/2020, de 31 de Março (Lei do Orçamento do Estado de 2020).



Este Movimento tudo fez respeitando a legalidade democrática e os Princípios e Preceitos do Estado de Direito para evitar que esta má obra avançasse. Até conseguiu ver isso consagrado na Lei. Todavia, claramente não lutou com as mesmas armas do poder executivo, as armas do desrespeito pelo Parlamento e pela Lei. Entretanto, o Governo e a empresa Metropolitano de Lisboa avançaram com a obra, que está em curso, com o beneplácito presidencial que em Comunicado contra toda a doutrina atribuiu aos artigos 282.º e 283.º da Lei n.º 2/2020, de 31 de Março, imagine-se, o valor de Recomendações, numa afirmação impossível de antever a um professor constitucionalista, que formou muitos dos nossos juristas. A este juntou-se a incompreensível emissão do Visto pelo Tribunal de Contas a esta obra quando não tinha em sua posse o documento que garantia a existência de dotação financeira para o efeito. Juntaram-se ainda os silêncios das restantes instâncias judiciais que apesar de conhecedoras nada promoveram.

Tudo isto faz-nos recordar Guerra Junqueiro que no longínquo ano de 1896 ao analisar o então quadro político afirmou a bizarria de «um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do País. A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas.»

A todos estes comportamentos à margem das regras do Estado de Direito, ainda tínhamos de juntar este número de teatro, 3 anos depois de apresentada a Petição n.º 612/XIII/4ª vem agora o Parlamento apreciá-la e pronunciar-se. Note-se que o Relatório Final, sobre esta foi apresentado em Abril do ano passado.

Pronunciarem-se agora? Agora, quando o Governo pôs e dispôs afrontando até o Parlamento que em total catalepsia nada operou? Agora, quando a obra já arrancou?

Se algum dia perguntarem como nascem os “ismos”, fundamentalismos, os nacionalismos exacerbados e outros que tais, pensemos no quão activa foi esta sociedade em que tal propósito de consumasse. Esta carapuça servirá a quem tiver de servir, garantidamente não terá de servir a todos, pois é com orgulho que o Movimento de Cidadãos “Contra o Fim a Linha Amarela” sabe haver gente boa em todos os quadrantes, disponíveis, para sem despir as suas camisolas partidárias, surgirem junto com os seus adversários a defenderem o que é certo e tal viu-se em Odivelas (vide foto seguinte).


Amanhã, este Movimento, que não desiste, estará presente nas galerias do Parlamento.

Estranha-se que nem sequer a solução em laço / loop, fosse considerada. Algo que ainda poderia acontecer.


 

Pelo Movimento de Cidadãos "Contra o Fim da Linha Amarela",

Vítor Peixoto

Ilda Tojal

Jorge Mendes

Paulo Bernardo e Sousa

 

PS: Para qualquer esclarecimento adicional contacte contraofimdalinhaamarela@gmail.com.


Dos "hub" marítimos aos autocarros elétricos

 https://www.dn.pt/local/lisboa-oeiras-e-cascais-querem-plano-comum-para-as-zonas-costeira-e-ribeirinha-14946508.html

A notícia tem de bom o aparente entendimento entre três municípios da área metropolitana de Lisboa em questões de ordenamento do território.

Seria muito bom que estes e outros assuntos fossem discutidos no âmbito da AML e que tivessem a participação dos cidadãos, através da realização periódica de sessões abertas ao público (com divisão da assistencia em grupos de debate e apresentação de conclusões) . Nada que não esteja previsto no artigo 65 da constituição da República portuguesa.

Sobre os "hub" marítimos, observo que temos as intenções de construir em Pedrouços do lado do município  de Lisboa e do lado do de Oeiras, neste caso eventualmente ligado de forma pouco esclarecida ou aceite pelos cidadãos, à urbanização da foz do Jamor. Curiosamente, a GALP decidiu projetar tambem um "hub" do género nos terrenos da antiga refinaria de Matosinhos. Não tenho conhecimentos para avaliar estas intenções e a pertinencia dos projetos, apenas como cidadão observo que estas decisões são tomadas sem a participação constitucionalmente prevista dos cidadãos e que, pelo menos no caso de Matosinhos, configura uma decisão por entidade do grupo dos oligopólios, numa altura em que ela, através do  seu principal acionista, adquire uma participação pública na herdade de Rio Frio limitando mais um pouco o perímetro para decisão do novo aeroporto. Não são ouvidos os acionistas enquanto contribuintes nestas decisões. Ainda como cidadão, se se fala no mar, devo perguntar como está o processo da plataforma continental para alargamento da ZEE, embora sem esperança de obter resposta, pese o voluntarismo do senhor ministro do mar.

Sobre o tema da mobilidade referido na reunião dos 3 presidentes de município , registo que se mantem a ilusão dos autocarros elétricos na A5 (ilusão porque já basta a supressão das ligações ferroviárias de Coimbra a Serpins e da Coimbra A a Coimbra B) em detrimento da melhoria das linhas férreas de Sintra e de Cascais, e a ilusão do LRT Jamor-Alcântara (ilusão porque não é possível uma ligação ferroviária de superfície sem viadutos em ruas estreitas o que limita a velocidade comercial e implica a contabilização do tempo perdido pelos passageiros em comparação com o modo subterrâneo ou em viaduto), observo:

- considerando a situação atual, melhor seria desenvolver uma rede de ligação entre a linha do oeste, a linha de Sintra e a linha de Cascais (não me refiro à ligação desta à linha de cintura, topologicamente um problema típico de uma rede de metropolitano e não suburbana, amenos que se sextuplicasse a linha Campolide-Braço de Prata, ação tambem típica de uma rede de metro) com interfaces multimodais. O inconveniente duma linha de metrobus continua a ser, uma vez que as leis da Física conexas não foram mudadas, o maior consumo energético por passageiro km quando comparado com uma solução ferroviária em igualdade de desenvolvimento tecnológico. Acresce o problema operacional da chegada dos autocarros a Lisboa exigindo infraestruturas (terminais) onde há falta de espaço, obrigando a transbordo na zona de Campo de Ourique Norte/Amoreiras.

- sobre a ligação Jamor-Alcântara, tal como previsto no EIA do prolongamento da linha vermelha do metro para Alcântara, a solução correta seria o prolongamento desta para o Jamor, diluindo o investimento por vários anos e evitando os custos da ligação da linha de Cascais à de cintura em Alcantara e o enterramento da linha de Cascais Algés-Cais do Sodré.

Em síntese, sem desmerecer na iniciativa dos 3 presidentes de municipio, conviria um análise mais alargada, tanto ao nível das autarquias da AML como dos seus cidadãos e fundamentada do ponto de vista técnico.

terça-feira, 7 de junho de 2022

Petição 612/XIII/4ª pedindo a suspensão da construção da linha circular

 A petição em título foi entregue na AR, com 4366 assinaturas, em 19 de março de 2019:

https://www.parlamento.pt/ActividadeParlamentar/Paginas/DetalhePeticao.aspx?BID=13303

deu origem ao projeto de resolução 69/XV/1ª do BE de 30 de maio de 2022 que recomenda a suspensão da construção da linha circular e que vai ser debatido em plenário da AR em 15 de junho de 2022

https://www.parlamento.pt/ActividadeParlamentar/Paginas/DetalheIniciativa.aspx?BID=121515

Trata-se dum iniciativa condenada à reprovação, esperando-se no entanto que no debate sejam ditas algumas verdades. Por exemplo, que continua por se abrir um debate sério e alargado, com participação dos cidadãos interessados, para desenvolvimento de um plano de mobilidade da área metropolitana de Lisboa. O recente caso da consulta pública do EIA do prolongamento da linha vermelha a Alcântara Terra é disso exemplo. O metro repetiu o processo da linha circular, apresentando o traçado como facto consumado e omitindo a estimativa dos trabalhos complementares (estimativa dos toscos: 304 milhões de euros; ausencia de estimativa para as especialidades, para  a remodelação urbanística de Alcântara consequencia do projeto e para as ligações mecânicas a Alcântara Mar e apeadeiro do Alvito). Apesar de protestos de cumprimento da legalidade, a sessão de esclarecimento público realizou-se a 6 dias do fim do período para a consulta e não se realizou nenhuma sessão com as juntas de freguesia abertas à participação dos cidadãos. Exemplo de profundo desrespeito por eles, até porque que se inviabilizassem agora a aprovação do EIA, automaticamente suscitariam a aprovação por deferimento tácito por ultrapassagem de prazos.

No caso desta petição e deste projeto de resolução, existe para os cidadãos prejudicados a noção de ineficácia e de que as obras avançaram contra tudo e todos, em manifestação de "quero, posso e mando". A coisa chegou a um estado em que não adianta voltar atrás com as indemnizações que os empreiteiros pediriam. Mesmo no caso do lote 2 que ainda não tem RECAPE, já há auto de consignação, custando a perceber como é que a CML licencia os estaleiros. 

Os técnicos que tiverem de operar o metro coma linha circular vão sofrer os seus inconvenientes de pouca fiabilidade. E se os decisores cumprirem a ameaça de ter ligações Odivelas-Rato-C Sodré  durante as horas de ponta ver-se-ão, por razões de segurança, "gregos" se quiserem explorar simultaneamente (partilha) ou sucessivamente  a linha circular (é a experiencia do metro de Londres que o diz , confirmando a teoria). 

Os técnicos do planeamento já se defrontam com o problema do prolongamento para Alcantara. O que era uma coisa relativamente simples, prolongar a amarela para Lapa-Alcantara Mar e a vermelha para Alcantara Terra-Algés/Jamor  (ou a vermelha para Alcantara Mar e a amarela para Alges/Jamor, dependendo das análise de custos benefícios que só se podem e devem fazer depois dos estudos prévios feitos, e não como agora fazem, olham para os traçados e em fase de Estudo de Impacto ambiental decidem que este traçado não presta este é que é bom; não são assim as regras de engenharia de transportes). 

Perdendo-se os fundos do PRR, ainda seria possível adaptar a obra da Estrela a um prolongamento para Alcântara Mar prescindindo de Estrela-Cais do Sodré (meio lote 1 e lote 2). No entanto, os decisores já incluiram no PNI2030 a ligação da linha de Cascais à linha de cintura, que é outro tiro, juntamente com a especulação e exploração indecentemente imobiliária no quarteirão da Lisboa factory , no ordenamento do território de Alcântara e, por extensão, no plano de mobilidade da AML.

Voltando à petição, é um exemplo do que os atrasos burocráticos podem fazer. O governo, o metro e o tribunal de contas em 2020, em clara desobediência à lei 2/2020 art 282, assinaram e validaram (?) contratos. São inválidos, e a desobediência à lei em assuntos públicos deveria merecer do MP uma investigação por gestão danosa. O Tribunal administrativo e Fiscal tem para isso elementos suficientes por queixa apresentada, e o facto do sr Presidente dizer que é uma recomendação é um nulo jurídico, uma vez que das suas competências só faz parte promulgar uma lei ou mandá-la para o constitucional, e ele promulgou-a, era para cumprir. Ou a separação de poderes num estado de direito é para enganar os cidadãos. Seria interessante ver isto discutido no debate da petição. Não é apenas o erro técnico da linha circular (a cujos promotores não se reconhece competência técnica para o discutir, nomeadamente ao diretor de empreendimentos, por formação , e ao presidente da administração do metro, por inexperiencia) é a desobediencia a uma lei.

 


sábado, 4 de junho de 2022

Para além das análises geo políticas

 Angelina Jolie tem um filme que trata do que acontece aos casais mistos em ambiente de guerra civil feroz (In the land of blood and honey). 

Talvez que, se os decisores políticos, que se preocupam pouco com os ensinamentos pelo exemplo de Gandhi e de Mandela e se preocupam muito com a geo política, olhassem com mais atenção para o problema das uniões de pessoas de nacionalidades (ou nacionalidadezinhas) diferentes, as dificuldades se aplanassem.

Vou trocar os nomes às pessoas, mas a história passa-se em Portugal.

Iuri é ucraniano e casado com Svetlana, russa, que trabalha como empregada de limpeza doméstica. Em visita à mulher no seu local de trabalho, Iuri admirou a coleção de modelos reduzidos de automóveis antigos do dono da casa a quem, a propósito, disse que era muito amigo de Dmitri, bielorusso, que desenvolvia para uma fábrica na Ucrania  modelos em madeira de balsa para montagem pelos amadores e modelos reduzidos de metal para uma fábrica na Bielorussia. Por razões de ordem vária abstenho-me de referir as respetivas cidades.

Na conversa com o dono da casa este mostrou a Iuri uma fotografia de quando era bébé, à janela de um Fiat Balila descapotável do pai. Iuri sugeriu que podia encomendar ao amigo a reprodução do Balila a partir da fotografia,   e o dono da casa, entusiasmado, aceitou, porque nenhuma fábrica por esse mundo fora jamais produzira um Fiat Balila.

Isto foi há uns meses. Chegou agora pelo correio, vindo da Bielorussia, encomendado por um português através dum ucraniano com quem tinha travado conhecimento por meio duma russa, o Fiat Balila de 1930 em modelo na escala 1:43.

Gandhi e Mandela teriam batido palmas.



fotografias pelo produtor bielorusso do modelo reduzido



sexta-feira, 3 de junho de 2022

Mais um acidente na linha regional de Munique-Garmisch Partenkirchen

Infelizmente, depois do acidente de fevereiro de 2022 https://fcsseratostenes.blogspot.com/2022/02/colisao-em-ebenhausen-entre-dois.html  

novo acidente em 3 de junho de 2022 na linha de Munique-Garmisch Partenkirchen, na Baviera:

https://www.bbc.com/news/world-europe-61684048

da fotografia da 2ª carruagem, não se podem retirar conclusões, mas conviria que a comissão de inquérito avaliasse bem se os rodados não precisariam de ser reperfilados (de ir ao torno); a manutenção correta do angulo cónico é essencial para reduzir a probabilidade de descarrilamento




Aparentemente, uma das carruagens dianteiras (na foto) seguiria descarrilada e na curva provocou o descarrilamento de mais carruagens, ou terá sido a carruagem da frente que descarrilou na curva. Se foi assim, ou terá sido defeito de material circulante (rodas desgastadas, peça caída entre a roda e o carril) ou de algum ponto da via anterior. Conviria também saber qual o esquema de tração (as carruagens descarriladas seguiam empurradas ou puxadas ou tracionavam?)


PS em 4 de junho - de acordo com a wikipedia

https://en.wikipedia.org/wiki/Garmisch-Partenkirchen_train_derailment

a composição era empurrada por uma locomotiva na cauda, existindo na carruagem da frente uma cabina de condução. Trata-se de um modo de tração em que qualquer obstáculo ao movimento nas carruagens da frente (objeto na via , p ex) pode provocar descarrilamento seguido do efeito harmónio . Recente descarrilamento na linha do Algarve ocorreu por este facto sendo causa um tirafundo sobre o carril.  Impõe-se não utilizar este modo de tração ( reboque pela locomotiva, tração distribuida, por exemplo). Igualmente seria desejável normalizar um sistema comprovação da integridade da composição que inclua a verificação de que o bogie está carrilado.

foto na wikipedia:        https://en.wikipedia.org/wiki/Garmisch-Partenkirchen_train_derailment  


carruagem da frente com cabina de condução, sendo a tração por locomotiva na cauda


Por coincidencia infeliz, mais um acidente, para alem de um descarrilamento na estação de Roma numa ligação Turim-Roma,  desta vez na Eslovaquia: https://railmarket.com/news/rolling-stock/123-bavaria-disaster-followed-by-slovakia-train-crash-after-couple-of-hours

PS em 14jun2022 - segundo informação do gabinete de investigação de acidentes ferroviários alemão, BEU (https://www.eisenbahn-unfalluntersuchung.de/SharedDocs/Fachmitteilungen/EUB/2022/019_2022_Garmisch-Partenkirchen_-_Farchant.html), as investigações foram iniciadas.  Não partilham da cultura anglo saxónica de informação detalhada do progresso das investigações. É pena, porque assim perde-se a atençõ pública para o que poderia evitar os acidentes. Neste caso, a hipótese de que um sistema de deteção de continuidade da conformidade dos rodados seria muito util (por exemplo, deteção de temperataura excessiva das caixas de rolamento, de inserção correta das rodas no carril)
PS em 2set2025 - só agora publicado o relatório do BEU, atribuindo a causa a deficientes travessas de betão (sleepers):  https://www.railtech.com/all/2025/09/02/shocking-and-saddening-fatal-db-derailment-in-2022-caused-by-sleeper-defects-was-preventable/      Ignoro se o inquérito considerou a hipótese de contribuição paa o acidente do esquema de tração e do estado dos rodados.