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sábado, 2 de novembro de 2013

No metropolitano, em 1 de novembro de 2013

No metropolitano, ao fim da tarde, com a carruagem quase cheia, cerca de um quarto dos passageiros, quer estivessem sentados, quer de pé, utilizavam os seus telemóveis, uns conversando, outros digitando mensagens, jogando ou simplesmente deambulando pelos menus.
Não será apenas o conforto de as pessoas se sentirem ligadas a outros, por mais insignificante que seja o que têm a dizer,  ou a uma realidade que lhes é exterior.
É gerado um retorno que preenche os centros de prazer cerebrais dos utilizadores.
No fundo, o mesmo objetivo que eu tento, sem recorrer ao telemóvel, mas observando o que me rodeia numa carruagem de metro.
Há outro fator que condiciona o comportamento dos utilizadores de telemóveis.
A condução de um automóvel provoca no automobilista uma perceção subconsciente de que está a desenvolver uma atividade produtiva, para mais exigente e complexa. Essa perceção é uma recompensa tranquilizadora, nos mesmos centros cerebrais, para quem cumpriu uma atividade útil na comunidade produtiva.
Do mesmo modo, manipular computadores, mesmo em atividades lúdicas, ou telemóveis, cria a perceção, ilusória, de domínio de tecnologias complexas e de  recompensa de um esforço também ilusoriamente produtivo.    
Tudo valorizado subconscientemente pela noção de vantagem e superioridade comparativa relativamente à maioria dos cidadãos que não utiliza os telemóveis de 4ª geração.
Conduzir um automóvel ou extrair de um telemóvel todas as suas possibilidades exige esforço e é considerado parte do trabalho produtivo nacional.
Assim nos iludimos sobre a natureza do verdadeiro trabalho produtivo.
De bens transacionáveis, sujeitos à concorrência, e de interesse para a exportação.
O vulto que ocupava o canto esquerdo do meu campo de visão destaca-se do magote de passageiros à chegada à estação.
Um casaco de pele, comprido, até ao chão, poído, deixando ver umas botas também de pele e desgastadas. Uma gola de pelo de coelho. Uma mala preta, igualmente longe dos seus dias de glória. O aspeto é insólito e contrasta com quem usa agora esta toilete, outrora elegante e talvez usada por alguma frívola mas  piedosa frequentadora do Rock in House, do Strumps, ou do Lux.
A senhora não terá ainda 50 anos, mas a face é enrugada e sofrida, o cabelo escorrido e desalinhado. Dedicar-se-á, quando não pede esmola no metropolitano, a arrumar carros, a recolher papel, a levantar comida dos programas europeus de ajuda alimentar.
Aproveita a redução do ruído da paragem para apelar à caridade dos passageiros, que precisa de alimentar três filhinhas que se não fossem elas já se teria suicidado.
Será que alguns dos rostos que se fecham ao apelo recordam entrevistas de oferta de trabalho de 200 euros por mês a tempo inteiro?
Sinto a raiva crescer como um liquido a subir por dentro.
De impotência contra a politica dominante de desvalorização do trabalho de uns e da supressão da responsabilidade social da comunidade organizada relativamente aos doentes, aos que sofreram limitações físicas, ou psicológicas, aos que não tiveram pais com capacidade financeira e cultural que lhes garantisse a educação para uma ocupação em atividades rentáveis.
Indigno-me contra o estabelecido pelas grandes instituições financeiras e politicas da união europeia que preferem os indicadores financeiros aos indicadores de bem estar e de igualdade dos cidadãos.
Devíamos estar a produzir, que até o nível do PIB é inferior ao possível. O comboio vai cheio mas o comboio a seguir só vai aparecer daqui a 6 minutos. Há espaço no intervalo para maior produção. Devia haver mais passageiros a transportar, devia haver mais empregos.
É aí que está a causa dos males.
Não está em quem recusa empregos de 200€ a tempo inteiro nem em quem pede esmola no metropolitano.   
Mas os mecanismos formais da democracia são em si mesmos limitadores duma mudança do estado das coisas.
Para o bem e para o mal, com intervenção racional e eficiente ou não de grupos de cidadãos ou de militantes partidários descontentes com a gestão das suas direções, ou apenas por efeito das leis invisíveis e intangíveis que governam todos os fenómenos físicos de conjuntos de entidades e das suas interações de variáveis múltiplas, cujos ciclos ora manifestam uma alternancia negativa, mas depois positiva, havemos de melhorar, não graças aos ditigentes, mas apesar deles.




quinta-feira, 19 de julho de 2012

Misturando anacronicamente a crise com a estatística do IRS

A Autoridade tributária e aduaneira (como gosto desta designação, autoridade tributária ….) publicou os dados estatísticos do IRS de 2010.
Ver:
http://info.portaldasfinancas.gov.pt/pt/dgci/divulgacao/estatisticas/estatisticas_ir/

Distribuição do rendimento bruto pelos diferentes escalões e dimensão dos agregados

IRS de 2010
Resulta evidente a contribuição maioritária da classe média e a pequena dimensão dos agregados com maiores rendimentos (isto devia recomendar prudência a quem queira aumentar impostos sobre rendimentos de trabalho, mas enfim).
Outros valores:

Total de agregados --------------------------------------------- 4,72 milhões
Rendimento bruto total declarado  ---------------------------- 86,3 mil milhões de euros
crescimento do rendimento de 2009 para 2010 ----------------- 1,43%
cerca de metade dos agregados não têm rendimentos suficientes para a liquidação
apenas 29% de empresas pagaram IRC (e espera-se que sejam as empresas privadas a retomar o crescimento?)



Misturemos agora, de forma anacrónica, porque estes rendimentos são de 2010 e a intervenção ascética da troika é de 2011, com alguns indicadores obtidos na publicidade e nas notícias de Julho de 2012.
Como o nome mostra, indicador aponta uma tendência de mercado, a existência de uma procura que responda à oferta:

1 – anuncio da Mercedes: modelo SUV, GL 350 Bluetec 4 Matic , 350 CV ,
                                                                          7,4 l/100km ,      101,100 €
                                        modelo SUV 63 AMG V8 biturbo,        557 CV,
                                                                        12,3 l/100km ,       186.100€

2 – anuncio da Emirates: dois bilhetes de primeira classe (oferta do segundo como promoção)com limusine e hotel no destino:

Shangai ou Dubai ----------------- 3.000€
Sidney ---------------------------- 4.500€

3 – existem 14,6 milhões de notas legais em circulação em Portugal; foram retiradas de circulação, em 2012, 6.500 notas falsas


Como diz um programa da CNN ou da Euro News, não me recordo,  sem comentários.

domingo, 13 de maio de 2012

A crise explicada às crianças




Fico um bocadinho de pé atrás com os livros que explicam às criancinhas as coisas económicas.
Não gosto do livro de João César das Neves quando dá o exemplo do egoísmo do padeiro como resposta à necessidade do pai da criancinha encontrar pão para ela, esquecendo a outra parte da ideia de Adam Smith, que o padeiro deve ter uma responsabilidade social.
Com o novo livro ilustrado de João Miguel Tavares, "A crise explicada às crianças", continuamos a discutir se se deve ser de esquerda ou de direita. Mas reconheço que não era possível apresentar no livro cálculos fundamentadores de medidas a tomar para atenuar a crise e que a ideia do livro, apresentando duas perspetivas opostas, é interessante (problema: vai induzir as criancinhas a perguntar qual o lado dos bons e o dos maus; quando se devia retirar de ambos os lados aquilo que pudesse contribuir para a solução).
O défice é o urso guloso que se endivida, o mel é o capital e os mercados são as abelhas laboriosas.
O senhor ministro das finanças teve a simpatia de apresentar o livro e, obviamente, disse que a culpa tinha sido do urso.
Isto de andar à procura de culpados também não me parece saudável para as criancinhas, bem basta a inserção no subconsciente da culpa do pecado original, que porque ninhuem o viu tem mesmo de ser subconsciente.
E questionado sobre a questão do desemprego, nada disse.
Mas digo eu.
O desemprego foi aquela doença inexplicável e inesperada (do ponto de vista da direita, claro) que atacou as abelhas e arruinou a maioria das colmeias dos apicultores norte-americanos e levou a que houvesse mel insuficiente para repor aquele que tinha sido consumido. Ou dito de outra forma, a toxicidade do mel acabou com a saúde dos mercados.
Quanto à inexplicabilidade da doença, os especialistas estudaram o assunto e concluíram: alguns pesticidas tinham um componente que provocava degeneração das abelhas, tornando-as incapazes de produzir o mel necessário.
É isso, os mercados não podem ser deixados entregues a eles próprios, que se arriscam a criar produtos tóxicos para eles próprios. Só precisam de uma pequena ajuda do urso imprudente para completar o quadro da tragédia.

Mas pode ser que urso e abelhas ganhem juízo.

http://sicnoticias.sapo.pt/economia/2012/05/12/vitor-gaspar-explicou-crise-as-criancas-mas-esquivou-se-a-perguntas-para-adultos

PS em 21 de maio de 2012 - Fiquei chocado quando recentemente li a notícia de que a produção de mel em Portugal cairá muito este ano devido ao período de seca (falta de água , florescimento fora de tempo e crescimento excessivo e não sustentável dos enxames). Depois de há tempos se ter verificado uma corrida à compra de enxames e ao seu roubo por incapacidade de responder à procura, estamos agora na situação de ter de importar mel.
É possível que o autor do livro da crise explicada às crianças pondere que afinal não é bonito estar a atirar com as culpas para cima do urso, que não tem culpa nenhuma da seca. Tampouco as abelhas têm culpa da seca. Isto de causas externas é assim.
Algures, onde pelos vistos autor, ilustrador, apresentador, leitores e comentadores ainda não vislumbram, haverá um ponto de equilíbrio entre o urso, as abelhas  e o mel.
PS em 5 de junho de 2012 - dada a proximidade do tema, convirá ver este "post" em conjunto com o de Victoria Grant, uma criança a discursar sobre a crise:
http://fcsseratostenes.blogspot.pt/2012/06/victoria-grant-public-banking-institute.html
Imaginemos a contrariedade do autor e do seu ministro das finanças se a menina Victoria tivesse intervindo na sessão de lançamento, a criticar o aumento dos impostos que o urso tem de pgar para os juros do mel poderem subir...




sábado, 21 de abril de 2012

José Matoso - "Levantar o céu"

Tenho de comum com José Matoso a terra onde nascemos, Leiria.
Também sou acusado de ser contemplativo e de tentar refletir sobre muito que vulgarmente não é considerado de interesse.
Por isso apreciei a entrevista na Antena 2 sobre o livro "Levantar o céu" de José Matoso.
http://www.fnac.pt/Levantar-o-Ceu-Jose-Mattoso/a563704

Destaco da entrevista as suas afirmações sobre as origens da crise: o excesso de poder das minorias que governam e a ganancia dos financeiros e grupos económicos.
E que é da diversidade que resulta a capacidade de regeneração, não da supremacia de um bem sobre um mal, de um certo sobre um errado, de um científico sobre um primário (palavras minhas, que não gravei a entrevista).

Poderá ser apenas um diagnóstico, confirmando a arrogancia de quem toma decisões por nós todos ou nos explora, mas será também mais uma achega para tentarmos sair da impotência coletiva.
Nestas coisas não é uma ideia ou um lider que resolvem o problema.
A solução vai germinando com contribuições múltiplas, inesperadas e anónimas.
E nunca se sabe quando funcionam.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Novas falas de governantes, desta vez questões de retórica

Fala do senhor  ministro da economia:
 "2012 irá certamente marcar o fim da crise, será o ano da retoma para o crescimento gradual em 2013 e 2014",
mas não foi bem esta a fala (embora tenha sido ouvida por muitos, que também viram que o orador estava a ler),
o que o senhor ministro disse que disse, foi antes:
"todos os indicadores mostram  que 2012 será o início do fim da crise",
e mais disse que
"há imponderáveis que não podemos controlar",
e que
"as condições vão piorar antes de começarem a melhorar" (na verdade, não é uma redundancia, porque as condições podiam manter-se estáveis antes de começarem a melhorar, mas os ciclos económicos não costumam ter patamares, por isso é muito natural que as condições só comecem a melhorar depois de acabarem de piorar; a dúvida é quando, mas para isso estão as previsões dos irmãos maiores da UE, que prevêem crescimento franco a partir de meados de 2012).

malabarices

E assim se vai perdendo a esperança de que os nossos ministros falem bem, embora tenha de se reconhecer criatividade ao senhor ministro quando de modo anglo-saxónico fabrica neologismos como "descompetividade" para significar "falta de competitividade".
Mas não é isso que mais interessa.
Interessava mais que o senhor ministro não se enervasse e não estivesse tão inseguro.
É verdade que o cargo convida a isso, mas acalme-se e tente uma postura dialogante, como aliás costuma dizer que tem.
Vai ver que se sentirá mais à vontade e obterá resultados.
Não precisa de negar que disse o que leu.
Não precisa de responder com acusações de "retóricas exacerbadas" e de "ameaças na rua".
Responda antes com argumentos, por exemplo apresentando os tais indicadores que mostram que 2012 será o principio do fim (da crise), para não repetir a inconformidade das taxas de ocupação.

A taxa de ocupação (procura sobre oferta) no terminal fluvial do Cais do Sodré, às 16:20

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Viagem à Grécia

Não é o testemunho de uma viagem à Grécia de hoje.
Já passaram 5 anos desde que a visitámos.




Não vi carros de luxo nas ruas de Atenas, nem vi edifícios novos sumptuosos.
Não vi linhas de metro com estações sibaríticas nem o porto do Pireu com infra-estruturas supérfluas.
O novo aeroporto que vi tinha movimento compatível com a sua grandeza.
Lamentei não existir uma linha ferroviária de ligação ao centro de Atenas.
O transporte entre as ilhas, quer por via aérea, quer marítima, pareceu-me eficiente e ajustado.
Era abril e os hoteis estavam cheios.
No meio da ilha de Mykonos, em ambiente rural, a capela antiga estava aberta e habitada, coisa rara em Portugal, pelo que pude admirá-la ("no photos" disse o pope, interrompendo a leitura da bíblia, enquanto a mulher assentia com a cabeça e rodava o terço circular).
No café da Ana, foi a Ana, vestida como se estivesse em Londres, que nos atendeu e falava inglês muito melhor do que eu. Estranhei que a sanduiche de peru fumado, embalada em vácuo, fosse Turkey made, não por causa do trocadilho, mas porque deveria haver perus e fábricas de processamento na Grécia.
No dia seguinte, depois da visita à ilha de Delos (pronuncia-se Dilos), a sede da confederação grega cinco séculos antes de Cristo, dissolvida porque o govero de Atenas não quis repartir a sua riqueza com os outros estados federados, jantámos numa esplanada à beira do Egeu.
A moça que nos atendeu encetou uma conversa com a minha mulher sobre as calças que uma e outra vestiam.
Lembrei-me dessa conversa quando no Algarve, noutra conversa, um pai contente me contou que tinha conseguido empregar o filho no bar de um campo de golfe, porque no secundário não conseguia fazer a matemática, o português e o inglês.

Sabe-se agora que o governo mascarava as contas, mas ao turista despreocupado nada parecia antecipar esta crise.
Vieram entretanto os jornais explicar que os gregos eram uns oportunistas que trabalhavam pouco e sem produtividade, com pensões elevadas e uma idade de reforma baixa.
E então lembrei-me dum filme triste, talvez dos mais tristes que vi, com Marcelo Mastroiani, a fazer de caixeiro viajante que todos os anos fazia uma viagem por todo o mundo rural grego para recolher o mel dos apicultores (ver: http://cineclubeybitukatu.blogspot.com/2010/03/0603-o-apicultor-theo-angelopoulos-1986.html).
Das primeiras imagens bucólicas se passou progressivamente para as imagens de degradação e desertificação do mundo rural com modos de transporte ineficientes, até à morte do caixeiro viajante de exaustão e improdutividade.
Talvez esteja aqui a chave: a degradação da agricultura, a desindustrialização que levou a importar as sanduiches turcas, a cegueira da viragem para o setor terciário com a ilusão de que basta ter turismo de qualidade.
Não, não basta, é um fator recorrente, em todos os paises em crise a percentagem de população dedicada ao setor terciário é exagerada (o senhor economista Vitor Bento costuma dizer isto de forma mais correta, a saber que o país deve desenvolver o setor de produção de bens transacionáveis, isto é, que podem vender-se ao estrangeiro ou substituir bens essenciais importados).
Donde, custa-me muito a aceitar que seja solução ir cortando, como o dono do cavalo cortava na ração, e que o esforço de reindustrialização de economias pequenas seja suficiente para compensar a crise internacional (se a California não consegue...).
Caimos assim nas alternativas de Luciano Amaral, nenhuma delas agradável
(ver:  http://fcsseratostenes.blogspot.com/2011/05/madame-butterfly-e-situacao-financeira.html).
Vamos então ter menos rendimentos,  aumentar a tal de produtividade, perder soberania.
Mas ao menos vamos perceber que na origem desta insustentabildade está a ganancia e a especulação dos grandes grupos económicos? Não quer dizer que se consiga acabar com isto, mas ao menos perceber.
Por exemplo, que não pode uma loja com 250 m2, no Chiado, ser alugada por 20.000 euros por mês (terei ouvido bem?), nem uma moradia na quinta do Lago ser vendida por 24 milhões de euros (terei ouvido bem?).
É que não é saudável, nem sustentável, embora possa parecer que estes negócios trazem mais valias. Trazem, mas são efémeras.
Estas coisas evitavam-se com a tal de regulação, mas parece que também não funciona por razões intrínsecas do sistema económico-politico em vigor.
É capaz de ter razão , o senhor ministro da Economia, é preciso mudar de modelo.
Mas a dúvida é grande, que o novo modelo do senhor ministro também funcione.

Donde, resta a nostalgia da viagem às ilhas gregas.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

A orquestra filarmónica de Filadélfia

Este blogue não gosta de discutir política. 
Mas gosta de analisar experiencias, como consta do método científico, mesmo correndo o risco de deixar de fora circunstancias ou parâmetros, por manifesta incapacidade de quem observa.
Isto a propósito das teorias ensinadas nas faculdades de economia desde Milton Friedman e desde o triunfo da reaganomics e da Tatcher. 
A fé fundamentalista no interesse egoista atribuido a Adam Smith, quando o que ele dizia era "a cada um segundo as suas necessidades", transformou-se numa religião como outra qualquer, que promete que tudo se resolve reduzindo  as despesas públicas e os impostos, para que a economia privada cresça, permitindo obter,com pequenos  impostos, maiores receitas do que com impostos mais altos numa economia de maior peso público. 
Este blogue também não quer defender nenhum modelo de predomínio de intervenção estatal já experimentado e que deu mau resultado, ou ainda em experiencia negativa.
Mas gosta de colocar hipóteses, como diz o método, como por exemplo, que a linha de separação entre o setor privado e público pode ser ajustado para cada caso e é de geometria variável em função do interesse coletivo. 
Julgo que era a ideia de Melo Antunes, embora, como dizia Vitor Alves, seja preciso mudar a atitude cultural para que a tal linha de separação dê resultado. 
Problemas comportamentais, como dizem os sociólogos.

1 - Os economistas norte-americanos já fizeram as contas e comprovaram a subida dos defices sempre que os Reagan e os Bush baixavam os impostos e reduziam a intervenção pública.

2 - O Inside Job explicou como a crise da Islandia teve origem na privatização dos seus três principais bancos, que de seguida embarcaram na especulação sem correspondencia com o valor real dos bens (a que chamaram "alavancagem" para convencer os incautos de que isso era aplicar uma alavanca para impulsionar a economia).

3 - O Senado norte-americano já demonstrou em relatório formal a intervenção interesseira e oportunista das agências de notação na crise do Lehman Bros, ocultando o verdadeiro estado dos especuladores sem ativos.

4 - Este post é dedicado à orquestra filarmónica de Filadélfia porque o seu conselho de administração decretou a falencia.
A lei norte-americana permite a uma empresa que declare falencia mecanismos de resgate, e é isso que a orquestra vai tentar.
A situação ocorreu apesar dos elevados mecenatos de que beneficia.
Na realidade, dificilmente será sustentável o seu nivel de qualidade num quadro económico como o atual, sendo que a principal dificuldade é garantir a segurança social aos seus profissionais.
Diriam os adam smithistas que o mercado manda fechar as empresas incapazes e dá oportunidade às capazes, pondo os músicos a tocar noutras orquestras.
Confesso que me choca este tipo de argumentos, quando me recordo do meu primeiro "long playing", escolhido pelo meu pai, com a filarmónica de Filadélfia, regida por Eugene Ormandy, com a abertura do Freischutz, de Weber, a Espanha de Chabrier, a 6ª rapsodia hungara de Liszt, o capricho para violino e orquestra de Sarasate, com Zino Francescatti, e uma espantosa filadelfiana de vestido azul sem alças na capa, numa cena "twilight"; tinha eu 15 anos.
Será sentimentalismo, mas as decisões do mercado são tão ignorantes, tão insensíveis, tão longe daquilo que faz uma vida humana valer a pena ser vivida...
Mas não é só por isso que evoco a filarmónica de Filadélfia.

5 - É tambem porque do outro lado do rio, o Delaware, está Camden, uma cidade de que nunca tinha ouvido falar até ao último domingo, quando li na revista do DN uma reportagem sobre a decadencia de Camden
(ver
http://www.dn.pt/revistas/ns/interior.aspx?content_id=1830523      )

"Em nenhuma outra terra os efeitos da recessão económica se fizeram sentir como aqui. Há duas décadas, Camden, no estado de New Jersey, era uma cidade industrial, uma das mais produtivas da América. Agora é a mais pobre e a mais violenta de todo o país. Desemprego, gestão política danosa e falta de apoios sociais empurraram a população para o fim da linha. Mergulho no escuro. Metade das casas de Chestnut Street estão devolutas ... ... Com setenta mil habitantes, a cidade de Camden, no estado americano de New Jersey, pagou caro o preço da crise. Era, desde o final da Segunda Guerra Mundial, um dos pólos mais produtivos da Costa Leste americana. As maiores fábricas de têxteis e calçado, os principais estaleiros navais e uma boa parte da indústria alimentar do país localizavam-se aqui. Nessa altura, tinha uma população de 120 mil, lojas em todas as esquinas, bares, teatros, cinemas. «Mas o esbanjamento de dinheiro deu cabo disto. Quando a crise chegou e os bancos fecharam as torneiras, já não havia muito a fazer»... ... Os últimos três mayors que governaram a cidade estão presos por corrupção, ligações à máfia e tráfico de influências.Em 1992, as autoridades construíram um enorme oceanário, a primeira medida de um plano de reabilitação urbana. Nove anos depois, ergueram um dos maiores estádios de basebol do país nas margens do Delaware. E, em 2004, foi aberta uma linha de comboios rápidos com paragem em Camden. "

É chocante pensar que estamos  a 130 km  de New York e a 200 km de Washington, na maior economia do planeta.
Consultando o site da autarquia, podem ver-se os esforços de uma comunidade organizada para vencer a crise.
Mas a crise está a vencer.
Como se diz em coloquial, com este tipo de economia, a crise "só pode" estar a vencer.

Vamos então ter de esperar (porque não é só Camden) pela evolução natural do sistema,  pela adaptação cíclica do sistema,  pela sucessão dos ciclos de recessão e de crescimento.
Digo natural ou  intrínseca, no sentido de deixarmos o sistema entregue às suas multiplas variáveis sem controle ou regulação ...        


Este blogue lamenta sinceramente que orgãos políticos portugueses e dirigentes partidários a eles ligados ou suscetíveis de virem a estar ligados depois de eleições, continuem a enviar aos eleitores a mensagem programática da privatização de empresas como forma de resolver a crise e suscitar o crescimento da economia, sem nunca apresentar um argumento contra os factos descritos acima (apenas alguns economistas afetos falam na teoria dos ciclos de adaptação recessão-crescimento).
Lamenta igualmente que o programa de privatizações faça parte do plano de ajuda a Portugal, ou melhor, de empréstimos em negociação com o FMI e com a União Europeia (nada há nos tratados europeus que imponha a existencia exclusiva de empresas privadas, mas os politicos dominantes é o que pensam e querem)   .

Lamenta porque é deixar a ciência fora da equação, depois dos resultados experimentais já recolhidos, quer numa economia pequena, quer numa grande economia, ambas com elevado nivel de endividamento, como é o caso da economia portuguesa.
Então, se pode supor-se que a ciência é uma solução, o problema será: como levar a ciência aos portugueses, quando a ciência precisa da matemática e da física, tão antipáticas à maioria dos portugueses? sendo certo que a economia que as faculdades ensinam é o oposto do método científico: secretista, segregacionista dos círculos de decisão, avessa à disseminação do conhecimento real do funcionamento das coisas, avessa ao referendo das decisões...

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Ruínas, um filme documentário de Manuel Mozos





http://aeiou.expresso.pt/ruinas-o-filme-sobre-um-pais-a-desaparecer=f574028



Tenho-me esquecido de vos informar sobre este filme, que por enquanto faço mais coisas na vida do que blogues, e agora o filme já deve estar por pouco tempo no King, onde se sente a passagem dos comboios da linha da cintura e do metro de Roma para o Areeiro.

Não sei se gostarão de ver, porque ver ruínas não dispõe bem, porque tem histórias, mas não tem atores a fingir o que não foram, porque não é propício a ser visto em DVD ou na televisão, antes no ritual escuro da sala de cinema (somos uma espécie de rituais, não? Como as outras, não é? e as salas escuras do cinema ainda são um ritual).
Os críticos disseram muito bem das imagens e mal dos textos. Estranho, porque achei os textos muito bons.
Mas eu sou suspeito.
Da extensa relação de ruínas ali documentadas, exibindo olimpicamente a superior capacidade dos portugueses para desprezar o património construído (citação de cor, com a devida vénia, da senhora diretora da cinemateca nacional), possivelmente corolário da sua superior incapacidade de se organizarem sem privilegiar individualismos provincianos e novos-ricos (mistura não doseada de citações esparsas de Sofia de Melo Breyner e deste escriba, pretensioso por citar assim Sofia), fazem parte duas de que estive perto.
Pode ser um jogo ir ver o filme e ver se alguma ruína nos tocou: um cemitério no Porto, o sanatório das Penhas da Saúde, as estalagens abandonadas do Gado Bravo ou perto de Peniche, a estação do caminho de ferro condenado e executado de Barca d’Alva…
De fora ficaram montões de pedras para que o filme não fosse infindável, como por exemplo o paço de Avis, o mosteiro de Seiça, a Torre de Brotas, que já fazem parte deste blogue. A fotografia que ilustra este texto também não é do filme, foi tirada perto de uma estancia de turismo florescente.
Ah! Claro, não há dinheiro para a recuperação.
Continuamos a comprar 200 milhões de euros de automóveis ligeiros por mês ,cuja compra podia ser adiada por um ou mais anos, temos em contas de off-shores, contabilizadas às claras, cerca de 16 mil milhões de euros.
Mas não há dinheiro.
De facto não pode haver, quando se importa mais de 80% dos alimentos que consumimos.
Dir-se-ia que, já havendo uma estratégia nacional para a energia, falta uma estratégia nacional para a alimentação.
Fará falta no PEC, uma taxazita sobre as transferências para as off-shores, pequenina para não assustar ninguém, ou, mais sibilinamente adamsmitista ou struggleforlifista, fará falta pressionar os “mercados “ financeiros internacionais para revalorizar as moedas dos países exportadores de alimentos para Portugal (citação libérrima do senhor economista Daniel Bessa; i,é, começávamos a comprar doses maciças dessas moedas para lhes subir o preço; comprávamos a descoberto, claro, com o dinheiro dos outros).
Assim baixávamos as importações e aumentávamos as exportações; e já podíamos dispensar as taxazitas sobre os depósitos dos temerosos e sensíveis depositantes dos off-shores…
Mas voltemos ao Ruínas. Não percam, se puderem.
Pela minha parte, impressionou-me ver o abandono da pousada da EDP no Picote, onde estive um mês, na central hidro-elétrica do Picote, entre as centrais de Miranda do Douro e de Bemposta, no tempo em que era preciso fazer estágios em empresas para se ter o “canudo”.
O texto diz a verdade histórica. Havia uma ementa para engenheiros e outra para engenheiros técnicos (na altura chamados agentes técnicos) ou técnicos qualificados; os eletricistas ou serralheiros só lá podiam ir almoçar se convidados por um engenheiro ou engenheiro técnico. O técnico qualificado de telecomunicações (era, seguia informação codificada por portadora sobreposta nas linhas aéreas de alta tensão), dado que as correntes fracas ainda eram consideradas parente pobre nesta região de intensa produção de energia, era equiparado aos eletricstas e serralheiros, mas estava sempre convidado. Havia também na pousada a Rosinha, transmontana solteirinha ainda aos 37 anos, e havia umas costeletas de vitela que se cortavam com o próprio garfo.
Agora é uma ruína.
A EDP, que como se sabe é gerida por semi-deuses, fez o que qualquer exploradora de redes faz, telecomanda as suas centrais.
Mas abandonar a pousada do Picote? Já não há turistas?
A outra ruína está mais perto de Lisboa e é apresentada como a construção inacabada de um sanatório em Cabeço de Montachique, ao lado da A8 (mais precisamente em Tocadelos, que nesta região foram deixados étimos árabes nos nomes das povoações; Montachique, por exemplo, significa o monte dos amantes); podem ver uma fotografia no Google Earth, em 38º53’46,16’’ N / 9º11’17,50’’ W.
O sanatório foi mandado construir pela sociedade dos Makavenkos, ligada a burgueses endinheirados e republicanos do fim do século XIX e princípio do século XX.
http://aeiou.expresso.pt/a-sociedade-secreta-dos-makavenkos=f561905
Dele fazia parte Grandella (o das vilas operárias, aliás para os empregados de comércio, da estrada de Benfica). Capitalismo esclarecido, que sabia que a produtividade está correlacionada fortemente com a comodidade das condições de vida (correlação esquecida com o correr dos anos por muito boa gente, quiçá não tão esclarecida).
Mas dizem as más línguas, conforme me transmitiu a minha sogra que era de Cabeço de Montachique, onde eu ia aos fins de semana primaveris e outonais durante o período pré-nupcial de acasalamento, que o sanatório não era sanatório, era um casino fora de portas, com salas para o jogo e compartimentos celulares para oferendas a Afrodite. As paredes das celas ainda lá estão.
País de ruínas, como disse Luis Vaz (citação também libérrima), “nesta apagada e vil tristeza” (citação rigorosa), surdo a tantas propostas que se vão fazendo para que a resposta à crise seja um esforço coletivo…
Não percam. Só é possível a reconstrução depois de se conhecerem as ruínas.

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