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sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

viagem a Coimbra

o texto seguinte faz parte de umas memórias do  metropolitano






escrito assim, viagem a Coimbra, poderia pensar-se
que o seu motivo seria um dos atributos da cidade; terá sido essa a intenção de Rossini ao escolher o título de viagem a Reims para a sua ópera, que Reims era a cidade de coroação dos reis de França e havia que cumprir a tradição com Carlos X, o da restauração da  monarquia depois da revolução (a todos os ancien regime custa aceitar a mudança definitiva); Rossini teria querido homenagear o monarca, ou escolheu o título como quem, em Portugal, dissesse “uma viagem ao Cartaxo”, já que Reims é a capital do champanhe? é que o tema da ópera é tão fútil…o que  não é o caso desta viagem a Coimbra, escolhida apenas por ser o centro, não propriamente geográfico,  mas cultual do país



A oradora, perante uma assistência de um milhar de pessoas, falava da hesitação que tivera em aceitar o trabalho.
Estranhara a natureza e a extensão.
Como socióloga, especialista de comunicação e consultora de gestão, porém, achara o desafio entusiasmante.                
O ministério dos transportes e comunicações tinha-lhe encomendado uma reunião em Coimbra, do tipo seminário, das administrações e direções de todas as empresas públicas de transportes do país, para discussão e apresentação de propostas de estratégias.
Dois comboios especiais, um de Lisboa e outro do Porto, tinham despejado na estação de Coimbra os participantes, levados depois de autocarro até à sala de congressos do estádio municipal.
Estava-se em dezembro de 2004 e o ministro dos transportes, incensado gestor de empresas energéticas, e o seu secretário de Estado, aplaudido professor universitário ambientalista, queriam dar um toque de gestão empresarial inovadora e competitiva à pesada máquina do setor de transportes.
A oradora expôs o que, como utilizadora, pensava de um sistema de transportes.
Que era a base de uma pirâmide que assim contribuía para o esforço de produção de todo um  povo, e que crescia todos os dias de madrugada, quando as pessoas que produzem começam a sair de casa.
E disse que o que melhor ilustrava isso era a poesia.
Citou Alvaro de Campos, Livro de versos:

Acordar da cidade de Lisboa, mais tarde do que as outras, 
Acordar da Rua do Ouro, 
Acordar do Rossio, às portas dos cafés, 
Acordar 
E no meio de tudo a gare, que nunca dorme, 
Como um coração que tem que pulsar através da vigília e do sono. 

Citou Carlos Oliveira, Quando a harmonia chega:

Acordam pouco a pouco os construtores terrenos,
gente que desperta no rumor das casas,
forças surgindo da terra inesgotável,
crianças que passam ao ar livre gargalhando.
Como um rio lento e irrevogável,
a humanidade está na rua.

A organização tratou de dividir os participantes em grupos à volta das tradicionais mesas redondas de casamento, 8 a 10 por mesa, misturando administradores, gestores, diretores e técnicos sorumbáticos, exuberantes, burocráticos, inovadores, conformados, discretos, ignorantes ou conhecedores da problemática dos transportes, do norte, do centro ou do sul do país.
A todos foi pedido que listassem as ameaças, as oportunidades, as fraquezas e os pontos fortes das empresas públicas de transporte, isto é, os componentes de uma análise SWOT.
O tema do seminário era apenas o das redes de transportes metropolitanos e suburbanos, e o objetivo de comparar as medidas estratégicas do ministério com as emanadas do corpo técnico e de gestão do setor, e assim ficou de fora a questão da rede de alta velocidade, que começava então a ser tratada a nível ministerial com os nossos vizinhos espanhois.
O objetivo do ministério neste seminário era o de recolher medidas a incluir no plano estratégico que começava a delinear-se para todos os modos, que era um objetivo mais vasto, de modo a rentabilizar as discussões com o diretório de transportes da comissão europeia.
Foi pena não se ter realizado um seminário especialmente dedicado ao tema da alta velocidade.
Ter-se-iam evitado os erros do traçado proposto em Espanha, fonte de  estrangulamento do tráfego se vier a ser realizado.
E ter-se-iam compatibilizado  os conceitos do serviço de mercadorias, centrado  na ligação com a região de Madrid e com a fronteira francesa, com o de passageiros, centrado na transferência para a ferrovia de passageiros das quase duas dezenas de ligações aéreas diárias com Madrid, fundamentada na maior eficiencia energética do transporte ferroviário relativamente ao transporte aéreo para a distancia Lisboa-Madrid.
E, por maioria de razão, ter-se-ia evitado o penoso processo de demonstração do erro de localização do novo aeroporto na Ota.
Todos os grupos, beneficiando da diversidade dos seus membros, debateram um leque variado de questões.
Desde a necessidade de reduzir a quota de transporte individual  nas áreas metropolitanas de modo  a beneficiar de economias de energia devido à maior eficiencia energética do transporte ferroviário, de reduzir custos na construção de redes metropolitanas e suburbanas (ainda se acreditava ser possível construir uma boa rede ferroviária entre Coimbra e a Lousã…) , de associar intimamente a politica de urbanização com o planeamento dos transportes, de taxar a entrada no centro das cidades, de fiscalizar rigorosamente o estacionamento, de copiar o sistema contributivo francês do “versement” pago pelas empresas com mais de 9 empregados, de repartir as receitas dos passes em função dos passageiros.km transportados, de aproximar  as receitas operacionais dos custos operacionais, de repercutir as mais valias urbanísticas nas receitas dos metropolitanos…
As gentis assistentes da organização, vestias de vermelho, recolheram as conclusões de cada grupo e foram reunindo num quadro os componentes SWOT de modo a, pouco a pouco, à medida que iam sendo lidas as contribuições, ganharem relevo as medidas estratégicas associadas às oportunidades.
Como se fosse um brinde, o secretário de Estado, ao encerrar os trabalhos, comunicou que o ministério ia financiar um programa de seleção e colocação nas empresas de transportes de 1000 estagiários recem licenciados com as  melhores classificações.
Tive o prazer de trabalhar com alguns no metropolitano de Lisboa, especialmente em tarefas ligadas às expansões da rede do metropolitano, embora não conseguisse convencer as administrações de que a engenharia é uma ideia também para o dia a dia da manutenção, da sua otimização, de melhorias do existente e de análise de perigos, e que portanto o concurso dos jovens licenciados no reforço das áreas das especialidades de engenharia era útil.
Infelizmente o critério de custos, ou talvez simplesmente o da falta de recursos, abafa o da qualidade e o da utilidade da engenharia.
Pese embora a engenharia servir, entre outras coisas, para evitar o desperdício à custa de um investimento.
A maior parte, porém, das medidas discutidas na reunião perderam-se nas vicissitudes de um ministério atribulado, ou diluíram-se tímida e ineficazmente no plano estratégico que o ministério divulgou uns anos depois.
Mas ficou o contacto franco entre técnicos de todo o país.
E a certeza de que é a discutir de forma aberta e participativa, sem condutores de opinião, extraindo  conhecimentos e  experiencia de cada um e de todos, que se encontram as soluções.
Nunca em secretismo e na entrega seletiva a grupos restritos, por mais credenciados que sejam os seus técnicos, do poder de tomada de decisões de soluções concretas.
No comboio de regresso, pensei no verso de Carlos Oliveira “Como um rio lento e irrevogável,a humanidade está na rua”, de como é injusto culpar pelos prejuízos de exploração e de financiamento os trabalhadores destas empresas, que são também a “humanidade na rua”, como os que se levantam cedo para tomar os modos de transporte, e que nada têm de comum, a não ser pertencerem à mesma espécie humana, com os financeiros, uns especulativos, outros dogmáticos insensíveis nas regras que impõem.



terça-feira, 2 de outubro de 2012

António Coutinho



Este blogue já registou o pensamento sábio de António Coutinho, diretor do instituto de ciencia da Fundação Gulbenkian: 

Agora que termina o seu mandato, ao mesmo tempo tempo que vai trabalhar na autonomização do instituto relativamente à casa mãe, o serviço público da Antena 2, que os nibelungos ainda não conseguiram paralisar, transmitiu a seguinte entrevista:


É uma pena os meios de comunicação social não darem mais atenção e não divulgarem o que pensa e faz António Coutinho.
Eu sei que a incultura tem muita força, e que faltam meios de divulgação da cultura e dos métodos de organização de comunidades produtivas e de tomada de decisões.
Que pessoas como António Coutinho se envolvem com os seus pares especialistas e conseguem trabalhar em grupo com a participação de todos e que até acabam por dizer que a ciência em Portugal progrediu muito desde 1980.
Como eu gostaria que isso tivesse acontecido fora do seu círculo especializado.
Mas sublinho a importância do que diz António Coutinho: que o principal é a tolerância de saber ouvir as críticas, de dar força aos jovens, de não se ficarem, nas comunidades de trabalho,  pelo top-down e investir decididamente no método bottom-up, envolvendo os colaboradores em trabalho de equipa. De abordar os problemas e adotar os métodos de solução conforme os bons princípios.
Que não são as regras que fazem falta, são os princípios. É a ausencia de respeito pelos princípios que leva as pessoas a suspirarem por regras.
Pena, mesmo, a dinamização da sociedade civil, ao nível das assembleias de freguesia, ao nível dos programas de TV e rádio, ao nível de grupos de especialistas, ser tão difícil em Portugal.

Não são precisos lideres iluminados ou guiados por uma fé cega que arrastem multidões e salvem pátrias.
Não são precisas reformas que irão ao encontro de interesses em expansão.
São as próprias pessoas, ao seu nível, que podem fazer o país progredir, apesar dos detentores das interpretações ditas corretas das coisas.
Vou repetir-me, vou citar novamente "a sabedoria das multidões" de James Surowiecky, "a revolução sem líderes" de Carne Ross, "a economia dos pobres" de A.Banerjee e E.Duflo, "Portugal:divida publica e defice democrático" de P.Trigo Pereira, "economia portuguesa, as ultimas decadas" de Luciano Amaral, "segurança social: o futuro hipotecado" de F.Ribeiro Mendes, "os ultimos 200 anos da economia portuguesa e os p´roximos 30" de Luis Monteiro.

domingo, 27 de maio de 2012

A impossibilidade operacional no Rock in Rio



a roda gigante no Rock in Rio

Retiro da página do facebook do metropolitano de Lisboa a informação que, nos cinco dias do Rock in Rio, o metro fechará a estação da Bela Vista à 01:20.

A hora oficial de fecho dos espetáculos é às 04:00.
Oiço na TV chamar a isto uma greve às horas extraordinárias.
Ainda no facebook leio que o metropolitano não assegura o serviço até cerca das 04:00, como nos outros anos, por “motivos de impossibilidade operacional”.

Uma impossibilidade operacional poderá ser uma falta de meios materiais que inviabilize a operação, ou uma falta de condições de segurança. Pode ser uma falta de meios humanos. Pode ser uma falha de coordenação, pode ser um condicionalismo externo que impeça a circulação dos comboios (um caso de “force majeur”, por exemplo, qualquer coisa como acidentes naturais ou como se ter perdido a chave da garagem e não se conseguir tirar de lá a carrinha). Pode, ainda por mais um exemplo, a falta de meios materiais ou humanos  estar relacionada com a política feroz de cortes mais ou menos cegos nas despesas de operação, de manutenção ou de investimento; ou pode ser consequencia do contexto e crescimento do desemprego que convida a roubar cobre dos equipamentos do metro e depois não há condições para circular. Pode ser um desaconselhamento económico para evitar prejuízos, apesar de neste caso os custos serem marginais, aqueles que estão na parte da curva em que os custos crescem menos quando aumenta a quantidade produzida e até teoricamente podem ser custos de dumping. Pode ser um caso político, de proibição por reunião de conselho de ministros, ou pode ser uma impossibilidade técnica porque os recursos se tornaram obsoletos e a sua exploração altamente deficitária (como acontece com o carro, velhinho, a consumir mais precioso combustível do que quando era novo). Aquilo que uma impossibilidade operacional pode ser ...

Mas será seguramente uma metáfora perfeita da dificuldade de organização e de trabalho em equipa de que sofre o nosso país e a sua população, da deficiente metodologia que se segue para tomar decisões, normalmente fulanizadas e polarizadas em processo progressivo, sem análise de cálculos que fundamentem as decisões. E longe, demasiadas vezes longe do conceito e da prioridade ao serviço público.

Não gosto da musica dos Metallica, nem dos Evanescence, nem dos Sepultura, nem dos Linkin, nem sequer de Springsteen.
Não dependo de rituais com sincronia dos movimentos dos braços ao som distorcido com predominância da secção rítmica sobre as melodias e os acordes harmónicos.
Mas daria algo que me fizesse falta para que quem gosta possa usufruir do espetáculo, ou do ritual de socialização, de normalização ou de afirmação, ou o que for.
Apesar de cada entrada diária custar 61 euro e o bilhete pacoviamente VIP por um dia subir a 240 euro num país de coeficiente de Gini elevado.
Apesar de não faltar dinheiro para equipar o parque da Bela Vista para o Rock in Rio, mas não haver dinheiro para o dotar de infra-estruturas de apoio aos munícipes durante todo o ano.
Passada a euforia, nem sequer há uma esplanada ou café a funcionar.

Por isso me custa ver a impossibilidade operacional de organizar o serviço do metropolitano.
Por isso me custa ver desprezada a noção de serviço público, aplicável sempre que é necessário transportar pessoas.
Imagino a satisfação dos senhores do ministério da economia e transportes, a concitar o apoio, de quem não teve metropolitano, para combater “as regalias dos trabalhadores do metro”, como eles dizem.
Talvez haja algo de cínico no sorriso com que terão imaginado que com a nova administração de quatro elementos que o decreto lei anunciou para a fusão do Metro e Carris as coisas correriam de forma diferente.
Como dizia Trindade Coelho, ou melhor, como ele repetia dos latinos, abyssus abyssum, abismo atrai abismo.
Num contexto de desprezo visceral pelo artigo 23 da declaração universal dos direitos humanos, a vaga de desemprego e de despedimentos acaba por refluir e afetar quem mantem o seu emprego.

Penso que as organizações de trabalhadores poderiam estar mais abertas a aceitar sacrifícios, com a condição de poderem participar no controle efetivo da repartição equitativa dos sacrifícios por todos os setores da sociedade, poderem participar no controle efetivo do destino e aplicação dos dinheiros dos empréstimos (isto é, saber a composição das dívidas pública e privada para se poderem corrigir as distorções da repartição de sacrifícios) e poderem participar em debates alargados para tomada de decisões sobre assuntos de transportes.
Talvez por serem poucos a pensar como eu é que provavelmente a “impossibilidade operacional” é uma metáfora perfeita do nosso país.
Do que se poderia fazer com as pessoas que temos se a organização fosse outra.

Dizia a TV que não houve problema, porque a Carris disponibilizou autocarros.

Mais uma vez temos um problema de gestão de energia e de transportes.
Se nos 5 dias tivermos 250.000 entradas, poderemos estimar 50.000 deslocações de saída a pé, 100.000 de automóvel, 50.000 de comboio e metro e 50.000 de autocarro. Fechando mais cedo, estimo que 30.000 deslocações terão sido transferidas do metro para autocarros. Se cada percurso for de 5 km, temos 150.000 passageiros.km em modo rodoviário quando poderiam ter sido em modo ferroviário.
Gastou-se cerca de 9.000 kWh em energia equivalente a mais, só em transportes, por se terem transportado os passageiros em autocarros (cálculo para consumos marginais específicos de 60 Wh/pass.km no metro e de 120 Wh/pass.km ou 0,11 litros/pass.km em autocarro).
E isto sem falar nas emissões de CO2 a mais devidas aos autocarros.

Mas é claro, em vez de se resolver a questão em conjunto e em profundidade, o argumento da energia acabará por ser jogado como fator de atribuição de culpas.

Expressão bem achada, esta da “impossibilidade operacional”.




fogo de artifício no Rock in Rio; somos um país produtor de fogo de artifício, muitas vezes em deficientes condições de segurança, mas somos produtores



Adaptando Fernando Pessoa (Álvaro de Campos):

"Come chocolates, pequena;

Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria"
Come chocolates, pequena,
e vai ao cinema, vê telenovelas e vai ao Rock in Rio.


terça-feira, 8 de março de 2011

Os clãs, o tribalismo, o problema da tomada de decisões, os think tanks e o aparelhismo serodio entre tantos outros problemas como o da capacidade organizativa

Por mais que tente, não consigo fugir à ideia de que uma das principais dificuldades no nosso país é a  soberana indiferença pelos mecanismos eficazes de tomada de decisões.
Volto assim a citar a Sabedoria das Multidões.
Que, por sinal, também foi citada favoravelmente numa crónica de Manuel Maria Carrilho.
Nem seria preciso citar aquele livro.
Qualquer consultor de organização sabe como se faz quando quer suscitar ideias numa empresa que a dinamizem.
Não propõe a contratação de um guru afamado, nem aposta numa administração validada por um grupo político.
Junta o maior número possível de profissionais ligados ao negócio, lista uma série de temas, de ameaças e de oportunidades, como se costuma dizer, divide o grande grupo em pequenos grupos, o mais possível heterogéneos, e depois da discussão recolhe as conclusões de cada grupo e resume e hierarquiza as medidas propostas.
É um método difícil de aplicar em Portugal.

Isto a propósito da sua crónica de dia 25 de Fevereiro, que tomei a libertar de reproduzir no fim deste post.

A mim me parece que, no fundo, a questão está em como tomar decisões eficazes.
Por coincidência, a citação do DN do dia seguinte era, de JJRousseau,  que pensam por todos os outros que “há um pequeno grupo de homens e mulheres que pensam por todos os outros, e para o qual todos os outros falam e agem”.
A crónica de MMCarrilho critica os governantes e os candidatos a governantes neste país por não recorrerem às técnicas dos “think tanks”.

Não o fazem porque cultivamos, à boa maneira lusitana, o tribalismo dos grupos e clãs.
Não necessariamente unidos por laços familiares, mas grupos em que quem tem ambições políticas socializa e se normaliza segundo as técnicas primárias de integração num grupo, supostamente mecanismo de poder decisório, ou de polarização em torno da opinião julgada politicamente correta.

Algumas entidades promovem iniciativas interessantes, juntando intelectuais com prestigio mediático.
Mas afastam-se do programa acima descrito de divisão em grupos e recolha de propostas.
Preferem um painel de gurus convidados que se exibem perante uma audiência embevecida que se move no sentido da normalização dentro de um grupo, eventualmente a criar de acordo com a sabedoria dos  gurus.
Sem querer tirar mérito à iniciativa do DN de promover debates e conferencias na sequencia do seu trabalho de investigação sobre “o estado a que o Estado chegou”, e também sem querer tirar o mérito às entrevistas ou debates com senhores economistas prestigiados que podemos ver na televisão, a verdade será que estamos a colecionar doutas opiniões de quem sabe de forma académica como devem ser geridas as empresas e a coisa pública, mas tem pouca experiência “no terreno” na problemática da produção de bens transacionáveis, como eles gostam de chamar aos bens e serviços suscetíveis de ser vendidos ao exterior.

De modo que somos chegados a este dilema:
- ou repetimos o velho hábito nacional de delegar nas personalidades a função de pensar e agir,
- ou pensamos e agimos nós próprios

A proposta  de MM Carrilho para a segunda hipótese é a dos think tanks.
Outra  é o conceito de “sociedade civil”, outra a dos movimentos dos cidadãos, outra a das redes sociais, etc, etc.
Infelizmente o método seguido tende para a polarização em torno da opinião de um grupo restrito.

Veja-se o caso da discussão pública da proposta da câmara de Lisboa para um novo mapa das freguesias: a consulta pública é um pró-forma com um prazo apertado e a proposta foi preparada por um grupo restrito. É uma prática corrente em qualquer organização portuguesa, possivelmente por um complexo de inferioridade de quem faz um trabalho e receia que outros o critiquem antes de estar concluído; depois de concluído acreditam mais nele.

Vamos ter de aguardar para ganhar perspetiva e ver se o que se está a passar é mesmo uma evolução.


Artigo de MMCarrilho:
"Preparado para governar?", foi com esta pergunta a Pedro Passos Coelho que Judite de Sousa tocou no essencial, na sua Grande Entrevista da semana passada. Era mesmo essa a pergunta que certamente todos os espectadores estavam a fazer naquele momento, perante a repetição de argumentos gastos, de fórmulas vagas, de ideias gerais. Toca-se aqui num dos mais graves problemas nacionais, o da impreparação dos partidos e dos seus líderes para o competente e responsável exercício do poder.
A raiz desta situação vem de longe. Lembro-me, logo a seguir ao 25 de Abril, da generalizada incompreensão com que era vista a sugestão de alguns partidos europeus para se criarem em Portugal instituições que formassem quadros, estu- dassem os problemas e preparassem com seriedade as respostas de que o País carecia. A custo, lá se criaram algumas, nomeadamente fundações, que rapidamente acabaram nas mãos do mais serôdio aparelhismo.
Mas essa sugestão apontava para uma verdadeira necessidade nacional, a da indispensável qualifi-cação dos partidos políticos, ao nível dos quadros, das ideias e das propostas. Função que desde os anos 80 foi sendo cada vez mais assumida pelos think tanks, que hoje marcam a vida política de tantos países.
A propósito, é talvez bom saber que na austera Alemanha o papel destes organismos é de tal modo considerado vital para a vida política que eles são subvencionados, e quase exclusivamente, pelo Estado. Por exemplo, a Fundação Friedrich--Ebert, ligada aos sociais-democratas, tem um orçamento de 128 milhões de euros, e nela trabalham 614 pessoas. A Fundação Konrad Adenauer, ligada aos democratas-cristãos, tem 560 funcionários e um orçamento de 100 milhões de euros. Uma e outra, como muitas mais, funcionam com total autonomia dos partidos, e a sua função essencial é muito precisa: pensar, preparando as estratégias e as respostas que o país e o mundo exigem no médio/longo prazo.
Há hoje no mundo, segundo o recente relatório (é de 18 de Janeiro) de James G. McGann, da Universidade de Pensilvânia, 6480 think tanks. Este número traduz a generalizada convicção de que a política exige, para que os problemas sejam tratados com conhecimento e seriedade, um verdadeiro trabalho de deliberação colectiva que envolva, para lá dos partidos, a sociedade civil na multiplicidade das suas formas de expressão. E ele aponta também para o facto de, nos nossos dias, nenhum projecto com dimensão colectiva conseguir aparecer, e sobretudo mobilizar os cidadãos, se não suscitar em torno deles.
não suscitar em torno dele uma reflexão organizada e um debate sem restrições.
Por cá, as coisas são diferentes. Os partidos, todos eles, tornaram- -se organizações fechadas, pouco orientadas pelo interesse nacional e muito viradas para a perpetuação dos seus interesses. A sociedade civil e as diversas elites têm-se, em geral, demitido das suas responsabilidades (com excepções, é preciso dizê-lo, nomeadamente de algumas elites religiosas), emergindo apenas quando se aproximam eleições, e também elas mais à procura de lugares, e sobretudo de influência, do que do exercício de qualquer missão desinteressada.
O momento actual, que sem ser eleitoral já o é, é bem ilustrativo do que digo. O PS ressuscita instrumentalmente as suas desacreditadas "Novas Fronteiras", que nunca produziram uma ideia que fosse sobre o que quer que seja. O PSD parece que gosta do modelo e avança com um "Mais Sociedade, Portugal faz-se consigo" que - o nome diz tudo, não é? - não passa de um expediente para ir branqueando a evidente impreparação que tem revelado para, se chegar ao poder, enfrentar a crise e dar a volta à situação.
É que, quando isto é a sério - como acontece na Alemanha, em França ou em Inglaterra -, é nos próprios partidos, no seu interior, que se investe em abertura e qualificação, e esse investimento faz-se de um modo contínuo, estruturado e orgânico. Porque aí a convicção nuclear é que é na diversidade das ideias, na sua competência e audácia, que estão as chaves de que se precisa para lidar com o mundo de hoje, e para se preparar o futuro.
Ao arrepio de tudo isto, os regulamentos do PS para o próximo congresso estabelecem a inqualificável proibição de apresentação de moções globais, aos militantes que não sejam candidatos a secretário-geral! A fórmula deste pluralismo estropiado define-se na seguinte fórmula: "Tens ideias? Então candidata-te! Ah, não te candidatas? Então cala-te!" Ao criar-se, num gesto de indiscutível inspiração totalitária, um regime de liberdade condicional para os militantes "que tenham ideias", está-se a alimentar a teia do pior conformismo, cujas funestas consequências são bem conhecidas - e não se farão esperar! E logo agora, que o país tanto precisava de abertura e de ousadia para enfrentar o seu tão problemático futuro.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

O mercado do chão do loureiro

Uma importante companhia de construção civil está prestes a concluir o novo silo de estacionamento da EMEL onde era o mercado do chão do loureiro.
Seis pisos de estacionamento para 200 viaturas.
O que é positivo.
A possibilidade de estacionamento favorece a fixação de moradores na cidade desertificada.
No rés do chão está previsto um supermercado.
Facto tambem positivo.
No último piso prevê-se  um restaurante ou um bar, envidraçado, com vistas para o Tejo.

Onde está então a questão?
Primeiro, o projeto não foi debatido com clareza, esclarecendo as dúvidas sobre o supermercado e sobre o aproveitamento do terraço.
Teria sido fácil divulgar o projeto nos meios de comunicação social.
Segundo, a altura do novo edificio ultrapassou a do anterior edificio, o que é um facto sensível por retirar a vista a quem passa na Calçada do Marquês de Abrantes(e também à esplanada do bar aí existente).
Porém, o porta-voz da EMEL afirma que a sércea do novo edificio é a mesma do antigo.
Não é, mas a sobranceria, a arrogancia e a auto-suficiencia do poder municipal definem as suas verdades que têm de ser aceites pelos cidadãos.

É uma hipótese de probabilidade elevada, que são a arrogancia, a sobranceria e a auto-suficiencia dos grandes empreiteiros e dos grandes donos de obra que impedem o debate aberto com os cidadãos.
Daí a termos uma má solução apesar dos objetivos corretos é um pequeno passo.
E há finalmente o "chico-espertismo", de acrescentar uns metros à sércea antiga.
Só dois ou três.
Quem quiser ver a vista que suba ao terraço.

É isso, a arrogancia, a sobranceria e a auto-suficiencia nova-rica, provinciana e chico-esperta caracterizam as decisões dos assuntos públicos.
Talvez que o principal problema das comunidades portuguesas não seja a dificuldade que temos em nos organizarmos.
Talvez seja antes o deficiente método de tomada de decisões.
Por isso estou sempre a falar na Sabedoria das Multidões.

Com assinalável insucesso...

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Gestionarium XII – The Wisdom of the crowds 1


Para que não digam que estou sempre a dizer mal sem propor soluções, aqui vai, com a devida vénia (A Sabedoria das Multidões, James Surowiecki, ed. Lua de papel), uma primeira abordagem do resumo do livrinho “A Sabedoria das Multidões”, dedicado aos métodos para resolver problemas.
Por mim, faço o que posso, já o propus a um conselho de administração de uma empresa de transportes, possivelmente vou enviá-lo para a presidência da republica, donde saem aqueles diagnósticos de situações explosivas, ou para o gabinete de consultoria do sr doutor Medina Carreira, donde saem aquelas propostas de congelamento sistemático.
É uma pena o livrinho ser pouco falado (vi poucas referencias, por sinal elogiosas, e não foi em nenhuma secção literária ou de apresentação de livros de grande difusão).
Consultemos a badana da capa:


a) O exemplo do autor para ilustrar o método é o da busca do submarino nuclear Scorpio, afundado em 1968 no golfo do México: o oficial encarregado das buscas juntou um grupo de peritos de várias especialidades, desde nadadores salvadores, meteorologistas, pilotos de aviação e de náutica, a matemáticos e informáticos e pediu-lhes que tentassem adivinhar o local do desastre (eu costumo ser muito criticado por começar a pôr hipóteses sobre o que poderá ter acontecido, sempre que acontece um acidente mais fora do normal; dizem-me sempre para esperar pela comissão de inquérito que, como se sabe, é o método mais português que se pode arranjar para este tipo de situações); a remuneração pelos palpites era uma garrafa de whisky; feita a média dos palpites através de um algoritmo desenvolvido pelos matemáticos do grupo, encontrou o submarino. Claro que poderá dizer-se que foi acaso, claro, mas o objectivo é exemplificar o método.

b) Condições necessárias para que a inteligência coletiva funcione num grupo:

b.1 – diversidade (para que pessoas diferentes apresentem ideias diferentes, coloquem hipóteses sobre o que se passou ou sobre o futuro, mesmo que possam estar afastadas da realidade)
b.2 - descentralização (ninguém obedece a, ou representa uma figura hierárquica de topo, além de que a especialização deve ser ouvida)
b.3 – independência (deve repelir-se a tentação de “copiar” ou de “influenciar” a opinião de terceiros)
b.4 – agregação (as informações e opiniões têm de ser tratadas e agrupadas de forma sistemática de modo a constituir uma decisão coletiva – não confundir com consenso)
É possível que esta abordagem seja muito mal vista em Portugal, onde se espera que a informação para a decisão circule do topo para baixo, sem cuidar dos conhecimentos técnicos do topo, que se comportam segundo o método paulista da revelação (método a explicar noutro texto do blogue). O facto de ser mal vista em Portugal é coerente com as conhecidas dificuldades de trabalho em equipa e de insucesso dos planeamentos no nosso país.
Porém, voltando ao livrinho, uma das suas conclusões é a de que o indivíduo que se considera mais inteligente do que o grupo pode com elevada probabilidade rejeitar os resultados do grupo que são melhores do que os seus (pág.31).
Biologicamente, o cérebro humano pode considerar-se programado para ser coletivamente, e não isoladamente, inteligente (pág.37).
Os grupos também correm riscos de chegar a decisões pouco inteligentes, se não cumprirem as 4 condições supra, nomeadamente se predominar o preconceito ou se não se colocarem as hipóteses possíveis, ou se não se analisarem os factos todos, ou se o grupo se considerar mais informado do que realmente está (pág.205), ou se o grupo cair na tentação de preferir o consenso à oposição (pág.207).
O livrinho não é uma tese contra os especialistas (ninguém está a defender a entrega de decisões a multidões desinformadas ou clubistas), mas sim contra a excessiva fé numa única decisão de um perito ou de um gestor de topo (pág.304).

E pronto, por agora fiquemos por aqui.

Ver em:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Sabedoria_das_Multid%C3%B5es
http://economia.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1309508


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