terça-feira, 11 de maio de 2021

Mensagem enviada ao presidente da câmara de Loures a propósito da consulta pública do planalto da Caldeira e da ligação de Loures à rede de metro

Exmo Senhor Presidente

Exmos membros do corpo técnico

 

Assunto: Ligação de Loures à rede do metropolitano de Lisboa

 

Sobre este assunto tive oportunidade de vos enviar em maio de 2020 um pequeno estudo em que analisei várias hipóteses de ligação do vosso município à rede do metropolitano de Lisboa.

Fi-lo na qualidade de antigo técnico do metropolitano, onde desempenhei funções na coordenação das colocações em serviço das novas extensões e na preparação dos processos de licenciamento. O objetivo daquele contacto foi assim o de transmitir um parecer sobre as hipóteses de expansão da rede com base em experiência efetiva, numa altura em que o processo de construção da linha circular prosseguia, não obstante o claro mandado da AR que, através da lei 2/2020, determinou a sua suspensão e o desenvolvimento de um plano de mobilidade para a Área Metropolitana de Lisboa.

Este tipo de contactos encontra-se justificado pelos artigos 37º e 48º da Constituição, que garantem o direito de expressão, de participação e de informação sobre a gestão de assuntos públicos, como é a mobilidade.

Sem que o referido plano de mobilidade para a AML tivesse sido debatido no espírito daqueles artigos da Constituição, seguiu-se a assinatura do protocolo das câmaras de Lisboa, Loures e Oeiras e definido o traçado de uma rede LRT, abrangendo o vosso município.

O desenvolvimento de um plano de mobilidade é normalmente, embora não seja obrigatório, objeto de um concurso público internacional limitado a gabinetes de engenharia de transportes com reconhecida experiência. Naturalmente que é possível esse desenvolvimento ser assegurado pelo departamento de uma empresa pública de transportes, como o metropolitano, ou ser requerido o apoio de universidades, como se pratica no Porto, mas é patente que, dadas as relações de poder hierárquico de facto, não fica garantida a independência das propostas técnicas, comprometendo-se assim um dos critérios básicos da qualidade, essa mesma independência.

Tendo o vosso município procedido, de forma correta, à consulta pública sobre as unidades de execução do planalto da caldeira, intimamente relacionada com o tema em apreço, verifiquei que, por lapso meu, deixei passar o prazo limite.

 Não obstante essa falta, a importância do tema leva-me a apresentar-vos as sugestões e os pareceres seguintes.

1 – A posição estratégica do município de Loures nas acessibilidades a Lisboa implica que qualquer plano de mobilidade deverá considerar na sua travessia um corredor ferroviário pesado. Recordando um estudo recente do prof.Viegas, direi que, pelo menos a longo prazo, está indicada a ligação da linha do oeste a Lisboa através desse corredor. Uma das hipóteses poderá ser o prolongamento da linha amarela do metropolitano de Odivelas ao Hospital Beatriz Angelo, para futura expansão à Malveira, prevendo-se desde já no HBA um parque de estacionamento dissuasor para os utilizadores de transporte individual (TI) da região oeste. A utilidade deste parque dissuasor será valorizada se entretanto, perante a inflexibilidade do governo de prosseguir na construção da linha circular, se conseguir que prescinda da construção de novos viadutos no Campo Grande, viabilizando a futura ligação direta do HBA ao centro de Lisboa.

2 – Dada a orografia da zona, sugere-se considerar um traçado em planta para o metro pesado idêntico ao do estudo preliminar para o LRT. As mesmas áreas (Ramada, Bons Dias, Bela Vista, Área comercial) poderão ser servidas com acessos às estações mais no sentido horizontal do que vertical, e minimizando os gradientes da via devido à construção em subterrâneo. Sugere-se considerar utilizar para o traçado, quando possível, a proximidade das margens da ribeira da Póvoa, libertando troços da estrada N8.

3 – Relativamente ao traçado preliminar LRT entre o Infantado e a estação de metro de Odivelas, sugere-se que ele seja projetado de modo a facilitar uma futura integração na linha circular externa de LRT prevista no PROTAML  de 2002 (ainda não substituído), Algés-Loures-Sacavém.

4 – O argumento de que uma linha de LRT é mais barata do que de metro subterrâneo (estimativa de 20 a 30 milhões de euros por km contra 60 a 80 milhões por km), deve ser cotejado, numa análise de custos benefícios (teoricamente obrigatória para cofinanciamento comunitário) que tenha em atenção uma zona em que devido aos processos urbanísticos predomina o transporte individual e em que as vias de comunicação não são largas e a convivência do LRT com o TI será sempre difícil, com as vantagens da linha de metro:

4.1 – maior velocidade comercial por inexistência de constrangimentos de transito, e consequente poupança de tempo para os passageiros

4.2 – maior economia de energia atendendo a que os gradientes são menores graças ao percurso subterrâneo (4% contra 7-8% do percurso LRT à superfície, admitindo-se uma extensão significativa de túnel sob o IC22 no traçado previsto para o LRT HBA-est.Odivelas)

4.3 – maior fluidez de transito à superfície e disponibilidade do espaço para ciclovias e percursos pedonais, e maior atratividade pela rapidez e possibilidade de taxação/portagens do transito automóvel por existência de alternativa

5 – Considerando um percurso tipo composto por 3 troços:

5.1 - casa-estação de comboio

5.2 - percurso de comboio

5.3 - estação de comboio-emprego,

verifica-se que não é suficiente um bom traçado de comboio para substituir o TI. Admitindo que a “first mile” corresponda predominantemente ao TI, a “last mile” necessita de ser dotada de modos complementares, que por razões económicas deverão ser automatizados e “self-service”, sem prejuízo, por razões de segurança, de monitorização por sala de controle central guarnecida.

Nestas condições, em conformidade e complementaridade com a nona linha de ação do ponto 4 dos Termos de Referência da consulta pública, será conveniente prever nas estações ou paragens o serviço das faixas adjacentes aos traçados previstos, da ordem de 2 km, por modos complementares como:

- cabinas autónomas (autonomous shuttles) de guiamento por GNSS (global navigation satellite system) e requisitáveis “a pedido”, em pistas tipo ciclovia com 4m de largura (veículos de 1,6m de largura e 3,5m de comprimento) de utilização preferencial pelas cabinas e bicicletas; tecnologia mais simples, por cabo embebido no pavimento e ligação por indução eletromagnética ao veículo

- frotas partilháveis “renting” de duas rodas e de automóveis elétricos em parques junto das estações

- para distancias superiores a 2 km, os modos clássicos (autocarros, miniautocarros, táxis)

Em anexo mostra-se um exercício de aplicação na ligação entre o Hospital Beatriz Angelo, a uma cota de 108m, e a área comercial do Infantado à cota 13m, com recurso à técnica do funicular ou elevador inclinado de duas pistas independentes (com utilização “a pedido” semelhante à dos elevadores num percurso de 940m seguido de uma pista dupla para cabinas autónomas de cerca de 2000m, ou de teleférico, num percurso de 1830m seguido de uma pista dupla de cabinas de 540m

6 – Relacionamento com o corpo técnico do Metropolitano de Lisboa – Nos Termos de Referência da consulta pública está patente o vosso compromisso com a correta organização do território na zona em apreço, incluindo, conforme o ponto 3, o diagnóstico das fragilidades dos transportes (predomínio do TI) e da fixação de polos geradores de emprego (atividades primária, secundária e terciária). Consequentemente, no ponto 4.2.3.3 refere-se o estudo de viabilidade do Metropolitano de Lisboa mas infere-se da sua leitura que não é clara a participação do departamento técnico do vosso município duma forma interativa com o metro no estudo e debate de soluções de mobilidade. Por maioria de razão, considerando o direito constitucional de participação e informação para qualquer cidadão, será desejável melhorar o relacionamento entre técnicos município-metro, sem prejuízo do acompanhamento pela AML e da contínua informação aos cidadãos do avanço dos anteprojetos e projetos.

7 – Relativamente à zona de Sacavém e ao proposto traçado LRT Moscavide-Portela-Sacavém-Parque das Nações, observo que, sendo mais fácil a construção do traçado, dadas as caraterísticas das vias urbanas mais recentes, ainda assim se mantem a conflitualidade com o transito rodoviário. Em alternativa poderia pensar-se no prolongamento da linha vermelha do metro como ramal, uma vez que já existe uma bifurcação a poente da estação Moscavide. Isso tem o inconveniente de reduzir a fiabilidade da ligação à estação Aeroporto (risco de perturbação por avaria dos aparelhos de mudança de via) embora o problema pudesse ser ultrapassado, se bem que com elevados custos, através da desconexão  das linhas (eventual prolongamento do troço do Aeroporto para a margem sul).

8 – Uso futuro das margens e foz do Trancão e margem do Tejo na Bobadela - Julgo ainda que deverá ter-se em atenção que a zona da foz do Trancão, onde se fará a correspondência com a linha da CP, está a ser pensada como hipótese para amarração da terceira travessia do Tejo, em túnel ou em ponte, com eventual seguimento pelo vale do Trancão. Será assunto a debater com o CSOP, a AML e, dadas as competências constitucionalmente estabelecidas para o ordenamento do território e do urbanismo, com a AR.

 

Com os melhores cumprimentos, ao dispor para eventuais esclarecimentos

 

Fernando Santos e Silva

BI 1453978

 

 

 

Em anexo:

ANEXO  I  -  Exercício para ligação entre os itinerários  Estação de Odivelas - HBA e  

                     Infantado

ANEXO  II  -  Ligações para antecedentes e informação complementar sobre                                              

                    “autonomous shuttles”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

     

               ANEXO  I  -  Exercício para ligação entre os itinerários

                                     Estação de Odivelas - HBA e Infantado

 



 

 

ANEXO  II  -  Ligações para antecedentes e informação complementar sobre     

                                                “autonomous shuttles”

 

Antecedentes

http://fcsseratostenes.blogspot.com/2020/05/sugestoes-para-expansao-do.html

http://fcsseratostenes.blogspot.com/2020/10/mais-um-protocolo-das-camaras-de-loures.html

http://fcsseratostenes.blogspot.com/2021/02/consulta-publica-do-recape-da.html

 

“Autonomous shuttles” “a pedido”:

https://roboticsandautomationnews.com/2020/10/15/top-25-autonomous-shuttle-manufacturers/37291/

https://1drv.ms/p/s!Al9_rthOlbwerSSgD3CMjYs4nz1I    (diapositivos 11 a 16)

  

 


Israel e a Palestina

 Admiro muito da cultura judaica. O valor da sua literatura e da sua música. Dos ministros das finanças do Portugal medieval, dos matemáticos dos almanaques suporte da navegação,  dos comerciantes e industriais, Spinosa pertencia a uma família judaica portuguesa que teve de emigrar no século XVII. Um dos principais erros da história dos governantes portugueses foi a expulsão por D.Manuel I, de forma subserviente relativamente aos reis castelhanos, e a subsequente perseguição pela Inquisição. 

Mas não posso ficar calado perante a agressividade supremacista com que conquistam território e expulsam habitantes de outras nacionalidades.

A política do governo de Israel, e parece que apoiada pela maioria dos seus cidadãos (Hitler também ganhou eleições sem falsificação da contagem de votos), ajuda a colocar a hipótese de que a religião, antes de ser o lenitivo definido por Marx,  é uma arma usada pelos chefes tribais para justificarem a agressão contra outros povos (ou para garantir a supremacia de grupos económicos), neste caso o povo eleito justifica a agressão pelo apoio divino, conforme explica a Bíblia, independentemente do seu valor literário.

Concordo com a declaração da ONU, expulsar palestinianos da Cisjordânia, de suas casas, é um crime de guerra. Tal como o lançamento de foguetes pelo Hamas, que também utiliza a religião como arma de guerra.

Assim não, mas se a hipótese está correta, teríamos de rever o papel da religião nas sociedades modernas, mas todas, o que até está de acordo com a letra e o espírito da declaração dos direitos humanos e os princípios do laicismo.





https://pt.wikipedia.org/wiki/Plano_da_ONU_para_a_partilha_da_Palestina_de_1947

https://pt.wikipedia.org/wiki/Faixa_de_Gaza

terça-feira, 4 de maio de 2021

O acidente no metro da cidade do México em 3 de maio de 2021

 Em primeiro lugar, a expressão dos sentimentos para as famílias das vítimas, talvez 30, entre passageiros do comboio de 2 carruagens que caiu por colapso do tabuleiro do viaduto e ocupantes ou peões que passavam por baixo.

Descrição do acidente:

https://www.dw.com/en/mexico-city-metro-train-bridge-collapse-leaves-several-dead/a-57418519

https://www.bbc.com/news/world-latin-america-56977129

https://www.nytimes.com/live/2021/05/04/world/mexico-train-metro-crash

Descrição da linha 12: 

 https://es.wikipedia.org/wiki/L%C3%ADnea_12_del_Metro_de_la_Ciudad_de_M%C3%A9xico

Fotografias do acidente:

O acidente ocorreu à aproximação à estação Olivos do comboio de 2 carruagens vindo da estação Tezonco (lado esquerdo da foto)

a orientação é simétrica da primeira foto (no desenho a estação Olivos para a esquerda)

estação Olivos para a qual se dirigia o comboio, para a esquerda; o comboio seguia na via mais afastada, a via mais próxima manteve-se suspensa, sem balastro; as vigas em I de suporte do tabuleiro desapoiaram-se do travessão de apoio do pilar à direita, grafitado

estação Olivos para  a esquerda; notar a inserção de uma via de resguardo, sobre o pilar do apoio que colapsou

estação Tezonco ao fundo; estação Olivos para a direita; notar a metade de viga inclinada encostada ao apoio da direita

vista do tabuleiro caido, encostado ao travessão do pilar do lado da estação Olivos e oposto ao pilar junto da inserção da 3ªvia (video Euronews)



Fotografias anteriores ao acidente:


o aparelho de apoio que colapsou encontrava-se por cima do pilar grafitado; notar a inserção da 3ªvia, de resguardo ou de término intermédio

estação Tezonco à esquerda, via de resguardo e estação Olivos à direita

zona de tabuleiro com 2 vias; notar que o travessão suporta para cada via uma viga em I apoiada de forma precária no travessão

zona de 3 vias, notando-se uma estrutura aparentemente de reforço adicional das vigas de suporte do tabuleiro, provavelmente na sequencia dos danos do sismo de grau 7 de 2017; notar a esbelteza do pilar e do travessão

a mesma estrutura vista do outro lado; o tabuleiro é suportado por 3 vigas em I

inserção do suporte da 3ªvia na zona de 2 vias; trata-se de uma zona sensível, que colapsou

vista do pilar e travessáo do aparelho de apoio que colapsou; não parece saudável o aspeto do betão

vista do tabuleiro que veio a cair, ficando parcialmente encostado ao pilar que se vê mais próximo

outra vista do pilar do aparelho de apoio que colapsou



Comentário:


Como se pode ver pela descrição da wikipedia, este viaduto teve de ser corrigido pouco depois da inauguração em 2012, mas as correções foram ao nível da via, não da estrutura de suporte. Esta foi gravemente afetada pelo sismo de grau 7 de 2017, tendo havido uma campanha de recuperação. Infelizmente não foi suficiente, talvez porque o projeto foi pouco cuidado ou demasiado otimista, com grande economia de material, e os aparelhos de apoio não terão sido monitorizados, especialmente na zona de inserção da 3ªvia.

As condições climatéricas, de elevadas temperatura e humidade, e os sismos recomendariam um projeto mais defensivo.

Contrariamente a uma opinião generalizada, mesmo sem toda a informação é útil comentar as hipóteses de causas dos acidentes, para que não caiam no esquecimento enquanto se espera um inquérito rigoroso. A discussão imediata é a posição dos organismos de inquérito anglo saxónicos, co m a qual concordo.






sexta-feira, 30 de abril de 2021

A sociedade discreta que vela pela nossa segurança

 Confesso, desconhecia. Foi preciso ler uma indireta num artigo do Público de ontem para ir à procura.

Antigamente havia duas sociedades discretas que mexiam os cordelinhos integradas no processo histórico de tentativa de substituição das classes aristocráticas e possidentes pela burguesia empreendedora e mais ou menos aliada da industria militar, desde o colonialismo expresso pelo congresso de Berlim de 1885 à colisão frontal nas duas grandes guerras.
Nós, pequeninos, andámos entretidos com a pequena guerra da maçonaria que se meteu pelas linhas de costura do parlamento em época de bancarrota e conseguiu substituir a monarquia. Uns anos mais tarde, por necessidade de defesa e de atualização, despontou a Opus Dei.
São as duas sociedades discretas que já estão um bocadinho desatualizadas.
É preciso o aggiornamento. Muito bem, é fácil, escolas de juventudes partidárias e um prémio para a mais produtiva. É a nova sociedade discreta. Violando as disposições anti-discriminação da Constituição, cela va de soi, isso não importa.
Falo da nomeação do diretor da Segurança Social  (https://www.sabado.pt/portugal/detalhe/assessor-de-antonio-costa-nomeado-diretor-da-seguranca-social), terminando com uma citação  a propósito de outras áreas, mas aplicável neste caso:

Todos conhecemos situações de lugares de chefia eminentemente técnicos, que exigiriam o seu preenchimento por engenheiros experientes e capazes, e que são ocupados por cidadãos com qualificações inadequadas das mais diversas proveniências …

Carlos Mineiro Aires, diretor da Ingenium, nº172, abr-mai-jun2021,revista da Ordem dos Engenheiros


PS em 4 de maio de 2021 - No Público de hoje mais um exemplo da vergonha, a história das portas giratórias público privadas do padrinho do primeiro ministro, Lacerda Machado

sábado, 24 de abril de 2021

Sessão de 19abr2021 no LNEC sobre o lançamento do Plano Nacional Ferroviário


Pela leitura dos comentários dos leitores às notícias sobre as iniciativas ministeriais integradas no ano internacional da ferrovia declarado pela Comissão Europeia, vive-se um momento de entusiasmo e de esperança na correção do desinvestimento crónico na ferrovia.

Infelizmente, não tenho capacidade de me entusiasmar com as notícias. Por formação ou deformação profissional só posso discutir coisas concretas, mas fala-se muito em intenções. Que qualquer cidadão poderá dar contributos para o Plano Nacional Ferroviário que terá de estar pronto em 2022, conforme foi anunciado pelo sr MIH na sessão de 19 de abril no LNEC:

https://www.publico.pt/2021/04/19/economia/noticia/ferrovia-caminho-cidades-20-mil-habitantes-1959135

A base do meu contributo será que não deverá haver um plano ferroviário, mas dois, um centrado na rede convencional, existente, de bitola ibérica, a modernizar, e outro na rede de Alta Velocidade e novas linhas, a construir segundo os padrões europeus (todos, sem exceção) conforme os regulamentos das redes transeuropeias, o 1315 e o 1316, os quais, dizem os textos jurídicos comunitários, são vinculativos, o que tem sido soberanamente ignorado pelo poder político português e pela IP.

Esta separação (hierárquica, conforme propõem os tratados da qualidade, e orçamental, que é o que se tem praticado em Espanha, com  sucesso) é indispensável para que a ferrovia em Portugal corresponda aos objetivos comunitários da rede única europeia e do Green Deal.

Por deformação profissional (no metro transitei da área de manutenção para a de estudos e desenvolvimento de infraestruturas) apenas enviarei como contributo sugestões para linhas novas e, o que me parece também corresponder melhor aos objetivos comunitários, para a retirada dos metropolitanos e redes urbanas do ministério do ambiente para o ministério das infraestruturas.
Curiosamente, já em outubro de 2020 tinha sido veiculada pelo governo, a propósito do PNI 2030, a intenção de estudar a ligação ferroviária das capitais de distrito em falta. Nessa altura elaborei um pequeno esboço para 3 tipos de redes de linhas novas em Portugal, as da rede TEN-T core (principal, objetivo 2030) , as da rede TEN-T comprehensive (complementar)  e as da rede das capitais de distrito. Envio em anexo.
Como referido, estas linhas novas são propostas segundo os padrões da interoperabilidade europeia, que incluem desde a bitola UIC e alimentação 25 kVAC até aos limites dos gradiantes (1,2%), velocidades (250 km/h passageiros, 100-120 km/h mercadorias) e raios de curvas (mínimo da ordem de 5000 m). É evidente que sempre que estes padrões encontram condições topográficas desfavoráveis, os custos sobem, mas não parece acertado estar a poupar agora para termos linhas com severas limitações operacionais (caso da recuperação da linha da Beira Alta, por exemplo, quando para corresponder ao objetivo comunitário de transferência de 30% da carga rodoviária para a ferrovia (ou marítimo) quando se espera, para reequilibrio da economia nacional, o crescimento das exportações para a Europa. Contrariamente à ideia difundida, as exportações, mesmo terrestres, para a Europa além da  Espanha superam já em tonelagem e valor as exportações para Espanha. 
É este o principal argumento, além do carater vinculativo dos regulamentos 1315 e 1316, para a reivindicação de ligações ferroviárias à Europa além Pirineus em bitola UIC.
Porque só devo discutir coisas concretas, como disse, no esboço seguinte faço uma estimativa por alto, de cerca de, para as novas 3 redes, cerca de 22.800 milhões de euros com um esforço anual de 1.400 milhões de euros durante 16 anos. É uma perspetiva diferente da apresentada pelo sr MIH e seu assessor.
Mas claro que as nossas dificuldades financeiras são muito grandes, se bem que para fazer os projetos não seria necessário muito dinheiro, mas também há dificuldades para isso.

Rede básica (core) 2030 »1000km x 20M€/km = 20.000M€ » cofinanc.40% » 12.000M€ » 12 anos (2021-2027) + (2028-2034) » 1.000M€/ano Rede complementar (comprehensive) 2050 » 400km x 20M€/km = 8.000M€ » cofinanc.40% » 4.800M€ » 6 anos (2034-2040) » 800M€/ano Rede adicional cap.distritos » 400km x 15M€/km = 6.000M€ » s/cofinanc. 10 anos 2035-2045 » 600M€/ano Esforço máximo 1.400M€/ano ca. 0,8% PIB


Comentário à intervenção do vice presidente da IP Carlos Fernandes

De acordo com a notícia em 
https://revistacargo.pt/carlos-fernandes-ip-ferrovia-com-investimento-sem-paralelo-e-foco-na-resolucao-das-cargas/

o eng.Carlos Fernandes recorreu a alguns argumentos que pela sua consistência justificam uma análise mais próxima. Inteiramente de acordo que os traçados das linhas antigas condicionam a sua exploração com bons rendimentos. É o mesmo problema das estradas antigas e das autoestradas, tem de se adotar traçados diferentes para estas. 
Pena que só tenha utilizado este argumento para as linhas de bitola métrica. O raciocínio aplicar-se-á tambem às linhas para mercadorias existentes em bitola ibérica. No traçado antigo, com curvas e pendentes, o rendimento energético é inferior a linhas construidas de traiz com limitação das pendentes a 1,2% e do raio das curvas a 5000 m. Claro que ele argumenta que se está a corrigir o perfil da linha da Beira Alta, e a criar refúgios para cruzamento de comboios de 740m, mas o que se gasta em linhas antigas para melhorar o seu rendimento, ainda por cima mantendo a sua via única, será desperdício quando se construir a linha nova.
Por outras palavras,  discordo do colega Carlos Fernandes quando diz que se atinge o objetivo da competitividade da ferrovia com a conclusão do programa 2020. Contas que fiz há uns anos (https://1drv.ms/p/s!Al9_rthOlbwehzNhuEExKreHeAex ) dão-me para o consumo de um comboio transportando 1400 toneladas de carga nas linhas existentes cerca de 52 Wh/ton-km o que compara com cerca de 32 Wh/ton-km em linhas de gradiante inferior a 1,2% e curvas de raios maiores que 5000m. Como o custo operacional é sensivelmente proporcional ao consumo de energia, deduzi que no primeiro caso (linha existente com bitola ibérica) o custo do transporte de 1 ton-km será de 1,67 centimos e , no segundo caso (linha nova com bitola UIC) de 1,2 centimos. Seria interessante comparar com os custos reais e com a anunciada melhoria devida às intervenções de modernização das linhas existentes.
A abordagem de Carlos Fernandes ao invocar o número de comboios que saem com as exportações é muito válida porque dar condições para o aumento das exportações é essencial para o país. 
Mas, para além do esclarecimento sobre os consumos energéticos (que são um fator crítico na operação e consequentemente nos processos de decisão), penso que também deverá ser esclarecida a sua afirmação de que saem atualmente 20 comboios por dia (deduzo que quase exclusivamente por  Vilar Formoso) . podendo desde já duplicar-se este número. 40 comboios que saem diariamente significa 80 comboios por dia em circulação. 
Contas que fiz também há tempos 
dão-me para a linha da Beira Alta, em via única, uma capacidade de 15 comboios por sentido para velocidade média de 70 km/h e 3 pontos de cruzamento; para 10 pontos de cruzamento a capacidade aumenta para 37 comboios por sentido. 
Ignoro quais os parâmetros utilizados no cálculo da IP, que me parece demasiado otimista.
Mais afirmou Carlos Fernandes que as obras em curso vão permitir num futuro próximo a saída diária de 70 comboios (140 comboios por dia nos 2 sentidos, provavelmente contando com as 3 ligações transfronteiriças, Valença, Vilar Formoso e Caia) e que isso poderá absorver "100% das mercadorias que saem para a Europa", parecem novamente afirmações otimistas. 
Ora, em 2020 as exportações para a Europa pelos modos terrestres foram de 16 milhões de toneladas, o que requereria 16.000 comboios por ano, ou à volta de 50 comboios diários, um comboio de meia em meia hora. 
Mas o que impressiona é que em 2020 as exportações por ferrovia para a Europa (incluindo  Espanha) foram em 163 mil toneladas, o que requer à volta de 160 comboios por ano ou 1 comboio de 2 em 2 dias. 
Como disse o presidente da Medway noutra altura 
o transbordo em Irun não será suportável quando se atingirem 2 comboios diários (cerca 700 mil toneladas de carga ). 
Mesmo  que se possa dispor da plataforma de Vitoria ligada por bitola UIC a França, a solução mais económica para o tráfego além Pirineus , para além de comboios de 740m,  será sempre a bitola UIC desde Portugal (conclusão de um estudo da própria IP : 

Também carece de esclarecimento a afirmação de que o modo ferroviário tem uma quota modal de 9% no transporte internacional de mercadorias. Vejamos este gráfico do comércio externo com França por modo de transporte, do relatório do observatório transfronteiriço com os dados de 2017:

 Vejamos dados mais recentes do INE para o ano 2020 : 

https://www.ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=ine_destaques&DESTAQUESdest_boui=415204736&DESTAQUESmodo=2&xlang=pt

https://www.ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=ine_indicadores&indOcorrCod=0008594&contexto=bd&selTab=tab2   

                    exportações para a Europa em milhões de toneladas em 2020 por modo :                                                                      marítimo      9,29 (35,1%)                                                                                                                              ferroviário    0,16 ( 0,6%)                                                                                                                              rodoviário   15,69   (59,2%)  

Se adicionarmos o transporte nacional em milhões de toneladas (8,49 pelo modo ferroviário e 114,30 pelo modo rodoviário, a quota modal ferroviária será 6,19% para a ferrovia e 93,81% para a rodovia;

se considerarmos o transporte nacional e internacional exportador em Mton-km, então teremos 2544 pela ferrovia (9,5%) contra 24200 pela rodovia (90,5%). No entanto, o texto está a falar em comércio internacional, pelo que penso dever a questão ser esclarecida. Igualmente na sua intervenção o presidente da Medway

(https://revistacargo.pt/plano-ferroviario-nacional-deve-ser-ambicioso-ferrovia-tem-margem-para-crescer/ )  

afirmou que a ferrovia tem 14% de quota de mercado. Considerando as exportações e importações, tivemos em 2020    35,7 milhões de toneladas para e de toda a Europa, sendo pela ferrovia apenas 0,72   (2,0%) . A quota ferroviária de exportações para Espanha é apenas de 1% contra 79,6% da rodovia.

 

Aparentemente, os valores apresentados pela IP e pela Medway pretenderão valorizar a ferrovia, o que será uma boa intenção, mas não parece realista, antes parecendo o velho hábito nacional de ganhar sempre nem que seja moralmente, e pela penúria, mostrando a necessidade de investimentos a sério conforme os regulamentos 1315 e 1316 com o evidentemente necessário cofinanciamento.

 

 










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quinta-feira, 22 de abril de 2021

Citações aplicáveis às ações e às intenções do XXII governo (e de outros, também)

 


 

                                                 I

Essa vacina foi aprovada sem qualquer tipo de restrições. Mas as restrições ou não restrições são uma decisão técnica em que os políticos não se devem meter.

                                        declarações do primeiro-ministro em 21abr2021

     (https://www.dn.pt/sociedade/vacina-da-janssen-sem-restricoes-mas-portugal-aguarda-mais-pareceres--13595577.html )

 

                                              II

A montanha dava à luz, no meio de gemidos medonhos, imensa era nos povos a expectativa. Mas ela pariu um rato. Isto foi escrito para ti, que, embora projetes grandes coisas, nada acertas.

                                                                          fábulas de Esopo

                     in Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/artigos/rubricas/idioma/a-montanha-pariu-um-rato/3599  [consultado em 21-04-2021]

 

                                      III

Todos conhecemos situações de lugares de chefia eminentemente técnicos, que exigiriam o seu preenchimento por engenheiros experientes e capazes, e que são ocupados por cidadãos com qualificações inadequadas das mais diversas proveniências …

Carlos Mineiro Aires, diretor da Ingenium, nº172, abr-mai-jun2021,revista da Ordem dos Engenheiros


                                                                IV

Estar certo de uma coisa quando se está errado é como uma doença;
reconhecer essa doença como uma doença é livrar-se dela;
ajudar a compreender essa doença é como o velho professor que quer o bem do jovem aluno

Lao Tse , séc.VI AC

 

  V

Não sabem nada, não querem saber e têm raiva a quem sabe ... São uns perfeitos ignorantes, só fazem asneiras.

Vasco Lourenço, coronel, a propósito da reforma das Forças Armadas, referindo-se às forças políticas que têm estado no poder. Citação aplicável a outras áreas.

                                     VI

A participação pública e a opinião de especialistas são indispensáveis, mas difíceis de conseguir num país onde a prática da cidadania é ainda escassa.

                             Raquel Cavaleiro Ferreira, em Cartas ao Diretor no Público de 29abr2021

segunda-feira, 19 de abril de 2021

Não aos conflitos entre países, especialmente se são vizinhos

Mensagem para deputados ao Parlamento Europeu:


Desta vez não venho insistir nas ligações ferroviárias à Europa (continuo a achar que a bitola UIC é essencial para o aumento das exportações líquidas e que o contacto com os sindicatos ferroviários da Europa seria útil para os nossos sindicatos) nem no plano de expansão do metro de Lisboa (já que sobre o metro do Porto as coisas correm melhor).

Mas foi também uma questão técnica que me levou a escrever-vos.

Há dias, segundo a newsletter Euractiv, o CEO da companhia elétrica da Estónia declarou que brevemente iriam desligar-se da rede elétrica russa e cortar todas as ligações ao passado soviético.

Misturar ideologias ou xenofobias com questões técnicas é muito mau, especialmente se há traumas do passado ( e se a história desta região é traumática, cristianizada à força nas cruzadas medievais do século XI ao século XV). 

Como engenheiro eletrotécnico (reformado) estou inteiramente de acordo com a ligação da rede elétrica estónia à rede da união europeia. 
Tal como a sua rede ferroviária que sofre do mesmo mal de ter uma bitola diferente da europeia (bitola russa de 1520mm)  está em fase de crescimento com uma nova linha de bitola europeia (o que Portugal deveria e não está a fazer), mas mantendo a ligação com o vizinho.    

Podem os políticos de países vizinhos não se entenderem entre eles, mas os técnicos  desses países têm mais facilidade de se entenderem entre si (no nosso caso, é o eterno problema das cimeiras com Espanha, os técnicos entendem-se sobre as ligações elétricas, sobre a gestão da água, sobre as ligações ferroviárias, mas depois vêm os senhores do governo e definem estratégias ou imobilistas ou erradas).

Porém, cortar a ligação com a outra rede elétrica, russa, é contra os princípios técnicos de defesa da estabilidade e da fiabilidade das redes elétricas (quanto mais malhada uma rede mais hipóteses de absorver perturbações e disparos de subredes evitando os apagões).

Este episódio serve também para alguns cidadãos, como eu, manifestarem grande preocupação com a escalada de  críticas, condenações e ameaças  desenvolvidas pelos países do leste europeu da União Europeia juntamente com a propaganda norte americana. 
Segundo notícias da Euractiv, já se fala em redefinição das fronteiras da antiga Jugoslávia (receando-se algo de desagradável da presidencia eslovena), de alinhamento com a política da NATO, de mais sanções económicas (que não punem os mandantes mas sim a população) , de respostas "proporcionais" na crise da Ucrania, de casos de envenenamento em 2014 (evidentemente condenáveis).



Como cidadão europeu não posso concordar que países vizinhos desenvolvam atividades que podem conduzir a uma guerra, que é o que parece que querem. E não é a NATO, cuja intervenção na ex Jugoslavia foi desastrosa que pode ajudar, nem sanções económicas que prejudicam as pessoas especialmente as crianças. 

Os conflitos entre países civilizados resolvem-se no âmbito das Nações Unidas e em tribunais internacionais com intermediação.  

Não subscrevo as políticas de Putin e condeno a atitude para com Navalny, mas sanções económicas e suspensão de trocas comerciais não concordo.

Considero que os deputados portugueses no Parlamento Europeu podem ser uma voz de sensatez no contra esta histeria xenófoba, o que é mais uma razão para que Portugal se mantenha na União Europeia para se fazer ouvir (tal como defendo para as ligações ferroviárias e elétricas nos seus quadros de cofinanciamento, mas de preferência com projetos bem feitos e não com esta desastrosa estratégia).


sexta-feira, 16 de abril de 2021

Maria da Liberdade

À aproximação das comemorações do 25 de abril, a editora "vanity"  a que eu não resisto, por fraqueza minha, a participar de vez em quando nas suas antologias temáticas, escolheu o tema da liberdade.

De modo que lhe enviei este texto, já publicado, curtinho como era exigido, que os participantes foram muitos:



                                             Maria da Liberdade


“Dêem-me as vossas multidões pobres … empurrem-nos para mim, eu erguerei a minha lanterna a indicar a porta dourada”

Ema Lazarus

A informação sobre a sessão na junta de freguesia chegou-me tarde e sem pormenores. Despachei o que estava a tratar, corri para o metropolitano e consegui chegar a tempo de ouvir a segunda oradora.

Não soube o nome, mas pelas suas palavras percebi que era funcionária na câmara que tencionava aprovar o projeto do condomínio privado, à beira do rio, que se discutia naquela sessão.

Que não era admissível, que todos devemos poder usufruir dos locais de lazer, que não devem ser reservados a alguns, que essa reivindicação poderia parecer egoísta, numa altura em que a repressão violenta se abatia sobre tantos povos ou se reprimia o seu bem-estar roubando-lhes as riquezas naturais, mas que neste caso era importante defender o interesse público, e que fora isso que, como técnica, tinha reportado à sua câmara.

Ao ouvi-la, imaginei a figura da oradora numa iconografia comemorativa da Revolução Francesa, ao lado da Igualdade e da Fraternidade.

Quando a sessão terminou, abordei-a felicitando-a pelas palavras desassombradas e perguntei-lhe se poderia enviar-lhe uns desenhos em que se via que o condomínio projetado, dada a sua altura, iria interferir com o alinhamento de apoio à navegação, o que era mais um argumento contra o aproveitamento abusivo do local.

Que sim, seria muito bom, e ditou-me o endereço do seu email:

       -   “mariadaliberdade” – tudo pegado – “arroba email ponto com”.