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quarta-feira, 24 de setembro de 2014

os dez erros da troika

Transcrevo do Jornal de Negócios a notícia do lançamento do livro de Rui Peres Jorge. Penso que os senhores da troika, de forma sobranceira, mostraram grave ignorancia das condições reais das empresas e das pessoas em Portugal. É típico provocar estragos quando se ignora a realidade. Uma das mais eficazes formas de destruir uma empresa, ou um país, é substituir ou marginalizar os recursos humanos com o pretexto de que funcionam mal. É com as pessoas de que se dispõe e não com super-trabalhadores ou super-técnicos que se melhora uma empresa ou os seus processos de decisão e produção. Mas para aplicar isto é preciso ter experiencia do mundo real, coisa que os burocratas do FMI, BCE e CE não terão, pelo menos da realidade portuguesa (se duvidas houvesse, por mais que o sr Draghi diga que não, a ignorancia do caso do BES, quando já corriam investigações nos USA e no Luxemburgo, é o melhor exemplo).



Os resultados do programa de ajustamento negociado na Primavera de 2011 com Comissão Europeia, FMI e BCE ficaram aquém do previsto: a recessão foi maior, o défice e a dívida também. Boa parte do mau desempenho deve-se a erros na estratégia desenhada pelo governo português e pela troika, analisa Rui Peres Jorge, jornalista do Negócios, que acompanhou o programa nacional desde o início, numa obra intitulada "Os 10 erros da troika em Portugal", onde se contam a austeridade excessiva aplicada no País e na Europa, passando por um tratamento privilegiado do sistema financeiro, pela reforma do Estado que não aconteceu, ou pela guerra ao Tribunal Constitucional que por estes dias tem novos episódios. 

"Três anos depois da chegada da Comissão Europeia, FMI e BCE a Portugal. Três anos depois do início do Programa de Assistência Económica e Financeira. Três anos depois do empréstimo de 78 mil milhões de euros e de sucessivas medidas de austeridade agressivas sobre a vida dos portugueses, o balanço da passagem da Troika é desolador. A economia portuguesa passou por três anos de recessão e encontra-se aos níveis de 2003. O desemprego atingiu níveis nunca antes vistos, estimando-se que quase um quinto da população activa não tenha emprego. Quem mantém o seu posto de trabalho, viu-se sujeito a cortes salariais, aumento de impostos. Pensionistas e grupos sociais mais vulneráveis sofreram vários cortes nos apoios públicos. Como se justifica que o programa de assistência tenha falhado quase todas as previsões? Que 27 mil milhões de euros de austeridade só tenham reduzido o défice em nove mil milhões? Que o presidente da República preveja que até 2035 Portugal vá ficar sob vigilância apertada? E que os portugueses se sintam cada vez mais encurralados perante uma austeridade que se vai perpetuar e empurrou por ano mais de 100 mil pessoas para fora do País à procura de melhor vida?", lê-se na apresentação da obra editada pela Esfera dos Livros.

Rui Peres Jorge começa a viagem nos primeiros meses de 2011, com o chumbo do PEC IV, o documento que levou à demissão de José Sócrates e que moldou parte da estratégia orçamental da troika. Identifica depois dez erros de um programa que nasceu em poucas semanas, a partir de uma percepção da crise ainda deficiente. "Fraco conhecimento da realidade económica portuguesa e da verdadeira extensão da crise a nível europeu condicionaram à partida as regras de um programa que se revelou desajustado, aplicando medidas de contracção similares para todos os países resgatados. O tratamento privilegiado das instituições financeiras, a reforma do mercado de trabalho, que deu primazia à redução de salários em vez de promover soluções estruturais. Um desafio permanente aos limites constitucionais. E a chegada tardia e tímida de políticas virtuosas, como o combate a lucros excessivos de grandes empresas. Estes são alguns dos erros abordados nesta obra essencial para reflectir sobre o Portugal que a Troika nos deixa e pensar em soluções para o futuro", lê-se na sinopse do obra.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Não, não, não

O título podia ser a evocação de uma cançoneta dos anos 60, ou um apelo a que os escoceses não destapem a boceta da Pandora da desagregação quando os tempos deviam ser de agregação (com mudança da politica central, claro e investimento dos superavits da Europa central nas economias periféricas, que obviamente pagariam o retorno aos investidores, como religiosamente vão pagando os juros que a advogada do mercador de Veneza certamente classificaria como de agiotas).
Esperemos que os escoceses digam não.
Mas a minha ideia era deixar expresso aqui o meu desejo que o senhor presidente da Republica não diga nada, não, não diga.
Mais vale não dizer nada, não diga se prefere mais Buchanan ou Musgrave, mas tambem não diga nada sobre as decisões do senhor governador do Banco de Portugal e do apoio enlevado do primeiro ministro e da senhora professora e ministra de finanças. Como sabe melhor do que eu, que não sou professor, vendas apressadas têm cachorrinhos tortos. Coisa que o seu conselheiro ético, Vitor Bento, sabe ainda melhor.
Esperemos que o buraco em que se meteram (não tinha de se submeter ao poder judicial a decisão de definir o que é bom e o que é mau nos ativos a repartir? e porque não se fez, se não foi para privilegiar grupos, como dizem os manuais, que o banco mau fica proprietário de tudo? e porque não se atenta na espiral regressiva das participações acionistas portuguesas em empresas privatizadas desde a Cimpor à PT, e na espiral progressiva com que de aumento de capital em aumento de capital alguns grupos vão abocanhando o negócio dos concorrentes, desde a compra do BPN pelo BIC à preparada compra agora do BES pela concorrencia, entrando devagarinho no fundo de resolução e aumentando a participação até ao destino final?), como disse Mário Soares, não seja tão grande como estou a pensar.
Por isso, mais vale nada dizer.
Será a sua melhor crítica a este governador e a estes ministros ineptos, embora incensados pela comunicação social, com honrosas e éticas exceções.
Não, não diga nada, o silencio será eloquente e percebemos o que quer dizer.

domingo, 14 de setembro de 2014

Recordando uma entrevista do Expresso

Neste momento de turbulencia do caso BES, recordo, citando o livro "Os donos de Portugal" (J.Costa, L.Fazenda, C.Honório, F.Louçã e F.Rosas, ed. Edições Afrontamento), uma entrevista de José Roquete ao Expresso em dezembro de 1997, mostrando as ligações dos negócios bancários com a política:
"Tenho muito orgulho de, em 1974, tanto eu como os restantes responsáveis do BES ... termos dado um contributo para a luta e a batalha que tinhamos de dar. Mas o que é absolutamente verdade e autentico é que criei apoios financeiros indispensáveis para que o PSD pudesse sobreviver. Aliás, isso foi de alguma forma um acordo feito com Francisco Sá Carneiro".
Ora aí está um testemunho sobre os apoios dos financeiros aos políticos, enquanto a população eleitora é seduzida com manobras de diversão ou se desmobiliza na abstenção.
E assim vamos.

domingo, 24 de agosto de 2014

Um lago de tubarões

No meio dos comentários sobre o BES, oiço a lucidez de dois comentadores, julgo que um deles o historiador económico Pedro Lains, dizer que temos de convencer as pessoas de direita, que as de esquerda já estão convencidas, de que a união bancária tem de ser concretizada (assim como todas as restantes medidas propostas pelos economistas aterrorizados, que os financeiros do BCE tão lentamente e renitentemente vão aplicando). A lentidão das medidas do senhor Draghi contrastam com as da reserva federal americana.  A união bancária , fiscal e orçamental é condição sine qua non para o equilibrio orçamental, não o corte das pensões. Outro diz que em dois anos foram transferidos para o Luxemburgo 200.000 milhões de euros de depósitos. Somos um país drenado. Os USA já informaram os bancos estrangeiros que operam no seu território que têm o dever de informar o departamento do tesouro de todas as tranferencias que os clientes americanos fazem para fora do pais, sem o que não poderão operar no país. O fim do sigilo bancário é condição sine qua non para o equilibrio orçamental, não os cortes das pensões.
E não são os reguladores que têm de ser mais eficazes, é o sistema financeiro que tem de mudar.
Porem, o governo português e seus simpatizantes preferem continuar a assistir à luta dos tubarões.
Não é original, a ideia do programa de TV lago dos tubarões. Orson Wells tratou o assunto num dos seus filmes.
Mas prefiro outra perspetiva do caso do BES, esperando que a triste atuação do senhor governador do BP não contribua para problemas de sua saúde. Outros comentadores, respeitosos apoiantes do governo, desculpam-no, que era CMVM que deveria ter alertado os acionistas, que o BP só tem que proteger os depositantes. Ora, o senhor governador disse que previa uma almofada de 2 mil milhões e que havia acionistas interessados no aumento de capital. Falhou por desconhecimento e afundou-se quando disse que se baseava na informação disponível do próprio banco (a do 1º trimestre). Afinal eram 3,5 mil milhões.  Felizmente os meus jovens colaboradores nunca cometeram erros desta dimensão por desconhecimento. Os senhores economistas e financeiros não têm a noção dos fenómenos físicos. Deveriam estudar a teoria da predição de Norbert Wiener. Era melhor para todos.
E quanto ao inedetismo e inovação da solução dos bancos bom e mau (cuidado com a analogia do desdobramento da personalidade, é que a responsabilidade do crime é sempre de quem o comete, por mais inimputável que uma escola de psicologia possa defender), permito-me transcrever do livro "Adapte-se" de Tim Harford, copyright de 2011:
"Uma forma simples de reestruturar até um banco complexo foi inventada por dois teóricos do jogo, Jeremy Bulow e Paul Klemperer, e apoiada por Willem Buiter, que posteriormente se tornou economista responsável pelo talvez mais complexo banco do mundo, o Citigroup. Trata-se de uma abordagem tão elegante que, à primeira vista, parece um passe de magia lógico: Bulow e Klemperer propõem que os reguladores possam obrigar um banco em dificuldades a dividir-se num banco "ponte" e num mau banco "traseiro".  O banco ponte recebe todos os ativos e apenas os passivos mais sagrados - como os depósitos que as pessoas comuns ainda têm em contas-poupança ou, no caso de um banco de investimento, o dinheiro depositado por outras empresas. O banco traseiro não recebe quaisquer ativos, ficando apenas com o resto das dívidas. Num ápice, o banco ponte é plenamente funcional, tem um bom amortecedor
de capital e pode continuar a fazer empréstimos, a pedir empréstimos e a transacionar. O banco traseiro é, evidentemente, uma inutilidade.
Mas então, os credores do banco traseiro não foram roubados? Não nos precipitemos. É aqui que entra o truque de magia: o banco traseiro é proprietário do banco ponte..."
Ora, a menos que esteja enganado, estamos perante um solução à portuguesa, isto é, uma meia solução apresentada como inovadora a pedir aplausos ao senhor governador do BP, ao governo e ao senhor gestor Vitor Bento, que há muito abandonou o seu diagnóstico: que o setor não transacionável do nosso país tem de convergir com o setor transacionável.
E tambem que quem insistir que a solução do banco bom e do banco mau é inovadora (o copyright do livro é de 2011), está mentindo.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Artigo de opinião: Ricardo Salgado, os banqueiros, os vidros partidos e o surrealismo

Arcanjo S.Miguel, por Guido Reni, século XVII, Bolonha

As religiões cristã e islâmica criticam violentamente o juro agiota.
No livro sagrado da religião cristã é atribuída a Jesus Cristo a afirmação de que são mais inteligentes os filhos das trevas do que os filhos da luz, o que possivelmente, na forma alegórica como ele se expressava, quereria dizer que os financeiros e os banqueiros eram pessoas mais inteligentes do que os comuns dos cidadãos que lhes entregam o dinheiro.
A forma como Ricardo Salgado tem gerido o seu grupo parece confirmar a tese cristã.
Primeiro, fez o que pôde para  não tocar no presente envenenado da troika – o  empréstimo para melhorar a relação entre os depósitos e os empréstimos concedidos.
Uns dirão que o presente era envenenado porque permitiria a entrada do Estado no capital do banco (francamente, com a promiscuidade, ou convívio intenso de benefício mútuo, entre os bancos e os políticos decisores, era assim tão mau o “Estado” entrar no capital?).
Foi sempre o que disse Ricardo Salgado.
Mas outros dirão que o veneno estava simplesmente no empréstimo provir da troika.
Que ela nunca perderá mais do que o devedor ganhará, com os juros e as comissões que aplica.
E então, como banqueiro assisado, Ricardo Salgado fez o que o próprio Estado deveria ter feito: recapitalizou-se através dos próprios acionistas.
Realmente é interessante comparar o montante do empréstimo da troika, 78.000 milhões de euros (menos os 7.500 milhões que ficaram por aproveitar para os resgates de bancos), com o montante de depósitos em toda a banca, 130.000 milhões de euros.
Não quero, evidentemente, sugerir a expropriação pura e simples para nos libertarmos imediatamente do malfadado memorando da troika, porque não faço revoluções, nem sequer no meu bairro.
Estou apenas a exercer o meu direito à expressão de que para mim isto, o Estado não poder aplicar a mesma receita,  é surrealismo (recordo que em Itália a maior parte da dívida pública é interna).
Aproveito também para criticar a política irresponsável dos secretários de Estado do Tesouro que, ao longo de vários anos, quase acabaram com os certificados de aforro, debitando arrogantemente na imprensa conceitos mal apreendidos na faculdade (por acaso até nem estou a criticar o atual governo, que tentou a reabilitação dos certificados de aforro, embora o débito de conceitos mal apreendidos na faculdade de economia se aplique a outras ações do atual governo).
Depois, voltando a Ricardo Salgado, apresenta lucros.
Nos 3 primeiros trimestres de 2012 o BES vendeu 1280 imóveis que lhe advieram por incapacidade dos devedores, por 240 milhões de euros (mas cuidado, foram capitais que vieram da Russia e da China; e se daqui a uns tempos temos o ministério publico a investigar acusações de branqueamento de dinheiros como no caso das compras angolanas de apartamentos do monstro que foi construido no lugar do hotel Estoril Sol?).
Foi uma excelente receita, mas que foi absorvida pelas contas do grupo; que interessam agora os desgraçados que não conseguiram pagar os seus empréstimos ?
Aliás, se alguém se suicidar, como em Espanha, suspendem-se os despejos, não é verdade? Somos um país cristão, embora por isso mesmo sejamos de opinião que os filhos das trevas se orientam financeiramente muito melhor do que os filhos da luz, e sempre contribuiremos para o banco alimentar.
Bem, não devo usar o condicional.
Recentemente suicidou-se o construtor civil de um empreendimento turistico de luxo na serra, perto de Castro Marim, com campo de golfe e hotel, que ainda funcionam; mas as vivendas construidas não encontraram comprador e o homem não resistiu.
Ignoro que banco era credor.
Os jornais não falaram, possivelmente para não induzir a imitação.
Nos 3 primeiros trimestres de 2012 o BES teve 90,4 milhões de euros de lucro.
A CGD e o BCP tiveram 900 milhões de prejuízos no mesmo período (claro, o crédito  mal parado); e  o Santander e o BPI tiveram em conjunto 347,6 milhões de euros de lucro.
Não é muito grande, o lucro, e ainda por cima é menor do que no ano anterior.
Vamos ter pena dos acionistas se não receberem os dividendos e se o banco não puder fazer auto-investimento, mas quem vive dos rendimentos do seu trabalho e das suas pensões viu os seus rendimentos diminuídos gravemente.
Será outro exemplo de surrealismo, as cabeças bem pensantes acharem que a equidade não é chamada para aqui (sim, sim, é preciso não afugentar o capital, embora as grandes empresas tenham as suas sedes fiscais em in-shores europeus, e acima de tudo, não enervar os mercados).
Evidentemente que também aqui não estou a propor a expropriação completa dos lucros, mas parcial era boa ideia.

Até porque, continuando a bater na tecla do surrealismo, será verdade o que li no DN, que a maioria das empresas que têm empréstimos a correr estão a receber cartas dos seus bancos informando que, considerando as condições da conjuntura, patita e patatá, os spreads subiram?
Isto é assim?
Sobem-se os juros (é como se subissem os juros, o que interessa é o serviço da dívida) unilateralmente?
Às pobres das empresas que já tinham contratado juros a uma taxa superior à dos seus homólogos alemães?
Lá está, para mim é surrealismo não existir harmonização fiscal na união europeia; para outros não é, paciência.
E depois os senhores governantes e o senhor governador do Banco de Portugal, que se isto é verdade já devia ter dado uma espadeirada nos filhos das trevas (digo isto na hipótese do senhor ser cristão e poder inspirar-se no arcanjo S.Miguel), vêm rasgar as vestes na comunicação social dizendo que as empresas têm de reduzir os custos de contexto e de produção?
Surrealismo, digo eu.
E não sei se não virão depois dizer que eu estou a instigar ao assalto aos bancos, como aqueles moços no norte, que se entretiveram a partir montras de bancos e visores de multibancos; uma moradora chamou a policia, mas depois veio a televisão e apressou-se a dizer, vá lá, sempre de cara escondida, que até tinha ido manifestar a sua solidariedade aos vandalozinhos quando eles disseram à policia que tinham partido os vidros por serem contra o sistema, que até trocaram gestos de polegar para cima e que se soubesse que não eram vândalos, eram só contra o sistema, que talvez até nem tivesse chamado a policia.
Surrealismo, digo eu.