quarta-feira, 17 de abril de 2013

Um minuto de economia - porque cresce a divida publica


Um minuto de economia

Num minuto pode dizer-se muita coisa, embora a síntese não seja o meu forte.
Então analisemos:
Parece lógico que quanto maior a despesa pública maior a dívida pública, não é?
Só que só é parcialmente verdade.
A essência das finanças públicas não está aqui.
O que torna a divida publica insustentável (e já é mais do que 123% do PIB...) é a taxa de crescimento ser inferior à taxa de juro dos empréstimos.
Portanto os senhores que mandam mentem ao povo com todas as suas forças quando o responsabilizam pela dívida pública e propõem os cortes na educação , na saúde e na segurança social.
Cortando nos benefícios sociais temos assim os pobres a financiar os ricos rentistas, pr mais que o senhor ministro das finanças diga que a economia é o ponto de encontro da cooperação entre os que vivem do seu trabalho e os que vivem dos rendimentos do trabalho dos outros (que bonito, um mundo sem conflitos sociais...que conto de fadas tão bonito que o senhor ministro das finanças conta).
Não é que eles não saibam que isto é uma espiral recessiva.
Não são incompetentes, sabem perfeitamente que é uma espiral recessiva, mas é preciso manter viva a chama do pecado original.
Quando nascemos já trazemos a culpa.
È do que os “mercados” precisam, do complexo de culpa dos contribuintes.
Já passou o minuto?
Então eu resumo:
cortar na despesa publica tem um efeito recessivo, logo menos despesa publica significa maior diferença entre o crescimento do PIB e as taxas de juro (nesta perspetiva, 3% que é o juro da troika é demais e a divida pública não parará de crescer), e essa maior diferença significa maior divida publica.
Logo, cortar na despesa publica de forma cega é um atentado contra os cidadãos e cidadãs. O essencial está no crescimento do PIB (investimento publico ou privado, não interessa, mas investimento reprodutivo).
E que se deve fazer a quem comete atentados?

terça-feira, 16 de abril de 2013

A experiencia de Worgl, a rede bitcoin, a ecomoeda e a rede CES (community exchange system)


Os arrumadores encontraram este nicho de mercado. São ilegais, mas a EMEL não é, e ocupou o nicho. É uma empresa da esfera pública que parece dar lucro (ainda não se lembraram de a privatizar?).
O pequeno prego no prato da balança era ilegal, assim como não é economia tributável a pequena moeda pedida pelo mendigo. Mas os bancos cobram uma pequena comissão sobre as contas à ordem.
E se fizéssemos ao contrário, isto é, se a comunidade não organizada em estruturas públicas fizesse o mesmo que o Estado?
Não digo emitir moeda, como na experiencia de Worgl. O presidente da câmara depositou no banco uma dada quantia e emitiu certificados de conta de igual valor para pagar ordenados. Com estes certificados, de validade temporária para que o dinheiro circulasse depressa (a velocidade de circulação da moeda é proporcional às mais valias geradas), os cidadãos e cidadãs pagaram as suas contribuições, as suas despesas de alimentação e roupas, e a câmara pagou a construção de infraestruturas. Não consta que tivesse havido qualquer “bolha” financeira ou esquema de Ponzi. Apenas que o banco nacional da Áustria interditou a experiencia. Estava-se em 1933, quando a Áustria vivia um regime politico muito semelhante ao que vigorava em Portugal. Ver em:

Mas podia tentar-se a generalização das experiencias em curso pelo mundo fora (não nos querem convencer de que a globalização é a felicidade dos povos?) com a criação virtual de moeda através da Internet (acho que os especialistas de “marketing” poderão chamar a isto a “desmaterialização” da moeda.
As informações seguintes foram retiradas do Dinheiro vivo e depois, de referencia em referencia, da internet.
Curiosamente, a série de sucesso nos USA, Good Wife, em emissão no canal Fox, dedicou um episódio a este fenómeno (Mr.Bitcoin).
Ver sobre a bitcoin, moeda virtual baseada em encriptação e  redes peer to peer,  no Dinheiro vivo em

Sobre redes peer to peer, caraterizadas pela descentralização, tão difamadas por causa da partilha de arquivos violando os direitos autorais, ver em:

Ver tambem as explicações sobre a bitcoin, namecoin e litecoin na Wikipedia:

Não sendo tão complicado como as redes encriptadas de geração automática bitcoin, temos ainda a experiencia catalã da ecomoeda, semelhante ao conceito de banco do tempo, em que cada participante se inscreve na lista de serviços que pode prestar à rede, pagando à rede em horas os serviços que utilizar de outros participantes.
Num país com grande tendência para a economia paralela e de subsistência em domínios restritos, poderia ser interessante tentar estas experiecias.
Ver em:

De salientar ainda a experiencia australiana das redes CES (community exchange system)
Ver uma explicação curiosíssima sobre os graves inconvenientes do conceito da moeda convencional (“a moeda que conhecemos não é um serviço neutro proporcinado pelo governo; o fornecimento do nosso dinheiro vem de instituições privadas numa base de lucro. Este sistema monetário foi concebido para beneficiar os que o fornecem e não os que o utilizam”) em:

A rede bitcoin já foi objeto de regulação nos USA.
Na UE parece que o BCE ainda anda a pensar o que há-de pensar sobre o assunto, mas certamente que achará mal e desconfiará da possibilidade de fraudes, embora a rede bitcoin se auto proteja contra investimentos milionários.
No entanto, tal como na experiencia de Worgl, seria interessante pensar na possível aplicação.
Que tal começar por experimentar na Madeira?



segunda-feira, 15 de abril de 2013

O mercador de Veneza, consultor da troika

Vamos ver se percebi bem.
A divida à troika é de 78 mil milhões de euros.
Deste valor, 26 mil milhões, emprestados pelo FMI, têm de ser amortizados em 13 anos, até 2024, penso que pagando um total de 31 mil milhões (2,4 mil milhões de juros por ano, capital e juros).
Os nossos governantes e os nossos benfeitores, considerando que afinal a recessão tambem se deve aos erros de apreciação cometidos na elaboração do memorando e ao efeito recessivo das medidas aplicadas e da "conjuntura" internacional (estranho, há regiões do globo que nem por isso, mas tambem é verdade que não aplicam as medidas da UE) concederam o seguinte benefício: alargaram o prazo de amortização dos restantes 52 mil milhões de euros de 13 para 20 anos.
Então, aos 52 mil milhões de euros que teriam de ser pagos em em 13 anos, até 2024, corresponderia um valor total pago de 62,5 mil milhões de euros.
Mas como só é preciso pagar em 20 anos, até 2031, então o valor total será de 68,8 mil milhões de euros.
Acho que percebi bem, a oferta que recebemos é ter de pagar mais (não teriamos de pagar mais em valores reais se existir inflação e se a taxa de juro não for mexida, o que é uma hipótese destemida, além de que, se houver inflação, terá de se produzir mais para se obterem os mesmo euros e não haverá aumento de produtividade que consiga ganhar os tais euros).
Com a desculpa de que se paga menos por ano, e de que a taxa de juro nos "mercados" seria o dobro, acham os nossos governantes e os nossos benfeitores que foi uma grande ajuda e ficamos a ganhar.
Como comentou Jeronimo de Sousa, os credores ficam sempre a ganhar.
Shylock, credor de António, o Mercador de Veneza, não faria melhor.

Eu diria que o que ajudaria seria baixar a taxa de juro de 3 para 2 ou 1%, e ajudar este pais a produzir alimentos e energia (assegurando a compra dos excedentes, por exemplo) que lhe permitissem equilibrar a balança de pagamentos.
Mas os nossos governantes dirão que é uma utopia (além dos grupos financeiros e bancos perderem "mercado") e os grandes sábios do direito internacional explicarão que as diretivas comunitárias não o permitiriam (como disse? estas não permitiriam, mas outras, decididas para ajudar a resolver a crise, permitiriam).
A economia tem destas coisas, permite, como diria Dinis Machado,escolher um disparate ou o seu oposto, por maior que seja o disparate, e haver muita gente bem formada e instruida a dizer que sim, que é muito boa solução.





Excerto de "O mercador de Veneza" de Shakespeare, metáfora da ideologia das taxas de lucro e dos cortes. Ver em: 
http://www.elivros-gratis.net/livros-gratis-william-shakespeare.asp


SHYLOCK - Ora essa! Vede como vos exaltais! É meu desejo prestar-vos um obséquio, conquistar-vos a amizade, esquecer-me das injúrias com que me maculastes, suprir vossa necessidade, sem tirar proveito nenhum do meu dinheiro. No entretanto, não me quereis ouvir. É amiga a oferta.
ANTÓNIO - Realmente, muito amiga.
SHYLOCK - Quero dar-vos prova dessa amizade. Acompanhai-me ao notário e assinai-me o documento da dívida, no qual, por brincadeira, declarado será que se no dia tal ou tal, em lugar também sabido. a quantia ou quantias não pagardes, concordais em ceder, por eqüidade, uma libra de vossa bela carne, que do corpo vos há de ser cortada onde bem me aprouver.


Securitarium - Ivalandia, país seguro em 2012




A Ivalandia é um país seguro.
As suas estatísticas nunca foram de confiança, não por causa de quem faz as estatísticas, mas porque a recolha de dados, ou a falta dela, debate-se num mar de dificuldades.
Tal como a exposição e a interpretação dos dados.
Parece que é genético, o ser difícil registar e interpretar dados de forma fidedigna.
Eis porque o relatório de 2012 da segurança interna (RASI)  diz claramente que o crime violento diminuiu (melhor diria que o numero de registos de crime diminuíu) , mas que o numero de homicídios subiu. 
Isto é, morre-se mais, mas morre-se com menos violência.
Não, não é bem assim, não se pode retirar esta conclusão. Houve menos crimes violentos porque o roubo por esticão é considerado um crime violento, e o seu número baixou.
Mas o número de homicídios subiu.
Subiu 27,4%, para 149, quase um homicidio dia sim dia não. Tal como o assalto a ourivesarias.
Evidentemente que os analistas sociais já há muito estabeleceram a correlação entre desemprego e abandono escolar por um lado, e criminalidade pelo outro. Essa correlação considera o tempo de reação entre a circunstancia ativadora da correlação e a manifestação das ocorrências (o tempo de reação entre o abandono escolar e a criminalidade é maior do que entre o desemprego e a criminalidade).
Mas claro que estas correlações são mantidas longe dos discursos dos senhores ministros, enquanto no Parlamento os senhores deputados defensores da politica do governo acusam de irresponsáveis os deputados da oposição que insistem que não é o aumento dos recursos das policias que, por si só, garante a segurança.
Entretanto, para tranquilizar os estrangeiros que habitam em Portugal, especialmente os reformados, são anunciados reforços de meios policiais no Algarve (recordo como há estrangeiros reformados que ainda gostam de viver em Portugal; os azulejos do mercado de Setúbal que forma destruídos pelo desmoronamento da parede sul estão a ser recuperados e substituídos graças ao mecenato do casal Muller, alemães aposentados que se fixaram em Portugal).
Penso que, no contexto recessivo e de aumento de desemprego que se vive, seria essencial uma politica ativa de emprego, tal como está inscrito na Constituição da Republica, por mais que isso contrarie os principios económicos do governo e da troika (o desemprego contem a inflação – lei de Philips).
Divulgar portanto os casos de homicídio, longe de ser um convite ao pânico das populações, será encarado como proposta de mudança de politica securitária do governo, atuando a montante, como prevenção, e não como remédio depois da casa assaltada (aliás, o número de assaltos a casas subiu).
Registo o assassínio em ambiente de grande violência de um cidadão de 78 anos em Moreira de Cónegos em 10 de abril de 2013, com agressões à esposa e à funcionária.
E em 14 de abril, o assassínio do segurança do hotel D.Afonso III em Faro.
Não chega a desculpa da imigração, porque muitos destes crimes são cometidos por portugueses. É natural que, havendo desempregados imigrantes, a sua participação nos assaltos seja proporcional à sua presença no país e à sua taxa de desemprego.
Registo ainda a contenção de custos da FERTAGUS, reduzindo os encargos com empresas de segurança e transferindo as funções de segurança para pessoal interno, numa altura em que as agressões a seguranças aumentam. É claramente um caso de regressão do nível de qualidade do serviço prestado e um exemplo de que as empresas de transporte sofrem as consequências da politica governamental de recessão (por outras palavras, os encargos das empresas de transporte com a segurança contra assaltos deveriam ser imputados à divida púbica e não das empresas).
Contrariamente ao afirmado pela FERTAGUS ao comunicar o fim da contratação de empresas de segurança, o “outsourcing” neste campo pode ser vantajoso para as empresas de transporte, libertando os seus agentes para as funções especificas como transportadoras.
Pensemos como o que deixo escrito deve ser pouco compreendido pelos enviados da troika, em cujos países o indice de desemprego e, especialmente, o indice de violencia nas empresas de transportes, é consideravelmente mais baixo.
E se não compreendem, como podem alterar as suas propostas?

domingo, 14 de abril de 2013

Critica de cinema

1 - Guia para um final feliz - Zut e zut, como dizia o Tintin. Que filme bem feito e bem representado. Como retrata fielmente o problema do relacionamento, especialmente o amoroso,  dos jovens adultos com problemas mentais. Carateriza muito bem e com profundidade as esquizofrenias e as maniaco-depressivas. A industria cinematográfica norte americana funciona muito bem. Devem ter tido consultores de psicologia de elevado nível. Porém, o filme foi feito para dar lucro, e por isso, como o próprio nome indica, tinha de ter um final feliz. Não é o que diz a observação, um final feliz para pessoas com problemas psicológicos. Que filme bem feito, com uma boa história, e como o final feliz estraga tudo (embora a atriz tivesse ganho um Oscar, ou talvez por isso mesmo), para não estragar as audiencias.
2 - Terra prometida - Possivelmente este filme ficará como documento da expansão das prospeções de gás natural pelo método da injeção de água e químicos e fratura subterrânea das camadas de gás de xisto. Os USA conseguiram a autonomia em gás natural (essencial para o aquecimento doméstico) desde 2005 com a utilização desta técnica de perfuração e fratura por pressão hidráulica. A oposição dos ambientalistas tem sido vencida perante as vantagens económicas, como o filme explica, chamando a atenção para os riscos potenciais (há casos em que a fratura das camadas provoca contaminação dos lençois freáticos; chega-se ao extremo de o gás em suspensão na água captada num lençol contaminado permitir a chama na água à saida da torneira. Porem, tambem aqui o final feliz, o happy end apresentado como cativador da simpatia das audiencias estraga o final do filme. O heroi arrosta destemidamente a grande empresa prospetora de gás para quem trabalhava como angariador de concessões pelos proprietários de terrenos, demite-se e fica com a menina professora da povoação rural. Mais um exemplo de final feliz a estragar tudo.
3 - Wellington, filme de Valeria Sarmiento sobre a derrota dos invasores franceses e sobre os sacrificios impostos ao povo português pela mania imperialista de Napoleão. Wellington optou pela construção das linhas de defesa. Era uma conceção que perdurou até à segunda guerra mundial. O responsável português da altura não concordava com esta estratégia. Achava que, se o povo tinha tomado a iniciativa de resistir aos invasores nas suas próprias povoações, o exército defensor não deveria esperar a arremetida do exército francês. Valeu a Wellington a incompetencia dos generais franceses, para alem da politica de terra queimada que lhes dificultava a subsistencia.  Wellington pôde prosseguir a sua luta triunfante contra o tirano Napoleão, mas a soberania portuguesa ficou seriamente afetada e dependente da Inglaterra, para mais prejudicada pela secessão do Brasil.Fica para a história a dúvida sem solução: como teria sido se tivesse prevalecido a estratégia do general português e não a de Wellington? O exército francês teria sido igualmente derrotado? a rapina de obras de arte que conseguiram fazer teria sido a mesma? a evolução politica e o relacionamento com o Brasil teria sido a mesma?

Castrados



Como dizem os franceses, "chapeau" para o cartonista André Carrilho, e a sua metáfora "castrados" no DN Opinião Déjà vu.

A Republica, ou a Democracia, ou a Constituição, violada, e o castigo dos violadores pela Justiça, cega (há quem defenda antes uma castração química, também como metáfora, claro...).
Dirão os violadores que não foi uma violação, que foi a República, ou a Democracia ou a Constituição que, sem burka, e vivendo e exagerando no gozo da  liberdade, mereceu a intervenção e o corretivo.
Faltam de facto mecanismos de defesa, de participação das pessoas de bem de modo a evitar estas coisas.
Mas os tempos são de insegurança, sem dúvida, e de riscos para quem vive em liberdade.

PS - antes que as dificuldades de expressão e de identificação da mensagem do emissor pelo recetor induzam alguém a  pensar que neste blogue se apela à violencia contra a opressão do governo, repete-se que se trata de uma metáfora, de uma transposição para o sentido figurado, como diz o dicionário. Efetivamente, as regras do debate devem ser cumpridas para que haja reconhecimento pelo recetor do que quis dizer o emissor, sendo certo que a lingua portuguesa permite más interpretações. Vejam-se as discussões tormentosas sobre o acordo ortográfico e o "esquecimento", quando se critica o acordão do Tribunal Constitucional com a reprovação das 4 medidas; um pequeno trecho desse acordão recorda que o governo tem toda a legitimidade para legislar sobre os direitos ou sua cassação dos funcionários públicos, mas que não pode violar uma lei que existe, por mais que uma eventual lei, no futuro, revogue essa lei. Nem é uma questão jurídica, é uma questão de lógica comunicacional. Salvo melhor interpretação, evidentemente.

sábado, 13 de abril de 2013

Diálogos de Siracusa - a diferença entre as regiões


Publius Coletius continuou com o seu jeito tranquilo de contemplar o mar enquanto lhe transmitiam as maiores desgraças da sua ilha.
Caio Indivisiu, com quem gostava de comentar as noticias que as trirremes traziam de Roma, lamentava, destroçado, as palavras do imperador, que vituperara a ilha do sul ao saber-se dos resultados do exercício do ultimo ano. 
Ele, grande proprietário da ilha, pagador de impostos e fértil em negócios nas províncias extremas do império, só conseguia retirar rendimento dessas provincias, que na ilha a plebe estava sem poder de  compra.
A ilha gastava demais com os seus centuriões, os seus questores, os seus pretores. Os impostos que mandava para Roma não chegavam para pagar o que Roma gastava na construção de teatros como o de Taormina, no transporte dos cereais, na formação dos construtores de aquedutos e de estradas  e na manutenção do exército.

Publius Coletius - Os prefeitos sucedem-se atarantados como mordidos por tarantulas, passe a redundancia.
Eu já te disse, Caio, o que deveriamos fazer, taxas sobre os agiotas, construção de vias de comunicação de elevada eficiencia energética, mas isso vai contra a vontade do nosso prefeito e do nosso pretor maximus, e quem liga a um pobre funcionário da Àgora, para mais reformado? 
Aproveitemos então para fazer o que o grande Anaximandro e o grande Socrates, de Atenas, faziam, contemplar o ceu e o mar enquanto discorremos sobre as hipoteses das causas de tanta desgraça, de tanta diferença entre as regiões do Império, e de como poderiamos corrigir isso.
Lembras-te quando o grande Spartakus conseguiu unir os produtores diretos do trabalho, os escravos, e fez uma redistribuição de rendimentos?
Os patrícios que não fugiram para Itália viram os seus rendimentos reduzidos e os artesãos, soldados e escravos viram os seus proventos aumentados. 
Agora tudo volta ao mesmo, os rendimentos a voltarem aos grandes patrícios, como tu.
Caio Indivisiu - Muito sofri eu, na altura, mas as coisas compuseram-se
Publius Coletius - Não para o pobre Spartakus, pendurado na cruz como um Cristo
Caio Indivisiu - Ele e os ladrões que o seguiam
Publius Coletius - Não lhes chames ladrões, amico meo, é pouco solidário, e nós homens devemos distinguir-nos de outras espécies pela solidariedade.
Sabes que o nosso código genético é assim, temos uma grande tendencia para a imitação.
Deve ser um  qualquer mecanismo dos nossos neurónios.
Se vemos um grupo de cidadãos com grandes rendimentos interrogamo-nos porque não os podemos ter tambem.
Caio Indivisiu - Ora, trabalhando, como eu.
Publius Coletius - Meu pobre amigo, se fosse assim tão simples... Mas não , só podemos pôr hipóteses. 
Em lugar de crucificar Spartakus, César devia ter dado ouvidos aos sábios da Grécia e substituido a força do escravo pela força do vapor.
Mas repara, não é só a nossa ilha que vive cada vez pior. O próprio imperador se queixa que cada vez falta mais dinheiro para trazer os cereais do Egito e para pagar aos centuriões da Capadócia, e o questor maximus não quer emitir moeda para que os preços não subam descontroladamente. 
Caio Indivisiu -  Mas eles em Roma reequilibram-se, eles conseguem crescer, e aqui, na ilha de Siracusa, as coisas estão cada vez pior, rerum sunt pejus,a situação degrada-se, corrompe-se, situ deteriorativus.
Publius Coletius - Pois é, mas repara que sempre que eles precisam de dinheiro arranjam agiotas que lhes fazem um juro baixo. E a ti que nunca falhaste com os teus pagamentos, que juro te exigem? Ainda tu, que tens propriedades até às faldas do Etna, uma multidão de escravos que trabalham para ti, ainda consegues equilibrar-te, mas os pobres pescadores, os pequenos artesãos, os padeiros, os soldados, os curandeiros, sem sestércios para investir nem para recolher do seu trabalho. 
César devia considerar Siracusa como parte integrante do seu império, e não como provincia subsidária e compradora das carroças e das trirremes que lá são fabricadas. 
Um artesão em Siracusa devia ganhar o mesmo que em Roma quando produz o mesmo. Mas não, o preço final do produto reproduz os custos de produção de todos os fatores. Depois dizem que é a produtividade que é diferente.
Caio IndivisiuQuid faciam? que fazer?
Publius Coletius – Aqui em Siracusa devemos unir-nos, patrícios, plebe, soldados, escravos, pretores, questores, enviados de César e cidadãos. 
Devemos repartir melhor os sacrifícios e os rendimentos. 
Tu podes continuar a ser um grande proprietário, mas os pequenos artesãos, os pequenos agricultores, os pequenos pescadores devem agrupar-se em cooperativas. 
Tempos virão a que se chamará a isso ganhar vantagem de escala. 
E temos de vencer a nossa aversão mediterrânica pela organização do trabalho em equipa,  temos de deixar de lado as nossas inseguranças desconfiadas, temos de nos aplicar a fazer planeamento, planos de transição da inoperância, ou da decadência, ou da hibernação, para o crescimento. 
Mas cuidado com a dimensão da atividade, para que os rendimentos decrescentes não surjam a obrigar a despovoar as cidades, a inviabilizar a gestão das coisas.
Caio Indivisiu -  Sempre utopista, amico meo.
Publius Coletius – Serei, mas acredito firmemente que se Roma e as tribos germânicas pagam melhor aos seus artesãos do que nós aqui em Siracusa é principalmente porque os agiotas lá têm mais dinheiro nos bancos e emprestam a taxas de juro mais favoráveis. 
Não é a diferença no rendimento do trabalho que justifica a diferença entre a nossa sociedade e a sociedade deles. 
Não somos mais preguiçosos do que eles, embora gostemos de apanhar sol nas nossas praias. 
Infelizmente temos de nos render ao maior poder do imperador de Roma, esperando que ele ou os seus pretores nos visitem e vejam como podem remunerar  melhor o nosso trabalho. 
Digo isto porque não quero fazer como Spartakus, embora seja um seu admirador.
Mas deixemos isto, amico meo, e visitemos o templo para com as vestais ofertarmos qualquer coisa à deusa Flora, a deusa do crescimento depois da latência do inverno. 









quinta-feira, 11 de abril de 2013

O coração e as algemas

Ouvido na Antena 2.
Poesia de Camilo Pessanha, musicada por Fernando Lopes Graça em 1971.
Interpretação de Ana Maria Pinto, que falou na transposição da última quadra para o contexto social e financeiro atual.



Na cadeia os bandidos presos!
O seu ar de contemplativos!
Que é das feras de olhos acesos?!
Pobres dos seus olhos captivos.

Passeiam mudos entre as grades,
Parecem peixes n'um aquario.
Campo florido das Saudades
Porque rebentas tumultuario?

Serenos... Serenos... Serenos...
Trouxe-os algemados a escolta.
Estranha taça de venenos
Meu coração sempre em revolta.

Coração, quietinho... quietinho...
Porque te insurges e blasfemas?
Pschiu... Não batas... De vagarinho...
Olha os soldados, as algemas!


                                         em Clepsidra

quarta-feira, 10 de abril de 2013

A ponte D.Maria Pia

Com a devida vénia aos autores de "Os comboios em Portugal", reproduzo duas das ilustrações do volume IV, dedicadas à ponte D.Maria Pia, sobre o rio Douro, inaugurada em 1877.
Ponte de treliças de ferro e arco único
Custo: 2880 milhões de reis  a amortizar em 36 anos
Projeto de Eiffel ou Seyrig
Comprimento: 354 m com arco de 160 m de corda e 42 m de flecha
Altura livre sobre a água: 61 m

Ilustração clara dos sacrifícios sofridos pela população portuguesa. Notar a referencia ao analfabetismo na ultima carruagem, o pilar da miséria e o fumo das ilusões

a ponte serviu até 1991, substituida pela ponte de S.João; é agora um monumento nacional, de manutenção prejudicada pelas dificuldades financeiras


Referencia:  "Os comboios em Portugal", de José Ribeiro da Silva e Manuel Ribeiro, ed. Terramar, 2008

PS em 14 de abril - curiosamente, num dos programas de atualidade politica na televisão, o prof .Viriato Soromenho Marques afirmou que uma das constantes mais marcantes da história de Portugal é o sacrifício do seu povo. A caricatura da ponte de D.Maria Pia ilustra esse facto. Ao longo dos séculos, estoicamente, a classe povo tem recebido das classes dirigentes algumas oportunidades, mas normalmente para manter os privilégios e as fontes de rendimento dessas classes dirigentes, por mais que o senhor ministro das finanças venha dizer que as entidades económicas são espaços de cooperação.





Doutores em economia e comentadores




Choca-me a dificuldade que temos em nos organizarmos.
Pessoas lúcidas que desempenham cargos de visibilidade mediática por vezes tocam na essência das questões e das suas soluções, mas escapa-nos, num instante nos esquecemos do que foi dito e subsiste a nossa dificuldade de trabalhar em equipa.

Uma hipótese é a deficiente estrutura da língua portuguesa em termos de capacidade de suporte de informação inequívoca, a dificuldade em fazer-se compreendida umamensagem (quando se diz que o presidente sancionou quer dizer-se que castigou ou aprovou? quando se diz que o primeiro ministro relevou quer  dizer-se que salientou ou que apagou? porque “pois sim” significa o mesmo que “pois não”? porque não se pode dizer “mais grande”?) .

Outra hipótese é a insegurança crónica de um povo habituado ao longo da sua história à maior das desigualdades, do fausto dos reis da pimenta no Terreiro do Paço à morte pela peste negra nas piores condições de miséria e abandono? do cultivo mais elegante e profundo da palavra de Camões e Fernando Pessoa à permanência da maioria do povo no analfabetismo até ao século XX? E que assim deixa espaço aos yupis intelectuais arrogantes e convencidos que definem as regras que devem ser seguidas.

Pessoas lúcidas já dizem que a força económica de grandes grupos devia ser compensada por cooperativas que ganhassem economia de escala para que as pequenas empresas suas sócias possam competir (cooperativa: 1 voz=1 voto, independentemente do numero de ações).

Pessoas lúcidas  tentam organizar a opinião pública em estruturas intervenientes (não este escriba, incapaz de mobilizar seja quem for).

Pessoas lúcidas pedem a reforma das regras eleitorais, mas as elites que se arrogam a representação da população sobrepõem a sua vontade de querer tudo para o mais votado, a pretexto de facilitar a “governabilidade” (e a prepotência de não ouvir as minorias, também), quando o que se pretendia era dinamizar a participação de todos.

Pessoas lúcidas tentam que o debate dos cidadãos comece ao nível das freguesias e que a opinião dos cidadãos seja canalizada até aos níveis superiores a partir daí. Mas as elites dirigentes e decisórias não querem.

E contudo, não foram as populações que trabalham no seu quotidiano que conduziram as coisas ao estado em que estão.
Foram as elites dirigentes.
Tampouco quem trabalha foi responsável pela crise internacional que se reflete na recessão europeia.

Por isso me chocam a segurança e as certezas dos académicos das faculdades de economia que pregam a cartilha neoliberal da redução do Estado Social.
Ouvi um comentador, ofendido com a reprovação do Tribunal Constitucional, dizer perante as câmaras da TV que o défice é do Estado e que é ele, cortando nos funcionários públicos e nos serviços, que tem de pagar.

Isto num país em que dívida privada ombreia com a dívida pública e em que as elites dirigentes se opõem à auditoria esclarecedora às dívidas para se saber  a quem se deve, avaliar a legitimidade da dívida e a hierarquização do seu pagamento.

Isto num pais em que os académicos se contentam com as estatísticas oficiais disponíveis e ignoram a economia paralela, a de subsistência, a de importação escondida e as isenções de IMI de grandes grupos imobiliários.

Falam portanto com base em valores de PIB, de taxa de desemprego e de importações e exportações que oferecem sérias reservas.
Mas os dirigentes, quer do governo, quer da troika, tudo resolvem com base nesses dados pouco fiáveis.

Por isso falhamos, por não nos organizarmos para esclarecer o valor do que produzimos e para produzir de forma mais eficiente, por não planearmos, por não fazermos planos de transição e adaptação.

Que fazer? como perguntava Lenine, não o senhor professor.
Claro que não devemos querer fazer o que ele, Lenine fez, porque a tecnologia evoluiu decisivamente depois dele (isto sou eu a desabafar, não é o senhor professor; perdoe-se-me o neomarxismo da análise). 
É que neste momento não são precisas correias de transmissão para distribuir a energia mecanica do veio do teto da oficina aos tornos de bancada. 
A ciência política e a de gestão dispõem hoje de mecanismos teleinformáticos de distribuição de inteligência (daí a alusão à raiz dos debates de cidadania ao nível das freguesias) que dispensam a existência de centralismo, a existência de messias num governo que tudo decide. 
Nada impede, nem a nossa instintiva tendencia para  a desorganização, que os governos sejam multi partidários de acordo com as regras da proporcionalidade, incluindo técnicos não dependentes de grupos económicos, de grupos financeiros ou de lóbis de escritórios de consultores e de advogados. 
Não há necessidade hoje de governos que se voltam para a imprensa e dizem: o governo está a estudar esse assunto e depois informará quando tiver o assunto estudado (com mais verdade diria que o governo contratou consultores em quem tem confiança para que eles estudem da forma que lhe agrada, ao governo, a questão).
Não brinco, esta é a tática usada pelo senhor secretário dos transportes quando fala sobre as concessões do metro e da Carris, ou pelo senhor ministro da defesa quando fala dos ofendidos estaleiros de Viana do Castelo, ou pelo senhor ministro da Economia quando fala dos hotéis que são contrapartida dos submarinos ou não são, sabe-se lá se são ou não, ou quando o governo fala da privatização dos CTT ou da RTP.
Ou nem sequer é a tática, quando não fala sobre a taxa sobre as transações financeiras ou sobre o jogo pela internet.

Que fazer, então?
É essencial que se discutam as coisas com conhecimento de causa e não com base no critério carismático da perceção pela população.
As coisas são o que são e as soluções devem ser determinadas pela análise técnica e não pela capacidade de exposição dos comunicadores.
As coisas funcionarão melhor se deixarmos os técnicos em cada área de atividade responder às perguntas do questionário simples: que soluções têm para melhorar a eficiência do seu trabalho? Não foi isso que fez o senhor ministro da saúde, apesar de obrigado a cortes cegos e desumanos? Porque não fazem os outros senhores ministros o mesmo? (na área dos transportes posso garantir que os governantes só querem ouvir áreas restritas de atividade, gostam muito de se socorrer de consultores para os quais não têm conhecimentos técnicos para avaliarem a sua competência, e que não gostam nada de ouvir a opinião dos simples técnicos).

Continuo a pensar que o chefe da esquadra de policia do filme “O ovo da serpente” de Ingmar Bergman, cuja ação decorre enquanto germina o fascismo alemão na cultura de inflação (ou 8 ou 80, para fugir à inflação afundamo-nos agora na deflação) tinha razão: “só quero que cada um faça o seu trabalho, o senhor é trapezista, faça  o seu trabalho; a economia precisa disso” (o que não impede obviamente o debate politico e social, mas exercer a profissão é essencial isto é, não pode haver tanto desemprego; devia ser este o centro do debate, e não é).

O senhor professor universitário de economia, muito apreciado pelos livros que escreve, defende na entrevista de grandes audiências a austeridade.
Que tem a grande vantagem de reduzir o consumo e assim aumentar a poupança, e quanto mais austeridade mais deviam cair os preços da energia, das telecomunicações, das matérias primas e das PPP.
Que os preços não estão a cair o suficiente (Hayeck e Friedmann não diriam melhor).

Perigoso pensar assim, faz lembrar o critério de realimentação: retiramos da saída do quadripolo uma amostra que aplicamos à entrada para aumentar a saída e por aí vamos.
Mas o senhor professor faz um ar zangado quando nega a espiral recessiva de que a entrevistadora lhe lembra os sintomas evidentes, chama a isso um jogo de palavras, e cita estudos de outros académicos que insistem que a austeridade não provoca recessão a prazo de 2 anos.

E explica a origem de todos os males: a baixa produtividade em Portugal, que cada trabalhador tem uma produtividade média de 17€/hora, quando na Irlanda é 50€/hora, em Espanha 30€/hora, na Alemanha 42€/hora e na Noruega 70€/hora.
A entrevistadora faz uma cara surpreendida e triste e pergunta como pode ser e o que é isso de produtividade “para que as pessoas lá em casa possam perceber” (esta ideia que as pessoas não percebem…) .
O senhor professor alegre e professoralmente explica que é por isso que os salários em Portugal são menos de metade dos paises ricos (na verdade, foi a primeira declaração da troika: os salários vão ter de baixar para adaptar o consumo à produção).

Transcrevo, sic:
“O nosso consumo é muito exagerado em relação à nossa produtividade…
É muito fácil explicar o que é a produtividade.
Há um produto que é produzido e é vendido; retiramos dessa venda os “inputs”, isto é, as matérias que foram compradas, a energia, etc. (o rosto da entrevistadora denotava surpresa e dúvida) e fica o resto, ou seja o dinheiro para salários, lucros e impostos, aquilo que se chama no jargão da economia, o valor acrescentado.
 Resumindo, é o preço de venda do produto menos as matérias-primas mais os gastos com os produtos incorporados. No fundo é aquilo que resta  para poder distribuir em salário lucros e impostos. “

E pronto, assim se explica à população, na qual estão incluídos os improdutivos, o quão grave é a improdutividade deles, especialmente quando comparada com a elevada produtividade dos professores universitários de economia.

Permito-me comentar:
O cálculo de 17€/hora consiste, parece-me, na divisão do PIB pela população ativa e da divisão do resultado deste quociente pelo número de horas de trabalho por ano.
Ora, como se disse acima, as estatísticas em Portugal são pouco fiáveis, e a culpa nem é do INE.
Há dúvidas sobre a dimensão da população ativa, há dúvidas sobre o volume da economia paralela que escapa aos registos, há dúvidas sobre o verdadeiro valor daquilo que se produz, se traduz um preço de mercado internacional ou se é um preço imposto artificialmente por prática escondida de damping (basta o governo chinês subsidiar ou facilitar instalações aos seus empresários, ou estimular a sobreprodução para chegar a preços marginais mais baixos, ou fechar os olhos à exportação clandestina de contentores, para que os preços sejam impossíveis de sustentar).
Isto é, o valor acrescentado por hora é mesmo 17€?
Não valerá mais?
Não?
Então porque valem mais os acrescentados de Espanha? por trabalharem mais depressa e melhor?
(Na verdade, parece-me que o senhor professor teria respondido melhor à senhora entrevistadora se tivesse dito que a produtividade é um quociente, e que no numerador está a quantidade produzida, ou o valor acrescentado, e no denominador está o meio ou fator de produção.
Aquele valor de 17€/hora é o produto anual por hora e per capita).
A produtividade pode medir-se em produto por numero de trabalhadores, por unidade de energia, por quantidade de matéria prima, por exemplo no caso de uma empresa de transportes, a produtividade pode medir-se pela quantidade de produto, isto é, de passageiros.km transportados, a dividir pelo número de trabalhadores, ou a dividir pela energia consumida por toda a empresa.

O conceito de produtividade é indissociável do conceito de quociente, é uma taxa, uma relação e não vejo os senhores economistas preocupados em que as pessoas discutam nessa base.
E se discutirem nessa base, conviria que atendessem a quem tem experiencia real, não apenas de gabinete.

Segundo um fabricante português de componentes para máquinas de café, que montou uma fábrica  na Alemanha com 90 trabalhadores, teve necessidade, quando transferiu a sua empresa para Portugal, de dimensionar a sua fábrica para  a mesma produção mas para 120 trabalhadores.
Efetivamente a produção manteve-se, mas a produtividade pessoal baixou (o mesmo não aconteceu com outros fatores de produção como o fabrico de moldes para os componentes, de que felizmente Portugal dispõe de boas condições).
Esse empresário explicava que não tinha preocupações com a menor produtividade pessoal, porque atingia os objetivos físicos, e que qualquer empresário devia contar sempre com isso, pelo menos enquanto se mantivessem as condições desfavoráveis que contribuíam para a baixa produtividade, desde carências de formação a todos os níveis, dificuldades sociais (creches, transporte escolar), pequena dimensão do mercado, dificuldades de transporte, de financiamento, impostos…

Infelizmente, só se vêem governantes e teóricos de organização que o que é preciso é despedir para melhorar os rácios (na verdade, o rendimento energético de um avião aumenta quando o número de reatores diminui, mas o A380 precisa de 4 reatores, não pode despedir nenhum; isto é, o rendimento do conjunto destes 4 reatores é superior ao do conjunto de 8 reatores de metade da potencia unitária; mais uma vez, cada caso é um caso que deve ser estudado).

Ainda bem que o senhor professor entrevistado soube apontar a principal causa da baixa produtividade em Portugal: a baixa intensidade capitalistica, isto é, o baixo nível do capital, dos ativos, dos meios de produção, equipamentos, software, instalações, tudo o que é necessário para que o trabalhador produza.
Mais uma relação, neste caso de 93.000€/trabalhador em Portugal, para uma média de 195.000€/trabalhador na Europa, e que ilustra o mau destino dado ao financiamento em Portugal: virado para bens e serviços não transacionáveis.

E sugere o reforço da dimensão das empresas (não disse, porque o senhor professor defende a lógica da selva de Darwin, que as pequenas empresas devem morrer para que as fortes triunfem, que é bom a austeridade e a crise selecionarem as empresas, mas eu diria que este é um plano estratégico ideal para desenvolver novamente as cooperativas, para ganhar dimensão, agrupando pequenas empresas).

Finalmente, o senhor professor apresentou a sua visão para os cortes na despesa do Estado, que tem de passar dos atuais 46% do PIB para 40% (que era o nível relativo há 15 anos) em 3 anos, o que dá aproximadamente um corte de 10.000 milhões de euros em 3 anos.
Ora, havia uma maneira de não fazer corte nenhum.
Bastava aumentar o PIB de 15% = ((0,46/0,40) – 1) x 100%
Eu sei que é utópico, mas citando José Torres no México, deixem-me sonhar, com um governo inclusivo, sem este primeiro ministro e sem este ministro das finanças, mesmo com este quadro eleitoral, desde que representando todas as sensibilidades.

Referencia: programa Olhos nos Olhos na TVI24 de 1 de abril de 2013 com Judite de Sousa, Medina Carreira e o convidado Avelino de Jesus


terça-feira, 9 de abril de 2013

Dados estatísticos, discretos, de alimentos e importações de bens

Discretamente, a imprensa especializada reportou a informação do INE sobre a variação das importações e exportações de bens de dezembro de 2012 a fevereiro de 2013.
Relativamente a igual período do ano anterior, cresceram ligeiramente as exportações e diminuiram as importações.
Mas continua o defice (trata-se apenas de bens, não estão contabilizados os serviços):
As exportações foram 10.800 milhões de euros, mas as importações atingiram 13.038 milhões.
Saldo negativo: 2.232 milhões de euros.

Numa altura em que se discute a reprovação de 1.300 milhões de euros no orçamento de Estado, convinha pensar que estas importações não são de grande responsabilidade do setor público.
Deveria atuar-se aqui (mas por favor não restrinjam ainda mais a procura, nem baixem ainda mais os rendimentos de quem os tem baixos), nem que fosse necessário negociar derrogações com a UE .
Citando Ronaldo, assim não ganhamos o jogo.

Decomposição dos valores, vendo-se o peso da importação de combustíveis como fator decisivo na inversão da taxa de cobertura das importações pelas exportações (dir-se-ia que conviria reduzir a importação de combustíveis fósseis mediante alternativas renováveis e penalização da utilização do transporte individual com compensação de melhorias no transporte coletivo):




Também recentemente o INE publicou informação sobre o grau de autosuficiencia alimentar, embora com dados de 2010 e 2011:

Tamibém aqui parece muito dificil evitar o aumento da divida através do defice das importações liquidas. Temos de importar 36% dos alimentos que consumimos, só produzimos 80% do que consumimos.
Assim também não ganhamos o jogo, alimentando-nos do pangasio vietnamita e das laranjas da Africa do Sul.

Pontes

Alguns exemplos retirados do livro "Bridges - 75 most spectacular" de que já se mostrou o caso da ponte de Brisbane, construida também para combater a grande depressão na Austrália.
A terceira travessia do Tejo, investimento abortado, poderia também cumprir este objetivo, com a vantagem de poder beneficiar de fundos europeus na quase totalidade e, por o projeto estar pronto (pese embora pessoalmente eu preferisse outro traçado, pelo Montijo e não diretamente para o Barreiro), poder mobilizar melhor os fundos europeus.

- Ponte de Oresund, ligando a Dinamarca (Copenhague) à Suécia (Malmoe):


Tipo: tirantes de aço (cable stayed)
Vão: 490 m
Comprimento: 7,8 km
altura livre sobre a água: 57 m

- Ponte sobre o Bósforo, ligando a parte asiática de Istambul à Europa




Tipo: suspensa
Vão: 1074 m
altura livre sobre a água: 64 m

- Ponte Akashi - Kaikyo (Kobe, Japão):





Tipo: suspensa, antissísmica (notar no canto inferior esquerdo os molhes contra maremotos)
Vão: 1991 m

altura livre sobre a água: 66 m

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Senhor ministro das Finanças, Vitor Gaspar


Senhor ministro das Finanças, professor doutor Vitor Gaspar

Certamente não lerá estas linhas, porque, tal como já escrito neste blogue, vozes de burro, como eu, não chegam ao céu dos escolhidos pelos eleitos, como o senhor ministro.
Para mais, como dizia o outro, dá-me a preguiça de parar depois de começar a escrever.
Eu diria que um dos objetivos principais dos eleitos, dos habitantes do céu que o senhor ministro habita, seria a aproximação do céu à terra, dos escolhidos pelos eleitos aos eleitores.
Se nos aproximássemos desse objetivo podia ser que o que vou escrever chegasse ao seu conhecimento… e talvez então não fosse preciso termos pessoas tão qualificadas como o senhor ministro em lugares tão decisivos como aquele que ocupa.
Pessoas normais, com o espírito de servidor público, fariam os orçamentos de acordo com as leis e o interesse publico, em debate franco e aberto com todas as sensibilidades de cidadãos e cidadãs.
Mas serão utopias.
Os poucos cuja paciência lêem este blogue sabem que desde o proncípio este blogue não acreditou na sua competência.
Pessoa que viveu nas paredes do seu gabinete do Banco de Portugal,  do núcleo dos investigadores do BCE e do grupo de consultores da Comissão Europeia muito provavelmente teria dificuldade em compreender a vida quotidiana de quem trabalha, ou de quem não pode trabalhar, em funções pouco cotadas entre os frequentadores desses gabinetes.
E das suas primeiras palavras depois de tomar posse só se convenceu este blogue de que vinha para iluminar o nosso caminho, e não aprender com quem tem de trabalhar para sobreviver.
Veio depois aquela informação de que tinha sido o senhor, então jovem economista fervilhando das ideia de Hayeck e Friedman, a fornecer os dados errados a Braga de Macedo para dizer aquela tirada antológica na história dos disparates dos ministros das finanças, que Portugal era um “oásis”.
A fé extrema e a insistência sucessva nas medidas de austeridade, partilhadas com o seu primeiro ministro, sem olhar ao efeito desmultiplicador no PIB com a subsequente recessão, a convicção de que cumpre uma missão tanto mais firme quanto mais contestada, que inclui uma mudança de regime político,  o hábito continuado, desde Braga de Macedo, de fazer orçamentos otimistas de rápida necessidade de retificativos, a reação típica de menino contrariado que faz ainda pior depois de ver reprovada a sua proposta, levou este blogue a um diagnóstico de hipomania que mereceria análise rigorosa, apoiada em especialistas de Psicologia, por parte de outros órgãos de soberania se as instituições funcionassem regularmente e entregasse a outros a espinhosa incumbência de reformular o orçamento de Estado.
No  momento em que escrevo, não parece que o Conselho de Estado se pronuncie sobre medidas alternativas ao orçamento que o senhor propôs e o seu primeiro ministro quer ver compensado com medidas provavelmente  mais gravosas do que as reprovadas pelo Tribunal Constitucional.
Também não me parece que algum orgão de soberania consiga fazer valer uma solução normal em democracia , como seja a de, após a verificação de que a politica de um governo está a falhar, e que continua a falahar aplicando a mesma receita ser chamado o partido mais votado para indicar um nme para substituir o primeiro ministro. E caso o partido mais votado não cumpra, ser chamado o segundo mais votado e por aí fora até haver um acordo mais ou menos geral. No nosso caso, como já dito neste blogue, agora que o senhor ex-ministro Relvas já saiu, bastava saírem o senhor primeiro ministro e o senhor ministro. Apesar de outros ministros serem perniciosos para o interesse público, como o senhor ministro da asfixia dos Estaleiros de Viana, mudar de governo assim de repente, tal como mudar de direção de uma empresa em período crítico, é prejudicial. Mas a saída do senhor ministro e do seu primeiro ministro é, do ponto de vista de gestão, uma necessidade para o aumento da competitividade e da eficiência da empresa Estado.

Senhor ministro: há 21 meses que tudo se faz como o governo quer, que até as greves de estivadores e dos transportes se esbatem, que são aplicadas as medidas restritivas e recessionárias que o governo quer, que são suspensas obras públicas só porque o governo quer, que se vendem bens públicos porque o governo de braço dado com os neoliberais de Bruxelas querem, que se asfixiam empresas com capacidade produtiva dos estaleiros de Viana do Castelo e se ameaçam as empresas de transportes com as consequências do falhanço do plano estratégico porque o governo não quer ou não sabe ver mais longe do que os consultores a que servilmente apela.
Mas senhor ministro, este blogue não quer ralhar consigo por querer e não querer o exposto.
Como disse, viver em gabinetes e crer firmemente na cartilha de Hayeck e Friedman de reduzir o “peso do Estado” torna muito difícil ver outras saídas.
Por exemplo, aumentar o PIB.
Se aumentasse o PIB, coeteris paribus, mantendo as outras coisas constantes, a percentagem que o senhor considera a máxima admissível para as despesas do Estado corresponderia a um valor absoluto maior, sem necessidade de cortar mais na Saúde, na Educação, na Segurança Social e nas empresas públicas, não era?
Então porque não aumenta o PIB?
Porque quer manter os custos baixos, como manda a cartilha neoliberal de Bruxelas através de um desemprego elevado, e porque tem dificuldade em aceitar a importância das obras, do trabalho na industria, na agricultura, no mar, em investimentos privados ou públicos.
Não, não estou a invocar a santa concorrência, também sou agnóstico neste campo, estou a invocar a necessidade de estudos caso a caso e da reindustrialização, coisa com que o seu colega da Economia concorda, apesar das dificuldades que lhe são próprias nesta área, considerando a sua qualidade de académico pouco experiente nas frentes de trabalho nas empresas (o senhor ministro está atento à próxima cimeira ibérica, está? ao que os investimentos em transportes com Espanha podem beneficiar o país?).
Mas enfim, vamos admitir que o  senhor ministro é o CFO da empresa Estado que já vendeu ativos, que já absorveu produtos tóxicos, que vê as suas receitas inferiores às suas despesas, e que já não sabe o que fazer depois da reprovação dos cortes pelo Tribunal Constitucional.
Já neste blogue se sugeriu a aceleração da taxa Tobin, em que o senhor prometeu um dias destes pensar, assim como o seu colega espanhol diz para o dia de San Jamás.
Já se sugeriu a aplicação de uma pequena taxa sobre as transações do Multibanco sem repercussão no cliente que já paga contribuições privadas para manutenção da conta, a retoma do uso do cheque ,  até a emissão de vales locais, ao estilo da experiencia de Worgl nos anos 30 da grande depressão na Áustria, o emendar de mão da suspensão de:

1 - o tunel do Marão
2 -  a fábrica de paineis solares fotovoltaicos de Abrantes
3 - o turismo do Alqueva
4 - a exploração das minas de ferro de Torre de Moncorvo
5 - a fábrica de baterias da Nissan em Aveiro
6 - motores e chapa para os asfalteiros venezuelanos
7 -  a fábrica de eólicas da Enercon em Viana do Castelo ,

a luta contra com os off-shores e o sigilo bancário (até o senhor Schauble concorda com a restrição do sigilo bancário), o estudo da história da economia portuguesa e das medidas que os seu antecesores souberam tomar sem castigar ainda mais a população.
Também sugeriu a negociação com a Comissão Europeia de um plano de investimentos em infraestruturas o  mais  próximo possível dos 100%, para anular o argumento do “não há dinheiro e ninguém nos empresta”, ainda que tivesse o governo de voltar atrás e retomasse o projeto das linhas de TGV para Madrid (sim, o projeto já previa serviço de mercadorias, e do lado de Espanha já se avanço; concentremo-nos em chegar de Lisboa e de Sines a Badajoz) e da terceira travessia do Tejo (para uma ligação ferroviária suburbana sem perturbar o tráfego de longa distancia; não é o traçado ideal, como também já se discutiu neste blogue, mas nem este nem ninguém é detentor da melhor solução, e tem a vantagem de estar pronto, o projeto) , mas académicos de gabinete têm dificuldade em aceitar argumentos como o de que 14 aviões de ida e volta a Madrid por dia são um desperdício de combustíveis fósseis quando comparados com uma ligação ferroviária de 3 horas (e contudo, é um problema ao nível da Física do 9ºano e, no que toca às alterações climáticas com origem na atividade humana, do domínio das Ciências da Natureza).
Sugeri também, em Julho de 2012, embora devesse ter dirigido a sugestão ao seu colega Álvaro:

1 - financie o metropolitano de Lisboa para fazer o projeto para o metro de Argel (estudando a extensão do trabalho ao metro de Luanda, Benfica-Cacuaco e Viana-Baixa)
2 - financie uma central solar de concentração de raios solares e sais fundidos no Alentejo
3 - financie uma linha de tensão contínua de muito alta tensão para a França e Alemanha (coisa parecida com a bibitola de Sines para a França-Alemanha).
Se quiser também fazer resorts para chineses, também pode. Quando vou a Macau gosto muito de falar com eles. São pessoas sérias (favor não passe pela cabeça dos empresários enganá-los)

Custa-me portanto ouvir senhores economistas e comentadores repisar a cassete de que ninguém propõe alternativas (o senhor ministro já deve ter ouvido falar no congresso das alternativas e na sua propsota de redução de 2% dos juros para obter 4 mil milhões de euros!!!, e na IAC, iniciativa cidadã para a auditoria das dívidas, para se saber bem onde atuar; considere também alguns manifestos que circulam com propostas concretas e até o think tank para o crescimento sustentado uma visão pós troika, de Moreira da Silva, tão perto de si).
Mas admitamos que um muro mais forte do que o de Berlim nos separa e impede que aquelas e as minhas sugestões encontrem recetividade da parte do senhor ministro ou, para usar um termo de engenharia de comunicações, que o senhor ministro não tem sensibilidade para receber a minha mensagem (ou a minha mensagem é ruído para os seus circuitos de receção).

Então eu tenho uma coisa para lhe propor.
É que, senhor ministro, o senhor ministro não sabe, mas o senhor ministro é meu inquilino.
Ou dizendo de outra maneira, eu sou seu senhorio, e atendendo à situação de debilidade económica e financeira em que o senhor se encontra como inquilino, vou fazer-lhe uma proposta contemporizadora.
Bom, se tem dúvidas se é ou não meu inquilino eu esclareço.
Acontece que há uns anos, meu irmão e eu temos por herança uma casa em Coimbra que tinha sido arrendada à Fazenda Nacional, que era como se chamavam as Finanças nos anos 60 do século passado.
O prédio tinha sido mandado construir pelo nosso avô, poucos anos depois da bancarrota de 1892 (talvez daí a minha sugestão de que o senhor ministro passe os olhos pela história económica portuguesa, porque a bancarrota de 1892 não paralisou a economia, aliás foi declarada exatamente para não paralisar a economia, como se pode ver pelos exemplos da construção da central termoelétrica do Tejo, do complexo industrial da CUF, da concessão da Carris, da aquisição do primeiro submarino português, o Espadarte…) e durante um tempo as Finanças de Coimbra lá funcionaram, num acordo tácito de rendas baixas  mas manutenção pelo inquilino.
Deu-se o caso que sem nenhum aviso as Finanças foram para um prédio novo e no nosso prédio apareceu instalada a direção regional das florestas do centro.
Não gostámos porque nos termos da lei era uma alteração aos fins do contrato.
Porém, um despacho do Tribunal da Relação de Coimbra, com informação de que não admitia recurso, informou que tudo era Estado, Fazenda Nacional ou Direção Regional de Florestas.
Por isso digo que, sendo tudo Estado, o senhor ministro, como representante do ministério das Finanças, Estado é, e meu inquilino também.

Esclarecido este ponto, vamos à minha oferta:
A renda continua barata: 220 euros por mês.
Se aplicarmos o critério de 15 rendas anuais, temos que o valor patrimonial seria (ver a lei do arrendamento da sua colega doutora Assunção Cristas) de 39.600 euros.
Mas não, a douta comissão que avaliou o prédio determinou o valor patrimonial de 278.800 euros.
O que, para 15 rendas anuais, daria para renda mensal o valor de 1548 euros.
Ora, eu compreendo que o senhor inquilino está com dificuldades em equilibrar o seu orçamento.
Perdoe-me a expressão “seu orçamento”, quando poderia invocar que é o orçamento de todos nós.
Será, mas o governo de que faz parte, senhor ministro, foi eleito por 29,7% dos eleitores inscritos (claro que tinha legitimidade para governar, que os outros ainda tiveram menos) numas eleições em que os votantes foram 58,5% dos eleitores inscritos.
E note ainda, senhor ministro, que o senhor presidente da República que avalizou a sua presença no governo depois da reprovação do seu orçamento pelo Tribunal Constitucional foi eleito por 23,2% de eleitores inscritos, numas eleições em que os votantes foram 46,6% dos eleitores inscritos.
Quando tão poucos querem resolver as questões de tantos, quando tão poucos se acham messianicamente incumbidos de uma missão redentora, algo deve mudar nas regras eleitorais, e não é no sentido do reforço de uma só sensibilidade que deve mudar, mas antes no sentido do alargamento da participação, da inclusão.

Mas voltemos às dificuldades do senhor enquanto inquilino.
1548 euros por mês é muito dinheiro e o senhor não pode pagar, por mais falta que me faça uma renda para ajudar a pagar o IMI (a propósito, estamos no fim do primeiro terço de abril e ainda não recebi o aviso de pagamento da AT, autoridade tributária).
Vamos então manter os 220 euros.
Admitamos que os gastos de manutenção que o senhor inquilino tem tido e que me competiriam são outro tanto.
Perdoo-lhe portanto 1548 – (2x 220) = 1108 euros por mês
Não precisa de me dar certificados de aforro em troca, nem bilhetes de tesouro.
Ficamos assim, até o PIB começar a crescer e a fazer reflorir o povo deste país.
Só ponho uma condição, sem o que serei rigoroso no cumprimento da lei das 15 rendas anuais.
Não toque com as suas mãos sem calos no SNS, na Educação dos meus netos, na Segurança Social de quem tem calos nas mãos e nas empresas públicas que prestam serviço público.
Agradecido.


PS em 10 de abril - Ai a reação de adolescente contrariado do senhor ministro a exigir visto nas autorizações de requisições de papel higiénico. Enquanto passa na internet a intervenção de Paulo Morais sobre as rendas excessivas das PPP (é verdade que há um coeficiente reduzido para aplicação de multas por aumento da sinistralidade na auto estrada, e um coeficiente elevado se for bonus por diminuição da sinistralidade?) mas que beneficiam as familias Mota, Melo e Espirito Santo, e os seus funcionários superiores ex ministros Ferreira do Amaral, Valente de Oliveira e Jorge Coelho, e a má disposição de alguns deputados da comissão parlamentar de inquérito às PPP contra Paulo Morais...
PS em 13 de abril - Manda o respeito pela verdade, depois do esclarecimento da Direção Geral do Orçamento, deixar registado que o senhor ministro das Finanças só precisa de autorizar as requisições de papel higiénico que não tivessem sido previstas anteriormente e devidamente inscritas no orçamento de cada ministério.


A ponte de Brisbane

Os senhores economistas renomados  e académicos expuseram com frontalidade as suas convicções.
Que a consolidação orçamental provoca recessão, mas que os estudos já realizados indicam que ela será mais suave se for pelo lado do corte das despesas.
E que o Estado não tem dinheiro para fazer investimentos.
Falavam para uma pequena plateia de técnicos e disseram qualquer coisa de muito parecido com o ser inconveniente deixar os critérios da engenharia conduzir os processos de investimento em infraestruturas. Que isso justificava a ineficiencia dos investimentos feitos anteriormente que ajudaram ao estado atual das finanças públicas.
Um dos técnicos que assistiam ainda argumentou que há poupanças que poderiam ajudar a financiar novos investimentos em infraestruturas.
Outro lembrou que existe o Horizonte 2020, sucessor do QREN, disponibilizando fundos europeus para cobrir 85% do investimento, que o restante financiamento também poderia ser negociado com a Comissão Europeia e que a grande dificuldade está na exigencia de projetos bem elaborados para ganhar a candidatura aos fundos, sendo muito pouco provável desenvolver projetos quando os decisores não têm uma visão abrangente que lhes permita definir estratégias.
Outro falou na ineficiencia energética do transporte rodoviário individual como justificação dos investimentos no modo ferroviário, para combater o desperdicio dos combustiveis fósseis que se queimam de forma supérflua e que ocupam 40% na fatura da importação de energia primária.
Mas os senhores economistas académicos não se comoveram.
Os seus manuais, o seu  "mantra", a sua "bíblia", mandam dizer que se deve cortar na despesa pública, congelar os investimentos, e deixar esta função para a parte privada.
Continuaram a achar que os engenheiros têm tendencia para ver as despesas como investimentos com retorno sobrevalorizando os benefícios.
É possível, tudo é possível neste mundo, até o impossível, ou quase.
Por isso me lembrei da teoria da armadilha da pobreza, que diz que na parte inferior da curva dos rendimentos, é inutil investir porque o investimento não gera retorno (estamos sempre caídos no mesmo, só aumentando o PIB se consegue sair duma recessão, e como o investimento privado se faz rogado...).
Mas os senhores economistas académicos não gostam de ouvir falar na armadilha da pobreza.
Eis porque me lembrei da ponte de Brisbane, na Austrália.

Ponte Douglas Story, em Brisbane

A construção da ponte foi decidida em pleno período de recessão dos anos 30 do século XX para resolver o problema da ligação do suburbio de Fortitude Valley ao centro financeiro de Brisbane e para dar trabalho aos cidadãos.
A construção decorreu de 1935  a 1940.
Foram utilizados 89% de recursos locais (esta é a parte que me pareceu escapar aos senhores economistas académicos: centrar o debate na utilização de recursos nacionais; como é recorrente escrever-se neste blogue, um país não é sustentável quando importa 75% dos seus alimentos e 75% da energia primária que consome).
Projeto de John Bradfield.
Tipo da ponte: consolas de treliças de aço.
Vão: 282 m
Comprimento: 777 m
Altura livre sobre a água: 30 m

E tambem me lembrei que nos anos 30 do século passado ainda a escola de Chicago de Hayeck e Friedman não tinha estruturado o seu pensamento que se disseminou como um vírus pelas instancias decisórias, de Reagan/Goldman Sachs e Thatcher aos gabinetes dos consultores da Comissão Europeia e do BCE.
Pontes de Brisbane, precisam-se, nalguma  Europa da segunda década do século XXI, na sequencia da depressão provocada pela especulação revelada nos anos 2007 e 2008.


Referencias:  "Bridges - 75 most spectacular" , Ian Penberthy, ed.Grange Books, 2008