segunda-feira, 24 de novembro de 2014

ciclo de conferencias Portugal 2020

Ao dinheiro vivo, suplemento económico do Diário de Notícias, organizador de um ciclo de conferencias sobre a utilização dos 21 mil milhões de euros de fundos europeus até 2020.



A propósito do anuncio da vossa iniciativa "Conferencias Portugal 2020", a  qual merece aplauso pela oportunidade e pela utilidade, venho sugerir uma correção ao texto do anuncio.

Referem V.Exas no anuncio que "A prioridade é a deslocação do investimento das infraestruturas, onde estamos acima da média europeia, para a competitividade e internacionalização das empresas".

Ora, sendo certo que os índices de auto-estradas nacionais estão acima da média europeia, já não se poderá dizer o mesmo de setores essenciais para a economia como as infraestruturas ferroviárias, de águas e saneamento, portuárias ou aero-portuárias.

Nestas condições, os termos referidos do anuncio podem induzir em erro a opinião pública, fazendo-a crer que também nos setores em que Portugal ostenta um atraso enorme relativamente à Europa o investimento deveria deslocar-se das infraestruturas para o apoio às empresas.

Deve ainda referir-se que o atraso nas comunicações ferroviárias, quer de passageiros, quer de mercadorias, se traduz em grave desperdício energético considerando a menor eficiencia energética dos modos aéreo ou rodoviário e a grave dependencia do setor de transportes relativamente à importação de combustíveis fosseis.
  
Acresce que o investimento no setor ferroviário é suscetível de contribuição a 85% de fundos comunitários, o que contribuirá para a redução do defice orçamental. Chama-se a atenção para que o seu aproveitamento exige a apresentaçãoà comissão europeia  de programas-base de empreendimentos credíveis até ao mês de fevereiro de 2015, o que, pela proximidade, exigiria que já se estivesse vivendo um período de amplo debate público sobre as escolhas a fazer.

Pelas razões expostas me parece que seria útil alterar o texto do anuncio.

Melhores cumprimentos e votos de sessões produtivas.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Sugestão para uma greve

“Para propósitos sociológicos, uma cidade pode ser definida como um estabelecimento relativamente grande, denso e permanente de indivíduos socialmente heterogéneos”.
                                       Louis Wirth, “Urbanism as a way of life”,1938, citado por  
                                       cartaestrategica.cm-lisboa.pt

Lisboa, “um lugar de muitas e variegadas gentes”
                                      Fernão Lopes, Crónica de D.João I


São 16:30 de um dia normal de segunda feira.
Se normal poderemos chamar a um dia em que grande parte da população ativa, como definem os manuais de estatística, não precisou de viajar de metropolitano porque está desempregada.
Mas a cidade pulsa, apesar de tudo, apenas a um ritmo mais modesto, dir-se-ia que abaixo das suas potencialidades, e o comboio de 3 carruagens na linha verde do metro segue quase cheio.
Indiferente à polémica que os comentadores bem falantes e os comentadores dos comentadores nas suas caixas de comentários da internet vão alimentando sobre os problemas da empresa, rasgando as vestes sempre que, perante a ameaça da subconcessão a privados, são decretadas greves.
Serão fechados os rostos de quem entra na carruagem, atormentados pelos parcos ganhos de um dia de trabalho, compensada a tristeza pelo bulício dos jovens estudantes.
Mas repare-se melhor.
Os sons eslavos da senhora loura com o cabelo apanhado atrás que não se cansa de falar no telemóvel batalhando os seus com os sons que se cruzam com ela da conversa entre dois indianos que a ladeiam. Mais atrás, um turbante sik, mesmo ao lado de um cidadão talvez angolano que poderia ser um basquetebolista da NBA com os seus dois metros de altura. O rapazinho negro que está sentado ao lado não deixa o jogo do seu telemóvel.
Entram de rompante em Martim Moniz duas chinesinhas e um senhor chinês mais velho.
E há tambem a italiana de brinco na narina que responde ao seu acompanhante com a sua voz musical.
E a mulatinha brasileira, as duas turistas inglesas, a suave cabo-verdiana e a senhora de traços de uma qualquer ilha do Pacífico.
O senhor já de idade, japonês, que ar tão sereno, sentado entre dois caucasianos, comigo são três, ao todo, que a italiana e o acompanhante já saíram,   neste bocado da carruagem.
Que eu não tenho a certeza de ser caucasiano, a avaliar pelo cabelo frisado, de caracóis de período curto, da minha tia e do meu tio. Dizia-se que um africano do norte de África tinha vindo dos campos do Alentejo até à aldeia da Beira da minha bisavó e nela deixara os seus genes.
Da diversidade pode ser que retiremos a recuperação futura, deste “melting pot”.
Chegamos a Arroios e é aqui que deixo a sugestão.
Arroios é a única estação em cujos cais não cabem comboios de 6 carruagens.
A sugestão é simples, a de chamar a atenção para a necessidade da obra de ampliação.
Eu sei que o colega arquiteto já tem o projeto pronto, mas faltará vontade dos decisores da empresa de submetê-lo a candidatura dos fundos comunitários de coesão.
Se a linha verde é uma linha da globalização, do paquistanês das lojas de telemóveis do Intendente, da chinesinha bonita da loja chinesa de frutas da praça do Chile, aos turistas dos hotéis da Almirante Reis, há que disponibilizar alguns excedentes dos países ditos desenvolvidos da União Europeia para  reduzir o défice nacional.
É que a fórmula do saldo orçamental é dada pelo investimento privado mais investimento com fundos comunitários, mais exportações, menos importações e menos poupanças.
Eu sei que os portugueses não gostam de matemática, mas esta é uma fórmula simples.
Voltando à sugestão, vamos tentar juntar o útil ao agradável, aproveitando as características paradoxais, ou a dualidade, do que quer que seja.
A próxima greve poderá ser declarada como parcial, com o fecho da estação Arroios. Como serviços mínimos poderemos definir 4/5 dos comboios do serviço normal. Só que os comboios do dia da greve serão de 6 carruagens.
Isto é, a capacidade horária da linha, em dia de greve, porque está fechada a estação Arroios, subirá 60% apesar de haver menos comboios e menos maquinistas, por ser dia de greve. Assim se conquistaria a simpatia dos passageiros para com os objetivos da greve.
Poderá até pensar-se numa navette com dois autocarros elétricos cedidos pela EFACEC (um deles de reserva) para circulação entre as estações de Anjos, Arroios e Alameda.

E passada a greve, poderá pensar-se em fazer a obra, dando prioridade ao acréscimo dos cais, para o serviço da estação não estar interrompido muito tempo.

PS em 20 de novembro - poderá parecer ligeiro o modo de abordagem, possivelmente para quem possa levar-se a si próprio a sério demais. Mas há um assunto que parece estar a transformar-se num pesadelo para o país. Termina em fevereiro de 2015 o prazo de apresentação de candidaturas á comissão europeia para fundos comunitários. Grassa entre os decisores a ideia de que as verbas devem ser transferidas das infraestruturas para os apoios às empresas. Não vão ser apresentados projetos de infraestruturas, apesar do trabalho do grupo dos IEVA e apesar da orientação europeia de melhorar a eficiencia energética dos transportes. O periodo de aplicação dos fundos vai ser mais um tempo de imobilismo, que nos tempos que correm equivale a uma regressão. É doloroso.


domingo, 16 de novembro de 2014

O autocarro de Mangualde – mininovela surrealista em que dois universos diferentes partilham breves momentos, em mais uma manifestação de reformados do metropolitano



Os factos reais ocorreram em 11 de novembro, e foram mais uma manifestação dos reformados do metropolitano de Lisboa a quem o governo eleito em 2011 com promessas de não reduzir os salários fez isso mesmo, cortando a 1400 reformados, em média, 50% dos seus rendimentos  (640 euros por mês).
O primeiro facto surrealista desta história será isso mesmo.
Como pode o governante achar que 1300 euros de pensão de segurança social mais complemento de reforma é um prémio imerecido para alguém, por ter sido um privilegiado na sua vida profissional, apesar de lhe ter sido requerido ser um profissional qualificado dadas as exigências de segurança de um metropolitano?
Surrealismo de insensibilidade de quem nem repara no que está a destruir... hipocritamente se desculpando com a miséria da maioria das pensões .
Mas nós abraçamo-nos e fazemos graça com a nossa persistência no prazer do reencontro e da recuperação das nossas maleitas.
Embora com tristeza troquemos a informação, Maria e Idalina já não vão aparecer mais, que o cancro do seio não perdoou, nem Pedro, que o cancro do pâncreas foi fulminante.
Surrealismo de obsessão psico-patológica ou de simples ignorância por inexperiência juvenil… visão tubular, que impede a perceção do que está ao lado… afeção hipomaníaca de quem se sente predestinado para a salvação de um povo…
Ninguém exigiu que não lhe tocassem nos rendimentos, numa altura em que a maior parte da população sofre restrições, mas cortar 50% ? Sem negociar? Sem sequer colocar a hipótese de passar um papelinho a dizer, nós, governo, ficamos-vos a dever um tanto que vos pagaremos quando pudermos, ou vamos isentar-vos de impostos no montante do que vos cortamos.
Não é assim que fazem os bancos e respetivos fundos de pensões?
Surrealismo de tratamentos diferenciados…
- Acha que é eficaz, continuarmos a fazer estas manifestações? Eu telefonei a 4 ou 5 colegas que nem sabiam, e até estão aí – isto me perguntava o mestre serralheiro, que me habituei a ver resolver problemas para que os comboios pudessem circular em segurança em cima dos aparelhos de mudança de via, as agulhas, como lhes chamamos.  
- Bem – respondi -  isto só se resolve quando este governo se for embora. Estão obcecados, não vão mudar. Mas devemos continuar a vir. A liberdade de expressão é sagrada e é bom que mostremos que estamos vivos. Nós, portugueses, somos assim, fechamo-nos quando somos vítimas de um ataque, como este vírus austeritário. Recusamos o convite de Julio Cesar para descer das montanhas, que a produtividade da exploração agrícola na planície é mais elevada, mas aos poucos reequilibramo-nos. Descemos das citânias para a planície. Havemos de recuperar.
Eis que o segurança da secretaria de Estado nos chama para uma entrevista com dois assessores do senhor secretário de Estado, mas também só duas pessoas.
Sobe a comissão por entre os doze polícias de choque que guardam a entrada ao gabinete do assessor que é conterrâneo do senhor secretário de Estado.
Tem a pronúncia doce das terras de Mangualde, expressão corrente da solidariedade entre as pessoas, contrastando com a insensibilidade perante o sofrimento alheio, como se fosse a expiação de um novo pecado por de mais ou por de menos original ou crónico.
Não aceita o argumento de que em nenhuma parte do mundo a exploração de um metropolitano gera receitas suficientes para cobrir as despesas.
Repete o mantra do senhor secretário de Estado que quer inovar, quer reduzir custos e chegar ao EBITDA positivo.
Um dos nossos lhe diz que não precisa de invocar a inovação porque tecnologicamente , enquanto pôde investir, o metropolitano inovou ao nível dos metropolitanos dos países desenvolvidos.
Que são os técnicos, não os economistas, que estão licenciados para analisarem a consistência, para utilizar um conceito anglo-saxónico, das propostas de inovação.
E não resistiu a contar ao assessor o caso da inovação da tela do contentor de hidrogénio do zepelin Hindenburg, recém inventada pela industria química alemã dos anos 30. A superfície era tão lisa que o atrito era muito menor do que nos outros zepelins e por isso consumia menos combustível e navegava mais depressa. Porém, as suas características dielétricas levavam a que se acumulassem cargas elétricas que provocaram o incendio fatal quando o cabo tocou a torre de amarração.
Ou a inovação da querena italiana, que permitiu ganhos extraordinários no transporte da pimenta e da seda da Índia no século XVI. Ganhos extraordinários e um aumento exponencial nos naufrágios por debilitação das estruturas indevidamente reparadas por falta de vistoria e calafetagem a seco dos cascos. A calafetagem era mais rápida deitando a nau no próprio rio, sem a pôr a seco. Os armadores poupavam, mas morriam mais marinheiros.
Insensível ao argumento, o assessor encerrou a reunião mostrando-se muito menos preocupado com a questão dos complementos de reforma do metropolitano ou com a concessão do metropolitano do que com a concessão da rede de autocarros da sua terra.

Saiu do edifício da secretaria de Estado para uma rua deserta dos manifestantes. Dos que até aqui se falou.
Estranhou, quando se voltou, já não ver o segurança, como se ele tivesse desaparecido assim que passara por ele.
As pessoas vestiam-se de forma esquisita e quase todas falavam uma língua estrangeira.
O café em frente tinha mudado, era agora uma loja-oficina de artesanato sofisticado. O restaurante da esquina transformara-se num escritório envidraçado onde se programavam jogos de computador e de vídeo. Ao lado uma loja de venda de imobiliário a estrangeiros com benefícios fiscais e ao fundo da rua, no largo, uma assembleia de turistas em animação promovida pela agència de turismo de Lisboa. Saem do próprio edifício que abandonara torrentes de jovens de pele e olhos claros, em idade fértil e de pujança intelectual - não haverá empregos em que se ocupem, na sua terra? – clientes constantes de apartamentos de alojamento local.
Arrancou com o carro que era da secretaria de Estado, queria ir a Mangualde, a uma sessão com o secretário de Estado e as autarquias da região, para analisar projetos industriais a beneficiar dos fundos comunitários e, naturalmente,  discutir a concessão da rede de autocarros urbanos e a sua vertente porta a porta com táxis, mas não os queria elétricos, que não era esse o interesse do setor importador automóvel.
Mais uma vez estranhou, subindo  a rua da Misericórdia, as pessoas e os objetos desapareciam rapidamente no retrovisor, à medida que o carro avançava, como se o mundo se fechasse atrás dele, ou se saísse de um tempo e de um espaço e entrasse noutros muito diferentes.
Estaria a assistir à destruição de um mundo? Recordou desagradado o que um velho professor lhe tinha dito, “vocês destroem o que outros construíram, transformam em ruina o que tocam”.
Como um autómato sem cognição chegou a Mangualde. Não encontrou o edifício que lhe tinham indicado para a sessão.
Vagueou desorientado. Sentou-se num banco de pedra do largo do doutor Couto, olhando a boca rotunda da avenida.
Surpreendeu-se ao perceber que esperava o autocarro do princípio da noite.
Toda a noite arrostou o frio, esperando agora o autocarro da madrugada.
Mas nenhum autocarro chegou, ninguém viajou no autocarro.
Ninguém vem a Mangualde.
Tudo é diferente agora, fábricas fechadas depois que ele e o seu secretário de Estado passaram pelo governo, a promessa incumprida de uma outra linha de caminho de ferro, construída segundo a tecnologia dos novos dias e de bitola europeia, o projeto afogado nas discussões estéreis dos conceitos de transporte de passageiros e de mercadorias enquanto se perdia a oportunidade dos fundos comunitários, a população fechada sobre si própria em economia de subsistência nas terras a que tinham retornado.
Ninguém vem agora a Mangualde, nem descendo na antiga gare, do comboio de via ibérica.
Não chega nenhum autocarro vindo da antiga gare.
E ele lá continua, surrealmente imune às intempéries, de metabolismo suspenso como um país paralisado por um veneno e desintegrado no tempo, no banco de pedra do largo do doutor Couto, olhando para a avenida, esperando o autocarro que não vem.
E contudo, a esperança renasce e move-se, contrariando os surrealismos desta narração, desceremos das montanhas, pelo nosso pé.


domingo, 9 de novembro de 2014

Senhor secretário de Estado

Exmo Senhor Secretário de Estado

Sou um reformado do metropolitano de Lisboa e, como tal, do seu ponto de vista, um co-responsável pela dívida da empresa superior a 4.000 milhões de euros e EBIDTAs sucessivamente negativos, que usufruiu de privilégios comparativamente com a população que a empresa serviu.
Mereci portanto, ainda segundo os seus critérios, o corte do complemento de reforma acumulado com uma redução da pensão da segurança social da ordem de 20%, com outros pretextos.
Assim como eu, cerca de 1400 colegas.
Como diz o professor João Cesar das Neves, a discussão sobre o incumprimento do contrato que vinculava a empresa ao pagamento dos complementos de reforma será estéril, por mais que eu recorde que os vencimentos no metropolitano quando a maioria de nós foi admitida era de cerca de 70% do que se ganhava nas empresas privadas para igual qualificação.
Não vale portanto a pena recordar isso, nem que a dívida foi engrossando através da assunção pela empresa do que deveria desde o início estar inscrito nas contas do Estado, como sistematicamente rezavam os relatórios e contas do metropolitano.
Nem vale a pena recordar que a dívida privada portuguesa, apesar das transferências habilidosas de um ou outro governo, para a parte pública, ultrapassa a dívida pública, nem que a dívida da PT é quase dupla da do metropolitano, nem que a da EDP é quase quintúpla.
Muito menos vale a pena recordar os bons indicadores de performance do metropolitano, apesar dos cortes sofridos na manutenção e nos quadros de pessoal, quando comparados com os dos homólogos.
Nem tão pouco as experiencias negativas tidas em Londres com as privatizações, nem destacar as fontes de financiamento dos operadores públicos franceses.
Falei nisto apenas porque tive alguns contactos com outros metropolitanos enquanto fazia a minha vida profissional no de Lisboa, desde um tempo em que V.Exa era criança, acompanhando a evolução tecnológica que fomos aplicando ao nosso metro à medida que ele crescia, não tanto como desejaríamos, mas duma forma que está à vista de todos nos tempos que correm, apesar das ameaças.
E é afinal por isso, por termos um metropolitano, e por termos um secretário de Estado que não retira dele o que ele pode dar, preferindo restringir a sua atividade até caber no conceito da concessão que tão caro é a V.Exa, que lhe escrevo desta forma. Porque o metropolitano de Lisboa, tal como como grande parte da população portuguesa, vive claramente abaixo das suas potencialidades.
É que os metropolitanos servem para transportar pessoas em áreas metropolitanas segundo critérios de eficiência energética.
O seu colega de governo, da pasta da Energia e Ambiente terá certamente grande prazer em explicar-lhe como o país perde dinheiro todos os dias porque 60% das deslocações diárias são feitas de automóvel, cuja eficiência é de 250 Wh/passageiro.km, quando no metropolitano é de 140 Wh/passageiro.km, todos os componentes incluídos, do poço de petróleo à roda num caso e do parque eólico e do poço de gás no outro .
Claro que V.Exa, sorridente, dirá que é para isso que vai concessionar. Para que os privados sirvam os interesses da população graças ao seu saber como.
Já reparou, quando diz isso,  que está a chamar incompetentes a mim e aos meus colegas que permanecem no ativo? Que contas simples e a análise dos indicadores mostram que o diferencial de uma eventual maior eficiência é inferior ao lucro exigido pelo acionista? Que é o interesse do acionista que está na primeira linha e não o interesse da população que paga 7.000 milhões de euros de juros e 7.000 milhões de euros de importação de combustíveis fósseis? E que o critério de votação nas assembleias gerais dos acionistas não respeita o princípio básico da democracia, uma voz, um voto?
Eu , que vivi uns anos nesta problemática, lhe digo que não, que a concessão não será boa para a população e para as contas públicas.
Que o problema está, e afinal por isso lhe escrevo, que temos um secretário de Estado que não faz ideia da problemática dos transportes urbanos.
Estou a citá-lo, não estranhe.
É que também o ouvi na sessão promovida pela ordem dos engenheiros sobre a localização do terminal de contentores (como V.Exa sabe explorar tão bem, para chegar aonde quer, a dificuldade de trabalho em equipa dos portugueses, engenheiros ou não, a dificuldade em sintetizar as variáveis técnicas e todos os componentes das análises de custos-benefícios de um problema complexo, de modo à decisão resultar da comparação de pelo menos 3 hipóteses de solução, a dificuldade de apresentação antes de fevereiro de 2015 de projetos credíveis para ligar Portugal à Europa…)
 Mas para o ouvir esperei 45 minutos depois da hora marcada.
É verdade que V.Exa pediu desculpa, como qualquer pessoa bem educada, mas distraidamente porque deixou escapar “não fazia ideia que ia levar 45 minutos da Horta Seca até à ordem dos engenheiros com  o transito que estava”.
Se tivesse utilizado o metropolitano, em termos médios teria gasto sem pressas 25 minutos e poupado o tal diferencial de 100 Wh vezes 3 km.
Está a ver, 20 minutos a multiplicar por 400 assistentes, temos de contabilizar o valor da hora.homem, mais os 300 Wh do diferencial e a poluição correspondente, da ordem de 500 gramas de CO2.
Ora este é o meu ponto, os governantes (não me refiro aos ciclistas holandeses e aos dinamarqueses) estão habituados a andar de motorista (valha que o seu colega da Energia e Ambiente ameaça  pô-los a andar de automóvel elétrico), não parece terem a noção do que é um transporte ferroviário urbano.
Por isso lhe escrevi, para o ajudar a ter essa noção, que penso deveria sobrepor-se à obsessão concessionária.
Com os melhores cumprimentos

Fernando Santos e Silva, reformado do ML   R-3071

sábado, 8 de novembro de 2014

Monsieur Juncker

Non, M. Juncker .
Vous êtes très sympatique pour moi,    vous comprennez le
portugais, pour le bien ou pour le mal .
Certes vous êtes une personne sérieuse et bien intentionné .
Mais non, non et non .
Ce n’est  ce que vous dites.
Qui comme moi vous observe de l’exterieur, voit bien que,
oui, vous étes devant une bande de bureaucrates .
C’est pas une offense, c’est une constatation .
Les bureaucrates n’ont pas l'humilité de comprendre le faible .
Ils se détendent dans les bureaux qui sont loin des faibles et ils veulent imposer des solutions sans analyser les conditions réelles .
Ou, comme ils diraient, sans confirmer que les réductions prévues ne causeront pas une récession presque double,ou que le point de la courbe pour l'investissement recommandé est loinde la zone piège de la pauvreté et assure leur retour.
Je regrette de dire ça d'une bonne personne, mais vous avez présidé le gouvernement d'un pays qui est un vrai "off-shore" qui aspire les richesses des pays les plus faibles,comme les puits puisent les eaux souterraines.
Votre pays n'est plus industrielle,il est presque entièrement financière.
Et n'appelez menteurs aux premiers ministres qui sont en désaccord avec vous.

Merci.




Não, senhor Juncker.
O senhor é-me muito simpático, até porque compreende o português, para o bem ou para o mal.
É certamente uma pessoa séria e bem intencionada.
Mas não, não e não.
Não é o que o senhor diz.
Quem como eu o observa do exterior tem a visão de que sim, o senhor está à frente de um bando de burocratas.
Não é uma ofensa, é uma constatação.
Os burocratas não têm a humildade de compreender os mais fracos.
Reclinam-se em gabinetes que estão longe deles e querem impor-lhes soluções sem analisar as condições reais.
Ou como eles diriam, sem confirmar que os cortes que receitaram não vão provocar uma recessão próxima do dobro do que cortam, ou que o ponto da curva em que recomendam o investimento está longe da armadilha da pobreza e assegura o seu retorno.
Lamento dizer isto de uma pessoa simpática, mas o senhor presidiu ao governo de um país que é um verdadeiro "off-shore" que suga as riquezas dos países mais fracos, como os poços atraem a água subterrânea.
O seu país já não é industrial, é quase só financeiro.
E não chame mentirosos aos primeiros ministros que não concordam consigo.
Obrigado.


PS em 6 de novembro - Coincidência, nem de propósito, esta notícia de hoje:

Honra à investigação do Monde, Guardian e Zeitung. E reparem que a PriceandWaters Coopers é aquela financeira para onde foram os diretores de supervisão que sairam do banco de Portugal.
Um grande defeito das pessoas consideradas espertas é pensar que os outros são burros.

As informações em que me baseei para escrever o texto foram tiradas de Gabriel Zucman, "A riqueza oculta das nações", ed.Temas e Debates, círculo leitores.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Os trabalhos da mão

Graças à Antena 2, conheço este poema de Eugénio de Andrade, "Os trabalhos da mão":

Começo a dar-me conta: a mão
que escreve os versos
envelheceu. Deixou de amar as areias
das dunas, as tardes de chuva
miúda, o orvalho matinal
dos cardos. Prefere agora as sílabas
da sua aflição.
Sempre trabalhou mais que sua irmã,
um pouco mimada, um pouco
preguiçosa, mais bonita. 
A si coube sempre
a tarefa mais dura: semear, colher,
coser, esfregar. Mas também
acariciar, é certo. A exigência,
o rigor, acabaram por fatigá-la.
O fim não pode tardar: oxalá
tenha em conta a sua nobreza.

sábado, 1 de novembro de 2014

Agora, trabalhos forçados e corrupção






Agora, que vivemos sob o ímpeto desmantelador do conceito do metropolitano como serviço público prestado por um operador público, e menosprezador dos seus ativos humanos, físicos e intangíveis, faço esta reflexão a propósito da reportagem do DN/Magazine de 26 de outubro de 2014, sobre os trabalhos forçados a que alguns idosos estão sujeitos pela falencia da politica de proteção aos mais desfavorecidos.
A foto é retirada da reportagem.



No longínquo ano de 1972, quando cumpri o serviço militar no Porto, havia duas tarefas que os oficiais do quadro, alguns dos quais futuros capitães de abril, mas que nessa altura ainda nos diziam que não podiamos falar sobre o problema de Angola sem lá ir (felizmente eles foram e compreenderam), de bom grado deixavam para os milicianos executarem.
Uma era o acompanhamento dos funerais dos soldados mortos nas colónias nas suas terras. Tive a sorte de nunca ter sido escalado.
A outra, que por várias vezes executei, era o chamado processo de amparo, que encerrava alguns riscos. 
Tratava-se de entrevistar a família de soldados que se reclamavam de ser o unico sustento ou amparo da familia e que portanto solicitavam a isenção da mobilização para as colónias. 
Os riscos eram os de poder vir a ser acusado, em eventual recurso do exército, de excesso de generosidade, a que hipocritamente se poderia acrescentar a injustiça de um tratamento diferenciado relativamente aos que partiam para a guerra (como tudo neste mundo, realça-se um aspeto acessório quando não se quer enfrentar o problema principal, a indignidade da guerra colonial em si mesma).
Recordei isto ao deparar-se-me esta foto, de uma senhora de 81 anos, doente, que ainda trabalha quando pode e não pode a lavar escadas e que recebe a pensão mínima (lá está, eu e os privilegiados reformados do metropolitano, que protestamos porque nos cortaram um complemento de reforma superior à pensão mínima, e disso somos acusados napraça pública, por quem acha que não deve antes criticar a magreza da pensão mínima).
Recordei-me porque a imagem se sobrepôs à registada na minha memória quando visitei outra senhora numa habitação semelhante, nas realidade uma arrecadação num pátio de uma vila nas Fontaínhas.
O mesmo teto de tábuas imbricadas, numa tentativa de isolamento térmico, as cortinas, a pobreza.
À saída, depois da entrevista, a senhora (que cronologicamente poderia ser a senhora da foto), convencida talvez de que o aspirante ia propor a aprovação do pedido de isenção, meteu-me na mão uma nota de vinte escudos dobrada em quatro, desculpando-se por não poder dar mais.
Seriam hoje 5 euros, uma forma elementar de corrupção popular. 
Não inclui o episódio no relatório.
Espero ter convencido a senhora que se devolvia a nota não era por a achar uma oferta indigna, e não esperava que 42 anos depois se incumprisse assim a Declaração Universal dos Direitos Humanos (lá está, porque durante esse tempo, como dizem os comentadores afetos ao paradigma dominante, eu e os meus colegas do metropolitano vivemos acima das nossas possibilidades...).


Agora, o Mein Kampf dos financeiros

Agora, que vivemos sob o ímpeto desmantelador do conceito do metropolitano como serviço público prestado por um operador público, e menosprezador dos seus ativos humanos, físicos e intangíveis, faço esta reflexão a propósito da saída de dois diretores/supervisores/reguladores do Banco de Portugal para a Price Waterhouse Coopers.

Este blogue, correndo o risco de dizer disparates mas no uso do direito de expressão, tem defendido sistematicamente que a regulação só poderá ser exercida com eficácia, isto é, garantindo que as forças do mercado atuem no interesse coletivo, se a entidade pública detiver "know-how", experiencia e conhecimento rigoroso do negócio. E que isso só se consegue se exercer a mesma atividade que os regulados.
Que o mesmo é dizer, só se pode regular aquilo que se conhece (não é aceitável que um governador de um banco central de um país se pronuncie sobre um grupo económico que está a afetar toda a economia desse país com base no relatório desse grupo do trimestre anterior, nem que sejam prestadas informações a Bruxelas quando já estava decidido fechar o banco desse grupo 4 dias depois mantendo as ações em bolsa) e se se tiver informação sobre os off-shores envolvidos (o que se consegue com legislação internacional sobre transmissões automáticas de informação, vulgo fim do sigilo bancário).
Nem tão pouco é aceitável que um banco central nacional se demita das suas funções, por perda de informação, a pretexto do BCE assumir a supervisão dos bancos de primeira linha.
Assim, ao que se assiste é apenas a uma transferencia de funções da esfera pública para a esfera privada (neste caso a PriceWC).
As declarações desta, disfarçando tratar-se de uma promiscuidade inaceitável entre o setor público e o setor privado, sem o mais pequeno período de nojo, constituem assim um verdadeiro Mein Kampf, anunciando o que se pretende, o controle da supervisão pelos supervisionados.
Como diria António Aleixo a propósito desta enorme inovação, calai-vos, que pode o povo querer um mundo novo a sério.

PS em 8 de novembro de 2014 -  A propósito das declarações do senhor primeiro ministro também sobre a prosmicuidade entre o poder politico e o poder financeiro e empresarial (esquecendo a promiscuidade do anterior secretário de Estado do seu partido Oliveira e Costa e do seu banco BPN/Sociedade Lusa de Negócios com a esfera politica, e as suas ligações ao que seria presidente da República para obtenção de mais valias, e esquecendo as tentativas de angariação pelo secretário de Estado Relvas de contratos de formação de operadores de aeródromos com fundos comunitários para a sua própria empresa), eu sei que as técnicas de marketing partidário são assim, atirar poeira para os olhos dos eleitores lançando as acusações que se recebem dos adversários politicos sobre esses mesmos adversários. Ouve-se assim o senhor primeiro ministro assegurar virginalmente que é contra a prosmicuidade entre o poder politico e o poder empresarial e financeiro. Ouve-se, e pensa-se na resposta torta de Millor Fernandes, já sei o que é e o que faz, só quero discutir o preço.

Adonis, poeta árabe sírio

Este blogue saúda o triunfo do partido laico Nida Tunis (chamamento da Tunisia) nas eleições da Tunisia.
Espera-se agora que consiga formar governo com a maior parte das forças politicas.
Não se deseja uma maioria absoluta que imediatamente provoca a rejeição das outras forças, deseja-se a compreensão e a cooperação entre as diferentes sensibilidades, coisa aplicável em qualquer latitude ou longitude.
Transcrevo a propósito partes de uma entrevista de Adonis, poeta sirio árabe, numa altura em que na Europa ainda existe um partido religioso a dirigir a principal economia (partido democrata-cristão da Alemanha), o chefe do Estado inglês é o chefe da igreja anglicana e nenhum comentador recorda as palavras do primeiro chefe de Estado paquistanês, que primeiro se é cidadão e só depois muçulmano:

"Desgraçadamente os politicos não escutam os poetas"
"A primavera árabe não foi uma revolução porque não tinha um discurso. As oposições jamais falaram de laicidade, da libertação da mulher, da mudança da lei corânica.
Que revolução era essa? Só queriam mudar o regime, e mudar de regime de nada serve quando permanece a mesma mentalidade.
Os árabes têm de fazer a sua revolução interior, quer dizer, repensar a religião à luz da modernidade e separar o religioso do cultural, do politico e do social para que se converta apenas numa crença individual.
Na Europa fez-se essa revolução e separou-se o Estado da Igreja, que na Idade Média era pior do que entre muçulmanos de hoje.
Nada tenho contra a religião como fé individual, mas estou contra uma religião institucionalizada e imposta a toda uma sociedade.
Há que anular as diferenças entre as confissões. O correto é, por exemplo, que no Egito os cristãos coptas tenham os mesmos direitos dos muçulmanos."

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Agora, crónicas de um metropolitano

Agora, que vivemos sob o ímpeto desmantelador do conceito do metropolitano como serviço público prestado por um operador público, e menosprezador dos seus ativos humanos, físicos e intangíveis, faço esta reflexão a propósito do livro “Crónicas de um metropolitano”, de Fernando Antela Saraiva, ed. Chiado Editora.
O livro reúne algumas crónicas já incluídas neste blogue sobre alguns aspetos da vida e das problemáticas no metropolitano de Lisboa entre 1974 e 2010 ,período em que o autor destas linhas prestou serviço na empresa.
Tive muito prazer em ver muitos amigos e amigas, netos e sobrinhos, antigos colegas de curso e de trabalho na sessão de lançamento no dia 26 de outubro de 2014.
Talvez ingenuamente e imodestamente, gostaria que este livro fosse como a canção de intervenção, que é precisamente a primeira história que no livro se conta, isto é, que fosse um livro de intervenção, que incomodasse os decisores políticos e os decisores empresariais que, parafraseando Duna Guedes, “não sabem nada de metropolitanos”.
Existe neste momento uma angustia entre os trabalhadores do metropolitano pela incerteza do futuro e pelo menosprezo com que são tratados.
Não é assim que se mobilizam e se motivam os trabalhadores para se atingirem objetivos.
Não é insistindo na sanha de redução de quadros de pessoal, é contando com as pessoas e as suas capacidades.
Não é  sobrecarregando a segurança social com as pessoas no desemprego que se relança a economia do país.
O metro pode e deve colaborar nesse relançamento, desde o desenvolvimento dos serviços de engenharia como os que se prestam aos metros de Argel e de S.Paulo, até à aplicação de fundos comunitários na melhoria da mobilidade urbana e da eficiencia energética através da substituição de deslocações em transporte individual.
Foi disponibilizada aos decisores políticos informação sobre a razoabilidade dos indicadores do metro quando comparado com os homólogos estrangeiros, sobre a natureza pública da dívida que não da empresa, sobre os resultados negativos das privatizações em Londres, sobre as medidas de financiamento em França como o “versement transport”, sobre as medidas de penalização do acesso do transporte individual ao centro das grandes cidades como Londres e Estocolmo, e sobre a insustentabilidade e desperdício energético por ser de 60% a quota do transporte individual nas deslocações diárias metropolitanas.
Mas os decisores insistem.
Têm legitimidade para o fazer porque ganharam eleições, embora enganando eleitores durante a campanha eleitoral.
Nós temos o direito constitucional de livre expressão para afirmar, por “saber de experiência feito”, que eles destroem o que outros construíram porque são incapazes de construir.

É principalmente o que tentei dizer com o livro.

Jonas Salk

Agora, que vivemos sob o ímpeto desmantelador do conceito do metropolitano como serviço público prestado por um operador público, e menosprezador dos seus ativos humanos, físicos e intangíveis, faço esta reflexão a propósito da comemoração pelo Google do centenário de Jonas Salk, descobridor da primeira vacina contra a poliomielite.
Perguntado porque não registava a patente, respondeu "não se pode patentear o sol". Vivia do seu ordenado do laboratório da universidade de Pittsburgh, onde tinha feito a descoberta.
Seria bom que os teóricos e os práticos do neo-liberalismo que nos governam entendessem bem estas palavras, desde o primeiro ministro ao ministro concedente dos trasnportes e das taxinhas.
Não é o interesse individual nem o lucro que justificam tudo.
Há vida fora desse subterrâneo.  

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Economicómio - Sabem o que fazem?

Esta é uma reflexão sobre o grau de credibilidade que nós, ignorantes da ciencia económica, podemos atribuir aos profissionais, e bem assim, que valor podemos dar às suas decisões condicionantes do nosso quotidiano e do nosso futuro, sendo certo que os deles, graças ao elevado nivel de salários e aos generosos planos de pensões de que dispõem não parecem comprometidos.

Dizem as noticias de hoje que o setor financeiro nacional é muito maior do que se julgava e o tamanho da economia real (empresas não financeiras) é muito menor.
A justificação apresentada é que se passou das regras SEC1995 para as regras SEC2010.
Não aceito tal justificação, porque o que me ensinaram na alma mater e eu tentei aplicar e os meus colaboradores eram avaliados em função disso, é que o gestor de um bem ou serviço deve conhecer os elementos fisicos e os indicadores reais desse bem ou serviço. Alem de que as regras SEC2010 não surgiram por geração espontanea. Tal como a  passagem da divida das empresas publicas para a divida publica. Há mais de 10 anos que nós, no metropolitano, criticávamos a não contabilização nas contas publicas. Até as administrações se não esqueciam de o relembrar em todos os relatórios e contas.
Não venha a senhora ministra das finanças agora desculpar-se pelo seu péssimo desempenho, com o seu ar de anjo perseguido quando todos sabemos que o que está a pensar não corresponde aos seus sinais exteriores.
Não era preciso ser economista para saber que o peso do setor financeiro em Porugal é um cancro.
Até Vitor Bento o disse como já se referiu neste blogue. O setor não tansacionável afunda o país.
Por  tudo isto não surpreende a surpresa reprovadora da UTAO perante o otimismo não suportado nas previsões macroeconómicas do orçamento de Estado para 2015. Que não encontra fundamento para a previsão de 66 milhões de euros nas previsões das receitas das concessões (porque  não dizem uma evidencia, os decisores sobre as concessões são ignorantes e incompetentes?). Pois não, fazem como a Mofina Mendes. Estão atrasados 5 séculos, a gerir um país, eles e os seus patrões não controlados por regras demcráticas do BCE e FMI.
Melhor fora que a população perdesse o medo e lhe chamasse os nomes que a ligeireza com que põem em causa os salários, o emprego e as pensões dos cidadãos e cidadãs justifica.
A começar pelo facto evidente que o novo presidente da comissão europeia, inegavelmente um senhor simpático e bem intencionado, foi primeiro ministro de um país que é um verdadeiro off-shore no coração da Europa, que não engana, o peso do setor financeiro é enorme, como gostam de dizer os economistas falhados.
Nem sequer são capazes (obviamente porque o poder financeiro e económico capturou o poder politico) de implementar uma taxa de 0,1% sobre as transações financeiras (refiro-me a taxas sobre transações mobiliárias, não sobre mais valias), coisa que há mais de 5 anos este blogue vem falando (na verdade, mais para 0,5% que para 0,1%), acompanhada de medidas preventivas contra os off-shores como a comunicação automática (levantamento do sigilo bancário) e sanções em caso de incumprimento como taxação incomportável de importações.
Os eleitores de esquerda e de direita têm de por fim a esta aberração dos dogmas impostos pela religião dos economistas que nos dirigem e expulsá-los dos centros do poder.
É uma aberração termos coisas de interesse público entregues a privados que dependem de assembleias de acionistas em que uma voz pode ter mais do que um voto. Como se sabe, há séculos que a humanidade descobriu que em assuntos de interesse coletivo o método é uma voz, um voto. 
Tem de se chamar os bois pelos nomes, criminosos e malfeitores que se apropriaram do que era de todos (ultimo exemplo, a água e os residuos, cuja privatização é tecnicamente um disparate).
A chave que explica tudo isto é simples, a captura do poder politico pelo poder económico e financeiro, e a falta de independencia das empresas do poder politico, económico e financeiro.
Uma empresa pública, ao serviço de uma comunidade, se não dispuser de independencia para utilizar os seus recursos, como tem sido o caso com os comissários politicos que as têm dirigido, cai no limbo das privatizações e concessões.
E são os técnicos das empresas privadas e das empresas públicas que, para não perderem os seus empregos, executarão os procedimentos para essas privatizações/concessões.
Acusam uns os funcionários públicos de serem uns acomodados sem iniciativa por terem o emprego garantido.
Mas os empregados das empresas privadas só têm emprego se se sujeitarem aos dogmas de cima.
É uma forma, como outra qualquer, de perder a liberdade (já imaginaram o que aconteceria se as assembleias de acionistas passassem a ser subordinadas aos critérios de democracia estabelecidos para a politica, em vez de subordinadas ao interesse pelo lucro?).


quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Os congressos das elites e o que as elites andam a ler

Confesso que não gosto de ir a seminários, conferencias ou congressos, mas até gosto depois de lá estar, se o assunto tem interesse técnico e impacto na comunidade.
Também vou a muito poucos.
Mas choca-me, talvez por excesso de sensibilidade minha, o ar soberano das elites que os promovem, que neles se exibem, que neles demonstram a incapacidade para fundamentar as suas opiniões segundo o método científico.
Raramente apresentei trabalhos em seminários. Das poucas vezes fiquei com a ideia de que  as pessoas não tinham seguido o meu powerpoint. Que até o moderador não  tinha percebido. Certamente por limitações minhas.
Choca-me ainda ver a auto-satisfação e o cabotinismo dos governantes ou familiares que comparecem nesses seminários, acolitados pelos presidentes dos eventos, na maior parte das vezes ligados aos interesses de empresas ou grupos económicos mais ou menos internacionalizados que os patrocinam.
Para mim, o sucesso de um seminário, congresso ou conferencia medir-se-ia por uma alteração de comportamento e um inicio de atividade segundo um rumo demonstrado no evento como util para a comunidade.
Mas julgo que o sucesso é antes medido pelo impacto mediático, talvez até diplomático, pelo marketing das empresas e pela visibildade dada a alguns oradores, moderadores ou presidentes do evento. Ou por algum negócio facilitado.
Não quero dizer que não haja boas intenções ou voluntarismo desinteressado nalgumas iniciativas.
Ou simplesmente consciencia de responsabilidade social de uma ou outra fundação.
Veja-se por exemplo o seminário sobre a liberdade na democracia. Quando circulou o convite para assistir já estava o programa fixado. Não houve apelo público a apresentação de comunicações. E nos paineis o peso de personalidade mediáticas.
Pode ser defeito meu, insuficiencia minha de participação cidadã, mas nenhum dos participantes teve alguma vez contactos comigo ou com o círculo dos meus colegas e dos meus amigos. Nem no serviço militar, nem na universidade, nem na atividade profissional.
Reparem que não estou a vitimizar-me, conheci muita gente boa ao longo da minha vida, que teriam uma palavra a dizer. Mas não, não fizeram parte do núcleo seleto dos convidados.
Não fizeram parte das elites.
Talvez porque do ponto de visto ideológico não esteja perto dos partidos que habitualmente gerem a coisa pública, com os resultados negativos conhecidos.
Talvez porque do ponto de vista profissional tenha tido poucas relações com as profissões que dominam a economia e a politica do país, advogados, economistas.
Talvez a profissão de engenharia, a sua preocupação, quando os seus servidores não atraiçoam o que aprenderam na alma mater,  em fundamentar com dados reais de utilidade pública e em realizar com uma programação concreta.
Talvez porque não me identifico com os métodos da intelectualidade portuguesa, tão  nem com os processos de reconhecimento dos seus méritos.
Pena não ter havido um convite público, não para só para assistir, mas à participação efetiva.
Ou tomemos o exemplo da grande fundação que é um exemplo de uma politica cultural de interesse nacional. E que convidou as elites para falar das politicas públicas.
Existe uma certa ironia no tema, quando muito do que a fundação faz competiria à secretaria de Estado da cultura.
Existe uma ironia quando o secretário de Estado da cultura comparece no evento e é cumprimentado pelo presidente da fundação, emérito profissional da banca.
A cultura em simbiose com as grandes empresas petrolíferas e com as elites bancárias.
Não tem mal nenhum, sempre que o Metropolitain de Nova Iorque transmite uma ópera não se esquece de lembrar que isso só foi possível graças ao generoso apoio dos seus mecenas, acionistas principais de empresas que geram lucros.
Mas choca-me, como disse, ver perguntar-se às elites o que se deve fazer para sair desta crise, quando foram as elites que dirigiram o país, que aconselharam os seus políticos, que formataram o pensamento dos leitores dos jornais de opinião e dos eleitores.
Eleitores esses, quer tenham votado quer se tenham abstido, que são usados, ou desfrutados, pelas elites para justificarem o seu poder politico e o seu poder económico. E depois de desfrutados, acusados de serem os responsáveis pelos gastos acima das posses do país e levados a pagar o resgate.
Mas eis que o professor de economia da universidade norte-americana, autor de comentários lidos com reverencia, propõe em plena conferencia, com vivacidade intelectual, a indexação do pagamento da dívida pública ao crescimento da economia.
Quando leio no jornal acode-me à ideia a pergunta, o que andam a ler as elites tão ligadas ao sistema neste país (ou na tal universidade norte-americana)?
E tento adivinhar, andam a ler o capital no século XXI de Thomas Piketty, já publicado em português pela Temas e Debates/Círculo Leitores, que enchem as montras das livrarias.
Já aqui foi referido, o livro. O seu tema central é, fundamentando com a análise de dados reais desde o século XVIII, o ser maior a taxa de retorno do capital do que a taxa de crescimento da economia, e que isso só pode gerar desigualdades sociais. Como solução, uma discreta taxação dos rendimentos do capital com base nas transmissões automáticas entre bancos. Sim, era o fim do sigilo e dos off-shores, uma espécie de utopia. Mas acalmem-se as elites que Thomas Piketty não se confessa nem quer ser revolucionário.
De modo que o professor da conferencia sobre politicas públicas resolveu interpretar assim Piketty.
E eu confesso que não sei se bem se mal, mas sei que os pobres economistas andam entretidissimos e preocupados a tentar descobrir erros no Execl de Piketty, sem conseguir.
Mas há um problema tipo paradoxo.
O livro tem 910 páginas e o seu autor diz que o escreveu para convencer os eleitores, não os politicos. De facto, eleitores bem informados arrumariam os politicos defensores da austeridade anti-investimentos com as análises e os gráficos deste livro, mas teriam de o ler. Embora grandes defensores da austeridade a tout prix como Oliver Blanchard e Vitor Gaspar andem agora a pregar "investimentos inteligentes", talvez porque as taxas de juro para o nosso país sejam agora de 3,5% quando eram em abril de 2011 de 11% .
910 páginas para mudar o sistema é pedir demasiado aos eleitores, embora pareça que não devia ser necessário lê-las para acreditar que não podem ser os bancos (e Wall street) a decidir as regras do jogo. Assim como assim, se a EuroDisney é um sucesso de procura, por que razão tem 1700 milhões de euros de dívida? Não deveria antes mudar-se as regras bancárias?
Mas enfim, tentando converter leitores em eleitores, apresento três gráficos do livro, com as legendas do autor. Vejam como no tempo dos Beatles o mundo era mais igualitário e havia esperança (Imagine...):





Ver juntamente com este livro os seguintes:

- A riqueza oculta das nações, inquérito sobre os paraisos fiscais, de Gabriel Zucman, ed, Temas e Debates/Círculo Leitores, 143 páginas

- O espírito da igualdade, por que razão sociedades mais igualitárias funcionam quase sempre melhor, de Richard Wilkinson e Kate Pickett, ed. Presença, 350 páginas

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

No equinócio do outono de 2014, ainda os complementos de reforma

Alguém teve a ideia, uma vigília.
Numa estação de metro, para chamar a atenção dos passantes e, mais uma vez, da comunicação social.
Uma espécie de uma pequena "occupy a metro station", nada que se compare com a "occupy wall street", ou a "occupy Hong Kong", que desgraçariam a policia do senhor ministro Macedo.
E assim foi que nos encontrámos na estação do marquês, bem cedinho, ainda não eram as sete da manhã, quando os desprezados pelos senhores importantes do governo viajam nos transportes coletivos, saindo das tarefas noturnas de limpeza ou de manutenção, ou caminhando para a abertura e o apoio das células de produção.
Como escreveu Carlos Oliveira ao descrever o acordar de Lisboa:

Acordam pouco a pouco os construtores terrenos,
gente que desperta no rumor das casas,
forças surgindo da terra inesgotável,
crianças que passam ao ar livre gargalhando.
Como um rio lento e irrevogável,
a humanidade está na rua.


Receei que das correntes de gente que se deslocavam apressadas na correspondencia entre as duas linhas, escoando-se por entre os reformados com cartazes, saissem vozes criticas e discordantes.
È que o corte médio nos 1400 reformados foi de cerca de 640 euros, valor superior ao do vencimento de muitos dos que passavam.
Mas não, adivinho a contrariedade em alguns rostos, aqui ou ali uns resmungos, mas até comentamos entre nós que aos poucos as pessoas compreendem que o mal é a política de desvalorização dos salários que nos é imposta pela troika e pelos seus seguidores cegos, que prejudica todos os que trabalham em empregos não de favor.
Esta deflação mata-nos, porque os  preços baixos perseguidos pelo BCE e pela Alemanha só se conseguem com desemprego elevado, que faz baixar a procura nas regiões periféricas, enquanto nas regiões centrais e mais ricas condiciona o crescimento.
Muitos de nós já não aguentam muito tempo de pé. 
Sentamo-nos na esplanada do quiosque dos croissants e cafés. 
As reporteres da TV aproveitam para entrevistas que depois serão cuidadosamente visionadas antes da transmissão para não desagradar aos acionistas principais ou aos delegados do governo, no caso da RTP (estou a chamar delegados do governo aos admiinistradores, já que não foram nomeados após concurso público, como o é, por exemplo, o governador do banco do UK), a quem interessa que a opinião pública considere os reformados do metro uns privilegiados.
Um de nós explica pacientemente à reporter que se finge desinformada que os complementos de reforma se destinavam a aproximar o valor recebido após a reforma do ultimo salário, de acordo com uma fórmula válida no acordo coletivo da empresa desde 1973 e que deixou de ser aplicada aos novos empregados depois de janeiro de 2004.
E que a própria empresa, para apresentar indicadores de redução do quadro de pessoal, se empenhou em facilitar as saidas antes da idade da reforma.
 Isto é, havia um contrato em vigor que deixou de ser cumprido por uma das partes, e que agora a justiça nacional é rica em obstáculos que impedem o que se faz quando um contrato não é cumprido: ação de penhora sobre os bens imobiliários, que os há, ou sobre as rendas comerciais não ligadas ao transporte, que também as há (aluguer de fibra ótica, de espaços comerciais, de publicidade, de utilização do parque de sete rios para a camionagem).
Que era uma cláusula de privilégio? 
Sim, era, mas contratada numa altura em que os salários no metro eram inferiores ao das outras empresas públicas ou privadas.
E agora num sistema em que se mantem a exploração descarada dos trabalhadores menos qualificados (lá está, a bíblia da competitividade). E em que existem planos de pensões, de complementos e de créditos fiscais mais favoráveis em empresas como a PT, a EDP, o banco de Portugal, os CTT, a TAP...
E que se deve nivelar por cima e não por baixo, como os passageiros do metro compreendem.
Há casos em que o rendimento de um eletricista reformado era de 1400 euros brutos e foi reduzido de 700 euros, apesar de 42 anos de descontos. De um engenheiro com 40 anos de descontos que recebia 2000 euros e lhe foram cortados 1000 euros.
E quanto aos trabalhadores ativos atuais, apresentados pela comunicação social como privilegiados que absorvem os dinheiros dos contribuintes? 
Um maquinista próximo do nível máximo ganha menos de 1400 euros brutos; com os subsidios, nomeadamente de quilometragem, notando-se que estes não contam para o cálculo da pensão, pode chegar aos 2800 euros brutos.
No caso de um eletricista de sinalização, o vencimento não chega a 1200 euros e, com os subsidios, pode chegar a 1900 euros.
Mas tem de se reparar que são profissões que exigem qualificação, uma formação rigorosa em procedimentos de segurança, e que erros nesta profissão podem provocar acidentes.
Estranham-se estes vencimentos e estas pensões?
Então o que se deve fazer? pergunta a reporter, ao que o entrevistado responde: a primeira coisa a fazer é demitir o governo, para encetar politicas de crescimento.
Acho que essa parte foi cortada, bem como aquela em que o colega, já um pouco exaltado, dizia que era engenheiro, e não reconhecia competencia ao secretário de Estado Sergio Monteiro para opinar sobre as maravilhas das privatizações ou concessões das empresas ferroviárias de transporte,  nem ao senhor ministro Maduro para discutir e decidir quais os investimentos para os fundos comunitários, porque são assuntos de engenharia, não juridicos nem politicos.
Indiferente à discussão, o colega reformado especialista de telecomunicações, que se tem mantido atualizado, aproveitava o wi-fi gratuito na estação para seguir no seu smartphone o programa da rtp2 sociedade civil, dedicado, nem de propósito, aos idosos.
O sociólogo explica que o conceito de violencia sobre os idosos alargou-se, há por exemplo a violencia financeira... (como se aplica aos reformados em geral pelas pequenas reformas, e em particular aos reformados do metro, pela redução brutal dos rendimentos) ... e esta ideia desgraçada da centralização hospitalar, ajudando a desertificar o interior... (pois, para poupar impostos aos habitantes das cidades)...
Mas eis que vejo vinda do corredor do tapete rolante a figura do professor Cesar das Neves.
Eu simpatizo com o senhor.
Não é o caso do meu colega reformado que resmunga, aquele malandro, anda a dizer que somos uns privilegiados, como se não nos tivessem já imposto sacrifícios que não impuseram a outros. Como se a ameaça da concessão não seja por si só suficiente para os  protestos. Ele que se informe sobre o resultado das privatizações e concessões em Londres.
Mas eu simpatizo porque o vejo a frequentar os transportes coletivos.
Não é como o seu colega professor que foi um efémero ministro da economia mas que se desloca de carro com motorista para assistir a uma sessão num museu da Baixa ou para se deslocar das suas consultorias para as suas universidades. Nunca se lhe ouviu uma palavra sobre a insustentabilidade da importação de combustíveis fósseis para fazer deslocar carros com motorista de um lado par ao outro de uma cidade de tráfego automóvel saturado nas horas de ponta.
É isto que digo ao professor Cesar das Neves quando ele diz que não há dinheiro depois da bebedeira dos gastos com infraestruturas públicas como o metro.
Como justificar a compra de 10 000 automóveis ligeiros por mês para encher as cidades e as vias rápidas de acesso às cidades?
São mais de 2 000  milhões de euros por ano.
É verdade que o negócio dos importadores não iria gostar.
Que me diz, professor, do primeiro anuncio na TV a seguir ao programa do doutor Medina Carreira em que ele se cansa a dizer que não há dinheiro para as despesas sociais seja o Mercedes classe C de quase 40 000 euros?
É que há dinheiro, mas em segmentos bem delimitados da sociedade.
Não no grupo de reformados do metro a quem cortaram duma vez entre 40 a 50% do seu rendimento, a que se deve adicionar o corte geral nas pensões de segurança social, independentes dos complementos de reforma.
Mas o professor não me responde, embrenhado na discussão com outros reformados, a quem faz questão de garantir que compreende porque estão revoltados e sentidos.
Diz isso porque é cristão, e  é a sua maneira de aliviar através do perdão a sua consciencia.
Eu gostaria de lhe dizer, mas não posso, que ele já se perde na corrente dos passageiros que se engolfam nas escadas para  linha amarela.
Que também já fui cristão, e que penso ter conservado a compaixão, a solidariedade e o espirito de igualdade depois de me ter desligado das obrigações da fé.
E que por isso me comovo quando leio citações como esta, que encontrei no livro "os dez erros da troika em Portugal, a austeridade, sacrificios e empobrecimento", de Rui Peres Jorge, ed. a esfera dos livros:

"orgulhamo-nos hoje de ser suficientemente duros para infligir sofrimento aos outros. Mas se observassemos um costume antigo segundo o qual ser duro consistia em suportar o sofrimento em vez de o impor aos outros, talvez pensassemos duas vezes antes de tão friamente preferirmos a eficiencia à compaixão"  Tony Judt, em Ill fares the Land 

São já cinco da tarde.  
Continua uma presença significativa de reformados.
Já passaram por aqui deputados dos partidos que não os do governo, delegações da CGTP, da UGT, da APRE, do MRPP.
Salva-nos Tatiana e as suas colegas, que operam o quiosque de croissants, cafés e merendinhas.
Este governo vai manter o corte dos complementos. 
Total. 
Não quer saber da redução brutal de 60% a 70% dos rendimentos, entre 2013 e 2014. Preocupar-se-á com medidas de maior impacto mediático para se preparar para as eleições de 2015.
Vai manter a hipocrisia de "suspender" os complementos enquanto os resultados liquidos do metro forem negativos. 
Claro que, da forma como são contabilizados, com indemnizações compensatórias e distribuição de receitas arbitrárias, sem contabilizar os benefícios da poupança de emissão de CO2 e de importação de combustíveis fósseis, claro que são negativos.
Não há metropolitanos no mundo que os tenham assim positivos. 
Isto digo ao meu colega reformado, apoiado na sua bengala mas felizmente muito melhor depois da operação.
Ah, mas reparo agora, vindo dos lados da EDP, cuja sede ainda não se deslocalizou para a zona da Boavista e São Paulo, com vistas para o rio, a roubar campo de visão ao miradouro de Santa Catarina, que se aproxima Sergio Figueiredo, um dos administradores da fundação da EDP, que ainda não se deslocalizou para a beira do rio, a nascente do museu da eletricidade. Projeto  à beira rio de integração estética, oportunidade e razoabilidade financeira duvidosas.
Não é reconhecido pelos meus colegas porque não entra em programas de televisão como Cesar das Neves.
Mas eu sigo a coluna dele no DN e apreciei imenso a análise que ele fez da evolução do PIB dos USA e do UK depois da crise de 1930, do Japão depois da crise de 1992 e da zona euro depois da crise de 2008.  Relacionou a duração antes da retoma com as medidas tomadas, crescimento após investimentos públicos, para aplaudir as orientações de Draghi e do BCE para os ditos investimentos públicos.
Por isso me chocou o artigo que dedicou às empresas de transporte, às medidas do senhor secretário de Estado, acreditando que vai poupar as indemnizações compensatórias,  e à divida de 20.000 milhões das empresas públicas de transporte, 3 vezes superior á do BES.
Deu-me a impressão de que falava sobre o que não sabia.
Ignorará que a enorme hemorragia da dívida do metro se deve aos investimentos do Estado nas infraestruturas dos tuneis que foram indevidamente levados à conta do metro e não às contas públicas (embora o Estado tivesse dado o aval)? Ignorará que foram os comissários politicos nomeados pelos governos (porque não sujeitos às regras dos concursos públicos) que contrataram os swaps?
Mas valerá a pena argumentar, quando a dívida da EDP é de 17.500 milhões de euros e o défice tarifário que lhe compete é da ordem de 2.400 milhões de euros (pois, o preço do título de transporte no metro também está abaixo do custo de produção)?
Valerá a pena argumentar que sim, o transmontano paga com parte dos seus impostos o  metro de Lisboa, assim como eu pago com parte dos meus impostos o serviço nacional de saude em Trás os Montes, que no interior é por definição de economia de escala economicamente menos eficiente.
Isto me preparava eu para discutir com Sérgio Figueiredo quando ele se deteve a ler os cartazes colados nos pilares, "alguns dos reformados do metro estão em dificuldades", "o complemento de reforma era um contrato desde 1973" ...  mas num instante retomou o passo e desapareceu na multidão.  
Em breve eram oito da noite.
Rarefaziam os reformados presentes, que era dia de jogo na TV.
Tatiana recolhia os restos nas mesas da esplanada.
Ajudei-a a apanhar uns guardanapos de papel do chão.
Tinha apreciado a melhoria do negócio do dia que os reformados lhe tinham trazido, mas não estava certa de concordar com a iniciativa, embora lhe parecesse que os cortes dos complementos eram apenas uma faceta da politica de desvalorização do fator trabalho que também a afetava a ela, e que, de acordo com o que aprendera, nós, os reformados, eramos credores e não parasitas.
Assim como assim, licenciara-se em sociologia, não chegava a ganhar 300 euros mas tinha esperança de ser chamada para um projeto em que se inscrevera numa universidade de Madrid, para inquéritos e estatísticas sobre a mobilidade de pessoas e seu relacionamento com o urbanismo, a implantação industrial, a circulação automóvel, segundo os critérios que os discípulos de Durkheim utilizam, diferentes das demagógicas opiniões dos nossos politicos e comentadores. 
Os últimos membros da comissão de reformados embrulharam os cartazes, os últimos grupos despediram-se com o jogo no pensamento, e eu desci as escadas com o nosso colega animado com a recuperação da operação que fizera no serviço nacional de saúde, até à próxima manifestação.

Referencias:

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

A questão do Ebola é ainda mais global numa pequena análise apressada e pretensamente marxista

Há uns anos uma rapariga alemã morreu pouco depois de desembarcar em Hamburgo. Mas nessa altura os decisores politicos, os opinion makers, os universitários segguidores de Friedman e Haiek, acharam que a coisa estava circunscrita, e de facto a epidemia passou não muito tempo depois.
Agora, quando cidadãos de paises ocidentais em numero que os dedos da mão já não chegam para refletir, sofrem a doença, o governo americano e os governos ocidentais dizem que estão atentos e em ação.
Mas há uma questão. A dívida e o défice publicos acima dos valores constitucionais ou acordados em tratados.
A familia de um dos cidadãos americanos internado em risco de vida diz que não tem dinheiro para pagar a conta do hospital, que, aliás, lhe prestou uma péssima assistencia inicial.
Que diz  biblia dos citados decisores e universitários?
Que deixem o mercado funcionar.
E de acto funcionou, no caso da gripe das aves. Rapidamente os laboratorios se entenderam, colaborando ao arrepio do lema tolo de que o segredo é a alma do negócio (já foi, em dado passo do processo histórico) até porque se não trocassem impressões o progresso seria mais lento e poderiam ficar fora das royalties finais.
Porem o mercado funcionava porque a gripe ameaçava grande parte das populações dos paises ricos.
Agora o Ébola, circunscrito a paises de baixo PIB per capita? que não pode pagar a investigação?
E a questão é que se o governo dos USA respeitar a biblia do neo-liberalismo não vai poder votar verbas para a investigação.
É o drama destes intelectuais neo-liberais. Se o cidadão não tem dinheiro para pagar o tratamento, que se chame a sua confissão religiosa para o enterro. Mas até no enterro o Ébola sepropaga. Que problema, é uma externalidade que pode matar a filha do rico, como Gabriel Garcia Marquez descreveu a cena da morte da pequena marquesa mordida na Cartagena do século XVII por um cão raivoso.
Não pode ser o lucro da empresa farmaceutica, não podem ser as leis do  mercado a ditar a reação à epidemia.
Como já dizia o descobridor da vacina da poliomielite, que recusou as royalties.
E que dificuldade em os citados decisores, opinion makers e universita´rios compreenderem que não é só na saúde que não se pode deixar o mercado a fazer o que quer.
São as depeas sociaiis que deveriam definir o valor da moeda, por mais que o senhor doutor Medina carreira diga que não.
Cortes nas despesas sociais induzem debilidade perante epidemias, quer sejam do Ébola, quer sejam da ignorancia do funcionamento das coisas.