quinta-feira, 5 de outubro de 2023

Comentário ao relatório sobre a análise da situação do AHD

Comentário enviado em 3out2023 à Comissão Técnica Independente para a avaliação do aumento da capacidade aeroportuária:


https://aeroparticipa.pt/relatorios/relatorio_AHD.pdf

https://aeroparticipa.pt/relatorios/   

 

 

Caros Colegas

Relativamente à análise da situação do AHD cumprimento-vos pela sua profundidade e pluridisciplinaridade e pelo pragmatismo das propostas de melhoria.

Faço parte de um grupo que há vários anos se vem debruçando sobre os problemas das infraestruturas de transporte em Portugal e por isso desculparão o envio dos seguintes comentários e sugestões.

Considerando o prazo que pessoalmente estimo de 7 a 10 anos para a colocação em serviço de uma primeira fase do NAL e o congestionamento atual do AHD, são urgentes obras de melhoria. Nestas , julgo dever ser dada prioridade às que aumentem a segurança da operação e o bem estar dos moradores da cidade.

Nesta perspetiva , salvo melhor opinião, é urgente a elaboração (ou validação) dos projetos para submissão a fundos comunitários de:

1 -  construção do taxiway do lado norte-nascente da pista 20 aproveitando todo o comprimento da pista (para afastar o ponto de descolagem da avenida do Brasil e evitar o cruzamento da pista). Salvo melhor opinião, são assim limitadas as propostas das figuras 25 e 26, reduzindo em 1300m o comprimento utilizável da pista. Condições e desenhos explicativos do taxiway paralelo desejável , mais relevante do que as entradas múltiplas e saídas rápidas referidas, nas páginas 142 a 144 do livro “Grandes projetos de obras públicas”  de Pompeu Santos, ed.Scribe

2 – retirada do aeródromo de Figo Maduro, sendo uma sugestão interessante a substituição por um terminal low cost (idem)

3 – a substituição do abastecimento de combustível através de camiões (mais de uma centena por dia) por pipeline.

Faço ainda as seguintes observações:

4 – não tendo sido validada a adenda do acordo do governo com a ANA de 2019, o contrato de concessão de dez2012, salvo alguma disposição jurídica até agora oculta, mantem-se em vigor, mantendo-se as obrigações para a ANA do anexo 9 de que se destacam os pontos 14 (construção de entradas múltiplas no pista 20)  e 17 (expropriações para a construção das entradas múltiplas). Ver   fcsseratostenes: Alguns elementos sobre a capacidade aeroportuária na região de Lisboa em setembro de 2022    . Estar-se num impasse parece ter origem na indefinição do texto do anexo 9 sobre os limites de intervenção obrigatória pela ANA e por ainda existir a obrigatoriedade de submissão à  APA

5 - sobre as acessibilidades, como complemento às sugestões pertinentes da figura 27, sugere-se considerar uma possível entrada no aeroporto e construção de novo terminal pelo lado norte/poente zona  C com eventual expropriação de terrenos exteriores e instalação de transporte autónomo people mover em sitio próprio sobre carris em todo o perímetro do aeroporto servindo os outros terminais

6 - sobre o aeroporto de Beja sublinho que o principal problema é a insuficiência da ligação ferroviária. As melhorias necessárias incluirão a construção de um ramal dedicado (aeroporto-estação de Beja ou aeroporto-linha Beja/Casa Branca a 7km ao norte da estação de Beja), cujo projeto já deveria ter sido elaborado para submissão a fundos comunitários. Ver      fcsseratostenes: Sobre o aeroporto de Beja em setembro de 2022

7 – sobre a não proposta da solução Portela-Montijo (ponto 4.2.2, páginas 30 e 31) seria desejável aprofundar as razões expostas para a sua não utilização, incluindo as limitações da BA6 em termos de ruido para as populações, considerando que se estima a rota de aproximação da pista 01 a 250m de altitude e1 km do hospital do Barreiro

 

Com os melhores cumprimentos e votos de sucesso

 

PS em 17out2023 - Recebida amável resposta da CTI com aditamentos em negrito ao texto do meu email:


Agradecemos a sua mensagem e os comentários. Lamento a demora em lhe responder, mas aqui vão alguns esclarecimentos. Veja por favor intercalado com os seus comentários. 
On 3 Oct 2023, at 23:42,  wrote:

Caros Colegas 

Relativamente à análise da situação do AHD cumprimento-vos pela sua profundidade e pluridisciplinaridade e pelo pragmatismo das propostas de melhoria. 

Faço parte de um grupo que há vários anos se vem debruçando sobre os problemas das infraestruturas de transporte em Portugal e por isso desculparão o envio dos seguintes comentários e sugestões. 

Considerando o prazo que pessoalmente estimo de 7 a 10 anos para a colocação em serviço de uma primeira fase do NAL e o congestionamento atual do AHD, são urgentes obras de melhoria. Nestas , julgo dever ser dada prioridade às que aumentem a segurança da operação e o bem-estar dos moradores da cidade.  

Nesta perspetiva , salvo melhor opinião, é urgente a elaboração (ou validação) dos projetos para submissão a fundos comunitários de: 

1 - construção do taxiway do lado norte-nascente da pista 20 aproveitando todo o comprimento da pista (para afastar o ponto de descolagem da avenida do Brasil e evitar o cruzamento da pista). Salvo melhor opinião, são assim limitadas as propostas das figuras 25 e 26, reduzindo em 1300m o comprimento utilizável da pista. Condições e desenhos explicativos do taxiway paralelo desejável , mais relevante do que as entradas múltiplas e saídas rápidas referidas, nas páginas 142 a 144 do livro “Grandes projetos de obras públicas”  de Pompeu Santos, ed.Scribe 

Resposta da CTI: Esse encurtamento de pista, e redução de saidas rápidas, iria reduzir significativamente a atual capacidade do AHD, pelo que não é viável

2 – retirada do aeródromo de Figo Maduro, sendo uma sugestão interessante a substituição por um terminal low cost (idem) 

3 – a substituição do abastecimento de combustível através de camiões (mais de uma centena por dia) por pipeline. 

Resposta da CTI: Essa sugestão é correcta, mas corresponde a um investimento muito elevado que não pode ser considerado no curto-prazo (7-10 anos), só é viável numa perspectiva de longo-prazo. O relatório entregue só abordava ações de melhoria para o curto-prazo

Faço ainda as seguintes observações: 

4 – não tendo sido validada a adenda do acordo do governo com a ANA de 2019, o contrato de concessão de dez2012, salvo alguma disposição jurídica até agora oculta, mantem-se em vigor, mantendo-se as obrigações para a ANA do anexo 9 de que se destacam os pontos 14 (construção de entradas múltiplas na pista 20) e 17 (expropriações para a construção das entradas múltiplas). Ver   fcsseratostenes: Alguns elementos sobre a capacidade aeroportuária na região de Lisboa em setembro de 2022    . Estar-se num impasse parece ter origem na indefinição do texto do anexo 9 sobre os limites de intervenção obrigatória pela ANA e por ainda existir a obrigatoriedade de submissão à APA 

Resposta da CTI: A resolução desta situação ultrapassa o âmbito de competências da CTI

5 - sobre as acessibilidades, como complemento às sugestões pertinentes da figura 27, sugere-se considerar uma possível entrada no aeroporto e construção de novo terminal pelo lado norte/poente zona C com eventual expropriação de terrenos exteriores e instalação de transporte autónomo people mover em sítio próprio sobre carris em todo o perímetro do aeroporto servindo os outros terminais 

Resposta da CTI: Das sugestões apresentadas, que desde já agradecemos, retemos em particular a criação de uma abertura a Norte, para vir a servir um novo terminal especializado, para voos low-cost ou limitados ao espaço Schengen, com redução dos custos de segurança e controlo.

6 - sobre o aeroporto de Beja sublinho que o principal problema é a insuficiência da ligação ferroviária. As melhorias necessárias incluirão a construção de um ramal dedicado (aeroporto-estação de Beja ou aeroporto-linha Beja/Casa Branca a 7km ao norte da estação de Beja), cujo projeto já deveria ter sido elaborado para submissão a fundos comunitários. Ver      fcsseratostenes: Sobre o aeroporto de Beja em setembro de 2022  

Resposta da CTI: A resolução desta situação ultrapassa o âmbito de competências da CTI

7 – sobre a não proposta da solução Portela-Montijo (ponto 4.2.2, páginas 30 e 31) seria desejável aprofundar as razões expostas para a sua não utilização, incluindo as limitações da BA6 em termos de ruido para as populações, considerando que se estima a rota de aproximação da pista 01 a 250m de altitude e1 km do hospital do Barreiro 

Resposta da CTI: Agradecemos a sugestão

 

Com os melhores cumprimentos e votos de sucesso 

 

Fernando Santos e Silva

Muito obrigada
Cumprimentos

Comissão Técnica Independente para o novo aeroporto


PS em 11nov2023 - email enviado em 10nov2023 à coordenadora da CTI  cc à comissão:


Cara Colega 

Muito obrigado pela resposta.  

Não sendo especialista de aeronavegação, mas apenas de transportes metropolitanos, o valor da minha participação no processo do AHD e Novo Aeroporto é apenas o de um comum cidadão. 

No meu caso, morando a 1.500 metros para sudeste da extremidade sul da pista 20, testemunho o incómodo do ruído (de contabilização pela Zero provavelmente subjetiva mas quantificável, se comparados , com populações não sujeitas a este tipo de ruídos, os índices de doenças correlacionáveis)  especialmente com vento de sudoeste implicando a descolagem na pista 20. Ao incómodo do ruído soma-se o do cheiro de combustível em dias de calor e vento norte. Penso que deveria ainda considerar-se a afetação sofrida pelos moradores na avenida do Brasil mais próximos das torres de radar, sujeitos às respetivas radiações eletromagnéticas de frequência elevada. 

Tomo assim a liberdade de vos enviar este comentário que, dada a proximidade da conclusão do vosso relatório global, sugiro considerem como participação na próxima consulta pública.   

1 – prazo para fecho do AHD - Como técnico e considerando os constrangimentos financeiros, não posso exigir o rápido desmantelamento do AHD, nem a redução significativa do seu tráfego diurno, mas parece-me essencial que no vosso relatório se aponte um cronograma para o fecho do aeroporto, inclusive em obediência às diretivas comunitárias (especialmente chocante é o facto das rotas de aproximação  e de descolagem sobrevoarem 5 hospitais, sendo o mais próximo psiquiátrico), indicando claramente o prazo (10 anos máximo?) para essa saída ou, no limite, para a redução substancial do tráfego (20.000 movimentos/ano?) 

2 – ponto de descolagem na pista 20-02 – excecionalmente neste outono-inverno de 2023, o vento sudoeste tem predominado, verificando-se a descolagem nesta pista, no sentido nordeste-sudoeste, com a maior parte das vezes os aviões a cruzarem a pista para iniciarem a corrida junto da extremidade norte da pista, o que a observação da razoável altitude a que os aviões sobrevoam a avenida do Brasil confirma. Não contesto que afastar para norte o ponto de descolagem reduza a capacidade, mas se se evitar o cruzamento da pista graças ao prolongamento de 1.300m do taxiway do lado nordeste da pista 20 até à sua extremidade norte, a capacidade, salvo melhor opinião, será reposta. Parece-me que este prolongamento de 1.300m não está referido no vosso relatório, sendo dada preferência às saídas rápidas da pista 02-20 sensivelmente por alturas da atual base de  Figo Maduro, possivelmente pela predominância do vento norte (pelo menos até agora), pelo custo do aterro e das expropriações necessárias para o taxiway de 1.300m, e pelas exigências de avaliação ambiental. (Esclareço que a minha proposta não era encurtar do lado sul a pista 02-20 nem deslocar para norte o ponto de aterragem, mas apenas , uma vez que o ruído é inferior ao das descolagens, deslocar para norte o ponto de descolagem quando o vento está sudoeste). Pessoalmente considero o taxiway de 1.300m uma medida prioritária. 

3 - Interligação com o traçado das linhas de Alta Velocidade e com o PMUS – O planeamento de  redes de transportes de modos diferentes deve, em princípio, ser feito numa perspetiva integrada em que que cada modo desempenha uma função complementar das funções dos outros. Isso mesmo está previsto na regulamentação das redes intermodais transeuropeias de transportes TEN-T ao impor a ligação dos aeroportos principais à rede ferroviária de Alta Velocidade no art.33 da proposta de revisão e substituição do regulamento 1315. Igualmente no art.40 é fixado o prazo de dezembro de 2025 para a elaboração de SUMPs (sustainable urban mobility plans ou PMUS) nos principais nós urbanos incluindo as suas redes urbanas e suburbanas, as mercadorias e os acessos a aeroportos. Não sendo da competência da vossa comissão o estudo dos traçados da alta velocidade ferroviária  nem os das redes ferroviárias e rodoviárias de mercadorias, suburbanas e de metropolitano (da competência das entidades responsáveis pelo PROTAML), ainda assim as propostas de localização do novo aeroporto deverão ser compatíveis. Esta questão levanta-se principalmente para a opção entre a margem esquerda e a margem direita do Tejo para a linha de AV (não se conhecem estudos comparativos dos  custos de construção de cada hipótese) e para o modo construtivo e localização das travessias do Tejo de AV, mercadorias,  linhas suburbanas e de metropolitano, ponte ou túnel (idem). Mais uma vez se apela à vossa autoridade técnica e relevância para evidenciar junto da tutela governamental a urgência do planeamento que responda a estas questões na observância da regulamentação comunitária, inclusive  para viabilizar o cofinanciamento.  

4 - Transporte de combustível por oleoduto – reconhecendo que a construção de um oleoduto poderá tomar grande parte do prazo desejável para a vida útil do AHD (10 anos?) seria no entanto importante que o vosso relatório, dada a vossa relevância, referisse o indesejável risco associado ao transporte rodoviário do combustível em quantidades cada vez maiores para acompanhar o crescimento do tráfego (acresce outra situação indesejável, a presença nas proximidades dos postos de combustível na 2ª circular). Uma análise de custos benefícios provavelmente concluirá, atendendo aos custos do transporte rodoviário, pela utilidade do oleoduto mesmo para uma amortização de 2 ou 3 anos (custo estimado para o oleoduto: 50 milhões de euros?) 

5 - Hipótese de construção de segunda pista a exemplo do aeroporto de Gatwick – tendo surgido na imprensa da especialidade a hipótese da construção de uma segunda pista apenas para descolagens, a 220m para poente/norte da atual pista, com o objetivo de aumentar a capacidade do AHD e prolongar a sua vida útil, penso que deverá ser contrariada não só pelos custos, nomeadamente de expropriações  e de deslocação das instalações de carga e de reservatórios de combustível mas pela necessidade referida em 1 de encurtar essa vida útil. 

 






De Aveiro a Carcavelos

 

1 - a demolição da vivenda Aleluia em Aveiro

https://www.noticiasdeaveiro.pt/pcp-prepara-entrega-dos-azulejos-da-vivenda-aleluia-ao-municipio-de-aveiro/

Levantou-se um clamor contra a demolição. Também estou de acordo com a incorreção do processo que levou à demolição, criticando o proprietário e a câmara, por não ter classificado o imóvel. Na minha vida particular tive um caso parecido, tendo optado por vender o prédio antes da elaboração de um projeto imobiliário, no estado em que se encontrava.

Neste caso, conforme a notícia do Notícias de Aveiro, os azulejos foram entregues à câmara municipal. Ainda funcionando a fábrica Aleluia,  https://aleluia.pt/?gad=1&gclid=CjwKCAjwvfmoBhAwEiwAG2tqzEJNKRRS4K5zvJhDFjOEu1eT-6Bwd4m1cRK_wR4CIbG-69PrI6cp9hoCR0IQAvD_BwE

uma boa solução poderia ser a câmara renegociar o projeto aprovado e substitui-lo por um novo projeto com elementos evocativos da vivenda e com instalação dos azulejos em local visível e visitável sem condicionamentos pelos cidadãos.


vista frontal, entre dois prédios de 7 sndares
vista das traseiras


vista do parque de estacionamento Senhora dos Aflitos, nas traseiras

vista aérea

2 - a urbanização da Quinta dos Ingleses em Carcavelos


https://www.msn.com/pt-pt/noticias/ultimas/quinta-dos-ingleses-%C3%BAltimo-espa%C3%A7o-verde-junto-ao-mar-em-cascais-em-risco/vi-AA1hHvkO?ocid=mailsignout&pc=U591&cvid=b2ba70ba63464d15b86ddbf46be8b565&ei=78


https://www.rtp.pt/noticias/pais/quinta-dos-ingleses-ultimo-espaco-verde-junto-ao-mar-em-cascais-em-risco_v1518665?utm_term=Panorama+5+dh%3F%3F%3F%3F%3F%3F+Lisboa+em+resumo&utm_campaign=LPP+Subscritores&utm_source=e-goi&utm_medium=email&eg_sub=558a907afb&eg_cam=ced70b3c9f6af90b72e204ce88e69096&eg_list=7


Parecendo irreversível a destruição da Quinta dos Ingleses (ao menos que se reservasse dos 40 hectares uma pequena área para a construção e o restante fosse "municipalizado" ao dispor dos cidadãos), nos dois casos, em Aveiro e em Carcavelos, terá sido invocada a insustentabilidade dos proprietários na manutenção das propriedades (num caso a manutenção da vivenda, no outro a limpeza e cuidados dos terrenos). Donde se concluirá que são as próprias leis que obrigam a gastos incomportáveis que levam os proprietários a entregar à fúria imobiliária as suas propriedades, isto é, ao mercado. 

É curioso as pessoas protestarem, mas não protestam contra as leis do mercado e dos seus reguladores, muito menos contra a estrutura da propriedade dos modos de produção. Mas quem sou eu para alterar este estado de coisas.




terça-feira, 3 de outubro de 2023

Sessão na Ordem dos Engenheiros sobre as ligações ferroviárias à Europa em 14 de setembro de 2023


Programa da sessão e apresentações :

https://www.ordemengenheiros.pt/pt/agenda/conferencia-ligacoes-ferroviarias-a-europa/

 

Gravação Youtube da sessão:

https://www.youtube.com/watch?v=BAJVWfHLQsU

 

Regista-se com apreço a posição da Ordem dos Engenheiros, ao realizar esta sessão, de promover o debate, sem querer impor uma solução.  Na verdade, compete aos cidadãos, nos termos do at.48 da CRP, participar nos assuntos públicos, cabendo especialmente, além das instituições, aos técnicos da especialidade e aos interessados pelas suas ligações à academia ou à industria exportadora, informar a sociedade civil dos problemas e das possíveis soluções.

 



 

Comentário à intervenção do eng.Carlos Fernandes 

Índice 

1 - Troço Plasencia-Merida em via única como Évora-Caia

2 - Rendimento da mudança de bitola com travessas polivalentes

3 - Só se eliminarão as pendentes da linha da Beira Alta quando Espanha o  fizer no troço Salamanca-Vilar Formoso

4 - Nova fábrica de baterias em Sines

5 - O comércio com Espanha é 4/5 (80%) do comércio total com a  Europa

6 – Argumentos para a linha AV Porto-Lisboa ser em bitola 1668mm

7 - A ADIF não prevê a ligação Ourense-Santiago em UIC continuando a utilizar os Alvia S730 de eixos variáveis

8 - Contactos com a DG MOVE com o acordo para a linha AV Porto-Lisboa

9 – Carência de recursos humanos na IP e perda do financiamento CEF

10 - O mapa do observatório del ferrocarril en España mostra que não há serviço de mercadorias em bitola europeia

11 - Tunel de el Perthus com comboios de mercadorias sem comboios de mercadorias (afirmação de Frederico Francisco)

 

Comentários

 

1 – Linha AV da Extremadura (Troço Plasencia-Merida em via única como Évora-Caia?)

 

De acordo com o mapa da Declaracion sobre la rede da ADIF/AV, o troço da linha AV entre Talayuela e Plasencia (em construção) e Plasencia-Mérida/Aljucen (em serviço) é em via dupla (exceto na travessia de Caceres) com travessas polivalentes e via 1668mm. Entre Merida e Badajoz a linha de AV é em via simples, em paralelo com a via convencional pré-existente


                                                     em:          https://www.adif.es/informacion-al-usuario/mapa

linha de AV da Extremadura ao lado da linha convencional pré-existente, em:

Adif pone en tensión otros 90 km más de la línea de alta velocidad de Extremadura (eldiario.es)


Uma importante diferença entre o que foi feito em Espanha e o que está em Évora-Caia, condicionando a posterior transição da bitola é que os viadutos do lado espanhol estão já com via dupla enquanto do lado português só têm tabuleiro para a via única. Como se sabe, os custos de manutenção ou reposição de estaleiro ao voltar-se à obra encarecem-na e só será possível fazer a transição sem interrupção do tráfego construindo a segunda via, com custos superiores aos atuais.

 Viaduto sobre o Tejo do lado espanhol

                                               

 

Viadutos do troço Évora-Caia. Visíveis os pilares para o tabuleiro da via única. O tabuleiro da segunda via será instalado sobre pilares de que só existem as bases, também visíveis ao lado dos pilares concluídos.


Conclusão: embora não seja satisfatória, em Espanha, a evolução da linha de AV da Extremadura, que integra a linha Lisboa-Madrid, faltando construir os troços Talayuela-Madrid, não pode afirmar-se que nada está feito do lado espanhol, requerendo-se mais interesse do governo português em, nas cimeiras luso-espanholas, acelerar em boa coordenação a construção deste corredor internacional das redes transeuropeias

 

2 - Rendimento da mudança de bitola com travessas polivalentes (15km/dia de via dupla?)

Têm os proponentes da bitola 1435mm insistido  que não é uma tarefa fácil fazer a transição de bitola nas travessas polivalentes, especialmente se se tratar de via única ou zona de aparelhos de via (agulhas), obrigando à interrupção da circulação ou a sucessivos transbordos durante tempo considerável. Baseados na informação em  (diapositivos 36 e seguintes)                    http://cip.org.pt/wp-content/uploads/2017/01/Ref-78.pdf        têm divulgado o rendimento esperado de 1km de via simples/equipa de 17homens por turno. Admitindo 3 períodos  de trabalho por dia e em cada período o trabalho simultâneo de 3 equipas de 17 homens espalhados por 3 km, teremos 9 equipas com cerca de 150 homens e  9 km executados por dia. Isto é, 9 km/dia e 150 homens. Comparando com a velocidade de 0,3 km/hora, dada por fabricantes de transportadores de carril na substituição de carris, e os tempos para  desaparafusar e aparafusar os tira-fundos, parece razoável a estimativa.

O eng.Carlos Fernandes apresentou uma estimativa de 12 a 15km de via dupla por 3 equipas de  30 homens, o que daria um rendimento de 30 km de via simples/dia e 90 homens, o que parecerá otimista, tal como a estimativa de 0,3 milhões de euros por km. No entanto, concordaremos que no caso de futura transição de bitola em Évora-Caia será preferível construir primeiro a segunda via, incluindo os novos tabuleiros dos viadutos que atualmente só dispõem do tabuleiro para via simples, o que encarecerá a obra.

 

3 – pendentes da linha da Beira Alta

Conforme a apresentação do eng.Carlos Fernandes, a IP estima perto de 1.000 milhões de euros para a eliminação das pendentes. Considerando que atrasos na obra adiam a reabertura da linha para cerca de 2 anos após o fecho em abril de 2022, que a extensão da obra foi mais do que “modernização” ao implicar a construção de novos viadutos, que uma linha nova Aveiro-fronteira portuguesa teria cerca de 180km (menos 10% do que o percurso Aveiro-Pampilhosa-Vilar Formoso), que a limitação das pendentes a 1,25% na nova linha permitiria uma economia de cerca 30% no consumo de energia, parecerá que deverá fazer-se a comparação ex post entre “modernização” e construção de raíz de linha nova de interoperabilidade conforme a regulamentação das redes transeuropeias em projetos futuros.

Relativamente à afirmação de que só deverá eliminar-se as pendentes quando Espanha o fizer no troço de Salamanca, vale dizer que a Medway e a Captrain adquiriram locomotivas Stadler Euro 6000 com bitola 1668mm para o serviço na península e com bitola 1435mm para o serviço na Europa além Pirinéus cujas caraterísticas de tração (500kN no arranque e 430kN em serviço contínuo) que se estima poder vencer, sem embalamento,  as pendentes de 1,8% do troço de Salamanca à velocidade de cerca de 50 km/h para uma carga útil de 1.400 toneladas. Mas reitera-se que seria desejável uma linha nova em via dupla e bitola 1435mm. Igualmente se sublinha a importância da adoção de equipamento standard ERTMS para sinalização e controle de velocidade sem equipamentos específicos como as balizas CONVEL e o módulo STM.

 

4 –   Nova fábrica de baterias de lítio em Sines

Efetivamente, foi elaborado um Estudo de Impacto Ambiental cuja consulta pública terminou em março de 2023, aguardando-se o parecer final da APA. Trata-se de um projeto do fabricante chinês CALB. Estranha-se esta demora, esperando-se que não tenha que ver com questões geo-estratégicas de restrições ao comércio por algum bloco plurinacional (recorda-se a pressão do embaixador dos USA aquando do concurso do terminal XXI). 

Provavelmente a principal via de exportação encarada seria a marítima, mas a ligação em bitola1435mm à Europa além Pirinéus seria um fator de fixação da empresa chinesa em Sines. Enquanto tal não for possível deverá acelerar-se a construção do troço Sines-Grandola Norte (sugere-se em via de 3 carris) para evitar as pendentes do troço Sines-Ermidas, e a operacionalização da ligação à plataforma de Vitória e de Manzanares (na linha Badajoz-Puertollano) com recurso ao equipamento ERTMS standard.

Informação recolhida sobre este tema:

https://participa.pt/pt/consulta/pda-do-eia-da-unidade-industrial-de-baterias-de-litio

https://www.motor24.pt/noticias/chineses-com-projeto-de-mega-fabrica-de-baterias-para-sines/1592349/  

https://www.jornaldenegocios.pt/empresas/detalhe/fabrica-de-baterias-em-sines-vai-lucrar-com-acordo-entre-volkswagen-e-xpeng-motors

https://expresso.pt/economia/economia_energia/2023-09-16-Projeto-de-15-mil-milhoes-para-produzir-combustivel-verde-para-navios-em-Sines-inicia-licenciamento-ambiental-5b86db1a

 

 

5 - O comércio com Espanha é 4/5 (80%) do comércio total com a  Europa

Trata-se de informação desatualizada. Não é essa a informação do INE relativamente ao comércio por todos os modos com a EU de janeiro a julho 2023: 61% em peso e 41% em valor para exportações mais importações, 55% em peso e 36% em valor para exportações. Observa-se que apesar de Espanha ser o principal parceiro, o resto da UE proporciona uma receita de exportações superior (21 mil milhões de euros contra 12 mil milhões) e um défice das exportações-importações inferior (-4 mil milhões contra -9 mil milhões).

dados do INE em:
https://www.ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=ine_indicadores&indOcorrCod=0008151&contexto=bd&selTab=tab2

https://www.ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=ine_indicadores&indOcorrCod=0008594&contexto=bd&selTab=tab2




Conclusão: compreende-se o empolamento para além dos números do INE que o governo e a IP fazem da importância do comércio com Espanha, por continuar a ser o primeiro cliente,  porque isso ajuda a aceitar concentrar os esforços na manutenção sem prazo duma rede de bitola 1668mm complementar da rede espanhola de mesma bitola orientada, no corredor atlântico, para o serviço da plataforma de Vitoria (que se espera ligada brevemente por via de 3 carris a Irun, eliminando assim as dificuldades de sincronização de canais dos dois lados da fronteira) e de Madrid por Puertollano e Manzanares (que integram o corredor mediterrânico Algeciras-Cordova-Madrid-Zaragoza-Barcelona e Algeciras-Valencia-Barcelona)

https://www.adif.es/sobre-adif/red-ferroviaria/corredores-transeuropeos

Porém, dada a estratégia espanhola de desenvolvimento das linhas de AV para passageiros e de integração dos corredores de mercadorias nos corredores internacionais em sintonia com a regulamentação europeia, conforme a última ligação para a ADIF (em “Camino hacia un nuevo marco de los corredores europeos”), não parecerá compatível com essa estratégia espanhola a defesa da exclusividade da rede de mercadorias em bitola 1668mm com o argumento do peso do comércio com Espanha, requerendo-se uma boa coordenação com Espanha para o cumprimento da regulamentação, incluindo a integração dos corredores de mercadorias nos corredores internacionais.

 

6 - A linha AV Porto-Lisboa será bitola 1668mm porque:

i)                 pretende-se serviços para as cidades intermédias (servindo com desvios estações como Coimbra B, Aveiro e Campanhã) e de regiões adjacentes;

ii)                pretende-se libertar canais na linha existente para mercadorias;

iii)              só se planeou para 2030 a ligação Porto-Carregado, dando-se continuidade para Lisboa com a quadruplicação da linha em Alverca-V.F.Xira  (aparentemente, a forma como foram apresentados os inconvenientes da opção de construção da linha AV Porto-Lisboa integralmente em bitola 1435mm terão sido exagerados)

i)  Existe uma divergência profunda entre o conceito inter-regional do PFN, que acentua a predominância do litoral e  ignora o estímulo ao crescimento das exportações e à fixação de investimento estrangeiro ao longo dos corredores internacionais, e o conceito internacional da regulamentação das redes Transeuropeias TEN-T. É verdade que a construção faseada da linha em bitola 1435mm obrigaria, sem comboios de eixos variáveis, a transbordos entre troços com e sem bitola 1435mm e para a ligação às cidades intermédias.  Isso seria suportável, não se recorrendo a material circulante de eixos variáveis e intercambiadores, com rapidez de execução e facilidade de transbordo dos passageiros (com os meios tecnológicos atualmente disponíveis, é possível implementar sistemas de recolha e de entrega domiciliar que evitem o incómodo do transporte de bagagem nos transbordos) . Os desvios para as estações no centro das cidades poderão ser evitados com linhas de metro de ligação ao centro da cidade.

ii)  A alternativa ao proposto no PFN é o respeito pela regulamentação comunitária, em vez de uma linha de bitola 1668mm para tráfego exclusivo de passageiros, o que o mapa das redes TEN-T prevê é uma linha de bitola 1435mm para tráfego misto de passageiros e mercadorias, este no período noturno por razões de segurança. Necessária a aquisição de vagões de bitola 1435mm ou de eixos variáveis, aquisição de novos vagões inevitável atendendo aos novos requisitos da regulamentação (por exemplo,  o DAC, digital automatic coupling). Igualmente a linha existente serviria como complemento, absorvendo tráfego de mercadorias e de passageiros interurbano, regional e suburbano, sendo imperativo a correção das falhas de segregação relativamente a peões e outros modos, como passagens de nível, caminhos de peões adjacentes às vias ou de atravessamento, também de acordo com os novos requisitos da regulamentação revista.

iii)   Acredita-se que é possível encurtar os prazos de execução e incluir o troço Carregado-Lisboa (importante comparar numa ACB com a variante pela margem esquerda doTejo) desde que se reforcem os quadros de  pessoal e melhore a forma de contratação de gabinetes de engenharia (inclusive por concurso publico aberto a estrangeiros) de modo a poderem elaborar-se os projetos para candidatura com êxito aos fundos comunitários. Eventuais prejuízos a curto prazo da solução 1435mm comparativamente com a solução 1668mm poderão ser compensados a médio e longo prazo (2030-2040) pela viabilização da transferência da carga rodoviária para a ferrovia desde que assegurada a ligação aos portos e a continuidade por Espanha dos percursos para passageiros para Madrid (vantagem da economia energética relativamente ao avião) e de mercadorias aos Pirinéus (implicando coordenação com Espanha em moldes diferentes da atualidade).      

 

7 - A ADIF não prevê a ligação Ourense-Santiago em UIC continuando a utilizar os Alvia S730 de eixos variáveis e vai construir o túnel Vigo sul

É de facto curiosa, dada a partilha na História, a semelhança da estratégia ferroviária dos governos português e do governo regional galego, a Xunta de Galicia. Depois de elevados gastos na linha AV de Zamora até Ourense, de bitola 1435mm, para que os comboios existentes de passageiros e de mercadorias de bitola 1668mm possam circular entre Vigo, Santiago, Corunha e Ourense com ligação aos portos, manter-se-á sine die a bitola 1668mm mas já em travessas polivalentes e em via dupla eletrificada a 25kVAC e caraterísticas de traçado de alta velocidade. Isso só é possível, para a ligação daquelas cidades a Madrid, com recurso aos comboios do tipo S-730 de tração híbrida e de eixos variáveis, permitindo ao governo espanhol canalizar verbas para outras regiões.

Também curiosamente, esta solução poderia ser utilizada na nova linha Porto-Lisboa em bitola 1435mm instalando intercambiadores de mudança de bitola, fase a fase, em quantidade inferior aos 20 citados pelo eng.Carlos Fernandes, mas reitera-se que a divergência principal que temos é sobre o conceito do PFN que enforma a nova linha conforme visto no ponto 6. Acresce que devido às caraterísticas da linha de Ourense-Zamora provavelmente  terá de se construir num futuro ainda não datado, uma nova linha de mercadorias de bitola 1435mm de ligação a Monforte-Leon-Palencia-Venta de Baños-Burgos de elevado custo devido à natureza montanhosa. A linha de Oviedo-Pajares-Leon será de tráfego misto com troços de bitola 1435mm e de 3 carris e intercambiadores.

Anota-se que é uma lacuna a ausência da bitola 1435mm de Ourense até à capital da Galiza, impedindo o acesso à região de operadores estrangeiros que não disponham de comboios de eixos variáveis.

8 - Nos contactos com a DG MOVE foi dado o acordo à construção da linha AV Porto-Lisboa em bitola 1668mm dependendo a decisão de “migração” para 1435mm de análise de custos benefícios integrante da avaliação até 2026 e da elaboração de um plano de migração até 2027, conforme os artigos 16.a.2 e 16.a.3 . Segundo o eng.Carlos Fernandes a decisão de “migração” dependerá da chegada da bitola 1435mm à fronteira com Espanha, embora a informação disponibilizada publicamente pela DG MOVE e o art.16.a.5  é de que a decisão de não “migrar” deverá ter o acordo de Espanha através dum pedido de isenção temporária de cumprimento do requisito da bitola 1435mm.

Não pode deixar de se notar que estes pedidos de isenção se traduzem num adiamento até 2027 da decisão de adotar a bitola 1435mm em vez da elaboração de um planeamento credível minimizador dos efeitos a longo prazo desse adiamento.

 

9 - Carência de recursos humanos na IP e perda do financiamento CEF

 A solução de uma PPP para cada fase da linha AV Porto-Lisboa deve-se à incapacidade da IP de desenvolver os projetos, para além dos estudos prévios que integram os concursos para conceção-construção-operação-manutenção.

Verifica-se assim, com grau significativo de probabilidade, uma carência de recursos humanos na IP para elaboração dos projetos para concurso e para candidaturas a fundos comunitários e para controle de execução das obras e ensaios de colocação em serviço. Poderá ser essa a razão de sucessivos atrasos nas obras atribuíveis a limitações na fiscalização na previsão e controle das causas habituais associadas à contratação pública, às cadeias de fornecimentos, guerra e inflação. Poderá também ter estado na origem da ausência de candidatura aos fundos CEF no período que terminou em jan2023. Segundo o eng.Carlos Fernandes espera-se poder apresentar a candidatura ao CEF Coesão no período  com início em set2023 com a expetativa até 1.000 milhões de euros como apoio à nova linha Porto-Lisboa.

Independentemente destes factos, parece urgente a IP promover um aumento de quadros dos seus técnicos acompanhado das necessárias ações de formação, considerando os requisitos acrescentados pela revisão da regulamentação, nomeadamente nos desenvolvimentos tecnológicos a aplicar no material circulante tanto de passageiros como de mercadorias e aos nós urbanos (artigos 12, 18 e 40).

 

10 – Rede de mercadorias em Espanha

O eng.Carlos Fernandes reconhece que a rede de mercadorias peninsular UIC seria o ideal, mas o mapa do observatório del ferrocarril en España só mostra o troço Barcelona-Figueres (trata-se de uma edição de 2021 não contemplando os planeamentos do “Y” basco e do corredor mediterrânico)

Na segunda intervenção, o eng.Carlos Fernandes afirmou que não há transporte de mercadorias em bitola 1435mm em Espanha, excetuando o troço Barcelona-Figueres-Perpignan. Sendo verdade, ignora o intenso trabalho no corredor mediterrâneo e no Y basco, as dotações do orçamento de Estado para 2023 da ordem de 1.600 milhões de euros para cada um dos corredores atlântico e mediterrânico, a aplicação de cerca de 2.500 milhões de euros do PRR, de fundos CEF e o planeamento para a ferrovia do governo espanhol, publicamente referido como comprometido com a regulamentação comunitária (p.ex: bitola 1435mm em Valencia em 2025).

Poderá então afirmar-se que muito provavelmente ( a menos que eventual mudança de governo venha a ser também mudança de posicionamento na União Europeia) a curto prazo, inferior a 5 anos, a situação mudará.

Ora, como também afirmado na segunda intervenção que “todos estamos de acordo que ums rede de bitola 1435mm seria o ideal” e que a construção de uma linha pode demorar 10 anos entre a decisão e a inauguração, teremos aqui, considerando o anterior, uma oportunidade para uma convergência entre a posição oficial do governo/IP e a dos proponentes da promoção da bitola 1345mm.

Para isso propõe-se seguir o exemplo de Espanha, que criou dois “comissionados del gobierno”, um para o corredor mediterrânico e outro para o corredor atlântico (aguarda-se a apresentação do primeiro relatório deste para out2023) e mantem a ADIF separada em duas entidades de gestão independente, a ADIF convencional e a ADIF AV.

Para além disso, a complexidade e a extensão da criação da rede de bitola 1435mm e ERTMS em Portugal recomenda o aumento dos quadros da IP com ações de formação adequadas aos novos elementos.

Sobre a participação da IP nos agrupamentos europeus de interesse económico, AVEP e RCF4, sugere-se a subordinação rigorosa às especificações da regulamentação comunitária e o suporte ao governo português na coordenação com os governos espanhol e francês e a DG MOVE para  implementação dos corredores internacionais segundo os prazos 2030, 2040 e 2050,e , no caso das mercadorias, da integração do respetivo corredor nos percursos da rede TEN-T antes de 2050. Numa altura em que o governo português publicamente reafirma a sua sintonia com as diretivas comunitárias no sentido da transição energética e sendo a ferrovia um dos elementos dessa transição, não deverá ser difícil a sensibilização para a preparação da implementação dos regulamentos das redes TEN-T.

 

Em seguida mostram-se o mapa citado do “Observatorio del ferrocarril” do MITMA, observando que data de 2021, e o mapa ADIF do “Comisionado del gobierno para el corredor mediterraneo”. Ambos não incluem os esperados desenvolvimentos do Y basco e do corredor mediterrânico, que podem visualizar-se no mapa a seguir representado, do site  “Quero corredor” promovido pela associação dos empresários valencianos.

em pág.150 de:

https://cdn.mitma.gob.es/portal-web-drupal/ferroviario/observatorio/ofe_2021_feb2023_v2.pdf

 

retirado do site do Comisionado del gobierno para el corredor mediterraneo, onde podem vizualizar-se troço a troço o seu estado em serviço ou em obras, tipo de via (standard, ibérica, mista) e serviço passageiros e mercadorias (neste momento, mercadorias apenas até Barcelona em bitola 1435mm; evolução a seguir nos próximos anos, com previsão de 2025 até Valencia):

https://corredor-mediterraneo-adif.hub.arcgis.com/

https://adif.maps.arcgis.com/apps/webappviewer/index.html?id=66ace739697a4420936c351a922fc272

 

em:      https://elcorredormediterraneo.com/estado-de-las-obras/

 

Relativamente ao Y basco, referido pelo eng.Carlos Fernandes como tendo décadas de atraso (recorda-se a complexidade topográfica e a necessidade da sua existência para passageiros e mercadorias para a economia do país basco) o objetivo de 2027 manter-se-á, impondo-se que do lado francês não haja adiamentos com origem na política regional da Aquitania.

Ver  https://www.noticiasdegipuzkoa.eus/sociedad/2023/03/09/tercer-hilo-tav-astigarraga-irun-6545416.html 

 

Tanto no caso do corredor mediterrânico como no do Y basco, seria bom os defensores da exclusividade da bitola 1668mm e os proponentes da promoção da bitola 1435mm fundamentarem os seus argumentos nestes mapas de referência.

 

Sobre a linha Plasencia-Badajoz, afirmou o eng.Carlos Fernandes que tem pendentes longas de 1,8% que impedem a exploração por mercadorias. Observa-se que a linha Figueres-Perpignan que inclui o túnel de el Perthus, de tráfego misto, tem rampas com esse limite de pequena extensão e precedidas de curtos declives para facilitar o embalamento. Reitera-se que as novas locomotivas Stadler Euro6000 da Medway e da Captrain com 6MW e 500kN de força de tração no arranque podem vencer estes pendentes a 50km/h sem embalamento para uma carga útil de 1400 toneladas.

Reproduz-se um extrato do documento da ADIF

https://www.adifaltavelocidad.es/l%C3%ADnea-madrid-extremadura-frontera-portuguesa

“No sólo el tráfico de viajeros se beneficiará de la nueva línea. Su carácter de tráfico mixto permitirá a los trenes de mercancías circular por la misma aprovechando sus excedentes de capacidad y se conseguirá de esta manera un reequilibrio en la distribución modal de los transportes, reduciéndose sobre todo la cuota del transporte por carretera”.

Ver também, em que se menciona a utilização dos comboios Alvia S-730, de alimentação híbrida e eixos variáveis 1668/1435mm:

https://www.lamoncloa.gob.es/presidente/actividades/Documents/2022/180722_Dossier-fase1-LAV-Extremadura.pdf

Em conclusão, sem negar a evidencia de em Plasencia-Badajoz se utilizar bitola 1668mm com travessas polivalentes e faltarem cerca de 700km (Plasencia-Madrid-Vitoria) em Espanha para o corredor atlântico, não parece dever insistir-se em que a linha AV da Extremadura está em via única sem capacidade para o tráfego misto, nem ignorar a estratégia do governo espanhol e da ADIF de satisfazer as especificações da regulamentação comunitária das redes TEN-T.

 

11 - Tunel de el Perthus sem comboios de mercadorias (afirmação do senhor secretário de Estado)

Tem sido tradicional os defensores da exclusividade da bitola 1668mm desvalorizarem o tráfego de mercadorias no túnel de el Perthus, possivelmente para demonstrar a irrelevância da existência da bitola 1435mm no troço transfronteiriço Figueres-Perpignan. No entanto, consultando o site destinado a este troço, verifica-se que à quebra de tráfego associado à epidemia do Covid sucede um crescimento para 23 rotações semanais de mercadorias (78 rotações de comboios de passageiros) que se espera acentuar quando a bitola 1435mm ultrapassar o limite atual em Barcelona e se estender, previsivelmente em 2025, até Valencia. De destacar as novas ligações AV diretas de passageiros Barcelona-Lyon e Madrid-Marselha e as ligações de mercadorias Barcelona-Bettemburg.

https://www.lfpperthus.com/servicios-comerciales#single/0  

https://www.vialibre-ffe.com/noticias.asp?not=34721

 

 

 

Comentário a outras intervenções na sessão de 14set2023 na Ordem dos Engenheiros sobre as ligações ferroviárias à Europa

 

Sobre a intervenção do eng Mineiro Aires, sublinha-se o reconhecimento da necessidade da terceira travessia do Tejo independentemente da localização do novo aeroporto, e a efetiva contribuição de ligações ferroviárias fiáveis à Europa além Pirinéus para a competitividade das exportações portuguesas e a atratividade de investimento estrangeiro produtivo.

Na intervenção da engra Daniela Carvalho sublinha-se a confirmação de informação anterior da DG MOVE divulgando as propostas de revisão do regulamento 1315 do parlamento Europeu de abr2023, aguardando-se provável aprovação no início de 2024. As novas propostas constituem um caderno de encargos rigoroso e extenso que  obrigará fatalmente a reforçar os quadros da IP e da colaboração com entidades exteriores. Destaco os novos requisitos seguintes:

·        Ligação dos portos aos corredores internacionais

·        Rede alta velocidade para passageiros ligando as capitais (mínimo 160 km/h)

•      P400 (gabarito cinemático) para permitir a circulação de semirreboques [este é um objetivo que mereceria o desenvolvimento imediato de um planeamento eficaz por viabilizar a transferência de carga rodoviária para a ferrovia, como se verifica, por exemplo, na rede do “Y” basco e no corredor mediterrânico]

•      Remoção de todos os outros sistemas de sinalização até 2040

•      Tempo máximo para procedimentos em fronteira de 15 minutos

•      Indicador de pontualidade de 30 minutos à chegada para comboios de mercadorias

•      ACB da migração da bitola (considerando o progresso tecnológico em curso) [neste caso desejar-se-ia que a imposição da avaliação da “migração” de bitola numa linha como a de Porto-Lisboa com elaboração de uma ACB em 2 anos fosse retirada, isto é, dispensada a “isenção” do artigo 16.a.2 de cumprimento da bitola 1435mm, com base na prevalência do objetivo de coesão do TFUE para um país periférico como Portugal, configurando essa avaliação um fator de atraso na implementação da parte peninsular do corredor atlântico TEN-T]

 

Dado o estado da rede peninsular de mercadorias, faltando troços extensos para integração do serviço de mercadorias nos corredores europeus com as caraterísticas de plena interoperabilidade (para o corredor atlântico: 110km em Portugal, 700km em Espanha; 200km para o corredor norte fronteira portuguesa-Medina del Campo), estão por definir no novo regulamento datas anteriores a 2050 para essa integração, no espírito do novo artigo 12.1.i.a, o que é desejável como fator de crescimento das exportações, transferência de cargas rodoviárias para a ferrovia, nomeadamente através do transporte de camiões ou semirreboques e caixas móveis em comboios internacionais, e fixação de investimento estrangeiro.

Compreender-se-á que manifestemos estranheza pela omissão sistemática de qualquer referência à rotura de carga devida à diferença de bitolas entre a península e a Europa além Pirinéus. Não discutimos o grau de obstaculização à interoperabilidade porque por exemplo o art.19 da proposta de revisão regulamentar é muito claro na insistência de adotar a bitola 1435mm nos corredores internacionais. Mas consideramos que, tal como o ERTMS (cuja solução com o STM e as balizas CONVEL em tempo não está definida, apesar da proposta de regulamentação fixar 2040 para a desativação dos sistemas de sinalização diferentes do ERTMS), seria de esperar uma recomendação para a calendarização  da conclusão do percurso do corredor  atlântico de AV e tráfego misto entre Lisboa/Sines-Madrid-Vitoria e Leixões/Aveiro-Salamanca-Vitoria. Anoto também a omissão à ligação Évora-Beja-Faro-Huelva de tráfego misto prevista na proposta de regulamento para 2050.

Dada a sua extensão, o comentário à intervenção do eng.Carlos Fernandes está em anexo a este documento.

 

Saúdo a correção das conclusões do colega  da comissão de especialização de transportes ao recomendar uma melhor coordenação no planeamento do governo português com o governo espanhol acabando com a inação e a indecisão habituais, e sugerindo uma convergência entre os defensores da posição oficial do governo/IP e os proponentes da promoção da bitola 1435mm integrada no conjunto dos requisitos da interoperabilidade plena. Sublinho nesse sentido considerandos e propostas de pistas de ação:

Considerando

que entre a decisão e a colocação em serviço de uma linha ferroviária de alta velocidade de tráfego misto pode mediar um prazo de 10 anos

que a substituição da ligação aérea Lisboa-Madrid por um nova linha de alta velocidade é um imperativo da ação contra as consequências das alterações climáticas

que o adiamento continuado das ações para a construção das ligações à Europa de mercadorias com as caraterísticas de plena interoperabilidade (incluindo 25 kVAC, ERTMS, pendentes inferiores a 1,25%, bitola 1435mm) se traduz por um efeito multiplicador do agravamento de custos no futuro e constrangimento do crescimento das exportações

propõe-se

que seja implementada uma eficaz coordenação com Espanha para a execução do novo regulamento, nomeadamente:

nas cimeiras governamentais,

no relacionamento entre ministros e secretários de Estado dos transportes de Portugal, Espanha e França e destes com a DG MOVE

nos agrupamentos europeus de interesse económico AEIE (representantes de ADIF, DB, IP E SNCF; AVEP – Alta Velocidade Espanha Portugal; RFC4 - Corredor atlântico de mercadorias), incluindo melhor divulgação prévia e posterior aos interessados relativamente ao desenrolar dos processos

replicação do exemplo espanhol dual de separação da ADIF Convencional e ADIF Alta Velocidade com gestão e orçamentos independentes, e constituição de comissões de coordenação para o corredor mediterrânico e para o corredor atlântico (no nosso caso, apenas atlântico). Eventualmente na nova comissão terá de se prever alguma transferência de funções que atualmente têm sede na IP e nos AEIE.

Finalmente, relativamente à intervenção do senhor secretário de Estado, apenas  destaco a possibilidade de redução das emissões de CO2 durante a construção de linha nova mediante a imposição de equipamento escavador alimentado por energia elétrica, e a divergência profunda entre o conceito inter-regional do PFN, que acentua a predominância do litoral e  ignora o estímulo ao crescimento das exportações e à fixação de investimento estrangeiro ao longo dos corredores internacionais, e o conceito internacional da regulamentação das redes Transeuropeias TEN-T. A afirmação de que a curto prazo os ganhos serão maiores mantendo a bitola 1668mm na nova linha Porto-Lisboa poderá ser sustentada por uma ACB, mas a longo prazo uma ACB, a exemplo das já feitas pelo Instituto Fraunhofer e pelo ECA,  poderá mostrar a vantagem da ligação à Europa além Pirinéus em bitola 1435mm no pressuposto de uma maior transferência da carga rodoviária para a ferrovia.

 

 

 

domingo, 1 de outubro de 2023

O Museu Nacional da Musica muda-se para Mafra


o museu da Musica fechou




Por não estar em Lisboa em 1 de outubro, dia mundial da Música, não pude assistir ao último concerto na estação Alto dos Moinhos do Museu Nacional da Musica. Será transferido a partir de outubro de 2023 e durante 2024 para o Palácio Nacional de Mafra, como já anunciado desde 2013, tendo os sucessivos governos aduzido argumentos relevantes para a mudança:

https://www.e-cultura.pt/artigo/23970

https://www.publico.pt/2023/09/28/culturaipsilon/noticia/museu-nacional-musica-fecha-portas-mafra-horizonte-2064942

Por mim, tenho pena, assisti a alguns concertos em tardes de 5ª feira, de modo intimista, dada a dimensão da sala. Dificilmente me deslocarei a Mafra para isso. Mas que interesso eu perante a supremacia dos especialistas de cultura, e seus argumentos, que até citarão mais de 300.000 visitantes anuais do Palácio de Mafra quando o museu no Alto dos Moinhos apenas foi menos de 20.000. Lisboa fica mais pobre, mais imersa na falsa cultura de grandes audiências que aqui se pratica, mas devemos descentralizar. Se a população de Mafra cresce e as receitas do seu imobiliário também, enquanto a de Lisboa diminui, é natural que o município de Mafra participe no investimento, ao mesmo tempo que se rentabiliza o investimento do quinto do ouro do Brasil.

No entanto, dificilmente poderei aceitar a surdez dos decisores à sugestão, ou argumentos contra a manutenção como polo secundário do museu na estação, com possibilidade de continuar a realização de concertos na sua pequena sala.

Presto a minha homenagem às administrações do metro e aos seus funcionários que proporcionaram a instalação em 1994 e desde então a manutenção do museu nas estação do Alto dos Moinhos. Registo também a simpatia de todos os funcionários do museu com que contactei.

A rede suburbana antiga de Coimbra

 O texto do meu colega, que teve uma experiência muito rica na sua vida profissional como ferroviário e estudioso da ferrovia, ao evocar os tempos na antiga rede suburbana de Coimbra deixou-me com nostalgia.
https://www.publico.pt/2023/09/29/opiniao/opiniao/cartas-director-2064935

A geração anterior da minha família era de Coimbra e da Figueira, mas já ninguém da família lá vive nem nada me liga fisicamente às cidades. Apenas o lamento de decisões de acerto muito duvidoso. Coimbra ainda nos anos 60 do século XIX foi das primeiras cidades com rede de abastecimento de gás, a sua rede de distribuição de água era notável inaugurada em 1889 com uma estação de bombagem junto do Mondego, a tração elétrica foi aplicada aos tramways (1911 com fim em 1980) e aos troleicarros (1947 com fim em 1995). Digamos que o fim do século XX assistiu ao triunfo da ignorancia nos transportes urbanos de Coimbra. E agora, depois do triunfo dos autocarros e das autoestradas, temos a desmontagem dos carris para Lousã/Serpins e a inutilização da ligação ferroviária estação A - estação B. Aparentemente, os decisores e os seus assessores não terão estado com atenção na aula de Fisico-Quimicas do 9º ano, quando se explicou que o atrito e a resistencia ao movimento são menores na roda de ferro-carril do que no pneu-asfalto, o que requer menos energia. Ou ter-se-ão esquecido.

A estação Coimbra A parece que foi condenada; a B usada como pretexto para uma remodelação urbanistica assinada por mais um grande arquiteto, parece que o mesmo da encomiástica intervenção em Campanhã. 

Podia perguntar-se primeiro por onde dava mais jeito passar a linha de alta velocidade, e em função da resposta dizer-se onde é preciso intervir. Mas não, primeiro diz-se, a linha tem de ir a Coimbra B e a Campanhã, mesmo que para isso tenha de se torcer o traçado como se fazia no século XIX para as velocidades da época, e depois contrata-se um grande arquiteto, obviamente sem concurso publico internacional,  vangloriando-se o decisor dizendo que assim os passageiros são levados ao centro da cidade (como se os passageiros morassem no centro da cidade e como se não pudesse haver linhas de metro para isso).

Como escreve o meu colega, é pena, a linha devia seguir diretamente para norte, atravessando o Mondego de forma semelhante ao que faz a autoestrada,  e em Gaia deveria seguir diretamente para o aeroporto, mas não quiseram.

Os das páginas 30 e 31

 Curioso, o que leio primeiro às sextas feiras são as páginas 30 e 31 do Ipsilon. Só depois vou ler o Barton, as notícias e as opiniões. Confesso que por vezes são um pouco intimidantes, com tanta citação e erudição laboriosa e sabiamente arquivada para ser tão repescada. Mas deviam ser leitura obrigatória dos assessores dos senhores ministros e do senhor Presidente, para lhes prepararem dossiers sobre certos assuntos. A recitação sobre as vespas anti-praxe académica e a citação do jornal nacionalista dos anos 40 são muito importantes: "Portugal é uma cantiga sem fim onde palpita a alma das suas regiões" ...

Pequena crónica de um incidente banal

 No fim de uma manhã de sol, numa avenida de Lisboa, a senhora atravessava a passadeira de peões quando foi atropelada por um SUV que, duma perpendicular secundária, pretendia subir a avenida.

Estendida no chão, cumprindo as instruções de quem acorrera enquanto alguém telefonava para  o 112, a senhora repetia "eu ia ter com o meu marido ao café".

O condutor do SUV, embaraçado, insistia, tentando defender-se, "eu não vi a senhora, estava a virar, preocupado com o transito".

Poucos minutos depois chegou a carrinha do INEM e espero que a senhora tenha recuperado.

Mas era interessante debater o incidente.

Não terá sido apenas distração do condutor do SUV (a propósito, porque estão tanto na moda os SUVs? sendo veículos de peso superior ao necessário para cumprimento da sua missão, as entidades que gerem a segurança rodoviária não deveriam limitar a sua utilização, começando por lhes impor limites de velocidade mais apertados uma vez que a probabilidade de morte por atropelamento aumenta com a massa do veículo que atropela?). A entrada vindo duma perpendicular sem prioridade numa via principal com 2 sentidos impõe atenção a esses dois sentidos a que se soma o cuidado a ter com os peões quando, como era o caso, a passadeira  se encontra junto da via secundária.

Já por várias vezes tem sido transmitido às entidades da segurança rodoviária que as artérias  urbanas devem ter apenas um sentido e que as mudanças de direção devem ser feitas apenas num sentido, mas sem exito, tal como a necessidade de construção de auto-silos ou parques subterrâneos. Quem decide prefere entusiasmar-se com as cidades de 15 minutos. Há quantos anos se estabeleceu um limite para a distancia de qualquer habitação ou local de trabalho de Paris a uma estação de metro? há quantos anos se estabeleceram os critérios TOD transit oriented development e os das transit villages? inútil lembrar que quando se cria um "superquarteirão" com muitas esplanadas, cafés e restaurantes com a sua corte de entregadores em duas rodas, mais estabelecimentos geradores de ruído e obstáculos à proximidade dos automóveis dos moradores, o episódio seguinte é a mudança de morada dos habitantes... chama-se fator de desertificação.

Mas há outro fator a ter em conta. Em avenidas movimentadas com cafés e restaurantes, é intenso o transito de entregadores em duas rodas que, tal como a maioria dos ciclistas e das trotinetas, circulam com ultrapassagens inesperadas pela direita, pelos passeios, por espaços que antigamente eram simples de vigiar por quem conduz e vai mudar de direção, e agora não.

Isto é, atiremos as pedras ao condutor do SUV que atropelou a senhora, e deixemos o resto tudo como está ... ou mudemos de cidade, para que esta fique com menos automóveis, como é o desejo dos decisores...