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segunda-feira, 3 de abril de 2017

Descarrilamento na Adémia em 1 de abril de 2017

Sobrepondo-se à guerra e à violência por esse mundo, as duas notícias de hoje, mortes em Mocoa na Colombia por deslizamento de terras (espera-se da engenharia colombiana medidas para reduzir os riscos de repetição) e mortes no metro de S.Petersburgo, só podem levar-me a votos de condolências para os familiares das vítimas.

Mas gostaria de escrever qualquer coisa sobre o descarrilamento da Adémia.

A minha experiencia ferroviária limitou-se ao metropolitano mas fiz tambem alguns trabalhos no ambito mais vasto da análise de riscos. Nessa perspetiva, considero muito grave o descarrilamento da Adémia que associo a um risco classificável segundo a norma 50126 como intolerável, dada a probabilidade não nula de presençade um comboio de passageiros na via contrária à do acidente.
Felizmente não aconteceu, mas se um comboio de passageiros tivesse partido de Coimbra B pouco antes do descarrilamento, não teria espaço para parar, apesar da ocupação dos circuitos de via e da destruição das catenárias pelo descarrilamento. Distância do local do acidente a Coimbra B: 3,9 km.
Por não ter esperança que a CP, a IP/REFER, o GISAF (agora GPIAAF) ou a Transfesa/DB Schenker prestem a curto prazo informação consistente sobre as circunstancias e causas do acidente (consultados os respetivos sites em 3 de abril à tarde, são omissos sobre pistas de investigação, em postura diametralmente oposta à cultura anglo-saxónica perante acidentes), formulo aqui deduções e hipóteses que podem não corresponder à realidade, pedindo aos colegas que possuam informações que as corrijam.
Aparentemente o comboio terá saído da fábrica de cimentode Souselas com vagões da Transfesa/DB Schenker com cinzas (ou cimento?) com destino a Sines. A ligação à linha do norte é feita por uma agulha de talão a 3,2 km do local do acidente. Ponho a hipótese de uma deficiência num dos vagões ou na agulha (rodados fora das especificações geométricas de projeto ou de homologação, nomeadamente diâmetro ou conicidade; gripagem dos pivots), ou numa segunda agulha, esta de ponta e a 3 km do local do acidente (é possível uma peça suspensa encaixar num componente de uma agulha de ponta e descarrilar um rodado). A hipótese é também a do vagão parcialmente descarrilado ter sido arrastado e tombado na ligeira curva para a direita imediatamente antes do local do acidente. Seguiu-se o "harmónio" dos outros vagões ocupando ambas as vias . A locomotiva não terá descarrilado. A assinalar ainda dois pequenos viadutos, provavelmente com aparelhos de dilatação, a 1,3 km e a 3,05 km a montante do local do acidente.
Neste caso, as ligações desativadas Figueira da Foz-Pampilhosa ou Covilhã-Guarda não constituem percursos alternativos para este tipo de serviço que terá sempre de utilizar um troço da linha do norte.
Isto põe a questão da saturação da linha do norte (pendolinos, intercidades, regionais, mercadorias, manutenção) que, por si só e do meu ponto de vista, justificaria uma linha nova dimensionada para 350km/h (não necessariamente para ser explorada com esta velocidade) dedicada a passageiros para substituir parcialmente o tráfego aéreo Lisboa-Porto, mais ineficiente energeticamente. Mas enfim, não há dinheiro (notícia de hoje do DN: os contribuintes portugueses já contribuiram com 13 mil milhões de euros para resgate de bancos (apesar de 6 mil milhões do resgate europeu não terem sido utilizados).
Uma palavra ainda de confiança no valor e na experiência dos colegas da manutenção da REFER e no seu compromisso com a segurança apesar de todos os constrangimentos.
 Aguardam-se esclarecimentos que não sejam par a "plateia ver", da CP.IP/REFER, GPIAAF, Transfesa/DB Schenker.

http://www.tvi24.iol.pt/sociedade/descarrilamento/linha-do-norte-cortada-por-tempo-indeterminado


sentido de deslocamento para a direita; efeito harmónio


agulha de ponta a 3 km, a verificar se tem vestígios de toque

local do descarrilamento, à saída de curva ligeira


outra foto do mesmo rodado

percurso de 3,2 km do ramal da fábrica de Souselas ao local do acidente 
trabalhos de remoção dos vagões cisterna (80 ton?) com grua mais potente; noto que infelizmente o trabalhador na foto não usa capacete de segurança, apesar de manipular as correntes de suspensão
PS em 4 de abril - Informação da IP/REFER de hoje: circulação restabelecida através de uma das vias com limitação a 30 km/h. Nenhuma informação sobre hipóteses de explicação do acidente nem medidas tomadas para investigação ou para evitar a repetição, o que naturalmente lamento.
Entretanto, amáveis comentadores observaram que o troço do acidente tem a via por modernizar (apesar das travessas serem bibloco). Falta ainda modernizar cerca de 30% da linha do norte, tarefa cara e dificil dado o seu tráfego intenso: Ovar-Gaia, Entroncamento-Santarem e CoimbraB-Pampilhosa. Faz de facto muita falta uma linha nova. O troço do acidente tinha limitações de velocidade dado o estado da via. Admite-se assim que um problema de via, por exemplo balastro em falta, fadiga da via ou combinação com uma deficiencia de um vagão deu em acidente. Uma palavra para o esforço de quem está a trabalhar na reparação. 
Informação no site do GISAF: última investigação em curso - Descarrilamento do comboio de passageiros IR 868 na estação da Livração, na linha do Douro, em 15-01-2017, processo aberto em 27 de fevereiro. Escrevo isto como protesto pela privação de meios imposta ao GISAF.
Do site da Transfesa, última notícia - Transfesa lançou uma nova web em 30-4-2015.  Como se diz num programa da Euronews, "no comments".
PS em 10 de abril - segundo informação do GISAF, agora GPIAAF, de 7 de abril, foi aberta investigação ao descarrilamento de 1 de abril. É dad a informação de que o comboio circulava dentro dos limites de velocidade, e que a operadora é  a Medway. Última notícia no site da Medway:01 de fevereiro 2017MEDWAY GANHA CONTRATO COM A ALB





segunda-feira, 25 de março de 2024

Um artigo descrente da viabilidade da alta velocidade ferroviária

Um colega enviou-me um artigo curioso com uma perspetiva altamente pessimista sobre a viabilidade de uma rede de alta velocidade em Portugal :

https://ionline.sapo.pt/artigo/811746/tgv-portugu-s-ou-a-ignor-ncia-em-alta-velocidade?seccao=Opiniao_i

Embora reconheça algum fundamento às questões técnicas levantadas pelo autor, engenheiro civil com a especialização de Transportes, julgo que ele deveria expressar-se com mais calma e menos agressividade proporcionando uma eficiente troca de impressões.


Mensagem recebida do meu colega:


Tirando uma confusão (?) do autor com a bitola estreita (a estreita não é a nossa; é a dos outros, se por estreita se quiser dizer bitola UIC), concordo com a ideia de que Portugal não deveira dar um passo maior do que a perna. Há anos que ando a dizer que acho que Portugal não deve passar das 2h45 Lisboa-Porto, para 1h15m, o que obrigaria a velocidade máximas de, de... vá, digam lá!... não se acanhem!

A prioridade, para mim, vai para a velocidade elevada  para passageiros (240km/h máxima e 200 de média); e para o direito de Portugal a atravessar Espanha em bitola europeia, importando e exportando de forma muito mais barata e ecológica.


Meu comentário:

Meu caro

Tem razão, internacionalmente referem-se à bitola UIC como estreita quando se fala na ibérica de 1668mm ou na russa de 1520mm. Exceção em Espanha que chamam estreita à via métrica.

Quanto às velocidades, deixe-me adivinhar, 300 km/h de velocidade operacional máxima para fazer 290km Lisboa-Porto em 1h15min, o que implicaria uma velocidade de projeto de mais ou menos 310 a 320 km/h. Não encareceria muito a obra em terrenos favoráveis, mas tem custos de energia na operação e, como diz Lucena Gaia, na manutenção.

Concordo com a proposta de 240km/h de velocidade operacional máxima (velocidade máxima de projeto 250 km/h) que, com um coeficiente de 0,8 (há sempre troços com curvas ou zonas de agulhas em que deve abrandar-se, vejam-se as curvas de Santo Ovídio para a Campanhã de mais um arquiteto genial, tem razão Lucena Gaia quando diz que uma linha de alta velocidade não é para ter paragenzinhas umas atrás das outras) dá uma viagem Lisboa Porto de cerca de 1h30min, o que me parece bem e concorrente com o avião.

Curiosamente, os nossos “concorrentes” bálticos, que já têm o projeto da Rail Baltica de 870km a andar em obra, devagarinho mas a andar, optaram  por velocidade máxima de projeto 249km/h para terem uma velocidade máxima operacional de 234km/h (haverá que multiplicar por 0,8 para ter a média, e chegando à Polónia impõem limites mais apertados).

De facto, quando se fala em ferrovia, também me parece que o essencial era trabalhar a sério para antecipar o mais possível o exercício do direito de atravessar Espanha com as nossas mercadorias de exportação em bitola UIC. Mas quem decide prefere namorar a Galiza. É bom que se namore a Galiza (e já agora a Extremadura), mas com o tempo que vai demorar a construir a ligação em UIC para atravessar Espanha devia estar-se a trabalhar em força nisso.

 

Agora permitam-me um comentário ao artigo do colega Lucena Gaia, que, para além dum excelente técnico, tem uma faceta muito interessante de escritor.

Mas eu com os meus cabelos brancos atrevo-me a sugerir um pouco de calma e menos agressividade nas suas análises, por mais que as falhas que refere sejam motivo de escândalo.

Efetivamente, o acidente de Soure revelou uma falha grave, aliás recordada pelo gabinete de investigação de acidentes no seu relatório. A probabilidade de um acidente acontecer é grande quando se verificam várias causas ou circunstancias. Para além de falha na comunicação entre o veículo de manutenção e o centro de comando e incumprimento dos regulamentos, houve a circunstancia da posição dos semáforos gerar confusão, iludindo o condutor do veículo que além disso não reagiu ao forçar da agulha que estava na posição de não acesso à via principal. Mas a principal falha foi a ausência no veículo de dispositivo de travagem automática por ultrapassagem de sinal vermelho. Nisso tem razão Lucena Gaia. Outro exemplo de falta de manutenção seria o acidente na Adémia, com avaria de um vagão de mercadorias. Ainda outro exemplo foi a queda de motores na linha de Cascais provocando um descarrilamento. Foi na altura das cativações, dos cortes no pessoal e na aquisição de peças … Parece-me que a forma um tanto alarmista como a questão é apresentada não corresponde à competência técnica que ainda existe nas oficinas da CP . Obviamente que se se perder essa competência o risco de acidentes aumenta, quer na ferrovia convencional, quer na desejada alta velocidade, mas isso terá como consequência o tráfego fugir para a rodovia onde as análises de custos benefícios mostram que as externalidades  (aumento de sinistralidade e de custos energéticos por passageiro-km) acabam por ficar mais caras do que o que se poupa.

Tem razão Lucena Gaia quando refere os custos elevados da manutenção. No entanto, terá de se considerar um efeito de escala, isto é, os custos unitários baixarão com o crescimento da rede. Estimando 1000km de bitola UIC a instalar em Portugal num período de 20 anos a 20 milhões de euros por km (possível financiamento comunitário se dentro das especificações do regulamento 1315 entre 30% e 85%) e custos de manutenção de 5% a 10% do investimento, teremos ao fim de 20 anos uma despesa anual de 1000 a 2000 milhões de euros. É efetivamente muito (comparar todavia com o consumo anual de cerca de 3000 milhões de raspadinhas e jogos da Santa Casa, ou 5000 milhões de automóveis novos, ou 6000 milhões em viagens e turismo ao estrangeiro, ou 14000 milhões em jogos on line por um terço da população), mas deve comparar-se com a manutenção das autoestradas fustigadas pelo peso dos camiões cada vez mais e mais carregados, não esquecendo os frequentes cortes por deslizamento de terras por falta de manutenção das drenagens (IC2 em 2024, A14 e A41 em  2016, avenida de Ceuta em 2017). Concordo com o Tribunal de Contas Europeu (ECA), análises de custos benefícios preferem a rede única ferroviária europeia em bitola UIC. Aliás, faço parte de um grupo que em julho de 2022 apresentou no 10ºcongresso rodoferroviário português, no LNEC um estudo sintético de justificação da rede de bitola UIC em Portugal, incluindo uma análise de custos benefícios com uma TIR de 2,23% (não é muito, mas é qualquer coisinha). Foi pena não ter havido uma discussão de prós e contras centrada em argumentos  consistentes. Pode consultar-se essa apresentação pesquisando na internet por “As linhas da rede transeuropeia TEN-T e os desafios para o transporte ferroviário internacional de mercadorias (e passageiros) além Pirinéus”.


 

 




terça-feira, 9 de junho de 2026

Ponto de situação do financiamento da linha AV Porto-Soure

 


Tendo sido manifestadas dúvidas sobre o ponto de situação do financiamento da linha AV Porto-Soure, tentei esclarecê-las.

Não sou a pessoa mais indicada para esclarecer as dúvidas pela razão simples de que tenho consciência de não dispor de toda a informação. 

Devido à minha formação como técnico, não posso fundamentar a minha discordância da política ferroviária da IP (a quem a AR e o governo delegaram decidir tudo sobre a Alta Velocidade em Portugal – Resolução AR 98/2024 e RCM 77/2025) numa classificação das decisões da IP como incompetência, ignorância, negligência ou gestão danosa. 

Mas devo, isso sim, como técnico, manifestar-me contra o que classifico como imprecisão, como afastamento de um dever deontológico que é o de cumprir os requisitos da normalização técnica, neste caso do regulamento EU 1679/2024, e como divulgação deficiente da problemática envolvida. 

Não são cumpridos os requisitos técnicos do regulamento no projeto Porto-Oiã ((abstenho-me de fundamentar uma crítica ao próprio traçado Gaia-Campanhã-Aeroporto associado ao plano de reurbanização de Campanhã) nomeadamente no uso da bitola ibérica em vez de europeia, e de pendentes superiores a 1,25% [1]  (implicando, se utilizados para mercadorias, como definido no regulamento, custos operacionais adicionais devido à dupla tração). 

Esta inconformidade com o regulamento pode justificar a rejeição de novas candidaturas ao CEF-T, conforme a lista de candidaturas aprovadas em jul2025 comprova[2]. 

Neste momento, aguarda-se o convite a novas candidaturas de junho a outubro de 2026[3].

Sobre as dúvidas em causa, a referência de mais confiança de que disponho é a ligação do EIB (European Investment Bank)/BEI  sobre a assinatura do financiamento do BEI ao consórcio AVAN em jul2025[4]  e que julgo poder resumir assim:

Em jul2024 foi aprovado um financiamento/grant CEF-T de 813 milhões de euros para a primeira fase Porto-Soure (143km, cerca de 30% dos 2.600 milhões do orçamento) e um financiamento/empréstimo BEI de 3.000 milhões

Em jul2025 foi assinado com o BEI o financiamento ao AVAN de 875 milhões incluídos no conjunto de 3.000 milhões.

Para além do empréstimo do BEI temos:

900 milhões dum conjunto de instituições financeiras

480 milhões  que fazem parte dos 813 milhões do CEF-T aprovado em 2024

150 milhões de cofinanciamento da IP

Em resumo, se não estou a ser ingénuo, os 480 milhões fazendo parte dos 813 milhões, a diferença ficará guardada para o troço Oiã-Soure mais precisamente Taveiro [5] .  O empréstimo do BEI para Porto-Oiã é de 875 milhões.



[5]  como técnico, penso que a proposta do consórcio de mudar a estação de Santo Ovídio tinha pouco fundamento técnico, mas a proposta que levou à anulação do concurso Oião-Soure estava tecnicamente correta, a estação de AV de Coimbra não tinha de ser em Coimbra B, podia ser em Taveiro ou na Adémia, desde que ligado por metro a sério não BRT ao centro de Coimbra, isto é, à defunta Coimbra A, evitava-se a quadruplicação da linha suburbana.

 


domingo, 20 de agosto de 2023

Descarrilamento de um comboio no túnel de S.Gotard em 10ago2023

 


Aparentemente, ter-se-á partido já no interior do tunel (de 57 km, sendo dois tuneis de via unica) uma roda ao nível da banda de rolamento e subsequentemente o eixo do rodado acabou por provocar o descarrilamento do vagão. Alguns quilómetros depois o vagão descarrilado  ao embater na agulha que permite a comunicação entre os dois tubos provocou o descarrilamento de vários vagões e a paragem do comboio.  Recordo o descarrilamento da Adémia, com origem numa falha num rodado de vagão, o descarrilamento do ICE em Eschelde devido à fratura de  uma roda resiliente em experiencia (!)   e  os recentes acidentes nos USA com incêndio de carga tóxica. Tal como dito no artigo, desconfia-se da manutenção periódica dos vagões. No caso dos USA parece haver também um problema de falta de normalização da conicidade da banda de rolamento, indispensável para reduzir os movimentos de lacete. A monitorização permanente e centralização da informação das caixas de rolamento, da integridade dos engates e o bom estado dos rodados é uma das condições impostas pela revisão do regulamento 1315 pela CE, mas a IP e o nosso governo estão mais preocupados em falar de outros assuntos.

Troca posterior de emails:


A referencia ao desastre de Eschede está correta. Tratava-se da experiência em exploração normal (coisa não admissível) de rodas resilientes, isto é, com elasticidade entre a banda de rolamento e o nucleo da roda. Como diz o colega Poré, trata-se de um tipo de rodas para metros ou trams.
No caso do S.Gothard conforme o artigo do IRJ que junto, durante 8km o eixo partido foi danificando as travessas até chegar ao aparelho de via onde provocou o descarrilamento.
Segundo as fotos parecem ser rodas de muito pequeno diâmetro e numa das fotos aparece um vagão sem bogie, apenas com um eixo como rodado. por extremidade. Agora que se pensa usar vagões para semirreboques ou camiões, convirá rever os cálculos de resistencia à fadiga dos rodados. Como solução, evitar agulhas de ponta limitando-as a zonas de paragem obrigatória e instalar sensores de desalinhamento do rodado e do vagão relativamente ao vagão adjacente. Dada a diretiva europeia de partilha das linhas de alta velocidade por passageiros e mercadorias, segregar  os respetivos horários de funciojnamento.
Abraço

De: Antonio Vasconcelos <ant.vasconcelos@outlook.com>Enviado: 23 de agosto de 2023 11:13Para: 'Fernando Santos e Silva' <santos.silva45@hotmail.com>Assunto: FW: tLe déraillement d'un train au Gothard a été provoqué par le bris d’une roue

 

Comentário de meu amigo Jacques Poré, antigo diretor de Alstom Transport

De: Jacques PORE <pore@orange.fr>Enviada: quarta-feira, 23 de agosto de 2023 10:20Para: Antonio Vasconcelos <ant.vasconcelos@outlook.com>; Robert Barnard <rbarnard080@gmail.com>Assunto: Re: tLe déraillement d'un train au Gothard a été provoqué par le bris d’une roueImportância: Alta

Bonjour Antonio, 

et merci pour cette information, que je n'avais pas vue.

Interesting in any case : this accident reminds me of the derailment of an ICE1 train at Eschede in Germany, that caused about 100 deaths, because, initially, a part of the rim of a wheel of the ICE train had be "detached" since there was a "bandage" between the centre part of the wheel and the rim. A principle that, for instance at SNCF, is strictly forbidden -because of the risk of such a problem- for speeds, if I remember well, over 60km/h;

that is OK for trams where the principle is good to diminish wheel-rail noise on sharp curves; that is something not existing on main lines where, generally, the minimum radius is 500m ; or something like that ; when on trams radiuses of a few tens meters are common.

This info was confirmed to me at the time of Eschede accident by both SNCF contacts in several depots in Paris and Tours and by Alstom experts of High Speed Trains and trams in La Rochelle, Saint-Ouen...

Bien amicalement,

Jacques


Ligações para informação sobre os descarrilamentos de comboios de mercadorias nos USA no 1ºtrimestre de 2023:













sábado, 7 de janeiro de 2023

Aluimento em aterro na linha do norte a 3km a sul da Pampilhosa

 Em 30dez2022 verificou-se um aluimento no aterro de suporte da via ao km 228,15 da linha do norte

https://eco.sapo.pt/2023/01/05/primeira-obra-do-ferrovia-2020-abre-buraco-na-linha-do-norte-viagem-lisboa-porto-ja-demora-mais-de-3-horas/

https://www.noticiasdecoimbra.pt/circulacao-condicionada-na-linha-do-norte-entre-souselas-e-pampilhosa-deve-manter-se-oito-semanas/

https://www.publico.pt/2023/01/07/local/noticia/via-unica-linha-norte-souselas-vai-manterse-dois-meses-2034094

foto de Fernando Liberato em eco.sapo; parece evidente o subdimensionamento da conduta de água; provavelmente também é insuficiente o número de condutas sob o talude ao longo da sua extensão; ver https://fcsseratostenes.blogspot.com/search?q=a14



Vista no sentido Norte-Sul;local aproximado do aluimento; segundo o Google Earth a cota da via é  65m, a dos terrenos à esquerda do aterro 49m e à direita 50m; ao fundo, à direita, a cerca de 80m, o poste de catenária em contravia por o aterro à esquerda não oferecer segurança dada a proximidade da passagem inferior de água

vista em planta da zona do aluimento; a amarelo o arroio; a norte desta zona a via segue entre dois taludes

vista do poste de catenária em contravia, na zona da passagem inferior do arroio



Vista no sentido N-S de um talude a cerca de 1km para norte do local do aluimento, sendo a imagem de 2014

Vista no sentido N-S de um talude a cerca de 2km para norte do local do aluimento, sendo a imagem de 2014



A explicação do sucedido encontra-se claramente nas notícias das ligações acima. As vias de comunicação têm o inconveniente de se constituirem barreiras ao deslocamento da água, especialmente em terrenos com diferença de cotas, como é o caso. Não sendo previstos caminhos de escoamento bem dimensionados para os picos de precipitação (desconfia-se que acontece neste momento nas obras da linha da Beira Alta), acaba por haver arrastamento de inertes e colocação da via ou do pavimento sem sustentação.  
A notícia do Publico lembra que todo o troço entre Alfarelos e Pampilhosa foi objeto de renovação da via e o local que aluiu se encontrava sob observação.
Será mais um exemplo do desinvestimento na vertente manutenção da empresa pública IP/ferrovia com a crença de que entregr a empreiteiros exteriores fica mais económico. Sem contestar que essa pode ser em muitos casos uma boa solução, parece inquestionável que a garantia da permanencia na empresa pública de quadros com commpetência e com meios para controlar, e intervir quando necessário, o estado das infraestruturas, é essencial enquanto assunto de interesse público.
Neste caso, é também o exemplo da tendencia para adiar as intervenções essenciais por motivos económicos.

Por na notícia acima haver uma referência a um descarrilamento de um comboio de mercadorias na Adémia, 4km a sul deste aluimento, junto o meu comentário na altura: 

http://fcsseratostenes.blogspot.com/2017/04/descarrilamento-na-ademia-em-1-de-abril.html

terça-feira, 17 de julho de 2018

Investigação de acidentes

A investigação de acidentes é uma atividade essencial para a prevenção de acidentes. Como dizem as normas e teoricamente é reconhecido em Portugal, as investigações não se destinam a "apurar responsáveis e culpados" mas sim a encontrar as causas e circunstancias dos acidentes e as medidas e recomendações para evitar que eles se repitam ou, pelo menos, sejamminimizadas as consequencias. Trata-se de uma especialidade da análise de riscos, e infelizmente é pouco divulgada pela comunicação social, que aparentemente prefere ações mais punitivas.
Isto a propósito de uma série de acidentes recentes que me chocam por terem ocorrido e provocado mortes, mas porque a comunicação social deixou de se interessar, isto é, passados uns dias ninguem fala do acidente, as causas não forma ainda investigadas e portanto não foi cumprido o procedimento para a prevenção do acidente.
Recordo:
- a morte de uma senhora numa passagem de nível em Esmoriz, continuando uma série macabra que evidencia a impossibilidade da exploração de comboios rápidos em vias que não estão segregadas dos peões e em que os passageiros são obrigados a atarvassar as vias (exemplo, estações de Coimbra B e de Alfarelos)
- a morte de um ciclista desportivo e os ferimentos graves noutro numa estrada do Algarve por aparente excesso de velocidade e falta de visibilidade, mas sem cabal esclarecimento
- a morte de 6 trabalhadores numa carrinha na Marateca por aparente desajuste entre a forma de condução e as condições ambientais
- a colisão, felizmente sem mortes, na passagem de nível de Martingança entre o regional Caldas da Rainha-Coimbra e um camião, sem cabal esclarecimento.

Vem também a propósito de um esclarecimento do ministério do planeamento tentando justificar a acumulação de inquéritos do GPIAAF (gabinete de prevenção e investigação de acidentes com aeronaves e de acidentes ferroviários), "branqueando" a gritante e inadmissível falta de recursos humanos para as investigações:
http://webrails.tv/tv/?p=35494

https://www.jn.pt/justica/interior/acidentes-com-comboios-ha-12-anos-na-gaveta-9597095.html

Recordo ainda o meu contacto com o GPIAAF sugerindo em vão um inquérito à morte de duas adolescentes em Vila Nova de Anços, facultando fotografias demonstrando a falta de condições de segurança:
https://fcsseratostenes.blogspot.com/search?q=an%C3%A7os

Também comentei e pus hipóteses sobre o descarrilamento na Adémia em abril de 2017, sublinhando a ausência de esclarecimentos da operadora do comboio causador do acidente:
https://fcsseratostenes.blogspot.com/search?q=ad%C3%A9mia

E finalmente, a página do GPIAAF reconhecendo que ainda não tem pronto o relatório deste descarrilamento:
http://www.gisaf.gov.pt/?lnk=06439779-47de-4de6-beae-488352ccb7ab

Assim é muito difícil, e não estou a pôr em causa a competência técnica e a honestidade de quem trabalha no GPIAAF. Mas se não há recursos humanos, é mesmo muito difícil, é mais um sintoma da degradação de serviço público de transportes (e privado, no que toca aos operadores que não esclarecem as causas dos acidentes em tempo útil)








segunda-feira, 13 de abril de 2020

A conflitualidade juridica IP-CP

No seguimento de um comunicado publicado em 2 de abril de 2020 pela ADFERSIT a propósito da conflitualidade jurídica entre a IP e a CP, retratada na série de reportagens por Carlos Cipriano no Público,  tomei a liberdade de enviar à direção da ADFERSIT o comentário seguinte.




Peço desculpa pelo comentário que vos envio ao comunicado sobre os conflitos jurídicos entre a CP e a REFER/IP.
Não posso fazê-lo na qualidade de técnico com experiencia na ferrovia de longa distancia, dado que a minha vida profissional se limitou ao metropolitano de Lisboa, por natureza excluído das diretivas europeias que regulam o funcionamento da referida ferrovia.
Mas posso fazê-lo como simples cidadão, cujo direito à participação nos assuntos públicos é garantido pela Constituição, e tenho ainda a desculpa de os comboios do metro, apesar da sua muito restrita circulação, ainda pertencerem à classe “pesada” com as suas 13 toneladas/eixo, e são 4 por carruagem, e tudo o que lhes diz respeito obedece às mesmas leis da Física que os comboios da CP, incluindo os princípios básicos da operação e manutenção de material circulante e infraestruturas.
Começo por felicitá-los pela tomada de posição e pelo apelo às duas empresas envolvidas, na expetativa de futura adequação do sistema regulatório.
Graças às excelentes reportagens de Carlos Cipriano, ficámos a saber pormenores dos conflitos de interesse.
Como afirmam no comunicado, não é de estranhar que, depois das intervenções e das restrições no operador e no gestor de infraestruturas se tenha chegado a este tipo de conflitos.
E citam, e muito bem, as diretivas europeias, nomeadamente a 91/440/CEE, como justificação para a separação de operador e de gestor de infraestruturas.
A atualização dessa diretiva, através das 2012/34/EU e da 2016/2370/EU vieram confirmá-la, mas eu gostaria de sublinhar que a separação não era nem é uma imposição das diretivas. Ou melhor, a separação contabilística é mandatória, mas ensinam em qualquer escola de engenharia que de qualquer coisa que se faça tem de se saber o custo, e mais importante que isso, tem de se saber os custos de todas as naturezas, nomeadamente das externalidades, e os benefícios. Por isso ninguém contesta essa imposição.
Aliás, era o que já fazíamos na primeira década do século XXI no metropolitano. Calculávamos desde os custos do passageiro-km e do comboio-km à taxa de utilização da infraestrutura e afetavamo-nos mutuamente, operação, manutenção de material circulante, manutenção de infraestruturas.
Mas, sinceramente, não pensávamos que a separação em empresas independentes trouxesse benefícios. Recordo, claro que com nostalgia, os telefonemas do meu colega da operação, preocupado com deficiências (mal functions) que lhe reportavam os seus colaboradores. Ao que eu lhe respondia que não me preocupava muito o que lhe reportavam, porque quando isso acontecia já as coisas estavam resolvidas ou em vias de resolução, mas o que me preocupava mesmo eram as deficiências de que eu não tinha conhecimento. Isto é, uma ligação direta entre os técnicos das duas áreas é essencial, e separá-las dificulta o trabalho de ambas, embora possa, naturalmente, criar mais lugares de prestigio.
Extrapolando, direi que muitos indícios apontam que os nossos colegas da SNCF e da DB também acham isso, baseando-se na sua experiência profissional, que naturalmente será mais intensa na ferrovia efetiva do que a dos legisladores e gestores da União Europeia (vem a propósito lamentar que não parece resolvida a relação entre as comissões especializadas na área da ferrovia de apoio à Comissão Europeia e as grandes associações profissionais ferroviárias como a UITP e a UIC).
Isto para dizer que as diretivas não impõem a separação física em duas empresas, do operador e do gestor das infraestruturas. Explicitamente consideram-na facultativa ou suscetível de integração numa organização vertical.
Não tenho a pretensão de conhecer todos os dados da questão e portanto se será recomendável a reversão, desfazendo a união REFER-Estradas de Portugal e refundindo a REFER com a  CP/EMEF (já que as diretivas impõem a tração no operador), embora no meu foro íntimo eu assim o intua.
Mas gostaria de ver o assunto debatido com a divulgação dos dados para uma posterior decisão informada.
Entretanto, como referido no vosso comunicado, operador e gestor deverão “pôr em prática um modelo de compromisso de cooperação e de resolução de conflitos”.
No entanto, permito-me observar, com base no histórico de acidentes ferroviários, que um dos fatores que potencia levar os conflitos para os tribunais é a inadmissível rarefação de meios humanos no GPIAFF, o que atrasa a produção de relatórios e nalguns casos a inviabiliza.
Cito o caso relatado por Carlos Cipriano, que o relatório do acidente do descarrilamento do TUA omitiu  a abertura da vala para telecomunicações ao lado da via que já estava em mau estado (desalinhada, falta de tirafundos, travessas podres, a que se juntou deficientes manutenção e estado do material circulante, para além de outros fatores registados).
Cito o caso do atropelamento mortal de duas adolescentes em Vila Nova de Anços, a propósito do qual o GPIAFF declarou que não investigava por não ter meios e estatutariamente não ser obrigado.
Cito o caso do acidente da Adémia, em que para além da evidencia no relatório das deficientes fiscalização e execução por outsourcing dos trabalhos, subsistiram dúvidas sobre a correta manutenção dos vagões do operador de mercadorias.
Para além de ser necessário envolver o sistema regulatório nestas questões e da colocação em prática por operador e gestor do referido modelo, penso que o reforço do GPIAFF com meios humanos é indispensável para a resolução destes conflitos (notar que o objetivo de um inquérito não é apurar responsabilidades civis, é determinar as causas e circunstancias em que se deu o acidente e produzir recomendações para evitar ou atenuar os acidentes).
Gostaria ainda de referir alguns pontos das diretivas invocadas e que têm atualidade, dadas as restrições climáticas que mais cedo ou mais tarde terão de se impor ao tráfego rodoviário de mercadorias para a Europa (a melhor solução seria o transporte ferroviário de camiões ou reboques, cada comboio com capacidade para 30 a 50 camiões):
- as diretivas aceitam nalgumas circunstancias ajudas do Estado às empresas e admitem a criação de um serviço distinto das empresas para a amortização das dívidas, o que, juntamente com os cofinanciamentos comunitários, é compatível com o desenvolvimento de projetos de novas infraestruturas e sua concretização
- as diretivas condenam a limitação do acesso a uma rede a operadores de países terceiros, o que automaticamente põe a necessidade de rapidamente assegurar a ligação a Espanha e à Europa em bitola UIC, uma vez que a solução de eixos variáveis é, para esses operadores, não só pelos custos de investimento como de exploraçaão, um obstáculo à concorrência.
Solicitando mais uma vez a vossa indulgencia para os meus comentários, e felicitando-vos pelo vosso trabalho na ADFERSIT, apresento os meus melhores cumprimentos

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

A especialização de Transportes e vias de comunicação da Ordem dos Engenheiros

Não cometerei nenhuma inconfidência, seguramente pela própria natureza do grupo, ao comentar as conclusões de um encontro de especialistas de Transportes e vias de comunicação da Ordem dos Engenheiros, em 2 de outubro de 2018.
A Ordem tem neste momento 115 especialistas , disseminados pelo país, e estiveram presentes cerca de 20 .

Destaco do encontro a expressão por 3 ex-bastonários da vontade de maior intervenção da engenharia nos processos de decisão, invertendo a tendencia que se vem verificando nos ultimos anos de afastamento dos engenheiros dos centros de decisão e de tratamento de questões estratégicas com critérios demasiadamente mediáticos.
Recordada a rejeição pelo governo de então do estudo validado pela Ordem de localização do novo aeroporto, contrária à solução Montijo.
Também foi posta a tónica em que os grandes investimentos públicos anteriores a 2008 não comprometeram os limites comunitários do défice, enquanto posteriormente o défice subiu sem investimentos.
De assinalar pelo presidente da ANSR a falta de meios para aplicar medidas que contrariem com sucesso o crescimento de mortes em acidentes rodoviários, nomeadamente de duas rodas.

Transcrevo excertos da comunicação que apresentei, com a preocupação de propor temas concretos para atuação, sob a forma de elaboração de recomendações ao governo e aos gestores das empresas de transporte:

“Anos sessenta. Instituto Superior Técnico.
O professor Abreu Faro enchia as suas aulas teóricas de Telecomunicações com as maravilhas do teorema de Shannon, dos diagramas de radiação das antenas, da capacidade dos canais de comunicação, dos princípios da teoria da informação. Não se limitava a expor e demonstrar questões técnicas, evidenciava a função e os conceitos da engenharia como atividade para resolver problemas e aumentar a qualidade de vida das comunidades.
Isso fazia a ponte entre os eletrotécnicos das telecomunicações e das correntes fortes e os civis das pontes e estradas. Para circulação das ideias, das mensagens, dos vetores da energia elétrica e das pessoas e bens, com a preocupação com a integridade dos bits de informação das mensagens, da sinusoide e da fase da onda, dos bens e dos passageiros transportados, na velocidade maior possível, com os fluxos de informação ou de energia ou de mercadorias ou de pessoas mais elevados no canal disponível .
O professor chamava a atenção para que a engenharia necessitava de uma boa base teórica e científica, mas que para resolver os problemas concretos não era muito preciso preocuparmo-nos com o rigor matemático. Os matemáticos teóricos que investigassem a posteriori e estabelecessem a coerência dos teoremas e das definições. Tinha sido assim com a função de Dirac, o impulso de amplitude infinitamente grande e duração infinitamente pequena, ou a função de Heaviside, a função escalão ou degrau. Entidades matemáticas que serviam para resolver problemas físicos, e para criar problemas aos matemáticos que estruturassem a sua coerência.
Dando o devido relevo à distinção entre o acessório e o essencial, num ato de engenharia tem de se seguir o método científico de observação, recolha e tratamento de dados, mas sem necessidade de construir uma tese de dissertação, utilizando valores aproximados e testando os resultados das hipóteses.
Recordo o professor porque se não é condição imprescindível num ato de engenharia a máxima aproximação do rigor matemático ou científico, já um dos procedimentos essenciais na atividade científica é nele indispensável, o método da divulgação e do referendo entre pares.  Aliás, qualquer manual de qualidade estabelece claramente a necessidade de revisão do projeto e a independência dos auditores relativamente à estrutura hierárquica da empresa, e por maioria de razão, relativamente a qualquer orientação da sua direção para uma conclusão.
Aqui surge uma questão interessante do foro deontológico. Até onde pode ir a reprovação de um colega a criticar o trabalho de outro colega, quer seja um auditor formal ou não, quando essa crítica invoca divergências profundas?
E generalizando, como deve reagir um técnico ao ver os critérios de engenharia subordinados a critérios políticos ou económicos que inviabilizem ou dificultem o objetivo de bem servir a comunidade? Deve o técnico calar-se, sabendo que o seu conhecimento técnico colide com a orientação superior, por mais que ministros ou administradores repitam que é a deles a melhor opção?
Ou, lembrando Rudyard Kipling, ao ver distorcidas, amesquinhadas ou desprezadas na comunicação social ou nos centros do poder ou nas direções das empresas, as suas preocupações e as suas propostas, por quem não tem, ou deliberadamente os ignora, conhecimentos técnicos?
Não são os técnicos enquanto pessoas que são amesquinhados quando ignorada a sua formação e experiência. São os contribuintes que, através dos impostos e das privações associadas às desigualdades sociais, pagaram a educação superior e os salários e a absorção de experiência em empresas públicas desses técnicos.
Esta introdução serve para tentar justificar como imperativo deontológico a intervenção da especialização de Transportes e Vias de Comunicação, através de algumas propostas de atuação  no contexto dos problemas de engenharia na atualidade nacional.
Proponho que essa atuação tome a forma de recomendações da Ordem dos Engenheiros ao governo e às respetivas entidades gestoras nos seguintes temas:
1 – Plano de expansão da rede ferroviária nacional de acordo com os critérios de interoperabilidade da UE e integração na rede core 2030 das redes trans-nacionais TEN-T (trans european network – transport), verificando-se, ao ler os relatórios de coordenação da CE, que o governo português parece ter desistido de cumprir esse objetivo. São necessárias análises de custos-benefícios, baseadas no cálculo dos custos do passageiro-km e da tonelada-km . Anoto que a ligação de Sines à Europa deve fazer-se através de um novo troço Sines-Grândola Norte    ( e não Sines-Ermidas) e que a ligação de Aveiro deve fazer-se em linha nova de via dupla por Almeida e não Vilar Formoso

2 – Investigação de acidentes ferroviários e rodoviários com o objetivo prioritário de determinar as causas e circunstâncias do acidente para evitar a sua repetição ou para mitigar as suas consequências, e não para apurar responsabilidades criminais. Anota-se que ainda não há relatório conclusivo do acidente da Adémia em abril de 2017. Anota-se a meritória ação da ANSR infelizmente coartada por falta de meios e de capacidade de divulgação pública e eficaz das suas recomendações

3 – Plano de expansão da rede do metropolitano de Lisboa segundo critérios de eficiência energética e de economia de exploração e de manutenção, com reformulação e submissão a discussão pública e avaliação ambiental de todo o mapa. O projeto de linha circular anunciado baseia-se no mapa de 2009 que não foi sujeito, nem a escolha da linha circular como prioritária, a discussão pública nem avaliação ambiental. O mapa foi elaborado sem audição dos colegas com experiência em operação e manutenção de metropolitanos. Os trabalhos previstos nos viadutos do Campo Grande e na av.24 de julho são altamente onerosos e a linha circular com estas dimensões está sujeita a taxas de perturbações mais elevadas do que em linhas normais.

4 – Introdução da tração por hidrogénio produzido por eletrólise a partir das renováveis para aplicação nas rodovias, ferrovias e navios (e no caso dos navios também por GNL), considerando as soluções técnicas já disponíveis e a necessidade de planear as instalações de produção e distribuição

5 – Análise e discussão pública da lei de contratação pública, principalmente para obviar os inconvenientes do critério do preço mais baixo
6 – outros temas, em que gostaria de ver a Ordem dos Engenheiros tomar posição:
6.1 – reformulação do plano portuário de Lisboa, nomeadamente reanálise do porto fluvial do Barreiro e do terminal Bugio-Cova do Vapor e sua relação com o assoreamento da foz do Tejo e fecho da Golada
6.2 – novo terminal de Sines e ampliação do terminal XXI
6.3 – reformulação do plano aeroportuário de Lisboa, considerando as recomendações da UE contra o ruido dos aeroportos em centros urbanos
6.4 – ligação ferroviária a Lisboa de Beja (possível inclusão na rede complementar de 2050 mas que é urgente)
6.5 – renovação da linha do Douro com as valências turísticas e de transporte de mercadorias
6.6 – desenvolvimento da navegabilidade do Douro e do Tejo "

PS em 4 de outubro de 2018 - Verifiquei durante o encontro que há da parte de alguns colegas relutância em concordar com os procedimentos seguidos pelo grupo do "Manifesto Portugal uma ilha ferroviária na UE?" na tentativa de defesa do desenvolvimento das ligações à Europa segundo os padrões da interoperabilidade. O que parece estranho, uma vez que esse grupo partilha com a Ordem a defesa do interesse nacional. Aliás, como membro desse grupo, uma das razões por que escrevi acima sobre deontologia foi ouvir de um colega com funções diretivas na CP o desabafo, perante a estratégia de defesa intransigente da bitola ibérica pela IP, "Estão a dar cabo disto tudo"... o que me fez lembrar outro desabafo, desta vez de um dos diretores em funções no metropolitano de Lisboa, a propósito do atual plano de expansão, "Nós, técnicos, fazemos aquilo que nos mandam"... Pena os decisores não ouvirem , ou pelo menos lerem, estes desabafos. Podiam pôr a mão na consciência, como se costuma dizer, e tentar não se desculparem como de costume, que é deles, decisores, a melhor opção, e que os críticos são destrutivos.
Talvez as reservas dos colegas relativamente às propostas do grupo do Manifesto Portugal, uma ilha ferroviária na UE? tenham origem no receio de que, abrindo as ligações à Europa aos operadores europeus, com a bitola UIC mais facilmente chegariam aos portos nacionais se se cumprisse o plano da rede core 2030, e as empresas portuguesas, quer ferroviárias quer rodoviárias, seriam seriamente prejudicadas (ao menos pensem num plano de adaptação do transporte rodoviário às autopistas espanholas de passagem por ferrovia dos Pirineus). Igualmente o receio pode ser o de que as importações aumentariam sem que as exportações conseguissem atingir o objetivo mínimo de 60% do PIB (atualmente 40%). Evidentemente que são riscos sérios, mas quando se pensa que o objetivo da UE é transferir 30% da carga rodoviária internacional para o modo ferroviário até 2030, isso é impossível de atingir em Portugal com a bitola ibérica e com as curvas e pendentes da linha de Sines e da linha da Beira Alta . O que é dizer o mesmo que reconhecer que Portugal é e continuará a ser um país periférico com indicadores inferiores aos da média europeia, contrastando com a evolução dos países de leste (talvez com a exceção da Roménia, mais do que a Bulgária), isto para não falar do intenso esforço espanhol no desenvolvimento da sua rede de alta velocidade/mercadorias/bitola UIC. Daí a expressáo ilha ferroviária. Citando Alfredo Marvão Pereira, um país desenvolvido deve afetar 2 a 3% do seu PIB a infraestruturas; se daí retirarmos 1% para infraestruturas novas de transportes, poderiamos dispor de cerca de 1800 milhões de euros por ano. Estimando o plano da rede core 2030 para Portugal em 11000 milhões de euros em 12 anos, não parecerá escandaloso. Embora não impeça quem discordar de continuar a afirmar que não há dinheiro, nem o governo de continuar a querer maravilhar-nos com os sucessos do Portugal 2020 e do Portugal 2030.