Peço desculpa por escrever "a quente" sujeitando-me a fazer afirmações precipitadas. No entanto, penso que devo fazê-las na esperança de que a comunicação social não deixe morrer os assuntos que são de natreza pública. Escrevo com indignação porque Portugal tem dos piores níveis de sinistralidade rodoviária e ferroviária. Vítimas mortais por milhão de habitantes na estrada em 2025: média na EU 44, em Portugal 58 . Vítimas mortais na ferrovia por mil km em 2023: média na EU 2,6, em Portugal 6 .
Por isso, apesar da bem intencionada intervenção do senhor ministro da Administração Interna apelando à prudencia na condução, não posso concordar com o lavar de mãos sob a forma duma "falha coletiva". escondendo a inação dos sucessivos governos, por exemplo na revisão do Código da Estrada e na fiscalização de velocidades excessivas.
A minha indignação é também porque os senhores governantes dos outros países também se desculpam com as falhas das vítimas. Escrevo também impressionado pelo acidente de hoje, 7 de abril, colisão de um TGV com o reboque de um camião de transporte de uma peça de uma ponte militar. O comboio era de facto um TGV mas a linha era regional, isto é, os projetistas cometeram o erro de pôr comboios de caraterísticas dinâmicas diferentes utilizando a mesma linha em simultaneidade, além de que um TGV mesmo a 160km/h é incompatível com a existencia de passagens de nível por razões de segurança. Apressaram-se "as autoridades" a dizer que a passagem de nível funcionava normalmente e que as cancelas estavam baixadas. Não é esse o relato do motorista do camião, parou quando as cancelas estavam baixadas e viu passar um comboio regional. As cancelas subiram e ele arrancou. Imediatamente a seguir as cancelas baixaram e o TGV apanhou o reboque. Há fotos que comprovam que as cancelas mais próximas da posição de arranque do camião estão levantadas, tendo ele batido nas cancelas opostas. Evidentemente que isto tem de ser confirmado pelo inquérito, mas é indigno virem a correr "as autoridades" dizer que a culpa é das vítimas, acusando o motorista do camião de homicídio involuntário. Um relatório da ERA (Agencia europeia ferroviária) de 2024 diz que 2% dos acidentes em passagens de nível não estavam relacionados com o comportamento das vítimas.
É indigno
levantar um processo por homicídio involuntário sem que o inquérito descubra primeiro
as reais circunstâncias do acidente. É indigno continuarem a existir tantas
passagens de nível e tantos acidentes atribuindo as culpas apenas ao comportamento
das vítimas e não aos governos e aos gestores das infraestruturas. Segundo a
SNCF em 2024 foram 89 acidentes em passagens de nível com 20 mortos. Ainda em
25mar2026 tinha havido uma colisão de um regional com um camião transportando no reboque uma cabana para campismo, com a morte do condutor do camião em Saint-Raphael, uma cidade turística
perto de Cannes.
Em Portugal decorre , como aliás em França, um plano de eliminação de passagens de nível. Veremos se eles são executados e com que velocidade.
Os tráfegos devem estar segregados.
Acidente em Noeux les mines/Pas de Calais
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| semi-barreira mais próxima da posição de arranque do camião levantada (lado direito do camião), isto é, não terá sido percutida |
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semi-barreira do lado esquerdo do camião levantada; ausencia de vestígios da semi-barreira mais afastada da posição de arranque do camião, indício de ter sido percutida |
Acidente em Saint Raphael/Var https://www.franceinfo.fr/var/les-conducteurs-se-retrouvent-pieges-une-faille-du-passage-a-niveau-est-elle-la-cause-de-la-collision-mortelle-dans-le-var_7894079.html
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| Vista da passagem de nível de Saint Raphael com indicação de lomba |
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| Localização da passagem de nível em Saint Raphael em zona turística |






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