quarta-feira, 28 de março de 2012

A eficiência energética nos transportes urbanos

Recentemente a comunicação social divulgou uma informação da Carris sobre os gastos de combustível em 2010:  20 milhões de euros para 18,8 milhões de litros de gasóleo e 1,8 milhões de metros cúbicos de gás natural para os seus autocarros.
Mais informava a notícia que a Carris tinha ganho o prémio de empresa mais eficiente na área de energia em 2010.
Eu detesto escrever o que se segue, porque pode ser mal interpretado numa altura em que o governo determinou a fusão das empresas Carris e Metropolitano de Lisboa, porque embora o conceito de fusão das empresas seja correto, temo que a forma como vai ser concretizada seja muito má, e porque a forma como abordo estas questões tenta basear-se em cálculos (embora a política de secretismo ou de desvio das atenções oculte ou engane os dados) contrariando a prática comum de discutir apenas os aspetos emocionais ou subjetivos.

Cosiderar uma empresa maioritariamente de autocarros com motor de gasóleo em meio urbano como eficiente parece-me incompatível com as preocupações ambientais de melhoria da eficiência energética na área dos transportes, pese embora o mérito de ações da Carris como a campanha "menos um carro":
http://www.menosumcarro.pt/

É que Portugal "queima" em transportes cerca de 40% da energia primária que consome (de que depende em quase 80% do exterior) , sob a forma de combustíveis fósseis (cuja contribuição para as alterações climáticas através da emissão de CO2 já são do domínio público). A energia elétrica é obtida apenas a partir de 20% do total de energia primária consumida.
Mas enfim, a atribuição desse prémio poderá refletir a pouca atenção que no nosso país é dada às questões técnicas de transportes.
O problema é a dependencia do exterior, o custo e os efeitos dos combustíveis fósseis e o receio de que os decisores não avaliem bem a gravidade das questões de energia.
Num país em crise, custa ver o desperdício nos transportes rodoviários, coletivos ou individuais, menos eficientes do que o transporte ferroviário (o que não quer dizer que o esforço de melhorias em eficiência na ferrovia não deva ser intensificado).

Comecemos pelo quadro de equivalencias de formas de energia, reduzindo a toneladas equivalentes de petróleo, conforme estabelecido pelo DL 228/1990.
Será insuspeita tal tabela de equivalencias, visto em 1990 ainda não se vivia a crise de hoje.
Neste pequeno quadro Excel podemos comparar os valores retirados dos sites das duas empresas, relativos a 2010.
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Temos assim, com base nos valores recolhidos:
              - eficiência energética:
                             Carris.......... 43 500 passageiros.km por tep (tonelada equivalente de petróleo)
                             ML ............. 52 300 pass.km/tep
              - emissões de CO2 por passageiro.km:
                             Carris .........  71 gramas de CO2/pass.km
                             ML .............  26 gCO2/pass.km

Mas estes valores dizem respeito apenas à energia dos combustíveis para a tração (gasóleo e gás natural no caso da Carris, kWh da rede elétrica no caso do ML) embora reduzidos ao mesmo equivalente energético tep (toe, em inglês).

Tomando valores mais ou menos estimados para considerar todo o consumo de energia das empresas, porque assim é necessário para calcular a chamada pegada ecológica da empresa e as emissões específicas de CO2 por passageiro.km (confesso que ignoro se a Carris publicou já os cálculos da sua pegada ecológica), teremos o seguinte quadro, salientando que alguns valores não são de confiança, sendo desejável que a própria Carris trabalhe esses elementos e os dissemine.




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Curiosamente, não serão muito diferentes as emissões de CO2 por passageiro.km  (se não me enganei nas contas, claro) , dado que no caso do ML elas ocorrem também nas centrais térmicas que alimentam a rede elétrica, havendo a contar com perdas na transmissão e na produção e de energia elétrica nas centrais térmicas (1 kWh consumido no comboio corresponde a cerca de 2,6 kWh produzidos nas centrais térmicas e nas renováveis, dependendo da repartição entre estas produções - aqui se compreende a importancia do nosso país investir nas renováveis, porque o setor dos transportes tem sempre consumo para elas; poderá é não ter garantia para os privados produtores).
O que é muito diferente é a eficiência:
                Carris.............19 300  pass.km/tep
                ML ................34 600 pass.km/tep

e as emissões de CO2 na zona da cidade:
                Carris ........... 85 gCO2/pass.km
                ML .................8,4 gCO2/pass.km

Seria interessante ainda calcular o efeito que a circulação de autocarros tem no agravamento do consumo dos combustíveis pelos automóveis particulares e ainda os consumos e emissões de CO2 se o montante de passageiros.km da Carris e do ML fosse substituido por transporte em automóveis, taxis e carrinhas, mas ficará  outro post.

Veja-se ainda o quadro seguinte com os custos por pass.km dos combustíveis (custos globais em milhões de euros):

errata:  0,48 é o valor em cêntimos da energia elétrica de tração no metro por pass.km
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Se considerarmos apenas os custos do combustível (gasóleo e gás natural na Carris e kWh no ML) temos:
                  Carris ................. 2,7 centimos/pass.km
                  ML .................... 0,5 centimos/pass.km

Dá que pensar, não dá, apesar de esperar o aumento do preço do kWh?

Dir-se-ia que um dos fatores mais claros para se aferir da utilidade da fusão das empresas (não, não vou dizer que vai ser a redução dos quadros de pessoal, não gosto de ver pessoas desempregadas ou mal ocupadas) será, para o ano, com a análise destes indicadores de eficiência, verificar se continuamos ou não a desperdiçar combustíveis fósseis.
É que, como dizia o professor Ilharco, na cadeira de Quimica Geral, a energia é o problema fundamental da humanidade (lembrem-se disso da próxima vez que tiverem de ouvir uma conferencia e estiverem a necessitar de "coffee break" para repor os níveis energéticos musculares e cerebrais).


Ver cálculos e uma apresentação sobre o potencial dos metropolitanos na redução dos consumos em:

segunda-feira, 26 de março de 2012

Um silogismo num congresso partidário

A primeira frase do silogismo seguinte foi retirada do relato de um congresso do partido no governo e a sua correspondência com a realidade não parece levantar dúvidas.
As frases intermédias são retiradas do dicionário da  língua portuguesa e são coerentes com os étimos.
A conclusão é a de um silogismo como outro qualquer, dependente das premissas, que não ponho em causa e de que não sou responsável.


"Os números do desemprego ... ultrapassam muito as previsões" (do governo).
Imprevidência é a falta ou ausencia de previsão .
Imprevidente é aquele que ou quem falha previsões; é o antónimo de previdente, aquele que ou quem  faz previsões, que se previne, que toma medidas antecipadas para evitar transtornos, que é precavido, que pensa no futuro.
Logo, se o governo falhou previsões, o governo é imprevidente.
(mesma conclusão aplicável a quem prevê aumento de receita fiscal de 12% e ela diminui 1%).

Com tanta gente preocupada com o novo acordo ortográfico, mais valia preocuparem-se com o significado das palavras, como quer que sejam escritas.

Arte de rua

Considere-se, por exemplo, Marie Cochon, que protesta através da sua arte contra a exorbitancia da ganancia às custas de terceiros:
http://www.eberstaller.at/en/marie-cochon/


(com a devida vénia ao DN)

Digamos que não é a argumentação ingénua e naife dos sindicatos que invocam a luta de classes por se assistir à redução do poder de compra dos assalariados e dos direitos dos empregados (considerados como regalias) e ao aumento da taxa de desemprego, que dá mais razão à acusação das primeiras edições do manifesto do partido comunista, no seu apelo, também naife, em termos modernos, à luta violenta.
Digamos que é a insistencia cega de quem detem o poder económico e financeiro no conceito do lucro e da ganancia como objetivo prioritário das empresas que defende essa visão naife.
Podemos não compreender os argumentos dos especialistas de economia, mas compreendemos esta arte de rua (suponho que não serão notas verdadeiras).
A ganancia, parafraseando Columbano Bordalo Pinheiro, a grande porca.

E vamos para Banksy,
http://en.wikipedia.org/wiki/Banksy

a fazer lembrar os cravos na ponta das espingardas. Se a policia revista jovens à procura de armas, porque não pôr uma criança a revistar um policia à procura de cultura?
(com a devida vénia ao DN)

E por falar em policia armado, seria desejável que os militares pensassem e vivessem a cultura de que falei a propósito da criança.
O exército tem uma função importantissima em democracia, por exemplo, o que a arma de engenharia tem feito na reconstruçao do Líbano (e é capaz de fazer em caso de catástrofes), o que o exército português fez numa altura em que o anafabetismo era um flagelo (e ainda devia fazer em termos de formação profissional, mas a ordem que vem de cima é cortar cegamente).
É essa a intenção desta caricatura, para se compreender melhor a necessidade de retirar do Afeganistão e de não repetir os erros que levaram à desgraçada intervenção, não é ofender:

(com a devida vénia a "urban art, best of 2011")

Ver a análise de  Spencer Oliver, secretário geral da assembleia parlamentar da OSCE (organização para a segurança e cooperação na Europa) em:
http://noticias.pt.msn.com/internacional/envolvimento-militar-dos-eua-no-afeganist%c3%a3o-foi-um-erro-hist%c3%b3rico-do-partido-democrata-2

E não sendo arte de rua, que dizer desta caricatura de José Bandeira, no Cravo e Ferradura do DN?


Possivelmente que, à boa maneira portuguesa, com raízes no comportamento pré-romano dos lusitanos, vai surgir da direita, por trás do senhor banqueiro ou investidor, não se vê bem na caricatura, um senhor salvador, que manda, muito preocupado com as dificuldades sentidas pelo povo português em plena austeridade, dificuldades essas que não tinham sido previstas (?!!?), assegurando que os sacrifícios serão por igual para todos (um corte de 10% em quem tem rendimentos insuficientes tem o mesmo efeito de um corte de 10% em quem tem acumulação de rendimentos?). Sugere-se a leitura do enunciado da lei de Philips, para melhorar a capacidade previsional em questões de taxa de desemprego.

domingo, 25 de março de 2012

Falas de governantes - a orquestra sinfónica

Com o entusiasmo militante com que responde à entrevista, e a satisfação orgulhosa de que agora tudo é diferente e melhor, o senhor ministro Miguel Relvas afirmou que "o governo não é uma orquestra sinfónica ... que agora há um comandante, que manda".
Gosto de analisar o que as pessoas dizem, pelo que revelam.
Não será das preferencias do senhor ministro a musica sinfónica, e colegas seus no governo, como o senhor ministro da Educação, uma pessoa de grande cultura científica, ou o titular da escondida secretaria da cultura, uma pessoa de grande cultura literária, ou ainda o secretário das infraestruturas da Justiça, uma pessoa de grande cultura tecnológica, como sentirão esta ausencia de cultura nos senhores ministros que decidem rumos?
Pode ser que seja um problema de consciencia, talvez como o de Séneca, quando pensava no que se passaria nas cabeças do imperador que educara, mas não sei, nem devo afirmar nada, apenas acho que deve ser um problema pessoal  interessante.
Ou estarei enganado e o senhor ministro Miguel Relvas estaria a pensar no filme de Fellini e Nino Rota, Ensaio de orquestra, com o seu maestro alemão autoritário.
http://www.cadrage.net/films/orchestrarehearsal/orchestrarehearsal.html

Talvez não fosse a ideia de Fellini e Nino Rota.
Quanto ao comandante que manda, o Costa Concordia tambem tinha um, cego pelos encantos da sua sereia (privatizações?) e imprudente ao deixar o seu navegador, conhecido por estar sempre a fazer retificativos ao rumo, demasiado perto dos escolhos (da austeridade das desigualdades?).
Longe vá o agoiro.

Falas de governantes - o caminho de Salazar

A minha acuidade visual vai diminuindo.
Também sou, por natureza, distraído.
Pelo canto do olho leio na primeira página de um semanário uma declaração do senhor ministro das finanças, numa entrevista, que "o nosso caminho é a aposta de Salazar".
Durou pouco o calafrio, porque releio melhor, e o que lá está escrito é "o nosso caminho é o oposto do de Salazar".
Mas volta a sensação de frio, porque a imagem que acompanha os extratos das declarações é outra vez o indicador a premir o polegar, o símbolo da imposição de um pensamento aos ouvintes, sem lhes dar a possibilidade de discordarem ou de debaterem outras soluções.
E porque me habituei a interpretar as afirmações do senhor ministro aplicando-lhe uma rota ção de 180º.
Quando ele diz que os sacrificios impostos aos funcionários publicos e das empresas publicas são iguais para todos, eu interpreto como não sendo, porque se as reduções das massas salariais são iguais em percentagem, se uns ficam sem o 13º e o 14º meses e outros não, então há desigualdade porque a massa salarial não é distribuida uniformemente por todos os funcionários (nem todos recebem horas extraordinárias).
Mas não vale apena discutir questões de matemática do nível secundário.
Embora me pareça de relevar a confissão do senhor ministro de que não conhece o período da intervenção do FMI em 1983 e a atuação de Hernani Lopes. Parece-me uma pena, porque a história da economia é importante para quem toma decisões. Especialmente quando ele próprio reconhece que a retoma que espera do crescimento para 2013 se deve ao carater ciclico das crises e não a quaisquer medidas estruturais (eu, que estudei resistencia de materiais e de estruturas, ainda não compreendi muito bem o que significa estrutura em economia, mas deve ser da minha ignorancia).
Ah, é verdade, tambem declarou o senhor ministro que não tem nada que ver com Salazar porque este se fechou e não se financiava nos mercados internacionais.
Mas, então o senhor ministro não diz que quer regressar aos mercados internacionais em setembro de 2013? É porque não se financia. Mas não é assim que se faz a comparação, é pelo respeito ou pela falta de respeito pelo sentir e pelo pensar de grande parte da população portuguesa , pela insistencia em bloquear o investimento industrial e pelo predomínio sobre todos os ministérios. Talvez ler o discurso de 1928 para melhor esclarecimento.
http://fcsseratostenes.blogspot.pt/2012/03/falas-de-governantes-o-discurso-de.html

sábado, 24 de março de 2012

Cenas da greve (ou manifestação) de dia 22 de março de 2012



Com a devida vénia ao DN, passe a publicidade ao patrocinador, e pedindo desculpa pela divulgação do sofrimento da senhora, interessa-me analisar a impreparação psicológica de dois dos polícias de choque.
A senhora terá talvez pronunciado palavras que os policias consideraram ofensivas.
Pessoalmente, penso que polícias de choque devem ter preparação psicológica para serem insensíveis a isso.
Recordo que, antes do 25 de abril de 1974 não tinham.
Eu, que nunca fui heroi nem penso vir a ser, recordo-me do olhar cheio de medo de um policia do capitão Maltêz, num 5 de outubro, com a coronha da sua arma a apontar-me ao peito e a pedir-me "vá-se embora, vá-se embora".
Estes de agora, vê-se no video, mudam bruscamente de direção, apesar dum gesto dissuassor de um camarada, agarram a senhora e empurram-na para o chão.
É verdade que não se compara com a barbárie da Síria, mas eu digo doutra maneira, não se compara esta barbárie com a barbárie da Síria.
Porque  é barbárie.
Não quero que despeçam os homens (aliás teria medo de que enveredassem pela criminalidade, com esta instabilidade psicológica), mas que lhes dêem preparação psicológica.
Num país em que há dinheiro para guarnecer devidamente os quadros de pessoal da policia de choque e dos coletores de impostos, haverá certamente dinheiro para pagar a sua preparação psicológica.

Grupo de jovens de emprego precário num call center da PT, que tiveram a coragem de se deixar fotografar em greve, apesar de na empresa de trabalho temporário que os contrata para prestarem serviços à PT terem sido feitas ameaças de despedimento no caso de adesão à greve (atitude entretanto condenada pela direção da empresa)

Não se vê bem, mas o policia tem um bastão em plena formação do golpe. A rapariga é a fotojornalista Patricia Melo e está a tentar identificar-se

O bastão executou o golpe. O companheiro da rapariga tem bons reflexos e força muscular . Esteticamente, a fotografia é digna de um prémio, cheia de movimento e de força. Éticamente, é uma demonstração de barbárie. Pobre polícia, vilipendiado pela força dos argumentos dos manifestantes, possivelmente desempregados e generosamente violentos na sua expressão verbal; dizem os policias que foram atingidos com pedras e louça da esplanada da Benard, embora para o hospital só tenha seguido o fotojornalista colega. E se o bastão a tivesse atingido na cara? Fotografias de Hugo Correia.


Devemos dar os parabens aos fotógrafos do DN. Esta imagem reproduz o cinema da vida. Um vidro entre a manifestação contra o desemprego e os que almoçam, possivelmente turistas de poder de compra mais elevado, no seu pleno direito, como os que se manifestam, sem ofensa para nenhum dos dois lados do vidro. Resumo da dificuldade de distribuição dos rendimentos, e da tendencia não contrariada de acumulação dos excedentes económicos em áreas restritas.



De assinalar nesta greve:
1 - o comportamento estranhamente civilizado do governo, sem condenações irrecorríveis a penas de inferno dos grevistas. Terá sido uma medida inteligente, que até poderá trazer-lhe o apoio de cidadãos mais conservadores e acomodados.

2 - a frase lapidar de Carvalho da Silva: "Não se pode deitar borda fora a experiencia do passado, mas há a necessidade de reponderar as formas de luta"


PS (24mar2012) – Vem a PSP manifestar preocupação que os seus agentes possam ser alvos dos manifestantes em próximas manifestações; que foram provocados para compensar a pouca adesão às manifestações; que vão reunir com representantes de jornalistas para assegurar que, uma vez identificados , os fotojornalistas não sejam agredidos como se vê nas imagens (se não se identificarem podem ser agredidos?). Salvo melhor opinião, o corpo de intervenção foi mal preparado e mal comandado. A menos que se pretenda uma escalada de violência, nada recomendável com as dificuldades orçamentais e os custos que teria.




A fotojornalista Patricia Melo merece parabens pelo seu trabalho, publicado no The Guardian:
http://www.guardian.co.uk/world/gallery/2012/mar/23/photojournalist-lisbon-pictures?INTCMP=SRCH#/?picture=387742613&index=6

Tambem notável esta foto, em que se vê um policia ameaçado e mal equipado a tentar defender-se de um ataque ignóbil de um manifestante

quinta-feira, 22 de março de 2012

Voltar aos mercados

Às 9 horas em ponto da manhã, nem mais um segundo, nem menos um segundo do dia 23 de Setembro de 2013, quando as portas se abrirem, ele entrará confiante no mercado.

Os jornalistas comparecerão de microfone estendido e abrirão alas para a marcha sorridente e triunfante.
E ao fm do dia, com a sua voz pausada, anunciará o sucesso da operação.
O país voltou aos mercados.
Eu, que acompanhava minha mãe aos mercados quando era menino, e me deixava discretamente afastado enquanto minha mãe negociava com as senhoras das bancas de peixe o preço e a cor das guelras, fiquei com esta ideia deturpada para o resto da vida de que os mercados são negociar a cor das guelras e o preço do peixe, definido não pelo custo de produção, transporte e comercialização, mas pelos mecanismos transcendentes, tão transcendentes como os princípios da Termodinâmica de Carnot, porque será que não posso tirar mais energia de uma entidade do que aquela que lá se pôs, dos mercados.
Mais tarde, acho que compreendi os princípios da Termodinâmica e até as demonstrações da teoria da relatividade restrita e os seus efeitos no cálculo da energia dos eletrões, mas tenho de confessar que ainda hoje não sei interpretar esta frase “voltar aos mercados”.
Leio nos jornais que “voltar aos mercados” significa poder comprar o dinheiro dos empréstimos a longo prazo por um juro razoável, não apenas conseguir obter empréstimos de curto ou médio prazo.
Mas subsiste a dúvida, o que é um juro razoável?
Serão os 7% do limite do senhor ministro das finanças do anterior governo?
O que significaria que, se em 23 de Setembro de 2012 se obtiver um empréstimo a longo prazo a um juro de 6% se voltou aos mercados, mas se o juro foi de 8% não se voltou aos mercados.
Será isso?
E a partir de que valor se considera que já é longo prazo? 5 anos? 10 anos?
Convinha eu perceber, que já tomei nota da fala do senhor governante da voz pausada, que anunciou a data do regresso aos mercados, para poder avaliar se a previsão do senhor ministro estava dentro de uma margem de erro ou intervalo de confiança aceitável.
Embora tudo fique na mesma.
O senhor ministro dirá que conseguiu a consolidação orçamental e que conseguiu “voltar aos mercados”, e se não conseguiu dirá que conseguiu então um outro empréstimo para prolongar a agonia dos juros do empréstimo de 78 mil milhões de euros acordado com o memorando de 2011 e que não há problema em não ter voltado aos mercados porque a Alemanha, a Holanda e a Finlândia concordaram em novo empréstimo.
Mas, mas, isso é uma vitória de Pirro, vamos continuar a pagar cada vez mais juros, quando o que interessava era os produtos alimentares que consumimos sejam produzidos no país, e que exportemos mais em valor do que o que importamos, quer em bens alimentares, quer par aos outros bens.
Ora, o que se verifica é que o valor das importações continua a ser mais do que o das exportações.
Parafraseando Ronaldo, assim não ganhamos o jogo.
E o senhor ministro da voz pausada diz que está tudo bem, que a consolidação orçamental é a prioridade, que tudo o mais se lhe deve subordinar, e que “não haverá um tostão” até ao fim de 2013.
E contudo, contudo não importa que um pobre escriba como eu não compreenda o que é “voltar aos mercados”, apesar de compreender os princípios da Termodinâmica.
O que importa e é grave é que os indicadores de Janeiro e Fevereiro de 2012 não são nada famosos e são justificados pelos senhores governantes de forma acrítica, repudiando qualquer responsabilidade e atribuindo o seu carater negativo a fatores externos "que não controlamos" (que garantias há de nos próximos meses não haver fatores externos?e só agora descobriram que há fatores externos não controláveis  que o governo anterior deveria ter controlado?).
Salvo melhor opinião, os senhores governantes deveriam arrepiar caminho e lançar pontes à oposição e à opinião pública dos cidadãos e cidadãs, em vez de os contrariar com ar olímpico e sobranceiro; como o senhor ministro Relvas afirmou, que no fim de 2012 se há-de ver que a ação deles é que está correta.
Até pode ser que esteja, que este mundo é extremamente complexo e paradoxal, mas não se fala assim às pessoas.
Nos dois primeiros meses de 2012 verificou-se, relativamente a igual período de 2011:

- descida de 1,1% da receita do IVA (previsível consequencia da recessão, e ainda não inclui o efeito da subida do imposto, pelo que a lei de Laffer ainda não contribuiu para maior redução da receita fiscal; tambem ainda não está incluido o efeito, este para crescer, do aumento das retenções na fonte; mas aqui há um problema grave, é que o senhor ministro tinha previsto um crescimento do IVA de 12,6% , mas era uma previsão só dele, possivelmente orgulhosamente só)
- descida de 42,6% da receita do IRC (se não tivesse havido antecipação dos dividendos a descida teria sido de 3,7%)
- subida de 0,3% do IRS (a classe média que pague a crise)
- subida de 191% do défice publico (ver a seguir)
- subida de 3,5% da despesa pública (aumento de juros e pagamentos à RTP)
- subida de 10% dos depósitos das famílias (total: 131 mil milhões de euros – a classe média que pague a crise)

Se a isto juntarmos a triste constatação de que o orçamento foi feito com base no preço do petróleo a um valor inferior ao que já é praticado, só posso concluir que, até ver, a teoria da consolidação orçamental é apenas uma figura de retórica, em voz pausada.
Igualmente fica já demonstrado que a solução não era cortes na despesa, porque depois dos cortes que houve na saúde e na educação continuam a verificar-se valores elevados na despesa (realmente, com os juros qu têm de se pagar, como é que se pode baixar a despesa).
Caso os indicadores continuem assim, parece que ficará demonstrada a necessidade de mudar de políticas, quanto mais não seja tomar medidas de austeridade de emergencia (deslocar a linha dos sacrificis mais para o lado do fator capital).
Salvo melhor opinião.
Mas vamos ter de aguardar mais dois meses.
No entanto, é de assinalar que muitos agentes económicos, fator trabalho e fator capital, continuam a trabalhar e bem, infelizmente em áreas cada vez mais restritas à medida que o desemprego aumenta.



quarta-feira, 21 de março de 2012

Breve encontro na praia

A praia tem poucas pessoas no primeiro dia de primavera.
Alguns turistas holandeses dão o seu passeio depois do almoço no hotel de uma pequena povoação à beira mar, no sotavento do Algarve.
Também há turistas alemães, que deixaram as suas autocaravanas no parque junto da praia.
A aragem marítima é fresca mas o sol aquece todos.
Passear os cães na praia é uma ótima forma de socializar.
Dá-se o encontro entre ela, que é uma mãe ainda jovem, e ele que é um adolescente.
São evidentes as diferenças de cultura.
A diferença de idades e de cultura não é obstáculo a que a simpatia nasça e os aproxime.
Nestas coisas nunca a diferença de uma coisa ou de outra deveria ser motivo de escandalo.
Mas não é destes dois que vos queria falar.
Ela é a cadela Nunca, que brincava com o seu dono holandês, e ele é o meu cão Smart.
O que me interessava destacar aqui é que nenhum dos turistas alemães que encontro tem o ar de se querer opor à emissão de eurobonds e a uma intervenção mais solidária do BCE.
E que o holandês da Nunca vive no Algarve há 7 anos e não acha que os portugueses sejam uns preguiçosos que não merecem o nível de vida dos holandeses.
Pode ser ingenuidade minha, mas os senhores que tomam decisões nas cimeiras de ministros deviam vir às praias do sotavento falar com os alemães e os holandeses que por lá andam.
Como diria Camilo de Oliveira, isso sim, seria democrático.






No tempo em que festejavam o dia dos meus anos e a citação de Thomas Jefferson




No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.
Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!
O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!
Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

_____________________________


Felizmente não estou exatamente nas mesmas condições de Álvaro de Campos, que já não festejava o seu dia de anos.
Apesar dos tempos de crise ofereceram-me CDs e vinhos.
Formam de mim esta ideia, que gosto de música e de vinhos, e será provavelmente mais aproximada da realidade do que a ideia que tenho de mim.
Teve bom gosto, quem ofereceu, e eu a sorte de não haver repetições nas ofertas.
Syrah e Touriga do Douro, Vivaldi e Corelli do século das luzes.
E eis que, já de madrugada, cai no meu email uma oferta não repetida, uma citação que eu não conhecia, sobre os financeiros, de Thomas Jefferson, um dos pais fundadores como os americanos gostam de dizer.

«Acredito que as instituições bancárias são mais perigosas para as nossas liberdades do que o levantamento de exércitos. Se o povo Americano alguma vez permitir que bancos privados controlem a emissão da sua moeda, primeiro pela inflação, e depois pela deflação, os bancos e as empresas que crescerão à roda dos bancos despojarão o povo de toda a propriedade até os seus filhos acordarem sem abrigo no continente que os seus pais conquistaram.»          Thomas Jefferson, 1802.

Lembrei-me da citação de Andrew Jackson, outro dos “founding fathers”, presidente dos USA em 1834 quando escreveu (ver
http://fcsseratostenes.blogspot.pt/2010/11/andrew-jackson-e-alguns-banqueiros.html ):

“Também tenho sido um observador atento do que o Second Bank of the United States tem feito. Tenho colaboradores a vigiar-vos há longo tempo e estou convencido de que vocês usaram os fundos do banco para especular . Quando ganham, dividem os lucros entre vocês; quando perdem, debitam ao banco… vocês são um ninho de víboras e de ladrões”.

Eu não queria dar razão aos comentadores adeptos das ideias dominantes mais ou menos ultra liberais que criticam por injusta a diabolização dos financeiros.
O filme Margin Call, por exemplo, desvia a atenção dos espetadores, dos comportamentos culpados da crise, para os aspetos humanos dos financeiros.
Mas por formação ou deformação profissional prefiro analisar as causas e circunstancias das coisas, e depois de ver o filme Inside Job, é impossível não considerar culpados os financeiros especuladores e os senhores dos grandes grupos bancários que dominam Wall Street e o governo dos USA (Goldman Sachs, Governman Sachs).
E também gosto de analisar a consistência das críticas.
No caso da, para mim, desconhecida citação de Thomas Jefferson, que o amável correspondente me enviou, consultei os sites da especialidade (ver
http://www.monticello.org/site/jefferson/private-banks-quotation )
e encontrei a seguinte interpretação dos textos de Thomas Jefferson, relativamente a cada frase da citação:

1 - Acredito que as instituições bancárias são mais perigosas para as nossas liberdades do que o levantamento de exércitos - texto retirado de uma carta para John Taylor em 1816 com ligeiras alterações: “Acredito sinceramente, como tu, que os estabelecimentos bancários são mais perigosos do que o levantamento de exércitos; e que o princípio de gastar dinheiro a ser pago pela posteridade, sob o nome de financiamento, não é senão uma burla em larga escala”;


2 - Se o povo Americano alguma vez permitir que bancos privados controlem a emissão da sua moeda, primeiro pela inflação, e depois pela deflação, os bancos e as empresas que crescerão à roda dos bancos despojarão o povo de toda a propriedade até os seus filhos acordarem sem abrigo no continente que os seus pais conquistaram – a referencia mais antiga desta citação data de 1937, dando-a como fazendo parte de uma carta para Albert Gallatin, secretário de estado do Tesouro, em 1802, mas não foi encontrado nenhum documento da época com esta frase; na altura não se usavam os termos inflação e deflação; possivelmente ter-se-á criado a atribuição a Thomas Jefferson no rescaldo da grande depressão de 1930, com base noutra afirmação dele, esta histórica: “A emissão de papel bancário (bank-paper, securities) deve ser suprimida e os meios de circulação devem ser restabelecidos ao serviço da nação a que pertencem

Interessante, na verdade, como os presidentes americanos, desde o princípio, tentaram combater o poder financeiro (Obama: “não fui eleito para fazer o jogo dos senhores de Wall Street”, embora tenha aceite no seu governo os grandes “desreguladores” da crise financeira).
Faz-me lembrar o discurso de Eisenhower, contra o poder do complexo político-militar-industrial.

Ou por outras palavras, é mais o que une Adam Smith e Karl Marx do que o que os divide.

Ou, de como os ideais da Revolução americana de 1777 foram tão contrariados internamente como os da Revolução de outubro de1917.



























segunda-feira, 19 de março de 2012

Crítica de cinema - A invenção de Hugo

Que filme interessante.
Bem realizado, bem interpretado.
O realizador, Scorcese, sabe mesmo filmar.
E não é pretensioso, não foi o autor da história; partiu de um livro curiosissimo de Brian Selznick (ed. Gailivro), de ilustrações , baseado na vida de George Méliès, mas dando largas à imaginação, sobre o autómato que o Hugo conserta.
E tem os ingredientes que fazem a emoção no cinema, desde o sentimentalismo de não se ser uma peça sobresselente, até à condenação da guerra.
Deviamos obrigar os senhores da guerra, qualquer que seja o lado onde esses senhores se entrincheiram, a ver o filme, mas com explicador, claro.
Ah, e também os senhores economistas decisores das condições de vida.
Também deviam ser obrigados a ver o fime, para aprenderem com o Hugo que se devem consertar as coisas ("fix").

Eu sugeria (já sou eu a sugerir, não é o filme; o filme só sugere que nós consertemos as coisas que não funcionam) que se seguisse o método da Islandia para consertar o País; com a participação de todas as forças políticas e cívicas, e a submissão das decisões a um conselho de cidadãos não partidário.

Vejam o filme.
Para os ferroviários têm muito interesse as cenas com comboios, especialmente as cenas com os fogueiros (lembrem-se da "Bête humaine").
E vejam tambem este sitio do Instituto Franklin, onde o autor se inspirou:
http://www.fi.edu/learn/sci-tech/automaton/automaton.php?cts=instrumentation

Cenas de vida quotidiana em Lisboa

Armazens junto do Tejo e da zona de discotecas noturnas.
Os volumes visiveis escondem homens que se preparam para dormir com o por do sol.


Caixotes do lixo junto de uma praça na baixa de Lisboa.
Os empregados do restaurante deixam os restos de comida em sacos de plástico.
Este homem usa luvas de borracha para retirar a comida e se alimentar.
Mesmo que o país fosse rico (nos países ricos também há sem abrigo), a indignidade desta situação devia levar os senhores decisores a não acreditar que a iniciativa privada resolve estes problemas.
O filme Margin Call diz que os grandes financeiros são humanos, como as outras pessoas.
Mas não interpretam esta fotografia da mesma forma que eu.
Primeiro, porque não acreditam que a prioridade devia ser o emprego.
Depois, porque não aceitam que a incapacidade física ou psíquica que muitos têm de produzir tem de ser paga pelo resto da comunidade.

Joaquina Madeira

Joaquina Madeira, presidente da Comissão Nacional do Ano Europeu do Envelhecimento Ativo e da Solidariedade entre Gerações:
"Temos que ter mais filhos e os jovens têm que ter estabilidade para se reproduzirem, ... Portugal não está a repor a demografia".

Será assim tão difícil de compreender pelos senhores decisores que estão à espera da iniciativa privada para os jovens terem emprego?

sábado, 17 de março de 2012

Informação do Instituto Ricardo Jorge sobre a evolução da mortalidade

Os dados publicados pelo Instituto Ricardo Jorge sobre a mortalidade semanal têm vindo a ser comentados no post
http://fcsseratostenes.blogspot.pt/2012/03/o-valor-das-estatisticas.html

É de há muito entendimento neste blogue de que a análise dos dados estatísticos é muito importante para  a comunidade, por indicar pistas para tomada de decisões, e não necessita de ficar à espera de muitos meses por especialistas.
Evidentemente que não se devem considerar as análises de dados, especialmente quando ainda não se dispõe de todos os dados, como leis, mas devem colocar-se hipóteses e seguir a evolução das variáveis e ir corrigindo as recomendações.
Este blogue detesta ouvir dizer "vamos analisar os dados e depois diremos" (é sintoma de que não têm experiencia em situações semelhantes e no estabelecimento de correlações entre variáveis múltiplas).

sexta-feira, 16 de março de 2012

A demissão do diretor executivo da Goldman Sachs

A propósito da indecisão dos senhores governantes sobre os estaleiros de Viana do Castelo, referi o filme Margin Call para estabelecer um paralelo entre os senhores governantes e os financeiros que provocaram a crise especulativa financeira. Ver:
http://fcsseratostenes.blogspot.com/2012/03/estaleiros-de-viana-do-castelo-em-7-de.html

Graças ao DN e ao seu diretor do dinheiro vivo, André Macedo, fui informado que o senhor Greg Smith, diretor executivo da Goldman Sachs se demitiu. Terá sido uma zanga de comadres? Não sei, mas segundo o DN o senhor escreveu uma carta de despedida em que diz, entre outras coisas, que "o banco só pensa em fazer dinheiro" e que "engana os clientes".
O grave de tudo isto, é que a Goldman Sachs controla governos, e pelo menos na era Bush filho controlou o governo dos USA através de Paulsen.
Já se sabia, mas a informação vinda diretamente de um diretor executivo é uma confirmação.
Pena Obama não ter cumprido até ao fim a sua promessa eleitoral, de "não servir os senhores de Wall Street".
Confesso que, depois desta confissão, gostaria de ver os críticos de cinema do DN rever a crítica que fizeram ao filme Margin Call, focado no aspeto humano dos financeiros, e com a preocupação de os compreender.
Já os compreendemos, penso eu, sem com isto desejar que se exerça qualquer violencia sobre quem quer que seja.

PS (19mar2012) - Vem o senhor ministro da Defesa informar que espera concluir o processo de privatização dos estaleiros de Viana do Castelo no prazo de 5 meses, deixando no ar a hipótese das marinhas angolana e brasileira beneficiarem dessa ; a hipótese de negociar a venda do Atlantida ao governo regional dos Açores (por cerca de 40 milhões de euros ou 1/7 da dívida dos estaleiros) permanece em secretismo.
Acrescento o discurso de despedida do diretor da Goldman Sachs, destacando a ultima frase: "People who care only about making money will not sustain this firm — or the trust of its clients — for very much longer."




http://www.nytimes.com/2012/03/14/opinion/why-i-am-leaving-goldman-sachs.html?pagewanted=1




TODAY is my last day at Goldman Sachs. After almost 12 years at the firm — first as a summer intern while at Stanford, then in New York for 10 years, and now in London — I believe I have worked here long enough to understand the trajectory of its culture, its people and its identity. And I can honestly say that the environment now is as toxic and destructive as I have ever seen it.
To put the problem in the simplest terms, the interests of the client continue to be sidelined in the way the firm operates and thinks about making money. Goldman Sachs is one of the world’s largest and most important investment banks and it is too integral to global finance to continue to act this way. The firm has veered so far from the place I joined right out of college that I can no longer in good conscience say that I identify with what it stands for.
It might sound surprising to a skeptical public, but culture was always a vital part of Goldman Sachs’s success. It revolved around teamwork, integrity, a spirit of humility, and always doing right by our clients. The culture was the secret sauce that made this place great and allowed us to earn our clients’ trust for 143 years. It wasn’t just about making money; this alone will not sustain a firm for so long. It had something to do with pride and belief in the organization. I am sad to say that I look around today and see virtually no trace of the culture that made me love working for this firm for many years. I no longer have the pride, or the belief.
But this was not always the case. For more than a decade I recruited and mentored candidates through our grueling interview process. I was selected as one of 10 people (out of a firm of more than 30,000) to appear on our recruiting video, which is played on every college campus we visit around the world. In 2006 I managed the summer intern program in sales and trading in New York for the 80 college students who made the cut, out of the thousands who applied.
I knew it was time to leave when I realized I could no longer look students in the eye and tell them what a great place this was to work.
When the history books are written about Goldman Sachs, they may reflect that the current chief executive officer, Lloyd C. Blankfein, and the president, Gary D. Cohn, lost hold of the firm’s culture on their watch. I truly believe that this decline in the firm’s moral fiber represents the single most serious threat to its long-run survival.
Over the course of my career I have had the privilege of advising two of the largest hedge funds on the planet, five of the largest asset managers in the United States, and three of the most prominent sovereign wealth funds in the Middle East and Asia. My clients have a total asset base of more than a trillion dollars. I have always taken a lot of pride in advising my clients to do what I believe is right for them, even if it means less money for the firm. This view is becoming increasingly unpopular at Goldman Sachs. Another sign that it was time to leave.
How did we get here? The firm changed the way it thought about leadership. Leadership used to be about ideas, setting an example and doing the right thing. Today, if you make enough money for the firm (and are not currently an ax murderer) you will be promoted into a position of influence.
What are three quick ways to become a leader? a) Execute on the firm’s “axes,” which is Goldman-speak for persuading your clients to invest in the stocks or other products that we are trying to get rid of because they are not seen as having a lot of potential profit. b) “Hunt Elephants.” In English: get your clients — some of whom are sophisticated, and some of whom aren’t — to trade whatever will bring the biggest profit to Goldman. Call me old-fashioned, but I don’t like selling my clients a product that is wrong for them. c) Find yourself sitting in a seat where your job is to trade any illiquid, opaque product with a three-letter acronym.
Today, many of these leaders display a Goldman Sachs culture quotient of exactly zero percent. I attend derivatives sales meetings where not one single minute is spent asking questions about how we can help clients. It’s purely about how we can make the most possible money off of them. If you were an alien from Mars and sat in on one of these meetings, you would believe that a client’s success or progress was not part of the thought process at all.
It makes me ill how callously people talk about ripping their clients off. Over the last 12 months I have seen five different managing directors refer to their own clients as “muppets,” sometimes over internal e-mail. Even after the S.E.C., Fabulous Fab, Abacus, God’s work, Carl Levin, Vampire Squids? No humility? I mean, come on. Integrity? It is eroding. I don’t know of any illegal behavior, but will people push the envelope and pitch lucrative and complicated products to clients even if they are not the simplest investments or the ones most directly aligned with the client’s goals? Absolutely. Every day, in fact.
It astounds me how little senior management gets a basic truth: If clients don’t trust you they will eventually stop doing business with you. It doesn’t matter how smart you are.
These days, the most common question I get from junior analysts about derivatives is, “How much money did we make off the client?” It bothers me every time I hear it, because it is a clear reflection of what they are observing from their leaders about the way they should behave. Now project 10 years into the future: You don’t have to be a rocket scientist to figure out that the junior analyst sitting quietly in the corner of the room hearing about “muppets,” “ripping eyeballs out” and “getting paid” doesn’t exactly turn into a model citizen.
When I was a first-year analyst I didn’t know where the bathroom was, or how to tie my shoelaces. I was taught to be concerned with learning the ropes, finding out what a derivative was, understanding finance, getting to know our clients and what motivated them, learning how they defined success and what we could do to help them get there.
My proudest moments in life — getting a full scholarship to go from South Africa to Stanford University, being selected as a Rhodes Scholar national finalist, winning a bronze medal for table tennis at the Maccabiah Games in Israel, known as the Jewish Olympics — have all come through hard work, with no shortcuts. Goldman Sachs today has become too much about shortcuts and not enough about achievement. It just doesn’t feel right to me anymore.
I hope this can be a wake-up call to the board of directors. Make the client the focal point of your business again. Without clients you will not make money. In fact, you will not exist. Weed out the morally bankrupt people, no matter how much money they make for the firm. And get the culture right again, so people want to work here for the right reasons. People who care only about making money will not sustain this firm — or the trust of its clients — for very much longer.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Carta a César


Exmo Senhor Presidente do Governo Regional dos Açores





Peço desculpa por me dirigir a V.Exa sem o conhecer nem ser seu conterrâneo, embora isso me possa ser relevado graças a um seu assessor que lhe evite a perda de tempo com a leitura desta mensagem.

Tenho apenas em comum consigo, para além da cidadania portuguesa, a vontade de que o nosso País progrida, se entendermos tal como o bem-estar das pessoas e que esse bem-estar não comprometa o bem-estar dos nossos descendentes.

Essa vontade de progresso é difícil de compatibilizar com os critérios atuais de cortes, mais ou menos cegos, nas atividades públicas, e com a ideologia dominante que privilegia os mecanismos ideais de mercado em detrimento das necessidades reais das pessoas.

O assunto que venho expor já foi considerado por V.Exa encerrado, e consta, da comunicação social, que o governo da República está a estudar soluções.

São estas duas condições suficientes para aconselhar que me abstenha de me pronunciar, embora o possa fazer no uso do direito constitucional de livre expressão em assunto de interesse público, o que estou a fazer.

Faço-o também por razões de disciplina intelectual, provavelmente por deformação profissional e de formação académica, que me impõe dar prioridade às causas e circunstâncias técnicas e científicas em detrimento de questões de outra natureza, quiçá mais simpáticas à formação da opinião das pessoas.

Dada a elevada complexidade técnica do assunto (entendendo "técnica" do ponto de vista de uma obra de engenharia, deixando de lado argumentação dos pontos de vista jurídicos e económico-políticos), vou tentar dividir a questão do navio Atlântida nos seguintes factos:

1 – o Atlântida não poder sustentar uma velocidade de cruzeiro de 18 nós, conforme o contrato, mas apenas de 17,2 nós, é argumento suficiente para a recusa da sua receção;

2 – é corrente ocorrerem situações semelhantes em fornecimentos a empresas públicas, de não preenchimento rigoroso das especificações do caderno de encargos; como em qualquer situação fora do contratado, ambas as hipóteses estão corretas: ou se recusa passado um prazo para a sua correção, ou se renegocia, com recurso a compensações financeiras ou benefício de outras especificações;

3 – em muitos casos, a situação do ponto 2 decorre de “vícios escondidos” ou insuficiências do projeto da obra; esta circunstancia agrava-se em condições de complexidade técnica (continuo a utilizar a palavra do ponto de vista da engenharia), sendo certo que, ao contrário do senso comum e da opinião dos profissionais de outras formações académicas, a engenharia não é uma ciência exata, embora faça apelo, entre outras disciplinas, às ciências exatas;

4 – do ponto 3 decorre que é uma situação aceitável, embora não desejável e apesar de isso ser possível por parte de outros técnicos que não os encarregados da obra, não se ter a certeza, na fase de projeto, do cumprimento rigoroso de uma especificação após a execução da obra;

5 – temos assim que os estaleiros de Viana do Castelo deveriam ter tido a presciência de que o projeto do Atlântida, elaborado pela Petrobalt e apresentado pela Atlântico Line aos estaleiros, não era executável em condições de segurança e de rigoroso cumprimento da especificação da velocidade de cruzeiro de 18 nós, e, em consequência, recusado a encomenda;

6 – no entanto, a decisão tomada, de ir introduzindo correções ao longo da obra, ou aguardar pelas provas de mar para introduzir outras, também é correta se aceitarmos a segunda hipótese do ponto 2;

7 – um dos principais requisitos para um casco permitir velocidades elevadas é a sua esbelteza, sendo muito fácil de visualizar este requisito se pensarmos que um casco para velocidade elevadas terá uma forma da sua secção transversal aproximada em “V”, enquanto um casco para menores velocidades terá um casco em forma de “U” de fundo achatado. Do primeiro caso é exemplo o Hellenic Wind, de 4.500 toneladas que pode atingir 38 nós, do segundo o Santorini (navios alugados pela Atlantico Line para substituir o Atlântida)e, naturalmente, o Atlântida de 7.000 toneladas  ; deverá sublinhar-se, porém, que as condições de estabilidade de um casco esbelto são menores do que no caso de um casco em “U”;

8 – não obstante o ponto 7, as provas de mar do Atlântida revelaram deficiente comportamento de ponto de vista da estabilidade no caso de falha geral da energia, por os seus estabilizadores retrateis ficarem inoperacionais (os estabilizadores têm a mesma função que os estabilizadores dos aviões, só que neste caso são passivos, a menos dos flaps, e no caso dos ferries são ativos, para poderem recolher nas manobras de acostagem);


9 – a deficiência do ponto 8 foi tragicamente demonstrada no naufrágio do Costa Concórdia (este tipo de navios de cruzeiro não tem, apesar das elevadas exposição a temporais e concentração de pessoas a bordo, comportamento satisfatório em caso de falha geral de energia);

10 – a deficiência do ponto 8 foi corrigida pelos estaleiros através da junção de robaletes (quilhas laterais longitudinais que reduzem o balanço de rolamento do navio, e que se podem observar nas fotografias do navio) e de aumento do lastro (para baixar o centro de gravidade e reduzir a distancia ao centro de gravidade do metacentro ou centro da impulsão de Arquimedes, reduzindo o binário de rolamento devido à diferença de cotas entre o metacentro e o centro de gravidade);


11 – a consequência da correção referida no ponto 10 foi, por razões físicas (aumento da tonelagem, do calado de 4,5 para 5m e da resistência ao deslocamento) a diminuição da velocidade máxima; o esforço de potência adicional foi absorvido pela margem que sempre se utiliza em projeto para a potencia dos 4 motores diesel (dois de propulsão e dois de energia de iluminação, aquecimento, cozinhas, ar condicionado, des-salinalização, que servem também de reserva para a propulsão; cada um dos motores tem o seu alternador que alimentam uma subestação elétrica, que por sua vez alimentam os motores propulsores e os serviços ditos de “hotel”);

12 – o aumento do calado de 4,5 para 5m poderá causar alguns problemas nalguns dos portos dos Açores, mas também é verdade que um calado de 5m não é exagerado em termos habituais;

13 – a crítica já feita à dificuldade de admissão de carga transportada em camiões porta-contentores não parece basear-se em incumprimento das especificações do caderno de encargos, até porque o projeto do Atlântida foi apresentado pela Atlântico Line; no entanto, pelas características da porta da rampa da ré, aliás executada de acordo com as normas decorrentes da análise do acidente com o ferrie Estónia, parece ser possível o transporte de alguma contentorização;

14 – apesar das limitações expostas nos pontos anteriores, o projeto do Atlântida é muito interessante do ponto de vista técnico, obedecendo aos critérios de projeto de navios de cruzeiro de propulsão diesel-elétrica; destaque para a reserva de potência dos dois motores para a propulsão (2x3,5 MW) e dois para o “hotel” (2x1,8MW) para os dois propulsores azimutais (as hélices, movidas por motores elétricos de 3 MW cada, são orientáveis, dispensando o leme) e para os dois impulsores transversais de proa para garantir as melhores condições de acostagem em condições adversas (o projeto previa apenas um impulsor transversal, o que agravou a tonelagem e a resistencia ao deslocamento); acresce o excelente equipamento de telecomunicações e de controle centralizado na ponte de comando (integração por uma empresa nacional) : dois sensores de rumo, uma girobússola e uma agulha magnética, dois sensores GPS para localização AIS, identificação automática com transponder VHF, 2 radares 3 e 9 GHz, leitor de cartas, receção de informação meteorológica NAVTEX, piloto automático, sensor de vento, odómetro por efeito Doppler, caixa negra VDR (voyage data recorder), telefone por satélite, sistema de homem morto (deteção automática de falta de tripulante aos comandos), preenchendo os requisitos de segurança marítima;

15 – o excelente equipamento em termos de habitabilidade pelos passageiros, incluindo os camarotes, os salões de estar, os salões do tipo bar e clube, o restaurante self-service e as cozinhas poderão ser acusados de qualidade excessiva mas refletem o caderno de encargos e os pedidos do fiscal da Atlântico Line durante a construção
decoração do clube-bar
clube-bar
16 – existe um forte sentimento de rejeição popular nos Açores do Atlântida, e é natural que o seu governo regional não queira contrariar o sentimento da população; mas também é provável que esse sentimento derive do facto dos navios alugados pela Atlântico Line atingirem velocidades superiores; tal facto é também por razões físicas; o Hellenic Wind atinge 38 nós ( 68,4 km/h), tem uma tonelagem bruta de 4500, inferior ao Atlântida, mas tem uma potencia instalada da ordem de 20 MW, o dobro da potencia instalada no Atlântida; já o Santorini tem uma potencia instalada de 15 MW, o que, aliado à menor tonelagem de 4600, lhe permite uma velocidade de 18,5 nós (33,3 km/h), superior à do Atlântida (17,2 nós ou 31 km/h); para a opinião pública, o critério dominante para aferir a qualidade de um navio será a velocidade, tal como uma carrinha de 170 cavalos e velocidade máxima de 200 km/h é considerada superior a uma carrinha de 100 cavalos e velocidade máxima de 160 km/h, embora permita maior economia de combustível;


17 - no caso do Santorini, atendendo à idade do navio, deverá assinalar-se que o navio dispõe apenas de dois motores (tanto o Hellenic Wind como o Atlântida dispõem de quatro), pelo que a fiabilidade espectável é menor

18 – considerando os tempos de crise que se vivem, e as preocupações com o fornecimento de energia primária e com o impacto ambiental do consumo de combustíveis fósseis, deverá ter-se em atenção que a velocidade de deslocação de um navio está relacionada não só com a tonelagem e as características do casco como principalmente com a potência em jogo e o consequente consumo de combustível; assim, para um dado navio, aumentar a velocidade significa aumentar a uma taxa superior o consumo de combustível para a propulsão (notar que num navio de cruzeiros ou num ferry como o Atlântida o consumo para a propulsão será disfarçado pelo consumo do “hotel”, o que reduz a taxa de aumento do combustível quando se aumenta a velocidade);

19 – atendendo ao exposto no ponto anterior, com uns pequenos cálculos partindo das especificações dadas pelos estaleiros de Viana do Castelo (consumo específico de 165 g de gasóleo/kWh), estima-se um consumo de:

43 Kg de gasóleo/km à velocidade de 17 nós
40,5 Kg de gasóleo/km à velocidade de 16 nós
38,6 Kg de gasóleo/km à velocidade de 15 nós

Isto é, reduzindo a velocidade de 1 nó, de 17 para 16 nós, teríamos uma economia de combustível de 6%, e reduzindo 2 nós uma economia de 10%

20 – para fins ambientais, admitindo uma ocupação média de 200 passageiros, teríamos um valor médio de cerca de 600 g de CO2/passageiro.km, o que reforça a conveniência em economizar combustível;

21 – admitamos que o consumo do Santorini a 18 nós é idêntico ao do Atlântida a 17 nós (o que poderá não corresponder à realidade, mas poderá servir de hipótese pessimista para o Atlantida) ; para 300 viagens de 90 km, ou 27.000 km, a economia de gasóleo entre o serviço a 18 nós e um serviço com marcha económica, para poupança de combustível e redução de emissões de CO2, a 15 nós (poupança de 4,4 Kg/km), seria de cerca de 200 mil euros, fazendo o gasóleo a 1,55 € ;

22 – este valor de 200 mil euros, se suposermos iguais os custos de aluguer e operação do Santorini (5 milhões de euros por ano) e os custos de amortização (correspondentes a um investimento de 42,5 milhões de euros e uma vida útil de 25 anos) e operacionais do Atlântida, só não justificaria por si só a aquisição do Atlântida se o valor das horas.passageiro correspondente ao tempo perdido fosse superior;

23 – as diferenças em tempo para um percurso de 70 km a 18 e a 15 nós seriam de 26 minutos e, para um percurso de 200 km, de 1h 14min. Para 27.000 km, a diferença seria de 167 horas, ou 1200 euros/hora; admitindo 200 passageiros como ocupação média, teremos 6 euros por hora e passageiro, supondo-se o atraso compensado pela poupança de combustível;

24 – em resumo, em qualquer companhia de transportes no tempo presente, os seus veículos não são utilizados à velocidade máxima por razões de poupança energética e ambiental, pelo que na atualidade perde peso o argumento da baixa velocidade para recusa do Atlântida;

25 – o tempo de crise e, em especial, a crise dos estaleiros de Viana do Castelo serve também de argumento para a receção do Atlântida, destacando-se o facto do Arsenal do Alfeite estar também afetado pelos prejuízos do Atlântida;

26 – restando assim o sentimento de rejeição da população, sugere-se a confirmação ou não desse sentimento através do instrumento supremo à disposição da democracia, o referendo, justificável pela grave situação económica dos estaleiros e do país;

27 - para que o referendo para a aceitação ou não do Atlântida seja rigoroso, esperar-se-á da comunicação social, especialmente da televisão, que divulgue previamente a informação sobre todos os aspetos técnicos e económicos do Atlântida, sobre a mitigação da crise económica dos estaleiros de Viana e do Alfeite no contexto da crise nacional, e sobre a problemática do serviço inter-ilhas nos Açores, para que não se perca uma, apesar de tudo, excelente obra de engenharia.



Julgando ter exposto as circunstancias e a análise da questão, venho, como principal razão da presente mensagem, apelar a V.Exa para a operacionalização do referendo, o que julgo poderá ser negociado com todas as forças políticas dos Açores, prévia e independentemente dos resultados das próximas eleições.



Com os votos das maiores felicidades para os Açores e, pessoalmente, para V.Exa, queira aceitar os meus cumprimentos



Fernando Santos e Silva
      BI 1453978





http://www.luiscaldasdeoliveira.com/2012/03/08/visita-ao-navio-atlantida-no-estaleiro-do-alfeite/




segunda-feira, 12 de março de 2012

Uma lição de biologia em intenção dos gestores

No programa de ciência da Antena 2 ouvi esta descoberta extraordinária, fundamentada na experimentação laboratorial:


O critério para avaliação do grau de essencialidade d euma proteína num processo biológico é o de realizar uma experiencia em que ela é retirada do processo. Se o processo se realiza e os seus resultados são atingidos, então essa proteína é essencial ao processo.

Do ponto de vista estritamente lógico, parece um paradoxo.

Mas lembrei-me que, por exemplo, os técnicos que primeiro desenvolveram os sistemas de segurança e controle da circulação ferroviária, sem saber nada de biologia, aplicaram o mesmo princípio: qualquer coisa que falhe não deve evitar que o processo, isto é, o transporte em segurança, se realize ou, pelo menos,se faça num estado de degradação segura (“gracefull degradation”).

Ou os projetistas topológicos de redes de transporte, que prevêem sempre um caminho alternativo para o caso de um troço ser vítima de um impedimento operacional. Isto é, se um comboio avariar numa linha, deverá poder alcançar-se o destino através de outra linha.

É isso, a proteína é tão importante para o organismo, que a sua falta deve estar prevista, e existir um mecanismo de recurso ou de substituição.

Como se costuma dizer, ninguém é insubstituível, e as coisas devem poder funcionar sem a pessoa.

O risco é aparecerem uns senhores yupis precipitados a pensar que as coisas apareceram feitas sem o esforço das pessoas.

Tal como na biologia, assim também as empresas estão sujeitas a estes ataques de vírus ou outros organismos mais elaborados, suscetíveis de corromper os processos, não só eliminando as “proteínas” essenciais, mas também os mecanismos de recurso e substituição.

E isso será grave, evidentemente.





Os telómeros

Os telómeros são as terminações que protegem as células, mas vão diminuindo de comprimento à medida que as células se reproduzem e chega a degradação da senilidade.
O nome é grego, significa final. Na verdade, deve-se muito à cultura clássica, por mais que se queira ignorar.
Se se conseguir estimular o crescimento dos telómeros, ou pelo menos, controlar o seu encurtamento, aumentamos a longevidade das células.
No caso das células cerebrais, isso consegue-se exercitando o cérebro.
Donde, cortar na educação significa aumentar o risco das doenças mentais e a precocidade do envelhecimento.
Devo isto ao anúncio da semana internacional do cérebro, a decorrer.
Ver
http://www.portaldasescolas.pt/portal/server.pt/community/not%C3%ADcias/241/Ver%20Not%C3%ADcia?dDocName=022007304&dID=26620

Questões a pôr ao senhor ministro

Questões a colocar ao senhor ministro de voz pausada:

1 - "Que parte da última fatura de 700 milhões de euro injetada no BPN não entende que possa voltar às finanças públicas, senhor ministro?"

2 - "Que parte dos dividendos de 2011 da EDP e da REN não entende que possa ser distribuida ao acionista principal em 2011, senhor ministro?"

3 - "Que parte dos 4,4 milhões de euros correspondentes às portagens de agosto de 2011 que foram pagos pela EP à Lusoponte não entende que possa voltar às finanças públicas por se ter diluido nos acertos de renegociação do acordo de reequilíbrio financeiro que normalmente favorece o parceiro privado?"

4 - "Que parte da última injeção de dinheiro pelo BCE nos últimos 3 meses na banca portuguesa, no montante de 37 mil milhões de euros a um juro de 1%, não entende que deva ser investida em atividades especulativas sem contrapartida real, como tem acontecido, em vez de financiar atividades produtivas?"

5 - "Que parte do total de juros no montante de 35 mil milhões de euros a pagar à troica pelo empréstimo de 78 mil milhões de euros, não entende que deva ser renegociada de modo a beneficiar de um juro mais próximo do ponto anterior?"

6 - "Que parte da opinião pública não entende o senhor ministro que possa querer, essa parte da opinião pública,  que todas essas verbas dos pontos anteriors retornem às finanças públicas?"

Notar, por favor, senhor ministro, que contrariamente à sua pergunta, que o senhor secretário de estado da Cultura gosta de ecoar por aí, a expressão "não entende", não tem a conotação pejorativa de insinuar dificuldade de compreensão do interlocutor, que poderia interpretar-se como sinal de má educação, mas tão somente a de inquirir qual o seu entendimento da questão posta.

Do enunciado do problema à solução - o exemplo dos lares de idosos, da escola secundária de Rio Tinto e do Alqueva

Algures perdido num alfarrabista há-de existir uma edição já com dezenas de anos de um livro intitulado "Como identificar e reslver um problema".
Falaram-me nele há muitos anos e explicaram-me vagamente como se devia fazer.
Aplicava o método científico e definia passos de abordagem do problema e das soluções.
Talvez o livro se tenha perdido mesmo e quem toma decisões ache que não precisa dele.
É pena acharem isso, porque temos aqui exemplos de como as pessoas que tomam decisões falham a resolução do problema por ignorarem as regras do método, apesar de mandarem publicar que vão executar uma solução muito boa.
1 - Estão os senhores governantes muito contentinhos consigo próprios porque vão racionalizar a ocupação dos lares de idosos criando dez mil vagas.
Os quartos simples passam a duplos e os duplos a triplos.
Ideia simples e fácil, basta "flexibilizar" as normas (sugestão aos senhores governantes desta área: na próxima reunião internacional, perguntem ao homólogo alemão o que pensa da "flexibilização" de uma norma).
Porém, vem um técnico de serviço social que tem a experiencia de lidar diretamente com o problema, e diz que é quase sempre preferível o idoso sozinho ficar em casa, com a condição de ter apoio domiciliário.
Donde, os senhores governantes, lá do alto da sua turris eburnea, preferirem economizar nesse apoio domiciliário.
As regras do mercado a funcionar livremente lidam mal com as pessoas que não têm capacidade produtiva. E a "flexibilização" das normas, alterando os critérios de áreas de ocupação por idoso, vai contribuir para a degradação do panorama geral.
2 - da turris eburnea do ministério da educação (estou a referir-me não só ao atual governo como aos governos anteriores) e dos jornalistas justiceiros que tanto criticaram os professores por não quererem o sistema de avaliação proposto pelo ministério, vieram também as orientações para racionalização dos quadros de professores e do dimensionamento das turmas.
Ideia simples.
Mas vem a direção da escola secundária de Rio Tinto , faz a abordagem correta do problema que tinha - uma taxa de insucesso escolar elevada no 12ºano - e observa (método científico: observar)  que os alunos não aprendiam porque "não podiam"; formularam hipóteses e estudaram formas de aplicar soluções para as testar; uma das soluções foi pôr dois professores numa aula, outra obter o concurso de técnicos de serviço social para analisar a incapacidade educacional e financeira parental. O programa recebeu o nome de "dinamizaçãodelta". O indicador de sucesso escolar melhorou claramente ao fim de um ano, mas duvido que os senhores governantes, muito contentinhos das suas certezas, tenham aprendido alguma coisa, a ouir que tem experiencia da frente de trabalho e tem entusisasmo suficiente para sobreviver à sufocação do centralismo à portuguesa.
3 - o Alqueva - a obra de regadio e de produção elétrica do Alqueva foi aprovada em conselho de ministros em 1972 (de acordo com as negociações com a Espanha para o aproveitamentó das águas) e em 1975 (V governo provisório de Vasco Gonçalves). Seguiu-se um período de oposição à execução da obra, mas a irracionalidade dessa oposição era tão grande que ela acabou por se fazer.  Nenhum senhor governante que, do alto da sua turris eburnea criou obstáculos e provocou atrasos à entrada em funcionamento do Alqueva, terá aprendido a corrigir este tipo de erros. Recordo isto a propósito do desabafo dum agricultor alentejano, a 40 km de distancia da albufeira, esperando que em 2015 o regadio chegue à sua terra, três naos depois do período de seca que se vive.
É possível que na origem desta ignorancia das realidades práticas pelos senhores governantes esteja apenas uma grande falta de humildade, que os impede de ver que não são o centro do universo.


(turris eburnea - latim - torre de marfim - tão perfeita como o marfim, mas impossível, e por isso mesmo desligada da realidade)

domingo, 11 de março de 2012

Definição de parceria público-privada

O que é uma parceira público-privada, ou definição de parceria público-privada por Dona Piedade :
- É quando a parte pública fica privada de alguma coisa

                                     (Cravo & Ferradura, de José Bandeira, Diário de Notícias)

Aguardemos os resultados da comissão nomeada pelo governo para analisar as parcerias.
As parcerias são um exemplo de como uma ideia boa, em princípio, e conciliatória por envolver os dois setores, acaba quase sempre por estragar tudo.
Ou talvez ilustre também os riscos das inovações.
E no fundo, o conceito de parceria público-privada , por ter sido lançado por governos como o de Thatcher, cujo objetivo era reduzir o peso do Estado na economia, pode ser olhado como:
- se a parceria correu bem e houve vantagem para os cidadãos, é um paradoxo para os teóricos da diminuição do peso de Estado, porque o bem público saiu beneficiado e  o Estado tem uma posição respeitada na execução do contrato de parceria;
- se a parceria não correu bem e a parte pública sofreu prejuízos, confirmou o objertivo do governo de reduzir o peso de Estado.

Enfim, vem o Tribunal de Contas com críticas, aliás fundadas, e recomendações, mas talvez o mal não esteja na ideia em si, mas na forma de a executar, que inviabiliza o benefício para a parte pública. Como lhe está associada a ideia de risco, e o risco tem de ser remunerado na ótica privada, e o risco está sempre associado a probabilidades, dificilmente a parte privada aceitará perder (engraçado, parece que a parte privada aceitou perder parte da dívida grega, mas irá aconar os seguros de crédito, isto é , os CDS - credit swap default, para afinal não perder nada; o problema é que o ganho de uns é o prejuízo da comunidade, como dizia Montaigne).

sábado, 10 de março de 2012

O serviço nacional de saúde em março de 2012

Do DN de 2012-03-09:


“O Ministério da Saúde deve 900 milhões de euros aos hospitais”

Com todo o respeito pelo senhor ministro da saúde e sob reserva da existência de constrangimentos da sua ação para além dos cortes do memorando da troica, esperava-se mais, ao fim de 8 meses de governo.

Se a notícia corresponde à verdade, contrariamente ao que a comunicação social veiculou anteriormente, e analogamente ao que se passa no ministério dos transportes (não são as empresas que devem ao Estado, é o Estado que deve às empresas), não são os hospitais os donos da dívida aos fornecedores, é o ministério que deve aos hospitais e que não cumpre os contratos de prestação de serviço que assinou com eles.

Como diz a sabedoria popular, corta-se em tudo, menos na saúde.

Como houve dinheiro para comprometer 5 mil milhões de euros com o BPN e um tão apreciado gestor financeiro não arranja um programa de saneamento desta dívida de 900 milhões de euros?

Acrescento os seguintes comentários:

1 – um cidadão que muito prezo sofreu a rotura completa do tendão de Aquiles; foi assistido no hospital do Barreiro e logo transferido para o hospital de S.José, onde foi operado; esteve internado duas semanas e foi semanalmente assistido durante dois meses até ter alta. O serviço recebido foi de nível elevado. Pagou por tudo 8 euros, apesar de ter rendimentos para poder pagar mais. É verdade que o serviço nacional de saúde deveria ser tendencialmente gratuito, mas nos tempos que correm, as despesas deveriam ser comparticipadas em função dos rendimentos do cidadão;

2 – no espaço de dois dias, o DN deu conta dos testemunhos de dois médicos com serviços relevantes no tratamento e investigação do cancro. Um afirmou que a fundação Champalimaud está muito bem instalada em consequência de um tratamento preferencial do Estado e desenvolve trabalho meritório mas tem uma grande insuficiência: não tem doentes; outro afirmou que os cortes na saúde vão provocar um retrocesso social;

3 – em mais um artigo de opinião sobre o serviço nacional de saúde, o dr José Correia

(ver

http://fcsseratostenes.blogspot.com/2011/11/servico-nacional-de-saude.html

e

http://www.dn.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=2349399&page=-1 )



critica a drenagem de recursos do público para as PPP, a excessiva concentração em hospitais centrais, e o excesso de equipamento não aproveitado. Diz o mesmo que este blogue, que fechar postos de atendimento e hospitais locais foi um disparate (por acaso também do governo anterior) e que a maioria dos pensionistas irá aguardar pacientemente, e muitos mortalmente, a sua vez nas listas de espera acumulada dos grandes hospitais centrais. E dá uma explicação: falta de sensibilidade.

4 – neste momento, já pode afirmar-se, com base nos dados estatísticos, que existe uma correlação entre os cortes na saúde e o aumento de mortalidade, agravada pelo frio e pela gripe; a relação de causa e efeito é uma hipótese, mas não parece poder afirmar-se ainda como efetiva; mas é uma hipótese, isto é, apesar do ar escandalizado do senhor primeiro ministro classificando-a como jogo politico em que não entra, é possível que exista a relação de causa e efeito, aguardando-se a evolução da mortalidade e o apuramento das causas e circunstancias de cada morte; qualquer governante deveria ter cuidado quando mexe em assuntos de saúde, porque pode tornar-se responsável por consequências graves; neste momento, é alarmante o aumento de mortes de pessoas com mais de 65 anos e de crianças com menos de 4 anos; os governantes deveriam ter sempre presentes, para não os repetir, mesmo em menor escala, os erros de quem privilegiou conceitos dogmáticos relativamente aos dados da realidade, deixando que circunstancias de seca precipitassem a ocorrência de mortes como as fomes da Ucrânia em 1933.

5 – Perante a gravidade da situação, o governo deveria alargar a outros setores políticos, sociais e profissionais a participação na análise e resolução das questões de saúde, privilegiando os critérios técnicos sobre os ideológicos.







sexta-feira, 9 de março de 2012

Falas de governantes - a adimplência





O fait-divers, perdoe-se o galicismo, da duplicação do pagamento de 4,4 milhões de euros (que já estavam integrados num conjunto de 6,7 milhões de euros) tem o nível, em primeira análise, como fait-divers, de um episódio ligeiro de uma opereta.
Como acusou o senhor secretário de estado, terá sido um excesso de zelo da Estradas de Portugal, que queria economizar o pagamento de 4,4 milhões de euros (a ideia de acabar com as borlas das portagens em Agosto de 2011 era essa) .
Pena não terem os senhores governantes um pouco desse excesso de zelo para comprar os 3 milhões de chapas para os estaleiros de Viana iniciarem os asfalteiros venezuelanos.
Passados 6 meses e meio sobre Agosto de 2011, parece excesso de lentidão da parte do governo em reaver os 4,4 milhões de euros através da assinatura de novo acordo com a Lusoponte.
Ou, em síntese, terá sido um excesso de adimplência por parte do governo, de um contrato que retratava uma situação diferente (o contrato previa portagens à borla em Agosto; a situação nova foi Agosto de 2011 sem borlas).
Pena os senhoress governantes não quererem cumprir “à letra” os contratos sobre os subsídios de férias e natal, alterados unilateralmente.
Mas o episódio não é de lana caprina e merece uma segunda análise.
Objetivamente, interessa perceber, do ponto de vista psicológico, por que o senhor primeiro ministro afirmou que o dinheiro estava retido nas estradas de Portugal, quando ele já tinha sido recebido pela Lusoponte.

Interessa perceber, não para concluir se é devido ou não o pagamento conforme despachou em novembro de 2011 o senhor secretário de estado, mas para compreender os mecanismos de análise, de compreensão e de decisão do senhor primeiro ministro.
Isso interessa muito, porque a perceção que se tem é que o seu governo segue rigorosamente as suas determinações. Isto é, o senhor primeiro ministro não é um “primus inter pares”, como ensinou a história da democracia, é um “primus”, tão só.
E fala na Assembleia da Republica com a maior das seguranças sobre um assunto de que não dispõe de informação suficiente. Ouviu-o eu, através da TV, afirmar na AR que os 4,4 milhões tinham ficado retidos na EP, e acrescentou com ar de superioridade contentinha consigo própria, passeando um sorriso triunfante pela assembleia, que o senhor deputado estava a interpretar mal uma simples retenção.

Bem, como dizia, interessam-me os mecanismos psicológicos.

Como compreendeu a questão o senhor primeiro ministro? Ouviu qualquer coisa como reter e achou que a EP/ Estradas de Portugal tinha retido e promulgou a conclusão: não tinha havido pagamento “duplicado” à Lusoponte.
Provavelmente pensou que era a EP que cobrava as portagens e depois dava o dinheirpo à Lusoponte. Não é, a Lusoponte cobra as portagens e fica com o dinheiro. Elas contribuem para o seu lucro anual de 7 milhões de euros.
O senhor primeiro ministro ouviu outra coisa diferente do que o senhor secretário de estado lhe transmitiu apressadamente pelo telefone.
É um princípio básico da comunicação – é essencial que o que se ouve seja o que se emitiu, mas para isso o critério de análise dos sons e palavras tem de se o mesmo pelo emissor e pelo recetor.
Para se conseguir isso há regras de análise que devem ser seguidas e que não são seguidas normalmente por quem toma decisões, quer seja num episódio pequeno como este, quer seja na decisão de atribuir ou não 3 milhões de euros aos estaleiros de Viana para comprar chapa para arrancar com os asfalteiros.
Que decide prefere acreditar na realidade que constrói com base em indícios do que seguir as regras de análise da realidade.
Era o que eu observava em muitas reuniões, toda a gente a perceber as questões com exposições rápidas e eu sem compreendê-las.
Depois os decisores tomavam a decisão de acordo com o seu mundo virtual, não real, por mais que eu, quando o assunto era comigo, tentasse explicar as relações de causa e efeito (foi exemplar um senhor administrador ter começado uma reunião com esta frase: “vamos então resolver isto, mas não me venham com questões técnicas”).

De acordo com a notícia do jornal o Sol, que desencadeou este episódio de opereta, pelo acordo de reequilíbrio financeiro, versão 8, de 2008, com a Lusoponte (como amortizações pela construção da Vasco da Gama, como compensação pela não subida das portagens na 25 de Abril com medo dos buzinões, como compensação pelo apoio da Lusoponte às salinas do Samouco, ou de construção de acessos, etc, etc), em princípio a ser substituído pela versão 9 em 31mar2012, o Estado paga como compensação pela não cobrança (pela Lusoponte) das portagens de agosto, 6,7 milhões de euros (equivale a cerca de 100.000 carros por dia).

Tendo a Lusoponte cobrado 4,4 milhões de portagens, o que ilustra a redução de tráfego, a EP propôs pagar apenas 6,7-4,4=2,3 milhões, o que o senhor secretário de estado não aprovou, mandando-a pagar.

Porque, de facto, embora fosse lógico, e as pessoas têm cabeça é para pensar, o fim das borlas justificava a EP não pagar o que já tinha sido cobrado. Porém, o imperativo jurídico do contrato, por não prever o pagamento das portagens em agosto, “fundamentou “ a determinação para a EP pagar os 4,4 milhões.
Isto é, ninguém reteve nada, foi uma incompreensão.
Mas foi principalmente um excesso do senhor secretário de estado, não de zelo, mas de adimplência do contrato, e uma exibição de excesso de auto confiança do senhor prieiro ministro.

Ah! É verdade, tinha-me esquecido de dizer, adimplência significa cumprimento rigoroso, à letra, fundamentalista, de qualquer obrigação, contrato ou acordo.
Se calhar o nosso problema é este, um problema de adimplência de enunciado mal compreendido e de resolução pior tentada.

Enfim, mais um episódio da novela das parcerias público privadas, tão criticadas pelo Tribunal de Contas
(ver
http://www.tcontas.pt/pt/actos/rel_auditoria/2001/47-2001v1.pdf  ),

 embora se reconheça que o problema é complicado e, evidentemente, mais um exemplo da promiscuidade entre o poder político e o poder económico, através das suas figuras de relevo (cargos em companhias privadas de anteriores ministros com que tiveram relações) .