quarta-feira, 30 de março de 2016

Um jogo de palavras sobre a extensão da ignorância

As palavras, só por si próprias, enquanto instrumento do cérebro humano, precisamente porque este é uma fonte de enganos (porque não consegue processar toda a informação, tem de inventar para suprir o que lhe falta), constroem uma imagem da realidade que pode estar muito longe dela. Segue-se a análise dessa imagem, ou perceção. Nessa análise há erros de processamento da própria informação errada. Pode acontecer que erros sucessivos se anulem, mas o mais provável é amplificar o erro, isto é, o afastamento da realidade. Da perceção do resultado da análise pode resultar uma medida de intervenção, provavelmente contraproducente, pelas razões expostas. A intervenção normalmente agirá no sentido contrário ao pretendido.
Este é um jogo de palavras, provavelmente a retratar deficientemente a realidade, mas com muitos exemplos a sustentá-lo.
A extensão da ignorância por cada um de nós da maior parte dos assuntos que nos são divulgados pela comunicação social, ou ocultados ou camuflados por ela, apesar de serem de interesse coletivo, é normalmente maior do que o nosso conhecimento. E dentro de cada tema, a ignorância de um sub-tema por parte dos próprios especialistas do tema é muitas vezes superior à extensão do próprio conhecimento do especialista do sub-tema.
Bem intencionados dirão que num conjunto numeroso os erros se vão cancelando e o resultado final, miraculosa e democraticamente, corresponde ao interesse coletivo, de que a maioria pode não ter a consciência racional do que isso realmente seja. Sim, isso pode acontecer, mas apenas porque a teoria das probabilidades permite isso. Ou porque se tenha construido uma bateria de regras e procedimentos que, sem evitar os erros, os atenuam. Por exemplo, as regras do método científico. Ou, para garantir a segurança aérea, terem-se instituído procedimentos, do tipo check-list, nas descolagens. Segundo um piloto, apenas num terço dos casos os procedimentos são integralmente cumpridos. Isto é, é a redundância, não a capacidade do indivíduo operador da máquina, ou a segurança intrínseca do equipamento, que garantem a pouca sinistralidade aérea. Um pouco como os mecanismos biológicos que se auto-regulam em ambiente adverso.
Este jogo de palavras é então para observar o risco das decisões coletivas, por mais democráticas que sejam (e sim, o sistema democrático é o pior, mas os outros serão piores, sem esquecer que Hitler ganhou as eleições e o referendo que se lhe seguiu). porque estamos a decidir sobre aquilo que não conhecemos, ou que nos impingiram como sendo verdade, e não é. Por exemplo, nas últimas eleições regionais alemãs, foi divulgado um cartaz de uma rapariga loura a ser atacada por um refugiado. Depois das eleições provou-se que o cartaz era falso, mas uma das regras da democracia é respeitar as eleições, mesmo que equivocadas. O que vale também para o conflito entre petralhas e coxinhas no Brasil. Também tivemos de aguentar um primeiro ministyro que antes de eletio dizia que cortar o décimo terceiro mês era uma estupidez, e depois viu-se.
Considere-se o tema dos atentados terroristas na Europa ocidental. Dir-se-á que houve um aumento. Mas isso é a perceção. A realidade é mostrada pelo gráfico, são menos do que nos anos 90, em que a patologia dos atentados estava mais concentrada na própria Europa ocidental (Bader-Meinhof, ELP, pós guerra da Argélia):


Isto para dizer que é dificil argumentar e tomar decisões.
A extensão da ignorância sobre aquilo que temos de decidir (ou sobre o que nos ocultam, apresentando as decisões como facto consumado) é superior à extensão do que conhecemos.
O que é aproveitado por quem toma decisões (também ignorantes, mas com o poder) para continuar a enganar.
Que fazer então?
Continuar a argumentar e a recolher dados, e a discuti-los.
Até ver...

Protesto pela condenação de Luaty Beirão e companheiros

Protesto pelo ataque à liberdade de expressão. Estou convencido que não vai ser possível ao regime mantê-los presos tanto tempo, E se eles "desenvolviam ações para uma rebelião", isso é o que modestamente, guardadas as devidas distancias, este blogue tenta fazer, onde quer que a declaração universal dos direitos humanos seja agredida.

PS em 30 de março de 2016 - No DN de hoje um senhor "barão" do PSD critica os que "cobardemente" protestam contra a repressão angolana e se calam sobre o desrespeito dos direitos humanos na China, e não protestam contra os negócios com o capital chinês. 
Junto o anterior post sobre o artista Weiwei, recordando ainda os protestos pela privatização da REN e da EDP executada pelo partido do senhor "barão", mais ou menos telecomandado pelos burocratas de Bruxelas:
http://fcsseratostenes.blogspot.pt/2015/12/liberdade-de-expressao-por-ai-weiwei.html

PS em 7 de abril de 2016, com a devida vénia a André Carrilho e ao DN. É extraordinária a campanha difamatória sobre os presos políticos em Angola. Claro que serão inexperientes e poderão ingenuamente acreditar em soluções como as do livro que serve de pretexto à sua condenação. Mas não se prendem pessoas por criticarem regimes políticos.




sábado, 26 de março de 2016

As laranjeiras de Lisboa, a casa da rua da Lapa e o Credit Suisse




Na fotografia da laranjeira, pode ver-se o desperdício das laranjas perdidas no chão. Perdeu-se vitamina C e alguns hidratos de carbono. Claro que se poupou no tratamento das árvores e na recolha e colocação da fruta em pontos de venda. Mas é uma metáfora do desaproveitamento dos recursos do país. Basta esperar pelo outono para ver o mesmo desperdício e desaproveitamento com as azeitonas, fonte natural de energia num país deficitário em energia primária.
Tal como a segunda fotografia, um prédio abandonado na orgulhosa rua da Lapa, é a imagem de mais um desaproveitamento, embora espreitem, gulosas, as empresas de remodelação de prédios para transformação em apartamentos para turistas ou hoteis de charme enquanto os gestores municipais batem palmas e sorriem para os entrevistadores. É mais um exemplo de ineficiente investimento. A reabilitação urbanística não deveria orientar-se para a recuperação, prédio a prédio, mas sim para a  sua integração e emparcelamento em unidades habitáveis de acordo com os critérios atuais. E virada prioritariamente para a habitação permanente, para a fixação de população.

Isto a propósito da notícia de dia 24 de março de 2016, que o Credit Suisse prepara a dispensa de 6 mil trabalhadores com que espera poupar 1500 milhões de euros (250.000€ por pessoa).
Duvido que os gestores do Credit Suisse tenham apreendido as noções de física quando andaram na escola. Princípios de conservação ou teoremas de entropia não devem dizer-lhes nada. Vêem tubularmente e a curta distancia apenas os quadros Excel das suas despesas. Certamente que repudiarão esta imagem que lhes deixo, que fazem como os marinheiros de vistas curtas em cenário de entrada de água na embarcação, põem as bombas de água a esgotar a água nos camarotes mas a descarregá-la para os corredores. Pode ser que a água esgotada vá inundar os outros camarotes (se pudessem salvar-se os camarotes independentemente uns dos outros...).
É que tão preclaros gestores não querem dar o braço a torcer, o consenso de Washington não funciona...
Nem os comentadores despeitados vão deixar de criticar as empresas públicas por terem dívida, por maiores que sejam os defices do Credit Suisse e do Deutsch Bank.

quinta-feira, 24 de março de 2016

Corrupção no Brasil e em...

Os donos da Odebrecht estão na prisão, no Brasil, no âmbito da operação Lava-Jato, por corrupção, nomeadamente pagamentos de subornos em adjudicações e financiamento ilegal do partido do ex-presidente Lula da Silva.
Sem querer desculpar os corruptores e os corrompidos, vive-se com exagero a cultura do pelourinho, esquecendo a velha parábola, de quem estiver livre de culpa que atire a primeira pedra.
Foi assim que na imprensa se noticiou como escandalosa a existencia na Odebrecht de um departamento exclusivo para subornos, e que na documentação dos pagamentos se encontram os que neste momento no Brasil propõem o impeachment da presidente, quase todos. O que faz lembrar a interrogação de Jô Soares: este é corrupto, certo, mas cadê os outros?
Não esquecer ainda as condenações nos USA da Siemens, por suborno em adjudicações de concursos, perto do ano 2000, em casos que não foram noticiados em Portugal.

Este é um mundo cão.
Os ténicos da Odebrecht desenvolveram um trabalho de extrema qualidade na obra da estação do marquês de Pombal e das linhas da Baixa.
A Odebrecht fez os toscos da galeria de metro desde os Restauradores e desde o Rossio até Santa Apolónia e o Cais do Sodré.
Resolveu problemas que técnicos ingleses tinham declarado impossíveis.
Ainda bem que, a haver corrupção, ela deixava de fora os seus excelentes técnicos na obra (contrariamente a uma grande construtora portuguesa que tinha o descaramento de levar para as reuniões de coordenação e controle de obra grupos de advogados e não engenheiros, para explorar as fraquezas do clausulado do caderno de encargos e para receberem bonus apesar dos atrasos na obra, sempre justificados com as más condições climatéricas).
Chegados ao fim do contrato das linhas da Baixa havia depois que construir a estação de Terreiro do Paço e a de Santa Apolónia (partindo o túnel e envolvendo-o com a estação).
A Odebrecht não subornou a administração do metro e esta mandou fazer um concurso público que a Teixeira Duarte ganhou. Os técnicos da Odebrecht pediram para termos muito cuidado, mas possivelmente o pedido não chegou ao ganhador.
A Teixeira Duarte foi responsável pelo maior desastre da engenharia portuguesa, o abatimento do túnel do Terreiro do Paço (desculpou-se com o seu subempreiteiro carotador, o responsável direto pelo desastre, que fez os 13 furos-carotes sem fiscalização do metro nem da Teixeira Duarte).
Este é um mundo cão, a Odebrecht teria evitado o desastre, se tivesse subornado a adminstração do metro.
Prefiro corruptos que fazem, do que puros que fazem asneiras.
Recordo o que a Teixeira Duarte fez no túnel do Rossio da CP. Ou não fez, mais precisamente, não foi capaz de cumprir o caderno de encargos do contrato que tinha ganho, executando a obra pelo preço contratado.
Ou por outras palavras, é mais fácil corrigir e evitar a corrupção de bons técnicos do que corrigir as asneiras de maus técnicos. Deu muito trabalho, inclusivamente à própria empresa, corrigir o erro da Teixeira Duarte no Terreiro do Paço, e ainda levaram um bónus por terem construido a estação doTerreiro do Paço em tempo reduzido.

A corrupção é uma doença, e como qualquer doença deve ser tratada como prevenção. A repressão deve fazer-se mas em segundo plano se comparada com a prevenção. Que se faz com o respeito pelos mecanismos de democracia direta e participativa e funcionamento transparente das equipas técnicas e gestoras de constituição por concurso e nunca por delegação de comissários partidários. 

terça-feira, 22 de março de 2016

A duquesa de Mantua e a espanholização

A duquesa de Mantua tentou acalmar os conjurados de 1640 e apelou à sua compreensão, que era difícil aos portugueses organizarem-se e atingirem em grupo objetivos de utilidade coletiva. Que rea melhor juntar forças com Espanha (teria sido, na verdade, se a condução da política espanhola não fosse na altura suicidária, de que os gastos militares e o corte das relações comerciais com a Holanda eram os melhores exemplos).
Ignoro se lhes recordou o dito do embaixador de Filipe II ao regressar a Madrid a dar-lhe conta das suas diligencias para apresentação da candidatura ao trono de Portugal: que os portugueses são gente estranha.

Isto a propósito da polémica dos receios da espanholização da banca nacional. Até há um manifesto de que, por sinal, um dos principais subscritores é administrador do El corte ingles.
E mais seriamente, para deixar aqui registado que uma das tragédias da gestão da coisa pública portuguesa é a sistemática incapacidade, porque não é dada aos técnicos a possibilidade de tomada de decisões, de coordenar com Espanha a gestão satisfatória para o interesse nacional:

- das águas dos rios internacionais, incluindo os transvases dos excessos do Douro para as faltas do Guadiana, e os riscos da radioatividade no Tejo de Almaraz
- dos portos, quando Sines está quase isolado por ausencia de ligação ferroviária em bitola europeia e tem um volume de movimentos menor quando comparado individualmente com Algeciras, Cadiz , Valencia e Tanger
-das interligações elétricas que permitiriam exportar para a Europa o excesso de capacidade instalada
- das ligações ferroviárias de alta velocidade e de mercadorias em bitola europeia

A triste realidade é esta, o poder político tem sido incompetente e ignorante nestas questões e os técnicos com conhecimentos não estão organizados nem aproveitados.
O plano tecnológico de 1970 foi um exemplo de bom planeamento, tal como a sua confirmação pelo V governo provisório (Sines, a que na altura os imobilistas chamavam elefante branco, a regularização do Baixo Mondego, o Alqueva, a que os imobilistas votavam à falta de água, à extinção de espécies aquáticas e a desastres sísmicos, o novo aeroporto, que os imobilistas conseguiram parar).

E assim vamos agora, sem projetos concretos a apresentar nas candidaturas aos fundos comunitários, Europa 2020, CEF energia e transportes, plano Juncker...
... nesta apagada e vil tristeza, como escreveu Camões.

PS em 25 de março - não posso evitar pensar novamente na duquesa de Mantua, ao ler que o Santander-Espanha enviou instruções ao Santander Totta para apoiar os clientes dos swaps quando a baixa exagerada das taxas de juro de referência os ameaçou. O Santander de Lisboa achou que não valia a pena. Pode ser o argumento mais forte no tribunal de Londres... não ter havido espanholização... 
PS em 28 de março - segundo o DN, o XXI governo anunciou que vai candidatar a novas sinalização e a eletrificação da linha de Cascais aos fundos do plano Juncker por 126 milhões de euros (parece correta esta estimativa, mas só para sinalização e eletrificação). Mas duvido que o procedimento esteja a ser correto (oxalá me engane), porque o dinheiro dos fundos só vem contra projetos já feitos, e credíveis. A CP ou a REFER estarão a fazê-los? E o novo  material circulante, estará alguém a estudá-lo? e a reabilitação da via férrea, também? E vai tudo ser em bitola ibérica? (claro, claro, para permitir a interligação; é mesmo necessário interligar com a rede de bitola ibérica? não se aproveita para ir mudando? ou vamos continuar orgulhosamente sós na ilha ferroviária?). O XXI governo também anunciou que vai submeter o plano de investimentos ferroviários a candidatura de fundos comunitários. Já estão feitos os projetos? E falou em Pampilhosa-Vilar Formoso? quando se faz uma auto-estrada, por razões de curvas horizontais e verticais não se aproveita a estrada antiga; na ferrovia acham que se pode; não aprenderam com o desperdício da linha do norte, paciência; depois não se admirem que se suspire pela "espanholização".

Acidente de autocarro de Freginals

Para além da solidariedade com s famílias das vítimas, o horror da morte de tantos jovens leva a algumas reflexões do ponto de vista de análise de riscos e acidentes.
- dificilmente uma só causa conduz a um acidente desta gravidade; por isso não é suficiente acusar o motorista de homicídio por imprudencia ou por negligencia, como "as autoridades" se apressaram  a comunicar aos meios de comunicação social;
- a opinião pública tem pois o direito de aguardar esclarecimentos completos sobre questões como a leitura do tacógrafo (registo das velocidades desde a partida), tempos de condução e de descanso do motorista, adequação do autocarro ao transporte de 57 passageiros (2 eixos e não 3 eixos?), uso obrigatório de cintos de segurança para os passageiros? caraterísticas anti-deformação do tejadilho do autocarro?caraterísticas de estabilidade (centro de gravidade alto e deslocado para a parte traseira devido ao peso do motor, o que induz ziguezague em caso de correção brusca de trajetória, como foi o caso com os dois acidentes no Algarve  em 2015)
- sobre as caraterísticas da autoestrada não é admissível que o separador central tenha apenas uma fila de rails, aparentemente frágil, para além de não ter proteção contra quedas de motociclistas, como pode ver-se numa das fotografiaa
- não é também admissível  a inexistencia de rails de proteção nas bermas e taludes laterais
- a sinalização de aproximação de curva estava devidamente executada na autoestrada do acidente?




Salvo melhor opinião, os autocarros que circulam das autoestradas a velocidades superiores a 80 km/h não deveriam ser homologados para circularem a essas velocidades, e a maior parte das auto-estradas não têm condições de segurança mínimas. O centro de gravidade deste tipo de autocarros provoca movimentos de ziguezague da traseira sempre que o motorista faz uma manobra de correção da trajetória (na sequencia por exemplo de um microcorte de atenção) e tenta depois corrigir em sentido contrário. O barulho que se fez com os indicadores de oxido de azoto no escape dos Volkswagen, e não se analisa a importancia de um centro de gravidade deslocado.
Neste caso, a fragilidade dos rails permitiu que a traseira do autocarro, já deitado, invadisse uma das vias contrárias.
 Pode ver-se numa das fotografias a deformação provocada pelo embate do carro ligeiro. Os dois ocupantes deste, por levarem cinto de segurança, nada sofreram.
 Serão precisos mais argumentos para exigir aos fabricantes e aos homologadores  a obrigação do uso de cintos de segurança e o reforço da rigidez da estrutura do tejadilho? o abaixamento do centro de gravidade e sua deslocação para a dianteira? (ou em alternativa limitação eletrónica do motor a 80 km/h). No caso das auto-estradas, existe um plano de instalação progressiva de detetores de velocidade excessiva e de alarme avisador dos condutores?
Ou o contra argumento será que a ocorrencia destes acidentes é tão baixa que não vale a pena fazer nada?  (vejam o que diz a norma 50126, se as consequencias são catastróficas e o acidente é provável, mesmo de baixa probabilidade, não fazer nada é intolerável e a responsabilidade das "autoridades" é muito superior à do motorista).


É verdade que a implementação destas medidas de segurança tem custos elevados, aumentaria o consumo de combustível e que os fabricantes, os gestores de autoestradas e os homologadores não estão interessados, mas então não podemos comparar os custos baixos do transporte rodoviário de passageiros com os custos do transporte ferroviário. Isto é, numa análise de custos benefícios a segurança e a probabilidade de acidentes deve ser contabilizada.

Aguardemos a divulgação dos resultados do inquérito e que este cubra os temas referidos, coisa que não se verificou no caso dos dois acidentes no Algarve.






segunda-feira, 21 de março de 2016

Ifigénia em Taurida, no S.Carlos

Mantenho que a ópera tem uma componente interventiva importante, apesar do tradicionalismo dos frequentadores.
O que me leva a imaginar que critérios terá seguido o programador nestes anos de penúria, limitando a quantidade e o custo das produções apresentadas.
No ano passado, Macbeth, a história que fala na luta suja pelo poder, na floresta que a árvore esconde, na mão invisível que castiga quem utiliza indevidamente a liberdade (não é o que os economistas liberais dizem, seduzidos por uma mão invisível, não a de Shakespeare, que misteriosamente rege o mercado livre e satisfaz as necessidades dos cidadãos). Talvez o programador quisesse dizer isso mesmo, que por mais convencidos da justeza das posições do indivíduo ou do grupo, existe uma mão invisível que pode ser castigadora...
Esta temporada começou com Madame Butterfly, ou a opressão e o desfrute do mais fraco pelo mais forte, enquanto ingenuamente o mais fraco se submete aos desígnios do mais forte (analogia com os desígnios de Bruxelas?).
Veio depois Dialogos das Carmelitas, numa produção interessantissima, com a participação de muitas portuguesas. Ou de como o terror pode trair os objetivos de uma revolução pela liberdade, igualdade e fraternidade. Que não se queira converter a tragédia numa luta contra os objetivos da revolução. Teria sido essa a intenção do programador?
E a seguir veio a Ifigénia em Taurida, de Gluck, seguindo de perto a tragédia de Euripedes. E escrevo tragédia porque o próprio Euripedes terá querido combater o gosto pela guerra e o culto pelo sangue dos antigos gregos, com insucesso, como se pode ver 2500 anos depois.
Taurida é a peninsula da Crimeia, onde os gregos dos séculos VII AC estabeleceram colónias, e onde entraram em conflito com os citas, antepassados dos eslavos e cossacos. Eu dispensaria a representação explicita das execuções agora vistas na TV executadas pelo Daesh, mas a peça mostra o culto pelo sangue que os restos do cérebro predador dos antepassados ainda subsistem no nosso cérebro. Ifigénia, salva pela deusa do sacrificio pelo próprio pai, tal como no mito de Abraão e o filho Isaac, era a sacerdotiza dos sacrifícios humanos em Taurida. Contrafeita, para Euripedes poder defender o direito à vida e à liberdade. Terá sido isso que o programador quis dizer? Que a guerra e o culto da opressão são uma estupidez?
E finalmente teremos o Nabuco, de Verdi, com o seu coro dos escravos: vai pensamento, sobre asas douradas. É isso, o programador insiste no valor da liberdade e no direito ao trabalho em paz.
Não entenderão isso, os decisores? que não deve haver guerra, como não deve haver epidemias, e que tanto uma como outras evitam-se.

Como teria sido possível evitar a guerra, por exemplo, também da Crimeia, em 1854? O czar russo quis a soberania sobre a Crimeia, ocupada havia uns séculos pelo império turco otomano, e sobre as margens ocidentais do mar negro. Os exercitos inglês, francês e italiano juntaram-se aos turcos numa guerra selvagem. Porquê? porque as potencias europeias estavam interessadas em beneficiar economicamente da fragilidade daTurquia, cujo império se desmoronava por desadaptação à revolução industrial.
E assim continuou a região do médio oriente, a ser retalhada em função dos interesses comerciais e industriais das potencias ocidentais. Pode discutir-se evidentemente se foram os interesses económicos ocidentais ou os nacionalismos e tribalismos exacerbados dos próprios setores autoctones dominantes quem mais promoveu ou facilitou as guerras no médio oriente.
Pelo triste exemplo da guerra na Síria e da inadmissível falta de liberdade na Turquia e da sua opressão do povo curdo, parece que continua a ser assim, sem que as potencias ocidentais, como no tempo de Eça de Queirós (leiam as crónicas inglesas), o entendam, ou queiram entender.

Pena não se dar a devida atenção às óperas.

Imobilistas -- A carta dos milionários de Nova York e o estudo do BCE sobre estímulos ao investimento público

Nas notícias de hoje aparece a carta de milionários de Nova York propondo uma nova estrutura de impostos que não os beneficie e que permita combater as desigualdades crescentes e dar atenção às infraestruturas que a todos servem:
http://www.jornaldenegocios.pt/economia/mundo/detalhe/milionarios_de_nova_iorque_em_carta_aberta_aumentem_os_nossos_impostos.html

Aparece também a notícia de um estudo do BCE sugerindo o estímulo do investimento público em Portugal, mediante seleção rigorosa dos empreendimentos:
http://economico.sapo.pt/noticias/bce-defende-estimulo-do-investimento-publico-em-paises-como-portugal_245360.html

Não deve comparar-se o que não é comparável, mas eu continuo a acreditar em João Cesar das Neves quando escreveu que em Portugal os ricos não pagam impostos.
Também é verdade que um aumento significativo dos impostos dos mais ricos apenas reduziria os indicadores de desigualdade e estimularia a evasão fiscal para outros países.
Mas isso apenas quer dizer que não existe capacidade em Portugal para aumentar significativamente o investimento privado (parece que a "espanholização da banca também quer dizer isso).
E como dizem os keynesianos e como escreveu John Steinbeck, que nada tinha de keynesiano, nas vinhas da ira, quando os privados falham tem de ser o investimento público a puxar pela economia.
E se o Estado não tem dinheiro nem pode endividar-se (por acaso a dívida pública do Japão, relativamente ao PIB, é maior) parece apenas ser possível recorrer aos fundos comunitário, aos CEF e ao plano Juncker. O problema porém, como há muito referido neste blogue, é que tem de se apresentar projetos credíveis, não intenções.
Por mim, há listas de investimentos necessários, mas não há projetos (pelo menos tornados públicos). E assim, a solução seria pedir aos nossos mentores de Bruxelas apoio técnico para elaborar esses projetos (já que não confiam nos que os técnicos portugueses têm vindo a dizer). Por sinal o plano Juncker previa isso, apoio técnico.
Neste país de manifestações contra o fecho de discotecas e contra o aumento de 6 cêntimos do litro do gasóleo, em 35% de peso dos combustíveis,  e contra as portagens das auto-estradas, e de levantamento de coros de protesto contra a ideia de um novo aeroporto ou de uma linha de alta velocidade, talvez fosse uma solução.

No entanto, penso que seria bom analisar a lista do GT-IEVA, coisas como a linha em bitola europeia de Lisboa a Badajoz, de Sines ao Poceirão, de Aveiro a Salamanca, do Porto a Vigo, o fecho da Golada, a ampliação do molhe norte do porto da Figueira, a substituição da frota pesqueira com motorização por gás, a rede de mobilidade elétrica por hidrogénio produzido pelas renováveis, a ligação elétrica por cabo submarino da Galiza a França, e do Algarve a Marrocos, a transferencia do transporte individual para o coletivo, a complementarização do transporte urbano com redes de transporte a pedido com veículos de condução autónoma... o que há para fazer e que o  imobilismo nacional, espalhado vertical e horizontalmente por toda a sociedade portuguesa, não deixa fazer.

Imobilistas...

domingo, 20 de março de 2016

Ela move-se, apesar de tudo, "Portugal sou eu"

Para mim é um facto curioso, os programas na televisão dão uma ideia mais real da problemática das empresas produtivas do que os congressos e seminários em que aparecem uns senhores economistas mais ou menos ligados aos grupos da imprensa e seus parceiros económicos, repisando a tecla da competitividade, da produtividade e da necessidade das reformas estruturais (seja isso lá o que for), ou aqueles horríveis artigos nos suplementos económicos dos jornais sobre fazedores e empreendedores com eles muitoo sorridentes nas fotografias de promoção.
E o que provam esses programas na televisão é a realidade de empresss que produzem e que exportam.
Apesar de tudo, como dizia Galileu, e o tudo aqui será a incapacidade de muitos decisores compreenderem a resposta a dar à eterna questão "Porque temos de trabalhar?" e a incapacidade de organizar o trabalho em equipa para um fim útil.
A sensação é de que as elites que nos têm governado (as internas e as externas, que a incompetencia dos senhores de Bruxelas é enorme) são o principal obstáculo a que as pessoas normais consigam trabalhar e produzir.

Por exemplo, na RTP3 (pequenissima audiencia, mas depois não se queixem de não estar informados, de terem a perceção que nada se produz) o programa "ideias e companhias", de que sugiro o episódio de 19 de março de 2016 em que se refere o programa "Portugal sou eu" destindo a promover a exportação e a substituição de importações):
http://www.rtp.pt/play/p2190/e228732/ideias-e-companhias

Deste programa refiro as declarações do presidente da Wood One, grande empresa produtora de mobiliário para Portugal e exportação:
- o segredo do sucesso passa pela parte humana
- os empresários cometem por vezes erros graves, por exemplo, quando apareceu a internet houve muitas dispensas de agentes comerciais, o que nós não fizemos, porque os agentes comerciais descobrem negócios que a internet não consegue  (isto sem prejuízo da atualização tecnológica da empresa, robotização da produção e produção de energia fotovoltaica) - (comentário meu: infelizmente existe um provincianismo de novos ricos que se embasbaca com as maravilhas da internet, e isso deve ser contrariado)
- a decisão da admissão de novos colaboradores é tomada pelos trabalhadores, não por  mim

Ou as declarações do presidente da Tintas2000, uma grande empresa produtora de tintas:
- a minha empresa tem 35 anos de atividade e todos os anos apresentou resultados positivos, mas eu só uma vez levei lucros para casa (esta afirmação marca uma dissidencia até agora insanável nos teóricos do neo liberalismo: a ideia do interesse egoísta de Adam Smith não deve ser ser a do lucro máximo; essa é uma ideia primária, que não reflete sobre as consequencias do objetivo lucro máximo nem sobre todos os parametros envolventes; a declaração deste empresário é mais correta, que os benefícios gerados pela empresa devem ser investidos no  seu próprio desenvolvimento em função da utilidade soccial, isto é, os acionistas deverão receber a paga do seu trabalho como diretores ou a remuneração a taxas de juro baixas; tal como Álvaro Cunhal pregava quando fez parte dos primeiros governos provisórios a seguir ao 25 de abril de 1974 : pedimos aos empresários que se contentem com lucros menores)
- a crise tem sido uma maravilha... tem de ser entendida... devemos reagir trabalhando mais pelo desenvolvimento da empresa
- o mais importante são as pessoas.

Dá que pensar, neste país há quem trabalhe bem, mas existem também decisores que atuam no sentido contrário, e uma comunicação social que os apoia... dum lado quem produz, do outro quem fala alto...

terça-feira, 15 de março de 2016

O DN vai mudar, em peso, e a RR também

Quando abri o DN e dei com a notícia, de que ia deixar o seu edifício no cimo da avenida da Liberdade, pensei que bela ideia que tiveram para o primeiro de abril.
Era uma mentira aonível daquela da mudança de sentido de circulação em Inglaterra. Numa semana de adaptação dos cidadãos ao novo sentido os autocarros e os camiões circulariam já pela direita e os ligeiros ainda pela esquerda.
Mas depois reparei que a mentira de primeiro de abril costuma vir na primeira página, e além disso ainda estavamos na primeira semana de março.
Nao era mentira de primeiro de abril.
O edificio foi vendido e vai ser transformado e hotel de charme.
Respeitando a traça original e mantendo os frescos interiores e as letras exteriores, claro, claro, que o edificio é classificado.
Eis mais uma vantagem da competitividade, da flexibilidade e da inovação dos gestores dos grandes conselhos de administração.
Toda a atividade do DN se deslocará para uma das torres de Lisboa.
Acontecerá o mesmo com o edificio da Radio Renascença, que se concentrará na quinta do bom pastor, na Buraca.
Também será um hotel de charme.
Lisboa enriquece com os turistas.
E empobrece como cidade sem habitantes, apenas com prestadores de serviços aos turistas, centro de atração dos habitantes dos suburbios ao fim de semana, dos turistas de terceira idade dos cruzeiros, dos jovens turistas  cumprindo os seus rituais de viagem, talvez um pouco desiludidos por visitarem a reserva dos selvagens e verem poucos selvagens (Admirável mundo novo).
Uma cidade precisa de habitantes, com habitações com condições de conforto, áreas suficientes e estacionamento. Precisa de setor secundário, oficinas, fábricas e fabriquetas. Mas parece que Lisboa só pode ter terciário, e quaternário (as start up de informáticos desinibidos e inteligentes). Terão sido os eleitores que decidiram assim? Explicaram isso nas campanhas eleitorais?
Já há anos que a tendencia centrífuga se acentua. Expulsaram da baixa os correios, os tribunais, até o governo civil e a sua esquadra de policia. Como novos-ricos provincianos deslocalizaram-se serviços para a zona da Expo. Os conselhos de administração votam alegremente a concentração de serviços para aproveitarem sinergias cada vez mais longe da baixa (interessante, a edp, com todos os seus defeitos penalizadores dos contribuintes, fez o contrário). Ignoram que uma das conquistas da internet é precisamente permitir a descentralização, dispensar os veios de transmissão concentrados nas grandes naves oficinais. Não é isso que fazem os conselhos de administração em Nova Iorque, Paris, Londres, não se afastam do seu downtown, não o querem ver asfixiado.
Tudo isto indicia uma ausencia de planeamento estratégico do urbanismo e da organização territorial. Assim é impossível ter uma rede de transportes da área metropolitana consistente.
Pobre cidade que há 30 anos tinha 800.000 habitantes e agora tem 500.000 .


Reproduzo um texto que enviei no período de discussão pública do PDM em 2011. Não digo que detenho a sabedoria, mas gostaria de ver estas questões debatidas.

De: fernando silva [fcsseratostenes@hotmail.com] Enviado: sábado, 14 de Maio de 2011 1:12 Para: revisao.pdm@cm-lisboa.pt
Assunto: Sugestões para a revisão do PDM
Exmos Senhores
Infelizmente, por motivos particulares, não me foi possível estudar a fundo o plano diretor municipal de Lisboa; no entanto, envio o seguinte parecer. Como principal comentário e sugestão de complementos ao plano diretor municipal, julgo que a manutenção dos atuais limites do município de Lisboa condiciona desfavoravelmente o desenvolvimento de uma plano coordenado de estruturação económica da área metropolitana, pelo que seria de esperar que o PDM desse grande relevo ao objetivo de fusão de municípios ou, pelo menos, de agregação de forma mais eficaz do que o atual modelo da área metropolitana.
 Considerando que é dito no site do PDM que se pretende:
 - uma estratégia de desenvolvimento para a Lisboa dos próximos anos
 - atrair novos habitantes
 - reabilitar o edificado
 - melhorar o transporte publico
 - maior eficiência energética,
 junto as  seguintes observações, chamando a atenção que o atual período de constrangimentos financeiros (embora algumas ações possam ser desenvolvidas com o apoio de fundos de coesão da EU e possam contribuir para o crescimento do PIB sem agravamento significativo do endividamento) não impede que se estudem e elaborem desde já planos a médio e longo prazo:
1 – não é sustentável em termos de respeito pela lei do ruído e das normas de segurança a manutenção de um aeroporto dentro dos limites da cidade, pelo que o estudo do plano de ordenamento dos terrenos e da sua integração na rede de transportes deveria ser desde já iniciado
2 – o plano do nó de Alcântara deveria ser reformulado de modo a contemplar:
2.1 - a saída do terminal de contentores para o novo terminal da Trafaria/fecho da Golada,
2.2 - a reformulação da rede de transportes evitando o enterramento das estações suburbanas e do metropolitano,
2.3 - o projeto de um sistema de retenção e prevenção de inundações no vale de Alcantara
 3 – não obstante as obras em curso no Terreiro do Paço e nas Ribeira das Naus, a cidade necessita de uma ligação rodoviária que faça o “by-pass” do Terreiro do Paço, conforme contemplado em anteriores planos diretores (incluindo o projeto do túnel rodoviário que motivou a construção mais profunda do túnel de metropolitano) . Seria por isso altamente conveniente o estudo de alternativas possíveis, ainda que contrariando anterior parecer do IGESPAR que se opôs à “conquista de terreno ao rio”, o que viabilizaria esse “by-pass” em termos mais económicos do que um tunel
4 – não é possível ordenar o território de um município ou de uma área metropolitana sem integrar as redes de transporte coletivos, e não é possível projetar novas linhas de metropolitano e de suburbanos na área metropolitana sem as integrar na estrutura urbana de habitação, escritórios, comércio e oficinas. Neste aspeto, Lisboa teria a ganhar em:
4.1 – criar um operador único, a exemplo de Paris, Bruxelas, Barcelona, Milão
4.2 – reformular o plano de expansão da rede de metropolitano, que padece da intenção de uma linha circular de dispendiosa execução no aproveitamento das linhas existentes, propondo-se, em alternativa, a construção de novos troços com critérios de construção económica, como seja em viaduto (esta problemática, integrando também o nó de Alcântara e a correspondência entre o metropolitano e o serviço suburbano na terceira travessia do Tejo, está analisada em: http://fcsseratostenes.blogspot.com/2010/01/as-pontes-de-koenigsberg-ou-um-ponto-de.html )
4.3 – incentivar a construção de parques de estacionamento do tipo “park and ride” com ligação a linhas de metro, à entrada da cidade (o exemplo mais evidente será a construção de um parque deste tipo junto das Amoreiras, prolongando a linha vermelha do metro até lá)
4.4 – fiscalizar severamente o estacionamento indevido, especialmente nos passeios e na obstrução aos veículos de transporte coletivo
4.5 – preparar um plano progressivo de taxação da entrada de veículos na cidade, mantendo a coordenação com as alternativas de transporte coletivo;
 5 – considerando que entre os principais motivos da desertificação da cidade se contam:
5.1 - a degradação dos edifícios
5.2 – a reduzida área por sala ou quarto em cada fogo
5.3 – os custos elevados de reconstrução e comercialização
5.4 – a falta de lugares de estacionamento,
 sugere-se a preparação de um plano de reabilitação, com recurso a estudantes das faculdades de arquitetura em estágios, de emparcelamento de fogos (por exemplo, reconstruir 2 ou 3 prédios num só), de modo a aumentar as áreas específicas de habitação e obter áreas de quintal e de estacionamento interiores
6 - todas as medidas do ponto 4 podem ser classificadas como ações de melhoria da eficiência energética, sugerindo-se igualmente:
6.1 - a incentivação da utilização de terraços e coberturas de edifícios públicos ou partes de parques publicos para instalação de painéis fotovoltaicos de produção de energia.

6.2 – a utilização das águas nascentes no subsolo, nomeadamente as captadas nos túneis do metropolitano, para rega e usos sanitários em instalações públicas. 

 

segunda-feira, 14 de março de 2016

nós, portugueses, sentimo-nos - o insulto do gasóleo, a carne de porco e os pequenos camiões elétricos

Dado que sou um mau português, no sentido corrente e proverbial, discordo do provérbio "quem não se sente não é filho de boa gente".
Como o provérbio deve ter sido gerado antes das inovações freudianas, não culpo ninguém, e antes me parece que que tem tendencia para se sentir insultado é quem se sente inseguro, nas suas convicções, por exemplo.
Por outro lado, como mau português, no mesmo sentido, acho que as coisas devem ser dicutidas com base na quantificação de factos.
Por isso fiquei encantado quando, pela primeira vez, li os resultados de uma experimentação em condições reais de exploração de pequenos camiões diesel versus elétrico integral.
Fico a dever a alegria à revista "Veículos elétricos"nº7, janeiro-fevereiro2016 (edição Dicas &Pistas) e a comparação foi entre o Fuso Canter Mitsubishi diesel (7,5 ton de carga e peso máximo de 11ton) e o Fus Canter E-Cell.
Os resultados para transporte de carga média de 2 toneladas foram um consumo de 14,1 litros/100km de gasóleo para um e 47,6 kWh/100km para o elétrico, com percursos médios de 50km.
Considerando um rendimento de 0,8 para o veículo elétrico, temos  para a energia nas rodas 0,476/0,8= 0,6 kwh/km .
Na versão diesel considerando 1 litro<>10kWh, temos 0,141 litros/km<> 1,41kWh/km
que por sua vez correspondem a 0,6kWh/km nas rodas
o rendimento diesel foi portanto  1,41/0,6=2,35, isto é, 1 litro de gasóleo, equivalente a 10kWh, produziu nas rodas 10/2,35=4,7kWh.

E é por isto que não posso concordar que a ANTRAM se sinta ofendida com o pedido do ministro da economia de não encher o depósito em Espanha.
No caso da carne de porco temos um grande problema com a distribuição, que se comportam como autenticos sabotadores da economia agrícola portuguesa (laranjas da Africa do sul e de Espanha à venda em Portugal?). No caso da carne de porco são evidentemente preços de dumping, e há legislação internacional contra o dumping (para mais com ajudas do estado...). Ainda por cima, consta que o pingo doce já tem comprado aos espanhois carne mais cara que aos portugueses. 
Já quanto ao ministro da economia, acho exagero querer a sua demissão e criticá-lo porque pediu para por gasóleo em Portugal. Os custos de combustível são 35% dos custos totais, pelo que o aumento de 10% do gasóleo  é um aumento de 3,5% global e todos temos de pagar impostos (menos os ricos, como escreveu João Cesar das Neves). Além disso, o transporte por camião tem vindo a decair desde há anos, não é o aumento do combustível que o tem provocado, e a ANTRAM já devia ter preparado um plano de transição para a adaptação das frotas: ele´trico integral para pequenos camiões, híbrido e gás para os médios e grandes, vocacionados para a complementaridade e distribuição a partir de plataformas logísticas ferroviárias e portuárias (se bem que aqui provavelmente estou a delirar). Isto para não falar na "eletrificação " das autoestradas (ainda mais deliro, mas estou a falar de um plano de transição a 30 anos, depois não culpem a UE...)



https://oeconomistaport.wordpress.com/2016/03/14/producao-porcina-veja-como-a-ue-e-os-governos-desmontam-a-nossa-economia/


http://www.tsf.pt/sociedade/interior/distribuicao-demarca-se-de-problemas-dos-suinicultores-e-produtores-de-leite-5076469.html

domingo, 13 de março de 2016

nós, portugueses, e o latim

Oiço na antena 2 , no programa ciberdúvidas, a lamentação da professora de latim Susana Marta Pereira. Que os alunos até se interessavam pelo latim, pela pesquisa das raízes etimológicas. Mas as decisões superiores são no sentido de separar os doutoramentos de português dos de latim, e assim reduzir a apetência destes or falta de perspetivas de carreira.
A professora queixava-se de que na Alemanha e na Inglaterra dão mais atenção ao latim. Que há interesses e ideias por cá. Percebe, mas não entende. E que pode ser natural, que daqui a uns anos se reverta a situação.
http://www.rtp.pt/play/p263/e227729/paginas-de-portugues
«Países como Inglaterra, Alemanha e Espanha colocam, actualmente, nos seus curricula o ensino do Latim, por perceberem a sua relevância na aprendizagem de matérias tão diversas que vão desde a matemática à biologia, à filosofia, à literatura e à aprendizagem das línguas, entre elas o inglês e o alemão. Em Portugal segue-se o caminho oposto.»
[in jornal “Público” de 11/04/2014]

Eu sou mais pessimista. A linguagem influencia o pensamento, provavelmente por mecanismos neuronais, não sei, mas certamente por estar associada a lógicas e métodos de exposição e portanto de raciocínio.
Infelizmente predomina na cultura portuguesa o método imediatista, a forma primária de reagir. Os secundários são considerados limitados, uns impecilhos quando conduzem e não deixam os primários que vêm atrás ultrapassar, ou que nas reuniões as atrasam a pedir para explicar melhor o que os primários já disseram que entenderam (normalmente não entenderam).
Mário Cláudio falou na caraterística portuguesa da boçalidade, e Guerra Junqueiro foi ainda mais depreciativo, ao declarar o povo resignado e subordinado às elites.
Acho que exageram. 
É como no caso do latim.
Há professores dedicados e alunos interessados.
Mas as elites decisórias conseguem descobrir modo de estragar tudo.
Como na economia, tão sábios que são os especialistas e estamos no estado em que estamos. Com  agravante de parecer que seguem os especialistas da comissão europeia e do BCE, que não sabem como acabar com a deflação...





sábado, 5 de março de 2016

Dardo de ouro

Recebi a seguinte missiva:



Dardo de ouro, o triplo C, competência, conhecimentos, concretizações


Assunto: Dívida no valor de 500€ à sociedade Sorrisos, unipessoal


Exmo Sr

Recebemos a informação da Sorrisos unipessoal que se encontra por liquidar, estando vencida, a quantia de euros 500.

Como V.Exa sabe, esta sociedade dedica-se a vender sorrisos nas viagens de metropolitano, nomeadamente através da distribuição de sorrisos durante as horas de ponta, de modo a contribuir para bons ambientes de trabalho e consequente aumento da competitividade e produtividade do país, competindo aos passageiros que os recebem devolvê-los.

Ora, não tendo VExa devolvido nenhum sorriso aos funcionários da empresa durante as viagens que realizou no período entre 2011 e 2015, correspondente à vigência do XIX governo, incorrendo assim em dívida por cada sorriso não devolvido, e não tendo nós conhecimento de nenhum motivo válido para o atraso verificado na respetiva liquidação, agradecemos que nos envie o pagamento de acordo com as indicações abaixo mencionadas (entidade, referência multibanco, montante).

Caso necessite de algum esclarecimento adicioinal, não hesite em contactar-nos, pois a razão da nossa existência é a satisfação não só dos nossos clientes credores, mas também dos seus devedores.
É timbre da nossa sociedade, com origem na Inglaterra mas já espalhada por muitos países da Europa, especialmente naqueles que instituiram sistemas de perdão fiscal para grandes montantes,  encontrar soluções que permitam aos devedores negociar as suas dívidas. No caso vertente, por exemplo, é nítida a vantagem para os devedores, considerando que a dívida por não devolução dos sorrisos ascendeu a cerca de 250€, incluindo juros de mora, constituindo os restantes 250€ a nossa comissão.
Acresce que, graças à nossa experiência, podemos aportar valor sob a forma de aconselhamento à negociação das dívidas num contexto macroeconómico e regulatório em que saberemos valorizar clientes e devedores.

Certos de contar com a vossa compreensão, apresentamos os melhores cumprimentos

Atenciosamente

Maria Luisa, Dardo de ouro, gestão e cobrança amigável de dívidas


PS - No DN de hoje, o seu diretor, André Macedo, a propósito da cessação unilateral dos contratos swap de empresas de transporte em 2013 por decisão da então ministra das finanças , afirma que foi mais um exemplo da sua impreparação (podem sempre renegociar-e os contratos, mas nestes casos de contratos swap, tão retorcidos na sua reação ao desce e sobe das taxas de juro e com uma vigência até 2027, não poderia renegociar-se uma espera menos penalisadora para ver se as taxas de juro sempre sobem ou não? é tudo tão virtual, menos os milhões de euros que t~em de se pagar aos especuladores...).
Mais uma vez discordo, no seguimento do já aqui escrito neste blogue, do diretor do DN. A senhora ex-ministra era exímia em acumular dinheiro pedido emprestado a taxas inferiores às das dívidas anteriores (isto é, contraía dívidas para pagar dívidas), como qualquer um de nós faz quando está falido. Mas não era impreparação, apesar da ignorância de como funciona a indústria, era auto-convencimento, a certeza no seu foro íntimo de que estava a salvar o país (psicose definida como hipomania, de que padecem os profetas com o exclusivo da revelação) e, portanto, o que outros apontavam estava sempre errado, e que a sua conceção e perceção se deveria sempre sobrepor à realidade. Daí o ar surpreso com que responde às críticas.
Mas enfim, votos de sucessos pessoais e profissionais na Dardo de ouro, desde que não prejudique terceiros.


quinta-feira, 3 de março de 2016

Mães e automóveis


Penso que não se consegue identificar a senhora.
O objetivo de mostrar a foto é chamar a atenção para o estacionamento em segunda fila do carro da senhora, com a porta aberta do lado do transito, enquanto ajeita o bébé na cadeirinha.
Os automóveis têm este efeito perverso: desarmam os mecanismos de defesa do indivíduo e, por extensão, de conservação da espécie, por levarem mães, já de si sujeitas às pressões do dia a dia,  a terem comportamentos de risco.
Penso que seria um bom tema para análise psicológica.
Perto desta cena, esteve durante muito tempo outra senhora no seu carro, com o filho autista (balançando continuamente a cabeça). Que drama esconderá essa senhora? numa sociedade que não integra convenientemente quem sofre de autismo.
Cenas do quotidiano.

Je vous salue, Marie, The last temptation, o crime da aldeia velha, o evangelho segundo Saramago, os dois dads da igreja metodista, a manifestação em Luton, o meu país prometido, a dança dos demónios

1 - Je vous salue, Marie, filme de Godard
https://fr.wikipedia.org/wiki/Je_vous_salue,_Marie

João Paulo II afirmou que o filme feria gravemente os sentimentos religiosos dos crentes, um cinema foi incendiado em Tours, e em Lisboa fizeram-se amargas manifestações e declarações de desagravo e de protesto, com o então presidente da câmara de Lisboa rasgando as vestes como no evangelho. O filme enternece... e o enternecimento é bom para o espírito

2 - A última tentação de Cristo,filme de Scorsese, sobre o livro de Nikos Kazantzakis. Um cinema incendiado em Paris, mais manifestações de ofendidos em Lisboa.
https://en.wikipedia.org/wiki/The_Last_Temptation_of_Christ_(film)

3 - o crime da aldeia velha, peça de teatro de Bernardo Santareno. Trata a vontade sádica dos rituais de castigo da diferença, de imolação da minoria que não se comporta como a tradição dominante
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4 - o evangelho segundo Saramago - deu origem ao episódio caricato de um senhor secretário de Estado da cultura se queixar de que o livro não retratava os sentimentos dos portugueses

5 - o cartaz à porta do templo da igreja metodista é claro: Jesus também teve dois papás, e saiu-se muito bem. O cartaz francês  é esteticamente muito bonito. A montagem do BE saiu "kitsch". Fez-me lembrar a montra de uma loja na Almirante Reis, uma pessoa passava e olhava para a imagem de Cristo, e dois passos depois via-o a piscar o olho, graças às lamelas pintadas com orientações diferentes, mas como pouca gente reparava, não deu protestos

reproduzido do DN

6 - a manifestação em Luton  - este video circulou pela internet há uns tempos, com mensagens sugerindo grande preocupação. De facto existe intolerancia, mais ou menos religiosa, mais ou menos tribal e sociológica, dos dois lados. Penso que associada a deficientes desempenhos do sistema de educação, a muito elevadas taxas de desemprego e ao predomínio de correntes de pensamento que estimulam a desigualdade. Recordo o primeiro presidente do Paquistão: "antes de muçulmanos, devemos ser cidadãos" e a necessidade de contextualizar no tempo os ensinamentos bíblicos e corânicos. Até Lutero ordenou contra os anabatistas "Matem os camponeses onde os encontrarem".  A verdade é que, como a reporter Stacey Dooley (https://en.wikipedia.org/wiki/Stacey_Dooley ) testemunhou, assim é dificil dialogar; contextualizemos então o versiculo 33-1 na guerra que o profeta conduzia ("pondera as ordens dadas pelos hipócritas e por quem não é de confiança") :



7 - Alentejo prometido - sou um admirador das edições da Fundação Francisco Manuel dos Santos. Por não gostar de comprar nos supermercados Pingo Doce laranjas de Espanha, camarões do Equador e pevides da China (incrível, não é? isentar o transporte das mercadorias de uma taxa de carbono moralizadora, como até Vitor Gaspar já reconheceu). No seio da sociedade Jerónimo Martins, com sede fiscal na Holanda porque os acionistas americanos o querem (Soares dos Santos o disse na TV, que eu vi e ouvi), existe afinal a semente do progresso na diversidade de opiniões e a liberdade de expressão. Por isso é inaceitável o clima de ameaças e de insultos a Henrique Raposo pelo seu livro Alentejo prometido. Eu realçaria outros aspetos do Alentejo, os aspetos positivos da reforma agrária, porque chamámos Catarina à nossa filha, por exemplo, mas cada qual pensa como pensa. E até diria que sou parecido com os alentejanos, também me é dificil exprimir por gestos o carinho pelos meus netos. Agora ameaças não, não é aceitável. Só se sente ofendido quem se sente inseguro. Valha-nos Freud.

8 - E para fechar a lista de intolerancias (ou de denúncias de intolerancias) que o sistema educacional deveria combater, cito o livro coordenado por António Marujo e José Eduardo Franco, "Dança dos demónios, intolerancia em Portugal", edição Círculo dos Leitores. Tentemos um esforço de entendimento, mesmo que o português não seja uma língua fácil para nos entendermos, e mesmo que as nossas mentes ainda estejam demasiado fechadas e não gostem de se abrir ao pensamento dos outros, ou mesmo que estejamos sempre de pé atrás, à espera que perturbem a nossa insegurança.

quarta-feira, 2 de março de 2016

RTP3, os números do dinheiroo

http://www.rtp.pt/play/p2241/e226552/numeros-do-dinheiro

Trata-se de um programa de muito interesse, nesta altura em que os decisores e os grandes economistas que nos conduziram até aqui com a sua incapacidade de abrir as suas mentes continuam sem abrir as mentes, e quando os seus seguidores locais continuam a querer convencer-nos que não há alternativa à austeridade restrita do FMI, CE e BCE.
Muito interessantes as declarações do moderador Peres Metelo, de Teixeira dos Santos e de Braga de Macedo de que os bancos centrais, no seguimento da reunião do G20, têm de preparar os helicopteros para distribuir dinheiro para consumo e investimento (que dirão os economistas e comentadores de direita tão críticos do orçamento de Estado de 2016?).
Mas são as declarações de Ricardo Pais Mamede, entre os minutos 45 e 47:30, que mais me interessam:
"o dinheiro que os bancos centrais têm injetado na economia continua a servir para investimento em ativos especulativos que não estimulam a economia... a economia monetarista está a tornar-se prejudicial também por impor taxas de juro negativas, porque o capital foge e provoca desvalorizações e guerras cambiais... só com estímulos à economia à velha maneira keynesiana (deuses, o que dirão os economistas e comentadores de direita?) para aumentar o consumo e principalmente o investimento... o problema é que os parlamentos de paises com dinheiro não querem investir porque beneficiaria os países pobres, e os parlamentos dos países pobres não têm dinheiro".

Parece mesmo que a melhor solução seria ampliar os planos Juncker, CEF e 2020 (mas isso exige projetos bem feitos, e em Portugal prefere-se discutir assuntos acessórios e depois entregar os projetos a gabinetes de amigos que os fazem à pressa e sem ouvir todas as partes interessadas - mais uma vez faz falta técnicos da UE virem-nos ajudar) e, principalmente, a boa solução seria o parlamento europeu ir mudando de composição para que se possa também ir mudando aquelas regras restritivas que estrangulam o progresso de quem trabalha e não tem dinheiro para investimentos.

Trumbo




Sou um sentimental.
Comovo-me ao ver um filme como este.
Sobre o período da caça -ás bruxas do senador McCarty.
Trumbo é, apesar de centrado na personagem, um filme bem feito e honesto.
Comovi-me com a conversa com a filha (quando na escola outra aluna aparece sem comer, que fazes? partilho respondeu a filha), com a ingenuidade do Rapaz e o touro,  e mais ainda quando descubro que Kirk Douglas foi coprodutor de Spartacus, que eu vi em 1962 e que muito me surpreendeu nessa altura por vir dos USA.
Nestes tempos em que nos arriscamos a ter na casa branca um ainda pior que Reagan (que aparece no filme, juntamente com John Wayne, no papel de delator dos colegas), conforta saber que do outro lado do Atlântico há quem pense como nós.
Gostei também de saber que Gregory Peck e Lucile Ball tiveram atitudes corajosas contra a caça às bruxas.