sábado, 28 de maio de 2016

Notícias de fim de maio de 2016


  • Comecemos pelo programa de economia da RTP3:

http://www.rtp.pt/play/p2241/numeros-do-dinheiro

Com alguma afirmações curiosas. Por exemplo, que em termos de burocracia, , ainda antes do último simplex de 255 medidas, já Portugal apresentava indicadores superiores aos da UE, exceto na obrenção de crédito. Só que neste capítulo a burocracia é dos bancos, não é pública... E que afinal o relatório da CE sobre o programa de reformas até é inócuo, considerando que as recomendações corretivas se aplicam a 16 dos 28 países. Isto é, a CE começa a compreender que é necessário reformar as regras. A menos que, como diz Ricardo Pais Mamede, os países se queiram suicidar.

  • Discurso de Obama em Hiroshima: ao progresso técnico tem de corresponder o progresso das instituições
  • Canções de Terezinstad por Sylvia Schwartz, para que não se esqueça a barbaridade da guerra:  http://www.abc.es/cultura/musica/abci-musica-creada-campo-terezin-emociona-teatro-real-201605221946_noticia.html
  • continuam as manifestações em França contra a nova lei laboral: a maioria está contra, mas Hollande e o seiprimeiro inistro insistem que têm razão, para aumentar a competitividade. Pena acharem, no país em que o front populaire conseguiu as férias pagas 
como disse Manuel Alegre, provavelmente recordando-se de Pierre Chevenement em 1975, a esquerda não pode falhar, não pode andar de bastão em riste, não pode trair

  • Chile: manifestações de estudantes, para que o ensino não seja elitista e não preserve a desigualdade das elites, à atenção da presidente Bachelet

  • notícias da oligarquia de Temer: comentário de um deputado doPT: "o cleptomaníaco Cunha (ex-presidente da câmara de deputados, afastado pelo supremo tribunal por "não ter qualificações pessoais mínimas para ocupar a segunda posição na hierarquia do estado") manda no governo de Temer. "  Curiioso como a onda das investigações contra a corrupção, principalmente desencadeada pelo PT, vai varrendo tudo... 
  • PPP - contrariamente ao afirmado pela UTAO (sempre desconfiei dos certinhos impecáveis fiscalizadores das contas) o XXI governo lá conseguiu reduzir um bocadinho da fatura das PPP para o ano corrente através de acordo judicial que substituiu os pedidos de 1530 milhões de euros de reequilibrio financeiro  das concessões do litoral centro, do oeste e do interior norte, para 39 milhões. Parece razoável.
  • Acordo operadores-sindicato dos estivadores - votos de que se concretize, com aplausos para a mediação da ministra do mar, Ana Vitorino. Não foi preciso a requisição civil, nem continuará o boicote, não haverá despedimentos e acabará o trabalho precário com integração dos contratados da Porlis na convenção coletiva de trabalho. Exemplo para o governo francês.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Estacionamento gratuito

Estacionamento gratuito de autocarros suburbanos de empresas privadas, aguardando a próxima hora de ponta para regresso a casa dos utilizadores, no interface multimodal do Campo Grande.
Ou de como a ocupação do espaço público pode ser interpretada como subsídio dos contribuintes aos operadores privados.
Ou de como o preço do transporte é subsidiado.
Ou de como o transporte do trabalhador para o local de trabalho, sendo um fator ed produção, é comparticipado pelos contribuintes.




Anúncio de um empréstimo obrigacionista do Metropolitano de Lisboa e manual do mirone

Manual do mirone, com informação aos cidadãos sobre as obras do metropolitano, em 1957, e anúncio de um empréstimo obrigacionista do Metropolitano de Lisboa, em 1987.  Dois milhões de contos, para concluir as expansões ao Colégio Militar e Cidade Universitária:













terça-feira, 24 de maio de 2016

Com muito respeito pela dignidade das pessoas que escreveram a carta aberta ao primeiro ministro sobre a crise no porto de Lisboa


Transcrevo, com a devida vénia e respeito, do blogue  https://hafloresnocais.wordpress.com/2016/05/15/carta-aberta-das-mulheres-dos-estivadores-a-antonio-costa/

a carta aberta das mulheres dos estivadores.

É incorreto a comunicação social dar mais enfase à posição dos operadores, atirando a culpa para os estivadores.

Eu também não concordo com greves que prejudicam a economia (aliás, se se ler a lei da greve, vê-se que estão previstos mecanismos para evitar esses prejuízos, pese embora a dificuldade de entendimento jurídico para os aplicar) , mas não posso concordar com o dumping social que os operadores querem, nem com a falta de concorrência entre empresas existente, uma vez que as potencialidades dos portos portugueses estão limitadas pelo interesse privado de algumas operadoras que se opõe ao aparecimento de novas empresas ou a novos investimentos de empresas já presentes ou que estiveram presentes, nem com o anterior favorecimento por ajuste direto da concessão do terminal de Alcantara à Mota Engil (agora empresa turca), nem com o verdadeiro boicote que estão fazendo, para justificar despedimentos coletivos.



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Senhor primeiro-ministro António Costa:

O senhor foi eleito para nos representar. Os nossos maridos estão a lutar contra o dumping social, que se deixássemos nos ia colocar na miséria, a estender a mão ao Estado e à segurança social a pedir comida para os nossos filhos. Queremos viver do trabalho e não de mão estendida a pedir esmolas ao Estado que o senhor diz ser solidário. Solidariedade é o que gostaríamos de ter aqui do seu Governo e da maioria que o apoia, revogando a lei que permite que o Porto de Lisboa seja um negócio para intermediários, chicos espertos que todos os dias nos dizem que há um problema nos mercados, nas bolsas. A única bolsa que temos é a nossa carteira e queremos lá dentro o nosso salário. Não o vimos aqui no porto, porto público, que o senhor autoriza que seja concessionado a privados. Não compreendemos por que é que o porto, uma faixa de terra de todos nós, é concessionado a empresas privadas que todos os anos dão milhões de euros de lucro. Convidamo-lo a vir ao porto, a nossas casas, conhecer as nossas famílias, ouvir-nos para que lhe possamos contar pessoalmente as nossas vidas.
Os nossos maridos trabalham não raras vezes 80 horas semanais. Nunca, em momento algum, ganharam mais do que 12.20 euros à hora brutos. O salário normal é 8 euros à hora brutos. O senhor vive com isso? Há sete homens no porto que estão no escalão máximo de 12 euros, todos os outros ganham menos. Quando abrimos a televisão e ouvimos dizer que ganham 5 mil euros pensamos que estamos num talk show de baixa qualidade.
Somos nós que assumimos todo o trabalho doméstico.
Somos casadas e “mães solteiras”. Porque os nossos filhos não veem os pais. Os pais quando vêm a casa estão exaustos, sem força para nada. Ao fim de semana, sozinhas sempre – porque os turnos não param – não temos força para nos levantar e levar as crianças a passear. O tempo que nos sobra é para limpar e arrumar a casa sozinhas – claro, se eles estão 80 horas no porto quem o faz?
Diga-nos para onde vai o dinheiro destas 80 horas de trabalho? É que para as nossas casas não é. Muitas de nós estão desempregadas, nem conseguem encontrar trabalho porque os horários não o permitem; outras ganhamos o ordenado mínimo – uma vergonha de ordenado. Queremos que ouça os nossos relatos de como gerimos uma família assim e reiteramos o convite para vir ao porto, a nossas casas, conhecer as nossas famílias, e ouvir-nos para que lhe possamos contar pessoalmente as nossas vidas.
Não queremos sobreviver, queremos viver!
Grupo Há Flores no Cais!
Mulheres de estivadores em apoio à greve

Citação de Edgar Duvivier, sobre a situação no Brasil

Citação de Edgar Duvivier, escultor:  "(Temer) é um sem vergonha, como toda a corja que está agora.A gente entrega um país que tinha corrupção a um bando de corruptos mais profissionais ainda."
Ou de como  dizia Jô Soares, "Cadê os outros?"

Quantas vezes têm as balas de canhão ... quantas mortes têm ainda de ocorrer...

Com a devida vénia à Antena 2, que comemorou o 75º aniversário de Bob Dylan, reproduzo o seu poema, Blowing in the wind (soprado pelo vento) e junto a versão "clássica" ou "erudita" de John Corigliano,  da sua canção em youtube:

https://www.vagalume.com.br/bob-dylan/blowin-in-the-wind-cifrada.html

Blowin' In The Wind
How many roads must a man walk down
Before you can call him a man?
How many seas must a white dove sail
Before she sleeps in the sand?
Yes, and how many times must cannonballs fly
Before they're forever banned?
The answer, my friend, is blowin' in the wind
The answer is blowin' in the wind

Yes, and how many years can a mountain exist
Before it's washed to the seas (sea)
Yes, and how many years can some people exist
Before they're allowed to be free?
Yes, and how many times can a man turn his head
And pretend that he just doesn't see?
The answer, my friend, is blowin' in the wind
The answer is blowin' in the wind

Yes, and how many times must a man look up
Before he can see the sky?
Yes, and how many ears must one man have
Before he can hear people cry?
Yes, and how many deaths will it take till he knows
That too many people have died?
The answer, my friend, is blowin' in the wind
The answer is blowin' in the wind
Soprando no vento
Quantas estradas um homem deve percorrer
Pra poder ser chamado de homem?
Quantos oceanos uma pomba branca deve navegar
Pra poder dormir na areia?
Sim e quantas vezes as balas de canhão devem voar
Antes de serem banidas pra sempre?
A resposta, meu amigo, está soprando no vento
A resposta está soprando no vento


Sim e por quantos anos uma montanha pode existir
Antes de ser lavada pelos oceanos?
Sim e por quantos anos algumas pessoas devem existir
Antes de poderem ser livres?
Sim e quantas vezes um homem pode virar a cabeça
Fingir que ele não vê
A resposta, meu amigo, está soprando no vento
A resposta está soprando no vento


Sim e quantas vezes um homem deve olhar pra cima
Antes de conseguir ver o céu?
Sim e quantos ouvidos um homem deve ter
Pra poder conseguir ouvir as pessoas chorarem?
Sim e quantas mortes serão necessárias até ele saber
Que pessoas demais morreram?
A resposta, meu amigo, está soprando no vento
A resposta está soprando no vento








domingo, 22 de maio de 2016

O desgosto que vem do lado de lá do Atlântico



Independentemente da discussão jurídica e formal se foi ou não golpe, se a democracia foi ou não ofendida e não tinha meios para se defender, choca-me o ar satisfeito e de auto-gratificação dos oligarcas, que certamente aplicarão os dogmas do consenso de Washington .
Eu quereria que não fosse um exemplo de uma luta de classes. De um lado os que fizeram manifestações por educação, saúde e transportes (e Dilma não entendeu, não viu que eles deviam ser a prioridade, não os campeonatos de futebol nem olimpíadas; por pura incompetência permitiu que as desigualdades sociais e a sua associada insuportável criminalidade continuassem), do outro os oligarcas do consenso de Washington.
Choca-me o ar desiludido, triste, da brasileira de Minas Gerais que nos atende no refeitório do metropolitano, e que se lamenta de já não acreditar em ninguém.

Repito a antiga pergunta de Jõ Soares, Cadê os outros?
E repito o comentário de Jean Pierre Chevenement no congresso do PSF de 1975: a esquerda não pode falhar, como em França, nem trair, como em Portugal.

A esquerda traiu  no Brasil porque falhou.
Traiu na Venezuela, por incompetência também, com a agravante do seu presidente estar agarrado ao poder.
A esquerda falha em Cuba, sempre que não autoriza a formalização de partidos da oposição.
 A liberdade de expressão e de  informação  são essenciais, não se pode viver sem elas, mesmo que os resultados daseleições prejudiquem os próprios eleitores.

Esperemos pois, no Brasil,, que o tribunal demonstre a falta de fundamento da acusação (crime de responsabilidade nunca demonstrado), que na Venezuela os mediadores consigam fazer aprovar um plano de transição, e que em Cuba prossigam as mudanças, pelo menos partidos com liberdade de expressão.

sexta-feira, 20 de maio de 2016

O jardim da cerca, as confissões de um desconhecido e a conferência dos grandes banqueiros

Em dias de sol, os fins de tarde no jardim da cerca, na Graça, são mesmo gloriosos. Não admira a satisfação dos utilizadores e a empáfia dos vereadores da câmara de Lisboa orgulhosos da sua obra.








Claro que eu tinha de dizer mal. Porque a simpática funcionária do pequeno quiosque não tinha de saber que eu precisava de utilizar as instalações sanitárias. Porque só pedindo-lhe a chave o posso fazer. Regredimos  milénios, Já os romanos sabiam que tinha de haver latrinas públicas.
Mas claro que tem de se cortar no pessoal. Se não o fizessem, como poderiam manter-se os números do desemprego?
O simpático desconhecido que partilha o banco do jardim comigo, tão idoso como eu, não resiste a meter conversa.
Sente-se a necessidade de desabafar, com a segurança de estar a ser ouvido por um desconhecido. Que o filho, gerente de uma dependencia bancária, homem de 50 anos, tinha ido ter com ele e pedira-lhe 150000 euros. Assim, sem mais nem menos. Que tinha aberto um buraco no banco e precisava do dinheiro. Mas tu não puseste a casa do Algarve à venda e ainda no mês passado compraste o Mercedes "the best or nothing". E não lhe deu o dinheiro. O homem deixou de aparecer em casa dos pais, não os deixou ver os netos e a mulher do senhor entrou em depressão, não sai de casa. Isto tinha sido no ano passado. Neste ano o filho já foi passar uns dias ao Dubai com a mulher e já tem as férias com os miúdos marcadas no Caribe. O senhor calcula que o buraco já seja de 175000 euros.
E eu, que estava, sem exito, a tentar ler a notícia da conferência dos 5 grandes banqueiros com as duas senhoras supervisoras não sei de que departamentos euro-burocrático-bancários, sou de repente levado  a acreditar que já sei o que podia explicar aos 5 grandes banqueiros, para que eles não façam a cara de incompreensão com que aparecem na fotografia do jornal.
Que um banco em que um gerente de uma dependencia desvia 175000 euros e só o pai do gerente sabe, só pode ser mal gerido. Não culpem os outros, sejam humildes, e se possível mudem de atividade, entreguem-na à comunidade, mas cuidado.

PS em  21 de maio - a recomendação de humildade aos senhores banqueiros é devida à forma sobranceira como um deles, em entrevista televisiva, afirmou sorridentemente que o seu banco só faz bons negócios, quando a outra parte, que fez um mau negócio, foi um banco público. Ou de como outro, também com sobranceria, afirmou que os bancos, apesar de obterem piores resultados, comparativamente com outras empresas,  não precisam de uma ajuda exterior, "divina", sob a forma de um banco mau (contrariando assim Tim Harford, Bulow e Klemperer).
Quando sugiro cuidado estou a pensar nos defeitos portugueses, pequenos grupos acharem que são os melhores...

segunda-feira, 16 de maio de 2016

fui pagar a Cascais uma contribuição, ou o próximo autocarro chega dentro de...

"Fui pagar a Cascais uma contribuição".
Assim começa um trecho do Livro do desassossego de Bernardo Soares, descrevendo os pensamentos de uma viagem de comboio a Cascais.
No meu caso, tive de me deslocar a uma povoação dos subúrbios de Lisboa não servida pela ferrovia.
Como não tenho a aplicação no smartphone de escolha do melhor percurso, consultei no meu PC portátil as carreiras de autocarros e escolhi uma que passa perto de casa, com intervalos de 20 minutos.
Junto da paragem da Carris, o indicador de tempo de espera, 30 minutos, valor que manteve durante alguns minutos, mas depois reduziu para 23 minutos.
Julgo que o primeiro sistema deste tipo foi instalado no Funchal, nos seus horários, no princípio dos anos 90, mas não tenho a certeza. Levou uns anos a implementar no metro porque os sistemas comerciais requerem o GPS e no túnel isso não é possível. Houve que recorrer a bases de dados alimentadas pelo sistema centralizado de comando de tráfego e pelas informações dos circuitos de via e os respetivos fabricantes não tinham o sistema desenvolvido. Em 2000 pusemos  a primeira linha com indicação do tempo de espera a funcionar.
No caso da minha deslocação, deu tempo para tomar o pequeno almoço no café vizinho e voltar à paragem. O indicador mostrava 3 minutos. Mas no instante seguinte subiu para 36 minutos.
A indicação de tempo de espera é, como gostam de dizer os promotores das tecnologias a que eles chamam inovadoras e disruptivas, uma forma de partilhar a conetividade de proximidade. Levar ao "cliente" a informação.
Só que a informação só é útil se não for confusa e se não for falsa.
De modo que caminhei, como não tenho a aplicação do smartphone para chamar um taxi, um uber ou um cabify, até à praça de taxis mais próxima, onde apanhei um taxi para o destino pretendido, ao mesmo tempo que aproveitei para conversar com o motorista, sobre o tempo.
Difícil gerir uma rede de transportes, sem garantia de renovação da frota e de que a nova frota seja energeticamente eficiente.

domingo, 15 de maio de 2016

Nós, que trabalhamos nos metropolitanos

"Nós, que trabalhamos nos metropolitanos, entendemos melhor os povos do que os políticos, porque conhecemos as suas necessidades de transporte e como as resolver. Os políticos não."

Frase do meu colega do metro de Paris, ao despedir-se.


Foto com a devida vénia ao DN, tirada através do vidro da carruagem do metro de Pyong.Yang, na Coreia do Norte. As mesmas pessoas, as mesmas necessidades, que se compreendem melhor quando é preciso levar as pessoas de um lado para o outro, por razões de produção.e de retorno do benefício.

Quanto aos políticos, devem aplicar-se, as mais das vezes, técnicas de análise de psicosociologia e de psicopatologia.

sábado, 14 de maio de 2016

Numa estação de metro


Acesso de uma estação de metro, em Lisboa.
Os projetistas quiseram ser simpáticos, colocaram este acesso a cerca de 200 metros do eixo da estação.
No prédio ao lado morava um primeiro ministro.
Mas mudou-se antes da inauguração.
Um pouco como a central de camionagem do Arco do Cego, que dispunha de um acesso também a 200 metros do eixo da estação de Saldanha II.
Mas mudou-se, a central de camionagem, para Sete Rios, onde não paga renda ao titular do terreno, antes da inauguração da estação.

Não é que estas coisas não aconteçam noutros países, mas este é o nosso, é a nós que nos afeta.

Europa, 2015 e 2016





Com todas as limitações dos indicadores utilizados, os dois gráficos acima mostram o falhanço da política económica europeia e a incapacidade dos principais decisores compreenderem o fenómeno, nomeadamente a necessidade de investimento e a conveniência de alguma inflação.
A evolução da economia europeia, quando comparada com os exemplos históricos posteriores a uma grande recessão, é a que apresenta piores indicadores nos anos subsequentes às crises.
Com a agravante de condicionar uma pequena economia periférica como a portuguesa, já de si com dificuldades em tomar as melhores decisões.
Até a Alemanha, tão ciosa dos seus procedimentos e dos seus excedentes, apresentou em 2015 um superavit apenas de 0,7% e prevê um defice de 0,2% para 2016.
Em 2016, apenas o Luxemburgo, reconhecido "off-shore in shore" prevê um superavit, apenas de 1%.
Isto é, todos aumentam a sua dívida pública se não fizerem manipulações extraordinárias. Ou de como se pode perguntar para onde vai o dinheiro.
É preciso mais para o Parlamento europeu exigir mudança de política? Ou o Parlamento europeu não representa os cidadãos e cidadãs?


quarta-feira, 11 de maio de 2016

Hotel de cegonhas

Hotel de cegonhas, em dia chuvoso de maio, nos campos do Mondego, onde a autoestrada A1 cruza a linha férrea do Norte, agora com a via renovada para o Alfa poder circular a 140 km/h (circulava a 40 km/h).



substituição de travessas pela Azvi


a Promorail também aexecuta a renovação da via


domingo, 8 de maio de 2016

O túnel do Marão, inaugurado em 7 de maio de 2016

Este blogue aplaude a realização da obra e quem a projetou, a construiu e a vai manter, uma das poucas exceções que no período de trevas de investimentos públicos no XIX governo conseguiu sair da paralisação oficial.
Mas recorda o que escreveu em fevereiro de 2011, ainda na vigencia do XVIII governo:
http://fcsseratostenes.blogspot.pt/2011/02/o-tunel-do-marao.html

Na altura, escrevi que foi pena o túnel não ter uma valência ferroviária.Na altura estava por resolver a questão da falta de capacidade financeira do concessionário para levar a obra para a frente.
Hoje já se sabem pormenores da PPP de então, de como foi resolvido o problema da PPP, e quanto custou a obra com a solução adotada.

Interessaria muito divulgar a solução, porque ela é extensível a todas as PPP, cujo principal problema é ter de se saldar um empréstimo a juro alto (11-16%), que deveria ser trocado por um empréstimo a juro baixo (3%).
Foi essa a solução adotada no Marão. Resgatou-se a concessão ao concessionário incapaz e a empresa pública lançou os concursos necessários (uns de série de preços e outros de conceção-construção).

Não vale a pena discutir muito nem tentar inventar a pólvora, a solução está bem documentada no livrinho da Fundação Francisco Manuel dos Santos, de Joaquim Miranda Sarmento, "Parcerias Público-Privadas" (ver também na mesma coleção "Os investimentos públicos em Portugal", de Alfredo Marvão Pereira).

Se tomei bem nota dos números, o investimento inicial em PPP era de 146 milhões de euros, a amortizar em 25 anos. O que a uma taxa de 16% dá cerca de 600 milhões de euros, ou a 11% 420 milhões.
O custo da obra foi de cerca de 400 milhões, o que parecerá razoável, considerando o financiamento europeu de 90 milhões, o resgate da concessão e um provável CSP (comparador do setor público, ou o que custaria se a administração da obra fosse desde o princípio sem a inovação das PPP). Admitindo um custo unitário de 50 milhões de euros por km, teríamos 6km x 50 = 300 milhões de euros. Isto é, o orçamento inicial estaria subvalorizado (o costume, para se ganhar concursos).

Chegados aqui e à realidade, não temos uma ligação ferroviária Porto-Bragança, e deveriamos tentar evitar a continuação do desperdício de combustíveis fósseis no asfalto, agora do túnel do Marão (parece que será sempre desperdício, o consumo de combustíveis fósseis, uma vez que, mesmo que se extraia gás natural do Algarve, as mais valias irão para a Repsol, ou de como a espanholização não se restringe à banca).
 Então, mais uma vez este blogue propõe o desenvolvimento da utilização da tração elétrica nas autoestradas, começando pelas frotas de serviço e autocarros de passageiros com recarga de baterias a intervalos de 80 km , pelos ligeiros de passageiros e pelos camiões de mercadorias. A energia para isso virá das renováveis, contrariando assim a ideia de que há excesso de produção instalada.

Mas não sei se daqui a 5 anos cá estarei para fazer o ponto da situação.

Boa viagem aos utilizadores.


PS 1 - Sob reserva de os números do custo da obra não serem constantes na informação tornada pública. Nas contas acima considerei incluida na obra os 20km (?) de acessos, incluindo viadutos e os sistemas complementares (deformação profissional de considerar os custos da estação de metro na estimativa de custos do túnel).
PS 2 em 10 de maio de 2016  -  Outra solução tecnicamente mais correta quanto a mim para rentabilizar a utilização das autoestradas, embora de péssimo rendimento (1 kg de H2 necessita de 60 kWh) , seria a tração elétrica por hidrogénio/células de combustível, sendo este produzido por eletrólise em "postos de combustível" (1kg de H2 produz 10 kWh na roda). Mas, embora fosse uma solução "inovadora" e "disruptiva", em funcionamento na Califórnia, parece que o "mercado" não está interessado.



sábado, 7 de maio de 2016

12º Congresso da ADFERSIT



12º  congresso da ADFERSIT, em 3 e 4 de maio de 2016.

http://www.congressoadfersit.com/#!blank-5/dphvx

http://www.congressoadfersit.com/#!blank-6/xskkc


Falhou-me o ânimo para ir ao segundo dia. Que aliás coincidia com um seminário na universidade nova sob o mesmo tema (inovação e transportes, que inovação é o que está a dar para encher a boca e os ouvidos de lugares comuns).

Fiquei desanimado, no 1º dia. As coisas andam muito pelo virtual , pelas startups, pelas inovações disruptivas, pelas competitividades (agora diz-se competividade), empreendedorismos (agora diz-se empreendorismos), automóveis driverless (agora diz-se draiverls), ...

Como sou da escola clássica tenho dificuldade em compreender os moços empreendedores das startups e incubadoras que falam, falam sem eu perceber  em que é que consiste concretamente o seu negócio. Mas se ganham dinheiro ainda bem para eles. 
Já percebo mais a Uber, que parece que até direciona os pedidos de transporte para proprietários de taxi clássicos. Assunto a resolver pelo senhor ministro.

Ouvi com incredulidade, sem desconsideração pelo currículo do senhor, o secretário de Estado José Mendes apregoar a "descarbonização" e a descentralização para as áreas metropolitanas e autarquias (aqui a minha desconfiança congénita lembra-se dos maus exemplos do Porto e dos riscos do clientelismo caciqueiro, de que espero Lisboa e a medinização dos transportes não venha a ser exemplo). E também desconfio dos termos usados pelo senhor secretário de Estado,"reorganização da cadeia de deslocações", e de que a sua equipa saiba exatamente o que é a "utilização dos modos adequados", ou a "intermodalidade nos planos estratégicos com financiamento comunitário", ou que tipos de frotas devem substituir as velhinhas ou insuficientes e como será o financiamento. 
Mas ficámos a saber que a rede de carregadores de automóveis elétricos é para consertar e que vão ser comprados 170 automóveis elétricos para a administração pública. E claro, claro, que dá boa imagem, ciclovias é para continuar. 
Só que não percebi, como sou da escola clássica, o que ele quis dizer com a orientação de inserção da internet nas infraestruturas "para trazer conetividade a elementos físicos por via virtual".

Mas tive uma agradável surpresa ao ver o carrinho sem condutor da Tula, ou elevador horizontal, feito em Coimbra, já em serviço no Hospital da Tocha, num hotel na Suiça, parece que em projeto num aeroporto de Berlim. Com rodas de borracha (não se pode querer tudo, mas o carrinho é para andar em pavimentos vulgares, com um condutor enterrado para guiamento). Ver http://www.tulait.eu/SiteEN/cars.html



Também aplaudi a intervenção de Xoan Vasquez, do Eixo Atlantico, que não se coibiu de chamar os nomes adequados aos políticos do lado de cá e do lado de lá da fronteira a quem devemos as indefinições e os "desconseguimentos" das ligações ferroviárias em bitola europeia a Madrid e à Galiza.














De uma maneira geral, neste primeiro dia, ficou-me um desencanto por não se abordar com decisão esta questão de Portugal ser uma ilha ferroviária em termos de passageiros e de mercadorias, apesar das posições corretas que a ADFERSIT tem defendido. Mas talvez não fosse essa a prioridade dos patrocinadores.

PS - Quero deixar claro que considero notável e meritório o trabalho da ADFERSIT e da sua equipa na preparação do 12ºcongresso. As críticas acima serão talvez mais dirigidas aos agentes do meio (os players, ou stakeholders, como agora se diz), o que provavelmente é compatível com a avaliação (agora diz-se assessement, ou ranking) pouco favorável que se faz aos empresários, aos decisores, aos políticos, aos métodos portugueses de organização, de trabalho de equipa, de discussão dos problemas, de planeamento, de tomada de decisões.

Palmira, Síria

O maestro Gergiev aparece muito no canal Mezzo.

Eis o seu concerto em Palmira, em 5 de maio de 2016.
Esperança de que se possa viver em paz, sem que ninguém imponha a sua forma de pensar a ninguém. E que as mulheres da orquestra Mariinsky possam tocar em qualquer parte do mundo.



quinta-feira, 5 de maio de 2016

No dia da língua portuguesa, o acordo ortográfico

http://www.rtp.pt/play/p1299/e234328/a-ronda-da-noite

No dia da Língua Portuguesa, reproduzo o programa da Antena 2, de Luis Caetano, com o debate entre Malaca Casteleiro, linguista, e Teolinda Gersão, escritora - ouvir do minuto 5 ao minuto 52.
Este humilde falante da língua portuguesa ficou contente por ter sido dispensado de escrever as diacríticas (consoantes mudas). Também teria querido mais eliminações de acentos, hifens e cedilhas, mas o acordo ficou a meio. Nada o choca no Brasil se escrever terno (herdeiro do latim, daí discordar da professora Teolinda Gersão quando disse que no Brasil não se liga os romanos, como se não houvesse Marco Aurélios, Aurelianos, Sénecas, Julianos, Agripinas, brasileiros) e em Portugal se escrever fato (herdeiro do germânico). Nem em Moçambique e em Angola  se dizer machimbombo, em Portugal autocarro e no Brasil onibus. Machimbombo vem machine pump anglo-saxónico, autocarro é uma mistura de latim e francês, e onibus é latim, latim quase puro (não querem saber dos romanos, os brasileiros?!).
Este humilde falante já tem escrito sobre o seu apoio ao acordo,
http://fcsseratostenes.blogspot.pt/search?q=ortogr%C3%A1fico

Seguiu com algum interesse os programas que nos anos 90 a antena 2, aos domingos, divulgou, tentando preparar as pessoas para a mudança. Mas nessa altura as pessoas tiveram mais que fazer do que prestar atenção a essas minudências. E já fui insultado boçalmente, por defensores da manutenção do acordo de 1945.
Mas enfim, agora que só falta Angola e Moçambique ratificarem, que já há o vocabulário, e que todos estamos de acordo que há coisas a melhorar no acordo de 1990, que até o senhor presidente da República diz que quer ponderar,deixem-me escrever sem diacríticas. Já todos escrevíamos sem a diacrítica c em fructa, já todos escreviamos sem ph e sem g em fleuma (phleugma, thypographia, escrevia Fernando Pessoa, que tanto mal disse do acordo de 1911) e não se preocupem com a supressão dos acentos em sede de falta de água ou sede de uma empresa, já não acentuávamos...


quarta-feira, 4 de maio de 2016

Carta a meus filhos de Jorge de Sena a propósito dos fuzilamentos de Goya

"uma amargura me submerge inconsolável. 
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam, 
quem ressuscita esses milhões, quem restitui 
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado? 
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes 
aquele instante que não viveram, aquele objecto 
que não fruíram, "


Poema de Jorge de Sena, sobre a violência que mata:



http://www.triplov.com/poesia/jorge_de_sena/carta.htm


Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente â secular justiça,
para que os liquidasse «com suma piedade e sem efusão de sangue.»
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de urna classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadela de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de té-1a.
É isto o que mais importa - essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez alguém
está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
- mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga -
não hão-de ser em vão. Confesso que
multas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam «amanhã».
E. por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram. 

Expansão do metropolitano de Lisboa quando possível - a ideia de prolongar a linha amarela ao Cais do Sodré para formar um "anel"

A propósito da crítica que o eng.Pompeu Santos fez à ideia do prolongamento da linha amarela para o Cais do Sodré, fechada no interior da cidade
(ver
https://www.publico.pt/local/noticia/expansao-da-rede-do-metro-de-lisboa-poupemnos-1730185 ),

enviei-lhe o seguinte comentário:


Caro Colega Pompeu Santos

Apreciei o seu artigo sobre a expansão do metropolitano de Lisboa.
São certeiras, as suas observações. Infelizmente, porque a gestão dessa expansão tem sido, normalmente, infeliz.
No entanto, como antigo funcionário do metro, gostaria de fazer alguns comentários.
Apesar originalmente ter existido um plano diretor (duas linhas, uma em V, a desenvolver a partir da ligação Entrecampos/Sete Rios-Rossio-Alvalade e outra, Algés-Rossio-Poço do Bispo).
Em 1974-75, com o consultor Siemens-Deconsult, definiu-se o principal plano diretor que esteve na base da expansão até 1997.
É curioso que a expansão prioritária então considerada, após a desconexão da Rotunda/Marquês de Pombal (que veio a concretizar-se em 1995) era a ligação a Alcântara. Esta ficou no papel, como consequência do tratado de Tordesilhas que em 1992  ou 1993 o governo decidiu: parte central e oriental da cidade para o metro, Alcântara, linha da cintura  e parte ocidental para a CP.
A relativa coerência das expansões ao Cais do Sodré e a Santa Apolónia, ao Campo Grande e ao Colégio Militar foi também quebrada com a decisão de servir a Expo98 com a linha vermelha, a qual passou a desempenhar o papel de linha transversal que no plano de 1975 estava reservado à linha amarela. Esta foi depois “desviada” para norte, para Odivelas (felizmente em viaduto).
Pode portanto afirmar-se que o critério dominante nas expansões do metro é por arrancos, com decisões caso  a caso, desintegradas de um plano coerente, redundando em troços novos de 800m com o consequente custo marginal elevadíssimo (expansão Entrecampos-Cidade Universitária, Cidade Universitária-Campo Grande, Campo Grande-Telheiras, e agora Amadora Este-Reboleira).
Neste último caso, há a considerar que a ideia inicial era levar o metro à estação central da Amadora, mais para servir a sua população do que para correspondência com a linha de Sintra. No entanto, as “forças vivas” da Amadora e os governos da altura enveredaram pela teoria das novas centralidades. Primeiro projetando a betonização dos terrenos de elevada aptidão agrícola da estação zootécnica da Falagueira, num projeto de PPP para urbanização maciça da zoan, e que felizmente não foi por diante (os lucros, se os houvesse, seriam para o empreendedor, os prejuízos para o Estado).
Feita a estação da Amadora Este (2004), decidiu-se “desviar” a linha para a nova centralidade dos terrenos da Sorefame destruída, mesmo ao lado da Reboleira que tinha sido a menina dos olhos do J.Pimenta. Possivelmente considerou-se que as licenças de construção  geradas pelos terrenos da Sorefame seriam substanciais, e a estação principal da Amadora ficou sem metro e, graças à crise, a urbanização da Sorefame não saíu dos arquétipos.
Mas note que a construção da galeria da Pontinha à Amadora Este, em parte a céu aberto,  foi interessantíssima pelas dificuldades de contenção dos terrenos (como sou mero eletrotécnico, não consigo dar pormenores, mas lembro-me do aparato da obra, na galeria e na zona da estação Amadora Este).
Em resumo, as dificuldades que nos caraterizam como portugueses em nos organizarmos e em debatermos em grupo as soluções, em adotar as soluções que podem não ser as melhores, mas que sirvam e, cereja em cima do bolo a grande dificuldade em planear  e controlar a execução do planeamento , explicam a expansão da rede do metro por solavancos, indefinições e arrancos, muitas vezes dependentes do “prestígio” e “competência”dos altos decisores ministeriais, administradores ou afins, normalmente perfeitamente ignorantes das questões técnicas ou, para ser benevolente, algo limitados na resolução de charadas de natureza topológica.
Não admira, com este esquema decisório (ou a ausência de um esquema decisório) que depois apareçam, nas inaugurações, felizes, primeiros ministros, ministros, autarcas, administradores disto e daquilo. Parecer-me-ia que a inauguração de um troço de 800m podia ser confiada simplesmente a quem a executou e a quem a vai operar e manter, técnicos dos empreiteiros, do metro… Até estou capaz de propor que só acima de 5 km de expansão deveria comparecer um ministro . E o primeiro ministro para cima de 10 km. E mesmo assim talvez esteja a ser parco no comprimento a inaugurar.
É verdade, 60 milhões de euros por menos de um quilómetro é elevado, não só consequência da pouca extensão mas das hesitações e das paragens da obra, embora inclua a estação, a via férrea , energia, sinalização, telecomunicações, ventilação. A preparação do processo de candidatura a fundos QREN esteve encalhada em várias secretárias, e não só do metro, também da própria comissão coordenadora de Lisboa e Vale do Tejo. Para além dos empecilhos burocrático-jurídicos que espartilham as nossas empresas públicas e quem lá trabalha e pensou um dia dedicar-se ao serviço público.
Eu diria que 50 milhões de euros já estava bem pago, com lucro razoável para os empreiteiros. Mas eles têm de facto a desculpa dos arrancos e da pequena escala.
Relativamente á anunciada expansão da linha amarela ao Cais Sodré é de facto criticável e “fecha” a rede sobre si própria em detrimento de ir buscar passageiros à periferia (é verdade que a cidade se desertificou e uma maneira de aumentar a procura do metro era repovoá-la). Mas há uma hipótese de resolver o problema da linha amarela, deixando para a linha vermelha a ligação a Alcântara, Belém e Algés (aliás a expansão da linha vermelha parece-me prioritária, com correspondência “park and ride” na prevista urbanização em Campo de Ourique adjacente às Amoreiras).
Não pretendo que as soluções que proponho sejam as melhores, mas gostaria que houvesse debate e que não aparecessem planos de expansão sem uma análise alargada e não sujeita a decisões  tomadas previamente, como recentemente foi ilustrado com o caso da 2ªcircular (por mais que se explicasse que o alargamento do separador central era abusivo nada se conseguiu). Vícios que temos dos processos de tomada de decisões.
A expansão da linha amarela justificar-se-á, com correspondência com a linha verde (por tapete rolante)  em Santos e seguimento para Cacilhas sob o rio (a Fertagus e a Lusoponte detestariam a ideia e repetiriam que não há dinheiro, embora os fundos comunitários sejam também para isso mesmo, para reduzir o consumo de combustíveis fósseis). Dada a profundidade do túnel sob o rio, -30m para o plano base de via e a cota do PBV do término do Rato, 60m, o declive é incomportável em alinhamento reto, pelo que se sugere uma circular que serviria o Parlamento, Campo de Ourique-sul, Alcântara, o Museu de Arte Antiga e a Estrela.
Trata-se de uma solução usada na Suiça em caminhos de ferro de montanha e no metro de Nápoles.
Junto dois esboços.



Gostaria ainda de referir as dificuldades da execução da estação de Baixa-Chiado, que, dado o terreno conter aterros e destroços do terramoto, originou efetivamente assentamentos nos edifícios. A situação esteve fora de controle durante quase um mês, até as injeções de cimento compensarem. No entanto, é de referir a escavação ilegal feita uns anos antes numa loja da calçada do Carmo, mesmo por baixo do convento do Carmo e a demolição descuidada do edifício adjacente ao convento onde a banda da Carris ensaiava. É de destacar a qualidade técnica do empreiteiro, a Odebrecht. Quanto ao acidente do Terreiro do Paço, em terrenos de aluvião, ficou a dever-se a imprevidência dos carotadores que executaram o seu trabalho sem fiscalização. Infelizmente, estão por resolver correções no torreão nascente do Terreiro do Paço, agora ameaçado pela obra do parque de estacionamento do Campo das Cebolas. No lado poente está em curso a reposição do sistema de monitorização, sendo crível que a estacaria que ladeia a galeria do metro, nesse lado poente do Terreiro do Paço, mantenha estável o torreão poente.
Finalmente, gostaria de lhe indicar uma ligação com um texto em que resumo um  plano de expansão, reafirmando que não são soluções de um iluminado, mas apenas contributos para participação em debate que se deseja o mais alargado possível.

Com os melhores cumprimentos

Fernando Santos e Silva


domingo, 1 de maio de 2016

Viva o 25 de abril

comprando o cravo vermelho

recordando as Chaimite

nós, não todos; nós, a quem agora parece que está na moda chamar os beneficiários das corporações (não devem ter lido bem os textos sobre as corporações criptofascistas...) que se opõem à competitividade e à produtividade (coitados dos acusadores, nunca trabalharam numa empresa de produção de bens transacionáveis...)

também para recordar, na montra da livraria LER, em Campo de Ourique, o auto da apreensão dos crimes no Vietnam, de Bertrand Russel