sábado, 28 de julho de 2012

A regulamentação do jogo on line

Se muitos cidadãos e cidadãs sentem prazer em jogar ou se sentem que através do jogo poderão encontrar uma saída para a sua crise, não sou eu que os vou condenar.
Pessoalmente penso que o jogo é uma droga, como o alcool, as ervas alucinogéneas ou como tanta coisa que facilita a produção de dopamina, com  geração de maior ou menor dependencia e maior ou menor gravidade da sindroma de abstinencia.
Daí não condenar a preparação de legislação para a regulação do jogo on line. O DN investigou e parece que uns milhões de euros são movimentados ilegalmente pela internet.
Confesso que não estou dentro desta problemática, mas uma coisa me choca.
O governo anterior nomeou um grupo de trabalho que apresentou a seu tempo as conclusões mas que ficaram na gaveta.
O governo atual também já tem na sua posse o relatório de novo grupo de trabalho.
Diz o DN que as propostas são razoáveis, até porque trariam rendimentos ao Estado.
Mas que os intervenientes são muito sigilosos e consideram o assunto perigoso.
E que há dois meses entregaram o relatório.
Parece que o senhor primeiro ministro tem de se inteirar do caso antes de ser decidida alguma coisa.
Interrogo-me se não será assim com tudo, neste momento.
Nada pode ser resolvido sem o acordo do senhor primeiro ministro.
Por mais conhecedores da matéria que sejam os técnicos do grupo de trabalho (em alternativa, por  mais aberto que fosse o debate e por mais participado que fosse pela sociedaed civil, com assembleias de análise e de apresentação de propostas desde o nível das freguesias e das empresas?), por mais rentáveis que sejam as propostas, só depois do nihl obstat do senhor primeiro ministro é que pode ser emitida a legislação?
Será por isso que demora tanto a resolver o caso dos estaleiros de Viana, que se atrasam as próprias medidas do programa do partido do governo? que se adia a ligação ferroviária 3ª prioridade dos eixos transeuropeus? que se paralisa a atividade de desenvolvimento dos transportes? que se paralisa oestudo das alternativas energeticamente mais eficientes?
Nenhum país pode funcionar bem se tudo depender do nihl obstat de alguém.
Ai o jogo na internet, como é importante para percerbermos isso.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

A orquestra Divã Leste-Oeste e a Fundação Gulbenkian

Aplausos para a Fundação Gulbenkian, que atribuiu um prémio no valor de 250.000 euros à orquestra Divã Leste-Oeste, formada por músicos palestinianos, israelitas e de outras nacionalidades e dirigida por Daniel Barenboim.

O objetivo da orquestra é mostrar que é possível viver e trabalhar em conjunto e em equipa.
É a cegueira da razão que gera os monstros da intolerância e da discriminação.
De realçar que os contratos da orquestra estão a diminuir a pretexto da crise (cultura é só no ciclo de crescimento?).

http://www.musica.gulbenkian.pt/cgi-bin/wnp_db_dynamic_record.pl?dn=db_musica_semibreves_pt&sn=semibreves&orn=1390

Nota de rodapé, admirando-se o autor do texto de como são profundos os desígnios do sistema estabelecido, que impedem a secretaria de estado da cultura da República Portuguesa de explorar uns quantos poços de extração petrolífera e de deter uma carteira de fundos de investimento:

- orçamento da secretaria de estado da cultura do governo português para 2012: 180 milhões de euros;
- contas da Fundação Gulbenkian de 2010 para cultura, educação e ciência: 60 milhões de euros;
- lucros da Partex/Gulbenkian em 2010: 57 milhões de euros;
- proveitos da Fundação em 2010: 14 milhões de euros;
- carteira de investimentos da Gulbenkian em 2010: 1.800 milhões de euros;
- despesas com pessoal em 2010: 31 milhões de euros.

Os ladrões de bicicletas e a menina que vendia fósforos

Comecemos pelos ladrões de bicicletas.


A imagem não pertence ao filme, representa um dos componentes de A Família, um conjunto de esculturas hiper-realistas do escultor Melício, junto do fórum de Lisboa, antigo cinema Roma.

Está aqui neste blogue apenas para eu refletir sobre o que pensei quando há 30 anos vi o filme de Vitoriode Sica, de 1948:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Ladri_di_biciclette

Que se tratava de um filme neo-realista, com a miséria do desemprego, da falta de proteção social e da inconsistência do crescimento económico em Itália, logo a seguir à segunda guerra mundial.

E que graças ao progresso tecnológico o bem estar iria espalhar-se pelas sociedades.

Afinal estava enganado.

Embora me pareça que os senhores bem postos que tomaram decisões nos governos e nos grupos económicos e financeiros dominantes, e que sistematizaram as teorias da nova economia nas universidades, também estavam enganados, a avaliar pelos indicadores da atualidade (ameaça de subida dos preços dos cereais, outra vez? proridade às culturas de etanol relativamente às alimentares, dando preferência ao desemprego relativamente à tendência inflacionista? sem preocupações pela consequencia, a fome?).

E como agora não há regimes ditos comunistas que se vejam, os ditos senhores bem postos acham que o mal é do estado social que não é sustentável.
Apetece dizer “olhem que não, olhem que não”, e citar, de cor, o poeta alemão: primeiro levaram os comunistas (não, não estou a dizer que devíamos voltar a ter regimes destes, nem práticas agrícolas erradas, não dêem mais razão ao PISA do que ele tem), depois levaram os judeus, depois levaram os sindicalistas, agora estão-me a levar a mim e não há ninguém para me ajudar.

(Interessante a “defesa” do Estado social pelo cronista economista, suspeito de muita coisa, menos de ser de extrema esquerda:
http://www.dn.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=2687051 ).

Mas pode ser que passe, a crise, e que o filme Ladrões de bicicletas volte a perder a atualidade.

Vamos agora à ópera, que como eu costumo dizer, é subversiva.

Sobre um conto de Hans Christian Andersen (contos tristes, de incompletude, de incapacidade de atingir o grãozinho de felicidade que devia ser distribuída a cada um, nostalgia permanente do que não se conseguiu) , a menina que vendia fósforos, mas que não conseguiu vender nenhum no ultimo dia do ano, e morreu de frio depois de tentar aquecer-se com eles, mas sonhando de cada vez que acendia um, como se tivesse o tal quinhão de felicidade, Helmut Lachenmann escreveu a ópera “A menina dos fósforos” estreada em 1996.
Com a devida vénia à Antena 2 e ao programa Véu diáfano de Paulo Amaral:

http://www.rtp.pt/play/p407/e88461/veu-diafano





Continua atual e subversiva, a ópera. Duvido que os senhores governantes que nos governam a quisessem ver representada no S.Carlos.

Contar histórias tristes da falencia dos sistemas económicos e financeiros montados e geridos por quem tem o poder para isso… quando a culpa é das próprias meninas que não têm iniciativa, criatividade, competitividade e produtividade para criarem melhor negócio do que vender fósforos.

A cogeração em Portugal

http://www.rtp.pt/programa/tv/p24778/c88066http://www.rtp.pt/programa/tv/p24778/c88066


O programa Bioesfera, da RTP2, tratou o tema da cogeração.

Cogeração significa produção de energia elétrica e de calor, aproveitando o calor associado à produção da energia elétrica.

Em termos de rendimento de conversão de energia primária em energia útil (elétrica e térmica) uma central de cogeração tem muito melhor rendimento do que uma central exclusivamente elétrica e justifica a instalação de uma central de cogeração À entrada de uma fábrica de qualquer dimensão. O calor produzido pode ser também convertido em frio por absorção.

Dado que o rendimento e a eficiência elétrica são maiores, interessa generalizar a cogeração para rentabilizar os encargos com a importação de combustíveis fósseis (normalmente gás natural) para a cogeração.

O programa Bioesfera pôs a nu a fragilidade das soluções portuguesas em questões de eficiência energética.

Foi estabelecido o “esquema” de se pagar a eletricidade produzida pelas empresas que compraram licenças de produção em cogeração e a reinjetam na rede, a um preço mais elevado do que o preço normal do kWh.

O sistema funciona em países estrangeiros, mas em Portugal, revelou o programa, não há estatísticas fiáveis sobre a produção de calor, provavelmente porque o  interesse, das empresas que levantaram a licença, era apenas o de poderem revender o kWh mais caro, o que significa que se está a desperdiçar o valor do calor produzido (o principal problema, quando o calor não pode ser utilizado na própria empresa produtora, consiste nos elevados custos de uma rede de distribuição para o exterior).

É curioso ver o ar desanimado do presidente da Cogen, dizendo que as tecnologias não podem ser submetidas às mesmas leis de mercado de bens comuns.

Querendo com isso dizer que na produção racional de energia elétrica , com o objetivo de melhorar a eficiência energética, são os critérios técnicos que devem predominar, com estudo integrado de todos os aspetos da questão, e não os critérios de mercado.

Mas os interesses dos grupos empresariais podem não concordar.

E mais uma vez, não é solução esperar que apareçam empresários a resolver problemas que requerem uma visão planificadora e integrada subordinada ao interesse nacional.

Ver sobre este assunto o livro já citado “10 tecnologias para salvar o planeta” de Chris Goodall, ed. Livos Horizonte, em que se analisa a cogeração com distribuição de calor a nível regional e local, e a produção de eletricidade e calor (ou frio) a partir de pilhas de combustível alimentadas por gás natural ou por hidrogénio ou por metano extraído da biomassa.
http://fcsseratostenes.blogspot.pt/2012/07/10-tecnologias-para-salvar-o-planeta.html

Quando compreenderão os senhores governantes que as leis de mercado em que acreditaram tão ferverosamente são um obstáculo e não um meio de progresso na eficiência energética?

terça-feira, 24 de julho de 2012

Promessas eleitorais e alternativas

Temos então uma promessa pré-eleitoral do senhor primeiro ministro: que entre impor mais sacrifícios à população e perder as eleições, ou (ou exclusivo) aliviar a politica de ascetismo (já se sabe que eu sou do contra, sempre achei que até se pode viver bem em austeridade; agora em ascetismo é que não se viverá muito bem) e ganhar as eleições, optará, por imperativo do seu patriotismo, se mais sacrifícios forem necesssários (mas concordaremos com o critério de avaliação do que é ser necessário?) por perder as eleições.

Há uma esperança, de que o senhor primeiro ministro faça como da outra vez e falte à promessa.

Isto é, que não imponha mais sacrifícios.

O problema é que isso significará que ganhará as eleições.

Pelo menos é o que a história das eleições indicia, com a teoria dos ciclos eleitorais (eleições de 1991 logo a seguir ao aumento dos salários da função publica – maioria absoluta para Cavaco Silva; eleições de 2002 com Durão Barroso a prometer a descida de impostos à boa maneira de Hayeck e Friedman, para depois das eleições ganhas subir o IVA; eleições de 2009 com José Sócrates a aumentar os funcionários públicos e a apresentar um programa de investimentos tecnológicos que deixou cair depois de ganhas as eleições).

É uma grande fraqueza da democracia, não ter defesas contra estas falsas promessas.
É mais uma vez a incapacidade de informar os cidadãos convenientemente e fazê-los participar nas tomadas de decisão da coisa pública.
Democracia representativa e participativa, e não apenas representativa, precisa-se.

O mal não é da democracia, é dos bonzos que a interpretam mal e dos oportunistas que se servem dela para os seus interesses ou dos grupos que os alimentam.

Por isso é importante debater estes assuntos.

Neste caso concreto, dos ciclos eleitorais e de “a probabilidade de as decisões politicas contribuírem para o bem comum é maior se elas resultarem de informações, estudos e relatórios imparciais de deliberação pública sobre as opções em presença e os impactos imediatos e futuros das possíveis alternativas” (especialmente se a questão for a atual, como reduzir o endividamento e retomar o crescimento, em que qualquer proposta parece ser ineficaz), parece-me extremamente interessante a leitura do livro de Paulo Trigo Pereira, “Portugal, dívida pública e défice democrático”, edição Fundação Francisco Manuel dos Santos, d eonde extraí a citação.

Trata-se de um livro mobilizador da sociedade civil (será que pode contribuir para que não se cometa o atentado de alterar a lei eleitoral para executivos monocromáticos?) cuja tese principal é a de que as imperfeições do formalismo da democracia portuguesa ou défice democrático (por exemplo os ciclos eleitorais demagógicos, a promiscuidade entre legisladores e interesses privados, a ocultação de informação, a burocratização, a dificuldade de compreender as “externalidades” que afetam todos sem que todos colham os benefícios) são a principal causa da queda no endividamento .

No fundo, o que se pretende é que a população não seja tratada, pelos políticos, como intectualmente menores que não sabem avaliar a informação possível, e pelos financeiros, como os da troika, como indignos do nível salarial que atingiram.

Terá ocorrido aos senhores da troika, quando declararam publicamente que o objetivo é reduzir os salários, estarão de forma marxista a admitir que o desejo é que a retribuição do trabalho seja apenas para a reconstituição da força desse trabalho? É que eu, embora reconhecendo o lugar da teoria marxista na história do pensamento humano, tal como a teoria newtoniana tem o seu lugar na história da ciência, pese embora as inovações relativisticas, detestaria ver o processo histórico regredir tanto, até aos desequilíbrios do séc.XIX. Uma empresa, salvo melhor opinião, não deve pensar só no lucro, e o fator trabalho deve ter um peso maior do que a reconstituição da força de trabalho.

Salvo melhor opinião, claro, porque posso estar enganado quando vejo a troika a dar razão a Marx por uma diversão acessória do seu pensamento (seu de Marx).

E seria bom que o senhor primeiro ministro (e o seu ministro das finanças, claro) aceitassem discutir alternativas (nem que fosse num seminário num hotel de Lisboa, na sala de conferencias do Diário de Notícias, no cinema Roma (Fórum de Lisboa) ou no Clube nortenho de pensadores.

Em vez de repetir que não há.

Há, e basta ler este blogue, por exemplo o manifesto dos 22 economistas aterrados (não se referem à economia portuguesa? Claro, não foi a pequena economia portuguesa que desequilibrou todo o sistema financeiro internacional).

Mas no contexto nacional, há alternativas (ou pelo menos havia, antes da suspensão dos investimentos do QREN; quando é que o governo entenderá que foi um erro liquidar o Poceirão-Caia? Não se pode carpir por não haver investimentos depois de acabar com eles apesar da taxa generosa de comparticipação de 85%).

Outra alternativa é acabar com esses juros de agiota decorrentes do formalismo de Schylock que impede os governos de ter acesso ao juro baixo do BCE sem passar pelos bancos privados (na economia clássica, isto tem um nome, promiscuidade entre os decisores políticos e os financeiros privados, mas reconheço que a teoria económica evoluiu).

Como se sabe, o que está a dificultar o cumprimento dos objetivos do memorando e o reequilibrio das empresas públicas é a subida (esperada) dos encargos financeiros.

E também já se falou neste blogue de outra alternativa, que era a usada no século XIX: subscrições públicas, tipo certificados de aforro.

Pormenorizando mais um bocadinho, e aproveitando a boleia da diplomacia económica, não se arranjaria um fundosinho QREN para ajudar o metropolitano de Lisboa/Ferconsult a levar com êxito até ao fim o seu projeto para o metro de Alger, para a ferrovia de Meca e para aproveitar o “know-how” existente noutras metropolitanos por esse mundo fora?

Agora dizer que não há alternativas, peço muita desculpa mas não, não e não.

PS em 25 de julho de 2012 - Outra sugestão já feita neste blogue é a construção de uma central solar e venda da energia à Alemanha e França. Se a necessidade é de dinheiro para equilibrar o defice, uma concessão por uns quantos anos, como se fazia no tempo das bancarrotas do inicio do século XX poderia ser uma hipótese, com um pagamento à cabeça. Mas é um assunto demasiado técnico (tecnológico)  para poder ser entendido pelos financeiros que nos governam. Já dizia o arquiteto Pancho Guedes, "os politicos não percebem nada de cidades".

Entrevista do diretor do Diário Económico na RTP2 em 23 de Julho de 2012-07-23

A acusação é forte: o senhor ministro das finanças já tinha tido tempo, ao fim de mais de um ano de governo, de apresentar um plano de cortes na despesa pública. Especialmente depois de se ter enganado nas previsões da receita fiscal. Não deve por isso ficar contente por no 1º semestre de 2012 o défice público se ter quedado por 4.100 milhões de euros, abaixo do valor contratado com a troika de 4.400 milhões.

Já não é a acusação que tenho feito ao senhor ministro das finanças de mau desempenho e de uma experiencia até aqui longe das realidades comezinhas mas dramáticas que as cidadãs e cidadãos sofrem (no mesmo noticiário da RTP2: um desenhador-projetista desempregado está a poucos meses de ficar sem o subsídio e o centro de emprego não lhe arranja nada; também não recebe abono de família para os filhos; será que os senhores ministros não relacionam os cortes com estes casos?). É uma crítica especializada. Com a agravante de, durante a campanha eleitoral de 2011, o partido vencedor das eleições dizer nos seus comícios que sabia muito bem onde cortar “nas gorduras do Estado”. Afinal estavam a enganar os eleitores, naquela ótica de que podem prometer-se coisas e depois de eleitos não cumprirem, como disse o próprio primeiro ministro espanhol. Na ótica dos ciclos eleitorais que permite aos governos em períodos de excedentes aumentar a despesa pública e ganhar as eleições (caso das eleições de 1991 a seguir ao aumento de 12% dos salários da função pública e ao aumento de 7,8% do “peso” do Estado no PIB , num governo de Cavaco Silva).

Para além de inexperiência e de limitados conhecimentos da realidade, quando se diz que há muita gordura no estado para se cortar confundir-se-á possivelmente com ineficiências e burocracias a corrigir (evidentemente que não pode aceitar-se uma sinecura para Armando Vara numa fundação principescamente instalada para a segurança rodoviária, mas a verdade é que o ministério da administração interna entrava o funcionamento de entidades que devem existir para fiscalizar e dinamizar medidas corretivas para diminuição da sinistralidade rodoviária). E isso não se corrige com cortes cegos e sangrias. Nem a por a circular na Internet listas de observatórios que as pessoas não sabem para que servem. É o mesmo populismo de dizer que os engenheiros não são precisos num gabinete de estudos e desenvolvimento (pensarão as pessoas que as soluções são descidas de infusa, possivelmente graças à excelência das empresas e dos consultores privados que oferecem as suas soluções a administradores de empresas públicas ignorantes da essência do seu negócio). E que serve para deixar os ministros a falar a uma só voz, sem contradição.

Eis por que mais uma vez se deixa aqui registado que as soluções para esta crise não podem ser estudadas e decididas em secretismo, sem a participação alargada dos cidadãos e cidadãs. Os partidos que não estão no governo e a sociedade civil têm de participar. Apesar das conhecidas dificuldades portuguesas na organização de equipas mistas.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Banksters em julho de 2012

Banksters (nome de uma ópera de Nuno Corte-Real com texto de Vasco Graça Moura; agregação de bankers e gangsters)


Talvez que Christine Lagarde, no seu ignorado discurso de Tokio, de 7 de Julho de 2012, estivesse a pensar no Barclays, que por fora dos circuitos oficiais influenciou a taxa Libor, ou no HSBC, que branqueou dinheiro da droga, das máfias internacionais e offshores (e cujo CEO da altura é agora candidato a governador do Banco de Inglaterra), quando afirmou com ar sério que os bancos se deviam concentrar no seu objetivo social: financiar a economia e não servir-se dela ou pensar exclusivamente em lucros.

Não desejo nenhuma campanha com montras de vidros de bancos partidas à pedrada, mas quatro anos depois das especulações e das jogadas tóxicas dos seguros de créditos da crise do Lehman Brothers e afins, parece um exagero que as práticas abusivas dos bancos, desde os BPP e BPN até aos grandes bancos, continuem a prejudicar os cidadãos e cidadãs comuns.

Na Islandia foi encontrado o antídoto, mas admito que os próprios eleitores da união não queiram seguir o exemplo dos islandeses.

Mas ao menos podemos reivindicar a submissão das decisões do BCE à vontade dos eleitores, não? Isto é, nas campanhas eleitorais os partidos definirem as políticas que o BCE deverá ter de seguir em função dos resultados eleitorais.

Para que a gestão da coisa pública na Europa o seja na realidade, e não a gestão dos interesses empresariais (a propósito, um antigo governante da área do “Tesouro”, a pouco mais de um ano da cessação de funções, vai entrar na administração da GALP. Tudo legítimo, porque a GALP é uma empresa privada e não há obrigatoriedade de concursos públicos; mas choca a evidencia da promiscuidade, como diz Paulo Morais, de um meio em que são todos conhecidos e amigos, em entidades públicas e privadas).

Salvo melhor opinião, apesar da declarada simpatia da senhora Lagarde para com as ideias neo-liberais, a sua faceta humana é capaz de lhe estar a causar transtornos no seio do tanque de tubarões (a imagem é de Orson Wells a propósito da atividade financeira internacional) que o FMI parece ser. Mas aguardemos.

Um caso a merecer um estudo profundo - Vila Nova da Barquinha

Nota prévia – este blogue não pretende desmerecer da obra realizada no parque de escultura de Vila Nova da Barquinha e deseja deixar bem expresso que se trata de uma realização de elevado cultural, que deveria causar inveja a outras câmaras e à gestão do governo, primeiro por isso mesmo, por ser de elevado valor cultural, segundo porque foi realizada com tempo para o projeto amadurecer e ser concretizado, e terceiro porque para a realização se foram buscar dinheiros ao QREN (mais uma ez se provando que só se podem obter este tipo de fundos se os projetos estiverem bem elaborados). O que não impede que este blogue exprima as suas críticas.


http://camaraclara.rtp.pt/#/arquivo/265



O camara clara dedicou o seu programa de 22 de julho de 2012 ao castelo de Almourol, ao parque de escultura contemporânea de Vila Nova da Barquinha, e à escola primária (1º ciclo) da sua câmara municipal.

Sobre o castelo de Almourol a curiosa informação do especialista de história militar, Francisco Lobo, de que os castelos funcionavam em rede, comunicando entre si por sinais visuais ou de fumo.

Sobre o parque de escultura contemporânea, inserido no parque da cidade, é interessante a génese do projeto. O presidente da câmara contactou a fundação EDP e esta organizou um processo de seleção e convite a 11 artistas para documentar a arte pública desde os anos 60 do século passado, ao mesmo tempo que organizava o processo de candidatura ao QREN.

Recordo os processos de convite a artistas para fazerem as suas intervenções nas novas estações do metropolitano.
Sempre foi adotado o processo de escolha e convite do artista, normalmente por iniciativa da administração, e com parecer de um colega arquiteto.
Estações desenhadas por arquitetos de renome premiados internacionalmente ou decoradas por artistas gráficos, estão, decorrendo deste método, cheias de disfuncionalidades ou de desperdícios construtivos ou energéticos. Nalguns casos, apesar da subjetividade de qualquer critério de apreciação estética, as intervenções artísticas parecem ser de claro mau gosto ou de incapacidade de atingir um nível mínimo de qualidade.
Por vicissitudes várias, com elevada probabilidade por imprudência de um dos administradores do metropolitano, esteve-me atribuída por alguns meses a gestão da área em que trabalhava o colega arquiteto responsável pelo contacto com os artistas.
Foi um caso interessante, em que na posição intermédia em que me encontrava na estrutura hierárquica eu defendia a opinião exatamente contrária à opinião da administração e do colega executivo.
Não terá sido por isso que a administração diligenciou para me reduzir o meu nível de inervenção no metropolitano, mas o episódio , do meu ponto de vista, ilustra o modo provinciano praticado em Portugal de ir atrás do reconhecimento mediático, ou de perguntar às pessoas do círculo restrito de quem tem o poder decisório quais as figuras de maior valor, para serem convidadas.
Será um método primitivo de mecenato.
Que contraria inclusive as regras da contratação pública.
No caso das estações, a contratação de arquitetos famosos até tinha uma contraindicação: é que o metropolitano dispunha nos seus quadros de técnicos com capacidade para projetar as estações. No caso dos artistas, custa-me a encontrar argumentos que impedissem a realização de concursos de ideias e de seleção de interventores, a que pudessem concorrer jovens artistas.

É essa a crítica que faço ao parque de escultura de Vila Nova da Barquinha. Não foi aberto concurso a que pudessem responder jovens artistas (se o objetivo era representar a evolução, isso podia ter ficado no caderno de encargos como imposição aos artistas).

Longe de mim querer questionar os critérios de atribuição de fundos QREN, até porque as diretivas europeias prevêem mecanismos de exceção. Mas não posso concordar com o método do convite só a personalidades “conhecidas”. Porque se trata de um “conhecimento” subjetivo (embora se reconheça a legitimidade de “reserva” de algumas intervenções para artistas como Alberto Carneiro, responsável por anterior parque de Santo Tirso).

E para ser franco, parece-me acontecer aqui no parque de Vila Nova da Barquinha o mesmo que me pareceu ter acontecido com algumas intervenções artisticas nas estações que me pareceram pouco conseguidas (é conhecida aquela anedota sobre arte de rua passada numa cidade alemã: o camião do lixo levou no dia seguinte a escultura que tinha sido inaugurada no centro de uma rotunda). Embora me permita destacar as obras de Alberto Carneiro (pedra) e de Rui Chafes (metal).


Sobre a escola municipal do 1º ciclo, do arquiteto Aires Mateus, em colaboração com a universidade de Aveiro (mais uma vez com fundos QREN e com procedimento excecional para a contratação publica) estamos efetivamente perante uma obra de elevado interesse arquitetonico pela importância que foi dado ao cárter passivo da energia (isto é, o isolamento térmico e as caraterísticas do edifício permitem economizar energia de climatização). O projeto do edificio, com vários pátios interiores, exigiu muito tempo para a conceção, prática que não costuma ser seguida pelas empresas quando pretendem maximizar os seus lucros.

Este caso deveria ser estudado e aplicado em outras escolas (o próprio arquiteto criticou, não os desperdícios da Parque Escolar, mas os equívocos da regulamentação térmica dos edifícios públicos que pode conduzir ao exagero da climatização por parte de projetistas mais apressados).

Por tudo isto, trata-se de um programa do câmara clara a rever.

Pequena reflexão sobre sinistralidade rodoviária

Este blogue tem dado pouca atenção à sinistralidade rodoviária.
Não tem analisado as estatísticas da ANSR nem comentado os relatórios do observatório (é verdade que o senso comum anda muito zangado com os observatórios, mas a existencia dos observatórios tenta cumprir um dos requisitos  da segurança: a entidade que emite os relatórios não ser a mesma que gere o sistema em análise; mas pode sempre dizer-se que não há dinheiro para ter segurança).
No entanto, há dias, uma notícia destacou-se: que o número de crianças atropeladas no primeiro mês de férias tinha aumentado significativamente, e que os atropelamentos tinham ocorrido principalmente fora das passadeiras.

Existe como se sabe em Portugal uma grande dificuldade de interpretação dos textos.
O caso do Código da estrada é típico.
O Código diz que à aproximação de uma passadeira de peões o autoobilista deve abrandar para prevenir o caso de um peão ter iniciado a travessia.
Melhor fora que o código expressasse claramente que nas passadeiras a prioridade é dos peões.
Mas o código tambem diz que deverá existir uma passadeira de 100 em 100 metro, pelo menos.
Se a notícia diz que a maioria dos atropelamentos de crianças foi fora de passadeiras, deveria talvez dizer a que distancia se encontrava a passadeira mais próxima nesses atropelamentos.

Porque o que as pessoas não querem é reconhecer que a condução automóvel é feita a velocidades superiores à de segurança, considerando-se esta como a que permite parar a tempo no espaço livre,  visível à frente do condutor, e que por suposição razoável continuará livre (se uma bola atravessar o campo de visão, não será razoável admitir que o espaço continará livre) .

E não é apenas a questão da segurança que recomenda a redução da velocidade média dos condutores, é tambem a necessidade de poupança energética e de redução de emissões de gases com efeito de estufa.
Mas como convencer os condutores portugueses da necessidade de mudar de padrão de condução?
Deviam ser mais agressivos, os observatórios, para tentar mudar esse padrão, com campanhas publicitárias intensivas, em que ficasse bem clara a avaliação psicológica de quem conduz com agressividade, não guarda a distancia de segurança para o carro da frente,  que ultrapassa instintivamente quando vê o carro da frente parar sem cuidar se ele não está a dar passagem a um peão numa passadeira, etc, etc.

Para que não se descansem as consciencias com a imprudencia das criancinhas e dos pais que não as vigiam e as deixam ser atropeladas.

domingo, 22 de julho de 2012

José Hermano Saraiva

A Antena 2 homenageou José Hermano Saraiva retransmitindo a sua entrevista no programa 5ª essencia de 2004.
As suas ideias eram de fato muito interessantes.
Por exemplo, relativamente á publicação dos Lusiadas, atribui a permissividade da censura à oposição que o partido do cardeal D.Henrique, que dominava  a mesa censória,  fazia ao partido de D.Sebastião (não seriam grandes cabeças as luminárias do partido de D.Henrique, mas sabe-se o mal que fizeram ao país a clique, ou o gangue do partido de D.Sebastião).
Sobre a Înquisição, afirmou que provocou o vazio do pensamento português no século XVII, e que essa castração contribuiu em muito para as dificuldades da cultura portuguesa ao longo dos séculos, numa altura (século XVII) em que a Europa estruturava as bases do seu pensamento científico.
Sobre a Educação, que as medidas que um ministro toma só mostrarão os seus resultados 30 anos depois (parece-me exagero; julgo que o período será de 5 anos, ou uma geração de jovens; isto é, será possivel estudar uma correlação entre o insucesso escolar e o crescimento da criminalidade juvenil com uma desfasagem de 5 anos), mas esta afirmação serve para justificar o desinteresse dos governos pela Educação e pela Cultura; como dizia Hermano Saraiva, já no tempo em que foi ministro se dava mais importancia à iluminação dos estádios de futebol do que à racionalização dos programas de História.
De salientar, finalmente, as qualidades humanas, especialmetne a tolerancia, que levou Hermano Saraiva a protestar, por exemplo, contra a suspensão do programa de Herman José por motivos de fudamentalismo religioso.
É um bom exemplo para a sociedade portuguesa, para que a sua sociedade civil saiba organizar-se e saiba tomar decisões, recuperando o tempo perdido desde o século XVII no desenvlvimento das capacidades do seu pensamento, recolhendo e processando dados, fundamentando as propostas com cálculos, introduzindo a ciência na equação (como diz o professor Carvalho Rodrigues), deixando de privilegiar o entretenimento tolo das discussões balofas e superficiais.
Mesmo que se acrescente alguma imaginação ou colorido aos factos, como Hermano Saraiva tão bem sabia fazer.

sábado, 21 de julho de 2012

As visitas à nova estação de metro do aeroporto






Vê-se entusiasmo nas pessoas que apreciam a nova estação do metropolitano.

Pessoas de idade madura pegaram nas suas máquinas fotográficas e nos seus telemóveis com câmara e fotografam tudo.

Os turistas, ainda não muitos porque não é dada informação prévia, pelo menos por enquanto, sorriem agradados.

A intervenção do cartonista António, não tão extensa como originalmente se pensou, valoriza muito a estação.


A musica - Fernando Lopes Graça

a poesia - Alexandre O'Neill

A poesia - Sofia de Melo Breyner

a poesia - Fernando Pessoa
Na altura da decisão, não se cumpriram as regras rígidas da contratação pública e o artista foi simplesmente convidado; nem sequer se faziam concursos de ideias a que jovens artistas pudessem responder (foi assim que ópera de Sidney viu a luz do dia, por exemplo).


Julio Pomar - não será o seu melhor desenho; bastará ir à estação Alto dos Moinhos para comprovar, até no mesmo tema; mas compreendemos o autor

Sacadura Cabral e Gago Coutinho

Realizar é preciso - Duarte Pacheco

Aprofundar bem as conversas é preciso - Vitorino Nemésio
Regras de economia reduziram o âmbito da intervenção e foi decidido não contratar artistas convidados para as estações de Moscavide e da Encarnação.


este é o meu povo - João Abel Manta

este é o meu povo - Rafael Bordalo Pinheiro

poucas vezes falei com Carlos Paredes, mas terminal não, ele nunca quereria que uma coisa boa fosse terminal; as coisas boas são para se desenvolverem

Alvaro Cunhal, um dos quatro politicos dos tímpanos
Mas as caricaturas de António são já um museu que valeu a pena (ai que prazer não cumprir um dever, como dizia Fernando Pessoa, ou uma lei).


Talvez possamos dizer que a população da cidade, nestas coisas, toma o metropolitano como coisa sua e fica encantada com o valor estético inserido na estação.


horror, os carteiristas da carreira do elétrico 28 vão transferir-se para a linha do aeroporto?

Por isso escrevo aqui como o escravo grego que se punha ao lado general romano vencedor das campanhas guerreiras e ia repetindo durante o desfile que ele era humano e que de um momento para o outro cairia em desgraça.

Felicito o Metropolitano pela expansão ao aeroporto, mas recordo:



1 – o traçado da ligação Oriente –Aeroporto contem erros graves: curvas de raio pequeno (maior consumo de energia), desnível elevado entre as duas estações (idem), curvas e contra-curvas (idem; percurso mais demorado); estação de Encarnação demasiado profunda (desperdício em energia para a iluminação, ventilação e escadas mecânicas).

O humilde escriba, quando o anteprojeto do prolongamento foi apresentado, em 2003, bem objetou, propondo um traçado parcialmente em viaduto como o adotado na ligação Campo Grande-Odivelas e que ligasse o Campo Grande ao Aeroporto (com ligação a uma linha em viaduto ao longo do aeroporto até à Alta de Lisboa); Campo Grande em viaduto, Aeroporto subterrâneo e a ligação do Aeroporto ao Oriente em viaduto, com correspondência na estação Oriente.

Os colegas decisores, administração e o órgão de planeamento, mantiveram-se olimpicamente indiferentes aos meus cálculos e justificaram-se dizendo que já tinham obtido os financiamentos do FEDER com aquele anteprojeto e que já não se podia mexer no traçado.

Resultado: quem apanhar um autocarro da Carris da carreira do aeroporto no Marquês de Pombal, faz a viagem mais rapidamente do que se apanhar o metro.

Apesar de tudo, a viagem pelo metro tem a vantagem de ser mais eficiente do ponto de vista energético e com menos emissão de gases com efeito de estufa. É assim natural que a viagem seja a uma tarifa inferior à do autocarro, mas faz sempre pena ver um erro de traçado, com um permanente desperdício de energia (ATENÇÃO QUE A MESMA OBSERVAÇÃO, DE ECONOMIA DE ENERGIA, SE APLICA AO PROLONGAMENTO DO RATO OU DE S.SEBASTIÃO ATÉ ALCANTARA, ONDE A ESTAÇÃO TERMINAL NUNCA DEVERÁ SER ENTERRADA, MAS EM VIADUTO – poderá parecer absurdo falar em empreendimentos para que não há capacidade financeira, mas recordo que se trata de um investimento típico dos projetos europeus financiados pelo programa QREN para redução do desperdício energético e das emissões de gases com efeito de estufa devidos ao uso intensivo do transporte individual, isto é, não fazer nada é maior desperdício do que investir).



2 – O afundamento da estação Encarnação – o corpo técnico do metropolitano ficou surpreendido quando em 2005, ainda antes do contrato de construção dos toscos do prolongamento, foi decidido alterar o projeto da estação Encarnação, afundando-a 8 metros. Mais uma vez os órgãos decisores permaneceram insensíveis aos argumentos de economia de energia (maior consumo de iluminação, ventilação e escadas mecânicas, maiores custos de manutenção). Quem decidiu disse que não queria que as vibrações da passagem do metro incomodassem os moradores (a instalação da via férrea é feita com dois níveis de amortecimento por elastómero, e as medições que têm sido feitas, desde que esse sistema é utilizado, têm dado valores de vibração dentro dos limites legalmente aceitáveis), mas ficámos convencidos de que não era a estação que se pretendia afundar, era a própria galeria, para não inviabilizar, em futuro mais ou menos próximo, que se demolissem umas quantas moradias na vertical da galeria e no seu local se construíssem rentáveis blocos de apartamentos com caves de estacionamento bem fundas. Mas ninguém encontrou provas de que tivesse sido assim. Ninguém escreveu um requerimento a pedir o afundamento da estação por tal motivo.



3 – É curioso ver-se na estação aeroporto uma exposição sobre os fundos de coesão e sobre os benefícios obtidos na construção de infraestruturas de transportes. Numa altura em que o governo se assanha contra os investimentos públicos (mesmo que a contribuição nacional seja apenas de 15%) a pontos de parar o túnel do Marão, o Caia-Poceirão e alegremente transferir as mercadorias Sines-Hendaye para o QREN de 2014 a 2020 (ignorando a 3ª pioridade nos corredores transeuropeus ferroviários (precisamente o corredor Lisboa-França), será por condescendência magnânima, ou porque um governante fica sempre bem nas fotografias da inauguração de uma estação de metro? Será simplesmente o complexo provinciano da fita azul de uma inauguração? É que me parece muito fraca a probabilidade de uma réstia de luz na escuridão da incompreensão ministerial do fenómeno transporte.

fundo de coesão - 80 projetos - 1417 milhões de euros de investimento nacional;  3078 milhões de euros de investimento comunitário


4 – A contribuição dos fundos europeus para o prolongamento Oriente-Aeroporto leva-me também a discordar do lembrete que a comissão de trabalhadores do metropolitano de Lisboa desfraldou na inauguração, que os 210 milhões do empreendimento são dívida pública e não dívida do metropolitano, pelo que se desejaria ver um cheque desse valor entregue pelo governo ao Metro. Efetivamente, o expediente dos sucessivos governos transferirem dívida que é pública, para as empresas que exploram as redes de transportes, sobrecarrega as contas destas. Numa altura em que os juros crescem e tornam inexequível o pagamento das dívidas em tempo razoável, as empresas deveriam ser libertadas desse peso e concentrarem-se na redução do défice operacional (se li bem, o objetivo expresso no memorando da troika é uma redução de 23%, não a eliminação total) sem prejuízo de garantirem a segurança, a qualidade e a manutenção (o que na verdade pode inviabilizar o objetivo de défice operacional zero). Porém, a contribuição dos fundos europeus terá sido de 85%, pelo que , no caso do prolongamento Oriente-Aeroporto, o cheque reclamado seria apenas de 31 milhões de euros.



5 – A propósito de comissão de trabalhadores, gostaria também de chamar a atenção para outro facto curioso, e que, sendo prática corrente até aos prolongamentos de 1988 para o Colégio Militar e para a Cidade Universitária, só tinha voltado a acontecer, salvo erro, em 1995, com a desconexão da Rotunda. É que o custo total do empreendimento Oriente-Aeroporto ficou abaixo do valor estimado quando se lançou o concurso de toscos. Não se verificaram pois as jornalisticamente chamadas “derrapagens” de custos que tanta emoção causam nos zelosos críticos das contas públicas, mesmo que não percebam nada de obras (ou por isso mesmo). Poderia esperar-se que a empresa, reconhecida, se orgulhasse da gestão do empreendimento. Mas não – o metro despediu, neste país jornalisticamente acusado de ser tão rígido nas leis laborais, a gestora até julho de 2010 do empreendimento, já na fase final da obra de toscos e com a execução de acabamentos e instalação de equipamentos avançada. É verdade que o processo foi complexo, mas um técnico de uma empresa tem obrigações para com a administração da sua empresa que não deve iludir, sendo que nem todas as instruções recebidas o são sob a forma escrita. A gravidade das acusações contra a gestora do empreendimento não é compatível com o simples enunciado de culpas e exige provas claras de benefícios indevidos e quantificação rigorosa de prejuízos causados à empresa que não ficaram provados em tribunal. Esta é outra questão que eu gostaria de ver tratada pela comissão de trabalhadores.



O que deixo escrito não pretende acusar ninguém seja do que for.

Mas pretende, sem dúvida, que os órgãos decisores do metropolitano (ou da empresa prometida pela secretaria de estado dos transportes) e as entidades ligadas ao projeto de infraestruturas analisem bem a história deste empreendimento, desde os erros do traçado original, com os seus serpenteios inúteis geradores de desperdício de energia e de tempo, à escolha de soluções técnicas penalizadoras da manutenção, às dificuldades burocráticas das expropriações e de disponibilização dos terrenos para a obra, às ineficiências organizacionais que dificultam as tomadas de decisão e o trabalho de desenvolvimento dos projetos, etc, etc, etc.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Paulo Morais, Transparencia e integridade

Este "post" é dedicado a todos os que rasgaram as vestes, ou simplesmente ficaram chocados com as afirmações de Torgal Ferreira.

É de destacar a luta de Paulo Morais, ex vice presidente da câmara municipal do Porto e ex deputado do PSD, contra a corrupção em Portugal.

Corrupção - do latim corruptio, corruptionis - deterioração, decomposição física de algo, modificação, adulteração das caracterisiticas originais; por extensão, ato ou efeito de subornar alguem em causa própria ou alheia com oferecimento de dinheiro ou outros beneficios.

De acordo com esta definição, o simples facto do estilo de vida de uma sociedade se degradar já é corrupção e a constituição portuguesa prevê atos próprios para os seus orgaos de soberania quando as instituições não funcionam regularmente.

Claro que quem tem poder para fazer a sua propaganda justificará que a crise de degradação se dee aos portugueses terem vivido acima das suas possibilidades.
Ocultam, por exemplo, que a bolha imobiliária de valorização artificial dos terrenos terá correspondido a uma especulação de70% (isto é, o bem tinha o valor de 30% e era vendido por 100%) conforme diz Pauo Morais no video seguinte.
Ocultam por exemplo que o Metro doPorto pagou 8 milhões de euros por um terreno avaliado em 5 milhões. O procurador encarregado da investigação mandou arquivaro processo porque não era possivel encontrar o dinheiro em falta (?!).
Ocultam tambem a ocupação que mafia russa fez dos offshores da Madeira, conforme revelado no livro Suite 605 de João Pedro Martins, ed Smartbook.
Neste livro é colocada a hipótese de serem precisamente os especuladores que ontem provocaram a crise que serão os credores de amanhã.

Mas vejam o video - "o Parlamento é um centro de negócios em que existe conflito de interesses entre a fidelidade que os deputados devem aos seus eleitores e a fidelidade que devem às suas empresas". Paulo Morais dá exemplos e nomes.

http://videos.sapo.pt/kzZH4Ua8qCjuDPNQkL9a

Existe promiscuidade e identidade entre os deputados nas comissões parlamentares e os seus escritórios de advogados.
São os próprios deputados que fiscalizam as empresas a que pertencem, e isso verifica-se por exemplo com a comissão de acompanhamento do programa de assistencia financeira, de que fazem parte funcionários de bancos privados.Não admira assim que os juros que "os mercados" e os bancos impõem ao Estado sejam elevados.
Aliás, no conselho consultivo do Banco de Portugal estão funcionários de bancos privados.
A sociedade de advogados que fez o código de contratação pública já faturou 7,5 milhões de euros em pareceres a explicar a lei que fez (quem escreve este blogue assitiu estupefacto à sessão de apresentação por este escritório do código no Metropolitano de Lisboa ; estupefacto com o descaramento dos autores em fazerem uma lei sem se informarem previamente junto de quem lançava concursos públicos dos reais problemas; e teve a oportunidade de dizer ao apresentador que o código não o vinha ajudar, vinha até dificultar o seu trabalho; mas claro que vozes de burro não chegam aos céus).

Paulo Morais propõe a intervenção dos orgãos de defesa da constituição portuguesa e a melhoria do portal transparencia.
http://www.transparencia.pt/

Aplausos para Paulo Morais.

Aeroporto, aeroporto


Julho de 2012 – o aeroporto da Portela dá mostras de saturação. Mas os decisores, continuando a ignorar a lei do ruído, transposição de uma diretiva europeia, insistem na sua expansão. Consta que o pequeno caminho necessário para evitar o cruzamento da pista em “taxiway” está em construção, o que permitirá aumentar de 34 para 40 movimentos por hora (parece-me muito, mas não sou da especialidade), que as zonas de controle de passaportes e bagagem estão em remodelação, que se aumenta o parque de estacionamento de aviões e a capacidade dos tanques de combustível.

Sobre a questão dos tanques de combustível, este blogue acha extraordinário que se continue a despejar combustível através de camiões (recordo que, antes da Expo98, existia um pipeline entre a doca dos Olivais e a Portela). Do ponto de vista de riscos relativos à segurança das instalações e à segurança rodoviária das vias de acesso, parece-me intolerável.

Valor das obras em curso: 380 milhões de euros.

Movimento do aeroporto: época baixa 30.000 passageiros por dia; no Verão: 48.000 passageiros (520 descolagens e aterragens).

Salvo melhor opinião, o aeroporto da Portela está saturado e os pequenos aeroportos da região não resolvem o problema, mas enfim, os decisores acham sempre que poupam muito com o aproveitamento do que existe.





Os estaleiros de Viana do Castelo em 19 de julho de 2012

Volto ao tema para deixar registado o desabafo do ex-coordenador da comissão de trabalhadores dos estaleiros, no inicio do mandato da nova comissão. "Terrorismo psicológico" é o que tem sido a politica do governo, mantendo os estaleiros na inatividade e desvalorizando os ativos.
Um grupo de 16 trabalhadores dos estaleiros montou uma peça de teatro com as suas experiencias.
Seria interessante divulgar o texto.
Continua a ignorar-se o destino do Atlantida e do seu irmão mais novo por construir.
O governo informa que o caderno de encargos para a privatização, prometido para o mês passado, está quase, quase pronto (eu sei, por experiencia própria, que um caderno de encargos pode ser dificil e moroso de fazer; e que num caso destes é praticamente impossivel garantir que não haja erros de gravidade ampliada no futuro; mas o governo sabe que não recebeu mandato dos eleitores para privatizar desta maneira, e queo secretismo é uma forma de prepotencia).

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Falas de governantes - o esquerdismo de Alvaro Santos Pereira

Não resisto a citar o artigo de Alfredo Barroso sobre o esquerdismo de Álvaro Santos Pereira.


É uma pena o senhor ministro da economia ter de fazer o papel que faz no governo, porque até é um senhor com a capacidade de escrever uns livros e de analisar umas coisas, se bem que com alguma precipitação juvenil (exemplo do seu próprio blogue: afirmou que a produtividade decresceu a seguir ao 25 de Abril de 1974; teve porem de reconhecer que estava a esconder um facto justificativo essencial: o regresso de 500.000 pessoas das ex-colónias).

Mas enfim, são casos pessoais.

Alfredo Barroso citou extratos do livro do senhor ministro publicado em Abril de 2011, “Portugal na hora da verdade – como vencer a crise nacional”, pouco tempo antes da sua nomeação como ministro, a propósito da renegociação da dívida (coisa que, como se sabe, desde o princípio do memorando o PCP e o BE vêm defendendo; não por serem de esquerda, mas porque a realidade dos números é assim mesmo; a dívida não é pagável nesses termos):

-“para que seja sustentável, a dívida pública nacional tem de crescer a um ritmo inferior ao do crescimento económico” (deve ser por isso que agora desviou verbas do QREN de investimentos públicos para subsídios a pequenas empresas – mas também não é grave o “crime”: são 4milhões de euros a 8 anos)

- “de acordo com os cálculos do FMI, a dívida pública nacional, para ser sustentável, exige excedentes primários da ordem de 4 ou 5%” (na altura em que isto foi escrito até dava jeito, para sublinhar a incompetência dos senhores ministros das finanças que não identificaram atempadamente a ameaça)

- “face aos exorbitantes montantes da nossa dívida e ao crescente peso dos juros, é provável que um governo português se declare impotente para pagar a totalidade da dívida” (ui, caíram em cima do BE quando Francisco Louçã disse que tinha de se analisar se toda a dívida era legítima)

- “é muito possível que cheguemos a uma situação em que o Estado português se veja forçado a reestruturar a sua dívida pública junto dos credores externos e internos”

-“é provavelmente desejável que essa renegociação seja levada a cabo ao mesmo tempo que uma reestruturação da dívida de outros países europeus”

-“a reestruturação abrangeria não só um reescalonamento da dívida pública nacional (prazos) mas também a diminuição do valor da dívida (haircuts – o que não é o fim do mundo porque os empréstimos estão cobertos por seguros) … e englobar a divida pública detida pelos estrangeiros e a dívida interna, incluindo a renegociação das parcerias público-privadas” (parece que só esta parte foi autorizada).



Afinal, temos em Álvaro Santos Pereira uma pessoa que compreende os números e as forças em causa. Isto é, temos homem, em sintonia com o que o partido comunista e o bloco de esquerda sempre disseram a propósito da dívida.

Pese embora o senhor primeiro ministro persistir na sua obstinação juvenil, afirmando que quando tomou posse o país estava a dois passos da bancarrota e tinha necessidades de financiamento externo de dois dígitos, e agora só precisa de financiamento externo para 3,5% das suas necessidades (parece lógico, se aumentou a dívida, não só publica como privada, é natural que não precise de tanto financiamento externo).



Passe o aspeto anedótico da questão e a situação penosa para o senhor ministro no governo devida à dissonância entre o que está escrito no livro e o que o senhor primeiro ministro decide, penso que terá muito interesse relacionar tudo isto com duas questões:



1 – na mesma edição do DN, André Macedo recorda que o escudo desvalorizou, de 1980 até à entrada na moeda única em 2001, 244% face ao dólar. Perdeu-se assim, depois de 2001, a capacidade de melhorar as exportações e de compensar a inflação com o aumento de salários (e das taxas de juro). Por isso é natural que os senhores da troika insistam em reduzir os salários para o nível da Roménia e Bulgária, já que não se pode desvalorizar o euro (não poderá mesmo? desvalorizar-se um bocadinho o euro e aumentar-se ligeiramente a taxa de juro?  achava bem que os senhores do BCE pensassem nisso). De acordo com o teorema de Fermat-Weber, isto não tem solução com economias nacionais mais fracas em regime de economia global aberta (união fiscal, união bancária, união política, precisam-se, como diz Christine Lagarde no ignorado discurso de Tokio) . Isto é, basta uma economia de uma nação da união europeia crescer para absorver parte desse crescimento a uma economia mais fraca (penso que os senhores economistas, especialmente os académicos, deveriam estudar melhor o aspeto físico deste teorema, tão importante como a lei dos rendimentos decrescentes – aquela que diz que convem comprimir a economia até ela chegar a um ponto da curva dos rendimentos tão baixos que a taxa de crescimento possa ser elevada). E que o problema não se resolve culpando o Estado social, porque a dívida privada das famílias e das empresas (bancos incluídos) é superior à publica. (Eu diria que a solução não pode vir só de dentro, por mais heróico que seja o esforço das empresas que exportam e as que produzem para substituir as importações; bem podia perder-se o complexo de contra empresas públicas; as empresas públicas podem planear mais facilmente as coisas de forma integrada, não só associando-se e instalando empresas estrangeiras em Portugal, como fazendo isso no estrangeiro com empresas portuguesas; é a diplomacia económica, bem longe da teoria neo-liberal…e as diretivas europeias até têm exceções que podem, e devem ser invocadas, por mais dificuldade que os nossos jurídicos tenham em as compreender – condições excecionais para a instalação de centrais solares, por exemplo)



2 – ainda na mesma edição do DN, é citado um economista alemão recentemente saído do BCE por ter discordado da compra de dívida pública (se o homem discordou disto, o que discordaria ele das eurobonds e da união fiscal e bancária?), Jurgen Stark. O senhor afirmou que a zona euro deveria ser reduzida aos países economicamente estáveis e que as economias mais fracas deveriam sair. Na verdade, se não admitirmos a união bancária e a união fiscal, temos de dar razão ao homem. A questão é que a ideia da união europeia era mesmo a integração. E estas opiniões fazem lembrar a teoria dos 29% de alemães que votaram no partido nazi e lhe deram a maioria. E também fazem lembrar o perdão da dívida alemã correspondente à segunda grande guerra (como se calcula a dívida de um exército que ocupa Tessalónica e faz embarcar sem regresso 100.000 civis gregos?). Mas atenção que este blogue, quando fala nestas coisas, lembra sempre que a maioria (mais de 80%) dos colegas alemães com que trabalhou e dos turistas alemães com que fala no Algarve são pessoas civilizadas. Não há razão para não estarmos todos na mesma união europeia. Os senhores Schaubler e Stark não são suficientes para isso. Pelo menos por enquanto.

Lei dos rendimentos decrescentes - o risco de uma política ascética é o de provocar uma recessão que coloque a economia na zona da esquerda de rendimentos descrescentes, onde os investimentos não são reprodutores e são portanto inuteis 




Misturando anacronicamente a crise com a estatística do IRS

A Autoridade tributária e aduaneira (como gosto desta designação, autoridade tributária ….) publicou os dados estatísticos do IRS de 2010.
Ver:
http://info.portaldasfinancas.gov.pt/pt/dgci/divulgacao/estatisticas/estatisticas_ir/

Distribuição do rendimento bruto pelos diferentes escalões e dimensão dos agregados

IRS de 2010
Resulta evidente a contribuição maioritária da classe média e a pequena dimensão dos agregados com maiores rendimentos (isto devia recomendar prudência a quem queira aumentar impostos sobre rendimentos de trabalho, mas enfim).
Outros valores:

Total de agregados --------------------------------------------- 4,72 milhões
Rendimento bruto total declarado  ---------------------------- 86,3 mil milhões de euros
crescimento do rendimento de 2009 para 2010 ----------------- 1,43%
cerca de metade dos agregados não têm rendimentos suficientes para a liquidação
apenas 29% de empresas pagaram IRC (e espera-se que sejam as empresas privadas a retomar o crescimento?)



Misturemos agora, de forma anacrónica, porque estes rendimentos são de 2010 e a intervenção ascética da troika é de 2011, com alguns indicadores obtidos na publicidade e nas notícias de Julho de 2012.
Como o nome mostra, indicador aponta uma tendência de mercado, a existência de uma procura que responda à oferta:

1 – anuncio da Mercedes: modelo SUV, GL 350 Bluetec 4 Matic , 350 CV ,
                                                                          7,4 l/100km ,      101,100 €
                                        modelo SUV 63 AMG V8 biturbo,        557 CV,
                                                                        12,3 l/100km ,       186.100€

2 – anuncio da Emirates: dois bilhetes de primeira classe (oferta do segundo como promoção)com limusine e hotel no destino:

Shangai ou Dubai ----------------- 3.000€
Sidney ---------------------------- 4.500€

3 – existem 14,6 milhões de notas legais em circulação em Portugal; foram retiradas de circulação, em 2012, 6.500 notas falsas


Como diz um programa da CNN ou da Euro News, não me recordo,  sem comentários.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Entrevista do senhor secretário de Estado da Cultura em 15 de julho de 2012

Este blogue é muito crítico para os últimos governantes da Cultura, especialmente o atual. Ver:
http://fcsseratostenes.blogspot.pt/search?q=cultura

A entrevista que o senhor secretário de Estado concedeu ao DN em 15 de Julho de 2012 não tranquiliza.

Salvo melhor opinião, ficou muito por dizer na entrevista, e escusava de ter dito que “o senhor primeiro ministro tem vindo a conhecer mais profundamente os problemas que afetam o universo da cultura; é uma pessoa muito sensivel às artes e ao património”.

Porque não justificou a reorganização em curso e porque achou que ainda se pode cortar mais na Cultura (claro que pode, pode sempre ficar-se mais longe do objetivo de 1% do orçamento de Estado).

Anunciou que o programa Europa criativa injetará 1800 milhões de euros na cultura, mas não se vê uma proposta de organização participativa de todo o país nesse esforço.

Devia estar a assistir-se a uma mobilização do país, de todo o país.

Teme-se que seja uma organização monocromática, da cor do governo e do senhor secretário de Estado, que contratará possivelmente o maestro Vitorino de Almeida para animar anúncios televisivos.

Secretário de Estado que é um excelente escritor (como Gabriela Canavilhas era excelente pianista e por aí se ficava, se excluirmos critérios de apreciação estética visual) mas que se fica por aí. Como parece confirmar-se pela reestruturação em curso: destaque a coisas dos livros, diluição dos arquivos e museus em grandes direções gerais (não seria preferível baixar custos mantendo as direções gerais anteriores?). E pelo despejo de tudo que meta palcos num ACE (agrupamento complementar de empresas), desde a ópera do S.Carlos ao bailado do CNB e aos teatros nacionais. Ignoram o senhor secretário de Estado e a pessoa sensível que toma as decisões que a ópera é mesmo subversiva, que continua a ser subversiva (John Adams, Nuno Corte-Real, António Pinho Vargas). Ou não ignoram e por isso decidem assim.

Decidem mal.

Eu lembro-me de ver o Coliseu dos Recreios cheio nas récitas de ópera.

E vejo no canal Mezzo produções de ópera por essa Europa fora, não necessariamente nas capitais.

Parafraseando Mário Soares a propósito do governo, o senhor secretário de Estado não sabe o que anda a fazer.

E para que não diga que só faço críticas destrutivas, aqui lhe deixo a sugestão: enquanto a RTP é pública, obrigue-a a passar às segundas feiras uma peça de teatro (não, não não me refiro a telenovelas, mas como nos anos 60 do século passado), daquelas dos Ibsen, Strindberg, Tchekov, Beckett, Pinter, Ionesco, e mais modernos, claro. E as privadas, se quisessem, também poderiam passar teatro às segundas feiras, e se não quisessem, poderiam pagar uma taxa para licenciamento da incultura que emitem, como as industrias poluidoras devem pagar as emissões de gases com efeito de estufa.
Ajudava a compensar o défice (público).

PS em 19 de julho de 2012 - os dados sobre as bizarras fusões de direções gerais (racionalizadoras do ponto de vista económico, irracionais do ponto de vista cultural) retirei-os de um artigo de Isabel Pires de Lima, ex ministra da Cultura.
De um artigo de opinião do DN de hoje sobre a crise moral e a politica cultural, em que o autor recorda o conceito de Marx de que  a primeira vez que o erro acontece na História é uma tragédia, mas a segunda vez é uma farsa, a propósito da incultura e do percurso académico de José Sócrates e de Miguel Relvas, retiro uma citação de Manuel Maria Carrilho, ex ministro da Cultura: "...é preciso recuar bem para lá do 25 de abril para se encontrar uma combinação tão grotesca de incompetencia, ineficácia e incuria, como a que nesta área (politica cultural) caracteriza o atual governo".
E quem sou eu para contrariar Manuel Maria Carrilho?









Mais um aparente paradoxo da democracia e a opinião do bispo

Será mais um paradoxo da democracia?


A classe politica dirigente da União Europeia impõe como sagrada a regra da concorrência como defesa das empresas de iniciativa privada.

Quando se diz sagrada, quer dizer que exclui a organização das empresas noutras formas que não sejam SARL, como empresas públicas, mútuas, parcerias, cooperativas (a falta que mais se faz sentir é a cooperativa).

Penso que essa exclusão não está escrita, mas na prática é imposta a todos os países da união.

Tal regra não parece que esteja inscrita também nos programas dos partidos políticos que detêm a maioria dos votos.

Se é assim, o eleitorado não deu o mandato a ninguem para impor o predomínio das empresas de iniciativa privada.

Isto é, quando se vai a votos o eleitorado exprime a sua vontade noutros centros de interesse, neste não.

Por exemplo, nos países escandinavos não se põe o problema de “reduzir o peso do Estado”.

O sistema de segurança social funciona, quer o governo seja de direita ou de esquerda.

Poderá ser que na origem deste facto esteja o célebre indicador de alfabetização da população: XVI foi o século em que metade da população escandinava atingiu a alfabetização; na Alemanha e na Inglaterra isso aconteceu no século XVII; seguiu-se a França no século XVIII, a Espanha no século XIX e Portugal no século XX.

Talvez por isso seja difícil em Portugal interpretar corretamente a ideia que outro exprimiu.

Nesta perspetiva, é estranho que a União Europeia continue alegremente a querer impor a liberalização absoluta.

Por exemplo na energia.

Há razões técnicas contra a dispersão por várias empresas. A principal, na distribuição, apesar da normalização, tem que ver com a gestão das redes e os riscos de deslastragens conduzirem a apagões progressivos.

No caso da produção, a liberalização e a fraqueza da planificação pública dificultam, e de que maneira, o estudo e a implementação das medidas de libertação da dependência do petróleo e de redução das emissões de CO2.

Os transportes são outro exemplo em que a liberalização contraria a segurança (as empresas privadas têm tendência para reduzir custos de manutenção, embora gostem de propalar os ganhos de produtividade, e de formação do pessoal) e a planificação integrada e estruturante de regiões. Igualmente dificulta a redução de emissões de CO2, apesar das taxas de externalidades que vem impondo aos aviões e aos camiões.





Retomando o tema, este aparente paradoxo da democracia consistirá no apoio cego a empresas privadas como um vicio escondido, oculto nas campanhas eleitorais, que se opõe ao progresso em muitos domínios da economia.

Nesta perspetiva, carece de análise profunda a insistência da troika na privatização da CP Carga, quando já existem duas empresas de transporte privado que parece darem-se bem com o negócio, a Takargo e a DB Schenker (2 comboios semanais entre Portugal e a Alemanha).
Idem a insistencia em impor companhias aéreas "low-cost" , altamente produtoras de emissões de CO2, beneficiando de infra-estruturas que sempre foram públicas (isto é, estão retirando a propriedade aos contribuintes, sem que, provavelmente, pelo menos 2/3 dos eleitores inscritos concordem - é uma figura de expropriação em sentido inverso)

Ainda nesta perspetiva, a imposição de privatizações será claramente a execução de um mandato que o eleitorado não conferiu aos políticos e aos financeiros, e será uma medida prejudicial para o interesse público, pelo menos nos exemplos citados.

E, se tenho razão, será exemplo de um assalto de um grupo de representantes de grupos económicos ou de académicos fundamentalistas das ideias de Hayeck e Friedmann para retirar da esfera pública a propriedade de meios de produção e entregá-las a privados.

Se tenho razão, também o bispo Torgal Ferreira terá, quando fala em gangues no atual governo.

E essa afirmação, minha e do bispo, que não pode ser classificada como proclamação da verdade (porque ninguém sabe o que é a verdade, nem mesmo a Igreja; apenas se pode dizer que, se é como eu penso, então as medidas do governo são prejudiciais para o interesse público; mas não há garantia de que as coisas sejam como eu penso, nem que sejam como o governo pensa), enquadra-se perfeitamente no comportamento tido no caso do BPN (também pelo governo anterior) no sentido da desvalorização progressiva do bem a privatizar até ser entregue ao grupo privado.



É curioso verificar que a estratégia do atual governo de desvalorização dos estaleiros de Viana do Castelo, nomeadamente a anulação do concurso para os motores e a chapa dos asfalteiros venezuelanos, se enquadra perfeitamente na ideia de um gangue que na campanha eleitoral não ocultou que ia privatizar empresas (aliás, nem deu importância a este assunto, uma vez que insistia no corte das despesas públicas e na taxação do consumo), mas ocultou que o ia fazer após as desvalorizar e que, uma vez no poder, tudo faria para desviar os recursos para empresas privadas .

Exemplo disso é o desvio de fundos do QREN de investimentos públicos para subsídios a empresas privadas.

Se foi assim, nem seria necessário apresentar queixa contra os governantes envolvidos, na desvalorização para privatização ou no desvio de fundos QREN do público para o privado.

Para isso existe o Ministério Público.

Mas é apenas uma hipótese, ou várias, claro.

PS em 19 de julho de 2012 - o porta voz da conferencia episcopal portuguesa classificou as afirmãções de Januário Torgal Ferreira como "a nível individual".
Mas também afirmou aue a Igreja deve proclamar a verdade. Já passaram uns dias e nenhuma hierarquia da Igreja veio desautorizar  Torgal Ferreira. Recordo até a afirmação de Jorge Ortiga, presidente da comissão pastoral social: "os politicos deveriam ter a coragem de ler os numeros e tirar consequencias". Apesar de não ser crente, quem escreve este blogue tem a esperança de que não aconteça o mesmo que aconteceu em 1971, quando o cardeal de Lisboa, António Ribeiro, preferiu não tomar partido quando um grupo de católicos, com o padre Alberto, se manifestou na capela do Rato contra a guerra colonial. Como dizia Kipling, citado pelo meu professor de sociologia, Pereira Ataíde, a neutralidade nestas coisas é um crime (até parece Torgal Ferreira a falar, não é?).
Afirmações de Torgal Ferreira:
"Há jogos atrás da cortina, habilidades e corrupção. Este governo é profundamente corrupto nestas atitudes a que estamos a assistir... o problema é civilizacional, porque é ético. Não acredito nestes tipos, nalguns destes tipos, porque são equívocos, porque lutam pelos seus interesses, têm o seu gangue, o seu clube, pressionam a comunicação social, o que significa que os anteriores que foram tão atacados, eram uns anjos ao pé destes diabinhos negros - alguns - que acabam de aparecer"







Marcha negra - a imensa ignorancia que nos une

Marcha negra dos mineiros ameaçados pelo desemprego até Madrid, onde ninguem do governo se dignou falar com eles.


extrato de um desenho de André Carrilho no DN

Mais um exemplo de como se está deslocando a linha de separação entre os rendimentos do trabalho e os rendimentos do capital, no sentido favorável a estes últimos.
E de como é enorme a ignorancia.
O carvão é um bem precioso por ser uma fonte de energia primária.
Que reduz a dependencia do petróleo e as importações.
Já está disponivel tecnologia que reduz as emissões de CO2 pela sua utilização.
Assunto já falado em
http://fcsseratostenes.blogspot.pt/2012/07/10-tecnologias-para-salvar-o-planeta.html

O carvão, atualmente, pode ser utilizado em centrais de ciclo combinado e gaseificação integrada (IGCC), com captura do dióxido de carbono do tipo "pré-combustão" - aquecimento prévio do carvão em atmosfera pobre em oxigénio e produção de gás para a primeira turbina; mistura com vapor dos gases libertados numa segunda turbina , de vapor


Outro método: captura do dióxido de carbono do tipo "oxi-combustão" - aquecimento prévio do carvão em atmosfera rica em oxigénio

Outra possibilidade: produção de hidrogénio para substituição da gasolina e gasóleo em veículos elétricos com pilha de combustível:   o carvão é exposto ao vapor sob pressões e temperaturas elevadas com regulação do ar (processo de reforma); forma-se monóxido de carbono e hidrogénio.


Por outras palavras, poupar uns milhões de euros nos subsídios à extração do carvão (a propósito, já terão acabado os subsidios à produção de carvão na Alemanha?) significa dispender mais na importação de petróleo e agravar as emissões de CO2.
Mas isso, sabe-se há muito, é uma caracteristica da ignorancia (e obviamente, da correlação de forças dos grupos de poder económico).

PS - "A ignorancia que nos une" é uma frase de Pedro Paixão, no seu livro "Rosa vermelha em quarto escuro"

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Greve dos médicos

Palmira tem 30 anos.
Fez o internato num grande hospital de Lisboa.
Quando chegaram os cortes (e não foi com o atual governo) viu-se sozinha no banco de urgencias noturnas.
Sozinha significa sem um colega mais velho.
Quem fez o corte não faz ideia do crime que é provocar uma situação destas (aprender com os próprios erros significa aqui aprender à custa do sofrimento alheio).
De modo que optou por trabalhar no Canadá.
No hospital de uma cidade em que não existe comunidade portuguesa.
O Canadá agradeceu muito.
Não teve de gastar dinheiro na formação de uma médica.
Países ricos precisam do contributo de países mais pobres para ficarem mais ricos, embora já estejam ameaçados pela drenagem dos banqueiros como Victoria Grant, a menina de 12 anos já demonstrou.
Palmira passa férias em Portugal, poucos dias, e quando chega ao Canadá fala com a mãe por Spyke.
Deixa o Spyke ligado, para ouvir os ruidos da casa, a mãe a fazer o jantar, o pai a chegar a casa.
Não é saudável.
Como qualquer psicólogo pode confirmar.
Mas também não é saudável um país fazer isto.
Falta um psicólogo geral da República, para prescrever o tratamento.

Esplendor na relva

Esplendor na relva. Relvado do Palácio dos Coruchéus, Lisboa.

escultura de Dorita Castel Branco (1936-1996), escultora e professora liceal de desenho

A luz que brilhava tão intensamente 
desapareceu agora dos meus olhos,
e embora nada possa devolver os momentos
de esplendor na relva, de glória da flor,
não sofreremos; antes encontraremos
a força no que restou

poema de William Wordsworth, sobre o qual William Inge baseou a sua história de um amor frustrado, com a depressão de 1929 como fundo, tema do filme de 1961 de Elia Kazan com Warren Beatty e Natalie Wood

quarta-feira, 11 de julho de 2012

A crise vista da praia



É possivel que as cidadãs e cidadãos que passavam férias no estrangeiro se tenham transferido em parte para as praias do Algarve, compensando quem deixou de vir.
O gerente do bar, que o tem aberto todo o ano, exceto dezembro, acha que a afluencia não diminuiu, mas quem está poupa muito mais.
As receitas do bar e restaurante diminuiram, e quem costumava alugar os apartamentos do dito gerente tanto lhe pediram, que alugou por menos.
É a sabedoria das multidões   a ajustar a procura à sua capacidade.
Nem toda essa procura se reflitirá no IVA (quem passa fatura do aluguer de um apartamento?), mas isso não é com admissões de inspetores zelosos de cobrança fiscal que se resolve.
É com uma ligação mais franca, mais amigável, como se diz em informática, entre a população e os serviços oficiais.
Pena, os ditos serviços oficiais não perceberem isso,  que num país onde as estatísticas se fazem com dados pouco fiáveis de pouco valem campanhas para pedir faturas e ameaças para quem não pague o IVA.
Aumentaria a receita, se os ditos serviços oficiais percebessem isso, se não estivessem polarizados pelos grandes hoteleiros do meio.
Salvo melhor opinião, claro.

Tiago, vendedor de bolinhas na praia e a nova proposta de lei eleitoral

Tiago, vendedor de boas de Berlim e de pasteis de nata e de amendoa, no verão de uma praia do Algarve, informa-nos, confiante, de que concluiu o segundo ano de Psicologia.
Financiou o curso secundário com o seu trabalho de jardineiro nas vivendas algarvias, e agora tem uma bolsa.
Chega o verão e tem este trabalho em tempo parcial.
Altero-lhe o nome para que não o descubram os inspetores do fisco admitidos este ano, a contra corrente da restante função púbica, zelosos investigadores do último cêntimo que o particular mais necessitado deve ao fisco.

Do alto da nossa intelectualidade, pensamos comentar por que não escolheu uma carreira mais técnica, mais ligada à realidade produtiva.
Mas já Tiago atalhava, que gostava muito de Psicologia e que isto não podia continuar assim e que há-de melhorar.

Confiante, Tiago, e com razão.
Primeiro porque Psicologia, desde que ganhou os reforços da etatística e da neurologia instrumental, permite tratsr dados cientificmente,m isto é, conhecer menos mal a realidade e prescreer tratamentos.
Segundo, porque a confiança de um jovem vale mais, muito mais do que os mesmos verbos na boca dos senhores ministros das finanças, que não acharam melhores verbos para as alterações do "ajustamento" da troica  do que "melhorar e favorecer".

Perante o esforço de jovens que estudam e trabalham, só podemos desprezar os iupis que tomaram o poder partidário e através dele acederam ao governo guiados pela bíblia de Hayeck e Friedman.
Mas por isso mesmo tambem a Psicologia é essencial, para percebermos as motivações dos iupis, a sua capacidade de fugir à realidade e privilegiar as suas ideologias, como, por exemplo, a propósito da nova lei eleitoral.

Querem que os executivos camarários sejam monocromáticos? Não aprenderam nada com os 48 anos do protofascismo português? nem com o estalinismo?
Não se trata de uma discussão ideológica.
Todas as disciplinas de Psicologia atualizadas sabem que um grupo em que predomina uma só opinião tem muito maiores probabilidades de falhar a atuação correta do que um grupo com diversidade (se não acreditam em mim, vejam o "Sabedoria das Multidões" de James Surowiecki).
E não venham com  a possibilidade da assembleia municipal poder "derrubar" o executivo. Vejam a discussão entre comadres do mesmo partido a propósito da administraçao do metropolitano do Porto (ainda não aprenderam que o critério de nomeação não deve ser ideológico, mas técnico?) . A assembleia municipal apenas mudaria clientes do mesmo partido.
Já há exemplos de que é possivel vereadores de cores diferentes entenderem-se no serviço das suas comunidades, não é preciso mudar o método de Hondt.
Os vereadores da oposição não têm de fazer oposição, nem os vereadores da maioria de impor o seu programa eleitoral.
Democracia é ir a votos e proceder com o contributo de todas as sensibilidades.
Para melhorar a cooperação entre todos, lá estará a Psicologia para fornecer meios.
Mas para isso é preciso que os Tiagos concluam os seus cursos.
Esta proposta de lei eleitoral é, graças aos conhecimentos de Psicologia, um verdadeiro retrocesso na gestão da coisa pública e a sua simples discussão já é um facto que um psicólogo facilmente classificará como grave e indicador de disfuncionalidade organizacional.
Por razões de cidadania não podemos calar isso.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Pequena crónica de 9 de julho de 2012 - dívida pública, das empresas, dos bancos

Graças ao DN, tomo nota da crónica de Carlos Carvalhas que publicou no dia 9 de julho e de factos estatísticos nela contidos.
O PIB de 2012 estará ao nível do PIB de 2002.
O investimento caiu de 2002 para 2012 42%.
Entre 1996 e 2011 as transferencias de verbas da UE para Portugal foram inferiores à saída de lucros, dividendos e juros. Isto é, saiu mais dinheiro do que entrou (a culpa é das regalias dos trabalhadores?! ainda acham boa ideia privatizar empresas que dão dividendos?).
O que configura uma situação análoga à da colonização de um território.
O balanço das transferencias só em 2011 pende ainda ligeiramente para as transferencias da UE para Portugal.
Os elevados valores dos juros (34.000 milhões de euros até 2026?) e o curto espaço de tempo dos empréstimos da troica são mais desfavoráveis do que para os outros paises intervencionados.
Valores aproximados das dívidas:
- pública (incluindo empresas de transportes e autarquias) ..... 130% do PIB
- das empresas ....................................................................  139%
- dos bancos ........................................................................   35%

Na mesma edição, Joseph Stiglitz insiste que os défices públicos foram mais consequencia da crise internacional do que causa.
Pensando na pequenez comparada da nossa economia antes da crise, com um PIB da ordem de grandeza do da Irlanda, mas que tem metade da população, da ordem de grandeza de metade do PIB da Grécia, que tem quase a  nossa população, como têm coragem os nossos comentadores e economistas engravatados, de atirar as culpas da nossa crise para as "regalias" dos trabalhadores e para as dívidas da classe média?
Uma causa tão pequena não pode ter um efeito tão grande sem fornecimento de energia externa (responsável pelo efeito de amplificação).
É da Física.
Deviam estudar Física, os senhores comentadores e economistas engravatados.
Acreditariam no que diziam?
Será por serem tão sinceros que agora estão tão surpreendidos com o crescimento do desemprego  e com o declínio da receita fiscal?

Entretanto, num comunicado do senhor Draghi, do BCE, no mesmo dia 9 de julho, o senhor reafirmam que Portugal está no bom caminho, que já fez reformas estruturais no mercado laboral (eu diria que estrutura é outra coisa, mas deve ser deformação profissional) e já tomou decisões no setor dos transportes (quais? quais? a fusão dos metros e autocarros? já conseguiram? e a questão da divida das empresas publicas spbre a qual o senhor secretário de estado dizia que tinha propostas para apresentar à troica em maio? terão dito ao senhor Draghi que havia propostas que ainda não foram concretizadas? ou por outras palavras, sabe o que estão a fazer e a dizer?)
Mas não vale a pena discutir sobre o leite derramado.
Eu diria que valeria mais a pena  monitorizar, como agora se diz,  por exemplo mensalmente, a evolução da dívida pública, da dívida das empresas, e da dívida dos bancos, para onde está a ir o dinheiro...
Para atuar onde a intervenção tenha mais efeito (onde possa ter um fator de amplificação...)
E investir em atividades produtivas, para redução dos 80% das importações de energia e de alimentos...

sábado, 7 de julho de 2012

Variações sobre o tema do coeficiente de Gini

O coeficiente de Gini , já por diversas vezes citado neste blogue (ver http://fcsseratostenes.blogspot.pt/2010/10/conjetura-do-economista-envergonhado.html ) e raramente pelos senhores governantes, pelos senhores comentadores ou pelos senhores bem postos que tentam , por vezes com assinalável exito, fazer a cabeça das pessoas, é um dos elementos tomados em consideração pelas agencias de notação financeira para as suas classificações. Quanto maior o coeficiente, isto é, maior a desigualdade de distribuição dos rendimentos de um país, maior a tendência para uma taxa de juro mais alta nos empréstimos aos respetivos governos.


É precisamente este o tema de um excelente artigo no dinheiro vivo do DN de 7 de Julho de 2012 de Luís Reis Ribeiro: “Plano da troika piora desigualdade, ameaça impostos e faz subir juros.” (http://www.dinheirovivo.pt/Economia/Artigo/CIECO051992.html?page=0  )

Segundo um estudo do National Bureau of Economic Research (que certamente não será acusado de estar infiltrado de economistas marxistas, embora o Tea Party possa achar que sim), em Portugal “existe uma forte correlação negativa entre a desigualdade de rendimentos e a base tributável”, isto é, “a uma desigualdade elevada corresponde menos receita fiscal, menos capacidade orçamental e taxas de juro da dívida pública mais altas”.

Antes deste estudo, o Observatório da Situação Social da Comissão Europeia (é, os observatórios gastam dinheiro dos contribuintes, mas destapam as carecas aos governantes, e assim não admira a senha com que por cá querem cortar na despesa pública eliminando os observatórios portugueses, como o da saúde, por exemplo) já tinha avisado que as políticas de austeridade tinham afetado os grupos mais pobres da base de distribuição do rendimento (a recente notícia de passar a contabilizar no cálculo do RSI o subsídio das rendas de habitação social como rendimento das famílias, ao mesmo tempo que baixam as prestações da Euribor, veio ilustrar isto com dramatismo, agravando as desigualdades).

O senhor Branko Milanovic, economista chefe no Banco Mundial (que não deve também ser um economista marxista) vem explicar que “os cortes da despesa pública na saúde, na educação, o aumento dos empregos temporários e do desemprego são uma fase de desigualdade crescente”.

E que os efeitos das medidas de austeridade podem afetar seriametne a receita fiscal e a um agravamento das taxas de juro da dívida pública.

Que é como quem diz, está-se a tratar o doente com o medicamento com o efeito contrário ao pretendido. É como entrar em derrapagem e virar o volante no sentido contrário ao da derrapagem; o atrito das rodas da frente aumenta relativamente ao pouco atrito das rodas de trás que assim ficam sujeitas a um momento de derrapagem maior (deve-se voltar o volante no sentido da derrapagem para diminuir o atrito das rodas da frente, contrariando o momento da derrapagem).
É a própria receita que induz o agravamento do efeito que quer combater, e é a própria comissão europeia e o Banco Mundial que o dizem.
Pena, muita pena mesmo, que os senhores bem postos que aparecem na televisão a explicar tudo não falem claramente disto, que a desigualdade e a iniquidade social é uma coisa que tem de se combater, sem recorrer ao expediente vivaço e chico-esperto de chamar preguiçosos aos pobres, aos funcionários públicos, aos professores, aos enfermeiros, etc, etc., para tentar justificar as diferenças de rendimento.

Nota – Também tenho uma certa pena da utilização que tem vindo a fazer-se da palavra austeridade. O conceito em si de austeridade até pode ser simpático, no sentido de sobriedade, de não desperdiçar energia em atividades supérfluas. Mesmo em período de crise deve investir-se não só em investimentos com retorno, mas em atividades culturais e de lazer. Havia concertos em Leninegrado, durante o cerco da Wermacht. Austeridade, embora venha do grego (outra palavra grega) rude, severo, rigoroso, amargo, não deveria querer dizer (e não quer) privação de bens essenciais.