sábado, 31 de dezembro de 2011

A superministra espanhola

(A propósito de Soraya Saenz, vice presidente do governo, 
            anunciando medidas de austeridade em   Espanha, 
                                               em 30 de dezembro de 2011)



É dificil ao espetador do noticiário na TV concentrar-se no que a senhora diz.
Haverá razões que dispersam a atenção, mas com algum esforço ouve-se claramente a ministra bonita dizer que não haverá cortes nos salários e que serão chamados os cidadãos e cidadãs de maiores rendimentos a pagar mais.
E que principalmente serão os rendimentos do capital os mais afetados.
Este blogue não tem simpatia nenhuma por algumas das medidas que o novo governo espanhol está tomando e que pensa ser um retrocesso do ponto de vista social, mas neste caso, parafraseando o cardeal de Julio Dantas, como é diferente a austeridade em Portugal.
                                             
Impressionante interpretação por André Carrilho, no DN,  pela captura da expressão e dos elementos fisionómicos mais distintivos da senhora ministra. Seria interessante esclarecer, do ponto de vista semiótico e mesmo médico, se o ligeiro tique durante a fala estará relacionado com anterior perturbação muscular ou neuro-vascular, ou se será apenas indício de pressão excessiva (stress) ou insegurança ou dúvida, como no caso do nosso ministro da saúde, sobre a justeza das medidas restritivas anunciadas

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Herr Schaubler, ministro das finanças da Alemanha

Herr Schaubler, ministro das finanças da Alemanha, inclino-me perante a sua sabedoria económica e financeira que não é, de forma alguma, responsável pela crise europeia nem pelas desigualdades entre os alemães de leste e os de oeste e, muito menos pelas desigualdades entre os trabalhadores alemães e os trabalhadores portugueses, por exemplo, pela diferença das taxas de juro dos empréstimos que as empresas dos primeiros pagam relativamente às que as empresas dos segundos pagam.
São outras as causas dessas inconformidades.
Inclino-me também perante a competitividade e a produtividade dos trabalhadores alemães, e pelo rigor e profundidade da engenharia alemã, certo que tais  características superiores em nada contribuíram para os acidentes mortais do ICE porque estavam a experimentar rodas resilientes sem controle do ensaio, do Maglev sem deteção de via ocupada, da via única sem proteção automática de comboios na Saxónia-Anhalt. Nem, muito menos, pela caricata situação de um ICE a ser travado por um rebanho de cabras num túnel no sul do país, ou pela clara inconformidade de uma estação de metro de Berlim ter ardido sem que estivesse equipada com um sistema de ventilação capaz de contrariar, pelo menos a fase de arranque do incêndio, como dizem as normas de que a Alemanha é tão ferverosa regulamentadora.
Inclino-me ainda perante a sábia decisão de não investir muito no desenvolvimento integrado da urbanização e das redes de transporte de Stutgard (projeto Stuttgard 21), que só iria agravar as dividas do estado alemão aos bancos privados que nos governam a todos, embora a sua falta contribua para aumentar a pegada ecológica da Alemanha através de transportes ineficientes como a estrada e o avião.

Eu peço muita desculpa por falar assim, com este azedume, mas é porque não gosto que entes superiores me venham explicar como se fazem coisas que eu sei fazer, ou que os meus colegas também sabem, e em muitos casos, melhor, muito melhor do que eu e,  porque Herr Schaubler não deverá ter muitos “skills” em questões técnicas, seguramente muitíssimo melhor do que Herr Schaubler alguma vez seria capaz de fazer.
Não gostei das suas palavras, e tenho o direito de exprimir esse não gostei porque sou cidadão europeu, pelo menos por enquanto.
Não foi só o caso de Herr Schaubler, aos 30 de Dezembro de 2011, ter insistido que eurobonds não, porque assim as taxas de juro vantajosas dos bancos alemães perdiam a dita vantagem relativamente aos outros bancos europeus, e não serão estes, especialmente os dos países periféricos, atrasados e preguiçosos, que poderão garantir a Herr Schaubler o lugar de recuo se as coisas continuarem a correr mal para os democratas-cristãos (cristãos? Misturando religião com politica, como os regimes teocráticos islâmicos?).
Foi porque, para justificar a diferença das taxas de juro, disse que "pagar juros mais altos por algumas obrigações não é prejudicial, e pode ajudar a perceber que as causas da crise, as elevadas dívidas e a falta de competitividade, têm de ser atacadas".
É  isto que me deixa zangado, Herr Schaubler, no preciso dia em que chega a noticia de que os competitivos quadros médios e superiores da Volkswagen conseguiram da sua administração a “regalia” de desligarem os telemóveis e os emails de serviço depois das horas de expediente.
Congratulações aos senhores quadros, que já se sentiam emocionalmente desestabilizados, a somar ao menor número, relativamente aos trabalhadores de Portugal,  de feriados e de dias de férias que gozam, e ao limite mais elevado de anos para a reforma (sabe que isto é mentira, Herr Schaubler, mas como dizia o seu patrício Goebells, quando portugueses e alemães jaziam sob ditaduras da mesma família, repetindo muitas vezes em comícios de democratas-cristãos, as pessoas acabam por acreditar).
De modo que venho humildemente informar que sempre tive (tive porque me reformei aos 66 anos) o telemóvel de serviço ligado 24 horas por dia, e que muitas vezes não precisei dele porque já estava na frente de trabalho, nos tempos em que havia autorização para construir e colocar em serviço linhas de metro, sem para isso recorrer às horas extraordinárias.
E coisa curiosa, não era só eu, os meus colegas usavam o telemóvel de serviço da mesma forma.
Feriados, fim de ano incluído.
Ah, minto num caso, foi quando me esqueci do telemóvel desligado e só vi a mensagem, enviada à uma da manhã, no dia seguinte.
Tinha desaparecido um colega na frente de obra e a esposa, aflita, telefonou para o metro a perguntar por ele.
Ninguém sabia, mas confirmou-se que não tinha desaparecido na frente de trabalho porque não tinha lá estado, numa sexta feira à noite, que como sabe em Lisboa (e Madrid, e Copenhague…) é uma altura do dia e da semana muito apreciada.
Felizmente outro colega foi contactado e pôde descansar quando às três da manhã o colega regressou a casa.
Tinha-se esquecido de avisar a esposa de que havia uma "betonagem" inadiável.
Mas a equipa funcionou, apesar da minha falha.
Por isso não acho nada bem que Herr Schaubler fale assim.
Não é próprio de um cidadão da união europeia, na verdade.


Herr Schäuble, Deutschland Finanzminister, ich muss deine Weisheit Bogen, Wirtschafts-und Finanzkrise in keiner Weise verantwortlich für die europäische Krise, oder die Ungleichheiten zwischen Ostdeutschen und im Westen, noch viel weniger die Ungleichheiten zwischenDeutsch Arbeiter und portugiesische Arbeiter, zum Beispiel, um die Differenz der Zinsen von Darlehen, die Unternehmen zahlen für die ersten Unternehmen zahlen die zweite.Es gibt noch andere Ursachen für diese Nicht-Übereinstimmungen.Ich bin auch auf die Wettbewerbsfähigkeit und Produktivität der deutschen Arbeitnehmer geneigt, und die Strenge und Tiefe des deutschen Maschinenbaus, überlegenen Eigenschaften ein solches Recht in irgendeiner Weise dazu beigetragen, die tödlichen Unfall der ECI, weil sie erlebt wurden unkontrollierte belastbar Räder des Tests, ohne die Maglev Nachweis über damit beschäftigt, niemand Möglichkeit der automatischen Zugsicherung in Sachsen-Anhalt. Und noch weniger für die ungewöhnliche Situation, dass ein ICE von einer Herde von Ziegen in einem Tunnel im Süden, oder die klare Nichtbeachtung von einem U-Bahnhof in Berlin gefangen hat, ohne mit einer Lüftungsanlage in der Lage ausgestattet werden verbrannt entgegenzuwirken, zumindest der Startphase des Feuers, als sie die Regeln sagen, dass Deutschland so inbrünstig regulatorischen ist.Ich verneige mich vor gar die weise Entscheidung, nicht in der integrierten Entwicklung der Urbanisierung und Verkehrsnetze Stutgard, die nur verschlimmern würde die deutsche Staatsverschuldung um private Banken, die uns regieren, alle investieren, sondern der Mangel trägt zur Steigerung PEGDA ökologischen Deutschland durch ineffiziente Transport als Straßen-und Luftverkehr.
Ich frage wirklich leid für das Gespräch so, dass mit Bitterkeit, sondern weil sie nicht mögen höhere Wesen werde ich erklären, wie man Dinge, die ich kenne, um zu tun, oder dass meine Kollegen kenne, und in vielen Fällen besser, viel besser dass, sicherlich, weil Herr Schäuble nicht haben, sollten viele "skills" in technischen Fragen, viel besser als Herr Schäuble überhaupt in der Lage sein zu tun.Ich wusste nicht, wie seine Worte, und ich habe das Recht zum Ausdruck bringen, dass ich nicht wie, weil ich ein EU-Bürger, zumindest für jetzt bin.Es war nicht nur der Fall von Herrn Schäuble, 30. Dezember 2011, haben Eurobonds bestand darauf, dass keine, denn dann vorteilhaft Zinsen der deutschen Banken sagte sie verloren ihren Vorsprung gegenüber anderen europäischen Banken, und nicht sie, vor allem von Ländern Peripheriegeräte, rückständig und faul, die Garantie für die Herr Schäuble den Ort des Rückzugs, wenn die Dinge in Gang zu halten für die Christdemokraten falsch (Christian? Vermischung von Religion und Politik, wie die theokratischen islamischen Regimes?) kann.Es war, weil adiferença Zinsen zu rechtfertigen, sagte, dass "die Zahlung höherer Zinsen für einige Verpflichtungen ist nicht schädlich und kann helfen, die Ursachen der Krise, hohe Verschuldung und die mangelnde Wettbewerbsfähigkeit, muss angegriffen" .Das macht mich wütend, Herr Schäuble, am selben Tag, als die Nachricht eintrifft, dass die Wettbewerbsfähigkeit der mittleren und höheren Volkswagen seine Verwaltung es geschafft, "Perk" ausschalten Mobiltelefone und E-Mail-Dienst nach Büroschluss .Herzlichen Glückwunsch an Sie Bilder, fühlte sich schon emotional destabilisiert, indem auf die kleinere Zahl, die die Arbeitnehmer in Portugal, Ferien-und Urlaubstage genießen sie, und die obere Grenze von Jahren in den Ruhestand (Sie wissen, dass dies eine Lüge ist Herr Schäuble, sondern als Goebbels sagte seinen Landsleuten, als die Portugiesen und Deutschen lag unter Diktaturen der gleichen Familie, die oft wiederholt bei Kundgebungen der Christdemokraten, die Leute kommen zu glauben).So komme ich demütig Ihnen mitteilen, dass ich immer hatte (hatte, weil ich in 66 Jahren im Ruhestand) auf dem Telefon-Service 24 Stunden am Tag, und oft nicht brauchen ihn, weil er auf dem Arbeitsmarkt Front, in den Tagen, als er die Erlaubnis zum hatte Bau und die Inbetriebnahme U-Bahnlinien, ohne auf sie zu Überstunden.Und Spass an der Sache, nicht nur mich, meine Kollegen waren mit dem Telefon-Service die gleiche Weise.Urlaub am Ende des Jahres aufgenommen.Oh, ich in einem Fall liegen, war, als ich vergaß das Telefon ausgeschaltet ist und sah nur die Botschaft, geschickt, um ein Uhr morgens am nächsten Tag.Hatte vor ein Arbeitskollege verschwunden und seine Frau, verzweifelt, die so genannte U-Bahn, danach zu fragen.Niemand wusste, aber es wurde bestätigt, dass er vor der Arbeit gegangen, weil es dort an einem Freitag Abend, die wie Sie wissen in Lissabon (und Madrid und Kopenhagen ...) ist eine Zeit des Tages und der Woche sehr geschätzt worden .Zum Glück ein Kollege wurde kontaktiert und konnte bei drei Uhr morgens Ruhe, wenn ein Kollege nach Hause zurückgekehrt.Er hatte vergessen, seine Frau zu sagen, dass es dringend Betonieren.Aber das Team arbeitete, trotz meiner Fehler.Also ich glaube nicht, dass etwas gut, dass Herr Schäuble so reden.Es ist nicht für einen Bürger der Europäischen Union richtig, eigentlich.




quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

O rapto de Europa

Com a devida vénia ao DN, que comemorou o seu aniversário com a encomenda a Nadir Afonso de um Rapto da Europa.
Este blogue já tratou o tema, a propósito da desgraça da -grécia:

http://fcsseratostenes.blogspot.com/2010/10/traduzido-do-grego-o-rapto-de-europa.html

Para este blogue, o quadro de Nadir Afonso é muito bonito.
Gosta muito mais do que a intervenção na estação Restauradores, mas é apenas uma impressão subjetiva.
Diz Nadir Afonso que tem esperança de que Europa se salve do touro.
Mas o touro é Zeus, touro branco, pobre enamorado de Europa, a quem Europa tambem amou.
Como se vê na interpretação de Matisse, e no fresco romano.
Em que se respira paz e intimidade.
Não, não creio que o problema esteja em Zeus.
Melhor compreender os fenómenos e não deixar que deitem as culpas para o pobre Zeus.
Vejam antes quem toma conta das arcas do dinheiro.
Aprendamos com os antigos gregos.
Foi por causa de más contas com a arca da federação de Delos (pronuncia-se Dilos) que eclodiu a guerra do Peloponeso.


Nadir Afonso

Fresco romano

Matisse

Hoje, 29 de dezembro, faz anos



Hoje, 29 de dezembro de 2011, faz 52 anos que o metropolitano de Lisboa iniciou a sua exploração.
Recebi um email com o comunicado da sua comissão de trabalhadores, que ainda a tem, felizmente.
Congratula-se com o serviço ininterrupto e dedicado, e com os niveis de segurança e comodidade que foram atingidos:

https://skydrive.live.com/?cid=95ca2795d8cd20fd&id=95CA2795D8CD20FD%211077#cid=95CA2795D8CD20FD&id=95CA2795D8CD20FD%211078

Interessante pensar que ao longo destes anos o serviço não foi mesmo descontinuado, apesar de, a seguir ao 25 de abril de 1974, algum boicote de fornecedores estrangeiros  e algum radicalismo das propostas do então MRPP.




Teremos de pedir desculpa por alguns falhanços durante as sucessivas obras de expansão, com alguns troços afetados durante algum tempo, mas sempre com circulação de comboios nos outros troços, quer estivéssemos em período de férias, quer nos feriados mais importantes.
Nem todas as atividades têm esta continuidade de horários.

A inauguração - destino do próximo comboio, Entrecampos
Talvez merecessem um bocadinho mais de respeito, ao menos in abstractum, os trabalhadores de uma empresa assim, a trabalhar por objetivos como o serviço público e os indicadores comparados com as empresas homólogas.
E os problemas técnicos complexos que foram surgindo e sendo resolvidos.
E os salários abaixo da média das empresas privadas durante tantos anos, com as receitas contidas por imposição de um teto para as tarifas, para virem agora jovens gestores dizer com ar zangado "vamos acabar com as regalias" (dizer e escrever, no tosco plano estratégico de transportes).
Que história tantas vezes mal contada.

O material circulante do tipo da inauguração, ML-7, mantido em estado de operacionalidade
Ah, sim, houve greves prejudiciais muito antipáticas para a população, que deve ser servida e que agora tem vencimentos médios mais baixos.
Nostra culpa no que nos toca, pronto.
Também estamos a aprender neste contexto que nos foi preparado ao longo dos anos para nos ser agora servido; as reivindicações dos trabalhadores do metro são as mesmas dos seus passageiros; e ninguém vai dizer a sério que a nossa pequenina economia foi a responsável por toda a crise internacional que é o que nos está agora a condicionar, pois não?
Vamos todos ver o que é que se pode fazer, mas todos mesmo, sem haver distorção de acumulação de rendimentos em setores restritos da população deste país.
E não pode ser com desemprego que se combate a crise, porque isso vai contra a declaração dos direitos humanos.

Por isso, enviei à CT um textozinho com umas sugestões concretas, coisas que podem não significar nada para quem não tem de estar nestas frentes de trabalho, assuntos de pormenor e pequeninos a que não descerão as altas individualidades que decidem da vida dos seus concidadãos e concidadãs, mas que exigem conhecimentos técnicos; só para ver se se minimizam alguns danos, no meu fraco entender, claro:

Como se costuma dizer, assino por baixo.
É de facto grave o que os senhores do governo e os seus mandatários estão fazendo com falinhas mais ou menos  mansas e ares professorais em programas de televisão, mas também com ignorância das coisas dos transportes, escondida atrás da fé cega nas "privatizações".
Gostaria de sublinhar duas ações que neste período de contenção e de saída de técnicos me parecem importantes para que a experiência acumulada não se perca:

1 - edição dos normativos para projeto de estações (não servem só para obra nova, servem tambem para manutenção) e coleções de Especificações técnicas (importante em disciplinas em que os metropolitanos têm caracteristicas particulares, como a sinalização ferroviária, as telecomunicações, a alimentação de energia, a via férrea, o material circulante). 
Existe muito trabalho feito, já inserido no SAP-DMS, que deverá ser aprovado pelo CA (caso não o tenha já sido) e atualizado, idealmente, semestralmente. 
Não é o mesmo que as fichas de procedimentos de manutenção, já em vigor ou em atualização. Incluir aqui, relacionando com o ponto 2, o acervo de normas portuguesas e internacionais relativas a caminhos de ferro (ligação à APNCF) e recomendações da UITP/Comité de metros;

2 - organização do arquivo técnico e de sistema de procura, por tópicos, e acesso a documentação técnica inserida ou a inserir no SAP-DMS. Não é o mesmo que a digitalização de desenhos e documentos nas salas de desenho, sendo de âmbito mais vasto, e terá de ser executado por empresa do exterior especializada em classificação, arquivo e acessibilidade (rastreabiidade) de documentos. 

Refiro ainda outra ação muito importante, por razões de segurança, que é a da verificação de projetos e acompanhamento de obras adjacentes aos tuneis, viadutos e estações, para o que deverá continuar a haver um corpo técnico com conhecimentos desta problemática.
Verifica-se assim que, mesmo integrando o metropolitano numa empresa mais vasta, a necessidade de garantir a segurança de circulação justifica a continuidade de um corpo técnico especializado.
A ligação a organismos internacionais, via APNCF e UITP é tambem muito importante porque a forma como estão estruturados os temas técnicos que eles tratam não se compadece com a estrutura deformada atual e, previsivelmente, futura, do metropolitano. 
Ao argumento dos ministérios das finanças e da economia de que não há dinheiro (por isso mesmo, haveria que evitar desastres que ficarão muito mais caros) parece-me que se poderá responder que então entremos em economia de emergência, o que é incompativel com a continuidade dos lucros dos bancos, off-shores, e a concentração dos rendimentos em minorias. Isto é, se o argumento é não haver dinheiro, a economia tem de ser nacionalizada e não privatizada. Mas são os senhores ministros que estão a dizer isso quando dizem que não há dinheiro, não sou eu.

Cumprimentos e, apesar de tudo, parabéns a nós todos.

Vamos pôr as coisas assim

Como dizem os anglo-saxónicos, vamos pôr as coisas assim:

Não gosto que façam coisas aos meus amigos que os deixem tristes e desesperançados.
Não gosto que digam deles que são oportunistas e não merecem o que ganham.
Não gosto que retirem rendimentos aos meus vizinhos.
Não gosto que dificultem a vida aos meus conhecidos, especialmente aqueles com mais idade ou aqueles que, por serem doentes ou terem menos rendimentos, precisam de cuidados especiais.
Por isso digo que as coisas chegaram a um ponto em que posso legitimamente dizer que as instituições não estão a funcionar regularmente.
Não posso com isto influenciar nenhum orgão de decisão do meu país.
Estou apenas a exercer o meu direito à livre expressão.

Tambem não gosto que profissionais de contabilidade altamente qualificados sejam colocados em lugares em que têm de decidir sobre assuntos que afetam um universo que não conhecerão o suficiente para poder assumir as decisões.
Refiro-me ao titular do ministério das finanças, demasiado próximo do pensamento unico neo-liberal dos centros de decisão do BCE, demasiado longe dos mais desfavorecidos e com pouca sensibilidade para compreender o significado e as consequencias sociais de uma taxa de desemprego excessiva.
Refiro-me ao titular do ministério da saúde que decide sobre cortes no sistema de transplantes, sobre aumentos de taxas que por excessivas limitarão o acesso (apesar da orientação teórica ser não deixar ninguem por atender) e sobre proibições de credenciais para tratamento em entidades privadas que já  aumentaram, conforme os profissionais atempadamente avisaram, os tempos de espera.
Lamento que o senhor ministro se justifique sistematicamente com relatórios que lhe são apresentados garantindo que os parametros de decisão são identicos em outros paises  (pode ser, mas as circunstancias e os critérios de construção dos indicadores são os mesmos? como pode o senhor ministro avaliar se não tem formação médica? e quem pode afirmar que os critérios seguidos pelas seguradoras de saúde podem ser estendidos a toda a população independentemetne do seu potencial económico?) e com conversas com diretores gerais (onde é que existe uma disciplina cientifica em que exista unanimidade em problemas de variáveis multiplas? tem sempre de se ouvir outras opiniões).
E lamento tambem pelo próprio senhor ministro, que nas ultimas entrevistas já revelou, pela forma como responde aos entrevistadores, que não se sente bem com as decisões que tomou, que se encontra em situação semelhante ao seu colega da administraçáo interna, com o telefone a escorrer sangue todos os dias, enquanto continua a criminalidade e a sinistralidade rodoviária, e enquanto continua a degradação dos indicadores do serviço nacional de saude devido às medidas que teve de tomar para "ajustar" os critérios contabilisticos.

Dado o ponto a que chegámos, de não funcionamento regular das instituições, e insistindo os senhores ministros com formação contabilistica que "não há dinheiro", será legitimo o governo estancar a saida de divisas para o estrangeiro, colaborando com as forças politicas a que a isso se dispusessem .
Mas não é isso que se vê.
Parafraseando a senhora doutora Ferreira Leite, podiam-se suspender as regras comunitárias de alfandegas abertas e suspender as importações de bens não essenciais e de bens que podem ser substituidos internamente durante 6 meses, para ver como ficavam as coisas.
Se a situação é assim excecional...

Por tudo isto, como escrevi ao principio, vamos pôr as coisas assim: o cabeçalho deste blogue manter-se-á negro enquanto o povo português estiver a sofrer este tratamento pouco digno.

Alves Redol

Com a devida vénia ao DN, a propósito das comemorações do centenário de Alves Redol, transcrevo parte do depoimento de Urbano Tavares Rodrigues:

"...em Barranco de Cegos ... Redol dá um passo em frente no neo-realismo, pois compreende que para falar com as gerações do futuro tinha de avançar por territórios estéticos novos ...ele era um homem com uma vida cheia de complicações amorosas ... conhecidas quando as suas musas se encontravam umas com as outras nas horas de visita da prisão ... não escreveu sobre os mais pobres, ele escreveu para os mais pobres, porque acreditava que o conhecimento é o maior modificador das vontades e dos destinos".


É esta mensagem, de que o conhecimento é o maior modificador das vontades e dos destinos, aliás glosada mais tarde pelos gurus do marketing e de organizção de empresas sob o conceito de informação, que importava passar às pessoas, da importancia da educação no futuro do país.


Transcrição do artigo da Infopedia sobre o Barranco de cegos, de aparente e perigosa atualidade:

"Situado historicamente no período de falência nacional que sucedeu ao ultimato inglês de 1890, narra a luta de um proprietário ribatejano, Diogo Relvas, contra a invasão das indústrias e dos interesses financeiros, num contexto de progressiva afirmação do capitalismo. O título do romance, Barranco de Cegos, retirado da epígrafe de S. Mateus ("Deixai-os; cegos são e condutores de cegos; e se um cego guia a outro cego, ambos vêm a cair no barranco") anuncia, no entanto, que esse combate se encontra à partida perdido: o romance narra a caminhada inconsciente e irremediável da família Relvas e da nação para o abismo de derrota e de morte, simbolizados, no último capítulo, no corpo embalsamado do velho Relvas que persiste em manter-se agarrado à vida. Cegos são os servos, criados e campinos oprimidos, comandados pelo cego, obstinado e autoritário, Diogo Relvas, ele também guiado por outros cegos, os políticos, o rei, correndo todos para um precipício onde "tudo o que merecia ser vivido iria acabar na subversão" (p. 180, Europa-América)."

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Madame Thatcher

Vai um entusiasmo enorme com o filme sobre Thatcher, com Merryl Streep.
A ponto de um ex ministro da senhora ter dito que a interpretação da atriz é "histérica".
Lembrei-me da historieta em que Estaline diz para Prokofief: a sua musica é politicamente fraca; ao que Prokofief respondeu: a sua politica é musicalmente fraca, camarada.

Será caso para dizer que, se a interpretação de Merryl Streep é, politicamente, histérica, então a performance de Thatcher foi, cinematograficamente, histérica.

Foram as politicas de Reagan e de Thatcher, beneficiando da abundancia do petróleo, apesar dos choques de 1973 e 1978, que disseminaram as ideias de desregulação de Hayek e Friedman que conduziram a maior parte do planeta à crise atual. Esta afirmação não tem nada que ver com a subjetividade das ideologias, é uma observação de factos.
Paradoxalmente, Thatcher teve de nacionalizar parcialmente a BP e a Chrysler inglesa.
De recordar ainda os acidentes ferroviários consequencia direta da liberalização e privatização dos transportes.

Mas podem os defensores das ideias de Thatcher estar descansados, o filme vai ser um exito e os espetadores só discutirão os olhos e o penteado de Merryl Streep, não estabelecerão o paralelo entre a politica de Thatcher e a politica de minimização do estado social de quem nos governa.

Citação de Spinoza

Citação de Spinoza, século XVII:

"Não é por julgarmos uma coisa boa que nos esforçamos por ela, que a queremos, que a apetecemos, que a desejamos, mas, ao contrário, é por nos esforçarmos por ela, por querê-la, por apetecê-la, por desejá-la, que a julgamos boa". 
                                                                                                                              Ética, parte 3 prop. 9 


Spinoza, filósofo e polidor de lentes holandês, pertencente a uma família de judeus portugueses, fugidos das perseguições em Portugal.
As relações comerciais com a Holanda tinham sido, até ao início do século XVII, intensas e proveitosas para ambos os lados.
A estreiteza de vistas dos reis católicos de Espanha, nos fins do século XV, expulsando os judeus e impondo a D.Manuel I que fizesse o mesmo, e depois o clima persecutório às familias de "cristãos-novos" que se mantiveram em Portugal, e que se agravou nos ultimos 20 anos antes da restauração, fizeram com que muitos deles olhassem para a Holanda e a Turquia como nova terra de oportunidades.


Spinoza é o melhor exemplo das perdas a que uma politica assim, suicidária, pode conduzir. A economia portuguesa perdeu muito com a saída dos judeus e com a guerra depois de 1620 com a Holanda,  imposta pela Espanha, que veio substituir as relações comerciais.


É admirável a intuição de Spinoza, cartesiano, mas sem os elementos da experiencia científica de que dispomos hoje, para as suas conclusões sobre a natureza, de que nada pode existir exteriormente a ela.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Concerto de Natal na igreja de S.Domingos


Vestigios do incendio na igreja

Dezembro de 2011, em Lisboa, na igreja de S.Domingos.
Paradoxalmente, nesta época de cortes na cultura, a EGEAC, empresa de cultura da câmara municipal de Lisboa, ofereceu concertos.
Gloria, de Poulenc, e Te Deum de Bruckner.

Domine, do Gloria de Poulenc:


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Poulenc não era homem de grande religiosidade, mas a morte em circunstancias dramáticas de um amigo fê-lo aproximar-se da religião e passou a concentrar-se em musica religiosa.
Está-se assim longe do deus biblico dos exércitos, castigador, que destruia cidades e mandava o seu povo matar os habitantes das cidades inimigas que queria reservar para o povo eleito (episódio de Jericó).
Porque se fosse assim, a morte de quem nos é querido provocaria revolta e não aproximação.
Estamos no dominio da imaginação, e quanto maior é a distancia entre o que se imaginou e o que realmente acontece, ou quanto maior for a inverosimilhança, maior é a adesão do cérebro humano àquilo que se criou.

Te Deum de Bruckner:


video


A acustica das igrejas é diferente das salas de concerto; tem reverberação, o som não é tão puro; é outra forma de usufruir a musica.
Recordo os professores de musica do liceu, nos anos 50 (engraçado, foi quando foi composto o Gloria de Poulenc) a falar e a pôr no gravador Geloso, de fita, musica de Poulenc e de Bruckner.

No meio da barbárie, continua a fazer-se musica, e as pessoas a acorrerem aos concertos, apesar da orientação do governo de limitar os custos com a cultura.

Para quem gostar, anexo um video do Youtube, gravado em sala de concerto, sem as deficiencias dos dois videozinhos gravados em S.Domingos:

Rosalia de Castro - Galiza, ficas sem homens que possam cortar teu pão

Rosalia de Castro, poetisa galega da segunda metade do século XIX.
Denunciou na sua poesia as condições deficientes da organização da comunidade, que obrigavam os galegos a emigrar principalmente para a América de lingua castelhana. 
Numa época em que não havia automóveis nem viagens aéreas low-cost.
E no entanto, por razões de código genético, a angustia da separação é a mesma.
Como dizem os italianos, partire é morire un po.
Mesmo que se morra de cada vez que o avião parta.
Todas as formas de expressão são legítimas para comentar o que acontece.



Cantar da emigração  (Pra Habana)
                     de Rosalia de Castro


Este vaise y aquél vaise,          
e todos, todos se van;
Galícia, sin homes quedas
que te poidan traballar,
Tés, en cambio,orfos e orfas
e campos de soledad,
e pais que non teñen fillos
e fillos que non ten pais.
E tés corazóns que sufren
longas ausencias mortás,
viudas de vivos e mortos
que ninguén consolará. 

Este parte, aquele parte 
e todos, todos se vão.
Galiza, ficas sem homens
que possam cortar teu pão

Tens em troca orfãos e orfãs
e campos de solidão
e mães que não têm filhos
filhos que não têm pais.

Corações que tens e sofrem
longas horas mortais
viúvas de vivos-mortos
que ninguém consolará




Semiótica - continuação: a mensagem de Natal do senhor primeiro ministro Passos Coelho

Este blogue acha que não vale a pena insistir na semiótica aplicada ao senhor ministro das finanças. Apesar de ser um leitor de Candide, não aprofundou os argumentos de Voltaire e portanto o debate estará esgotado enquanto não  for alem de Pangloss.

Mas eis que a semiótica encontra um novo tema na mensagem de natal do senhor primeiro ministro.
O senhor primeiro ministro, sentado num cadeirão, apresenta-se com as pernas traçadas em primeiro plano.
Dirá a semiótica que é uma postura a um tempo defensiva e com o significado de marcar uma distancia relativamente aos ouvintes.
É provável, pelo tom calmo, que por um grande esforço de contenção o senhor primeiro ministro tenha conseguido dominar a crispação de quem ensina ou revela à multidão o caminho de que ela não quer ouvir.
A não ser assim, o tom calmo poderia indiciar o recurso a tranquilizantes; mas talvez não, pelo  alivio que o movimento da mãos revelou nas ultimas frases, como quem denota alivio pelo fim de uma tarefa desconfortável, terá sido uma contenção de auto-domínio.
As mãos estão pousadas sobre os joelhos durante a maior parte do tempo da comunicação, os dedos esticados na direção da câmara.
Nunca tomam a posição do professor a despejar sobre a audiencia a sua sebenta, o indicador apertado com o polegar, em movimentos verticais de quem estabelece doutrina a seguir.
Apenas de uma vez o indicador tocou com decisão o polegar, mas os movimentos foram na horizontal, no sentido da abertura comedida dos braços.
Foi quando mudou o registo incitando ao entusiasmo e ao restabelecimento da confiança das pessoas comuns como centro da democratização da economia.
Lembrei-me do capitalismo popular da Thatcher, a mesma convicção e fé na livre iniciativa, no interesse egoista que se traduz no bem comum.
Daí o acoplamento professoral do indicador e do polegar.
Mas não seria necessário o apelo, já muitos portugueses e portuguesas trabalham assim, com as suas capacidades no máximo e um rendimento pouco dignamente classificado por Paul Tomsen como superior ao valor do que produzem.
Não peça mais à inventiva dos portugueses, para não ouvir a portuguesa que vai para Macau onde esperará pelos filhos, dizer que "coragem seria ficar em Portugal sem ter dinheiro para pôr comida na mesa".
Antes, o registo pausado tinha recuperado o discurso da vitima que não resolve as coisas porque a culpa é dos outros, é das estruturas que não deixam retirar o potencial dos portugueses.
Raras foram as vezes em que as mãos sublinhavam o discurso, e as mais das vezes apenas a mão direita, levantando-se do joelho poucos centimetros, segundo uma rotação em torno de um eixo apontado aos espetadores.
A semiótica diria que era um gesto, esse levantar de mão, de persuasão, mas uma persuasão de quem se sente inseguro; por isso as mãos estiveram tanto tempo quietas, abrigadas de uma reação desconfortável do público, que nunca se sabe quando possa repetir-se o protesto da senhora com o filho ao colo a bater no tejadilho do carro oficial.
E os movimentos a duas mãos que pontuaram mais raramente o discurso significariam uma insistencia para reforço das próprias convicções quando fala da rede da confiança, ou o endosso aos cidadãos e cidadãs, depois do seu elogio, da culpabilização das estruturas e dos interesses que violam a mais elementar justiça, agora é convosco, se falharmos sereis vós que não estivestes à altura do meu superior entendimento, porque se eu tenho fé no principio do interesse egoista é porque ele é verdadeiro, mas isto só pode ser dito pelo movimento em amplexo contido das mãos, que rapidamente regressam ao contacto protetor dos joelhos.
Que serão as pessoas comuns (não apenas as de boa fortuna de nascimento... que elegancia enquanto as mãos se abrem e que delicadeza para com os desempregados) que estarão na base das transformações das estruturas.
Que o método será downtop, de baixo para cima.
Como na Sabedoria das Multidões, de James Surowiecky?
Quer que eu acredite nisso?
É assim que está a suceder com o plano estratégico de transportes, é?

Mas, mas...transformações? Se é transformação tem de ser discutida ao pormenor e com apoio amplo.
A avaliar pelo infeliz debate do plano estratégico de transportes, não creio que o governo seja capaz de assegurar esse apoio.
E portanto vamos mudar de estruturas (claro que é preciso mudar de estruturas, este blogue há anos que diz isso, apontando deficiencias na justiça, na segurança rodoviária, na segurança dos cidadão, na educação, na cultura, na saúde, a que continua a assistir após meio ano do novo governo), mas o conceito já discutido neste blogue de "structure follows strategy" mantem-se. E falta o debate amplo sobre as estratégias.
Estranho ouvir o senhor primeiro ministro apelar à confiança invisível, imaterial, intangível à moda de Keynes e à agilização da regulação (ter-se-ão crispado, os dedos das mãos? não se consegue perceber pelas imagens).
Infelizmente, é grande a probabilidade de que o discurso seja uma aplicação do velho hábito português, "o que era bom era" que houvesse uma transformação de estruturas, um aumento de confiança... e depois, não aparece a lista de medidas concretas discutida com os especialistas, sujeita a debate publico.

Nenhuma sociedade que se preze pode desperdiçar o saber acumulado dos mais velhos.
Dito assim, com o movimento persuasivo da mão direita, não impede que eu pense nos meus colegas que pediram a antecipação da reforma aos 55 anos.
Que continuarão na vida ativa, dirão os apoiantes do senhor primeiro ministro, talvez até contratados por operadores privados de transportes.
Mas eu direi que há muito trabalho para fazer nas empresas publicas de transportes, mesmo sem a construção de novas linhas; há muito trabalho na normalização técnica e na acessibilidade da documentação técnica. Para que continue  a engenharia a melhorar a manutenção dos sistemas, construções e equipamentos, e a preparar o futuro, quando acabar o pesadelo, para não se cair numa dependencia absoluta do conhecimento técnico estrangeiro.
Mas, ao contrário das palavras bonitas do senhor primeiro ministro, é mais interessante para o governo a diminuição do numero de funcionários nas empresas publicas de transportes ("vamos acabar com as regalias", está escrito no plano estratégico de transportes).
Avaliará o senhor primeiro ministro o insulto que eu sinto em mim quando diz que não se deve desperdiçar o saber acumulado e depois o que eu vejo é exatamente esse desperdício?
Aceitará o senhor primeiro ministro, que pediu confiança, que para eu ter confiança numa pessoa é necessário que ela não diga uma coisa durante uma campanha eleitoral ("a minha garantia é que, se for necessário, lançarei impostos sobre o consumo e não sobre os rendimentos do trabalho") e faça outra depois?

Para poder escrever este texto, revi a mensagem no sitio de uma estação de televisão. Curiosamente, o video seguinte era o do assalto a um supermercado de Albufeira, gravado pelas próprias câmaras de vigilancia, no dia seguinte à da  mensagem, vendo-se um grupo de jovens encapuçados roubando carne e outros produtos alimentares.
Fiquei a pensar no potencial de confiança desses jovens para realizar o assalto e na sua capacidade para transformar as estruturas do nosso país de modo a ficarem no centro da democratização económica com cada vez mais inovação nas suas iniciativas e cooperação no esforço para uma maior equidade social na repartição dos sacrificios.
Ou terá sido uma torpe manobra do paginador do sítio da estação televisiva, a querer associar os dois videos pela proximidade?

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

As Pandur

Tenho seguido com um misto de incredulidade (será incredulidade porque ainda sofro de ingenuidade) e de indignação a sucessão de noticias sobre as dificuldades da Fabrequipa em consequencia do negócio das contrapartidas das Pandur para as forças armadas.

O conhecimento mais próximo que tenho deste assunto foi o da história indigna do fecho da Sorefame.
Embora sem estar ligado diretamente aos serviços do metropolitano de Lisboa de material circulante, por diversas vezes visitei a Sorefame.
Testemunhei assim a sua capacidade técnica na montagem das automotoras do metro, dos pendolino para a CP e de vagões para países do mediterrâneo oriental.
Ouvi colegas lamentarem-se das movimentações de alguns técnicos de topo para se assenhorearem da empresa depois da saida da Bombardier (polarizada pela ideia de concentrar em Espanha as suas atividades, dada a maior dimensão do seu mercado).
Nem isso conseguiram. E uma das atividades previstas por eles era a montagem das Pandur.
Para agravar o problema, veio a apetencia por negócios imobiliários na zona, que foi ao ponto de vergar o traçado da linha de metropolitano prevista para o centro da Amadora, para correspondencia com a linha da CP na estação da Amadora, desviando-a para a "nova centralidade" da Reboleira, como eufemisticamente a autarquia da Amadora tentou justificar mais um erro de traçado na rede do metro.
Os senhores governantes da altura, muito senhores da sua competencia e da sua capacidade de defender os interesses nacionais, foram tomando decisões nos precisos termos em que o podiam fazer, isto é, como governantes sujeitos a ilusões criadas pelos seus cérebros.
Como qualquer ser humano, sendo certo que aqueles seres humanos que não querem correr os riscos de criar situações muito desagradáveis, como a  que atualmente afeta a Fabrequipa, sujeitam as convicções dos seus cérebros ao referendo e exame por outros cérebros que eventualmente ajudem a encontrar melhores soluções. É assim que vem descrito na Sabedoria das Multidões, de James Surowiecky, não é esta conceção ultrapassada de democracia que a votação de uma minoria de cidadãos que possa ser interpretada como uma maioria de votantes possa limitar as áreas de tomada de decisão  a círculos fechados da comunidade.
Desconheço os pormenores dos contratos das Pandur e das contrapartidas e não posso assim garantir que a Fabrequipo tem toda a razão no conflito que tem com a Generl Dnamics, acionista maioritária da Steyer, o fornecedor das Pandur.
Por principio sou contra contrapartidas pelas tentações que possa originar (veja-se o caso das condenações já pronunciadas em tribunal contra as partes alemãs das inconformidades com o contrato dos dois submarinos, tambem gerido pelos mesmos senhores governantes que gerira o contrato das Pandur e o fecho da Sorefame). Quando podia fazê-lo, inscrevia nas cláusulas dos contratos em que participei a obrigatoriedade da incorporação nacional ser superior a um determinado valor, correspondente à viabilidade efetiva de incorporação, sem contratos paralelos. Porém, uns senhores burocratas com poder nas definição das diretivas europeias, privilegiando as suas convicções cegas e ideológicas, proibiram esse tipo de cláusulas. Parece que percebiam mais disso do que eu, mas penso que se deixaram apenas levar cegamente pela fé irracional no ideal místico da concorrencia.
E eis-nos agora a assistir à luta, ou talvez lhe possamos chamar à concorrencia para a execução do contrato, incluindo as contrapartidas, entre duas forças: dum lado, a Faberquipa, a empresa média e a sua força de trabalho, acusada  de baixa produtividade por administrativos sem provas, e do outro, a General Dinamics, grande empresa dos USA.
Será novamente a fábula de La Fontaine, do lobo e do cordeiro, com o lobo a reivindicar a liberdade de poder exercer a sua força muscular e o seu aparelho de dentição.

Pena os senhores eleitores não terem estas coisas presentes quando depositam o seu voto nas urnas.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Falas de governantes - A matriz de análise

Fala pausada, professoral, definitiva, sem contestação.
A matriz de análise que o senhor deputado fez só vê um inimigo que desapareceu há décadas - diz o senhor ministro das finanças Vitor Louçã Gaspar para quem ousou criticar o desvio do rendimento no sentido do trabalho para o capital.
Confesso que gosto de uma boa imagem e de uma boa argumentação.
Matriz é uma boa imagem, faz lembrar os determinantes das matemáticas gerais, os vetores dos campos de tensões, o cruzamento de variáveis.
Matriz de análise deve referir-se ao  método marxista de estudar as relações entre os modos de produção, agora formas tecnológicas de produzir, e a sua propriedade.
Eu diria que se o senhor ministro ponderasse com mais cuidado os coeficientes de uma matriz deste género, podia ser que não tivesse precisado de 3 orçamentos retificativos para 2012 ainda o ano não começou.
Podia ser que não insistisse em que a repartição dos sacrificios é equitativa quando só a repetição à Goebels (não estou a dizer que o senhor é nazi; estou a dizer que dizer muitas vezes uma coisa em que as pessoas não acreditam pode levar a que elas acreditem, especialmente se for dita e redita em voz pausada) pode tornar isso verdade.
Podia ser que soubesse responder à pergunta do Parlamento sobre a aplicação dos 6.000 milhões de euros do fundo de pensões que vai obrigar a aumentar a despesa publica em 2012 de 480 milhões de euros.
Os 6.000 milhões de euros  a uma taxa de juro de 2% com uma amortização em 15 anos correspondem aos 480 milhões necessários para pagar as pensões.
Podia ser que tivesse optado por outra medida que não a de agravar o defice de 2012 com mais despesa, classificada como extraordinária, para pagar dividas (as dividas pagam-se de acordo com um plano de amortização e juros, portanto, por definição, sem surpresas de calendário - consta que serão 0,7% do PIB a agravar).
Curioso como daqui conclui o governo que vai renegociar ou reestruturar o pagamento da dívida à troica.
Curioso porque há bem pouco tempo eram violentamente criticados pelo governo quem propusesse essa hipótese.

E então o inimigo desapareceu há décadas.
O inimigo que leva a reestruturação da dívida?
Ou referir-se-ia o senhor ministro, por um fenómeno de projeção de um fantasma, ao desaparecimento há décadas de um projeto falhado que degenerou relativamente à matriz de análise? como se a experiencia não tivesse já demonstrado que todos os projetos têm falhado.
Ou seria o fascismo a que se referia? desaparecido há décadas?!
Fascismo é o regime plutocrata que institucionaliza a discriminação entre os beneficiários dos melhores rendimentos e os de menores rendimentos, entre os povos de maior riqueza e os povos que não conseguiram rentabilizar as suas potencialidades, em ambiente económico capitalista de condicionamento de iniciativas.
O coeficiente de Gini, ou das desigualdades, ajuda a compreender o que é fascismo ou o que um sistema de organização não deve fazer.
Matriz de análise desatualizada?
Como seria bom se fosse.
Seria sinal de que não era preciso eliminar as desigualdades.

Os 25 dias de férias

Recordo-me muito bem, só não me recordava do ano e do senhor ministro do Trabalho que tinha publicado o código de trabalho que atribuia 3 dias de bonus aos trabalhadores assiduos.
Lembro-me de comentar para a gentil colega dos recursos humanos: mas isto é um disparate da nossa administração, premiar com faltas ao trabalho quem não cometeu faltas ao trabalho.
Seria eu que estaria ainda impressionado com a conversa do meu colega do metro de New York, quando me informou que tinha 12 dias de férias por ano.
Mas a gentil colega logo informou que era uma decisão do governo.

Estas coisas são como são. Se perguntarmos na rua a um cidadão apressado, ele possivelmente dirá que terá sido um governo de esquerda ou uma pressão insustentável de forças corporativas, através de reivindicações de um sindicato, a forçar o governo a conceder 3 dias de bonus.
Não foi. Foi  um governo de direita, chefiado por Durão Barroso, em 2003, a pretexto de combater o absentismo. O ministro do trabalho da altura era o senhor doutor Bagão Felix, representando o partido da direita cristã.

O absentismo combate-se, disse eu para a gentil colega, se prevalecer o sentido de serviço público entre as pessoas, e se os colegas encarregados de coordenar as forças de trabalho tiverem formação para a função e puderem perguntar aos oportunistas onde preferem o desconto do dia em que faltaram sem justificação plausível, no vencimento ou nas férias. Não era preciso alterar mais nada nas leis laborais, apenas permitir aos escalões intermédios gerir a sua força de trabalho disponivel, sem prejuizo da existencia de colegas da especialidade de serviço social para estudar caso a caso os absentistas e propor soluções de atenuação dos motivos de absentismo (de que a as causas psicológicas, incluindo a depressão, são as principais com a incidencia de, pelo menos 20% do total da população ativa).

Mas a burocracia das empresas não gosta deste tipo de atuações e os politicos que decidem têm pouca experiencia de contacto direto com a realidade nas frentes de trabalho.

Cinemateca II - O enviado da Manchuria

É de muito interesse para os amadores de psicologia observar a reação dos coreanos do norte à morte do dirigente máximo.
Igualmente é interessante a reação dos meios de comunicação social.
Rapidamente foi recordado o filme "O enviado da Manchuria", que divulgou o conceito de "lavagem ao cérebro", para explicar o comportamento emocional e excessivo nas lamentações públicas.
Na verdade, tudo indica que o cérebro humano é suscetível de criar ou de ser levado a criar ídolos e normas de comportamento de cumprimento imperioso.
Assim se desenvolvem religiões e ideologias, muitas vezes com graves deformações relativamente aos ideais originais.
Marx, por exemplo, e esta devo-a a Cristopher Hitchins, cujo falecimento foi recentemente noticiado, nunca disse que a religião é o ópio do povo. Disse sim que a religião é o suspiro dos oprimidos.
O culto da personalidade, a entrega do poder a um grupo restrito de profissionais da politica será provavelmente uma degenerescencia tipo tumoral do ideal primitivo que defendia a participação coletiva.
A capacidade do cérebro humano de criar ídolos e mitos explicará assim essas degenerescencias.

Por outro lado, a insistencia numa visão de superioridade relativamente a comportamentos como o das populações da Coreia do Norte transmitidos pela televisão, atribuindo fenómenos meteorológicos à intenção da natureza em chorar a morte do dirigente, ou contemplando em extase, sob um nevão, essas lamentações da natureza, em nada ajudam um diálogo consistente entre culturas diferentes.
Porque o que estará em causa é a compreensão e a divulgação do funcionamento do cérebro de seres vivos com o mesmissimo código  genético e a necessidade de estudar estes fenómenos de  criação de mitos.
As pessoas que ouviram religiosamente o arcebispo do Haiti explicar que o terramoto aconteceu porque o povo se tinha comportado indevidamente ou o padre Malagrida sobre as causas do terramoto de 1755 acreditaram firmemente no que lhes disseram.
Assim como as pessoas que no milagre de Fátima viram o sol a rodopiar excitaram as mesmas zonas do cortex cerebral que as pessoas que na Coreia do Norte assistiram à natureza a chorar a morte do dirigente.

Conheci um soldado americano a quem apresentei argumentos contra a guerra do Iraque.
Foi uns anos antes de Obama. Impossível trocar argumentos. Apenas que os USA tinham de defender os seus interesses (o mesmo argumento unico de Hitler relativamente à Alemanha e aos paises que se via forçada a ocupar).
Parecerá portanto que o diálogo exige, antes de se conseguir chegar à troca de argumentos e à modificação das posições de partida com base na nova informação contida nos argumentos, que se compreenda como o cérebro funciona e como ele se deixa enganar pelas construções virtuais que ele próprio cria.
Será depois importante comparar as regras de ouro (ética da reciprocidade - ver
http://en.wikipedia.org/wiki/The_Golden_Rule ) das culturas em presença.
Golden rule, por Norman Rockwell

E passar depois à argumentação, com exposição até ao fim e provas de que foi compreendido (eis porque citei a não citação do ópio do povo).

Apesar dos interesses geo-estratégicos, da luta pelo petróleo, dos grandes negócios internacionais com mais ou menos off-shores, etc, etc.

Cinemateca I - O inverno do nosso descontentamento

Agora que estamos nos primeiros dias de inverno, refiro o romance  de John Steinbeck e o filme a que deu origem.
Tema: o descendente de uma família rica vive com dificuldades recordando a opulencia perdida. Após hesitações, executa ações de moralidade duvidosa para enriquecer. A frase "o inverno do nosso descontentamento" foi retirada do início da peça de Shakespeare Ricardo III, quando o protagonista ambicioso critica a ascensão ao trono do irmão Eduardo IV, filho mais velho do duque de York, jogando com a semelhança entre sun (sol) e  sun (filho):


Now is the winter of our discontent                                 é agora o inverno do nosso descontentamento,
Made glorious summer by this sun of York;                    transformado em verão glorioso por este sol de York;

É possivel que este seja o inverno do descontentamento de muitos cidadãos e cidadãs que não foram chamados a participar ativamente, como definem as regras da democracia plena, na discussão dos seus próprios problemas e dos problemas dos seus semelhantes dos paises desenvolvidos e dos paises pobres.

Mas há um pequeno pormenor que talvez explique por que as coisas, neste mundo, muitas vezes sobrevivem e se expandem.
É que depois do solstício de inverno os dias começam a crescer e o ciclo da vegetação retoma o seu ritmo de crescimento.
Por mais que os ministros decretem o declínio por sistema.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Falas dos governantes - Freud em S.Bento

Dois comentadores do DN, com a capacidade de análise que me falta, designaram o senhor ministro adjunto Miguel Relvas um, por limpa neves do governo, e o outro, por carregador de pianos do governo. Outro comentador, possivelmente cedendo à mesma tentação a que a seguir também cederei, colocou a hipótese de que a aplicação continuada das medidas de austeridade ao povo português estimula e excita o senhor primeiro ministro Passo Coelho, a ponto de ele não conseguir conter o sorriso quando fala no assunto.

Reafirma este blogue que não gosta de discutir política, mas fascina-se com as disciplinas colaterais.
E como a sua imodéstia (do humilde escriba do blogue) o ilude como se fosse discípulo de Freud ou de Jung, tentemos uma análise das falas do senhor primeiro ministro.
O complexo (entendido como uma imagética que através do inconsciente conduz a uma distorção de comportamento) mais frequente nos governantes é o complexo de Hubris, revelando uma forma de humilhação dos governados.
O governante manifesta a sua superioridade pelo poder e pelo dominio de informação não acessivel aos governados.
Dado que o fenómeno tem origem no inconsciente do paciente, pode não revelar uma vontade consciente de diminuir os governados, embora se possa fazer a crítica de que a génese do complexo (a tal criação de imagens pelo inconsciente) pode ser preventivamente contrariada de forma consciente.
O complexo de Hubris explica também como o paciente passa a acreditar mais na realidade ou abstração com ténues ou virtuais ligações à realidade que ele criou (com as tais imagens do complexo), do que nas evidencias que a realidade lhe mostra.
Este isolamento ou insensibilidade aos problemas reais poderá ter alguma coisa em comum com a doença psicológica do autismo, mas não é propriamente autismo, podendo ser agravada pelo comportamento de grupo dos apoiantes, seguindo o habitual caminho de polarização, cristalização ou conglomeração de um pensamento aglutinante do grupo e de normalização e socialização.

Curiosamente, graças às análises dos comentadores referidos, verifico que o complexo de Hubris caraterizava o anterior senhor primeiro ministro, ou carateriza o senhor ministro adjunto, mais do que o atual senhor primeiro ministro.
Partindo da mesma observação desses comentadores, coloco então a hipótese de que o comportamento do atual primeiro ministro revela antes um complexo messianico, ou profético, de alguem a quem foi revelada a salvação e que foi incumbido de a executar.
No caso em estudo, são conhecidas as propostas, que são as da ideologia neo-liberal, de reduzir as despesas do Estado e de empobrecer a atividade económica com medidas de austeridade.
Às inevitáveis dificuldades diretamente consequentes destas medidas seguir-se-á, nisso se tem fé, o período de salvação ou de franco crescimento e de alivio das dificuldades.
Profeticamente e periodicamente, o senhor primeiro ministro anunciará as datas em que se verificará o inicio desse período, estimulando tambem  profetas menores, os outros senhores ministros, a de vez em quando anunciarem a feliz data, tendo sempre o cuidado de sincronizar esse anuncio com o calendário das próximas eleições.
Este complexo messiânico está associado a um fenómeno extraordinário do cérebro humano, que é a capacidade de criar entidades virtuais, externas ao cérebro, com as quais se pode dialogar e debater decisões a tomar, como muitas crianças desde cedo revelam.
Esta carateristica, quando explorada em relação a um eleitorado, permite a esse eleitorado ter fé no conjunto de ideias ou programa eleitoral do paciente.
Mais curioso ainda, o programa eleitoral torna-se tanto mais atraente quanto mais inexequivel for.
Exatamente pela capacidade do cérebro dos eleitores em acreditar, através dum mecanismo de imitação ao nivel dos neurónios-espelho, nas fantasias do programa e na sua superioridade em relação às trivialidades da realidade.
Analogamente, um adolescente conquista a sua adolescente prometendo uma vida de eterno amor, sendo certo que dificilmente a conquistará se não o fizer. A tónica na verdade só será colocada depois de a conquistar.
Nesta perspetiva, prometer numa campanha eleitoral , em caso de necessidade de reduzir defices, penalizar através de impostos o consumo e nunca o rendimento do trabalho, não é uma mentira, mas um teste à capacidade  dos eleitores de gerarem fé  em torno das construções virtuais do cérebro do paciente.
Por mais que  a realidade mostre evidencias, como seja o papel que a falta de regulação, deixando as entidades financeiras especular e manobrar verbas nos off-shores, teve na disseminação da crise, ou a omissão do BCE em emprestar diretamente aos estados ou emitir moeda até determinados limites de inflação, a construção virtual insistirá sempre e normalizará os apoiantes de modo a manter o poder politico, atribuindo as culpas de tudo a quem não pense como o paciente.
Sempre que o governante vítima do complexo messiânico, nas suas prédicas às multidões, cometer erros de análise devidos à grande distancia entre as criações do seu pensamento e a realidade, os seus sacerdotes virão em seu auxílio explicando que o paciente não errou na interpretação da realidade, mas foi antes a multidão que não soube interpretar corretamente as suas  palavras.

Será ainda curioso analisar se o complexo messiânico será uma manifestação de juventude inexperiente e impulsiva, ou se a convicção de se ter recebido uma revelação sobrevem apenas na maturidade.
A hipótese é a de que no caso vertente se trata de uma simbiose, de uma mistura das duas condições tornada possível pela projeção, entendida aqui também no seu sentido psicológico, de gestores experientes de empresas (do grupo de empresas em que o senhor primeiro ministro exerceu atividade profissional), associada à revelação-ideologia neo liberal de minimização do orçamento do estado e desregulação das iniciativas empresariais (representada, por exemplo, pelo senhor ministro das finanças).
Quem toma as decisões gestionárias da res publica é assim a  projeção da virtualidade de um gestor ideal, ajustando setor a setor as percentagens de população aos meios disponiveis, sem o condicionamento de limites à taxa de pobreza e ao coeficiente de desigualdade de Gini.
Assim se entende a politica de redução de ativos, quer materiais (privatizações, mesmo que o rendimento do capital obtido seja inferior aos dividendos anteriores), quer de recursos humanos (dispensa de funcionários publicos adstritos à saúde, educação, etc) e a sua eventual deslocalização para países estrangeiros (emigração).
Todas estas ideias-força se encontram em entrevistas de qualquer CEO de empresa de relevo.
Ainda neste caso de projeção psicológica não se poderá falar em humilhação ou desprezo pelos governados, dado que a componente do inconsciente se sobrepõe à vontade consciente, inibindo assim a imputação de qualquer intenção nesse sentido.

Como diria Mr Spock, do Startreck, fascinante, a problemática da psicologia, tão fascinante, que poderia sugerir-se a criação de um cargo público, à semelhança do Procurador Geral da Republica, de um Psicólogo Geral da Republica, para monitorização psicológica de quem exerce cargos públicos.