sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Medidas contra a crise - a resolução do conselho de ministros 101-A/2010

A senhora apresentadora do telejornal tem um sorriso muito bonito.
Fechou o noticiário do dia 30 de dezembro com sugestões para a noite de passagem do ano.
Por exemplo, no hotel do palácio de Seteais, em Sintra.
As imagens do champanhe a gelar no ambiente barroco eram atrativas.
Atrativas, mas para que percentagem do conjunto de espetadores, ou dos cidadãos e cidadãs?
Por outras palavras, qual a percentagem de cidadãos e cidadãs que podem responder ao convite do sorriso bonito da apresentadora e das imagens de Seteais?
Ah, mas eu sei,o público gosta de ver as imagens de luxo e de elegancia.
O público gosta do fogo de artifício, da imagem, da virtualidade, panem et circenses.
Gostará, ele próprio o diz, como dizia ao reporter da TV aquela cidadã na plateia de mais um horrível "reality show": "eu sei que isto é falta de cultura, mas é disto que nós gostamos".
Não sou eu que vou contrariar a senhora, nem tenho de protestar, desde que não me obriguem a gostar do  mesmo.
Mas gosto, por exemplo, a propósito do exibicionismo das festas de Seteais, a propósito dos dados que alimentam o indicador de Gini (a medida da desigualdade da distribuição dos rendimentos), de me deter nalgumas das 200  medidas (serão 200, não contei) da resolução do conselho de ministros 101-A/2010, destinada a operacionalizar os cortes dos PEC, corrigindo o defice e a divida pública (permito-me discordar da classificação estrutural aplicada a tal correção, mas é apenas uma opinião, possivelmente por algum despeito por ter visto desprezada a maior parte das medidas já há mais de 1 ano a ser propostas neste humilde blogue).
Por exemplo:

- Redução de 5000 docentes no ano lectivo de 2010 -2011, decorrente
de uma gestão mais eficaz na constituição de turmas e
distribuição de horários de docência, nomeadamente através
do encerramento de escolas com menos de 20 alunos e da
agregação de unidades de gestão.   - por Jupiter, a escola tem 20 alunos e fecha? e o dinheiro para pagar os taxis ou os autocarros  a consumir combustíveis fósseis até aos agrupamentos de escolas, donde vem? e quando neva ou faz tempestade?

- Redução para metade dos apoios garantidos no quadro das
bolsas de estudo. -  Por Minerva, para metade?

- Redução em 10 % do preço das tiras de controlo da glicemia
para os diabéticos. - Por Esculápio, que é isto, quanto é que isto contribui para debelar o defice?

- Redução da comparticipação, de 100 % para 95 %, no regime
especial do complemento solidário para idosos. - S.Martinho, S.Martinho, para que queres tu os 5% da tua capa?

- Revisão da legislação do transporte de doentes - estás a ver isto, Hipócrates? primeiro fecham os hospitais pequeninos de provincia, depois pedem aos doentes que paguem as ambulancias. Quem foi o ignorante da problemática dos transportes que andou a cozinhar isto?


- Redução da despesa com consultadoria. . . - ah, eis uma sábia resolução. O quê? é só no ministério da saúde? só lá terão contado a anedota do consultor do cão do pastor alentejano? Pena, com todo o respeito pelo trabalho dos consultores

- Privatizações e alienação de participações do Estado . . . .- Por Mercurio, e depois dos aneis, vendem-se os dedos?

- Racionalização da Rede Ferroviária Nacional, a cargo da REFER
Rede Ferroviária Nacional, E. P. E., identificando as
linhas ou troços susceptíveis de desclassificação nos termos
da Lei de Bases dos Sistemas de Transportes Terrestres. -  por Jupiter, novamente, onde está racionalização é fecho que devia estar, não é?

- Reforço da articulação de transportes públicos nas áreas urbanas
através da: i) introdução de uma gestão conjunta das
empresas Metropolitano de Lisboa, E. P. E., e Companhia
de Carris de Ferro de Lisboa, S. A., e ainda do Metro do
Porto, S. A., e STCP — Serviço de Transporte Colectivo
do Porto, S. A., com o objectivo de promover uma maior
coordenação e complementaridade das ofertas de serviços e,
simultaneamente, reduzindo custos;    -  por Jupiter e por Saturno, Vulcano e Neptuno, querem ver que estou de acordo? Foi preciso uma crise de carencias e sobre-endividamentos (a propósito, as dívidas destas empresas já contribuem para o defice?); mas aguardemos para ver como uma boa ideia vai ser operacionalizada.

ii) definição de redes de
transportes urbanos na Área Metropolitana de Lisboa — Sul,
Coimbra e Faro, preparando a contratualização da sua exploração. - Se me fosse permitida uma sugestão, eu diria que uma boa estratégia seria integrar a gestão da exploração, da manutenção  e do projeto dos transportes de toda a área metropolitana de Lisboa, margem norte e margem sul, num operador público unico (sem prejuizo dos investidores privados poderem concorrer a concessões, mas sem direito a subsídios). Eu sei que não há dinheiro, mas doutra maneira fica mais caro, vejam o caso das PPP, da falencia da companhia de manutenção de um dos grupos de linhas do metro de Londres (para mais a fazer concursos fora das leis da concorrencia)

- Redução da despesa com indemnizações compensatórias e
subsídios às empresas públicas  -  isso quer dizer que as dívidas das  ditas empresas públicas são transferidas para o Estado, e que o preço dos bilhetes vai refletir o custo de produção?

- Fim das indemnizações compensatórias — contrato Fertagus,
Renegociação da concessão do Metro Sul do Tejo . . . . . . . .     não é possível enganar toda a gente durante todo o tempo, nem é possível um grupo de pessoas sujeitas a uma disciplina de grupo estar enganada todo o tempo, porque, entre outras hipóteses, pode sobrevir uma crise de carencias

Enfim, aguardemos, já que tudo indica que todas estas altas ações serão desenvovidas no segredo dos semi-deuses.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

O mono do Rato


http://dn.sapo.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=1742037&seccao=Sul

Cidade mais uma vez agredida.
Na minha opinião e de muita gente, como o forum cidadania LX.
A verdade é que a legislação permite que um vereador, independentemente dos planos diretores, se comprometa e vincule a CML ao projeto dos promotores do mono do Rato.
Por isso a CML atual aprovou o licenciamento.
É uma pena, os juízes aterem-se mais à letra da lei do que ao interesse da comunidade, que neste caso será o de ter um largo do Rato mais desafogado, sem monos.
Já que a justiça não salva a cidade desta agressão, deveriam ser os próprios arquitetos autores a fazer a sua auto-crítica.
Mas como a fama dos arquitetos autores é muita, e eles devem achar que os seus críticos são uns bárbaros ignorantes como eu (posso ser ignorante, mas também posso enumerar uns quantos erros que um premiadissimo arquiteto cometeu no projeto de uma das estações de metro), também não devem querer abortar o mono do Rato.
Restava-nos o IGESPAR, uma vez que o mono está dentro da área de proteção dos imóveis classificados vizinhos.
Mas o IGESPAR não achou que o mono afetasse.
É uma pena, até porque o mono entaipa ainda mais a sinagoga.
Vamos mesmo ter de aguentar o mono, com aquele balanço a la casa da musica (a previsibilidade é uma virtude para uns e uma insuficiência para outros) sobre a escadaria de acesso ao metro que também não pôde opor-se ao projeto porque foi apresentado o plano de escavação e monitorização da obra.
Mas que é isto, comparado com as ameaças orçamentais que nos atormentam?

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Um certo olhar acabou

Afinal "Um certo olhar, sobre a força das coisas",  teve o seu ultimo programa no dia 26 de Dezembro de 2010.
Acabaram-se as tertulias sobre os casos da atualidade, um pouco "blasé", um pouco intelectuais, mas sempre solidárias e humanas.
Luis Caetano finalmente explicou o fim do programa. Porque  a direção de programas da Antena 2 invocou razões orçamentais.
Temos então aqui mais um caso de cortes na Cultura, no país europeu com menor percentagem do PIB afeta á Cultura.
Mas como os membros da tertulia são pessoas bem educadas, reagiram bem e fizeram o programa como se nada fosse, comentando alegremente o parecer do embaixador retirante do Reino Unido, Alex Ellis, sobre o carater do povo português:

http://aeiou.expresso.pt/um-bife-mal-passado=s24971

Houve também quem contasse a história de Alfredo Marceneiro, chamado para tapar um buraco num espetáculo de espetadores de que não gostava. Que não se calavam para poder cantar-se o fado. E quando finalmente se calaram, depois de trautear em surdina, abandonou o palco. Mas eles já se calaram, podes cantar, disse-lhe o organizador, pois sim, calaram-se, mas são hipócritas, não canto.
Se calhar é este, o cerne da questão, querem que o pessoal cante, mas são hipócritas...
E como é da praxe, evocaram edições passadas do programa.
Num dos primeiros, a senhora pianista Gabriela Canavilhas afirmou textualmente, a propósito do ministério da Cultura de então: "A Cultura pode ser um motor económico".
Então vá, como se diz em coloquial, liguemos o motor.

É curioso pensar. O programa não foi proibido. Foi racionalizada a grelha de programação em termos de custos. O registo dos programas não foi queimado. (Hipócritas). Pode ser consultado em:

http://tv.rtp.pt/multimedia/progAudio.php?prog=2175&clip_wma=78545

Mas cada programa ocupa uma hora. Quem vai ter tempo e disposição para o ouvir?
A informação esclarecida existe, mas se não acedida como se difunde o esclarecimento?
Paradoxo infernal da sociedade de informação.

Comentei um dos programas, sobre banditismo financeiro, em :

http://fcsseratostenes.blogspot.com/2010/10/um-certo-olhar-em-outubro-de-2010.html

Ver também a tese de mestrado sobre esta tertúlia, de Ana Paula Nogueira Faria de Matos,como análise do discurso, ciencias da linguagem:


http://repositorium.sdum.uminho.pt/bitstream/1822/9535/1/tese.pdf


E para não morrer um pouco, como cantava Cole Porter, não se diga adeus, antes continuemos.

O preconceito da reforma

Com a devida vénia ao DN, remeto para o artigo sobre as reformas em Portugal:

http://dn.sapo.pt/bolsa/emprego/interior.aspx?content_id=1743268

Conviria combater o preconceito que a comunicação social e alguns economistas  nos querem pôr a pensar , de que os portugueses são uns oportunistas que trabalham pouco e se reformam muito cedo.
Tentei contrariar o preconceito no texto de 29 de Março de 2010:

http://fcsseratostenes.blogspot.com/2010/03/leitura-do-dn-no-domingo-28-de-marco-de.html

Hoje, o DN vem dizer que a idade média efetiva da reforma em Portugal está a subir (63 anos) e que a idade média na UE é inferior, além de que a esperança de vida em Portugal é menor do que a média da UE.
Não é para vitimização, é para contrariar o preconceito. Que o aumento da despesa pública com a segurança social não é a principal causa do estado das coisas.
Números, considerando uma população ativa de 5,5 milhões:
reformados:               1,9 milhões
por sobrevivencia:      0,7    «
por invalidez:              0,3    «
Podemos ter baixa produtividade, mas também não é por aí que o gato vai aos filhoses (como dizer isto em inglês, para que os economistas dos centros orientadores que formatam os nossos economistas, o compreendam? que o banditismo financeiro pode não explicar tudo, mas que tem a parte de leão no estado atual das coisas, tem).

sábado, 25 de dezembro de 2010

Capital offense de Michael Hirsh

Com a devida vénia à revista Sábado e ao seu crítico Fernando Sobral, cito a informação deste sobre "Capital offense - How Washington's Wise Men Turned America's Future Over to Wall Street" , de Michael Hirsh, livro vendido através da Amazon por 13,59 dólares mais despesas de expedição. Ver entrevista os autor em:

http://www.amazon.com/Capital-Offense-Washingtons-Turned-Americas/dp/0470520671/ref=sr_1_1?s=books&ie=UTF8&qid=1285134864&sr=1-1

O autor não é membro de nenhum partido de esquerda português, nem é bloguista petulante ou achista, foi editor senior da Newsweek e é atualmente jornalista do National Journal.
O autor defende que, desde o reaganismo (no tempo do petróleo barato e abundante mesmo o de origem norte-americana) as ideias de Milton Friedman e de Alan Greenspan sobre o funcionamento dos mercados sem regulação e com taxas de juro demasiado baixas conduziram à crise de 2008 e, não obstante a experiencia positiva das ideias de Keynes (favoráveis ao investimento público e à criação de empregos) a seguir à depressão de 1929, verifica-se atualmente que são as mesmas ideias de Friedman e de Greenspan que continuam a dominar.
Pessoas que aplicaram essas ideias antes da crise de 2008 estão agora na administração Obama, como Lawrence Summers e Tim Geithner.
Isto é, os grupos de poder e os seus teóricos não alteraram as suas políticas de supremacia do poder económico sobre o poder político.
Passa-se isto nos USA, onde nas recentes eleições  os eleitores pareceram confirmar isso mesmo.
Dir-se-ia que a ciência não faz parte desta equação, nos USA e na EU, parafraseando o professor Carvalho Rodrigues.
Depois não se admirem que Michael Moore faça os filmes que faz.

Entretanto, há outro livro de Michael Hirsh à venda na Amazon, "At War with Ourselves -Why America Is Squandering Its Chance to Build a Better World":

http://www.oup.com/us/catalog/general/subject/Politics/AmericanPolitics/UrbanPolitics/~~/dmlldz11c2EmY2k9OTc4MDE5NTE3NjAyNQ==

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Rodoviarium XXIII - Sexta-feira, dia 17 de Dezembro de 2010, 7 mortos nas estradas portuguesas

Sexta-feira, dia 17 de Dezembro de 2010, 7 mortos nas estradas portuguesas


Em Maio de 2009 morreram 269 pessoas em acidentes rodoviários segundo os critérios estatísticos então em vigor, isto é, contabilização dos mortos dentro de 24 horas (com mais precisão: falecimento no local do acidente ou no percurso até ao hospital).
Em Maio de 2010 morreram 262 pessoas segundo o mesmo critério.
Infelizmente, as dificuldades de interpretação da leitura de dados levam a dizer que estamos a melhorar.
Segundo o critério de contabilização dos mortos a 30 dias (falecimento no local do acidente ou durante os 30 dias seguintes; números só publicados 6 meses depois), os acidentes rodoviários de Maio de 2010 provocaram 342 vítimas mortais.
Nos meses anteriores também se verificou um acréscimo de cerca de 30% das vitimas a 30 dias relativamente às vitimas a 24 horas.
Isto é, andámos a enganar a Europa com as estatísticas. Em 2009 não se fazia a estatística a 30 dias. Isto é, não há dados para comparar. A falta de dados é em Portugal um problema crónico em muitas questões, nomeadamente de transportes. Assim é difícil estudar as soluções corretas.
A sinistralidade rodoviária é mais uma questão em que andamos francamente abaixo da média.
Como dizia recentemente um oficial da GNR, “os limites de velocidade não são cumpridos”. E é  aqui que deve insistir-se mais.
É desesperante confirmar  nas estradas que os limites não sãocumpridos, é desesperante ver como ficam zangados os condutores quando têm de seguir atrás de quem esteja a cumprir os limites, é desesperante não ver na televisão uma campanha publicitária intensiva, pela positiva (i.é, mostrando o comportamento recomendado e não a transgressão ou os seus efeitos).
Mas os governantes, os decisores e os analistas estão mais preocupados com outros assuntos.
Confirmam-se os resultados do PISA, há um défice grave na capacidade de interpretação dos dados.

Dados retirados de:

http://www.ansr.pt/default.aspx?tabid=57

domingo, 19 de dezembro de 2010

A justiça em Portugal e o Alto do Lumiar

Desta vez tiro o chapéu à justiça em Portugal e aos juizes do Supremo Tribunal que condenaram a Câmara Municipal de Lisboa a pagar 119 milhões de euros ao expropriado de uma quinta no Alto do Lumiar (quem achar exagerado pode sempre propor um regime de contenção da especulação imobiliária, o que eu também apoiaria, uma vez que a especulação imobiliária ajudou e ajuda a desurbanizar Lisboa).
O ex-proprietário doou uma parte da sua quinta à CML para construção social, a troco da viabilidade de construção na outra parte, em seu benefício.
Mas a CML destinou a parte que se pretendia social a construção de luxo e o ex-proprietário pediu a indemnização.
Aplausos, e que o exemplo sirva a alguns colegas que se entusiasmaram a projetar lucrativos mas virtuais empreendimentos em terrenos atualmente com instalações oficinais e de garagem de transportadores públicos (por exemplo, os terrenos do antigo parque de garagem e oficinas do metropolitano de Lisboa, em Sete Rios; os terrenos do aeroporto, se ele sair de lá): uma expropriação para fins de serviço público é um acordo de cavalheiros sem limite, e os terrenos expropriados são para ser utilizados em serviços públicos, independentemente das teorias sobre o imposto sucessório.

D.Carlos Azevedo e os gestores

Carlos Azevedo é bispo auxiliar da diocese de Lisboa.
Com a devida vénia ao DN, cito a sua afirmação: os gestores formados pela Universidade Católica vão para as empresas e aí não seguem a doutrina social da igreja, antes professam um tipo de gestão feroz na dimensão humanista.
Pois, era o que eu pensava, que as receitas economicistas não têm nada de cristão.
Já dizia Fernando Pessoa que Jesus Cristo não sabia nada de finanças; e segundo o Evangelho, o próprio Jesus Cristo mandava entregar a moeda de Cesar a Cesar sem se meter em teorias político-económicas; e os atos dos Apóstolos já falavam naquela coisa da economia coletiva.
Curiosa, a afirmação do bispo auxiliar da diocese de Lisboa.
Que aconteceria se o Vaticano deixasse de apoiar o BCE?

Economicomio LXV – João Cesar das Neves

João César das Neves é professor catedrático de economia, autor de um livro de Economia para crianças que me parece ensinar o interesse egoísta de Adam Smith em detrimento da solidariedade, mas pode ser interpretação deficiente minha, e defensor de teorias económicas que não me são simpáticas.
Mas tem o mérito de ser um crítico das políticas económicas praticadas no nosso país desde 1997, como confessa na sua entrevista ao DN de 19 de Dezembro de 2010.
Também é autor da ideia de que, de erro em erro, Portugal tem obtido alguns êxitos (por exemplo, ainda há quem vá trabalhando e conseguindo aumentar as exportações).
O que me chamou a atenção na entrevista foi a afirmação de que no momento presente os “lobbies ” da construção estão condicionando fortemente o governo e os políticos e não estão nada interessados na intervenção do FMI, que previsivelmente lhes retiraria poder económico.
Quem concordar com a intervenção do FMI arrisca-se a ser taxado (para além das taxas dos PEC) de anti-patriota.
Mas…correndo outro risco, o de ter interpretado mal a leitura do que o senhor professor disse, e animado por o senhor professor catedrático de economia ter constatado o que Karl Marx verificou há muitos anos, que o poder económico andava a controlar o poder político, vou tentar um silogismo, começando por outra afirmação de Jerónimo de Sousa, reproduzida no DN da véspera e designada de seguida por 1, excluindo o parentesis:

1 - a quota das remunerações dos trabalhadores das empresas portuguesas é, em média, cerca de 26% dos custos operacionais, sendo que no caso das empresas exportadoras essa quota é de cerca de 15% (sendo que no Metropolitano de Lisboa, escrevo de cor, pelo que peço desculpa, os encargos com o pessoal são da ordem de 40% dos custos operacionais sem encargos financeiros e de 25% incluindo os custos da dívida);

2 – nas despesas operacionais duma empresa, uma quota de 26% é uma pequena contribuição para os custos de produção e comercialização (cuja redução melhora a tal competitividade), pelo que, sempre que é necessário reduzir os custos, deverá ser dada maior atenção aos fatores com maior expressão na contribuição para os custos;

3 – Logo, reduzir a quota das remunerações por abaixamento ou taxação das remunerações ou redução dos quadros de pessoal não são as principais medidas a tomar para reduzir os custos de produção e comercialização, q.e.d

Mas os senhores economistas insistem em cortar nos rendimentos do trabalho (penso que é para poupar os rendimentos do capital e não enervar ainda mais os “mercados”, que são organismos muito sensíveis, com os nervos à flor da pele e com tendência para fugir, nem eles sabem agora para onde, desde que o banco suíço UBS teve uma má experiência com os USA).
Podemos tentar outra perspetiva:

Mantenhamos o objetivo do senhor Tricheur, perdão do senhor Trichet do BCE, de manter a inflação contida e as taxas de juro baixas, o que se consegue, como se sabe da lei de Philips com taxas elevadas de desemprego e despesas públicas também contidas.
Ora, as quotas mais responsáveis pela despesa pública são os encargos com o estado social, enquanto agente operacional dos direitos humanos consagrados na respetiva declaração universal, e aplicáveis principalmente ao setor do trabalho, ativo e pensionistas.
Como é sabido, as receitas dos PEC são principalmente cortar nos rendimentos do trabalho, sem taxar, por exemplo, as transações da bolsa, os depósitos nos “off-shore” ou até mesmo, de forma excecional, os lucros dos bancos e as mais valias em bolsa (não confundir com as propostas taxas sobre as transações).
Logo, o esforço recairá mais sobre o trabalho do que sobre o capital (foi o que disse João Cesar das Neves, não foi? que há corte no subsídio de desemprego e no rendimento social de inserção, mas não há na alimentação das grandes construtoras). Isto é, contribuirá para aumentar a diferença de rendimentos entre as faixas de população com menores e com maiores rendimentos e agravar assim o coeficiente de Gini de desigualdade social.

Perdoarão, mas isso é contra a declaração dos direitos humanos, e eu não quero ser acusado de apoiar a violação desses direitos.
Confesso que gostaria de ver os senhores economistas demonstrar com fórmulas que o que escrevo está errado, ou que os PEC estão a sobrecarregar igualmente o trabalho e o capital.
Mas não consigo ver nenhum senhor economista a divulgar esses cálculos…
Dificuldade de interpretação minha da leitura do que eles dizem, ou de iliteracia minha dos seus cálculos matemáticos.
Será que algum leitor economista poderia facultar-me esses cálculos para publicação neste humilde blogue?

Um certo olhar, no domingo dia 19 de Dezembro de 2010

Manhã de domingo na Antena 2, programação cinzenta e macilenta onde antes estava o certo olhar. Talvez propositadamente o programador passou aqueles programas xaroposos de intercambio com as outras rádios com musica alusiva à quadra do solstício de Inverno.
Podia ser pior, podia a direção ter-se lembrado de substituir o certo olhar pelos diálogos da Lélé e do Zequinhas...
Já não posso dizer que apesar de tudo, se ouvem coisas que não agradam aos decisores, quando decidem, sem o debate alargado e o concurso dos cidadãos e cidadãs que percebem dos assuntos.
Isto é, quando a democracia não funciona.
Mas continuemos, ainda cá estamos.

Entretanto, sugiro que pesquisem no site da RTP os arquivos do certo olhar. Por exemplo, o programa do dia 5 de Dezembro de 2010:

http://tv.rtp.pt/multimedia/progAudio.php?prog=2175&clip_wma=78545

Oiçam neste programa a canção preferida de Maria João Seixas, Cajuina, de Caetano Veloso. Maria João Seixas, que, dadas as suas ligações ao partido no governo, fazia por vezes flic-flacs incríveis para explicar, sem justificar, algumas decisões, mas denunciando sempre a insensibilidade cultural e social dos decisores.
Oiçam também a opinião sobre a candidatura à organização do mundial de futebol de Miguel Real, professor e escritor, autor de "A ministra", descrevendo uma psicologia deformada, mas garantindo sempre que a conclusão de que se trata da senhora ex-ministra da Educação é do leitor.
Mas oiçam principalmente Luisa Schmidt, socióloga com a pronuncia doce terminando os "os" com "es" sobre a sentença da linha do Tua pelo IGESPAR, de cuja comissão emissora do parecer fez parte um dos membros do conselho das barragens... Como diz Luisa Schmidt, não tendo havido pedido de escusa, pode algum estado funcionar desta maneira?
Não disse ela, mas digo eu, que a alteração do projeto, deslocando a barragem uns quilómetros para montante (reduzindo obviamente a capacidade de armazenamento mas não a de potencia produzida a fio de água) era possível.
Mas não querem que seja.
E não foi por isto que o programa foi extinto; já o tinha sido antes desta afirmação, mas depois doutras...

As três graças

                                                   

Tenho uma sugestão para a senhora ministra da Cultura, a propósito das Três Graças de Lucas Cranach que o Museu do Louvre vai comprar por 4 milhões de euros.
O Louvre conseguiu patrocínios só até 3 milhões de euros. De modo que resolveu lançar uma subscrição pública. E eis que já tem os 4 milhões.
A sugestão era fazermos o mesmo cá em Portugal, subscrições públicas (por sinal é o que o Metropolitan Opera House de New York faz) para os cortes dos PEC não magoarem tanto a Cultura.
Tinha graça... mas era preciso que  não fosse tão forte o funcionarismo relutante e passivo naquele ministério... o funcionarismo,  e a discricionariedade militante, sobranceira e auto-suficiente...como militante, sobranceira e auto-suficiente devia ser a agente secreta filisteia Dalila, na sua missão de tirar a força a Sansão.

PISA – Programme for International Students Assessment

O PISA – Programme for International Students Assessment (Programa internacional da OCDE para avaliação dos estudantes)

Os representantes das estruturas decisórias nos domínios da Educação do meu país embandeiraram em arco.
Os estudantes portugueses de 15 anos, selecionados quase aleatoriamente para responder a testes e questionários preparados pela OCDE para avaliar a capacidade de interpretação e de resolução de problemas de literacia em matemática, leitura e ciências, melhoraram significativamente e comparativamente com os países europeus mais evoluídos entre os testes de 2006 e os testes de 2009.
Perante este facto, os meus aplausos, pelo sentido positivo da evolução.

Porém, a forma como os referidos representantes interpretaram os resultados, como quem incensa o treinador quando a equipa ganha, merece ser analisada pela gravidade revelada, precisamente na dificuldade de interpretação matemática e na ileteracia matemática que nos tortura.
Os resultados do PISA não demonstram teoremas ou teorias, porque as estatísticas deste tipo mostram correlações, se bem fundamentadas.
Efetivamente parece ser o caso das estatísticas do PISA da OCDE; existem mecanismos estatísticos, aplicáveis aos dados dos testes e dos questionários, que permitem detetar eventuais fraudes, que não consta terem acontecido.
Não disponho de elementos que permitam duvidar da aleatoriedade da seleção dos alunos e da correção dos procedimentos, não obstante a extinção anunciada do GAVE, responsável pelo PISA em Portugal desde 2000, pela anterior senhora ministra ( não terá portanto ocorrido nada de semelhante ao que se passou nos anos 90 nos USA, num concurso ganho pela pior escola de Chicago que teve acesso prévio aos testes, e que originou um interessante filme).
Quem conhece professores que sofreram as imposições da anterior ministra, que dizia que tinha perdido os professores mas tinha ganho o povo, sabe que não deve estabelecer-se uma correlação entre as medidas da senhora ex-ministra e as melhorias verificadas.
Quem conhece um sistema de avaliação sabe como os objetivos teóricos do sistema não têm correspondência com a prática, pelo menos até agora, e da forma como têm sido aplicados.

Vamos porém a factos, para avaliarmos se há razão para tanto contentamento, mesmo descontando o coeficiente de auto-satisfação que caracteriza qualquer dirigente político português.
Eis os resultados dos testes de 2006 e de 2009, de Portugal, Macau e média da OCDE.


Pontuações máximas obtidas por países da OCDE em 2009:

matemática:  Coreia, 546
leitura:          Coreia, 539
ciencias:       Finlandia, 554

Pode ver-se que o contentamento vem da subida de todas as pontuações (matemática, interpretação de leitura e ciências) e da subida na tabela ordenada.
Mas…não quererão ver que os valores de 2006 são tão baixos que as subidas são mais fáceis do que para os países mais bem colocados ? (simples aplicação de um corolário da lei dos rendimentos decrescentes).
E é caso para estar tão contente? quando no conjunto dos 31 países da OCDE estamos sempre claramente abaixo da média e:
- em matemática estamos em 25º (sempre muito atrás de Macau)
- em leitura estamos em 21º (ligeira ultrapassagem relativamente a Macau)
- em ciências estamos em 24º (muito atrás de Macau)
Ou poderemos concluir que os representantes máximos das estruturas decisórias da Educação padecem das mesmas dificuldades de interpretação das leituras?
Espero que não considerem esta interrogação ofensiva.
Mas se o considerarem, estou ao dispor para participar nos próximos testes, juntamente com os ofendidos, desde que os vigilantes sejam de confiança.

Penso que a atitude mais saudável seria reconhecer o que há muito foi informado à anterior senhora ministra, que o insucesso escolar tem fortíssimas raízes no meio social exterior à escola (resulta isto de estudos de correlações após recolha e tratamento de grandes quantidades de dados noutros países mais dados a este tipo de trabalho sério), quer nas limitações económicas e educacionais dos pais (eu sei, os inquéritos do PISA também pesquisam esta problemática e... ainda bem, melhorámos de 2006 para 2009; mas teme-se o efeito das medidas de contenção do plano de estabilidade e contenção), quer no nível de bem-estar social.
E que por isso, por mais que se invista na escola, nunca se poderá atingir o topo da classificação sem resolver os tais problemas exteriores às escolas.

Mas estou a derramar água sobre o molhado.
Deixem-me então dizer que uma das conclusões que estes testes do PISA permitem tirar é que as raparigas obtêm sistematicamente resultados muito melhores do que os rapazes na interpretação da leitura e melhores em ciências, e que em matemática a situação se inverte.
E passa-se isto quer em Macau, quer em Portugal, quer na OCDE (será a questão da comunicação entre os hemisférios cerebrais?).
É curioso e explica o que se passa entre nós.
A assertividade com que os políticos masculinos discutem as coisas tem por base uma menor capacidade de interpretação das suas leituras…
Não admira assim os resultados que os ditos políticos obtêm… os políticos e os decisores das empresas deste nosso amado pais (será que depois disto vão contratar conselheiras em vez de conselheiros?).
Agora compreendo por que corriam melhor as minhas reuniões quando os responsáveis das outras áreas eram do género oposto…

Resultados e informações retirados de:

http://pisa2009.acer.edu.au/multidim.php

http://en.wikipedia.org/wiki/Programme_for_International_Student_Assessment

http://www.gave.min-edu.pt/np3/11.html

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Carlos Pinto Coelho

Assim acontece... morrer Carlos Pinto Coelho.
Vejo a sua ultima intervenção na televisão.
A indignação por neste país se desprezar a cultura.
Tambem eu me indigno, mas sem a força dele.
Disse ele: neste país editam-se 40 livros por dia (o que leva a ter confiança no nosso povo, acrescento eu, no que Carlos Pinto Coelho concordaria pelo ar entusiasmado com que dizia 40) mas nos noticiários da televisão são noticiados 0 (e formava o zero com os dedos, enquanto na sua cara bonacheirona se refletiam já os sinais de fadiga da doença - será que a especialidade médica de saúde pública não poderá desenvolver uma ferramenta., como agora se diz, de deteção de sinais indiciadores da doença? ) .

Indigna a supressão há uns anos do programa "Assim acontece", em que ele nos mantinha ao corrente do que acontecia na cultura , na RTP2, de uma forma recetiva. Temos agora o programa "Câmara clara", mas não é bem a mesma coisa, embora seja positivo.

Parece-me também indigna, sob reserva de eu não estar na posse dos elementos todos , do programa "Um certo olhar"(mas senhores, porquê acabar com ele?), na Antena 2, uma conversa sobre a atualidade, porque lá podiamos ouvir o que os decisores que nos governam não gostavam de ouvir (será que a escola da BBC já não é acolhida?).
Carlos Pinto Coelho será continuado, nisso acredito.
É impossível degradarmo-nos tanto quanto ele não ser continuado.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

The parting glass, o copo de despedida

The parting glass

Of all the money e'er I had,
I spent it in good company.
And all the harm I've ever done,
Alas! it was to none but me.
And all I've done for want of wit
To mem'ry now I can't recall
So fill to me the parting glass
Good night and joy be with you all

Oh, all the comrades e'er I had,
They're sorry for my going away,
And all the sweethearts e'er I had,
They'd wish me one more day to stay,
But since it falls unto my lot,
That I should rise and you should not,
I gently rise and softly call,
Good night and joy be with you all.

If I had money enough to spend,
And leisure time to sit awhile,
There is a fair maid in this town,
That sorely has my heart beguiled.
Her rosy cheeks and ruby lips,
I own she has my heart in thrall,
Then fill to me the parting glass,
Good night and joy be with you all.



O copo da despedida

Todo o dinheiro que eu tive,
gastei-o em boa companhia.
E todo o mal que fiz,
foi mais para mim que para os outros.
Tudo o que não fizemos por falta de senso
não consigo recordar agora.
Então, encham-me o copo da despedida.
Boa noite e que a alegria fique com todos vós


Todos os camaradas que tive
têm pena por me ir embora,
e todas as amigas que namorei,
gostariam que ficasse mais um dia.
Mas como me tocou agora a vez,
de eu dever levantar-me e vocês não,
levanto-me serenamente e digo:
Boa noite e que a alegria fique com todos vós


Se eu tivesse dinheiro suficiente para gastar,
e tempo livre para me sentar por momentos,
há uma rapariga nesta cidade
que seduziu e magoou o meu coração.
As suas faces rosadas e lábios de rubi,
fizeram do meu coração seu escravo.
Portanto, encham-me o copo da despedida.
Boa noite e que a alegria fique com todos vós



http://www.youtube.com/watch?v=XhJp0W0ku2w




segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

O Museu de Arte Popular reabre

O Museu de Arte Popular reabre dia 13 de Dezembro de 2011.
A nossa ministra da cultura não pode pode fazer só coisas de que eu não gosto. É impossível nunca acertar quando se dispara muito, gastam-se muitas munições mas acaba por se acertar. O problema, como me explicaram em Mafra, é que se perdem as munições.
Isso não é bom para quem queira privilegiar a eficiência, que é o resultado da arte de obter o máximo com o mínimo dos meios.
Mas o ponto exato em que a quantidade obtida satisfaz a fome de cultura é discutível.
Foi, discutir e exprimir a sua opinião, o que fez Daniel Barenboim no Scala de Milão, solidarizando-se, antes do inicio da ópera inaugural da temporada, com quem protestava no largo fronteiro contra os cortes do ministério da cultura. Do ministério da cultura de lá, da Itália, que anda como uma dívida um bocadinho exagerada, e que deixa cair as paredes das casas  de Pompeia.
E é o que eu faço também, depois de ver no canal Mezzo a transmissão da "Fanciulla (rapariga) del West", ópera de Puccini em homenagem a uma rapariga do Oeste, que consegue redimir um fora da lei.
A encenação, na ópera de Amsterdam, discutível como todas as encenações, era do tipo daquelas que o ex-diretor do S.Carlos, demitido sumariamente pela ministra da Cultura, a de cá, costumava contratar, e foi por isso que ela o demitiu, com uma indemnização que a vítima até achou generosa por não compreeender como um país pobre, que poupa tanto na cultura, prefere perder dinheiro a cumprir um contrato (critérios de presidentes de clubesde futebol?).
No final da ópera, a fanciulla descia uma escada luminosa tipo Hollywood, vestida como Marilyn Monroe, no meio de um depósito de sucata de automóveis, e o herói juntava-se-lhe num voo de uma liana à moda de Tarzan.
Como dizia a senhora ministra, abusivamente porque estava a falar tambem por mim, não são estas as encenações que os espetadores do S.Carlos esperam ver.
Mas é pena, Lisboa ficar sem encenações destas e com ministras assim, mais parecida com a Dalila de "Sansão e Dalila" do que com a fanciulla de Puccini.

A Fanciulla del West na ópera holandesa:


Aplausos, para a ópera holandesa, e para o museu de arte popular.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Desmanchar a feira

Desmanchar a feira é uma expressão que se utiliza quando se termina uma função. A função, por exemplo, de divertir as crianças, de ocupar os adolescentes, de vender serviços a adultos.
A feira popular de Lisboa foi desmanchada no meio de imoralidade denunciada por um partido político mas não impedida pelos orgãos da camara municipal de Lisboa. A imoralidade consistiu, numa permuta, em desvalorizar o preço dos terrenos pertença da câmara, valorizando o preço dos terrenos pertença da sociedade investidora. Como é difícil que todas as situações estejam previstas na lei , como o preço dos terrenos não é fixado por lei (não estou a dizer que devia ser sempre e em qualquer lugar), como a acessibilidade aos negócios imobiliários sofre de crises de assimetria, a feira foi desmanchada há anos sem que tenha sido reinstalada em local apropriado nem publicamente esclarecida a imoralidade. Foi divertido ouvir, durante a fase de comercialização de alguns empreendimentos na Alta de Lisboa, que não se devia encarar a hipótese de localizar lá a feira popular porque desvalorizava os apartamentos. Enfim, pormenores dos mercados imobiliários. Lançaram-se outras hipóteses, naquele clima de disponibilidade e de iniciativa que os vencedores das eleições para as câmaras gostam de exibir aos jornalistas, mas a capacidade de emperrar as soluções que nos carateriza predominou.
E então, como dizia José Régio na toada de Portalegre, os profissionais das feiras populares conseguiram que neste período do solstício de Inverno os autorizassem a montar os seus divertimentos nos terrenos da antiga feira popular, em Entrecampos.




Mas as crianças pedem agora aos pais para irem aos grandes centros comerciais e entretêm-se mais com as consolas e os jogos de PSPs e de Wiis.
Por isso vi pouco movimento, numa tarde de sábado que não estava fria nem chuvosa.
Tive pena, porque muitas crianças não vão ter depois a memória de se divertirem na feira popular aonde os pais as levaram, nem os adolescentes terão a memória de encontros não confessados sob as luzes de neon (agora, por razões de economia energética, de compactas fluorescentes ou mesmo de leds).
Tive pena, por ver o entusiasmo dos feirantes e o carinho com que falavam às crianças.
Eu diria que é mesmo um desmanchar de feira, pelo menos em Lisboa, porque espero que os camiões-trator que lá vi estacionados levem os divertimentos em segurança, pelo país fora, para as crianças do meu país.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

O museu de automóveis antigos de Lisboa já não mora aqui

Doi-me a cabeça e o universo, como diz Fernando Pessoa no Livro do Desasossego e na estação do Parque do Metropolitano de Lisboa.
Porque fechou o museu municipal do automóvel em Entrecampos. 
Tinha 40 clássicos. Por exemplo , um Mercedes 28/95 (1921), com carroçaria de madeira,  um Peugeot 81.B (1906),  um Bentley Speed (1924), um Darracq (1901),  um Cottin & Desgouttes (1913), o Rover 2000 (1966) de Fernando Pessa.
Havia que demolir o pavilhão onde estavam os automóveis, que foram entregues aos donos, para construir mais betão em Entrecampos.

Não vale a pena argumentar e talvez também não valha a pena sugerir locais em Lisboa, que talvez pudessem atrair turistas. A câmara municipal de Lisboa, através dos seus orgãos eleitos, não está interessada, e até informa candidamente que o museu nunca chegou a ter existencia formal.
Houve uma hipótese de instalar o museu em Sintra. Mas talvez também não valha a pena. Ainda bem que existe o museu municipal de Oeiras, em Paço de Arcos, que funciona em colaboração com o Clube Português de Automóveis Antigos.

Faço dois comentários:
1 - a ocupação de tempos livres com autmóveis antigos não é um exclusivo de cidadãos ricos, embora o mercado respetivo seja altamente discriminatório em termos de preços. A existencia de um museu deste tipo poderia contribuir para facilitar o acesso dos cidadãos comuns a este tipo de lazer, para alem de servir o turismo. Mas os tais orgãos eleitos não interpretarão assim os factos;
2 - o facto de existir um museu em Oeiras, de ter fechado o de Lisboa e de se pensar em deslocá-lo para Sintra, apenas revela mais um aspeto da doença da desertificação de Lisboa e da sua deslocalização para a periferia. É assim que a Baixa vai perdendo gente moradora, gente empregada, serviços. As empresas fogem para a Expo e para os municipios envolventes. Os orgãos eleitos da CML lamentam os factos, mas em casos concretos deixam acontecer. Deixarão fugir para Évora o museu da musica, atualmente na estação de metropolitano de Alto dos Moinhos (será que lamentam?).
É uma pena, viver-se assim numa cidade a desertificar.

Almoço na esplanada da Gulbenkian 8 - o jantar da despedida

O nosso último almoço na esplanada da Gulbenkian foi nostálgico, no preciso dia seguinte ao do jantar de despedida do meu amigo.
Despedida porque está à espera da carta da Segurança Social para iniciar a sua reforma.
Ele ainda é da escola do antigamente, quando se pensava que os técnicos com profissões que exigem elevada especialização e que estão relacionadas com a segurança precisam de muitos anos numa empresa. Para apreender conceitos, o que demora muito mais do que aprender a dominar o funcionamento de equipamentos e de sistemas. Mas os gestores de agora (que não dominam conceitos, nem sistemas, nem equipamentos) acham que se deve mudar de emprego frequentemente. O que vale é que ainda há muita gente que não lhes faz a vontade.

O jantar foi o que a simpatia dos colegas é capaz de fazer, um ritual a que as pessoas se sentem obrigadas para homenagear a nostálgica passagem à reforma e para desejar felicidades, enquanto não chega a vez delas.

E eis que no meio do almoço na esplanada da Gulbenkian com espargos verdes, a eterna fatia de quiche lorraine , ovos verdes e tajine de ameixas, amendoas e pinhões, o meu amigo puxa de um papel e mostra-me o discurso que leu aos amigos e colegas, diz ele para lhes deixar umas pistas para a vida nas empresas:



                             O Discurso do Não             em 8 de Dezembro de 2010

Sempre fui um mau aluno nas orais.
Sempre tentei dispensar na escrita.
Também por isso precisei de mais 2 anos para acabar o curso.
Assim, não admira que esteja a ler este discurso para vos agradecer a vossa presença em vez de fazer um agradecimento de improviso sem papel à vista.
Esta é a despedida, predita facilmente, de dois colegas que têm em comum um grande respeito pelos conceitos da engenharia, em oposição à facilidade das manobras de diversão e da fuga para o predomínio do virtual sobre o real, da ilusão da imagem sobre o conteúdo, e do acessório sobre o essencial.
Peço portanto desculpa por vos pedir a vossa atenção para um discurso que pretende transmitir a quem fica algumas ideias que possam beneficiar-vos, e que resultam da experiencia.

O discurso é sobre o Não

Não se preocupem com a ciência nem com a parte técnica – lembrem-se de que quem toma decisões também não as utiliza
Não percam tempo com a lógica das decisões; vejam antes donde sopra o vento
Não deixem o conteúdo sujar a imagem, porque é a imagem que convence quem não conhece o conteúdo
Não esperem que as razões do essencial predominem sobre o acessório, porque o acessório não cansa tanto a cabeça
Não se isolem do grupo mais bem posicionado porque assim poderão estabelecer melhor os vossos objetivos.



Ah! Mas reparem bem que este é um discurso do Não.
Por isso não façam o que estes 5 Nãos disseram.
Digam antes sim a estes sins:

Criem laços.
Criem laços entre vós.
Criem laços entre vós e aquilo que fazem.
Criem laços entre o que fazem e a comunidade e as pessoas da comunidade, cujo bem estar e o usufruto dos bens e serviços produzidos é o fim último daquilo que vocês fazem
Criem laços entre a ciência e o que fazem
Ponham hipóteses, recolham os dados e os factos
Criem laços entre uns e outros de vós e entre o que uns fazem e o que os outros fazem.
Criem laços.
Não se importem, os laços são a essência, a imagem é o acessório.
Os laços são a solidariedade, quer no sucesso, quer no insucesso.


E, para finalizar, como não consigo cantar, sugiro-vos que pesquisem no Google, escrevendo “youtube everytime we say goodbye I die a little”; basta escrever “everytime we say”, e oiçam, por exemplo, Ella Fitzgerald a dizer isso mesmo, que dizer adeus é morrer um pouco, por isso é melhor não dizer adeus.


Everytime we say goodbye, I die a little.




                           

Ruinas 11 - Carnide em obras



Há tempos, mostrei a fotografia de uma fachada em ruinas em Carnide, na Rua da Fonte.
Mas agora começaram as obras. Esta é a vista do lado de trás, do lado sul.
Felizmente ainda há quem não parou. E já fizeram escavações e não tocaram nas palmeiras e nos pinheiros mansos. Será que os vão manter? Apesar de ali estar a pedir um parque d estacionamento subterraneo (aliás compativel , embora com limitações, com a continuidade das árvores).
Assunto a seguir.

Viva il vino spumegiante, viva il vino qu'e sincero

Sem pretender contestar as decisões no domínio da ópera em Portugal da senhora ministra da cultura, que apenas por uma questão etária aguarda a demissão da ministra italiana da igualdade de oportunidades, Mara Scarfagna, para ocupar o lugar de mais bela ministra do mundo, à frente das colegas espanholas, não estando a gentileza das suas decisões à altura desse lugar, conforme se comprovou em mais uma demissão intempestiva, a da diretora geral do livro e das bibliotecas, sugiro que vejam aqui José Carreras entoando o hino ao vinho capitoso e borbulhante da Cavalleria rusticana. Turidu, antes de sair para morrer no duelo com o marido da sua paixão proibida, Santuzza, canta assim. Cavalleria não quer dizer cavalaria, quer dizer conceções sobre o que era ser cavalheiro na Sicilia rural do fim do século XIX.


terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Imagine - John Lennon

Imagine - John Lennon




Por um lado não se avançou muito, 30 anos depois da morte de John Lennon, mas acho que se vai conseguindo. Sempre fica alguma coisa no subconsciente. Também acho que se chamava a má consciência, antes de Freud, e pressa de castigar ou de calar os discordantes, quando se tem o poder.


Imagine there's no countries
It isn't hard to do
Nothing to kill or die for
And no religion too
Imagine all the people
Living life in peace

You may say that I'm a dreamer
But I'm not the only one


http://fcsseratostenes.blogspot.com/search?q=imagine

Questões de manutenção

Questões de manutenção


1 – Acidente do avião do Daguestão – Tudo indica que que os 3 reatores do Tupolev 154 ultrapassaram largamente o número de horas de voo entre revisões recomendado pelo fabricante. Comentário – Parece que os critérios de segurança de manutenção programada devem prevalecer sobre os critérios de economia

2 – Queda de peças do Boeing 777 da TAAG – apesar de ser um avião novo, com 3 anos, parece que os destroços caídos em Almada são provenientes de um dos reatores. Comentário – Sem conhecer a história anterior, é impossível determinar as causas, mas o facto de ser um avião novo deveria obrigar a Boeing a esclarecer o público sobre as causas. Vamos, sem muita esperança, aguardar que o faça (escrevo sem muita esperança porque não me considerei esclarecido com as explicações dadas sobre o acidente da Spannair em Madrid: continuo a duvidar que os flaps e os slats mal posicionados sejam suficientes para desequilibrar o avião daquela maneira; parece-me faltar a garantia de que o “reverser” não interveio no acidente).

3 – Explosão do reator do A-380 da Qantas – A Qantas pediu à Rolls-Royce uma indemnização por deficiência de projeto; parece haver uma peça mal colocada que funciona bem se tudo estiver a funcionar normalmente mas, se outra peça falhar, entra em colapso . Comentário - parecerá que os testes de “endurance” dos reatores não terão sido suficientes e que os prazos de desenvolvimento dos respetivos protótipos e dos voos de ensaio foram curtos, apesar dos diferimentos (ou estes terão sido apenas por motivos financeiros, sem dar atenção à parte técnica?); dir-se-á que será de recomendar menos pressas (que é um critério de produtividade e de economia) no fabrico de novos reatores e de novos aviões

4 – Acidente do Concorde- o julgamento confirmou que a peça caída por negligência (a peça não estava certificada) de um avião da Continental para a pista deu origem ao acidente do Concorde por rebentamento do depósito de combustível depois de pisado pelo rodado. Comentário – Muito bem, mas não foi só a Continental a responsável, até porque não nunca uma única causa para um acidente destes. A prova é que o projeto do Concorde foi alterado depois do acidente (desviados os depósitos da trajetória dos destroços provenientes do rodado). Além disso, a trajetória do Concorde na pista foi deficiente por várias razões: excesso de peso, pista em mau estado (lembram-se do acidente de Congonhas em S.Paulo, com um avião com um reverser paralisado e com a pista sem estrias de escoamento da chuva que caía intensa?) e esquecimento da manutenção do separador entre rodas de um dos rodados do trem de aterragem. O que me impressiona, é que estas causas e circunstancias técnicas não parece terem sido bem compreendidas pelos intervenientes no julgamento, o que não admira porque não terão formação técnica, mas há procedimentos para expor e demonstrar questões técnicas. Devemos ter aqui um problema de comunicação. (Pelos vistos não é exclusivo da aeronáutica, porque também há exemplos disto na ferrovia : depois do inquérito do acidente do metro de Washington, causado por deficiências nos bastidores dos circuitos de via de modelo obsoleto – como se sabe, os modelos de tecnologia obsoleta de circuitos de via devem ser considerados incompatíveis com a tração eletrónica dos comboios - o metro iniciou vários processos de melhorias, desde o material circulante à parte civil das estações; mas não substituiu os circuitos de via, apenas instituiu medidas mais apertadas de manutenção que, se forem cumpridas, garantem a segurança, mas ficam dependetes da fiabilidade da intervenção humana; temos de pôr várias hipóteses para tentar perceber isto, como no caso do Concorde, uma vez que não são publicitadas todas as causas: poderemos pensar que o fabricante dos circuitos de via não quis que se associasse o seu nome ao acidente?).

É isso, deve ser um problema de comunicação, como dizia o chefe dos guardas ao Paul Newman, no “Convict”.

Pena, a manutenção dos sistemas de transporte devia estar acima disso.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Ruinas 10 - Tavira


Tavira, a caminho do castelo, aguardando um empreendimento turistico de pequena dimensão, porque as áreas por habitante eram muito pequenas nos séculos passados e no século e no local presentes não há capacidade para a recuperação integrada.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Livro de Jeremias, 40, versiculos 2 - 5

Com a devida vénia ao DN, comento a informação não confirmada de que a senhora Angela Merkel teria dito, num circulo restrito mas que não se considera obrigado a guardar segredos destes, que, "se o clube do euro é isto, então o melhor é a Alemanha saltar".
Não é uma revelação do Wikileaks, é um rumor, mas se não é verdadeiro, é plausivel, considerando outros ditos da autora da frase, como aquele de obrigar a "aceitar os valores cristãos e germânicos" (em princípio, o tal clube europeu é laico).
E,  por estranha associação de ideias, tropeço numa citação do livro de Jeremias, 40.
O comandante alemão, perdão, o comandante do exército babilónio, Nebuzaradan, general de Nabucodonosor (séc.VI A.C.), que tinha tomado Jerusalem e se preparava para levar deportados para Babilónia a elite judaica e Jeremias (profeta segundo a Bíbia, e, segundo outros, chefe da fação política dos proprietários de terras, conciliadora com as ameaças militares vizinhas egipcia e babilónia, às quais pretendia comprar a paz com a riqueza obtida com a produção agrícola, por oposição aos gastos sumptuários dos reis de Judá e das classes mais favorecidas, em plena crise financeira) voltou-se para Jeremias e disse-lhe:
"Vou soltar-te, e deixar-te ir em liberdade. Se quiseres vir comigo para Babilónia, muito bem; farei com que sejas tratado de forma a nada te faltar; no entanto, se não quiseres vir, não venhas. Tens toda a terra diante de ti; vai para onde bem entenderes. Se decidires ficar, volta para Gedalias, que foi nomeado governador de Judá por Nabucodonosor, e fica em Jerusalem com o resto do povo que ele governa. Portanto, quanto a ti o assunto está arrumado; vai para onde quiseres. Então Nebuzaradan deu-lhe algum alimento e dinheiro, deixando-o partir em liberdade. E Jeremias ficou em Jerusalem." (versiculos 2 - 5).

Fascinante, como na altura já havia o conceito de áreas regionais com especificidades bem caracterizadas, mas unificadas em torno de um poder central, neste caso Babilónia. E como Jeremias e o seu secretário particular Baruc registaram estes movimentos políticos e económicos, e como a sua documentação chegou até nós, com a natureza dos interesses de classe dos intervenientes tão bem definida...E como Nebuzaradan é tão claro: "se não quiseres vir, não venhas".

O sucesso e o erro

Tinha razão a minha professora de História. Podemos aprender com a documentação que ficou da vida política em Roma.
Vejam este exemplo, que devo agradecer a um site de citações da Internet:

"O sucesso tem uma estranha capacidade de esconder o erro"

Caio Salústio, escritor e político romano contemporâneo de Cícero, Julio César e Catilina.

Quem diria que, mais de 2.000 anos depois, a frase se mantem correta, mesmo aplicável a questões técnicas e de Software, de que Caio Salustio não era especialista.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

A Numérica

A Numérica é uma editora portuguesa de discos  de musica dita erudita, jazz e pop, tambem portuguesa.
Oiço na Antena 2 a entrevista com o seu produtor.
Alguns dos seus discos são de muito interesse, desde musica de Emanuel Nunes eVitorino de Almeida aos coros de camara com as canções de Lopes Graça.
Diz o produtor que a venda de 1.000 exemplares de um disco é considerada um sucesso.
A dimensão do país é assim e, a avaliar pelas dificuldades de outros países com dimensão mais favorável, talvez seja suficiente para um critério de viabilidade.
Com a condição de haver política estratégica do ministério da Cultura.
Que era do que se queixava o produtor: de falta de estratégia a nível político, não de subsídios.
Mas como esperar que os nossos políticos consigam traçar uma estratégia a nível nacional sem conhecer os problemas reais e sem dar mais importancia à cultura do que aos números, não os da Numérica, mas os da economia dos cortes cegos?
Sinceramente, eu não espero; nem eu nem Ricardo Pais nem Mario Laginha, que já disseram o que tinham a dizer sobre a incongruência da nova gestão do teatro nacional de S.João.
Pobre cultura portuguesa.


Ver informação sobre a Numérica em:

http://www.numerica-multimedia.pt/

Peter Hofmann

Este blogue está triste. Peter Hofmann foi um dos grandes tenores wagnerianos. Ouvi-o no Coliseu, no tempo em que lá se faziam extensões dos espetáculos do S.Carlos. Maria Helena de Freitas, musicóloga e crítica, escreveu que, para além da voz maravilhosa, era louro e de boa figura. Mas declarou-se-lhe a doença de Parkinson em 1994.  Lemos a satisfação provinciana de quem anuncia que a longevidade média europeia está a subir, já ultrapassa os 80 anos, o que justifica o aumento do numero de meses a seguir à data limite da reforma  para que a pensão não seja penalizada (fator de sustentabilidade, dizem os economistas para quem a idade da reforma ainda vem longe). Mas eu vejo a morte chegar antes dos 70 anos para Peter Hofmannn, Saldanha Sanches, Prado Coelho, Ernani Lopes... Não é o fator humano que está no centro dos cálculos estatísticos. Não é a declaração universal dos direitos do homem que orienta as decisões políticas. Mas devia ser.

Austeridade como ideia perigosa

Surpreendentemente, encontro este video numa mensagem no facebook .
Vem da Brown University, em Providence, Rhode Island, USA.
Não é um militante de um partido de esquerda português; muito menos um humilde bloguista.
É um professor de economia  de uma universidade norte-americana que fala. Recorda que os 40% trabalhadores mais pobres dos USA não tiveram, desde 1979 até hoje, um aumento real de salários (isto só é possível através de uma compressão dos custos, e isso  consegue-se, entre outras coisas, expandindo o desemprego, comprimindo os custos do fator trabalho e as taxas de juro e "salvando bancos").
Explica que "alavancar" significa aumentar a dívida apesar do valor do bem ou dos rendimentos não subir, mas juntando a este fichas de promessa de pagamento.
Explica que se todos, bancos e partuiculares, fizerem isso, o sistema rebenta. (a nossa Dona Branca já sabia isso, mas quando os dirigentes politicos se lançam no declive, eles próprios não sabem quando vão bater, nem os eleitores o sabem).
Explica que a saída da crise é impossível se todos (publico, bancos e privados) forem pagando as dívidas ao mesmo tempo, e que a unica hipótese é os que menos ganham subsidiarem os que mais ganham, isto é, cortar na despesa dos serviços publicos que só beneficiam os que menos ganham.
O que salva o sistema é que o problema é mesmo complexo, e não dá para todas as variáveis serem apreendidas pelos eleitores. Eu, pelo menos, não consigo apreendê-las. Se conseguisse também fazia um video assim, mas confesso que não consigo.


Retirado do site da universidade Brown:
Brown University's Watson Institute for International Studies is a leading center for research and teaching on the most important problems of our time, especially issues of inequality and insecurity in an increasingly complex world. Understanding the conditions and consequences of the flows of knowledge, people, wealth and weapons across global contexts, the Watson Institute works to improve policies and the contributions of publics and media to making a better world.






quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Wikileaks

Ui!
Já por esse mundo fora circulam ameaças de morte ao senhor do Wikileaks.
Parece que já entrou na clandestinidade.
Agora se entende porque se criticaram tanto os fundamentalistas que condenaram Salman Rushdie ou os mafiosos que ameaçam o escritor que denunciou a Camorra napolitana.
Acusa-se melhor quando se pratica aquilo de que se acusa.
Ou por outras palavras: o código genético dos fundamentalistas ocidentais e do médio oriente é igual.

Dê-se atenção ao que disse Gonzalez: 80% do que a Wikileaks agora  mostra já se sabia pelos jornais , embora não pudessem provar (foi, de facto, o caso dos voos da CIA).
E o que diz Bush é anedótico: devemos processar os autores das fugas de informação (é natural que fale assim, um dos testemunhos revelados é o de um político que diz: Bush revela uma grande dificuldade em raciocinar)
Mas a reação de Sarkozy parece-me preocupante: estas revelações são o cúmulo da irresponsabilidade (ou será que ele se refere à substancia e não às fugas? talvez não, talvez ache que as fugas da Wikileaks ameaçam a segurança do mundo ocidental; outra vez as ameaças para quem se portar mal, está visto; certamente que não se referirá à segurança de quem está na guerra num país que não é o desse alguém, porque para garantir a segurança desse alguém era não o mandar para lá, como já se sabe desde o tempo do Hair e da argumentação pró guerra do Vietnam e, se tiver de haver guerra, joga-se melhor em casa do que no campo do adversário, não é também sabido da teoria universal da tática e da estratégia? ou só poderá haver teorias unicas em tática e estratégia?).

Sobre este assunto, sobre a teoria do segredo, há uma coisa muito séria a discutir.
No século XVII, houve um senhor inglês, fundador da academia das ciências britânica, que enviou uma circular aos seus confrades informando que, a partir de então, qualquer coisa que um colega descobrisse ou inventasse, teria de o pôr em comum com a comunidade. Passe a redundancia, que não é redundancia, é uma origem lexicográfica comum e é uma estratégia.
Como a história demonstrou, é uma estratégia de desenvolvimento civilizacional e cultural.
É esta atitude que está na base do desenvolvimento tecnológico e, consequentemente, do bem estar e da cultura ocidental.
Isto é, o segredo não é a alma do negócio.
Não  devem os senhores políticos ocidentais virem agora contrariar a mola real do desenvolvimento do mundo ocidental.
O segredo é a arma da desigualdade, do desequilíbrio na acumulação de rendimentos para uns poucos que detêm o segredo em detrimento dos que o não conhecem; é a arma de quem pretende ter mais força do que o outro através da informação. Só que o outro não é o nosso adversário, é o nosso concidadão.

Como já foi dito, a ciência desenvolve-se num sentido e a economia e a política noutro.
Só que depois não venham os economistas e os políticos (e os militares consultores e conselheiros dos chefes de estado dos países poderosos) a queixarem-se de que deram com os burrinhos na água.

Bom seria que a economia e a política se fossem submetendo, mesmo paulatinamente que seja, à disciplina científica que, então agora com a internet, é tudo, menos sigilosa (ah, mas então os direitos de autor e das patentes? não vos citei já o descobridor da vacina contra a poliomielite? "recebo o meu ordenado do laboratório em que trabalho; tudo bem se ele puder ganhar algum dinheiro para desenvolver as investigações, mas por que hei-de eu receber direitos de autor, se tenho o meu ordenado e a minha assistencia social em dia, quando a vacina pertence à humanidade?" atenção que o senhor era norte-americano...).

Que se aprenda ao menos com as experiencias dos sistemas politicos que achavam que restringindo a informação a um grupo dirigente que esse grupo seria capaz de escolher o melhor caminho para a comunidade, e não funcionou.

Feita a experiencia, verificou-se que esse método, por mais correto que seja o sistema que pretende instaurar, tal como diz a Sabedoria das multidões, conduz a soluções deficientes, quer se trate da NASA ao não tomar a decisão certa no primeiro acidente do Challenge, quer se trate dos inquisidores que decidiam a execução, quer se trate do circulo restrito dos detentores de um poder económico e de um poder político, quer se trate de uma direção partidária que se isola nos seus segredos relativamente à comunidade.
Porque se o segredo está garantido, então podem cometer-se atentados aos direitos da comunidade porque se fica impune.
A menos que a Wikileaks consiga furar o muro de silencio e haja uma fuga catastrófica para a credibilidade dos campeões.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Capitalism now

Fascinante, como dizia Mr.Spock enquanto o monstro alienígena ia destruindo tudo.

Um grupo de capitalistas norte-americanos pede para que sejam subidos os impostos e sejam abolidos os benefícios fiscais acima de um dado rendimento.

Isto é, depois do acesso como que de varíola do reaganismo (com mais precisão, da teoria económica assente no petróleo barato) , alguns dos principais capitalistas dos USA propõem o retorno ao imposto progressivo (Milton Friedman acabou com ele quando disse que o imposto regressivo estimula as pessoas a aumentarem os seus rendimentos e, como dizia Adam Smith, o interesse individual iria “puxar” pelo interesse coletivo; viu-se).

Por outro lado, muitos desse grupo patrocinam fundações com fins não lucrativos (beneficiando das deduções devidas ao mecenato por solidariedade social).

Aparentemente, a posição destes capitalistas será a de contrariar a tendência que se verifica para aumentar a diferença entre ricos e pobres (o indicador de Gini) e, assim, diminuir um fator que contribui para os conflitos sociais.

Curiosamente (fascinante, também) alguns, do grupo de que estou falando, fizeram outra petição, mas para abolir o imposto sucessório.

Por outras palavras, existe uma tendência entre os grandes capitalistas para eliminar as dificuldades em conservarem na própria família o controle das suas empresas . Dir-se-ia que as ações determinantes do controle são uma oferta ou uma garantia do criador da empresa aos seus filhos. Aceitam a família providencia mas não aceitam o estado providencia, será isso? Defendem que uma oferta dessas ações aos seus filhos não deve ser taxada de imposto sucessório. Mas, segundo Adam Smith, isso vai tirar o estímulo aos filhos de “lutarem” pelo desenvolvimento das suas empresas e vai estimular o aparecimento de capitães da industria que começam por ser técnicos e depois vão tomando o lugar de principal acionista à custa de aumentos de capital em que a família do criador da empresa fica para trás, quando não é seguido o caminho das alianças inter-famílias.

Esta espécie de monarquia privada salta à vista na história económica recente de Portugal. Livros como Salazar e os milionários e Os donos de Portugal descrevem em pormenor a plutocracia em que vivemos, apenas sobressaltada poucos anos a seguir ao 25 de Abril (o que aliás até favoreceu o aparecimento de alguns flibusteiros que acederam aos lugares cimeiros das monarquias privadas).

Longe vai o tempo da ingénua frase de um homem honesto, demasiado honesto para este nosso tempo, de que eu me sinto longe ideologicamente, mas de que aprecio a honestidade: Ramalho Eanes, 1976 – Onde estão os ricos em Portugal? (no sentido de já não haver).

Fascinante.

domingo, 28 de novembro de 2010

A conjetura de João Correia

Em primeiro lugar, aplausos ao Dr João Correia, que se demitiu de secretário de estado da Justiça.
Não por se ter demitido, mas por ter lutado enquanto secretário de estado contra o estado da justiça em Portugal, que é uma das desvantagens comparativas do nosso país (ver medidas concretas contra a crise no livro de Luis Monteiro Os últimos 200 anos da nossa econnmia e os próximos 30) e por ter explicado as razões da demissão: entre outras, porque o senhor secretário de estado da modernização judiciária é um ótimo secretário de estado da informática.
Testemunho sobre o Dr João Correia: "é um profundo conhecedor da realidade da justiça e uma pessoa séria e íntegra".

Perante estes factos, que poderão ser negados mas são muito difíceis de esconder, e tendo presente que entre alguns dos nossos colegas existe uma cultura semelhante à do secretário de estado "informático",  de privilegiar o tratamento informático das questões técnicas da operação e manutenção de um sistema ferroviário, possivelmente para melhor tratar a imagem do sistema perante a opinião publica e não obstante o "batalhão" de técnicos que têm de ser desviados para o tratamento informático em detrimento da análise real e direta das ocorrencias com impacto na operação, permito-me dar o nome de João Correia a esta conjetura:

- não só no mundo jurídico, mas também no mundo da técnica ferroviária, o tratamento informático das questões pode criar uma barreira entre a realidade, as causas e as circunstancias reais que provocam os incidentes, e os técnicos que devem lutar contra os incidentes; e aplicando um dos corolários da lei de Murphy, se pode criar uma barreira entre a realidade e os técnicos, certamente que a criará.

Aplausos para o Dr João Correia.

PS - Mais notícias entretanto surgidas dizem que a questão estará tambem na transferencia dos técnicos de informática, da Direção geral de administração da Justiça, para as Tecnologias de Informática na Justiça, entregando o Citius Plus à empresa externa Critical Software. O Citius é o processo de desmaterialização dos processos que sucedeu ao Habilus (para acabar com os anacronismos das pilhas de papel atadas com cordel) que foi desenvolvido com mérito por esses técnicos. E o percurso lógico de uma equipa de sucesso de uma entidade pública é este: assim que "a coisa" funciona, gera interesse ou uma oportunidade de negócio numa empresa externa.
É a dependencia dos consultores, ou, como se dizia antigamente, para encontrar a explicação de um comportamento, "cherchez la femme" ("cherchez le profit").
Citius é latim e significa mais rápido. Habilus significa mais conveniente. Dizem tudo, os nomes.
Ninguém pretende dotar os ministérios ou as empresas públicas de orgãos sobredimensionados com todas as competências; mas que devem ser mantidas nestas entidades a capacidade e a direção estratégicas dos processos, isso sim; mas apenas  desde que os condutores desses processos não sejam nomeados por critérios diferentes do mérito e do conhecimento técnico.
Não sendo assim, parecerá que o estimulo para os técnicos será integrar o universo dos consultores e dos critérios diferentes do mérito e do conhecimento técnico, o que não me parece que estimule a vontade de bem servir no serviço público.
O que se repercutirá no produto final.
Deve ser de propósito.

Mais questões de manutenção - ética

Com a devida vénia, transcrevo o título de uma notícia do DN:  "Comboios fora dos carris por falta de manutenção".
É provável que colegas nossos ou decisores de empresas ferroviárias ou até no próprio MOPTC, se escandalizem com este título. Que ameacem não responder por não aceitarem afirmações deste tipo.
Se for assim, farão mal, porque a afirmação é de um professor do IST, da Associação para o desenvolvimento integrado do transporte.
Pensando bem, sendo certo que, como ele diz e qualquer técnico ferroviário sabe há muitos anos, a falta de manutenção da via férrea conduz à redução da velocidade por motivos de segurança (lá se vai a alta velocidade se não for feita a manutenção conforme as regras) e, no limite, ao encerramento da linha. E, se é assim, por um dever de ética os técnicos devem informar os decisores deste facto, por envolver segurança.
Mais diz o  professor que recursos financeiros que estariam afetos à manutenção têm sido desviados para os projetos da alta velocidade.
Se for assim, é importante insistir mesmo com os decisores sobre os riscos de cortes cegos na manutenção.
Foi assim que a linha do Tua teve os seus descarrilamentos, por cortes na manutenção da via (notar porém que uma via férrea bem mantida permite até certo ponto a utilização por material circulante com problemas graves, também de manutenção e de adequação às condições de via, como era o caso do material circulante do Tua).
Vem isto a propósito dos recentes descarrilamentos na linha de Castelo de Vide (Novembro de 2010), Alcacer do Sal (Outubro de 2010) e Ovar (Julho de 2010).
Estamos tocando um ponto crítico: transportar pessoas em vias férreas é mais eficiente energeticamente porque o atrito do ferro com o ferro é menor do que o atrito do pneu com o asfalto. Mas em sentido desfavorável para o transporte ferroviário funcionam as exigencias da manutenção (quer da via férrea, quer do material circulante) para evitar descarrilamentos.
É assunto que exige muita atenção; real por contacto direto, não virtual.

Para não se escandalizarem muito com o professor, transcrevo as afirmações dele: "Os engenheiros não sacrificam a segurança, mas se lhes forem negados os recursos para a manutenção podemos ter problemas de segurança. Existe segurança nas linhas ferroviárias, mas o risco pode aumentar se for provocado por desleixo".
Nestas circunstancias, sem prejuizo do dever de informação sobre os acidentes de Ovar e de Castelo de Vide, a comunidade gostaria de ser esclarecida sobre as causas e circunstancias do descarrilamento de Alcacer do Sal, junto da ponte (deficiencia do balastro? da altimetria ou da fixação dos carris? dos bogies, rodados ou engates do material circulante?).
É que, sendo assunto de interesse público, o direito a ser informado é real, não virtual.

A metáfora da barra da Ria de Cabanas de Tavira


A primeira imagem do video mostra uma lingua de areia amontoada (adunada?) pela corrente marítima de sudoeste no sotavento algarvio. Depois vê-se a barra recentemente aberta na ria de Cabanas de Tavira pelo sudoeste, as águas calmas da ria frente a Cacela a Velha e o seu forte do século XVI. Perto daqui desembarcaram em 24 de junho de 1833 as tropas do Duque da Terceira que deram o nome à Av.24 de Julho, em Lisboa , derrotando o exército miguelista na batalha da Cova da Piedade depois de uma marcha de 30 dias e libertando Lisboa de absolutistas.

Há uns anos, gastou-se algum dinheiro a despejar terra sobre a duna e a fazer um cordão de ripados para fixar a duna. O pretexto era proteger a cultura de ameijoas na ria.

A metáfora é se vale a pena tentar desviar a força de uma corrente marítima que muda as barras de uma ria com facilidade de temporada para temporada. Ou se vale a pena impor limites (o aterro e os ripados) às leis do mercado (a corrente marítima) , ou, se pelo contrário, vale a pena às leis do mercado (o aterro e os ripados) oporem-se à vontade das comunidades (a corrente marítima) de cumprirem a declaração universal dos direitos do homem e o art.9º da constituição da republica portuguesa (o Estado deve trabalhar para o bem estar dos cidadãos).

Como não sou economista, não consigo pronunciar-me sobre as leis do mercado, para além de repetir o que vem nos livros de economia: as leis do mercado só devem ser deixadas entregues a si próprias se:
- não houver escassez do bem ou produto
- não houver assimetria de informação  ou de acesso ao bem ou produto
- não existir uma externalidade afetando quem não tenha nada a haver com o bem ou produto.

Mas como dediquei uns anos da minha vida a ouvir o que alguns professores e assistentes duma escola técnica diziam nas aulas, direi que o critério de valer ou não a pena gastar dinheiro com uma obra para evitar a abertura natural de uma barra é o critério do dimensionamento das variáveis em jogo.
Isto é, a obra de desvio de uma barra é possível (por exemplo, o fecho da Golada), mas tem de ser bem dimensionada; e depois há que ver se o dinheiro que custa é mais ou menos do que o que se perde se não se fizer a obra.

No caso da ria de Cabanas de Tavira, afinal as ameijoas ainda lá estão, mais a Poente.

O problema, é que os nossos decisores-consultores-economistas-políticos têm dificuldade, muita dificuldade, em apreender as questões técnicas necessárias para compreender o dimensionamento da obra e as suas vantagens não imediatamente tangíveis, e limitam a sua análise ao volume do investimento (já não estou só a referir-me à barra da ria de Cabanas, mas também aos investimentos que nos interessam).

É uma pena, esta dificuldade em compreender as análises de custos-benefícios, embora se reconheça que  uma análise de custos-benefícios correta requer uma visão integrada pluri-disciplinar (e como somos reratários às visões integradas pluri-disciplinares ).

É uma pena, porque é difícil haver desenvolvimento de um país sem análises de custos-benefícios.

Ruinas 9 - encosta da Serafina

A encosta da Serafina, vista de Campolide. Todos os dias 50.000 automóveis passam no seu sopé, perto e longe destes prédios clandestinos, das ruinas, das obras abandonadas, dos terrenos por tratar, isto é, da desurbanização da Lisboa em ruinas. Desurbanização, um dos catalisadores da economia subterrânea e da criminalidade.






Subway life

Os desenhos seguintes foram extraidos de "Subway life", de António Jorge Gonçalves. O livro tem desenhos que o autor fez em vários metropolitanos do mundo. Simplesmente desenhando quem se sentava no metro à sua frente ou no seu campo de visão. E que normalmente, depois da surpresa, até gostava que um desconhecido o desenhasse.
A mensagem deste livro também é muito simples. Temos todos o mesmo código genético, as mesmas necessidades e preocupações. Por isso tinha razão o nosso colega do metropolitano de Paris: "Nós técnicos, contribuimos mais para a compreensão entre os povos do que os políticos". E eu diria, que só falta nós pormos os políticos a funcionar com esse objetivo.
Os dois primeiros desenhos foram feitos no metro do Cairo, embora a menina com o olhar ligeiramente protestativo pudesse ser uma menina de Lisboa ao colo do seu pai. Os dois ultimos desenhos foram feitos no metropolitano de Lisboa.
Sugiro a sua compra. Editora Assírio e Alvim.






sábado, 27 de novembro de 2010

A taxa sobre as transações financeiras

Não se trata de taxar os lucros. Trata-se de retirar uma pequena percentagem aos movimentos financeiros  nas transações da bolsa. Podia ser 1%. Vamos que um cidadão ou um grupo de cidadãos organizados em empresa compra 5.000 euros de ações. Deixava 50 euros para a comunidade. Será pedir muito? Será convidar os investidores a fugir? Poderia obter-se uma renda de 400.000 euros por dia? Ajudava.
É uma proposta néscia? Olhem que foi proposto por Sarkozy em Setembro de 2010 , na ONU. Repararam como é bonito o mármore negro da parede de fundo da sala da assembleia geral da ONU? Se não puderem ir a Nova Iorque ver este mármore, podem vê-lo nos lavabos da Fundação Gulbenkian, em Lisboa.

De Gilberto Gil, aquele abraço

O Rio de Janeiro
Continua lindo
O Rio de Janeiro
Continua sendo
O Rio de Janeiro
Fevereiro e Março








Alô, alô, Realengo
Aquele Abraço!
Alô torcida do Flamengo
Aquele abraço











Chacrinha continua
Bançando a pança
E buzinando a moça
E comandando a massa
E continua dando
As ordens no terreiro
Alô, alô, seu Chacrinha
Velho guerreiro




Alô, alô, Terezinha
Rio de Janeiro
Alô, alô, seu Chacrinha
Velho palhaço
Alô, alô, Terezinha
Aquele Abraço!






Alô moça da favela
Aquele Abraço!





Todo mundo da Portela
Aquele Abraço!
Todo mês de fevereiro
Aquele passo!
Alô Banda de Ipanema
Aquele Abraço!
Meu caminho pelo mundo
Eu mesmo traço
A Bahia já me deu
Régua e compasso
Quem sabe de mim sou eu
Aquele Abraço!
Prá você que me esqueceu
Ruuummm!
Aquele Abraço!

Alô Rio de Janeiro
Aquele Abraço!
Todo o povo brasileiro
Aquele Abraço!


Não me interessa discutir a legitimidade de blindados a deslocarem-se em meio urbano, como se faz no Rio de Janeiro e como se anuncia que vai fazer-se em Lisboa.
Interessam-me sim as causas e os efeitos da criminalidade.
Não me interessa diabolizar os criminosos nem incensar os defensores da segurança.
Interessa-me ver se podemos convergir numa solução, sendo que não me interessa ser obrigado a viver em países assim.

A experiência de New York demonstrou que o investimento nas forças policiais é eficaz (evidentemente), mas as variáveis são muitas, não há receitas universais e o insucesso escolar e o desemprego estimulam o desenvolvimento de economias subterrâneas e a formação, fora do circuito legal, de grupos de domínio sobre a maioria dos cidadãos, para além dos grupos legais e dos mecanismos de condicionamento destes sobre os comuns cidadãos.
A força dos cidadãos, através do voto, tem-se revelado insuficiente para impedir a diminuição do grau da sua própria segurança, como se prova com o número de assassínios cometidos anualmente em: Rio de Janeiro - 8.000; Bagdad – 4.500; Bangkok – 5.000; Cidade do Cabo – 2.200; Ciudad Juarez – 2.500; Caracas – mais de 10.000.
Ao que tudo indica, os governos com mais poder estão interessados, mais em atuar militarmente ou em privilegiar a repressão, do que em ativar mecanismos económicos que contrariem os indicadores em que acreditam (investindo em emprego e despesa pública, o que se traduziria por aumento da inflação e da dívida pública, pelo menos a curto prazo) ou que diminuam o poder dos grupos económicos e financeiros.
De modo que, de momento, parece estarmos limitados a registar os factos, insistir nas causas (falhanço do sistema educacional e do sistema de emprego e incapacidade de atingir os graus mínimos de cumprimento da declaração universal dos direitos do homem), fazer colagens da realidade sobre canções de Gilberto Gil , esperar que não resultem vítimas inocentes dos sucessos policiais e que a força da canção vença com o abraço a força da força.




Ilustrações:
- site de um alugador brasileiro de carros blindados para proteção de particulares
- notícias sobre a intervenção do blindado M113 no Rio de Janeiro, depois de ter estado na guerra do Vietnam e do Iraque (2003).
Canção de Gilberto Gil: Aquele abraço 
Video de 1968

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

à memória dos mineiros de 17 anos

O primeiro ministro da Nova Zelandia comunicou a morte dos 29 mineiros depois de uma segunda explosão na mina de carvão.
Uma das primeiras noticias relatava a reação de um colega nosso. Digo colega porque era um técnico: "num país como a Nova Zelandia estas coisas não deviam acontecer porque existem normas de segurança". Acresce outra inconformidade: o mineiro mais jovem tinha 17 anos; num país civilizado pode? num país civilizado subscritor da declaração universal dos direitos do homem a família precisa dos rendimentos de trabalho de um mineiro de 17 anos?
Foi essa a reação do nosso colega dos caminhos de ferro belgas, ao acidente com vítimas mortais nos arredores de Bruxelas, em Janeiro deste ano,  porque não havia ATP (Automatic Train Protection), nem sequer balizas de train stop que evitassem o acidente depois do maquinista, devido à neve, ter passado um sinal vermelho.
É verdade que para os volumes de produção de carvão e de tráfego de passageiros a percentagem de vítimas mortais é pequena.
Mas como disseram os técnicos referidos, chocados por ver que critérios de economia podem conduzir a situações destas juntamente com a convergencia de outras circunstancias, isto não deveria ser assim.
É fácil convencer as pessoas que os custos devem ser reduzidos e se deve cortar na despesa. Mas há cortes cegos, e a redução nos custos da segurança pode dar nisto.
Arriscamo-nos também a que depois venha justificar-se oportunisticamente um investimento "por razões de segurança" quando as razões podem não ser de segurança.
Por isso os debates devem ser abertos, fundamentados com antecedencia, e não submetida a condução dos processos a critérios só económicos.
Sei do que falo quando refiro o acidente ferroviário da Bélgica: não é aceitável que linhas e material circulante com aquele tráfego não estejam protegidas por ATP.
No caso das minas de carvão, em que o perigo vem do metano, acredito no colega neo-zelandês: se os sistemas de segurança estiverem bem montados , a probabilidade de desastre é muito pequena.
Mas a segurança exije custos, pelo que o critério de comercialização de um bem essencial como o carvão , isto é, energia, não deve estar dependente apenas do preço do mercado.
Será tão dificil de aceitar isto, pelos senhores economistas, que a segurança tambem tem um preço, que é o benefício, e que o carvão barato significa preço de dumping porque a segurança não entrou nos fatores de produção? E que dumping, até numa teoria liberal, é proibido.
Não querem que se mude o modelo económico-político, não é?