sexta-feira, 31 de maio de 2013

O sucesso e o erro

O sucesso do livro de Tim Harford "Adapte-se", em que defende que o sucesso começa sempre pelo fracasso, fez-me lembrar o meu post de dezembro de 2010:
http://fcsseratostenes.blogspot.pt/2010/12/o-sucesso-e-o-erro.html

Talvez o erro de que falou Caio Salúcio quando escreveu que "o sucesso tem uma estranha capacidade de esconder o erro" não seja o fracasso de Tim Harford, provavelmente mais perto da experiencia que antecede uma saída correta e adaptativa para um falhanço.

A tentativa, segundo Tim Harford, deve seguir as regras de Palchinsky. A principal diz que qualquer empreendimento deve prever a possibilidade de ser um erro e deve prever a saída de segurança ou recuo.
Infelizmente o atual governo acha que não comete erros.
Não tem planos B e não admite um recuo que possa salvar as suas iniciativas.
Pena encaminhar a privatização dos CTT para uma perda para os cidadãos e cidadãs. Nem sequer tem a desculpa de que é uma empresa pública deficitária. Não é. E o problema principal é que não vai prever no processo a possibilidade de recuperar o controle da empresa quando ficar evidente que a privatização teve o grave inconveniente de perder dividendos e de deslaçar a coesão entre os cidadãos  e cidadãs (até os USA sabem que não se mexe no carater público dos correios, porque unem  população dispersa). Entretanto, posicionam-se os interessados, com especial apetite pelo banco postal.
È a prosmicuidade mais evidente entre poder politico e poder económico, mas escondida, como o erro escondido pela força de quem teve sucesso, pelo formalismo democrático (e contudo, a tecnica de sondagens de opinião permitiria ao atual governo saber o seu graus de suporte pelos cidadãos e cidadãs).



Uma prova de que os CTT são uma empresa inovadora:

PS em 3 de junho de 2013 - Segundo o DN, os CTT já encerraram 66 balcões. Alguns deles foram substituidos por comerciantes locais. Analogamente ao que diz o anuncio, podem fazê-lo, mas não é a mesma coisa. É clara a intenção de preparar a empresa para  a privatização, com "oferta" da licença de banco postal. Salvo melhor opinião, embora esta intenção estivesse no programa eleitoral do governo atual, dada a importancia social do assunto (forma de coesão populacional), deveria a privatização ser submetida à confirmação explicita de 75% do voto expresso dos eleitores. Infelizmente, a desculpa do costume (imposição do memorando) continua a ser-nos imposta, sem que os decisores queiram debater o assunto.


o museu do brinquedo de Sintra

É verdade que cultura é quando os humanos se conseguem libertar das tarefas da subsistencia para criar uma dependencia de um nível mais elaborado.
Mas pode sobreviver-se com algumas limitações económicas continuando a praticar cultura.
Não é o entendimento do atual governo, embora pareça, pelo exemplo do museu do brinquedo, estar-se perante um simples caso de ignorancia das realidades por quem fez a lei das fundações.
Ou de como é perigoso pôr a circular na internet comentários furiosos contra os gastos das fundações.
Já tinhamos o exemplo da casa de Paula Rego em Cascais. Uma desajeitada intervenção estatal.
Temos agora o exemplo do museu de Sintra, ameaçado de fecho porque a câmara de Sintra não pode continuar a pagar-lhe 5 mil euros por mês, o que implicaria, de acordo com a lei das fundações, perder verbas.
Logo, a redação da lei foi feita segundo critérios primários, do estilo "o que era bom era cortar nas fundações".
Os senhores governantes  têm com evidencia um défice cultural muito grande, e uma grande dificuldade em justificar as suas medidas, porque num país em que o ministro das finanças anda de BMW série 7 pago pelos contribuintes (e pelos credores)  a desculpa de não haver dinheiro é curta.
Citando a diretora do museu, Ana Arbués Moreira: "Cinco mil euros por mês é pouco, mas era muito importante para nós. Era tudo oque tínhamos... a cultura deste país não interessa, é como se fosse um luxo".

A cultura não é um luxo, é uma necessidade de uma sociedade, acima de raciocínios primários de cortes cegos.

O banco e a sapataria

Há uns meses, houve uma discussão pouco edificante entre o senhor governador do Banco de Portugal e o deputado João Galamba, em torno do conceito de "crowding out", ou eventual incompatibilidade entre investimento privado e público.
Não teria o senhor deputado toda a razão nessa altura.
Mas fica a curiosidade sobre que discussão entre os dois poderia ter surgido depois da afirmação recente do senhor goernador, que o banco não empresta a todos os que precisam, assim como a sapataria da rua Augusta não calça todas as pessoas descalças que lhe passam à frente.
Ou de como o assunto poderia integrar aquele programa, julgo que da Euronews, "no comments", sem prejuízo de parecer que em Portugal quem gere as instituições públicas partilha religiosamente os princípios da gestão privada, salvo  melhor opinião.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Análise lógica das ações do Tribunal Constitucional



Pode não ser um ponto de vista muito apreciado, mas a existência de um Tribunal Constitucional satisfaz um dos requisitos usados na gestão da qualidade de um qualquer sistema organizacional – que deve haver uma entidade independente da comissão executiva da entidade económica que explicite as discordâncias relativamente às estratégias e as táticas da comissão executiva (sem prejuízo de registar as concordancias, quando as houver, obviamente) .

A razão deste requisito é simples: evitar a polarização em torno de uma versão oficial da comissão executiva suscetivel de gerar uma virtualidade sem fundamento na realidade. Verifica-se assim que mais vale um oponente, mesmo equivocado, apresentar a sua versão errada, porque obriga a fundamentar melhor a versão oficial, do que não haver oposição (esta é uma conquista da ciência da gestão e da psicologia social relativamente recente,  que justificará os desvios do pensamento político no século XX, perseguindo os ideais da verdade única,  mesmo que científica, quando um dos pilares do método científico é não haver muitas certezas).

Sendo assim, se o Tribunal Constitucional tem razão e estão todos ou quase todos de acordo que isso é bom para o bem estar de todos, ótimo.
Se o que o Tribunal diz não merece o acordo de alguns e prejudica o bem estar de muitos, há que propor ao poder legislativo a alteração das leis que prejudicam o bem estar, o que implicará, nos termos constitucionais, uma maioria de 2/3.
Se não, como já disse Fernão Lopes, não.

É assim tão difícil de aceitar, esta lógica?
É  mais fácil chamar nomes aos senhores magistrados?
Até Roosevelt aceitou a decisão do tribunal constitucional americano que conservadoramente  lhe chumbou medidas para o “welfare state”.

Mas seria bom, de facto, que no currículo escolar dos senhores magistrados se desse mais força à matemática (para, por exemplo, entender bem o fundamento do sistema proporcional de Hondt, o valor referendário das sondagens com margem de erro inferior  a 5% , o sistema eleitoral com lista preferencial e a regra da impossibilidade de Kenneth Arrow).


                              (No dia em que foi dada a notícia do chumbo das entidades intermunicipais de direção não eleita diretamente pelos cidadãos e cidadãs, conforme proposta de lei do pobre Relvas. Sobre os mecanismos de polarização de opiniões em grupos decisórios, ver “a Sabedoria das Multidões” de James Surowiecki, ed Lua de Papel; sobre os sistemas e regras eleitorais incluindo a impossibilidade de satisfação de todos os eleitores de Kenneth Arrow, ver “Economics, a very short introduction, de Partha Dasgupta, ed. Oxford University Press )

Um pouco de teoria da Segurança Social

Um pouco de teoria da Segurança Social

Métodos principais de financiamento:

1 – capitalização virtual – o dinheiro para as reformas e para a cobertura dos riscos sociais é obtido a partir de fundos de pensões e da capitalização de contribuições individuais (o que um reformado recebe deriva dos juros das suas contribuições)
2 – repartição ou “pay as you go” –  as reformas e a cobertura dos riscos são pagas com o dinheiro das contribuições das empresas e dos trabalhadores ativos (o que um reformado recebe deriva das contribuições das empresas e dos trabalhadores que estão no ativo durante o seu período de sobrevivência).

Ditas as coisas assim, parecerá que um sistema de financiamento não deverá ser nem um ou outro isoladamente, mas antes uma fusão dos dois.
Porém, a teoria oficial diz que o sistema atual é apenas “pay as you go”, o que estimula a reação primária dum conflito geracional (serem os jovens trabalhadores, vitimas do desemprego que fixa os salários em baixo, que são cada vez menos devido à baixa da natalidade, a sustentar cada vez mais velhos reformados que nunca mais  morrem porque a medicina preventiva progrediu).

Admitindo que o sistema é exclusivamente “pay as you go”, fica a dúvida, tendo o sistema de segurança social sido superavitário até aos anos da crise internacional de 2008 (coincidência que faz desconfiar das manipulações internacionais das taxas de juro e das criações virtuais dos tóxicos financeiros), para onde terão ido os juros desses rendimentos obtidos com as contribuições dos reformados de agora, uma vez que as reformas dos reformados de então eram pagas com as contribuições dos ativos que estão agora reformados (e cujas contribuições eram mais do que as reformas pagas aos reformados de então). Da dúvida nasce a hipótese, e a hipótese é a de serem as pensões que estão a pagar a recuperação financeira de modo a que tudo volte ao mesmo, isto é, “business as usual”.
Também nasce uma interrogação perante esta dependência exclusiva do  “pay as you go”. É que se é assim, porque estão os atuais governantes tão contentes com a exportação de mão de obra qualificada? É que deixam de contribuir para a Segurança Social portuguesa e vão pagar as reformas dos estrangeiros idosos (valha a verdade que poderemos recuperar alguma coisa se os convencermos a virem passar o inverno ao Algarve, perdendo novamente dinheiro porque eles vão consumir produtos agrícolas importados da América do Sul e peixe do Vietnam).

Mas dando de barato aos senhores governantes da atualidade que acham que o sistema de segurança social não tem nada de capitalização e que a única fonte é a atual TSU, analisemos o que se pode fazer para aumentar as receitas do sitema “pay as you go”, ou  melhor, para diminuir a despesa pública com as pensões e prestações sociais:

1 – aumentar o PIB e diminuir o consumo total da população (ou a taxa de crescimento do PIB deve ser superior à taxa de crescimento do consumo da população);
2 – aumentar o total da  população (natalidade e imigração) e diminuir o número de pensionistas (ou a taxa de crescimento da população deve ser superior à taxa de crescimento dos pensionistas);
3 – diminuir o nível de vida relativo dos pensionistas (ou a taxa de variação do consumo total da população por habitante deverá ser maior do que a taxa de variação do consumo dos pensionistas por pensionista), definido como a relação entre o consumo médio dos pensionistas pelo consumo médio da população total

Como se sabe, os atuais governantes só aplicam as medidas restritivas, como seja reduzir os encargos com pensionistas e prestações sociais, tendo nota negativa (que diabo, a nota é mesmo negativa, já estão no governo há dois longos anos) porque as taxas crescem em sentido desfavorável nas alíneas 1 e 2 e a diminuição do nível de vida da alínea 3 tem sido brutal.
Isto é, não só são parciais na escolha das medidas a aplicar para reduzir as despesas públicas (analogamente ao que se passa com os impostos: “em Portugal os ricos não pagam impostos - João César das Neves, em  “As 10 questões da crise”, ed.D.Quixote), como também não conseguem controlar a evolução das variáveis desfavoráveis.
Ignoram os senhores governantes deliberadamente, e muitos comentadores da praça pública, possivelmente por deformação ideológica, as outras medidas, aumento da natalidade, da imigração (alínea 2) e do PIB (alínea 1).
Compreende-se, porque aumentar a natalidade e a imigração requer medidas contra o desemprego, e isso os atuais governantes só dizem que vão fazer, mas não fazem porque um dos objetivos da política europeia é conter a inflação a todo o custo, e isso faz-se com desemprego.
Quanto ao aumento do PIB, é fatal, é a única solução para o caso atual, sendo que isso significa investimento, privado ou público, como quiserem, mas investimento (a obrigatoriedade de fatura e sua fiscalização contribui para isso através do alargamento da base tributária, mas deconfio que a ideia do governo é mais aumentar a receita fiscal do que aumentar o PIB, que era o essencial).

É uma pena estas coisas não serem analisadas com lógica matemática, em frente da fórmula que traduz os fenómenos, e  com monitorização da evolução de todos os fatores, especialmente das taxas que, sendo quocientes, são conceitos de mais difícel apreensão, em valor absoluto e em valor relativo. Mas nós, portugueses, com a rejeição conhecida à matemática, preferimos a discussão emotiva e infundamentada.

A fórmula que refiro pode ser estudada no livrinho da Fundação Francisco Manuel dos Santos, “Segurança Social, o futuro hipotecado”, de Fernando Ribeiro Mendes:

   despesa pública com a
      segurança social = (consumo da população/PIB) x
                                     (nºde pensionistas/população) x
                                     ((consumo dos pensionistas/nºde pensionistas)/(consumo  
                                                                                          da população/população))

PS em 19 de junho de 2013 - Graças aos emails que os amigos enviam, posso corrigir uma afirmação supra. A Segurança Social portuguesa tem efetivamente uma componente de capitalização, que é o Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social, gerido pelo Instituto de Gestão dos Fundos de Capitalização da Segurança Social. Em fins de 2011 (já com o atual governo em funções) o seu montante era de 8.872 milhões de euros.
Neste momento, o atual governo prepara-se para vender títulos de dívida estrangeiros deste fundo e trocá-los por certificados de aforro. Trata-se de mais uma medida que el coloquial se pode classificar como de "chico-esperto", sem consultar quem descontou ao longo da sua carreira contributiva para esse fundo.
Também contra a ideia do conflito intergeracional ou entre reformados do público e do privado, convirá sublinhar que a Segurança Social paga tambem as reformas por invalidez (não contributivas) devida a acidente quer o trabalhador seja do setor público quer seja do setor privado.
Mas enfim, está a população submetida à propaganda desinformativa intensa do governo




domingo, 26 de maio de 2013

Acordo ortográfico, os VOP

Notícias do Acordo Ortográfico: segundo Muller Oliveira, diretor do IILP, Instituto Internacional de Lingua Portuguesa, na sua próxima reunião em Lisboa em 29 e 30 de outubro de 2013, será apresentado o VOP, Vocabulário ortográfico do Português, de Moçambique, atualmente em fase de filtragem de vocábulos, juntando-se ao português e ao brasileiro. Na reunião de 2014 em Dili, espera-se que seja também apresentado o de Cabo Verde, atualmente em fase final de recolha de vocábulos.
E assim, contra os ventos dos bem pensantes e elegantes sabedores que por decisão pessoal (longe de mim querer limitar a liberdade de tomar decisões pessoais) escrevem de acordo com a norma anterior a 1990, e contra aquela maneira tão portuguesa de deixar cair as coisas e não cumprir cronogramas (horror ao planeamento, que nós portugueses somos os semideuses da improvisação e da decisão imediata, sem necessitar de analisar os fundamentos matemáticos e físicos de uma questão,  da contemplação da beleza que sai da nossa criatividade, e do desmerecer do trabalho dos outros), lá vai o novo acordo seguindo o seu caminho e lá vão aparecendo os VOP de cada país.
Não levem a mal a sugestão, mas a reunião de outubro de 2013 devia ser no CCB.

Mortes de pescadores

Por mais que se cumpram as normas de segurança, ainda assim podem ocorrer acidente fatais.
No entanto, o número de mortes de pescadores que se verifica em Portugal indicia uma cultura que deve mudar e a necessidade de aplicação de medidas firmes.
A cultura é a da negligencia dos fatores de risco e do desprezo pelas regras de segurança.
As medidas que devem ser tomadas a nivel oficial são  a generalização do uso de equipamentos de segurança e a formação em segurança.
Colete de segurança - As recentes mortes de dois pescadores de xávega no Furadouro (terá falhado o motor e o barco atravessou-se nas ondas da rebentação e afundou-se) e de um pescador na ria de Aveiro (a bateira ter-se-á virado numa manobra de fixação de uma vara no fundo) deveriam obrigar as instancias oficiais a impor a obrigatoriedade do uso do colete de segurança. é verdade que dificulta o trabalho, mas com a prática essa dificuldade diminui, além de que há modelos aprovados de utilização cómoda. Existem ainda fatos flutuadores. O seu preço pode constituir outra dificuldade, mas existem já  programas de apoio à sua aquisição (ver a ação da associação pró-maior segurança dos homens do mar).
Formação - Quem quer que ande no mar é obrigado a ter carta de marinheiro. Do respetivo curso fazem parte as normas de segurança. No entanto, duvido da eficácia dos cursos. É essa cultura que deve mudar, que é importante ultrapassar o raciocínio primário e de recusa de análise de implicações do comportamento perante os riscos, e aceitar a prioridade da segurança. Deveriam portanto as instancias oficiais melhorar a fiscalização do uso dos equipamentos de segurança e da formação recebida. No caso do pescador afogado na ria são de assinalar duas condições que qualquer curso de formação deveria esclarecer: uma, que o uso de botas-calças ou de botas altas é extremamente perigoso porque em caso de queda à água acumulam água que diminui a flutuabilidade; outra, que, mesmo que haja pé, as correntes de vazante ou de enchente nos períodos de marés vivas de solstício ou equinócio coincidentes por fases de lua cheia ou lua nova, são extremamente perigosas (foi o caso na ria de Aveiro), impondo o uso de colete de segurança e vestuário solto. A formação deverá também incidir no uso de equipamento rádio (os telemóveis não são equipamento de segurança, embora sejam muito úteis) e das balizas de emergencia (mais uma vez a requerer planos de apoio à aquisição).

Finalmente, é altamente criticável a ação do atual governo e dos governos anteriores pela falta de compreensão dos riscos e das medidas que os atenuariam, e a questão não é apenas de falta de disponibilidade financeira, é principalmente uma questão de cultura, de mentalidade, que se deve mudar.
A agravar o problema, está a bizantina questão do atual ministério da defesa que discute a natureza do papel da Marinha, proibindo-a de intervir na sociedade civil fora do estado de emergencia ou de sítio de que fala uma cláusula da Constituição da Republica.
É uma falácia porque os riscos do mar são tão elevados que só a Marinha tem condições para lhes responder 24 em 24 horas.
É uma falácia porque o art.275º, nº6, diz que as Forças Armadas podem ser incumbidas de colaborar em missões de proteção civil, e o nº7 diz  que as leis que regulam o estado de sítio e o estado de emergencia tambem regulam o emprego das Forças Armadas quando se verifiquem essas condições.
Isto é, o nº6 refere-se a uma coisa (missões de proteção civil) e o nº7 a outra (condições do emprego das Forças Armadas em situações de estado de sítio e de emergencia), mas os gabinetes de advogados que tanto têm prejudicado a compreensão da realidade por impreparação nas disciplinas de matemática e física, têm-se também encarregado de manter viva esta discussão bizantina. Assim dificultam ações atenuadoras dos riscos como a fiscalização pela Marinha do cumprimento das normas de segurança ou dos cursos de formação e, especialmente, dificultando a aplicação de estratégias pela Marinha de prevenção. É inconcebível, por exemplo, que a Marinha não possa acionar autonomamente (sem ter de perder tempo em pedidos a autoridades, comissões de proteção civil ou minstérios) a reação a uma ameaça de maremoto com origem na comunicação pelos serviços meteorológicos de um abalo sísmico de grau superior a 7,5) . Como triste e desalentadamente comentou o capitão do porto de Aveiro perante as mortes dos pescadores, "a segurança é uma guerra que temos de ganhar".
Mas com este governo (na linha dos anteriores) é muito dificil, muito dificil, porque a Marinha não tem autonomia para desenvolver as suas estratégias e assim os pescadores continuarão a morrer.
E a razão dessa correlação, entre a incompreensão do governo e a morte de cidadãos, é indecente.


sábado, 25 de maio de 2013

O pensamento silencioso da grande diretora

La grande diretrice do grand fond reflechissait en silence:
-"Mais, qu'es ce que? Pense t'ils qu'on est à nouveau à la Revolution Française?
De m'accuser de mal menager les fonds publics... en benefice d'un privé.
S'ils poursuivaient la classe moyenne, a la bonne manière maoïste maintenant installé, mais moi ...
Ignorant, les pauvres, les glorieux enseignements de l'École de Chicago, que l'initiative privée de succès doive être récompensé par de l'argent public, que le transfert vertueux des revenus se fait toujours dans le sens du travail pour le capital, que les banques sont toujours protégés pour les retraites des gens, et que les technologies innovantes permettent aux gens de s'amuser avec l'iPad et les performances de Justin Biber et se nourrir de filets de pangasius bon marché, au lieu de marcher pour faire des révolutions ... mais c'est quoi çá, maintenant?
... Ah, on dirait qu'ils disent quelque chose.
... Ah, enfin ils enlève la charge.
Eh bien, je respire.
Les pauvres, ils sont encore plus cons. "


A grande diretora do grande fundo refletia em silencio:
- "Mas o que é isto? Pensam que estão outra vez na revolução francesa?
Acusarem-me de gerir mal dinheiros públicos... favorecendo entidades privadas.
Ainda se perseguissem a classe média, à boa maneira maoista agora instalada, mas a mim...
Ignoram, os pobres, os ensinamentos da gloriosa escola de Chicago, que a iniciativa privada de sucesso deve ser premiada com os dinheiros públicos, que a transferencia virtuosa dos rendimentos se faz sempre no sentido do trabalho para o capital, que os bancos estão sempre protegidos pelas pensões, e que as tecnologias inovadoras permitem que a população se divirta com os iPads e com os espetáculos do Justin Biber, e se alimente de filetes baratos de Pangasius, em vez de andar a fazer revoluções... mas o que é isto?
... Ah, parece que estão a dizer qualquer coisa.
... Ah, afinal retiram a acusação.
Bem, respiro.
Coitados, são mesmo cons."

sexta-feira, 24 de maio de 2013

As escovas de carvão e o coletor

Pouco tempo antes de 25 de abril de 1974, um colega mais velho do metropolitano ensinou-me que não devemos estar muito seguros de certezas de que as coisas que funcionaram bem noutros países ou contextos  funcionarão bem, de igual modo, connosco.
O exemplo que ele escolheu para me mostrar isto foi o das escovas do coletor dos motores de tração de corrente contínua das antigas automotoras ML-7 (ainda existe uma unidade dupla de tração operacional, que circula em dias festivos).
As automotoras ML-7 eram um projeto ainda anterior à segunda guerra que o grande fabricante alemão forneceu em condições razoáveis ao metro de Lisboa no fim dos anos 50.
Com precisão o fabrico foi executado no calendário contratado até que se chegou à evidencia de que os atrasos na construção civil recomendavam que a entrega das automotoras fosse diferida.
O administrador principal achou que não devia renegociar-se o prazo de entrega e as automotoras estiveram armazenadas alguns meses no porto de desembarque, à espera da conclusão da linha.
Ainda hoje não se sabe se os custos de armazenamento foram maiores ou menores do que seriam os custos da renegociação, mas há quem pense que sim, que a renegociação teria permitido economizar alguma coisa, não fora a teimosia do decisor.
(Contava-se que a teimosia do decisor não se manifestava apenas na recusa de renegociações, mas também numa obsessiva preocupação com corte de despesas, no controle do papel higiénico, das esferográficas).
Naqueles tempos, a tecnologia da eletrónica de potencia do estado sólido não tinha ainda sido dominada.
Os motores de tração eram de corrente contínua, controlados por reóstatos de regulação da excitação.
A tensão contínua disponível no carril de energia era nos motores das automotoras aplicada entre duas escovas de carvão diametralmente opostas, premidas contra as laminas de cobre do coletor.
Cada par de laminas opostas estava ligado ao seu grupo de espiras do rotor que, por força da lei da indução eletromagnética em interação com os polos magnéticos do estator, induziam o movimento rotativo transmitido aos rodados.
E era aqui, no par de escovas, que a singularidade das coisas portuguesas se manifestava em todo o seu esplendor.
Os técnicos alemães verificaram pela experiencia da exploração que necessitavam de substituir as escovas mais frequentemente do que na Alemanha ou em qualquer país em que aquele modelo circulava.
O desgaste das escovas era devido ao fenómeno "flashover", ou salto de faísca ou arco elétrico quando a lâmina de cobre do coletor sai do contacto com a escova. A faísca salta porque a natureza não deixa que uma grandeza se anule instantaneamente, o que , a acontecer, induziria fenómenos a tender para amplitudes infinitas. Isto é, o principio da conservação da energia ensina-nos que nada se perde, tudo se transforma e, neste caso, a faísca, ou arco elétrico, vai mantendo a variação da corrente elétrica sujeita às leis do eletromagnetismo sem que se induzam forças eletromotrizes de grande amplitude. Só que a faísca vai derretendo o cobre da lamina do coletor e desgastando o carvão das escovas, e vai ionizando o ar. E tudo acaba num curto circuito entre laminas e entre escovas que reduz ou anula a força do motor e na necessidade de retificação das laminas do coletor.
(Esta catástrofe anunciada é uma metáfora que devia ser estudada pelos economistas da escola de Chicago, que induzem os jovens e idealistas estudantes a chegar a uma empresa, ou a um governo, e declararem que são todos uns incompetentes e a partir de agora tudo vai mudar de um dia para o outro e vai haver inovação e disciplina austeritária, sem cuidarem que os prejuízos da mudança podem ser superiores ao que se ganha com ela).
Tudo isto é agora evitado com a transformação da tensão continua do carril de energia em tensão trifásica, em pontes de transistores de potencia a bordo da automotora, e utilização de motores assíncronos de rotor em curto circuito, com manutenção mínima (felicidade para os economistas gestores, encantados por poderem reduzir os seus quadros de pessoal de manutenção).
Mas naquele tempo não, os motores de corrente contínua tinham mesmo de ter coletores e escovas.
E as escovas funcionavam bem em todos os países do mundo.
Menos em Lisboa, Portugal.
(Esta é outra metáfora, a de que as receitas que os economistas da escola de Chicago têm por muito eficazes em qualquer país, podem não ser eficazes em Portugal).
Não encontraram os técnicos alemães explicação para o fenómeno.
O meu colega mais velho atribuiu-o à contaminação da superfície das laminas do coletor por partículas devidas à desagregação dos cepos de travagem de encontro às rodas, e ao do desgaste provocado pelo atrito do contacto entre a face interior do carril e o verdugo da roda (saliencia periférica da roda que mantem o comboio carrilado) , e também pela presença de poeiras exteriores infiltradas no túnel.
Nada que não pudesse ocorrer noutros países, mas talvez que conjugadas as variáveis segundo outras composições.
Mais tarde, aprendi também que esta pode ter sido a manifestação de uma variante da lei de Murphy: uma solução que funciona bem num determinado país, pode não funcionar bem em Portugal; e se pode não funcionar, então certamente que não funcionará bem.
Consultados os manuais e experimentadas soluções na fábrica, resolveu-se o problema instalando escovas bi-partidas. A faísca contentava-se em saltar entre as duas metades da escova e poupava as laminas do coletor sem se resolver em curto circuitos entre escovas.
A lição a aprender era que, não havendo garantia de aplicação de uma solução pré fabricada, é necessário aplicar as etapas do método científico, da observação e quantificação dos fenómenos, à colocação de hipóteses,  à experimentação e à aplicação da solução.
Felizmente houve colaboração dos técnicos alemães nestas etapas.

Muito gostaria eu que os economistas alemães ou não alemães  (e portugueses?) que vão tomando decisões (ou não?)  sobre a economia portuguesa ao longo destes anos cinzentos do princípio da segunda década do século XXI considerassem, na sua ignorancia de como as coisas funcionam em Portugal ("como é diferente o amor em Portugal", dizia Julio Dantas, para grande escandalo de Almada Negreiros), que a curva dos rendimentos decrescentes, de que já se falou neste blogue,
http://fcsseratostenes.blogspot.pt/2012/07/falas-de-governantes-o-esquerdismo-de.html

mostra como o aplicar uma medida pode ser eficaz numa zona da curva e ser uma verdadeira armadilha de onde não se escapa noutra zona da curva, normalmente quando a grandeza do PIB é pequena.
Mas como o meu colega mais velho me ensinou, atribuo os efeitos a causas sem ter certezas, só hipóteses.



Tornado de Oklahoma



As mortes, o sofrimento e as perdas devidos ao tornado de Oklahoma leva-nos a todos a exprimir a simpatia pelas vítimas e a certeza de que a sociedade americana reconstruirá a vida da comunidade.
Cito as observações de um técnico americano que, dada a frequencia com que os fenómenos naturais destrutivos estão ocorrendo, deverá merecer atenção.
Tal como no caso do Katrina em New Orleans, o nível elevado da gravidade das consequências deveu-se a deficiencias das infraestruturas (recorda-se que o nível de um risco se estabelece em função da probabilidade de ocorrencia de um acidente e do nivel de gravidade das suas consequencias).
No caso do Katrina, a falta de manutenção dos diques de proteção da cidade (houve um economista que teve o descaramento de comentar que os contribuintes não tinham que pagar despesas públicas de manutenção dos diques para que os habitantes pudessem viver num  local de risco).
No caso de Oklahoma, o referido técnico menciona que a maioria das habitações era construida de madeira, com a agravante de não recorrerem a peças de reforço da ligação das paredes ao telhado (confirmar na foto que alguns telhados permaneceram). E que se deseja durante a reconstrução a aplicação de normas de resistencia aos tornados, desde a exigencia de fundações à utilização de betão armado.
De facto, é de refletir como o país de PIB mais elevado do mundo tem parte significativa da sua população a viver sem condições de segurança.
Penso que, neste caso, interpretarei bem o pensamento de Obama quando diz, a propósito de outras questões,  que o sistema económico dos USA deverá mudar.
Penso que isso só poderá ocorrer se se abandonarem os dogmas sagrados (sacrossantos na expressão dos ministros das finanças da Europa) da escola de Chicago e se centrarem as preocupações na diminuição das desigualdades e do desemprego e na melhoria da repartição dos rendimentos.
Mas se até nos USA a reação dos republicanos dificulta esse abandono, que poderemos nós fazer?





Ary dos Santos na guerra dos cem anos



Transpõem-se as dores do parto
para as vísceras da soma.
2 e 2 quer dizer cobra
4 e 4 faz lagarto
9s. fora o que se coma
tomando por lebre o gato.

Dos abusos da palavra
ficou o tempo cirrose
em que se torce a poesia.
Tem 7 cornos a cabra
que pasta melancolia
e depois rumina a rosa
do poema que alivia.

2 são os olhos do cego
e seta a arma do poeta.
1 é o tiro do mudo
7 o número da cabra
10 a base do sistema
9 setas valem tudo
9s. fora uma açucena.

O poeta ausculta a noite
que responde 33
diz estrela sai aroma
pensa nardo sai francês
e a cabra rumina o cardo
que já foi rosa uma vez.

Nos vales da literatura
cresce uma planta campestre
chamada erva teórica
e a cabra neo-rupestre
vai transformando a verdura
em delicada figura
gravada com mão de mestre
nas paredes da retórica.

Assim se constrói o signo
do corno mas não do toiro
assim se forja o destino
da pata dos ovos de oiro
que há-de parir um vitelo
se não for mãe de um besoiro.
Assim se escreve e se fala
assim se choca a imagem
que a cabra cega chocalha
sem saber que ao ingeri-la,
sendo verdura, é paisagem,
sem saber que ao dejectá-la
sendo poia, já é palha.

Assim se põem os ovos
como quem toca piano
que nisto de ser-se artista
é preciso é ser-se novo
e o mais que vier é ganho
se por sorte não for dano.

Sem se pensar na velhice
gasta-se à larga o talento
deixado por Dom Diniz
assoa-se o sofrimento
como se fosse o nariz
digita-se o pensamento
hesita-se na temática
e nesta táctil tristeza
servem-se em prato magnético
acepipes de gramática
gratinados de beleza
folhados de cibernética
segundo a nova receita
para a geração sujeita
à prostatite da estética.

Há pois que manter cuidado
no coito do estro-musa
traçar a compasso o esquema
da inspiração infusa
nos ovários da ciência
e aguardar o resultado:
se for menino é Poema
se for menina é Experiência
o nome do morto-nado.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

O canal Mezzo apresentou, em 4 dias seguidos, o Anel dos Nibelungos de Wagner.
Lutas pelo poder entre os poderosos, de Wotan aos Nibelungos.
Pouca consideração pela espécie humana, pelas pessoas normais, enquanto produtoras e aspirantes a usufrutuárias de felicidade.
Fala de Feika para Wotan, na Valquíria: "Fazes-te de tolo e de surdo"
Fala de Wotan para Siegefried, em Siegrefied: "Vejo que és ignorante".
De nada valeram aos poderosos as suas artimanhas.
O Walhala caiu, e não foi por causa de empréstimos tóxicos, pese embora o simbolismo da mágica do anel do Reno e do elmo dos Nibelungos.
Siegfried é o heroi salvador, mas como qualquer salvador, é manipulado e levado para onde os poderes
mundo querem até à morte.
Fala de Siegried: "Abre os olhos".
Mas custa a abrir os olhos.
E a queda do Walhala não é mau só para os deuses, também afeta os não herois que todos nós somos.
Enfim, drama lírico a prosseguir dia a dia.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Hidrogénio, combustível, novo "post"

Este blogue já se referiu ao hidrogénio combustível para automóveis em
http://fcsseratostenes.blogspot.pt/search?q=hidrog%C3%A9nio

Com a devida vénia ao DN, reproduzo a fotografia do abastecimento de um veículo automóvel no Hawai, Honolulu, na base aérea de Pearl Harbour.

Ignoro se o veículo é de pilha de combustível e  motor elétrico ou de combustão direta do hidrogénio em motor de explosão.
O que interessa, porém, é que o hidrogénio é obtido, julgo que por eletrólise, a partir de energia eólica no local.
Fica assim demonstrado que é mentira o que alguns técnicos dizem, que há excesso de capacidade  instalada de produção eólica em Portugal.
É verdade que sim, o negócio da produção de energia elétrica a partir de gas natural e de abastecimento de automóveis por gasolina e gasóleo seria prejudicado, e lá se iriam as maravilhosas vantagens da liberalização dos mercados de energia.
Mas basta pensar que cerca de 40% da energia primária é consumida em transportes para se ver que haveria sempre consumidores disponíveis, nem que fosse o transporte ferroviário noturno de mercadorias. E mesmo que não houvesse, a exportação de energia elétrica é outra solução, eventualmente recorrendo a linhas de alta tensão de tensão contínua (terão discutido isto na última cimeira ibérica, ou não farão ideia?). Dificuldade de financiamento? Para que serve o QREN, agora horizonte 2020? Além de que Energia tem sempre retorno para garantir o empréstimo.
Devia haver um juramento para os técnicos de engenharia semelhante ao juramento de Hipócrates: colocar a saúde energética da comunidade acima de tudo.
O posto de abastecimento da fotografia é fornecido pela HydraFLX, de Austin, Texas, fornecedora do Departamento da Defesa (DoD) dos USA:
http://www.hydraflx.com/index.html

Segundo o site da empresa, o hidrogénio é competitivo a partir de 87 dólares/barril de petróleo.
Interessante, se o governo português propusesse uma parceria com o referido DoD, agora que se fala tanto no pós-troika.

PS - Confirmado, os veículos são de pilha de combustível e o hidrogénio é obtido por eletrólise. É uma pena ficarmos para trás, depois do sucesso que foi a experiencia com autocarros elétricos de pilha de combustível no Porto:
http://www.fleetsandfuels.com/fuels/hydrogen/2012/02/gm-fuel-cell-cars-for-the-u-s-military/

sábado, 18 de maio de 2013

17 de maio de 2013 - uma votação na Assembleia da República

Este blogue saúda os 16 deputados do PSD que não votaram como a maioria do seu partido.
Não por a unanimidade ser uma coisa por essencia condenável, ou a dissidencia por essencia virtuosa.
O que se saúda é o pensar pela própria cabeça, mesmo que ninguém possa dizer que detém a suprema verdade.
E que o sentido do voto era no sentido da defesa de direitos de minorias.
Os 16 deputados evitaram assim o grande erro dos decisores: o quererem polarizar em torno de uma opinião, que desejam única, a expressão dos membros do seu grupo.
Pensa este blogue que no PSD existem muitos cidadãos e cidadãs honestos e bem formados tecnicamente que discordam radicalmente das politicas oficiais do seu partido e da coligação e sabem bem que os fundamentos teóricos e práticos das medidas da troika são muito fracos.
Atitudes destas podem ser o início de uma mudança de rumo, independentemente do oportunismo das eleições autárquicas.
O progresso exige diversidade, alguma coisa tenhamos aprendido com as experiencias leninistas e estalinistas, por isso se lamenta a submissão dos deputados do CDS às diretivas morais impostas pela sua religião.
Era importante, numa altura em que a Turquia é candidata à UE, que critérios religiosos não condicionassem o voto de deputados. Era importante. Mas como na UE ainda vigoram os partidos de filiação religiosa e ainda há países em que os cidadãos não são iguais perante a lei no exercício de cargos públicos (regime monárquico e cativação de lugares no Parlamento para a classe nobre), seria bom que os ocidentais não se sentissem tão superiores assim a outros povos.

Um navio na minha rua



Um navio feeder (shipfeeder) ao fundo da minha rua.
Navios feeder são os que transportam contentores de um porto principal, onde os grandes porta contentores os descarregam, para portos mais pequenos na sua área de influencia. Podem atingir 10.000 toneladas.
Este virá de Santa Apolónia e irá para Sines, não sei.
Entretanto, vai interessante a polémica sobre o terminal de contentores proposto para a Trafaria.
Os defensores do não fazer nada clamam que o montante do investimento é incompatível com a situação financeira do país.
Os defensores do crescimento dizem que um porto natural como o de Lisboa está a viver claramente abaixo, muito abaixo das suas potencialidades (note-se que só interessa, dado que a capacidade instalada em Portugal para tráfego nacional é já excedentária, crescer em termos de terminai de transhipment, isto é, transbordo de contentores para os tais feeders).
Parece que um terminal na Trafaria é do interesse de um grande operador (não sendo portanto do interesse de outros operadores, daí , provavelmente, parte da polémica), que até estaria disposto a gastar dinheiro na construção do porto.
Parece que o problema estará nos custos de construção da via férrea de ligação ao Poceirão, na falta da terceira travessia ferroviária do Tejo e no percurso Trafaria-Poceirão-Lisboa norte ser superior aopercurso Setubal-Lisboa norte.
Uma das vantagens do porto na Trafaria seria o fecho da Golada, eliminando as perdas de areia na Caparica e melhorando a defesa do estuário do Tejo contra  maremotos.
Assunto interessante, a seguir.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Ainda o livro de Tim Harford, "Adapte-se"


Embora sem a pretensão do autor, de apresentar soluções para os problemas que nos afligem, nem mostrar de forma enciclopédica os dados que fundamentam essas propostas, faço aqui várias citações do livro, acreditando que possam ajudar a uma atitude que facilite a análise lúcida das questões, e chamando a atenção para os perigos das generalizações precipitadas, especialmente não querer transformar fracassos em exitos, mas sim retirar deles lições.
Página 13 -  de Hayek - "A curiosa tarefa da economia é mostrar aos homens quão puco realmente sabem sobre aquilo que imaginam conceber " - quem diria, o patriarca do neo liberalismo, inspirador de tantas certezas em pobres cabecinhas...
Página 52 - de H.McMaster, comandante americano na guerra do Iraque - "É tão extraordinariamente complexo. Se alguma vez pensarem que têm a solução para isto,estão enganados e são perigosos" - McMaster contribuiu fortemente para a correção da atitude norte americana no Iraque e atenuação da instabilidade
Página 98 - de David Pye - "Nada do que concebemos ou produzimos chega realmente a funcionar...tudo o que concebemos e produzimos é um improviso, um golpe de sorte, qualquer coisa inapta e provisória."
Página 207 - de Keynes - "Envolvemo-nos numa confusão colossal ao termos errado no controle de uma máquina delicada cujo funcionamento não entendemos."
Página 210 - de Charles Perrow, analista de riscos - "A banca ultrapassa em complexidade qualquer central nuclear que eu tenha estudado."
Página 230 , de um anónimo, citado pelos grandes grupos financeiros "Emprestem tanto quanto quiserem a quem quer que quiserem, porque o contribuinte garantir-vos-á sempre, com os seus impostos ou as suas pensões, que serão reembolsados"
Página 239, de um anónimo, funcionário do HBOS, banco hipotecário inglês - "Nunca conseguiremos atingir os nossos objetivos de venda de hipotecas e, simultaneamente, fazê-lo de forma ética".
Página 249 - de Gary Hamel - "Não é preciso ser-se marxista para se ficar impressionado pela escala e pelo sucesso dos esforços do início do século XX para transformar seres humanos com vontade própria em empregados dóceis."
Página 249 - de Aza Raskin, designer na Firefox - "A vossa primeira tentativa vai estar errada. Elaborem um orçamento e um modelo que contem com isso"
Página 277 - de Goro Shimura, falando do matemático Yutaka Taniyama - "Enquanto matemático, não era uma pessoa muito cuidadosa. Cometia muitos erros, mas cometia esses erros na direção certa ... tentei imitá-lo e descobri que é muito dificil cometer bons erros."
Página 277 - de Tristan Tzara, poeta dadaísta romeno-francês  -  "Tentemos, por uma vez, não estar certos".

E pronto, já podemos explicar isto aos decisores, para que não cometam mais erros na direção errada e não venham dizer que estão certos de que estão a salvar a pátria.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

O acidente do Jolly Nero no porto de Génova

Localização da torre de controle e zona de inversão no porto de Genova; assinala-se a existencia de depósitos de combustível demasiado próximos da linha de água
porto de Génova; observe-se, para melhor compreensão da problemática do negócio internacional dos portos, a extensão dos molhes de proteção, a quantidade de cais de atracação e a presença de um aeroporto com uma pista de 2400 m

Porto de Genova – Elevada densidade de movimento de navios de grande porte, da ordem de 300 metros de comprimento que acostam em cais em espinha relativamente à linha da costa.  Protegido por molhes extensos ao longo da costa. Os navios que acostam na zona oeste do porto têm de sair em marcha à ré ao longo do canal formado pelo molhe e rodar de modo a apontar a proa à barra para saírem para o mar. A torre de controle estava situada nessa zona de inversão de marcha, onde se poderá inscrever um circulo de cerca de 500 m de diâmetro.
Registo da rota do Jolly Nero:
http://www.youtube.com/watch?v=iiNRB__Ang4

Animação da rota correta e da rota de colisão:


Manobra do Jolly Nero – O navio percorreu o canal em marcha à ré, apoiado por um rebocador à popa e por outro na proa. Os rebocadores não têm por missão rebocar o navio, mas apenas acompanhar a manobra e suster o navio. A tração deste e as ordens  de manobra competem ao navio, com um piloto do porto na sua torre de comando. Os navios mais modernos, que dispõem de hélices de proa (para manobrabilidade) e hélices principais azimutais (orientáveis) não necessitam do acompanhamento de dois rebocadores. De acordo com os registos de localização dos três barcos durante a manobra de marcha à ré, parece que o rebocador da proa “deixou ir” o Jolly Nero sem que o piloto a bordo deste tivesse interrompido a manobra. O rebocador de popa, ao verificar que a popa do Jolly Nero se aproximava demasiado da torre de controle foi impotente para segurá-lo, até porque, por regulamento, devia aguardar a ordem de tração. O rebocador de proa parece não ter o cabo ligado (sublinho “parece”). Aparentemente (sublinho “aparentemente” porque a velocidade registada era inferior à regulamentar) terá havido excesso de confiança na manobra de marcha à ré, gerando-se o acidente por acumulação de duas circunstancias: 1) falha de comunicações, sem disponibilidade de meios alternativos rápidos, entre a ponte de comando do Jolly Nero e o rebocador de popa; 2) demora da operação de inversão do sentido de marcha dos motores do Jolly Nero (exige paragem dos motores em marcha à ré e atuação de ar comprimido para arranque do motor no sentido da vante).
O  arranque dos motores falhou na primeira tentativa, pelo que a popa do navio colidiu, de esquina, com o cais sobre estacas e, eventualmente galgando o cais, com os pilares do edifício acoplado à torre de controle. Apesar da velocidade ser muito baixa (5,4 km/h), a massa do Jolly Nero (40.000 toneladas), o facto da colisão se ter dado com a esquina da popa (o que aumenta a pressão = força por unidade de superfície), e o facto  do cais artificial estar assente em estacaria e o edifício ter os pilares muito perto da linha de água (pilares não dimensionados ao corte para suportar uma força destas) contribuiram para a gravidade do desastre.

conceção arquitetónica: edificio assente em  pilares esbeltos por sua vez assentes em pequenos módulos de cais assentes em estacaria; estes terão aguentado o embate mas transmitido a vibração, tipo abalo sísmico, aos pilares, que não estavam dimensionados para resistirem; eventualmente terá havido galgamento dos módulos de cais e colisão direta com os pilares, seguindo-se a reação em cadeia de queda por cada vez haver menos pilares a suportar o peso do edificio

I
o Jolly Nero depois do acidente; a popa aloja a carga ro-ro (rodoviária)


a forma do casco na popa sugere que poderá ter havido galgamento dos módulos de cais

os danos na popa são menores, provavelmente por a colisão se ter dado em esquina





Recomendações - Independentemente dos inquéritos regulamentares, destaque-se a debilidade do projeto ao não fazer uma análise de riscos da proximidade da torre de controle da zona de inversão de marcha (recordo que só é possivel inscrever um círculo de 500 m de diâmetro para os navios de 300m de comprimento rodarem de modo a saírem a barra de proa. Essa análise de riscos concluiria que a estacaria do cais artificial deveria suportar esforços maiores de corte ou ter capacidade de absorver os choques sem transmitir a vibração aos pilares, ou, pelo menos, estar protegida por enrocamento (ver, por exemplo a torre de controle do porto de Pedrouços em Lisboa). Assinale-se a presença de depósitos de combustível demasiado próximos da linha de água, sem proteção de enrocamento.
Anote-se ainda a obsolescência do JollyNero, que não dispõe nem de hélices de proa nem de hélices principais azimutais. Falta, apesar de grandes progressos já verificados internacionalmente, nomeadamente ao nível das comunicações, da localização de navios, da obrigatoriedade de duplo casco nos petroleiros, uma normalização mais rigorosa no domínio da segurança. No caso de portos saturados como este, penso que deveria privilegiar-se o uso de navios de sentido duplo para dispensar a manobra de virar de proa e facilitar as manobras de saída do porto.

Conclusão - Enfim, provavelmente teremos as conclusões habituais de sacrifício dos executantes, enquanto as medidas preventivas de projeto e gestão só muito lentamente se vão impondo, e por vezes com retrocesso por considerações de economia a curto prazo (que deveria ser sempre comparada com as mortes provocadas por não serem aplicadas as correspondentes medidas preventivas, embora se compreenda que a competitividade dos portos no negócio internacional pode conduzir à redução dos custos de segurança).

Longa vida ao napo , até 2016

Este blogue aplaude a câmara de Nápoles, que lançou recentemente a sua moeda "napo", complementar ao euro, por funcionar como um talão de desconto (permite liquidar 10% de uma compra).
Não é exatamente como o bitcoin ou as cédulas da experiencia de Worgl, mas é seguramente uma moeda de circulação local para estímulo da economia local, representando  a resposta das comunidades locais à perda de empregos e ao arrefecimento da economia, enquanto presumivelmente os senhores engravatados nos gabinetes dos ministérios das finanças estalam de raiva contra este tipo de iniciativas.
Ver experiencias anteriores em:
http://fcsseratostenes.blogspot.pt/search?q=bitcoin

Penso que uma condição sine qua non para que este tipo de iniciativas resista ao despeito dos senhores governantes seja a realização de um depósito em euros equivalente ao volume de napos que se põe em circulação.
Sendo assim, faz lembrar a anedota do turista que deixou uma nota de 50 euros como reserva num hotel e depois essa nota foi permitindo  o fecho dos negócios pendentes do gerente do hotel com o canalizador, deste com a sua fornecedora de serviços especiais, e desta com o gerente do hotel, até que o turista regresou e levantou a nota porque decidira não ficar na cidade.

É bonito ver a resposta de uma sociedade civil às ameaças do sistema económico europeu.
Desejar-se-ia novas iniciativas, sempre com prazo de validade para estimular a circulação do dinheiro e sempre com uma reserva em euros igual aos montantes em circulação.
Que tal, se o senhor João Jardim se entendesse com todas as forças políticas da sua região e "emitisse" "zarcos"? Ou "açores" nos Açores ou "miranduns" em Bragança?
E "hermínios", aceitam, nesta pastelaria de Viseu?


Ver:
http://www.jn.pt/PaginaInicial/Economia/Interior.aspx?content_id=3213743&page=-1

PS em 15 de maio - A informação de hoje é a de que existem 6 mil milhões de euros de faturas por pagar, correspondentes a empresas que fecharam. Sem prejuízo de uma solução ser a  de que o próprio governo atual fala, de acelerar o pagamento das suas compras, seria interessante que este tipo de moeda fosse experimentado para atenuar este desastre. Evidentemente em domínios geográficos bem limitados e com o depósito cativo prévio de euros no montante da moeda "emitida". Mas os publicanos detentores da sabedoria financeira, para além de não gostarem da inovação, têm os seus dogmas refratários...

terça-feira, 14 de maio de 2013

Pobre Pedro, ou a negação das elites


Pobre Pedro, assim se intitulava o email que circulou pela internet.
Pretensamente escrito por um antigo colega do atual primeiro ministro, dos tempos da juventude partidária.
Pobre porque afastado dos ideais juvenis de solidariedade com as pessoas.
Com ou sem veracidade, o email suscita a reflexão sobre as elites deste país, a sua contribuição ao longo do tempo para o bem ou mal da comunidade, como se acede à elite, e também a sua avaliação.
Do dicionário Houaiss: 
elite - minoria que detem o prestígio e o domínio sobre o grupo social; o que há de melhor e de mais valorizado num grupo social; carater de impressão correspondente a 12 letras por polegada; do latim eligere, escolher,eleger, por via do francês.

Dito assim, a natureza democrática de uma sociedade pareceria estar garantida se o formalismo do ato de "escolher, eleger" as elites conduzisse a uma delegação ou a uma representação dos eleitores junto ou pelas elites.
Apesar do antipático “domínio sobre o grupo social”.
Infelizmente, esse antipático é demasiado forte para nos contentarmos com o estado atual da democracia.
Não é só o antipático do que se diz durante o ato de eleger e escolher já não ser o que se pratica quando se é primeiro ministro, é principalmente a incipiencia e a ineficiência das instituições em termos de participação dos cidadãos e cidadãs no debate e nas tomadas de decisões.
Por outras palavras, as elites dominam mesmo os grupos sociais.
As elites são então pequenos grupos que por delegação ou incumbência de outros pequenos grupos exercem o poder e dominam os grupos sociais compostos pela maioria da população.
Digamos que a origem do poder estará então nos pequenos grupos das grandes empresas internacionais, dos grandes bancos, dos grandes grupos financeiros, que precisam, todos eles, de elites para gerirem os seus negócios e para ganhar o voto dos eleitores para se poder dizer que os representam.
Se é assim, não vale a pena pedir a convocação de eleições antecipadas quando se chega a um ponto de rotura social, com o agravamento do coeficiente da desigualdade de Gini e o abaixamento contínuo do rendimento individual da maioria e do PIB nacional.

A experiencia mostra que, em casos extremos, que poderão classificar-se como de “armadilha social” (armadilha – aparelho para captura de animais ou artifício ou ardil para logro de pessoas, que não permite a libertação depois de se cair nele, mesmo utilizando a força e os meios que em condições normais garantem a liberdade de movimentos do capturado; do castelhano do século XIII armadilla com origem no latim arma, arma) a população prejudicada por elites que aplicaram políticas que a prejudicaram valida, em novas eleições, as mesmas elites ou que defendem as mesmas políticas.
Haverá alguma sabedoria nesta decisão, porque por definição de armadilha a saída é difícil.

As experiencias que demonstraram a dificuldade de sair da armadilha são as ultimas eleições na Grécia e na Bulgária, em que os eleitores recearam mudar de elites ou assumir formas de organização da sociedade em democracia direta (aliás, por definição de armadilha, sem intervenção exterior e alteração das condições de relação com o exterior a armadilha dificilmente poderá ser vencida; entretanto, mantendo-se a armadilha, até os investimentos que serão rentáveis noutras condições não trarão neste caso retorno).
Não se pôs com suficiente intensidade a solução da população aceder à área decisória, em vez de votar para mudar de elite ou mantê-la.
A democracia direta não é um sonho.
Alguns dos seus componentes são até utilizados para a manutenção de regimes que nem formalmente cumprem critérios de democracia como eleições periódicas; fazem-no através de assembleias de controle popular no nível de maior proximidade das populações.
Por outro lado, algumas experiencias de iniciativa popular, vulgo “sociedade civil”, têm apontado caminhos em países mais desenvolvidos.
Cito novamente “A sabedoria das multidões” de James Surowiecki, como repositório do tipo de organizações e métodos de democracia direta.
O objetivo principal é o de deixar de depender de elites aumentando o grau de participação popular e de acessibilidade aos mecanismos de decisão (ou alterar estes mecanismos de modo a reduzir a componente de delegação ou de representação e alargar a participação social), acabando com a prevalência da oligarquia (oligarquia – regime em que o poder é exercido por um pequeno grupo de pessoas; do grego oligarkhia, governo por um pequeno grupo de pessoas ou famílias).
Mais perto de nós, o testemunho de António Coutinho, já referido em

…”deveria ser reformulado o papel dos partidos, centrando-os na ação formativa, sem prejuizo da sua liberdade ideológica, evidentemente, mas reservando a representação dos cidadãos no Parlamento a técnicas de amostragem (amplamente conhecidas da estatística, da sociologia, das    metodologias das sondagens).
Isso permitiria uma mais perfeita representação da vontade e do sentir da população … a ideia do interesse egoísta como motor económico pode ser muito interessante nas sebentas das universidades dos economistas, mas é um monstro que derrota a dignidade dos profissionais e o bem estar das comunidades e é uma mentira que ilude os eleitores”…

Se o estado do país é lamentoso, foram as elites que o conduziram até ele; nunca as populações exerceram o poder direto nem definiram os montantes dos empréstimos e os rácios da dívida.

Mas as elites não querem reconhecer o seu falhanço, e insistem nas suas políticas e no auto elogio.

Segundo Tim Harford, no seu livro “Adapte-se”, pagina 285 da 1ª edição da Ed.Presença, são três as fases que as elites seguem quando cometem os seus erros:
- negação – por mais evidente que seja o erro, a elite considera-se superior à realidade e nega-a
- ampliação das perdas – em vez de seguir o caminho de tentativa e erro aprendendo com este, a elite prefere insistir no erro, ampliando os efeitos negativos, compensando os erros com mais erros
- revisão hedonista – qualquer pequeno êxito ou insucesso é ampliado ou valorizado pela perceção da elite e apresentado como grande sucesso, justificando assim as politicas destrutivas seguidas.

Choca um pouco o levantamento destes comportamentos já estar feito, já se ter chegado à conclusão de que a participação efetiva dos cidadãos e cidadãs na vida pública tem de aumentar, e serem tão pouco palpáveis os progressos.

Há alternativas ao que os nibelungos estão a fazer. Dizer que não há alternativas é uma forma de insistir na negação e no erro. Se se acaba com as obras públicas e com o emprego, é natural que o desemprego aumente, as despesas com a segurança social aumentem e as suas receitas baixem. é como uma crinça partir um brinquedo e depois dizer que foi ele que se partiu.


Há alternativas, mas os nibelungos, ou melhor, as elites e os Alberich que os comandam, acham que não se deve aplicar a taxa das transações financeiras, nem alargar a base de incidencia fiscal reduzindo impostos de acordo com  a lei de Laffer, nem simplificar as burocracias, nem investir em obras públicas de infraestruturas de transporte ferroviário (as cimeiras ibéricas têm sido fumo de diversão) ou de produção de energia solar com fundos comunitários, nem renegociar as taxas de juro, nem pressionar o BCE e a UE para a união bancária e fiscal e o fim dos subsidios ao monopólio dos bancos (aquilo de obrigar os governos a contrair empréstimos nos bancos, em vez de diretamente ao BCE).


Só nos resta ir tentando divulgar as alternativas até às próximas eleições.




PS em 15 de maio - manda o respeito pela verdade deixar registado que, entre secretários de Estado e técnicos ao serviço dos ministérios ou seus conselheiros, existe ainda alguma lucidez. Por exemplo, nas medidas de simplificação burocrática para atividades turisticas, ou na intenção de manter a receita fiscal do IRC através da sua diminuição com aumento da base de incidência (medida válida se, e só se acompanhada de simplificação burocrática e de confiança nos critérios declarativos dos cidadãos, em clara aplicação da lei de Laffer).











segunda-feira, 13 de maio de 2013

O desacerto social um ano depois


Em termos de interpretação da realidade pelas elites decisoras, ou melhor, em termos do que as elites decisoras querem que a população entenda, estamos mais ou menos no mesmo ponto de Janeiro de 2012:

Cortam pois nas pensões também abaixo de 3 salários mínimos, que é apenas uma parte do bolo global do rendimento nacional.
Problema de matemática dos primeiros anos do ensino da matemática, a compreensão do conceito de percentagem.
Se cortar é preciso, deve-se cortar na fatia que contribuir com a maior percentagem para o rendimento nacional, não nas fatias de menor contribuição.
Talvez que o senhor ministro Crato possa explicar isto aos colegas decisores, e de caminho explicava o conceito de quociente, que aumentar o número de horas de trabalho, isto é, um fator de produção que está no denominador do quociente produtividade (em que no numerador está o volume da produção), diminui a produtividade com elevado grau de probabilidade (porque o crescimento da produção vai ser inferior ao crescimento das horas de trabalho).

Podia ainda, por exemplo, para não ter de se cortar em pensões, aplicar-se a taxa sobre as transações financeiras. Arranjavam-se assim os tais 400 milhões.
O senhor ministro das finanças até tinha prometido que ia pensar nela, embora isso fosse antes daquele retumbante sucesso do regresso aos mercados e do contínuo crescimento da dívida enquanto a taxa de juro for superior à taxa de crescimento do PIB (outra vez o conceito do quociente a estragar tudo).

Assim vamos, seguindo a ideia do senhor muito poupadinho que cortou na ração do cavalo.

Viver acima das possibilidades

Vivemos acima das nossas possibilidades aquisitivas.
É um facto.
Mas vejamos este parque, o parque da Bela Vista.



Utilizado para espetaculos como o RockinRio ou outros de musica pop.
Muito apreciados e participados, os espetaculos.
Mas as infraestruturas do parque são insuficientes.
Refiro-me à falta de cafés, restaurantes e instalações sanitárias.
Não se gastou nele acima das possibilidades.
Não tem o prestigio do Central Park, não se vêem pessoas de rendimentos elevados a passear ou a fazer jogging, não se vêem rickshós puxados por ucranianos, nem à sua beira há hoteis de charme dos anos 30 frequentados pelo grande Gatsby.
Não se fazem concertos de Simon e Garfunkel nem da orquestra filarmónica de Nova York com o seu maestro de smoking branco.
Mas é o meu parque, vê-se o Tejo ao fundo, e eu gosto muito dele.
Gosto de ver as pessoas que habitam ao lado a usufrui-lo.
Da zona J, da zona N, do bairro do Armador.
Vivemos acima das nossas possibilidades, dizem as pessoas, de elevados rendimentos e com capacidade executiva  por delegação, que não frequentam o parque (exceto quando os espetaculos têm tendas VIP com fotógrafos).
Claro, as nossas possibilidades estão muito abaixo das nossas potencialidades.
Sendo p as nossas possibilidades, P as nossas potencialidades, e v o nivel de vida em que viviamos, então P-p será o valor da nossa capacidade de geração de poupanças, verificando-se  
P>v
e
(P-v)~(v-p)
Toda a gente que frequenta o parque da Bela Vista sabe isto, que diabo, que o parque podia ser muito melhor aproveitado e até dar rendimento com visitas de turistas e usufruto por mais pessoas. Que tem potencialidades. Porque razão não o entendem os tais não frequentadores, de rendimentos elevados e capacidade executiva por delegação?
Por outras palavras, vivemos claramente abaixo das nossas potencialidades. 



domingo, 12 de maio de 2013

Fábula de La Fontaine

Não admira que La Fontaine, ao contemplar cenas como esta,  tivesse concebido as suas fábulas, apesar de não parecer ter tido dificuldades financeiras na sua vida, pelo menos que se saiba dos seus diálogos com a sua musa Íris, a senhora da La Sablière.


As ovelhas e as cabras a pastar, sem dar problemas às famílias, seus donos.
Produzindo lã (estão tosquiadas), ou leite.
Valha a verdade que em caso de penúria de pastos se podia e pode sempre racionalizar (racionar?).
E se algumas ovelhas querem ir consumir pastos do outro lado da estrada, afetando assim os valores de mercado, há os pastores alemães que vão lá buscá-las.
Além de que há os ministros, perdão, os pastores propriamente ditos, com os seus cajados, para tomar conta.
Mas as coisas evoluem.
O ser pacífico no tempo de La Fontaine era mesmo do agrado dos donos.
Entretanto, a ideia da não violencia ganhou força,
Não é preciso ir para a luta, basta aprender com Gandhi.
E as resoluções da ONU até ajudam.
Até porque há pastores alemães simpáticos.
Dispostos a colaborar.
Necessário porém as ovelhas saberem escolher o apoio estrangeiro, perdão, do cão pastor, não nos vá, perdão, não lhes vá sair em rifa o lobo do Pedro e o Lobo que são muito parecidos de aspeto, os pastores alemães e os lobos.

sábado, 11 de maio de 2013

Análise e prevenção de riscos segundo Tim Harford.

Há uns anos, a leitura dos  livros de Tim Harford, "o Economista disfarçado", ed.Presença, e de Steven Levitt/Stephen Dubner, "Freakonomics", ed. Presença, entusiasmou-me pela demonstração do método científico através da recolha de dados sociais, do seu tratametno, do estabelecimento de correlações e da apresentação de conclusões testáveis pela observação e experimentação.
Tratava-se de uma disciplina de economistas aplicada aos estudos sociais, baseada em dados reais.
Coisa que habitualmente não se vê, uma vez que nós, portugueses, preferimos a emotividade e a discussão com argumentos ideais e virtuais.
Embora sem o entusiasmo da novidade do primeiro livro, apreciei agora de Tim Harford ,"Adapte-se", ed Presença, com a recolha de muitos dados de casos da industria e das finanças, estabelecendo interessante analogia entre  desastres como os das plataformas petrolíferas e os grandes desastres financeiros, suas causas e formas de prevenção.
Estamos perante a disciplina de "Análise e prevenção de riscos" tratada de um ponto de vista de economista, com lucidez, embora seja sempre mais fácil explicar um acidente depois dele ter acontecido e de recolher os dados de todo o seu processo.

Os últimos dias têm sido férteis em acidentes: acidentes ferroviários com explosões em Schellebelle na Belgica e Rostov na Russia, queda ou incendio de grandes edificios sede de fábricas texteis no Bangladesh, explosão de camião cisterna numa autoestrada no México, colisão de um porta contentor e destruição do edificio da torre de controle do porto de Génova,  morte de um velejador num treino para a Taça América por se ter virado o catamaran de 60 pés.

Este blogue tem colocado a hipótese de que políticas de economia de recursos podem estar correlacionadas com este tipo de acidentes, mas vai tentar reproduzir em próxímos "posts" as conclusões de Tim Harford.
Sem prejuízo de continuar a defender que a globalização tem tambem de ser a da normalização técnica e de segurança.
Existem leis internacionais que proibem a injeção de capitais públicos em empresas com a desculpa de que prejudicam a concorrencia (e contudo, se 75% dos eleitores validarem esse uso do dinheiro dos contribuintes, como poderemos condenar essa injeção de dinheiro público?).
Por maioria de razão existem leis anti-dumping.
Essas leis validam a proibição de negociar com empresas que exploram a mão de obra barata e as condições de trabalho não conformes com a segurança, como no caso do edificio desmoronado do Bangla Desh.
Mas reconheço que é dificil, enquanto os governos dos paises ricos e pobres não tiverem força para impor as resoluções da ONU, Declaração universal dos direitos humanos incluida.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Privatizar ou não privatizar, a novela em maio de 2013

A novela quase shakespeariana de concessionar a privados ou não concessionar a privados dos senhores governantes continua, com o senhor secretário de Estado Sergio Monteiro a confessar com o ar de aluno bem classificado, que afinal, graças ao problema dos CDSwaps, a concessão a privados das redes de transporte urbano pode não ser conseguida , como tinham prometido (ameaçado?) até ao fim do ano.
Que os senhores administradores tiveram de roubar tempo à tarefa insana de preparar os concursos de concessão (não eram os consultores que estavam a fazer o caderno de encargos? ou os consultores andavam a perguntar nas empresas o que deviam escrever no concurso? ).
Entretanto, a propósito de uma notícia, talvez espúria, mas notícia, de que motoristas da Carris desmaiavam em serviço, as caixas de comentários dos jornais que a transmitiram encheram-se dos habituais apelos um pouco primários de "privatização já".
Com ou sem fundamento a notícia requeria investigação séria por parte da Carris e informação fidedigna à população se são ou não cumpridos os procedimentos de segurança de monitorização das condições psicotécnicas e de saúde dos motoristas.
Qualquer empresa de transportes deve ter ou pagar um serviço de medicina de trabalho e de assistencia social que vigie constantemente as condições dos seus profissionais.
Isso custa dinheiro e é incompatível com a política dos cortes.
Mas depois não se admirem.
E não se esqueçam de culpar liminarmente (e portanto, de forma um pouco primária), atribuindo as culpas do acidente a "falha humana".
Como se fez com o acidente de Schellebelle na Bélgica, de Génova com o Jolly Nero, e agora com o acidente ferroviário em Rostov (claro, se poupam no pessoal que faz a manutenção das agulhas e no que faz a manutenção das válvulas dos vagões de transporte de produtos químicos, é natural que haja acidentes).
Vale a pena interrogarmo-nos se os senhores governantes têm ou não consciencia da sua temeridade ao esperar que uma gestão privada leva em consideração estas preocupações de segurança.
Especialmente numa altura em que a própria TST vem explicar que tem um prejuizo de 5,5 milhões de euros por lhe "desviarem" verbas dos passes sociais.
Ou como quem diz que a gestão privada faz tudo melhor desde que o Estado lhe pague bem (claro, faz o papel dela, obter lucros).
Repito, agora na certamente vã esperança de que o assunto seja discutido com números e factos, os cálculos de:
http://fcsseratostenes.blogspot.pt/2012/10/dedicado-ao-senhor-secretario-de-estado.html

destacando as conclusões:

1 - a renda paga pelo concessionário deverá ser superior à diferença entre a nova compensação indemnizatória e a antiga; caso contrário a concessão não tem interesse económico para o Estado (chama-se a atenção que um concessionário deve pagar uma renda ao proprietário das infraestruturas que explora, embora seja estranho que depois lhe peça uma indemnização compensatória);

2 - os resultados operacionais com a gestão privada deverão (sem o que a concessão não tem interesse económico para o Estado) exceder os resultados operacionais com a anterior gestão pública no valor  da soma:
·         do lucro
·         com a diferença entre o investimento publico e privado depois e antes da concessão, descontando o valor da indemnização compensatória anterior à concessão (mas incluindo o serviço da eventual aquisição da dívida pública acumulada anterior).

3 - interessará ao concessionário, para que economicamente resulte vantagem para o Estado, com evidentes prejuízos para a qualidade e preço do serviço:
  • reduzir a despesa operacional (reduzindo salários, o quadro de pessoal ou a manutenção, ou subcontratando pessoal ou manutenção precários, por exemplo)
  • aumentar a receita (aumento de tarifas, agravamento dos custos da circulação automóvel)
  • minimizar os investimentos (adiar melhorias)
Em resumo, desprezando serviço de dívida, o lucro deverá ser inferior à soma da indemnização compensatória anterior com a diferença entre os resultados operacionais depois e antes da concessão a privados


Mas enfim, reconheço que o problema é complexo, não pode ser tratado de forma pouco primária nem acreditando em dogmas ou em contos de fadas; ou melhor, poder pode, as consequencias é que podem ser graves.
Aguardemos.