sábado, 29 de dezembro de 2012

Em casa de Ary

Os velhos de pouco vão valendo, como se sabe pela simples observação.
Mas ainda podem ser úteis, como já se escreveu neste blogue, para quem gostar de fazer investigações do tipo de “a vida quotidiana no tempo de…”.
Poderá ser essa a única utilidade do texto que se segue, uma evocação de um tempo distante, visto como uma memória do trabalho no metropolitano de Lisboa.
Mas tenho de avisar o leitor: o texto contem uma discronia.
O espetáculo de canto livre do Coliseu dos Recreios aconteceu realmente pouco depois de eu ter começado a trabalhar no metropolitano, em 1974.
Mas o encontro em casa de Ary dos Santos tinha ocorrido 3 anos antes, por altura da preparação das suas canções para um festival da canção da Televisão.
Quanto ao resto, é possível e provável que falhas de memória tenham trocado ou omitido pormenores importantes.
Do que peço desculpa.





Em casa de Ary

Na última semana de Março de 1974, o metropolitano de Lisboa recebeu a visita de um técnico destacado do metropolitano  de S.Paulo, ou, como lá se diz, por influencia francesa,  do metrô.
Tinham tido conhecimento dos planos de expansão da rede de Lisboa e queriam conhecer pormenores.
Por essa altura, o metro era o anfitrião de uma firma de consultores alemães ligados à Siemens, a Deconsult, contratados para explicar como se elabora um plano de expansão de uma rede de metro e para o elaborar.
Tinham um gabinete ao fundo da Rua do Conde de Redondo, com especialistas das várias especialidades que se iam rendendo à medida do avanço do projeto e tinham contratado alguns portugueses exteriores ao metro como desenhadores e como técnicos para as traduções e revisão das traduções.
A  sua fama também tinha chegado ao Brasil e o técnico de S.Paulo queria saber a impressão que tínhamos dos consultores, para eventualmente  os convidarem a aumentar a sua participação no estudo da extensão do metro de S.Paulo cuja rede estava então no inicio, preparando o inicio da exploração comercial para o fim do ano.
O choque entre os técnicos de duas culturas era interessantíssimo. À vivacidade imaginativa dos portugueses respondiam os alemães com a citação rigorosa das normas de cálculo e de construção. Contavam-nos os nossos colegas da tradução que, depois de sairmos, os técnicos alemães ficavam a comentar as nossas propostas e por vezes descriam delas. Melhoraram, porém, quando ardilosamente  lhes apresentámos o projeto das linhas que saíam do lado norte da estação Rotunda (agora chamada Marquês de Pombal) como uma 2ª fase que não tinha chegado a ser construída. O parecer alemão foi de que não era possível construir as linhas daquela maneira, e na verdade teria ficado mais barato construir de inicio as linhas separadas. E ficaram muito surpreendidos quando os informámos que as linhas já estavam construídas, embora parte da construção tivesse de ser destruída para se fazer a chamada desconexão das duas linhas (os comboios que vinham de Alvalade_/Rossio para a Rotunda seguiam uns para SeteRios e outros para Entrecampos. O objetivo do novo plano de expansão era o de criar duas linhas independentes: uma de Alvalade/Rossio para Sete Rios e outras de Rato para Entrecampos).
Paulo Giannini, assim se chamava o técnico brasileiro, gostou de falar connosco, da volta que deu pelas estações de metro e dos contactos com os consultores alemães, numa altura em que a exploração do primeiro troço de 6 estações da rede de S.Paulo ainda estava em período experimental,. Alem do mais, informei-o que o meu quinto avô materno também era Giannini, adaptado em português para Janiny e perdido na transmissão de mães para filhos. Também ele, como os antepassados do brasileiro, de origem napolitana, fugido às perturbações de Garybaldi, apesar de ferveroso liberal, mas com horror às lutas, talvez também com horror às pastas e massas italianas.
Durante a visita de cortesia à administração, coube-me a mim, talvez por ser o mais novo ou pelas afinidades do apelido Giannini, a missão de acompanhar Paulo a um jantar oferecido pelo metropolitano.
Recomendou o presidente da administração o Gambrinus, que devia ser a época da famosa perdiz.
Receei que Paulo Giannini não achasse graça, quando lhe disse que não ia ser possível jantarmos num restaurante caro, apesar da generosidade do metropolitano, porque já tinha um compromisso para essa noite. Tinha de assistir ao espetáculo  no Coliseu dos Recreios, organizado pela Casa da Imprensa, “o primeiro encontro da canção portuguesa”.
Estávamos em 29 de março de 1974, 2 semanas depois do levantamento militar das Caldas da Rainha e 4 semanas antes da revolução de 25 de Abril. Que era importante eu ir porque minha mulher, um dos elementos do quarteto Intróito, ia cantar.
A canção de intervenção não era a arma decisiva contra a ditadura pós-salazarista e a guerra colonial, nenhuma revolução se faz com a guitarra na mão, mas era uma expressão de vontade de liberdade que ajudava a tomar consciência da necessidade de mudança para uma sociedade  democrática.
Paulo Giannini ficou entusiasmado. Também ele sentia dores de estômago pela situação politica na América do Sul, com a dependência da exploração das grandes empresas  norte americanas, com a experimentação obscena das teses económicas de Hayeck, Friedman e Halberger, os Chicago Boys, a quem ele chamava “the sickago boys”, com o golpe de Pinochet no Chile e a manutenção desde 1964 da ditadura dos generais brasileiros.
Jantámos então duas bifanas e dois pires de arroz doce numa das tasquinhas da rua das Portas de Santo Antão, até fazermos horas para nos encontrarmos com os artistas e entrarmos com eles para os bastidores.
Todos os artistas, a começar pelo decano José Afonso,  e nisso revelaram bom senso, evitaram provocar os agentes da PIDE destacados para o espetáculo, e que pareciam alheados, talvez por premonição.
Ary dos Santos destacou-se do grupo de cantores, depois de várias intervenções, para dizer SARL, SARL, SARL,

S.A.R.L. S.A.R.L S.A.R.L.
a pança do patrão não lhe cabe na pele
a mulher do gerente não lhe cabe na cama.
S.A.R.L. S.A.R.L. S.A.R.L.
o cabedal estoira
e o capital derrama

O salário é sagrado
o direito é divino
mais o caso arrumado do poder que é bovino.

O papel é ao quilo
o cadáver ao metro
mais o isto e aquilo
com que se mata o preto.

O retrato é chapado
a moldura é antiga
para um homem armado
a catana é cantiga.

S.A.R.L. S.A.R.L. S.A.R.L.
o respeito algemado
o sorriso fiel
do senhor cão pastor que tem coleira aos bicos
S.A.R.L. S.A.R.L. S.A.R.L.
só salvamos a pele se formos cães de ricos:

A palhota de mágoa
a casota de medo
mais o pão e a água
que nos dão em segredo.

A gaveta arrumada
a miséria contida
mais a fome enfeitada
que há nun dia de vida.

O cachorro quieto
o prazer solitário
do filho predilecto
do doutor numerário.

S.A.R.L. S.A.R.L. S.A.R.L.
a folha de serviços a folha de papel
o fabrico o penico o sono estuporado.
S.A.R.L. S.A.R.L. S.A.R.L.
o silêncio por escrito o silêncio ladrado:

A mensagem urgente
o envelope fechado
mais o rabo pendente
do animal escorraçado.

O contínuo presente
o contínuo passado
mais a fala deferente
do contínuo coitado:
Permite-me permite
Vossa Celebridade
o limite o limite
o limite de idade?

S.A.R.L. S.A.R.L. S.A.R.L.
Ai o sal deste mar ai o mel deste fel
o azeite o bagaço
o cagaço o aceite
deste lagar Tarzan traumatizado.
Ai a fase do leite
ai a crise do gado
neste curral sinónimo do homem
ANÓNIMO
RESPONSÁVEL
LIMITADO.

O quarteto Intróito cantou a sua doce canção “Um dia vestiremos de branco”, Adriano Correia de Oliveira “este parte, aquele parte”, o poema de Rosália de Castro,  e José Afonso “Grândola, vila morena”, com todos os outros abraçados em cante alentejano.
Na plateia, alguns jovens que eram capitães profissionais acharam,  que aquela canção poderia ser o emblema da revolução.
E nisso interpretaram bem a letra, a musica e a forma coletiva de a interpretar.
O Coliseu cheio, "um momento mágico que não se explica; os músicos que ali cantaram estavam habituados a palcos muito pequenos, em universidades, em associações..." como disse José Jorge Letria ; reportagem da Visão /História nº20 de maio 2013, com fotos do Arquivo Nacional da Torre do Tombo

mesma fonte; da direita para a esquerda: Carlos Alberto Moniz, grupo Introito (Ana Pires, Pedro Sousa Faro, Isabel Pires, Nuno Gomes dos Santos), Adriano Correia de Oliveira, José Afonso, Fausto, Vitorino, José Jorge Letria, Manuel Freire, cantora não identificada, José Barata Moura)

Enquanto saiamos da grande sala, fui dizendo a Paulo Giannini que mal podia acreditar que tivesse sido possivel aquele espetáculo, que a PIDE se tivesse mantido alheada, e que se quisesse podia seguir para o hotel, mas que nós, com parte dos artistas, iamos para a casa de Ary.
Paulo Giannini tinha o avião cedo para o Brasil no dia seguinte, mas veio connosco.
A casa de Ary ficava na costa do Castelo, ao lado das ruínas do teatro romano. A sala grande tinha um desnível a meio a que se encostava por um enorme globo.
O quarteto Intróito cantou algumas das canções proibidas, claramente denunciadoras da guerra colonial, que teria sido arriscado cantar no Coliseu. Pedro Osório acompanhou ao piano Tonicha em canções de Nuno Nazaré Fernandes e  Ary dos Santos, compostas para os festivais da canção da televisão, então ainda com algum impacto. Samuel cantou solidário e romântico a balada da professora de português perseguida por ter tido um caso com um aluno, José Jorge Letria o esboço da “cantiga é uma arma contra a burguesia” e José Barata Moura  a sua “não vamos brincar à caridadezinha”. Ary recitou novamente SARL, SARL, SARL e depois “aos vindouros, se os houver”, do seu admirado colega publicitário O’Neill:
Vós, que trabalhais só duas horas a ver trabalhar a cibernética,
que não deixais o átomo a desoras na gandaia, pois tendes uma ética; que do amor sabeis o ponto e a vírgula e vos engalfinhais livres de medo,
sem peçários, calendários, Pílula, jaculatórias fora, tarde ou cedo;

computai, computai a nossa falha sem perfurar demais vossa memória,
que nós fomos pràqui uma gentalha a fazer passamanes com a história; que nós fomos (fatal necessidade!)
quadrúmanos da vossa humanidade.


Luis Stau Monteiro pediu a todos, de mão dada com ela, sentados no desnível,  que não faltassem à estreia de uma sua Matilde, valquíria imponente de nariz arrebitado e olhos muito azuis, que o fascinara e a quem queria com assinalável insucesso transformar em grande atriz. Matilde é a heroina da grande peça de Stau Monteiro, “Felizmente há luar”, e é uma verdadeira heroína, o ideal da mulher nas lutas contra o absolutismo.
Ary esteve a falar com Paulo Giannini do seu encontro com Vinicius, havia 5 anos, quando tinha participado no Zip-Zip, comparou as duas ditaduras e contou que pensava escrever um poema sobre a história de uma militante comunista que se tinha apaixonado pelo seu torturador. O brasileiro retribuiu recitando o soneto da fidelidade de Vinicius:

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Os anos passaram, morreu Adriano, morreu Ary, morreu José Afonso e voltei a encontrar Paulo Giannini nos finais dos anos 90, na reunião em Lisboa dos metros da associação Alamys, da América Latina e da Ibéria, que isto das reuniões internacionais de técnicos de transportes permite uma compreensão mútua muito melhor do que os congressos dos políticos.
Paulo Giannini havia 12 anos que tinha tido a alegria de ver cair a ditadura dos generais e de ter participado no crescimento do seu metro, então uma rede com cerca de 50 km e alta incorporação de tecnologia brasileira.
Discutimos com o eterno maldizer as burocracias paralizantes, a pressão enorme dos interesses dos grupos das grandes construtoras, as jogadas de promete e foge dos políticos quanto ao financiamento dos metropolitanos, as dificuldades dos projetistas perante a ignorância dos decisores.
Mas também possíveis melhorias, desde a marcha automática dos comboios com maquinista a bordo, já correntemente utilizado em S.Paulo e de que o metro de Lisboa se preparava para lancar o concurso internacional, até ao recurso sistemático a viadutos nos eixos das avenidas para poder combater-se legitimamente o tráfico automóvel, coisa mais fácil de entender pelos decisores brasileiros do que pelos portugueses.
E foi bom recordar o espetáculo de 29 de Março de 1974.




sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Não em meu nome - Hannah e o prato de lentilhas

Naquele tempo, havia uma extensa propriedade que era gerida alternadamente pelos dois filhos do proprietário que morrera.
Era estranho não terem sido seguidas as regras tradicionais das heranças, e era também estranho que a propriedade fosse dividida ao meio por um rio, tão extenso e largo como o Jordão.
Mas a estranheza era a principal carateristica daquela propriedade e dos seus habitantes.
Assim, ninguém achou ainda mais estranho que o irmão em funções de gestor logo após a morte do pai tivesse contratado, sem nada dizer ao outro irmão, um grupo de barqueiros para fazer a travessia do rio dos pastores e dos camponeses que trabalhavam dos dois lados do rio.
O gestor não teve de pagar nada quando fez o contrato, nada para os barcos, nada para os marinheiros, nada para os postos de atracação. Mas comprometeu-se a pagar um tanto ao grupo de barqueiros por cada pessoa que atravessassem. Tinha sido um grupo de sábios influentes próximo do governo na capital que tinha recomendado este tipo de negócio; e tão sábios que não se tinham esquecido de deixar gravado na pedra do contrato que, se não houvesse pessoas para atravessar, a propriedade pagaria à mesma a renda minima.
O outro irmão achou um pouco estranho, mas também ele se deixou convencer  pelo grupo de influentes, tanto assim que, ao chegar a vez dele na gestão da propriedade, fez negócios semelhantes para a construção dos caminhos da propriedade.
Entretanto, a sabedoria dos influentes vinha sendo posta em causa pelos carpinteiros e pedreiros da propriedade, que fizeram as contas e concluíram que se tivessem sido eles a construir os caminhos ou a comprar os barcos para a travessia do rio, os custos teriam sido metade.
O tempo continuou a correr e veio a vez do primeiro irmão na gestão da propriedade.
Zangado com as reclamações dos caseiros, camponeses e pastores, que alegavam não ter dinheiro para pagar o imposto, e pressionado pelo grupo de sábios influentes da capital, entendeu que devia alterar um pouco aquele tipo de negócios.
Mas em vez de combinar com os carpinteiros e pedreiros  da propriedade as obras necessárias, resolveu pedir ao grupo de sábios que lhe indicasse quem poderia tomar conta das estações de muda de cavalos e da construção de uma nova quando o numero de viajantes ultrapassasse um determinado valor, que ele não sabia bem qual deveria ser, mas que certamente os sábios e os amigos que eles propusessem saberiam, sempre no sentido que mais lhes conviesse.
E foi assim que os sábios propuseram e o irmão gestor aceitou outra vez o grupo dos barqueiros para explorar as estações de muda de cavalos. O irmão desta vez protestou porque o facto de vir novamente o grupo dos barqueiros era suspeito.
Mas o irmão gestor tinha uma na manga, previamente combinada com o grupo de sábios, que foi uma grande quantidade de lentilhas que o grupo de barqueiros ofereceu ao irmão gestor, que assim pôde atenuar o défice alimentar da propriedade.
Durante a festa que se seguiu à concretização do negócio, o irmão gestor nada disse que o tal numero de viajantes que ficou gravado na pedra, e que obrigava à construção de uma nova estação de muda, é impossível de atingir com as estações de muda existentes.
Mas isso não tem importância, quando se pensa que a rede de estações de muda tinha sido batizada com o nome da mulher do pai morto, Hannah, e tinha sido agora vendida por um prato, grande, mas prato, de lentilhas.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

TGV Pequim-Cantão


Num dia em que parece não ter havido lamurias da parte de nenhum governante, recodo a recenete inauguração da linha de alta velocidade entre Pequim e Cantão, com cerca de 2.300 km :

O investimento terá sido da ordem de 60 mil milhões de euros (25 milhões de euros por km), o que levantou objeções da parte de vários professores de economia, que estimam que a linha não será rentável, apesar das previsões de 2.000 passageiros por dia.
É interessante notar que a maior parte dopercurso é feita em viaduto por razões de economia (os viadutos são compostos por elementos pre-fabricados, poupa-se nas expropriações de terrenos e na construção de tuneis nas cidades, e satisfazem-se melhor os parâmetros de declives e curvas da norma do TGV ).

2.300 km ligariam Lisboa a Amsterdam, ou à Renânia Norte. E mesmo a 300 km/h a eficiência energética deste modo de transporte ainda é superior ao do modo aéreo (se as fontes de energia renovável ou nuclear ocuparem 50% da produção de energia elétrica).
O que faz pensar, quando se vê o preço dos bilhetes "low-cost" de avião, onde estará a distorção (ou o "damping" dos preços marginais dos lugares vazios se não dforem vendidos abaixo do preço de custo). O petróleo deveria ser considerado um bem de difícil substituição e que é finito e não renovável, que deveria ser queimado apenas em situações excecionais.
Mas os preços não são fixados tendo em conta todas as variáveis.
E assim a opinião pública tem dificuldade em aceitar os gastos com investimentos públicos em infraestruturas de transporte ferroviário.
No caso de Pequim-Cantão, a viagem por TGV foi fixada em 100 euros, enquanto por via aérea, consultado o site dos voos baratos, o preço é de 215 euros, havendo 33 voos diretos diários.
Com o corte do TGV Poceirão –Caia evitou-se um investimento de cerca de 2.500 milhões de euros (a subtrair as indemnizações estimadas em 300 milhões, mais os 1.800 milhões de fundos comunitários perdidos, mais o efeito multiplicador na economia do emprego na construção civil das respetivas obras, mais o diferencial energético que se perde todos os dias para transportar os passageiros  da linha Lisboa Madrid em 16 carreiras diárias, e que estimei em 40 toneladas de petróleo desperdiçadas por dia, considerando que metade do tráfego de passageiros se deslocaria para o TGV - 5 toneladas por ida e volta de avião; em breves palavras, cortámos a qualquer custo para poupar o que foi possível).
E com esse corte satisfizemos os senhores professores universitários de economia, que por acaso até preferem andar de avião e não quererão depreciar o negócio dos aeroportos em pleno processo de concessão.
Perante a distorção de preços dos serviços públicos, seria interessante que os senhores professores fizessem um exercício macroeconómico: em lugar de consultar os catálogos com os preços do mercado (bolsas e grandes companhias) e daí prosseguir para a avaliação da viabilidade de uma linha de caminho de ferro, fazer o contrário, medindo o custo do investimento e da sua exploração em unidades de energia e daí seguir até à fixação do preço final do investimento. Isto é, quanto custa um investimento em barris de petróleo (não em dólares pelos barris!), e depois compará-lo com o outro investimento. Para os outros combustíveis fósseis, carvão e gás, há fatores de conversão. Coitados, virava-se-lhes o mundo em que acreditam, o da economia assente no preço controlado, pelas grandes companhias e pelos governos mais fortes, dos combustíveis fósseis.
Talez seja por isso, por a China não ter grandes reservas de petróleo, que gastou tanto dinheiro na linha de Pequim para Cantão, à qual desejo felicidades, sem os problemas de sinalização ferroviária não fail safe que estiveram na origem do acidente de 2011 em Whuan e que espero tenham sido corrigidos.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Funchal, Funchal




10 meses separam as duas imagens.



O Funchal agoniza lentamente, amarrado no cais da Matinha.
Sádicamente, tambem, porque alguns tripulantes têm de o habitar sem condições de aquecimento.
A divida do armador, ou dos seus herdeiros, parece ser incomportável.
Por isso não se justificará, em simples análise de viabilidade, investir nas reparações, nas correções necessárias ao processo de licenciamento e na preparação para a exploração regular, em cruzeiros ou em transporte inter-ilhas.
Donde, o destino será o desmantelamento, por mais que isso nos magoe (aliás, é normal um navio com mais de 50 anos ser abatido).

E contudo, deveria fazer-se uma análise não simples, eventualmente estudando a renegociação ou a anulação quase total da divida, o estudo energético e cinemático das ligações inter-ilhas (um país pobre tem o Atlântida e o Funchal parados enquanto aluga barcos velhinhos a uma empresa grega; não digo que se ponham já os navios ao serviço; estou a dizer que o assunto deve ser estudado por técnicos não subordinados à politica, nem aos formalismos juridico-financeiros, coisa que não consta já tenha acontecido ).

Mensagem de presidentes

Mensagem do presidente Franklin Roosevelt ao Congresso, em 29 de abril de 1938:

“A liberdade de uma democracia não está segura se o povo tolerar o crescimento do poder privado até um ponto em que se torne mais forte do que o próprio estado democrático. Na sua essência, isso é fascismo – apropriação do governo por um individuo, por um grupo, ou por quem quer que seja que controle o poder privado”

Mensagem de despedida do presidente Dwight Eisenhower em 1961:

“É necessário manter o equilíbrio nos programas nacionais – equilíbrio entre a economia privada e a pública, equilíbrio entre custos e expetativas de beneficios”

A situação atual não é exatamente a mesma de 1938 e de 1961, mas evidencia, graças à subordinação da globalização às grandes empresas internacionais e às grandes organizações financeiras, o agravamento da condições e das ameaças sociais.
Para os países sob assistência (!?) do FMI , BM e CE, que impõem a privatização da exploração de bens essenciais, a simples lógica permite afirmar: estão a propor uma forma de fascismo (associação em grupos subordinados  a uma pequena percentagem hierarquizada da população nos lugares chave dos grandes grupos económicos e financeiros).

Informação interessante em

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Meu país nem de ametade


Começo pela repartição da população por escalões etários segundo o censo de 2011:

Até aos 20 anos, cerca de 2,14 milhões de habitantes
Dos 20 aos 65 anos          6,41 milhões
Com mais de 65 anos       2,01 milhões
Total                                10,56 milhões

Podia tomar o escalão dos 20 aos 65 anos e ver como se reparte a população ativa, que estará concentrada neste escalão e perfaz 4,90 milhões, sendo que neste numero estão incluídos os desempregados na altura do censo, cerca de 540.000 (taxa de desemprego= 0,54x100/4,9 = 11,02%).
Podia explorar a informação do censo de que cerca de 16% de pessoas neste escalão sofrem de problemas de saúde prolongados e considerar que se trata de um sinal de alarme extremamente grave que extravasa o âmbito da medicina pública e é um problema económico e social relacionado com as deficientes condições de habitação, de alimentação, de educação e de trabalho.
Mas vou antes pelo lado da população não ativa, os reformados por velhice, repartidos segundo escalões das reformas mensais que recebem; o primeiro número é o número de pensionistas da Segurança Social e o segundo número é o número de aposentados pela CGA (função publica):

    218.092 +  57.017     recebem reformas inferiores a  250 euros por mês
1.188.160  +  38.394                     entre             250 e 500 euros
   155.943  + 131.118                    entre             500 e 1000 euros
     87.681  + 174.631                    entre           1000 e 2500 euros
     10.846  +   49.500                    entre            2500 e 5000 euros
          907  +     2.500          recebem mais de   5000 euros

Total de beneficiários:   1.661.629 pensionistas + 453.160 aposentados = 2.114.789     , isto é, mais 5% do que os habitantes com mais de 65 anos . Notar que pode haver acumulação de reformas e que as idades de reforma variam relativamente aos 65 anos, mas parecerá que não é um bom sinal de saúde pública.





Perante este quadro de valores, novos sinais de alarme deveriam ocupar o espaço da discussão diária nos meios de comunicação social.
Mais de 270.000 beneficiários recebem uma reforma inferior a 250 euros por mês (valor inferior ao de uma renda de casa).
Independentemente dessas pessoas durante a sua vida ativa terem ou não descontado para a segurança social, ou dessas pessoas nem sequer terem podido ter vida ativa como empregados por conta de outrem ou por conta própria, o valor da reforma é um indicador gritante de uma situação social grave.
Esta observação, juntamente com a de que existem quase 1,23 milhões de beneficiários (cerca de 58% do conjunto de pensionistas e aposentados, mas cerca de 71,5% dos pensionistas, devido ao conhecido nível de escolaridade mais elevado na função pública)  a receberem reformas entre 200 e 500 euros (perfazendo um montante de cerca de 32% do total das reformas pagas ao conjunto de pensionistas e aposentados, mas cerca de 56,8% do total das reformas pagas aos pensionistas), configuram um indicador de penúria económica para grande parte dos cidadãos, compatível com a ideia de que mais de  20% de portugueses vive na pobreza.
Trata-se não só de um problema social, mas também de um problema económico de deficiência produtiva de um país.

Era aqui que se deveria concentrar a discussão pública sobre as reformas de pensionistas e aposentados, para iniciar o progresso seguro no sentido da redução das desigualdades e da correção do que está na sua origem: a grave distorção no acesso à educação e a chaga escondida do insucesso escolar, com tudo o que tem por trás de incapacidade educacional e financeira da maioria dos encarregados de educação, e com todo o cortejo de consequências ao nível da criminalidade, da insegurança, da deficiência das condições de vida e da baixa produtividade.
Não são as populações as culpadas; nem a incapacidade atinge todos os setores produtivos; conheci muitos trabalhadores no metropolitano sem habilitações literárias de base que se foram formando ao longo da vida profissional e exerciam bem funções tecnológicas complicadas; pelo país fora vê-se o esforço rentável de trabalhadores desde a auto-Europa aos têxteis e calçado do Norte, à metaomecânica, aos moldes.
Mas os indicadores estatísticos ferem.
É um problema de organização social dependente do poder politico , do poder económico e do poder financeiro, numa altura em que a troika acha que os rendimentos em Portugal se devem nivelar por baixo, pelos países europeus de menor rendimento. Isto é, internacionalmente determinou-se que o valor do que se produz em Portugal é ainda mais baixo do que aquele que pensávamos.
Era isto que se devia defender junto das instancias internacionais: que as diretivas europeias são para cumprir, mas que o valor do trabalho dos cidadãos prevalece sobre elas.
E o tempo vai passando, sem que ao fim de cada dia se veja algum progresso na luta contra as desigualdades, ao menos numa tentativa participada de melhorar a organização social e produtiva, através da criação de empregos que incluam mão de obra com recurso aos fundos QREN (propostas prementes, exigindo o arranque dos projetos: reabilitação urbana, reativação do 3º eixo prioritário de ligação ferroviária à Europa, expansão de centrais elétricas de energia renovável, nomeadamente central solar térmica de sais fundidos) .
Mas o governo enche a boca com as virtualidades das “reformas estruturais” que no futuro darão retorno.
O que os economistas chamam “estrutural” é apenas uma forma de através da legislação laboral se consolidar a redução do fator trabalho nos custos de produção. Não é a harmonização fiscal e produtiva, e muito menos bancária e económica, de que a Europa Unida precisa.

Por isso o meu país nem de ametade é.
A China chamava-se império do meio porque a China estava no centro e os outros países à sua volta.
No  meu país as estatísticas não conseguem muitas vezes traduzir toda a realidade. A fuga à estatística é grande, e a economia paralela, de subsistência por trocas ou por trabalho não declarado, pode atingir valores da ordem de 40%.
Mas os indicadores existentes denunciam claramente a insuficiência da organização social e o excesso de desigualdades.



56,12% dos agregados familiares portugueses apenas conseguem liquidar 22,5% do rendimento bruto do IRS, sendo que cerca de 40% dos agregados não tem rendimentos suficientes para a liquidação (pelo menos declarados, subsistindo com a economia paralela).
Por isso digo, por metade da população pagar menos de metade do rendimento bruto do IRS, que o meu país nem de ametade consegue ser.

E como diz Rafael Correa, presidente do Equador, esta é “a longa noite neo-liberal”, da qual se espera sair um dia.



Referencias:

                     - PORDATA
                     - INE/ Censo 2011


PS em 26 de dezembro - Devo esclarecer que:
-  os numeros que retirei da PORDATA são de 2010 e 2011, estando a situação a agravar-se em termos de desigualdades.
- A palavra ametade é um vernáculo português com o mesmo significado de metade.
- Citando agora o livrinho da Fundação Francisco Manuel dos Santos (ainda se encontram pérolas no meio dos grandes supermercados) de Elísio Estanque: "A classe média, ascensão e declinio" na página 36, o que se desejaria era a aproximação da distribuição populacional dos rendimentos da forma de losango em pé segundo  diagonal vertical, e a  concentração no diagonal horizontal, estando em ordenadas os rendimentos per capita e em abcissas a dimensão do escalão populacional. Trata-se do modelo de representação normalizado do International Social Survey Programme (existe mesmo, ver  http://en.wikipedia.org/wiki/International_Social_Survey_Programme  ). Receia-se que a representação em Portugal se aproxime duma piramide de grande base e muito estreitinha para cima. A referancia do texto aos 50% não era portanto, era pareça, a reivindicação de que 50% do rendimento fosse obtido por 50% de cidadãos, embora isso fosse o ideal.























































sábado, 22 de dezembro de 2012

Falas de governantes – a distorção da linguagem sob pressão e o sintoma de diagnóstico fácil ao psiquiatra


Vamos ver se não sou mal interpretado.
Este blogue gosta de analisar as falas de governantes, gosta de tentar aplicar a semiótica e a psicologia e assim procurar interpretar a realidade.
O noticiário da RTP2 de dia 21 de Dezembro permite esses exercícios com alguma dimensão.
1 –“ tosque” - Primeiro, a propósito da pergunta de um deputado sobre as relações do senhor ministro Relvas com o processo de privatização da TAP, o senhor primeiro ministro dá mostras de súbita irritação e grita que essa insinuação não passava de uma “calunia tosque”.
Assim mesmo, “tosque”. Passando várias vezes as imagens da intervenção do senhor primeiro ministro distingue-se perfeitamente: “tosque”.
Aplicando o método das analogias e das associações de significados, como daquela vez em que o senhor ministro das finanças disse que “isto não precule aquilo”, pretendendo provavelmente dizer que “isto não preclui (exclui) aquilo”, põe-se desta vez a hipótese de que o senhor primeiro ministro, sob pressão da gravidade (no sentido literal) do conteúdo da pergunta, associou as duas palavras: “tôrpe” e “tôsca”, donde terá resultado “tôsque” (acentos para reproduzir a fonética).
Salvo melhor opinião, não deveria ter-se irritado nem adjetivado, porque na realidade as regras de contratação pública e as práticas tradicionais que regulam as relações com os candidatos a um negócio público são duras e incompatíveis com pressas, informalismos e secretismo; além de que é exigir demais a um senhor ministro que tenha conhecimentos suficientes de um negócio para o poder discutir com um interessado, isto é, são os técnicos que estão dentro dos assuntos; uma das maneiras de “afundar” uma entidade pública é aplicar os princípios do centralismo ou da decisão olímpica da tutela.
Quem escreve este modo estas linhas fá-lo porque teve alguns anos de experiencia em comissões de análise de concursos públicos.
Mas enfim, se o senhor primeiro ministro entendeu irritar-se, pense que apesar do programa do anterior governo e do memorando da troika regurgitar de privatizações, ainda há muitos cidadãos que dizem como eu: “não em meu nome”, e que tais decisões, pela sua gravidade, deveriam ser sujeitas a referendo ou aprovadas pelos representantes de pelo menos 75% dos eleitores.
2 – o ano da viragem económica – Depois, mais adiante, ao minuto 12 do noticiário, temos um grave incidente entre a senhora deputada de um partido de esquerda e o senhor primeiro ministro.
Grave porque mais uma vez o senhor primeiro ministro tem um lapso por se deixar emocionar, desta vez um lapso de memória, que no entanto revela a dificuldade de aceitar um facto que ponha em causa a justeza das suas convicções.
Grave não pelo facto em si (até podia suceder que apesar das quebras de consumo, no ultimo mês de 2012 o PIB cresça relativamente a novembro, o que poderia indiciar a “viragem económica”) mas porque o primeiro ministro nega uma afirmação dele próprio e porque apela à fé dos cidadãos sem fundamento em factos ao mesmo tempo que vai diferindo o momento da viragem económica.
Afirmação do 1ºministro em 21 de Dezembro de 2012 – “em 2014 nós teremos um ano de recuperação da atividade económica que começará a notar-se algures durante o ano de 2013 … os sacrifícios que estamos a fazer valerão a pena”.
Afirmação da deputada Heloisa Apolónio em 21 de Dezembro de 2012  – o senhor afirmou antes (em 6 de Janeiro de 2012) que em 2012 “vamos ter um ano de viragem económica para o país, é aquilo em que eu acredito firmemente” e que 2013 será o ano da retoma do crescimento
Afirmação do 1º ministro em 21 de Dezembro de 2012  – isso é uma falsidade, eu nunca disse isso em lado nenhum. Senhora deputada, não podemos dizer o que nos apetece sem sermos confrontados com a realidade
Entrevista do senhor primeiro ministro à TVI em 28 de Março de 2012 - "2012 é um ano critico porque o ajustamento orçamental ocorre este ano. É natural que a economia contraia ainda um pouco mais. A nossa previsão de recessão é de 3,3% e foi confirmada há pouco tempo. Não temos razão para pensar que a recessão será maior que isso", afirmou Passos Coelho. Este valor faz parte do Orçamento Retificativo que será aprovado amanhã em Conselho de Ministros. "A partir do último trimestre a economia vai crescer", disse, acrescentado que "no próximo ano haverá uma ligeira retoma da economia".
Conferência de imprensa em Lisboa em 11 de setembro de 2012 com o senhor ministro das finanças Vítor Gaspar sobre a quinta revisão do programa de assistência financeira -  o Governo e a 'troika' reviram em baixa as suas previsões macroeconómicas para 2013: em vez de um crescimento de 0,3 por cento, nova recessão com a economia a encolher 1 por cento. No entanto, acrescentou o ministro, «mantém-se a previsão de que a recuperação se dará em 2013». Ou seja, embora o PIB vá encolher em relação a este ano, o Governo espera que a tendência negativa comece a inverter-se. «Em termos trimestrais, o PIB começará a crescer já no segundo trimestre 2013», afirmou Gaspar.
Mais uma vez se afirma que o que está em causa não é o erro em si, é a recusa em o reconhecer, e é a evidencia de que o senhor primeiro ministro e o senhor ministro das finanças vão sucessivamente empurrando o horizonte de esperança sem conseguir mobilizar o país para politicas em que ele se reconheça e sem ouvir as propostas dos cidadãos.
A acreditar nas suas profissões de fé, suas e dos burocratas europeus, o objetivo é criar as condições ótimas para os grupos económicos e financeiros assumirem a parte mais lucrativa da atividade económica deste país, desde os grupos das seguradoras e da saúde até aos grupos das energias e transportadoras.
E nisso são eficazes, porque quanto ais enfraquecerem a economia deste país mais facilmente ela será assumida pelos grandes grupos.
Não haverá força para impedir isso, mas sempre poderá dizer-se “não em meu nome”.
Espero.





quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Sociologia para diagnosticar e tratar este país, precisa-se: o suicidio, o ensino, a delinquencia, os lemingues, a emigração e a importância de ser mulher para a tomada de decisões


Comecemos pelo fim, da importância de ser mulher para tomar decisões: a evolução desenvolveu nas espécies mecanismos de proteção e de manutenção das espécies, adaptando o género feminino a esse objetivo.
O organismo feminino, nas espécies em que a estatura está a aumentar, tem tendência para ser de menor dimensão do que o organismo masculino. Mas nas espécies em que a tendência é para diminuir de tamanho, como nos aracnídeos, a fêmea é maior do que o macho.
Isto quer dizer que as experiencias e as tentativas de inovação da evolução da espécie não trazem riscos para a sua conservação porque a parte feminina conserva os genes que já provaram que funcionavam. Se a experiencia correr mal, é a tendência masculina que é abandonada.
Na espécie humana, o fenómeno estendeu-se à capacidade de análise de ameaças para a espécie. Podemos imaginar como se estivéssemos num programa do National Geographic, o conselho de mulheres a criticar as decisões impulsivas dos chefes da tribo nómada na escolher precipitada de um caminho a tomar, só porque os chefes acham que uma decisão rápida é uma manifestação de liderança.
Num antigo concurso de televisão de grande audiência, uma das concorrentes que manteve uma presença prolongada, tinha um bordão ao comentar factos e ditos infelizes da nossa sociedade: “isto é normal?”. Na aparente boçalidade da expressão estava contida essa capacidade de análise feminina que define a linha da normalidade, de garantia do equilíbrio e de conservação da espécie.
Já a minha mulher, com um sorriso triste de quem na sua vida de professora assistiu a demasiados exemplos de alunos desviados do curso “normal” do ensino e do sucesso escolar, comenta que pessoas normais nunca diriam o que os senhores governantes dizem e nunca resistiriam agarrados aos seus lugares às críticas fundamentadas que lhes são feitas (o facto de os senhores governantes reagirem sistematicamente às criticas reafirmando que são eles que estão certos e não os críticos é um dos sintomas mais fáceis de interpretar em psiquiatria).
Por tudo isto, não surpreende a tomada de decisão do presidente da junta de freguesia de Castelo de Neiva, Viana do Castelo, que depois de reduzir a divida da freguesia de 33%, sem conseguir derrotar as burocracias que impedem a correção da barra onde morre gente, fechou o seu restaurante por não aguentar a subida do IVA e  volta a emigrar para o Canadá, onde já se encontra a sua esposa. Também neste caso a sabedoria feminina não terá andado arredia da tomada de decisão, depois de análise irremediavelmente critica.
Temos assim que os senhores governantes deveriam dar mais atenção a este tipo de análise feminina, para combater a metáfora dos lemingues, roedores na tundra escandinava (ver http://pt.wikipedia.org/wiki/L%C3%AAmingue     ). Embora a observação cientifica tenha provado que era um mito o suicídio coletivo dos lemingues, interessa reter que a falta de controle na taxa de crescimento da espécie em períodos de abundância de alimento conduz a um excesso de população que obriga a deslocações maciças em busca de alimento. E é nessas deslocações que ocorre grande numero de mortes por afogamento nos lagos da tundra devido à pressão da multidão.
O que nos leva, a propósito do descontrole em períodos de abundância, aos restantes temas do título, suicídio, ensino e delinquencia.
A comunicação social gosta de apresentar a perspetiva individual em cada noticia de suicídio, ensino ou delinquencia.
Tende a esquecer a componente social de cada fenómeno.
Em Sociologia, com Durkheim, desenvolveram-se técnicas de abordagem destas problemáticas com a análise dos dados estatísticos segundo perspetivas e hipóteses associadas à sociedade, para alem das causas e circunstancias individuais.
O suicídio, sempre estudado com base na recolha histórica de dados, poderá assim resultar mais da desestruturação social, como a falta de meios para prestar uma assistência digna aos idosos com menores recursos ou em arranjar empregos para os jovens, do que de uma desestruturação psicológica, aliás ela própria resultante da desestruturação social.
Temos assim que num meio social de fraca coesão social os suicídios tenderão para serem de natureza individualista; numa comunidade de coesão social forte o suicídio poderá ser altruísta, como o caso de um  membro de uma familiar se suicidar de pois de matar os familiares, por desistência de lutar contra as adversidades.
Poderá concluir-se que uma tendência para o aumento de suicídios individuais corresponda a um fenómeno de suicídio coletivo, e seria muito interessante ouvir o que os senhores governantes da área respetiva pensam sobre a problemática do suicidio. Persistindo o silencio, a ignorância e ausência de iniciativas dos governantes perante a problemática do suicídio estaremos numa situação arripiante.
Quanto ao ensino, as técnicas sociológicas podem concluir que a organização do ensino utiliza o insucesso escolar para perpetuar a estrutura de classes existente e selecionar e distibuir os alunos pelos diferentes tipos de profissão, impondo uma cultura estratificada em que a capacidade financeira e cultural dos encarregados de educação condiciona o sucesso dos alunos (pais com menores habilitações literárias batem mais nos filhos;  filhos de pais com menores habilitações literárias têm maior predominancia de obesidade infantil - resultados de 2000 entrevistas a crianças e familias pela Faculdade de Medicina da universidade do Porto). O que secundarizará a discussão que os senhores governantes gostam de ter sobre as medidas que eles próprios implementarão para  melhorar a eficácia do ensino (melhor se dirá: para melhorar a eficácia da distribuição dos alunos pelos diferentes tipos de profissão).
Quanto à delinquência, considerada como uma reação e uma adaptação a um processo de decomposição das relações sociais com recurso a violência, parecerá existir uma forte correlação entre o insucesso escolar e o desemprego. Para se ter uma ideia do lugar ocupado pelos atores sociais neste tipo de relações sociais, sendo certo que é dificil um país produzir o suficiente em ambiente de delinquencia dominante, poderá utilizar-se o gráfico seguinte, com 2 escalas de variação de  conceitos de relações sociais:
                        Integração social - marginalidade
                        Cooperação – contestação      :

Numa altura em que os senhores governantes debatem a estratégia de segurança e defesa nacionais da comissão que nomearam, mais ou menos perdidos em discussões académicas e bizantinas, seria muito interessante o diagnóstico com base em dados credíveis que permitissem discutir em debate alargado com fundamento as hipóteses de solução.
Seria preciso uma Sociologia ativa e dinamizadora.
Mas não sei se os senhores governantes estarão disponíveis para  o que seria uma melhoria.



Referencia: Manual de investigação em ciências sociais, de R.Quivy e L.V.Campenhoudt, ed. Gradiva

Sebastião da Gama


Do obscurantismo dos anos 40 e 50 do século XX ao obscurantismo dos nossos dias, perdoe-se-nos o nacionalismo:



Meu país desgraçado!...
e no entanto há sol em cada canto
e não há mar tão lindo noutro lado
nem há céu mais alegre do que o nosso
nem pássaros, nem água…

Meu país desgraçado!...
Por que fatal engano?
Que malévolos crimes
Teus direitos de berço violaram?


                          Sebastião da Gama (1924-1952)


cabo Espichel

Demissão da administração da Casa da Musica


Choca-me, a petulancia do jovem deputado, a responder ao protesto pelo corte no orçamento da Casa da Musica e pela subsequente demissão da administração.
Que todos deviam saber que a diretriz de agora é de saber cortar melhor ("cortar  melhor"?! será a versão para a área da cultura do pífio slogan “fazer mais com menos”?).
Que a Casa da Musica do Porto tem de se subordinar à mesma contenção do Centro Cultural de Belém de Lisboa.
Como se nivelar por baixo fosse correto só por ser nivelar, para mais estimulando a rivalidade bairrista e provinciana que Sofia de Melo Breyner tão bem retratou (que chico esperta forma de manobra de diversão).
Como se estivesse habilitado a avaliar o mérito cultural da programação da Casa da Musica.
Selvagens, nibelungos prepotentes que não sabem do que falam e impõem a sua incultura.
Esgotam a paciencia a um santo.
Ser deputado de um povo não devia ser isto.

Nota - a atividade cultural, como qualquer economista sabe, contribui para o PIB e através da sua componente de atração de turismo cultural internacional comparticipa do setor transacionável. Mas não devia ser preciso explicar isto, a cultura vive por si, como emanação compulsiva da natureza humana (pese embora alguns humanos não sentirem compulsão nenhuma, como se vê no episódio descrito) 

PS em 22 de dezembro - Este blogue precipitou-se ao associar o jovem deputado de um dos partidos da maioria à defesa dos cortes de 30% no orçamento da Casa da Musica (redução do orçamento de 10 para 7 milhões de euros). Na verdade, ele fez uma declaração de voto em que disse não dever fazer-se um corte em percentagem maior na Casa da Musica do que no CCB. Peço desculpa, portanto, mantendo a designação de nibelungos para quem insiste nos cortes que levaram à demissão da administração da Casa da Musica.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

A furia justiceira - o Tribunal de Contas e o Conservatório

Ficou mal, outra vez, o Tribunal de Contas, na sua fúria justiceirista ao concluir precipitadamente que cada aluno do Conservatório de Lisboa ficava por 46.000 euros por ano. Dinheiro dos contribuintes desperdiçados num país tão carente.
Há tantos anos que a minha professora de História me ensinou que a fúria justiceira era um apelo ao sadismo medieval de inspiração divina que tinha reprimido até não poder mais, isto é, até à revolução francesa, o princípio do direito romano de respeito pelos cidadãos e de que só pode haver condenações em tribunal depois de ouvida a defesa e  provada a acusação.
Recordo-me sempre, quando vejo uma catilinária do Tribunal de Contas, a triste figura de dois magistrados seus numa visita que me fizeram há vinte anos para inquisitorialmente saberem por que tinha eu desperdiçado dinheiro ao fazer um caderno de encargos para o concurso para o sistema de sinalização de Entrecampos para a Cidade Universitária e depois outro caderno de encargos para o concurso para o sistema de sinalização da Cidade Universitária para o Campo Grande, com destruição das agulhas de inversão provisória na Cidade Universitária.
Lá tive de explicar, no meio de uma papelada poirenta no armazém (se fosse mais tarde, provavelmente os ficheiros informáticos já se teriam perdido), que o ministério só tinha autorizado as ampliações uma de cada vez depois de ter reprovado a nossa proposta de ampliar a linha de um só folego.
Não quero que o Tribunal de Contas desapareça, apenas gostaria que os seus magistrados se inteirassem primeiro da problemática das coisas junto dos técnicos, e que se reconhecesse que a base das obras públicas só pode ser a competência técnica e a honestidade dos servidores públicos, coisa que deve ser o objetivo principal do sistema educativo e que não se vê discutido como tal na comunicação social.
Mas votando ao Conservatório, afinal uma auditoria pedida pela própria escola provou que a média de 40.000 euros se referia apenas aos 95 alunos do sistema integrado (ensino da musica e das disciplinas do secundário).
Contando com os alunos do ensino especifico musical, subindo a população para 874 alunos, a média baixava para  menos de 7.000 euros.
Como referiu o Conservatório, numa época de caça aos cortes na Cultura, isto não fica bem.
Alguém leu na comunicação social um pedido de desculpas do Tribunal de Contas?
A facilidade com que se desmerece no trabalho dos outros…

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Este blogue é um gigantesco batoteiro - o obscurantismo e a queda de Salazar

Este blogue é um gigantesco batoteiro.
A acreditar no voluntarioso senhor primeiro ministro a discursar para os jovens do seu partido, provavelmente ansiosos por virem a ser como ele, assertivo quando proclamou que “a batota acabou”.
Primeiro, chamou pequena batota à desvalorização de uma moeda para embaratecer as exportações.
Talvez estivesse a chamar pequeno batoteiro ao governo chinês, que não gosta nada de valorizar o reiminbi.
Mas estaria a chamar pequeno batoteiro a este blogue, que já propôs a desvalorização do euro ou a decomposição do euro em novas moedas (mais uma vez este blogue não tem o mérito de inventar nada, estas são invenções de economistas como Sivio Caselli e John Keynes, antes de haver euro e antes de haver neo-liberais da escola de Chicago).
Depois, chamou “gigantesca batota” ao financiamento dos Estados pelo BCE a juros idênticos aos dos bancos.
Como este blogue também não se cansa de propor juros menores para a dívida, aqui se vê como é um gigantesco batoteiro.
Estamos então caídos no nível da adjetivação desmerecedora.
Provavelmente queixar-se-á o senhor primeiro ministro de que blogues como este também o insultam.
Talvez sim, talvez não, mas sempre se quis fundamentar neste blogue as acusações que se fazem ao senhor primeiro ministro, como por exemplo, citando as suas afirmações antes e depois da eleição (“a minha garantia é de que se for preciso taxarei o consumo e não os rendimentos”, “cortar o subsidio de Natal é um disparate”, etc, etc), o que conduz fatalmente a um adjetivo na verdade pouco elegante na língua portuguesa.
Até quando este blogue associou a “missão” de que este governo está incumbido de salvar o país a sintomas de hipomania (forma menos grave do distúrbio psicológico de quem tem dificuldade de assimilação da realidade, nunca aceita submeter-se a tratamento e imagina que o destinaram a uma função messiânica; alem de que exibir sintomas de uma doença não significa necessariamente que se sofre dela)  se baseou nas próprias afirmações do senhor primeiro ministro, agora confirmadas com a interrogação  “…pergunto-me se as pessoas percebem que nós estamos a lançar as raízes para uma sociedade mais justa”.
Realmente as pessoas percebem, ou pensarão, dadas as  suas insinuadas limitadas capacidades de compreensão, que percebem que talvez o engenheiro Moreira da Silva, mais dado a tratamento de dados que o senhor primeiro ministro, lhe tenha passado a mensagem que um país com o coeficiente de Gini como o de Portugal não é sustentável (aquilo de ter dito na mesma reunião de juventude partidária que “os 20%  mais ricos recebem 33% do rendimento enquanto os 20%  mais pobres recebem 13% do rendimento ficou-lhe mesmo bem, não ficou?).
Mas também percebem, as pessoas, que quando se quer uma sociedade mais justa e se tem mesmo de cortar, deixam-se os cortes nas pensões  para depois (é estranho, quando  me reformei a Segurança Social atribuiu-me uma  pensão provisória, refez os cálculos com mais calma e depois atribuiu-me a definitiva; estranho haver pensões mal calculadas por aí; se há, porque será?) e primeiro aplicam-se medidas de emprego e corta-se nos grandes rendimentos do capital, como costumam dizer Jerónimo de Sousa e Warrem Beaty. E quando duas pessoas assim tão diferentemente posicionadas dizem a mesma coisa, a probabilidade de terem razão é “gigantesca”.
Enfim, como eu costumo dizer, só se deve discutir com base em dados concretos, não sobre virtualidades, e por isso recorri, para  fundamentar a minha proposta de “gigantesca batota” de redução dos juros, ao site do congresso das alternativas (http://www.congressoalternativas.org/ ), com um pequeno cálculo sobre o valor dos juros na dívida pública:

“Na realidade, não há verdadeira alternativa ao Orçamento aprovado que não passe pela redução da única despesa que pode ser cortada sem efeitos recessivos e com benefício na libertação de recursos para o investimento e a criação de emprego: os juros da dívida pública. Os juros da dívida representam 9% da despesa e 4,3% do PIB, quase todo o défice previsto para 2013. Um corte de 1% nos juros vale dois mil milhões de euros. Seria possível diminuir a despesa em quatro mil milhões na despesa (como agora se estima ser necessário) com base num corte de 2% juros. Esse é aproximadamente o valor que os fundos europeus nos cobram acima da taxa a que esses fundos obtêm os seus empréstimos.”

É isto uma “gigantesca batota”?!

A propósito de batota, continua sem se falar na auditoria à dívida privada, a grande competidora da dívida pública, para sabermos onde nós, os privados, gastámos mal o dinheiro.
É que sem auditoria não temos ideia do desvio do que deveria ter sido o caminho.
E isso é mau, é desnorte, ou navegação à vista.

E ainda a propósito de discutir sobre dados concretos e não sobre virtualidades, achei interessante um pequeno gráfico com origem na Comissão Europeia sobre a evolução da dívida pública desde 1994 publicado no DN de 17 de dezembro: adivida cresceu em 1994 e 1995 com o senhor ministro das finanças Catroga, sendo primeiro ministro Cavaco Silva. Depois baixou até 2000 com o ministro das finanças Pina Moura, sendo primeiro ministro Guterres. Com Manuela Ferreira Leite e Bagão Félix, sendo primeiros ministros Durão Barroso e Santana Lopes, subiu de 2002 a 2005, e depois, com Teixeira dos Santos, ao mesmo ritmo, até 2008. Seguiu-se o descalabro de 2009 com subidas superiores a 10% ao ano, ritmo que se mantem com o atual governo apesar dos cortes e graças à contração da procura e do PIB.

Tudo isto me leva a não ter confiança no atual governo e a considerar que o ambiente cultural em que vivemos, porque cultura é interpretar o que nos rodeia, é de obscurantismo, apesar do esforço evidente dos agentes culturais; o obscurantismo da “noite neo-liberal”, como diz Rafael Correa.
E obscurantismo faz-me lembrar o tempo de antes da II Republica, traduzido por aquela anedota do passageiro da linha de Cascais que todos os dias comprava o jornal, olhava para a primeira página e  deitava-o fora, e quando lhe perguntavam porquê, respondia: “não traz a notícia de que eu estou à espera, a queda do Salazar”.