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sexta-feira, 15 de abril de 2011

... e a culpa é de ...

A culpa é do próximo, na aceção bíblica?
Na melhor tradição judaico-cristã de se ser culpado só por existir?
Se for, a culpa é do governo, ou dos banqueiros  ou dos grupos económicos nacionais porque são eles que controlam o poder político; ou então dos trabalhadores, ou dos professores, ou dos médicos, ou dos funcionários publicos, ou do meu vizinho, que só compra fruta espanhola ou da América do Sul e ainda agora comprou um Audi de 5 cilindros, todo de aluminio que é mais energeticamente eficiente.
Mas fazendo uma análise menos primária, a culpa será de quem esteve antes no governo, no tempo em que a adesão à União trouxe dinheiro e ele foi mal investido e pior gasto; ai os economistas que só sabem quanto custa uma coisa e não sabem o valor dela e por isso não sabem distinguir onde se deve cortar e onde não se deve mexer, e onde se deve investir e onde não se deve investir.
Ou então a culpa é dos de fora, dos dos mercados, das agências de notação, do FMI, do BCE que viu o fundo ao balde donde despejava liquidez para os bancos privados portugueses, do fundo de estabilização europeu que já existe e do outro que não se sabe se se monetarizará, dos povos da Europa, a começar pelos que estão  mais próximos, ou os que nos vendem mais automóveis de alta cilindrada, ou os que estão mais longe, ao norte, e nos vendem telemóveis, e não conseguem compreender por que é que o estudante do Eramus não conseguiu compreender por que tinha sido expulso depois de ter sido apanhado a copiar na universidade finlandesa.
Não, talvez a culpa seja do Lehman Bros, da Axa, do Maddoff e de quem os não policiou e depois foi para o governo dos USA ameaçando que ou fazem o que eu digo ou vêm aí convulsões sociais, ai a Goldman Sachs, a Goldman Sachs, ou, outra vez, das agências de notação, que nunca será demais repetir a sua culpa, como diz o relatório do Senado dos USA.
Ai, que não consigo acertar, e se a culpa é dos banqueiros, não dos USA, mas dos de cá de dentro, como aquele que foi secretário de estado das Finanças no fim dos anos 1990 e depois montou um "império financeiro" com "off-shores"? E agora está a ser julgado e os investigadores policiais andam a dizer ao juiz que ele comprou 1.750.000 ações da sua sociedade em Abril de 2001 por 2,1€ cada, e depois, no mesmo mês, vendeu 250.000 ações a um amigo a 1€ cada, e no mês seguinte, vendeu as outras 1.500.000 ações, a 2,11€ cada, a outros acionistas da sua sociedade... e diz o investigador ao juiz que não tem explicação para este fenómeno, embora, isto já não diz, que na vida profissional dele isto é um exemplo de tratamento e informação assimétricos que qualquer bom profissional se sente obrigado a investigar, cada qual com as suas deontologias, porque, que diabo, como dizem os professores catedráticos de economia, com assimetrias o mercado não funciona corretamente, e quando uma sociedade não está cotada na bolsa, o valor das ações é definido com base nos relatórios e balanços da sociedade, mas o problema é quando a sociedade oculta valores patrimoniais e dívidas em manobras com sociedades "off-shores", como o investigador disse ao juiz que era o caso; é que, infelizmente,  o amigo do ex-banqueiro foi eleito presidente da república portuguesa, e teve de pôr na internet o esclarecimento de que, depois de ter sido eleito, deu instruções aos seus bancos para não transacionarem mais ações.
Ou será a culpa do ministro interno que acha que o seu modelo de segurança é o melhor do mundo e nem quer saber que todos os dias há dois casos de "homejacking", que assim nos atualizamos com neologismos?
Ou de quem, cá dentro ainda, não considera os indicadores da OCDE como resultados da análise do doente e portanto não prescreve o tratamento? Salta bem à vista o coeficiente de Gini de Portugal: 0,36, quando a média da OCDE é 0,31; é que é mesmo grave, ter um coeficiente destes, mas ninguem liga... será que a culpa é de quem não liga? também não é bonito nivelar por baixo, que o indicador da pobreza, 13,6%, anda também muito alto (% de pessoas que vivem com menos de 50% do rendimento médio nacional) mas talvez se baixasse o nível de criminalidade se se nivelasse mais...
Terá sido, a culpa, da lei dos rendimentos decrescentes, ou dos ciclos ditos naturais em que a economia se vai abaixo de vez em quando até poder repartir de um nivel de rendimentos de obtenção mais eficiente?
Pois, já sei, a culpa é dos economistas que acharam que o que havia a fazer era sobrecarregar o setor publico, coitado, que já emagreceu para 505.000 funcionários, menos de 10% da população ativa (se cortarmos 10% nos funcionários publicos cortamos 1% na população ativa); é a mesma questão, onde atuar primeiro? pareceria que na componente que mais contribui para o efeito, mas não, a divida publica é menor que a privada (bancos privados incluidos), e apesar disso  é a divida publica que é "diabolizada".
Decerto que a culpa não foi de quem conseguiu produzir e exportar em 2010 quase 1.800 milhões de euros de produtos metalomecânicos e 850 milhões de euros de mobiliário, dos trabalhadores e empresários que trataram primeiro do essencial, sem discutir de quem é a culpa, para contentamento de Basílio Horta e de toda a sua agência AICEP...
E eu, apesar de acusado por Eduardo Prado Coelho, que achava que o culpado está encontrado quando eu me vejo ao espelho, onde é que errei exatamente, onde?
Talvez então, talvez Boaventura Sousa Santos tenha razão, e enquanto o dolar puder ser emitido ou desvalorizado para tramar as exportações em euros, e o governo chinês aprovar a compra de títulos de dívida da reserva federal norte americana, e os USA continuarem a financiar guerras pelo mundo fora, as coisas não vão equilibrar-se.

Deitemos uma vista de olhos a este endereço para vermos alguns numeros da economia norte-americana que condiciona o mundo:
http://en.wikipedia.org/wiki/United_States_federal_budget#Understanding_deficits_and_debt

PIB:   10.000  mil milhões de euros                                 (PIB de Portugal: 166 mil milhões de euros)
divida publica:     98%   do PIB
defice público:      7,7% do PIB
orçamento federal:      2.600 mil milhões de euros
receita federal de impostos:  18,4% do PIB

Isto a propósito do reforço das medidas de austeridade que o partido republicano impôs ao presidente Obama: menos  26 mil milhões de euros, cortando no programa de alta velocidade (lá como cá, os politicos não entendem o conceito de consumo específico e emissão especifica de gases com efeito de estufa), na agricultura e nas forças de segurança interna.
Mas, já que falamos de culpa, continuemos naquele endereço com algumas citações de economistas:
Nouriel Rubini (Outubro 2010): "o partido republicano crê numa economia vudu, equivalente em teoria económica ao creacionismo"
David Walker (Janeiro 2009): "não podemos ter canhões, manteiga e corte de impostos"
Francis Fukyama: "a teoria Reagonomics introduziu a ideia de que os cortes de impostos estimulariam o crescimento da economia privada de modo a permitir recolher mais receita (curva de Laffer), mas a teoria clássica mostrou estar certa: sem grandes cortes da despesa, o corte dos impostos gera defice; foi assim com Reagan nos anos 80; Clinton nos anos 90 aumentou os impostos e gerou superavit; no principio do século XXI Bush cortou nos impostos e gerou um defice ainda  maior "(evidentemente que para fazermos uma comparação tambem temos de comparar a eficiencia com que se aplica o dinheiro dos impostos, não podemos ficar pelas análises primárias).
Paul Volcker (Fevereiro 2010): "Precisamos de aumentar a produção de bens manufaturados e reduzir a diferença entre o que importamos e o que exportamos"
Andrew Sullivan (Março 2010):  "o pior legado de Reagan foi ter convencido as pessoas de que podiam ter tudo, com poucos impostos".

Enfim, como o número de variáveis em jogo é tão elevado e as correlações entre elas não obedecem a leis lineares e deterministas, não podemos saber de quem é a culpa, mas podemos aprender alguma coisa com a economia norte-americana e a sua influencia no mundo.
Mas é como nas escolas, podemos aprender, mas só se quisermos e concentrarmos a atenção nos dados e informações dos problemas.

domingo, 13 de março de 2011

O discurso do presidente e a manif

O presidente pigarreava baixinho e nervosamente enquanto se dirigia para o estudio da televisão.
Rememoriava todos os truques que a conhecida atriz de teatro, professora de dicção no Conservatório, lhe ensinara.
Mas isso não o tranquilizava, nem a confiança que tinha nos seus conselheiros e no seu redator e a certeza de que aquele discurso tinha sido por eles solidamente fundamentado.
Desdobrou o papel com o discurso, sem conseguir erguer o olhar para a câmara.
Os telespetadores, de que cerca de um quarto o tinha eleito havia poucos meses, aguardavam a comunicação freneticamente anunciada pelos serviços da presidencia.
Quando finalmente olhou a câmara, o discurso saiu frouxo e aos solavancos de uma gaguez contrastante com o brilho intelectual com que habitualmente defendia as suas ideias, com a tranquilidade com que analisava os problemas, com o espírito de tolerancia e de abertura às correntes mais progressistas da sociedade, com a cultura profunda que exibia, desde a literatura inglesa do século XVI à literatura alemã  do século XX.
O presidente acabou como pôde o seu discurso, amarrotou o papel e enfiou-o no bolso.
Os assistentes aplaudiram, mas o presidente sabia que era por simpatia.
Tinha acabado de demitir o governo.
Aos solavancos.
A situação não podia continuar assim.
A maneira de discursar, que a falta de governo não era a primeira preocupação.
Tinha de encontrar um terapeuta da fala para que o discurso de demissão do próximo governo pudesse vir a ser mais assertivo; o discurso, que o governo talvez não viesse a ser assertivo.
Os telespetadores reagiram como habitualmente.
Um quarto aplaudiu, o outro quarto decidiu ou confirmou a sua intenção de participar no dia seguinte na manifestação de protesto, contra tudo e contra todos, que tinha sido marcada em várias cidades do país pelo mesmo motivo por que o presidente tinha demitido o governo, e a outra metade absteve-se, isto é, mudou para os canais de entretenimento.
Mas é capaz de ter muito interesse reparar bem no que foi dito no dia seguinte.
Nos jornais, nos debates televisivos, na tal manifestação multi-cidades.
Vou tentar reproduzir algumas das opiniões que foram expressas.
No editorial de um jornal, o seu diretor chamou ao presidente desonesto (intelectualmente, claro, para evitar um processo por difamação ou insinuação de mais valias apropriadas por informação assimétrica). Que um professor daquela sorte (estou parafraseando o Barbeiro de Sevilha) não podia omitir a importancia que os especuladores financeiros do Lehman Bros e do Merryl Linch, e depois os especuladores das seguradoras e a venda das suas obrigações colaterais,  tiveram na crise internacional e na repercussão no nosso país. Nem podia propagandear soluções de privatização liberalizantes porque metade dos eleitores não costumava votar em programas políticos privatizantes.

Na manifestação do Porto, a senhora disse para a entrevistadora: estou a assistir ao desmoronar da educação depois de ter sido professora durante 33 anos, só posso apoiar o protesto dos jovens. E logo a seguir uma jovem disse que somos capazes, se fomos capazes de fazer o 25 de Abril, ela não, que ainda não tinha nascido, tambem seremos capazes de trabalhar todos num programa coletivo, com maior equilibrio na distribuição dos esforços e dos rendimentos, para aumentar a produção e sair da crise  (talvez de destacar este fenómeno: o movimento das forças armadas começou por protestar ao nivel de condições de trabalho e, de repente, Melo Antunes redige um programa de democratização e reorganização social e politica, de coexistencia de um setor publico e um setor privado, que poderá ter sido uma das principais razões do triunfo do movimento) .


Nota: manifestação de professores no Campo Pequeno; o cartaz significa que as aulas de EVT (fusão da Educação visual e trabalhos manuais) só são produtivas se tiverem dois professores

Um manifestante de Coimbra, licenciado em história da ciência portuguesa e mestrando em história do ensino da Física na Universidade de Coimbra no ultimo quartel do século XIX, declarou que o presidente, com aquele discurso a querer colar-se à juventude com um programa de privatizações, era como a universidade de Coimbra antes de ter aberto a sua faculdade de Engenharia, que não era uma tradição, era uma infeção. Mas, para que não ficasse a ideia de que a manifestação elegia bodes expiatórios, logo o manifestante do lado glosou as palavras do primeiro ministro demitido, que tambem o compreendia, às suas mentiras e aos seus movimentos telecomandados da praça de Potsdam.
Na manifestação de Lisboa, um jovem de bigode e pera, escondido num hábito franciscano, opinava que basta de professores de economia a pregarem a insustentabilidade do estado social, que na escandinavia está provado que é sustentável, e terminava com um refrão que repetia incessantemente em alta grita, para desespero da reporter, que o que é preciso é liberdade, pá, liberdade, pá.

Um comentador televisivo, provavelmente por ter sido vitima de acidente neuronal, mudou bruscamente de opinião a meio da entrevista, perante o espanto da entrevistadora que nunca tal tinha visto, e afirmou que, se a União Europeia não fornecesse imediatamente um gabinete de economistas para gerir a nossa crise e se o BCE não fornecesse empréstimos a juros baixos, o país devia sair imediatamente da união monetária e desvalorizar o novo escudo. Questionado sobre a impossibilidade do país sobreviver isolado, o comentador deu a solução: equipas técnicas escandinavas, alemãs ou holandesas de apoio nas fábricas e empresas, a exemplo do gabinete de economistas para orientar o governo, venda da fábrica da Auto Europa aos indianos da Tata,  nacionalização das minas de lítio na Beira Baixa para venda do lítio aos fabricantes de baterias para automóveis elétricos, telemóveis e ipads, a entrada pela mão do Brasil no Mercosul, a negociação de uma parceria com Moçambique para cultivo da jojofa para produção de combustível alternativo ao petróleo, e, se Angola tivesse finalmente um governo saído de eleições fiscalizadas internacionalmente, a negociação de uma parceria para construção de blocos habitacionais e de uma rede de metropolitano em Luanda. Toda a mão de obra atualmente ocupada a vender e manter os Mercedes, os Volkswagen, os Audi, os Opel e os BMW deveria ser reconvertida em mecânicos de manutenção de automóveis antigos, de modo que os automóveis dessas marcas, que para não aumentar o endividamento nunca mais podiam ser vendidos em Portugal,  pudessem circular ainda durante mais 50 anos, como se vê por exemplo em Cuba com os Chevrolet dos anos 50 do século XX.
O destacado jurista, que costumava explicar ao presidente por onde passava a ténue fronteira, entre a constitucionalidade e a inconstitucionalidade dum decreto, atormentou-se com a dialetica do presidente, por não gostar da ideia dialetica, capaz, o presidente, de simultaneamente pregar a estabilidade governativa e a instabilidade governativa; talvez aflito por a realidade dos juros não se render à sua própria condição de presidente estável conforme tinha insinuado na sua campanha eleitoral.
A cidadã anónima, apanhada pela entrevistadora numa rua da capital, respondeu que a saída para a crise era a solução à islandesa, em que o primeiro ministro é uma mulher (o que está de acordo com os resultados do PISA por esse mundo fora, em que as raparigas ficaram sempre à frente dos rapazes na capacidade de interpretação dos factos e na gestão dos recursos) e em que se acabou com  a moda das privatizações, depois de todos os cidadãos e cidadãs terem sido informados do papel relevante que a privatização dos três principais bancos islandeses em 2000 teve na falencia de 2008, e do papel que a privatização das empresas de energia e mineiras teve na desertificação das zonas interiores (sem acabar com o setor privado, evidentemente, que para cada caso há uma solução; não há teoremas universais).
O sociólogo chamado a pronunciar-se sobre o fenómeno no fim do noticiário da hora do jantar, citou:
- o prémio Nobel James Buchanan e as suas teorias da escolha pública, a propósito da opção de uns pela votação em partidos políticos, e de outros pela abstenção, e de outros por movimentos cívicos, a que o presidente chamou "sobressaltos cívicos", como se fosse uma perturbação não reprodutível;
- Mark Kelman e o seu "Skeptical look at the Theoretical and empirical practice of the public choice movement";
- a experiencia da "Convenção das questões nacionais" de Fishkin, descrita em "The voice of the people; Public opinion and democracy", ed.Universidade de Yale, em que uns dias antes das eleições, nos USA, são realizadas reuniões por todo o país entre uma amostragem de eleitores, divididos em grupos que apresentam as suas conclusões aos coordenadores, que as sistematizam; as sessões finais são transmitidas pela televisão.
Pode ser que seja o caminho a seguir, acabando com o secretismo dos governantes, dos empresários, dos partidos politicos, dos presidentes de câmaras, dos gestores das empresas públicas, das direções gerais... pelo menos de alguns ou algumas.
Aguardam-se as sugestões pedidas e a apresentar pela organização da manifestação da geração à rasca.
Nunca se sabe.



Referencias:
- O discurso do rei, filme de Tom Hooper
- Reportagens da SIC Noticias e da TVI 24
- Editoriais, comentários e entrevistas do DN
- Citações bibliográficas do último capítulo da Sabedoria das Multidões, de James Surowiecky