domingo, 13 de janeiro de 2013

Cenas da vida quotidiana retiradas do DN, nos idos de janeiro de 2013


Estamos em plena fúria de cortes nas despesas do Estado, mas devia haver um departamento público a analisar as cenas da vida quotidiana, tentar as correlações com factos a montante, propor estudos mais aprofundados, com a intervenção de especialistas (sociólogos, psiquiatras, técnicos de serviço social…) e fazer hipóteses de soluções.
Mas este tipo de observatórios anda a ser mal visto.
Podiam então ser as universidades a fazer estes estudos (o presidente da Fundação Gulbenkian, Artur Santos Silva, até  sugeriu isso mesmo para analisar bem as questões do relatório da troika ou o repensar das funções do Estado).
Talvez o façam, mas não são disseminados com eficácia.
Também há think tanks ou Fundações como a Francisco Manuel dos Santos a tentar medir os fenómenos.
Mas continua a não se sentir o impacto na discussão coletiva.

E teria muito interesse, senão vejamos a amostra dos dias 12 e 13 de janeiro no DN:

1 – Luís Figo em entrevista a uma revista espanhola – Não tem fé em que os governantes nos tirem da atual conjuntura internacional ; “creio mais nos gestores profissionais. Devíamos copiar os suecos. Em Espanha temo que um dia haja uma revolta popular e uma guerra civil. Há que ser humilde e copiar aquilo que funciona”.
Seria interessante que os leitores dos jornais desportivos ponderasssem estas palaras sensatas.
Não é provável que a desregulação dos sistemas que conduziu à crise financeira internacional que submergiu a nossa pequena economia (70% da divida privada nacional é divida imobiliária) seja agora a receita milagrosa (minimização do Estado e das despesas sociais, ou pagamento da crise internacional com as pensões dos principais prejudicados).
Também me parece que seria interessante discutir com os escandinavos formas de colaboração em que humildemente pudéssemos beneficiar da sua experiencia. Podíamos pensar no exemplo de Francisco de Sousa Coutinho, embaixador português em Estocolmo em 1641, negociando o tratado comercial com a Suécia para ajudar a independência, em ambiente de falta de liquidez.

2 – 94 pessoas foram presas pela GNR desde novembro de 2012 no distrito de Portalegre por apanha ilegal de 17,6 toneladas de azeitona – Comparando com igual período do ano passado, o aumento de pessoas presas, a maioria de nacionalidade portuguesa,  foi de 3030%.
A explicação é simples. O preço da azeitona subiu, possivelmente pelo seu aproveitamento na produção energética (ver a estratégia ficcionada de produção de bio-diesel em

Os combustíveis fósseis baratos que têm alimentado a economia fizeram esquecer o enorme potencial energético da azeitona e do seu bagaço. As 94 pessoas presas e muitas outras pelo país fora, que vão apanhando ilegalmente palha para o gado, cortiça, alfarrobas, resíduos de bio-massa talvez tenham sido levadas a compreender o valor muitas vezes desperdiçado.
Claro que o que fazem é ilegal.

Mas a omissão pelos governos de medidas para dinamização dos produtos e resíduos agrícolas, à luz da declaração universal dos direitos humanos, que no seu artigo 23º garante à pessoa o direito ao trabalho, classificar-se-á como?

3 – Dois irmãos ligados à exploração de uma propriedade agrícola executaram a tiro um cidadão na via publica por suspeitarem sem provas ser o autor de um furto de cobre e de motoserras na referida propriedade -  Infelizmente, generalizou-se a ideia de que é legitimo andar armado para defender a vida ou a propriedade.
Não é, porque o direito a um julgamento imparcial é também um direito universal, e a execução é irreversível, independentemente do fundamento da acusação.
Mas tratar-se-á apenas de uma correlação entre o contexto económico de desemprego, de insucesso escolar anterior, ou de ausência de estratégia económica, neste caso de investimento agrícola que absorva os cidadãos que andam ilegalmente a recolher produtos ou equipamentos agrícolas.
Mais fácil clamar por mais policiamento e por mais dureza nos castigos.
É uma forma de fugir ao cumprimento da declaração universal dos direitos humanos, ao direito e à obrigação de ter trabalho.

4 – Assassínio na sequencia de uma discussão motivada por cães – Um reformado da GNR matou a tiro um cidadão que trabalhava na sua pequena oficina, numa garagem em Queluz.
São vulgares as divergências entre vizinhos devido a cães e aos incómodos que podem provocar.
Mas a posse de armas pode dar nisto, e qualquer cidadão está sujeito a que o interlocutor puxe de uma arma.
Assunto a merecer intervenção de sociólogos, psiquiatras e técnicos de serviço social (até que ponto o ambiente depressivo que se vive na sociedade portuguesa e nos cidadãos que não têm hipótese de sucesso na crise, determina ou cataliza estes tipo de comportamentos?).
Salvo melhor opinião, julgar  e prender o cidadão prevaricador não basta. Medidas preventivas deveriam tornar mais difícil que isto aconteça.

5 - A propósito destas 4 noticias, eu gostaria de ouvir os senhores governantes e os senhores comentadores e analistas políticos a discutir publicamente as medidas preventivas e de investimento (mais policiamento não chega) para corrigir estas disfunções, se possível com a lucidez de Luís Figo.
Mas será pedir demais, talvez. 

Breve reflexão em frente de um problema de xadrez


Estive muito tempo a tentar encontrar a solução.
Não consegui.
Mais um argumento contra a minha auto-valorização.
Que é um fator essencial para o sucesso, nos tempos que correm.
Mais um insucesso meu.
Não era difícil, o tema era mate pelas brancas em dois lances, e havia que cortar o caminho ao rei negro, mas ao mesmo tempo arranjar um enfiamento para a Dama branca dar o mate na segunda jogada.
Fácil de entender que a imobilização do rei, tipo estratégia da aranha, era colocar a Dama branca numa casa que o fizesse.
Mas ao mesmo tempo essa casa tinha de dar acesso à casa do mate.
Não vi, depois de tempo demasiado a olhar para o tabuleiro.
A casa do mate, e que cobria a mesma casa da imobilização, para que o mate pudesse ser em dois lances, estava do outro lado da zona da Dama branca e não vi.
Se tivesse trocado impressões com alguém talvez lá chegássemos, os dois, ou os três.
Mas o interesse do jogo é tentar de forma individual.

E a breve reflexão é esta:
as combinações e as dificuldades conjunturais do xadrez têm analogias com as da vida real económica e financeira e graus de dificuldade comparáveis, mas são um jogo individual, ao contrário das questões económicas e financeiras que são de todos.

Pobres governantes que querem resolver sozinhos o problema do mate em dois lances, quando era muito melhor fazê-lo em debate coletivo e participativo.
Pobres deles, que não têm capacidade de “insight”   (ver

para perceber que não são capazes de resolver o problema, nem porque tantos estão a discordar deles.
Saberão jogar xadrez?
Não devem saber, a avaliar pelas dificuldades evidenciadas em combinar estratégias de calendário superior ao das legislaturas e por aplicarem receitas de autores de livros de xadrez sem olhar para o tabuleiro e para as suas posições concretas.


sábado, 12 de janeiro de 2013

As idades do mar, exposição de pintura na Fundação Gulbenkian

De 26 de outubro de 2012 a 27 de janeiro de 2013, a Fundação Gulbenkian mostra, agrupadas no que chamou idades do mar, pinturas marinhas.
O critério será talvez rebuscado, mas a exposição é uma maravilha de se ver.
Incluo alguns exemplos, do que mais me interessou:

O enlevo de Europa, de Nikias Skapinakis, ou pensarmos se estar na Europa traz sacrificios, mas se não traz tambem, ou deveria trazer, beneficios, organizados segundo a escala da Declaração universal dos direitos humanos



Noruega, uma sociedade com que deveriamos colaborar mais. Pararmos um pouco para os compreender e o que podemos aprender com eles. Quadro de Carl Nielsen, paisagem com fiord.



A chalupa, quadro de Amadeu Souza Cardoso; os perigos para quem anda no mar



A burguesia de vida desafogada da Lisboa de 1913 já conhecia os encantos da Praia das Maçãs. Quadro de José Malhoa


Este quadro de Philip Sadee, holandês do século XIX, mostra as condições de trabalho de pescadores e peixeiras

e o quinhão dos pobres, ou a condição dos pobres, do mesmo autor


Voltando à burguesia, um quadro de 1911 de António Carneiro, no norte de Portugal, Contemplação


ou outra representante da burguesia endinheirada em 1906, figura de branco em Biarritz, quadro de Joaquim Sorolla y Bastida


Novamente no campo do trabalho duro, apanhador de bivalves, quadro de Jan Toorop, holandês-indonésio do fim do século XIX


e o apanhador de sargaço (rico em carbono, como antigamente já se sabia do valor energético das coisas; como os combustíveis fósseis baratos fizeram esquecer isto), quadro de Anton Mauve, também holandês e de finais do século XIX


Mas tambem temos a fantasia, e a ilusão dsepreocupadas, com a Venus Anadyomene do francês Ingres


ou a sereia de 1893 de Aristide Sartorio, italiano da belle-époque


Que não nos fazem esquecer a história trágico maritima, na interpretação de Maria Helena Vieira da Silva



e as guerras inuteis e tão lesivas para o desenvolvimento económico de Portugal no século XVII, com as provincias unidas, a Holanda (vicio de combater, quando se deve negociar); quadro de Adam Willaerts de 1608, uma esquadra holandesa da companhia das Indias orientais ao largo da costa ocidental africana; impressionante, o poder de fogo dos galeões (o dinheiro que se gastou em armas...)




sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

O "Ano da Arquitetura Portuguesa"

Exmo Senhor Secretário de Estado da Cultura
Tomei conhecimento de que a FERCONSULT, empresa do grupo do Metropolitano, ganhou o concurso para o projeto de uma linha do metro de Alger e que a Secretaria de Estado da Cultura promoveu o "Ano da Arquitetura Portuguesa", para promoção internacional dos serviços de arquitetura.
A FERCONSULT, através dos seus arquitetos, encontra-se já a trabalhar nos projetos de novas estações do metro de Alger num contrato da ordem de 90 milhões de euros.
Existe a possibilidade do âmbito do trabalho ser alargado a novas extensões do metro de Alger, e, complementando o universo da Arquitetura, que a execução da obra, em empreitadas no valor de 10 a 20 vezes mais, seja ganha por empresas prtuguesas.
Porém, a capacidade de projeto e de condução de processos de concurso e execução de obra nas disciplinas das especialidades técnicas complementares (via férrea, eletricidade, eletromecânica, telecomunicações, sinalização ferroviária), detida ainda pelo Metropolitano de Lisboa e pela FERCONSULT através dos seus técnicos, não foi ainda dinamizada com o envolvimento dos referidos técnicos.
Nestas circunstancias, considerando o elevado interesse para o País de colocar os técnicos de Arquitetura e de Engenharia ao serviço da exportação (tornando assim o Metropolitano de Lisboa e a FERCONSULT produtores de bens ou serviços transacionáveis), o que me parece estar sintonizado com os objetivos do "Ano da Arquitetura Portuguesa", venho apresentar a sugestão para que a Secretaria de Estado da Cultura apoie estas empresas no alargamento das suas atividades internacionais.
Esta sugestão é feita no espírito do envolvimento declarado da sociedade civil e, salvo melhor opinião, não deverá ser condicionada pela estratégia do Governo nesta área, com excessiva dependencia do processo em curso de privatização ou concessão dos operadores de transporte coletivo.

Com os melhores cumprimentos e votos de sucesso para a iniciativa "Ano da Arquitetura Portuguesa"

a)

Julio Isidro

Já referi a revista Noticias TV, do DN, como um exemplo interessante de um trabalho feito por bons profissionais em que a maior parte dos temas tratados são de entretenimento acéfalo e estouvado, que em nada contribui, o entretenimento, não os profissionais, para uma melhoria, mesmo que ligeira, do nível cultural das pessoas.
Não quero que isto seja entendido como um desbafo elitista, e por isso cito mais uma vez aquela senhora figurante num dos “reality shows” que, ao ser entrevistada, esclareceu magistralmente a repórter:”sei que isto não é cultural, mas que quer, menina, é disto que gostamos”.
Tudo isto para referir a entrevista de Júlio Isidro à revista, de que cito dois pontos:
- antigamente havia ópera no Coliseu; no Coliseu 5000 pessoas assistiam à mesma ópera a que no S.Carlos assistiam 800; logo, o povo também quer ópera (e eu concordo)
- nunca me queixei dos meus vencimentos; mal pago é quem recebe o ordenado mínimo nacional.

E aí está como, possivelmente com a experiencia de quem faz programas desde o tempo do liceu Camões, em muito poucas palavras se diz mais e se derrota a mensagem do atual governo e dos senhorinhos do FMI.

O Goldman Sachs no Youtube e a Grécia


Enquanto serviço público ainda ativo, a RTP2 retransmitiu o programa  Goldman Sachs, o banco que dirige o mundo:

É possível que o governo não goste, por o documentário mostrar a preocupação do Goldman Sachs ter antigos funcionários nos centros de poder político nos USA e na Europa.
Em Portugal, nomes como António Borges ou Carlos Moedas são conhecidos como tendo tido ligações com o Goldman Sachs.

É interessante, como mostra o documentário, as entidades financeiras como o Goldman Sachs que especularam graças à desregulação fundamentalista praticada pelo governo dos USA, terem rapidamente ultrapassado a crise e escapado às acusações do congresso e do governo de Obama.
Como escreveu Sofia de Melo Breyner na tragédia Os Gracos, os ricos nunca perdem a partida.

De destacar, ao minuto 43, a explicação simples como o Goldman Sachs ajudou o governo grego no principio dos anos 2000 a reduzir artificialmente a divida publica em 3 mil milhões de euros.
Trocou com o governo grego dólares por euros, à taxa de cambio fictícia de 2 dólares por cada euro, e por fora, confidencialmente,  transformou a diferença entre a taxa de cambio real e a fictícia num empréstimo a pagar até 2037, ao  ritmo de 400 milhões de euros por ano.
Como dizia o evangelho, os filhos das trevas são de facto mais inteligentes, até porque não existia, à época, legislação que condenasse esta prática (lá está, os ricos ficam sempre a ganhar).

Mas assim já se percebe melhor a intervenção do Goldman Sachs, a aniquilar com eficiência a capacidade dos governos de salvaguardarem as funções sociais, a deixar para as grandes empresas a condução da economia, baseada sempre em baixos custos do trabalho.

O povo português, quando votou no partido maioritário, não sabia quem eram os especialistas do Goldman Sachs e que eles iriam definir a estratégia do novo governo.
Falharam os mecanismos de defesa da democracia contra estes atacantes.
Prevaleceu a proteção aos bancos e grupos financeiros.
Vale que ainda podemos exprimir a nossa opinião.


quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

O relatório do FMI de 9 de janeiro de 2013

- Perante a gravidade das medidas estudadas no relatório do FMI  “Rethinking the state – selected expenditure reform options” (http://www.imf.org/external/pubs/ft/scr/2013/cr1306.pdf  )
de 9 de Janeiro de 2013 para cortes adicionais na despesa do Estado de 800 milhões de  euros em 2013 e de 3.200 milhões de euros em 2014, sem que sejam apresentados os cálculos da sua fundamentação e da sua necessidade e com desprezo pela já dificil situação económica de reformados e pensionistas de menor rendimento, apesar de hipocritamente dizer defender a equidade e a repartição equitativa dos sacrificios
- perante a dissonância com a afirmação da diretora do FMI de que as medidas de austeridade produziram um efeito recessivo superior ao esperado,
- perante a mesma dissonância com o estudo de técnicos do FMI sobre “Growth forecast errors and fiscal multipliers”
(http://www.imf.org/external/pubs/ft/wp/2013/wp1301.pdf     - não é um documento oficial do FMI), em que a observação mostrou que os efeitos dos cortes na consolidação orçamental provocaram a redução do PIB superior à esperada (aplausos ao eurodeputado do CDS Nuno Melo que propôs à comissão europeia a validação da alteração dos termos do cumprimento do memorando com a troika devido aos erros de previsão cometidos),
- e perante a recusa do governo em promover outras medidas de redução do défice, como sejam as propostas de taxação das transações financeiras, de taxação das transações do multibanco, de substituição das dividas de maior juro por outras de menor juro mediante subscrição pública, de aumento da tributação dos rendimentos do capital e de promoção do crescimento e emprego através de projetos elegíveis pelo QREN,

parece justificável adotar as soluções já praticadas pelos países da América do sul e pela Islândia, dando inicio à renegociação dos juros e dos prazos de amortização com vista a,
- liquidar o empréstimo, ou a parte do empréstimo que for julgado curial liquidar, considerando a recessão em que a Europa se encontra e os juros negativos atualmente obtidos pelo MEE
- suspender a livre circulação de mercadorias, impondo taxas alfandegárias

O texto do relatório mais uma vez indicia que as propostas do FMI terão sido ditadas pelo próprio governo de modo a obter credibilidade junto todos eleitores. Isso é especialmente provável no capitulo da educação, em que se adivinham as ideias do ministro, e nas intenções do documento, pela similitude com a argumentação do primeiro ministro no sentido de considerar as reformas superiores ao devido pelos descontos e da necessidade de repensar as funções sociais do Estado (aparentemente o termo refundação, para designar rethinking ou repensar, será uma dislexia etimológica do primeiro ministro).

O relatório confirma assim a intenção dos governantes e dos seus mandantes externos de ideologicamente substituir as funções públicas pela atividade privada, apesar de hipocritamente quererem  mostrar fins didáticos ao citarem a linha de separação entre os conceitos de Musgrave e Buchanan (agradecido pela informação, que é útil; desconhecia estes senhores; discussão na página 9 sobre o papel do Estado).
Mais uma vez se relembra que uma alteração constitucional e um desrespeito pela declaração universal dos direitos humanos exige a explicitação da opinião de 2/3 de eleitores, cosa que deve ser difícil de entender pelos mandatários da Goldman Sachs, Moedas e Borges.

Aparenta ainda o relatório a técnica do escândalo de supetão, para levar as pessoas a aceitar posteriormente um mal menor.
Não é uma forma democrática e participativa de debater as questões e é uma forma ideologicamente demasiado parcial de as tratar.
Não é concebível cortar na educação, na saúde, nas prestações sociais, na segurança publica, porque isso não só provoca a diminuição do PIB (como mostrado no citado estudo do FMI) como provoca a prazo de 3 a 5 anos um intolerável aumento da criminalidade e do vandalismo conduzindo à pioria dos indicadores de conforto e de desigualdade social. A menos que se queira a politica da terra queimada, quanto pior melhor, e uma sociedade dividida em condomínios seguros e favelas inseguras, produzindo em competição com as economias asiáticas (embora a TSU na China tenha passado para 30% pago pela empresa e 10% pago pelo trabalhador).

Independentemente da insensibilidade dos mandantes e dos autores do relatório, concorda-se com a necessidade de fazer contas, de saber quanto custam as funções sociais e os seus cortes. Mas faltam as contas da identificação das dividas, dos credores, da distribuição dos empréstimos por tipos de despesa. Faltam as comparações com os outros paises em termos absolutos dos gastos por cidadão e não em percentagem do PIB.
Falta identificar a grande questão, que é a de termos um PIB tão baixo, e portanto um PIB per capita insuficiente, e a influencia que a grande divida privada exerce sobre a balança de pagamentos e sobre as contas publicas (divida publica, incluindo empresas publicas 150% do PIB; divida privada 320% do PIB, repartida 180% pelas empresas privadas, 100% pelos particulares, 40% pelos bancos ; 70% da divida privada de empresas e particulares é de crédito imobiliário) . Falta analisar e propor soluções para  a sua subida, para o alargamento da estatística aos domínios da economia paralela, para a simplificação administrativa da economia e da justiça. Falta mobilizar os pequenos, como disse o empresário dos carrinhos de feira quando foi falar com o ministro das Finanças, que Portugal também é dos pequeninos, que o capital também tem de suportar os sacrifícios (se dizem que não há dinheiro e estamos numa emergência, é legitimo ir buscar o dinheiro onde ele está, não?), que aos bancos injetam capital, e às pequenas empresas deixam-nas morrer descapitalizadas.
E não reconheço competência técnica aos autores e aos mandantes por falta de experiencia em empresas, para discutir aumentos de eficiência, e portanto aumentos do PIB.

PS em 11 de janeiro de 2013 - Têm sido interessantes as reações à divulgação do relatório, desde a opinião do senhor governante da Goldman Sachs, Carlos Moedas, até à análise de Carlos Carvalhas, que classifica com clareza o governo atual como mandante, possivelmente com o mesmo significado que eu atribuo à palavra, o responsável moral por um crime (ou intenção de crime se considerarmos que cortes na saúde podem provocar a morte antes de tempo, e cortes na educação, através do subsequente aumento da criminalidade, podem ter o mesmo efeito).
Interessantes as declarações de Claude Junker, presidente cessante do Eurogrupo, agora mais assertivo quando diz que os paises vitimas da austeridade devem ser recompensados, ou do presidente do parlamento europeu, Martin Schulz que pede aos senhores do FMI para se entenderem (de facto, Maria João Rodrigues já tinha dito que melhor seria o atual governo negociar diretamente com a direção do FMI, não com os seus senhorinhos) e insiste no óbvio que o atual governo não quer ver (apesar da patética declaração do senhor ministro Marques Guedes, a dizer que o governo se revê nos comentários...), que austeridade sem crescimento é auto-destruição. E já dizia o ex-MRPP Durão Barroso, mantendo a sua postura de grande educador , que tem de haver politicas de crescimento (pois, mas não será hipocrisia simples, defender politicas neo-liberais de contenção de custos de produção e de preços que necessitam de elevadas taxas de desemprego e falar em politicas de crescimento para combater o desemprego?).
E se se fizesse o mesmo que se faz em certas empresas? mudavam-se alguns ministros, punha-se o senhor primero ministro na prateleira, com o senhor ministro das finanças e seus secretários de estado, especialmente o senhor do relatório bem feito, arranjavam-se uns especialistas tipo Monti, com preferencias ideológicas bem diversificadas, da esquerda não governamental à direita da doutrina social cristã, que colegialmente iam traçando as estratégias de calendário superior ao dos ciclos eleitorais. Não era preciso demitir o governo, nem fazer eleições legislativas antes de 2015. Bastava pôr os senhores na prateleira, entretê-los com discussões académicas como a revisão da teoria dos hifens no novo acrode ortográfico, ou a autoridade aérea, se será civil se militar (não seria mau pôr tambem na prateleira e arranjar quem resolva as questões o senhor ministro que quer e não quer privatizar os estaleiros de Viana e não deixa avançar a construção dos asfalteiros, e aquele senhor que tem sempre razão e não há meio de saber, porque os estudos ainda não estão prontos, se privatiza, se concessiona, se pelo contrário, a Carris e o Metro - se não tem experiencia de transportes para saber o que deve fazer, como pode avaliar a competencia técnica de quem faz os estudos ou de quem aconselha?). Bastava o próprio partido do governo tomar a iniciativa, agora que até existe a plataforma para o crescimento sustentável, com um relatório que é um programa acima das politicas partidárias (interpretação minha), embora se possa classificar como de direita moderada (interpretação minha).
Mas infelizmente, é dificil em Portugal mobilizar uma equipa. Parece que só podem funcionar equipas monocolores.
É uma pena, os partidos da oposição deviam aceitar a participação na comissão do "repensar o Estado", e depois aproveitar para apresentar as medidas para repensar tambem as funções do privado, e das dividas ao privado, como os 8 mil milhões de euros do BPN e SLN, e avaliar quanto custaria renacionalizar cimenteiras, energéticas, bancos e seguradoras que dão lucros e dividendos, divulgando obviamente os cálculos e as medidas (não estou a dizer que se deve renacionalizar, como na Bolivia, no Equador ou na Venezuela, depois da saida do FMI; estou a dizer apenas que se deviam fazer cálculos).
Que a comissão é uma farsa já sabemos, mas apresentar as propostas concretas no interesse do povo português não seria uma farsa.
Mas como diz o provérbio, vozes de burro como a minha não chegam ao céu de tão perclaros pensadores.
PS em 14 de janeiro de 2013 - corrigidos os numeros da divida publica e da divida privada conforme o boletim estatistico do Banco de Portugal de 10 de janeiro

Congratulations from Lisbon, Dear Tube, for your 150th birthday


Parabens, querido metropolitano de Londres, com os teus 150 anos feitos em glória.
Debaixo da terra, underground, século e meio nos contemplam, com 408 km de rede, 275 estações e 3 milhões de passageiros por dia.
Os senhorinhos que muito convencidos nos querem impor aqui, em Lisboa, soluções que já foram experimentadas e corrigidas aí em Londres, regressando a gestão técnica e as decisões à esfera pública, TFL, Transport for London, bem podiam aprender convosco.
Precisamente porque fizeram contas, e o que importa mais é economizar na energia para a deslocação das massas, os que produzem, quer o colarinho seja branco, quer seja azul. Como vai a construção da travessia leste-oeste?
You move people, you are mass transit.
Ainda bem que, para o regresso à esfera pública, não foi preciso ocorrer acidentes, como nas redes de superfície de Inglaterra, depois das decisões imprudentes da neo-liberal Thatcher.
Podiam aprender convosco, os senhorinhos que querem concessionar ou privatizar, eles ainda não sabem, que aguardam estudos (como acreditam neles próprios e nos peritos a quem encomendam estudos…).
Uma pequena homenagem ao London Underground. É um poster do principio do século XX, que explica a atracão do metro. No fundo, é a articulação correta dos modos de transporte, quando se pretende beneficiar das economias de escala das aglomerações metropolitanas e fazer convergir para o modo pesado as linhas de alimentação de menor capacidade.
Podiam aprender, os decisores, com este poster.

O poder de atração do metropolitano

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

53º aniversário da exploração do metropolitano de Lisboa


Este blogue junta o seu apupo ao da comissão de trabalhadores e da comissão sindical do metropolitano de Lisboa ao senhor secretário de estado dos transportes ao entrar na festa à porta fechada dos 53 anos do metro.
Apupo porque o governo mantem a prepotência e o secretismo das negociações com a troika para a solução financeira da dívida do metro devida aos investimentos do estado na construção dos túneis e estações,  e para a concessão a privados.
Informou o senhor secretário de Estado que as negociações são conduzidas pela senhora secretária de Estado do Tesouro (a senhora que negou existir uma espiral recessiva poucos dias antes de Christine Lagarde explicar o efeito redutor da austeridade na queda do PIB).
Não reconheço, como técnico de transportes, nem competência técnica nem experiencia nestas questões nem à senhora secretária de Estado nem aos representantes da troika.
Cumprem uma agenda cegos e surdos às informações sobre os erros de privatizações ou concessões anteriores (metro de Londres, metro do Porto) e sobre os argumentos válidos de empresas como a RATP.
Apupo porque ainda estão a estudar se darão a concessão a um ou dois operadores.
Este blogue já apresentou os argumentos com base em cálculos.
Ver em
http://fcsseratostenes.blogspot.pt/2012/10/dedicado-ao-senhor-secretario-de-estado.html

Duvido que os senhores governantes ou a troika os possam rebater.
Apenas podem continuar a ofender quem trabalha dizendo que a eficiencia da gestão privada será melhor.
Analogamente ao setor da energia, o setor dos transportes sofre a fúria privatizadora dos neo-liberais burocratas de Bruxelas sem respeito pela regra dos 2/3 de eleitores que validem a decisão da privatização ou concessão.
Não poderá pois invocar-se a legitimidade democrática para essas decisões.
Gostaria de pegar nas palavras do senhor secretário de Estado, que “as greves aceleram o processo de privatização ou concessão” para sugerir uma segunda fase aos trabalhadores do metro que lutam pelo seu ideal.
Efetivamente as greves afastam os passageiros da solidariedade com os trabalhadores do metro. Infelizmente, essa solidariedade só seria garantida a posteriori com a catástrofe do desemprego comum. Que é o que não queremos. Por isso insisto que deve ser mantido o critério de manter o sistema de transportes a funcionar sempre, e não é por o senhor secretário de Estado dizer isso que eu terei medo de o dizer tambem.
Por isso proponho que as greves sejam de zelo sem paralisações, apenas com avisos com antecedência de que em determinado dia em determinado intervalo de tempo as circulações terão ligeiros atrasos devido ao cumprimento de regras de segurança e à informação aos passageiros sobre as regras de segurança, sobre as razões da divida devida à construção dos túneis e estações, e sobre as implicações da politica de corte de investimentos na segurança, na eficiência do metro e na economia da cidade (o investimento com fundos QREN em infraestruturas que economizam combustível e dinamizam a economia como os metropolitanos, é inquestionavelmente uma forma de crescimento do PIB).

Assim, a luta dos trabalhadores do metro seria também a luta dos passageiros contra o desemprego.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

O embuste, se as premissas estão corretas, e a obrigatoriedade de mudar de fornecedor


Se as premissas que utilizo estão corretas, e em consciência não encontro razão para que não estejam, obrigarem-me a mudar de fornecedor de eletricidade é um embuste.

As premissas são:
- o conceito de energia como bem essencial à vida, com um valor estratégico para a comunidade e com impacto em qualquer cidadão independente do seu nível de rendimento ou do seu local de habitação, que não deve ficar dependete da estratégia das empresas privadas;
- as condições de produção, transporte, distribuição e aplicação da energia elétrica, que são incompatíveis com a otimização da gestão da exploração (é verdade que a normalização permite compatibilizar operadores distintos, mas a um custo superior se se quiser seguir uma estratégia integrada ao serviço da comunidade e não subordinada ao interesse dos acionistas das empresas);
- o provável prejuizo da qualidade de um bem, essencialmente caraterizado pela sua natureza técnica, como consequência dos  mecanismos da concorrência e do lucro impostos por economistas a partir da central burocrática europeia .

Ultimo dia do ano. Falhou-me a botija do gás butano do aquecedor. Dia frio e imprevidência minha, que há dias não substituí a de reserva quando se esgotou. São quase 13:00, hora do fecho da loja da GALP do bairro. Não creio que a esta hora me venham trazer as botijas a casa e por isso vou até lá. O casal de velhinhos do ultimo verão de Chabrol também preferia ir buscar as botijas de gás à loja. Costuma ser muito rápido, o atendimento. Mas hoje não, surpreendentemente a loja está cheia e há um aviso na porta a dizer que não se atendem mais clientes.
Ah, é verdade, são pessoas a querer mudar de fornecedor de eletricidade, que a partir de 1 de Janeiro as tarifas de quem não o fizer ficam mais caras quase 2%. A GALP agora também fornece eletricidade.
Diversificou, aproveita a liberalização dos  mercados.

É a obrigatoriedade da passagem ao mercado liberalizado.
Podemos continuar com o fornecedor de há anos, a quem os senhorinhos que decidem por nós chamam agora o fornecedor de serviço universal (eufemismo provinciano, chama-se universal porque se os outros fornecedores sonegarem o serviço este é obrigado por lei a fornecê-lo), ou de tarifas reguladas.
Reguladas, palavra mágica de convívio suspeito ao lado da palavra liberalizado.

Para regular o que quer que seja é necessário dispor de “know-how”. 
Se os senhorinhos burocratas soubessem o que é uma problemática de engenharia  saberiam que para ter “know-how” é preciso ter meios materiais, equipamentos a funcionar,  e experiencia real suscetivel de ser  medida.
Ou não haverá regulação, haverá apenas a vontade dos carteis.
Dito de outro modo, o nível de investimento num regulador, para a regulação não ser apenas teórica ou académica,  é semelhante ao do fornecedor.
E não há nenhuma razão técnica, do ponto de vista das engenharias,  que dê vantagem à exploração por vários fornecedores.

Nenhuma razão técnica justifica que a mesma entidade pública que gere a produção de energia não possa distribuir a energia.
Pelo contrário, a mesma entidade publica pode fazer a gestão integrada e abrangente de toda a problemática.
Tem é de se  melhorar os critérios de seleção dos dirigentes das empresas publicas e de garantia do exercício das competências técnicas pelos técnicos da empresa. As vantagens da concorrência que se manifestam noutras áreas de atividade não são aqui aplicáveis dado  o peso do interesse público, a escassez de energia barata (ou dificuldade de acesso a fontes de energia não importada) e as externalidades (ou impactos negativos nesta área sobre quem não beneficia de uma atividade).
E se se diz que a concorrência baixa os preços, não é isso que a experiencia tem mostrado (a energia e as telecomunicações têm carateristicas ótimas, pela dispersão geográfica e pela complexidade das questões técnicas, para uma cartelização discreta, imune à fiscalização do regulador de recursos limitados).
Não ocorrerá aos senhorinhos que é um paradoxo, obrigar as pessoas, através de aumentos das tarifas reguladas, a mudar para as tarifas definidas pelo mercado, dito livre, das empresas fornecedoras, ou pelos oligopólios, como me ensinou o professor Daniel Barbosa?
Paradoxo, obrigar as pessoas a liberalizarem-se.
Mas também o universo está cheio de paradoxos.
Só podemos ser felizes no futuro se nos sacrificarmos agora, não era a mensagem do mistério do mediterrâneo oriental para conquistar os simples, as mulheres oprimidas e os escravos?
Também era um paradoxo, só possível de levantar se tivesse prevalecido a capacidade organizativa romana e a lógica grega, afinal incapazes de convencer as multidões que era possível centrar a felicidade no momento presente, como diz a constituição da união norte-americana, mas com outra organização social, evidentemente.
E os cidadãos, porque não são obrigados a conhecer as problemáticas das energias, lá vão aceitando a verdade martelada, que e necessário passar para o mercado liberalizado. Constantemente massacrados pela ideia de que “o Estado não tem vocação para gerir” (claro que não tem; quem gere são pessoas, não o Estado; mas o Estado também não deveria ter vocação para distribuir a gestão de bens públicos por empresas particulares).
Apesar de, pelo menos nos tempos imediatos, os preços do mercado liberalizado subirem sempre acima dos preços regulados.
Lá está o paradoxo, para termos preços mais baixos da eletricidade vamos ter de os subir.

Jogo com as palavras?
Não, não jogo, limito-me a recolher informação disponível sobre a experiencia histórica. Há quase dez anos, o meu colega do metro de Berlim bem se queixou, tinham saído do mercado regulado para o liberalizado e a fatura subiu; eram os oligopólios do professor Daniel Barbosa a funcionar; bem transmiti a informação à administração do metro de Lisboa, mas a lei obrigava a fazer concursos para o fornecimento de energia elétrica e assim se fez, subindo a fatura, evidentemente.
Este objetivo de impor a concorrência no fornecimento da energia (que pela sua associação às externalidades deveria ser um bem público, como se disse, sujeito à gestão de técnicos escolhidos, esses sim, por prestação de provas em concursos) é aliás cristalino – trata-se das estruturas públicas (neste caso a comissão europeia) beneficiarem as grandes empresas, distribuindo as fatias da produção de energia por umas, e a transmissão e distribuição por outras.
Temos assim razoável numero de acionistas e entidades financeiras de suporte por trás, gerindo de forma interesseira e particular bens que deveriam ser públicos.
Curiosíssimo aquele episódio em que um apagão de toda a Alemanha, dividida em dinâmicas empresas, foi evitado in extremis pela rede estatal francesa (o problema clássico das redes malhadas e das potencias de curto-circuito, com deslastragem de circuitos e sobrecarga dos que vão ficando com as suas proteções  sucessivamente a abrir).
É verdade que do curso de engenharia dos anos sessenta do século passado a componente de teoria económica que dele fazia parte era rudimentar, pese o brilho com que o professor Daniel Barbosa tratava a curva da oferta e da procura e nos prevenia contra o perigo de querer fixar preços. Não, isso nunca deveria fazer-se, deveria atuar-se sempre do lado das quantidades a oferecer. Mas não poderia adivinhar a expansão das ideias de Hayeck e de Friedman, de anulação da intervenção da comunidade organizada (o Estado) e da eliminação das barreiras alfandegárias e cambiais. Nem estaria preparado para o ataque das forças deflacionarias e para as grandes campanhas de privatizações, possivelmente porque a deflação caminha de mãos dadas com o desemprego. E quem quer que o desemprego e as privatizações ganhem expressão, não sendo émulos de Hayeck, Friedman, Reagan ou Thatcher?
Também era rudimentar a componente de economia elétrica na cadeira de aplicações de eletricidade:
- fundamento dos custos fixos , dos custos variáveis e dos custos marginais das tarifas;
- financiamentos e amortizações dos investimentos para as infraestruturas de produção , transmissão e distribuição de eletricidade;
- fusões de empresas para ganhos de economia de escala (o contrário da pulverização dos mercados liberalizados, certo?);
- estratégia das empresas subordinadas ao interesse nacional (na altura isso conseguia-se com o condicionamento industrial, uma forma de oligopólios, também, mas garantindo sempre o controle estratégico dentro das fronteiras).
Não defendo o sistema, que era eminentemente anti progresso por limitar novos investimentos, apenas me centro no ponto de vista técnico de engenharia de eletricidade, apresentado como determinante das opções a tomar, nunca deixando que o fizessem senhorinhos economicistas, sem a mínima ideia de como as coisas se produzem.

E para provar que não jogo com as palavras, vou contar a história da Enron.

Lembram-se de ouvir nos noticiários que a grande companhia elétrica Enron tinha sido condenada nos USA por práticas de manipulação de mercado?
Um cidadão ouve e fica de consciência tranquila e sede de justiça satisfeita.
Manipulação de mercados deve ser uma coisa muito feia, mesmo.
Infelizmente as noticias não explicaram o que era manipulação dos mercados.
Mas eu vou tentar, apesar de, como técnico de eletricidade, me repugnar, é a palavra certa, o comportamento de outros técnicos de eletricidade nesta história (não existe juramento de Hipócrates na profissão de engenharia, mas os senhorinhos que acham que tudo se resolve pondo o interesse do lucro à frente de tudo e que assim até os impostos podem baixar, deveriam pensar que Madame Curie nos tratamentos de radioterapia e  Jonas Salk na vacina da poliomielite nunca quiseram direitos de patente pelo que fizeram) : no seguimento do triunfo das ideias neo-liberais da livre concorrência e da redução do papel do Estado, saiu nos USA em 1996 a ordenação 888 da Federal Energy Regulatory Commission intitulada “Electric utility industrial restructuring act -promoting wholesale competition through open-access non-discriminatory transmission services by public utilities”.
O título diz tudo e a primeira aplicação da ordenação foi na Califórnia. As companhias dividiram o mercado, comprando no mercado spot (bolsa especial de energia), como os senhorinhos gostam de chamar, energia umas às outras e a companhias de outros estados e impuseram tarifas que estabilizaram em 3 centimos por kWh no período entre 1998, ano da entrada em vigor da nova lei e 2000, ano em que a crise rebentou. Em 2000 as tarifas subiram para 15 centimos/kWh e atingiram o máximo de 35 centimos/kWh. Em 2001 as tarifas baixaram para 20 centimos e estabilizaram no fim do ano em 4,5 centimos /kWh.
O que as companhias faziam, e nisso a Enron se destacou, foi criar artificialmente escassez no fornecimento de energia (sonegando a produção de energia a pretexto de manutenção dos geradores, ou jogando com os prazos de compra no mercado spot) e limitações de transmissão de energia nalguns pontos da rede (os tais riscos de apagão devido às potencias de curto-circuito das redes  malhadas) para receberem compensações do estado da Califórnia para comprar energia a companhias de outros estados ou receber indemnizações por impossibilidade de venda de energia. Houve também casos de venda de energia a companhias de outros estados em períodos de abundância a preços baixos e recompra posterior de energia a preços elevados, pagando o estado da Califórnia o prejuízo.
Como nos USA é complicado defender a nacionalização de companhias, assistiu-se nos anos seguintes à suspensão da lei , à correção de muitas das suas disposições e à aplicação de multas a companhias (entretanto a Enron falira). No entanto, ficou para a história que, em consequência da desregulação e da liberalização dos mercados, as tarifas subiram até 2006 em 17 estados até à suspensão da lei da desregulação. No caso do estado da Virgínia, voltou-se às tarifas reguladas.
Evidentemente que o que se descreveu não é uma lei universal. Mas serve para ilustrar a lei da selva que é o sacrossanto principio de privilegiar o lucro para os acionistas das empresas.
A experiencia ensina que, sempre que há alterações, os senhorinhos e os génios das empresas encontrarão expedientes para prejudicar o interesse público, quer se trate de PPP, de privatizações, de concessões, de desregulações, de liberalizações, de rendas ou indemnizações compensatórias.

A história está contada, e talvez ajude a perceber melhor as intervenções de distintas personagens em programas como o Prós e Contras, e o seu ar sério e compenetrado com que falam de questões técnicas de energia, da insuficiência das rendas e da hibernação de centrais, do horror que sentem pelas energias renováveis, das maravilhas das eficiências das centrais de gás natural e de carvão (e até são eficientes, mas não deviam impedir o desenvolvimento das centrais renováveis).

Sobre as consequências da desregulação dos mercados de energia podem ler-se mais pormenores e abundante bibliografia em “Energia para o futuro – como resolver a crise energética e abastecer a sociedade do futuro” de Robert Laughlin, prémio Nobel de Física, ed. Monitor            http://www.bertrand.pt/ficha/energia-para-o-futuro?id=13998956


Quase 13:00 do dia 31 de Dezembro e a loja da GALP do bairro fechada com gente dentro.
Vamos tentar o posto de combustíveis da Avenida Gago Coutinho.
Bingo. Vende botijas de gás butano. Simpática a senhora que atende, na mesma caixa da gasolina. Grita lá para dentro que venha alguém abrir o cadeado das botijas. Também posso levar um saco de lenha se quiser, mas não, são só as duas botijas. Muito obrigado. A loja da GALP do bairro ganhou clientes do mercado liberalizado de eletricidade (que não é o negócio “core” da empresa) e perdeu um cliente de botijas de gás (que é um negócio “core” da empresa).

Posso falhar, se as premissas estiverem erradas.
Mas se não estiverem, e já apresentei argumentos, é um embuste, é um monumental engano em que se trazem as pessoas, que um mercado liberalizado de energia é bom para os seus interesses; repetindo muitas vezes as pessoas acreditam;  bom é, certamente, para os interesses das grandes companhias.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

A bicicleta elétrica

Alcanço, numa estrada secundária perto de Lisboa, um grupo de ciclistas. Reduzo a velocidade e mantenho-me atrás deles. O terreno é plano. Seguimos a 35 km/h. Avalio, com elevado grau de subjetividade, claro, o esforço de um deles, pedalando com regularidade e algum empenho. Irá a desenvolver uma potencia de 200 W, cerca de 2/3 do esforço máximo contínuo.
A esta velocidade, percorre-se 1 km em aproximadamente 100 segundos.
O que quer dizer que a energia necessária para percorrer em bicicleta 1 km a 35 km/h é de cerca de 200x100 W.s, ou 20.000 J .
Passando para unidades mais utilizadas em cálculos de transportes, temos que, por ser 3.600.000 J = 1 kWh ,  aquela energia é de 20.000/3.600 = 5,5 Wh/km
Faço estas contas para avaliar como as bicicletas elétricas poderiam contribuir para a eficiência energética das deslocações numa área metropolitana.
Vamos então que precisamos, considerando uma folga, de 10 Wh por km para “puxar” pela bicicleta, isto é, que necessitamos de comer um hamburger para pedalar 6 km a 35 km/h em território plano.
Suponhamos que o percurso médio diário de um cidadão, entre uma estação de metro e o local de emprego ou de habitação, é de 10 km. Precisamos de 100 Wh por dia. Ou de 500 Wh por uma semana útil de 5 dias para percursos exclusivamente elétricos (obrigando a uma bateria de capacidade dupla, isto é, 1 kWh, uma vez que as baterias de lítio não devem ser totalmente descarregadas).
Substituindo o esforço humano por uma bateria acionando um pequeno motor elétrico, teremos uma bicicleta híbrida-elétrica. O motor aciona a roda dianteira, aliviando o esforço nos pedais, e os pedais a roda traseira. A força de travagem permitirá a recuperação da energia cinética recarregando a bateria através do funcionamento do motor como gerador. O comando do motor/gerador faz-se pelos pedais, dispensando modelos complicados de controladores com repartição do esforço pelo motor e pelos pedais.
Como é sempre necessário algum esforço físico, bastará a capacidade de 500 Wh, que é um valor normal nas bicicletas elétricas comercializadas.
Vamos agora invocar o modelo da repartição das deslocações numa área metropolitana pelos modos de transporte e imaginar (estamos no campo das hipóteses, continuamos a carecer de sondagens reais) que 5% da população ativa se deslocará diariamente segundo um dos seguintes esquemas:
- de bicicleta de casa à estação ferroviária mais próxima (exige “bicicletários” nas estações)
- de bicicleta de uma estação ferroviária até ao local de emprego (exige “bicicletários” nas estações)
- de carro até um parque de estacionamento e de bicicleta do parque de estacionamento ao local de emprego (bicicleta transportável no carro ou “bicicletário” no parque de estacionamento)
   Notar que o bicicletário, termo tomado ao metropolitano de S.Paulo é uma zona coberta integrada na estação com postos de carga para as baterias das bicicletas elétricas. Estas podem ser alugadas com cartão de débito ou de propriedade privada
Tomando o valor para as deslocações em automóvel individual na área metropolitana de Lisboa em:

e admitindo que 5% dos percursos correspondentes a essas deslocações passam a ser feitas em bicicleta elétrica, temos que esses percursos serão anualmente, em milhões de passageiros.km:

4.800 Mpass.km x 0,05 = 240 Mpass.km

Ora, no mesmo “post” fez-se o cálculo para o consumo específico de energia por km em transporte individual, incluindo os custos de energia desde o poço de extração e os de manutenção, de  0,41 kWh/pass.km.
Admitindo que o valor equivalente para a bibicleta elétrica seja de 0,02 kWh/pass.km, temos que a economia energética decorrente da transferência de 5% de percursos do transporte individual para a bicicleta elétrica será de:
 
    (0,41-0,02) x 240 = 95  milhões de kWh,  aproximadamente o consumo anual do metropolitano de Lisboa

Falta ainda considerar o diferencial das emissões de CO2. No caso do transporte individual temos cerca de 200 gCO/pass.km e no caso da bicicleta elétrica, considerando 300gCO2/kWh, teremos menos de 10gCO2/pass.km.
A poupança devida à transferencia de 5% do transporte individual para a bicicleta elétrica na emissão de CO2 será portanto:
    
      (200-10) x 240 = 45.600 toneladas de CO2


Individualmente, podemos estimar o consumo em 0,8 €/100 km, sendo 0,2 € para a energia e 0,6 € para a a bateria (duração 1000 ciclo ou 50.000 km, custo 300 €).

Estas considerações, aparentemente ligeiras, ao imaginar a transferência de 5% de percursos do transporte individual para a bicicleta elétrica, centram assim as hipóteses de investimento em modos complementares dos modos pesados em:

- parques de bicicletas elétricas, rearranjo das vias para proteção dos ciclistas, incluindo limitação da velocidade dos automóveis a 30 km/h nas zonas utilizadas por peões e ciclistas (implica o esforço de classificação de todas as vias de uma cidade em um de três tipos: via rápida sem acesso de peões ou ciclista 80 km/h fora das zonas de cruzamento; 50 km/h vias de uso intenso automóvel e acesso de peões e bicicletas apenas para travessias ou em passeios, sendo para as bicicletas nos passeios apenas pela mão; 30 km/h vias com acesso das bicicletas);
- sistemas automáticos “on-demand” em cabinas de 10 passageiros mono-carril em pequenos viadutos pre´-fabricados (assunto descrito já neste blogue em  http://fcsseratostenes.blogspot.pt/search?q=vectus   ).

Dadas as vantagens de economia de emissões de CO2, será legitimo financiar estes investimentos com taxas decorrentes das multas de estacionamento, das portagens de acesso automóvel às cidades, de uma parte do imposto sobre os combustiveis vendidos nos postos de abastecimento da região metropolitana e de uma taxa de carbono sobre todos os modos de transporte que emitam CO2 na área  metropolitana (incluindo o modo aéreo) e sobre a parte da energia elétrica fornecida à região com origem em combustíveis fósseis.

Mas, tal como os “posts” mais antigos deste blogue mostram, não haverá grande interesse em poupar na energia dos transportes, pela grande mudança de mentalidade e pela capacidade de organização que isso exigiria.
Melhor continuar na apagada e vil tristeza de que Camões falava, apesar de nunca ter estado num engarrafamento a queimar o precioso petróleo das proximidades de Ormuz.

Mais informação:




quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Notícias de metropolitanos

Notícias várias sobre metropolitanos

1 - De Pequim, vem a notícia da inauguração de mais uma linha, tornando a rede de metro de Pequim a maior do mundo, com 442 km e 261 estações. 8 milhões de passageiros por dia. Não sendo comparáveis as cidades de Lisboa e de Pequim, embora incluídas em domínio em que são válidos os critérios económicos, é interessante destacar três pontos:
       1.1 – apesar da crescente taxa de motorização na China, por razões de economia de energia, uma vez que o transporte ferroviário tem maior eficiência energética, o governo chinês dá prioridade aos investimentos em infraestruturas ferroviárias
       1.2 – também por razões económicas, o recurso ao transporte ferroviário em viadutos de componentes pré-fabricados é recorrente
       1.3 – tendo sido criticado no passado por falta de preocupações de segurança, o metro de Pequim atualmente só constrói estações com portas de isolamento de cais

Poderá talvez observar-se, como aplicação da lei de Fermat-Weber, que uma economia crescente que recorre a investimentos em meios eficientes se torna cada vez mais crescente, enquanto uma economia em regressão que insiste em utilizar recursos ineficientes (por exemplo, o transporte individual) e evitar investimentos corretivos (por exemplo, infraestruturas ferroviárias) se torna cada vez mais regressiva

2 -  De S.Paulo chega a notícia de que já foram instalados 15 bicicletários, isto é, parques de estacionamento cobertos junto das estações, com possibilidade de deixar as bicicletas presas com cadeado e, no caso de bicicletas híbridas elétricas, de deixar as baterias a recarregar.

Poderá talvez observar-se que o modo de transporte bicicleta e os parques de estacionamento para transferência de modo de transporte são investimentos complementares duma rede ferroviária  metropolitana cujo financiamento poderá legitimamente ser as multas de estacionamento automóvel e as portagens à entrada das cidades

3 – De Nova Iorque vem a noticia de, no espaço de 1 mês, dois casos de morte de passageiros por terem sido empurrados à aproximação de comboios.  A cobertura mediática foi importante. Independentemente de análises psicológicas e sociológicas, para estudo das correlações entre as condições educacionais, sociais e de saúde (mental, nomeadamente) dos atores e dos seus atos, importa destacar o exemplo do metro de Pequim com o recurso sistemático às portas de cais. Igualmente nos metros asiáticos é prática normal. Mesmo sem recurso às portas de cais, é útil instalar dispositivos de deteção e alarme de queda de corpos à via e guarda corpos à frente das rodas dianteiras.

4 – Do metro do Porto chegou a noticia de que dois vigilantes da firma de segurança ao serviço do metro do Porto conseguiram evitar o suicídio de uma mãe com os seus dois filhos que já ultrapassara o gradeamento de proteção do tabuleiro superior da ponte D.Luis.
Deve felicitar-se o metro do Porto por ter entendido que se trata de uma zona frágil do ponto de vista de segurança pedonal e rodoviária (já houve casos de entrada de automóveis no canal metro) e que portanto não pode cortar-se nos recursos humanos de vigilância.

Apesar da boa sinalização com postaletes a segurança dos peões não é grande.

A altura das guardas é insuficiente e não existe rede guarda-corpos

É importante a iluminação dos postaletes
No entanto, é de criticar a altura da guarda insuficiente para dificultar tentativas de suicídio. Aparentemente terá 90 cm de altura, quando o mínimo deveria ser 1,20 m e preferencialmente uma rede de 2 m com plano inclinado para dentro a essa altura. Criticável ainda a possibilidade de queda de objetos diretamente do tabuleiro sobre barcos. Algumas travessias da Refer dispõem ainda uma rede inferior de recolha. Estes dispositivos não impedem o suicídio mas retardam-no, na expetativa de facilitarem uma intervenção.
Sobre este caso, transcrevo do DN as declarações de Carlos Poiares, psicólogo forense:
“… estes casos ocorrem devido a situações de exclusão, de falta de esperança no futuro que o discurso governamental nada ajuda… os políticos têm grande responsabilidade nisso e a prevenção deve passar por eles”.
De referir ainda que a ponte rodoviária do Infante, a montante da ponte D.Luis, tem já um registo maldito de suicídios, sem que se tome a medida essencial de aumentar a altura da guarda.

Ponte do Infante, a montante da ponte D.Luis. Rodoviária e pedonal, tambem com altura insuficiente das guardas e sem rede guarda-corpos
De facto, num contexto de progressiva retirada de proteção social, é natural que as pessoas se vão abaixo. Não pode ser o discurso miserabilista que os governantes agora adotam, num registo quase neo-realista de trazer por casa, nem o discurso da caridade. Tem mesmo de ser o investimento em segurança social e educação o que , salvo melhor opinão, exige politicas de emprego e não de desemprego, e necessariamente medidas protecionistas da economia nacional (se os senhores de Bruxelas não gostarem, são livres de aumentar o investimento no país).
      

O senhor Madureira no Jornal de Notícias

No meio das crónicas de fim  de ano e das mais e menos frívolas escolhas das personalidades do ano, naquele espírito provinciano e bairrista, como dizia Sofia de Melo Breyner das vistas curtas da capital e das vistas curtas do Norte, encontro a melhor análise no Jornal de Notícias, pela voz do subdiretor Paulo Ferreira.
Foi o senhor Madureira a figura do ano, o porteiro da escola dos seus filhos, em Vila Nova de Gaia.
Funcionário atento a quem vem buscar os miúdos, facilitador de jogos tradicionais, sentindo na pele os cortes dos rendimentos do trabalho enquanto a câmara municipal distribui livros grátis independentemente do rendimento dos pais.
Como diz o cronista, “o ministério da Educação terá em muito baixa escala a vida do senhor Madureira” e a dos porteiros dessas escolas pelo país fora, e “a esquizofrenia do caso é reveladora de que o Estado que decide à distancia será sempre incapaz de resolver problemas como o do senhor Madureira”.
É uma pena os senhores governantes e quem os determina não compreenderem ou não quererem compreender isto.
Porque é nas pessoas que fazem o seu trabalho discreto e simples, sem alardes de holofotes e sem rasgos de génio, mas de força honesta de trabalho, que o esforço deste país deve concentrar-se para sair da crise.
De reforçar e revalorizar o pouco que a troika e o governo atribui a cada um dos muitos como o senhor Madureira, como as trabalhadoras da limpeza que enchem os transportes públicos às 5 da manhã, como os trabalhadores pouco qualificados que precisam de apoio para que os seus filhos tenham capacidades profissionais e literárias, para os que estão no desemprego sem que as suas potencialidades possam ser organizadas.
A crónica do senhor Madureira vale mais do que todas as revistas sobre famosos, socialites, intelectualoides e pretensiosos.