Reparo que na secção de espetáculos e TV do jornal a notícia é que no dia anterior, 27 de dezembro, sábado, a audiencia da RTP2 foi de cerca de 1,1% , a pior do ano.
Reparei porque nesse dia tinha assistido à retransmissão do Don Giovanni, gravado em 2006 na inauguração do teatro das figuras de Faro. Cantores portugueses, à exceção do protagonista, Nicola Bau.
E tinha-me parecido um espetáculo de qualidade elevada, digno de figurar na programação do canal Mezzo, por exemplo.
Pois terá sido o dia de pior audiencia do canal RTP2.
Não vou culpar o público. Há anos, quando o São Carlos levava a ópera ao Coliseu, ele enchia-se. E hoje também se voltasse a haver ópera no Coliseu.
Também me recordo, sempre que se fala de cultura, da resposta de uma senhora, do povo, como se costuma dizer, que assistia à gravação de um "reality show" e dizia alegremente para a entrevistadora: "Sei muito bem que isto não é cultura, mas é disto que gostamos e estou muito contente por estar aqui a assistir".
É a diferença entre as senhoras do povo e os hierarcas que no governo ou nas instituições tomam decisões ou as boicotam.
As senhoras do povo sabem o que é cultura, os hierarcas terão aprendido a não saber o que é a cultura.
Ou simplesmente, a avaliar pelo comportamento dos senhores presidente da República, primeiro ministro e ministra das finanças, serão culturalmente extremamente limitados.
Por isso imagino Mozart e o seu libretista da Ponte a projetar na sua personagem D.João as psicopatologias dos detentores do poder. D.João diz claramente que não suporta oposição e não admite réplicas. Ilude o povo que se arma para o castigar.Subordina todos à sua vontade.
Ora é sabido, depois de Freud, que a necessidade de D.João se afirmar como conquistador (do governo se afirmar como triunfador na sua estratégia política) deriva da sua impotência de se realizar humanamente (do governo conseguir investimento e emprego).
Por isso o vejo como uma metáfora do imobilismo e da incapacidade do atual governo de investir nas coisas certas, recuando quando se trata de concretizar, como no caso da ligação ferroviária a Madrid ou de candidatar, aos fundos comunitários, investimentos em infraestruturas produtivas até 26 de fevereiro de 2015.
Se o dia da transmissão de Don Giovanni foi o da pior audiencia da RTP2, foi porque o governo é impotente para conduzir uma política eficaz de cultura.
Por isso se desculpará, como qualquer afetado por uma doença psicológica, com causas externas a si próprio, como não haver dinheiro (num país em que a gestão do pavilhão atlantico não parece ter problemas, em que os espetadores acorrem em massa aos festivais de verão, em que se vendem mais de 10.000 automóveis por mês?) nem procura de bens deste tipo de cultura. E que o melhor será fugir à ira popular como D.João, extinguir o canal RTP2 e privatizar a RTP.
Isto é, deixar que a programação seja decidida e aprovada numa assembleia de acionistas de acesso restrito e em que não é respeitada a regra "uma voz, um voto".
Já no tempo dos antigos atenienses se sabia que isso não era democracia.
Ver também:
http://fcsseratostenes.blogspot.pt/2013/12/citacao-de-pedro-burmester.html
Mostrar mensagens com a etiqueta Ópera. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Ópera. Mostrar todas as mensagens
segunda-feira, 29 de dezembro de 2014
O share da TV - Don Giovanni
Etiquetas:
cultura,
democracia,
fundos comunitários,
Mozart,
Ópera,
TV
segunda-feira, 12 de maio de 2014
Os baritonos, a sedução e a mentira
Com a devida vénia ao Expresso,
http://expresso.sapo.pt/passos-a-voz-de-baritono-e-a-mentira=f869000#comentarios
Caro Henrique Monteiro
Felicitações pelo texto sobre o atual senhor primeiro ministro numa perspetiva de ópera.
A ópera permite realmente explicar muita coisa, mas permito-me uma pequena correção. Don Giovanni, o sedutor, é mais para o baixo do que baritono.
Eu diria que o atual senhor primeiro ministro é mais uma mistura de Scarpia, o detentor do poder na Roma reacionária aos ideiais da revolução francesa, tambem sedutor quando pedia a Tosca o que pedia em troca da felicidade ilusória futura, e do monge Atanael da Taís de Massenet, convicto da sua missão divina e salvífica, pois não ficou na história a frase do atual senhor primeiro ministro: "Pai, o que aconteceria ao país se eu o abandonasse?"
Enfim, quando poderemos dizer, como a Callas, guardadas as devidas distancias e a integridade física do atual senhor primeiro ministro, "avanti a lui tremava tutta Roma"?
http://expresso.sapo.pt/passos-a-voz-de-baritono-e-a-mentira=f869000#comentarios
Caro Henrique Monteiro
Felicitações pelo texto sobre o atual senhor primeiro ministro numa perspetiva de ópera.
A ópera permite realmente explicar muita coisa, mas permito-me uma pequena correção. Don Giovanni, o sedutor, é mais para o baixo do que baritono.
Eu diria que o atual senhor primeiro ministro é mais uma mistura de Scarpia, o detentor do poder na Roma reacionária aos ideiais da revolução francesa, tambem sedutor quando pedia a Tosca o que pedia em troca da felicidade ilusória futura, e do monge Atanael da Taís de Massenet, convicto da sua missão divina e salvífica, pois não ficou na história a frase do atual senhor primeiro ministro: "Pai, o que aconteceria ao país se eu o abandonasse?"
Enfim, quando poderemos dizer, como a Callas, guardadas as devidas distancias e a integridade física do atual senhor primeiro ministro, "avanti a lui tremava tutta Roma"?
Etiquetas:
baritonos,
Expresso,
Henrique Monteiro,
mentira,
Ópera
domingo, 22 de dezembro de 2013
The indian queen de Henry Purcell
Graças ao canal Mezzo, assisto à retransmissão da "semi-ópera" "The indian queen" de Henry Purcell levada à cena em Madrid, em novembro de 2013.
Apesar da crise e dos assaltos à cultura, o Teatro de Madrid realizou, de colaboração com as óperas de Perm (Russia) e a English National, uma versão adaptada ao texto de Rosario Aguilar, escritora nicaraguense, em "La niña blanca e los pajaros sin pies" ("Lost chronics of Tierra Ferma").
(eu penso que o teatro de S.Carlos tambem podia fazer co-produções mais ousadas do que as que faz, e suscetiveis de algum retorno através de venda de direitos e de apresentação em salas maiores como o Coliseu; porém não culpo a sua administração, mas antes a desastrosa e inculta politica do governo).
Desconhecia a ópera de Purcell (século XVII), que a deixou incompleta. Ela baseava-se numa peça de um autor contemporaneo descrevendo a luta entre maias e aztecas, representados pelas suas duas trainhas, provavelmente numa alusão à guerra entre Isabel I e Maria Stuart.
Vem à ideia "O Guarani" de Carlos Gomes, sobre o heroi indio brasileiro, com seu romance com fidalga portuguesa, ou a rocambolesca "A africana" de Meyerbeer (a tal que esteve para ser apresentada na Expo 98 mas como Vasco da Gama não fazia grande figura na sua paixão pela escrava negra, a ideia foi abandonada).
Não tendo tratamento operático, vem-me também à ideia a figura retratada no livro "Escravos e traficantes no império português" de Arlindo Manuel Caldeira, a escrava angolana que se tornou fidalga e senhora de um grande negócio de tráfico de escravos até à sua morte em 1848, Ana Francisca Ferreira Ubertali.
O encenador Peter Sellars "colou" a musica de Purcell a bailados e ao texto da novela que trata do contacto entre espanhois, maias e aztecas do ponto de vista da rainha maia Teculihuatzin e da sua submissão, e do heroi Tecun Uman, ao conquistador Pedro Alvarado.
Resultou assim uma homenagem aos povos colonizados e uma proposta de reconciliação e de progresso comum.
Mais uma vez a ópera como fator de intervenção politica,chamando a atenção para as atrocidades históricas que sucessivamente se vão cometendo.
http://www.teatro-real.com/en/espectaculos/1771
Apesar da crise e dos assaltos à cultura, o Teatro de Madrid realizou, de colaboração com as óperas de Perm (Russia) e a English National, uma versão adaptada ao texto de Rosario Aguilar, escritora nicaraguense, em "La niña blanca e los pajaros sin pies" ("Lost chronics of Tierra Ferma").
(eu penso que o teatro de S.Carlos tambem podia fazer co-produções mais ousadas do que as que faz, e suscetiveis de algum retorno através de venda de direitos e de apresentação em salas maiores como o Coliseu; porém não culpo a sua administração, mas antes a desastrosa e inculta politica do governo).
Desconhecia a ópera de Purcell (século XVII), que a deixou incompleta. Ela baseava-se numa peça de um autor contemporaneo descrevendo a luta entre maias e aztecas, representados pelas suas duas trainhas, provavelmente numa alusão à guerra entre Isabel I e Maria Stuart.
Vem à ideia "O Guarani" de Carlos Gomes, sobre o heroi indio brasileiro, com seu romance com fidalga portuguesa, ou a rocambolesca "A africana" de Meyerbeer (a tal que esteve para ser apresentada na Expo 98 mas como Vasco da Gama não fazia grande figura na sua paixão pela escrava negra, a ideia foi abandonada).
Não tendo tratamento operático, vem-me também à ideia a figura retratada no livro "Escravos e traficantes no império português" de Arlindo Manuel Caldeira, a escrava angolana que se tornou fidalga e senhora de um grande negócio de tráfico de escravos até à sua morte em 1848, Ana Francisca Ferreira Ubertali.
O encenador Peter Sellars "colou" a musica de Purcell a bailados e ao texto da novela que trata do contacto entre espanhois, maias e aztecas do ponto de vista da rainha maia Teculihuatzin e da sua submissão, e do heroi Tecun Uman, ao conquistador Pedro Alvarado.
Resultou assim uma homenagem aos povos colonizados e uma proposta de reconciliação e de progresso comum.
Mais uma vez a ópera como fator de intervenção politica,chamando a atenção para as atrocidades históricas que sucessivamente se vão cometendo.
http://www.teatro-real.com/en/espectaculos/1771
Etiquetas:
Henry Purcell,
Indian Queen,
Ópera,
Peter Sellars
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013
Ascensão e queda da cidade de Mahagonny
Ascensão e queda da cidade de Mahagonny, ópera (ou anti-ópera) de Kurt Weill e Bertold Brecht, escrita entre 1927 e 1929.
Alegoria do capitalismo, da lei da selva e das ideias e forças que determinam o comportamento das populações.
Jimmy McIntyre, lenhador do Alaska que descobrira a felicidade, é condenado à morte por um tribunal de criminosos. Outros criminosos governam a cidade...
Jenny, prostituta que amava McIntyre, canta:
Não deixem que vos consolem
não deixem que vos imponham dízimas nem trabalhos forçados
não se deixem dominar pelo medo
querem educar-vos como animais
............................................
os homens de Mahagonny refletiram e disseram "Não"
.............................................
não há paz nem felicidade na terra
não podemos contar com nada
Ó lua do Alabama
vamos ter de dizer adeus
nós temos necessidade de dólares, tu sabes
A ópera é subversiva, os governos não gostam dela.
Especialmente desta.
E perigosamente atual, quando todos se manifestam contra todos, e quando os governos salvam os bancos à custa de quem trabalha ou trabalhou.
Ver a versão de 2010 no teatro real de Madrid, escolhida no canal Mezzo como a ópera do ano:
http://youtu.be/8UhG7mtnmvE
Etiquetas:
Bertold Brecht,
Kurt Weill,
Ópera
sexta-feira, 11 de janeiro de 2013
Julio Isidro
Já referi a revista Noticias TV, do DN, como um exemplo interessante de um trabalho feito por bons profissionais em que a maior parte dos temas tratados são de entretenimento acéfalo e estouvado, que em nada contribui, o entretenimento, não os profissionais, para uma melhoria, mesmo que ligeira, do nível cultural das pessoas.
Não quero que isto seja entendido como um desbafo elitista, e por isso cito mais uma vez aquela senhora figurante num dos “reality shows” que, ao ser entrevistada, esclareceu magistralmente a repórter:”sei que isto não é cultural, mas que quer, menina, é disto que gostamos”.
Tudo isto para referir a entrevista de Júlio Isidro à revista, de que cito dois pontos:
- antigamente havia ópera no Coliseu; no Coliseu 5000 pessoas assistiam à mesma ópera a que no S.Carlos assistiam 800; logo, o povo também quer ópera (e eu concordo)
- nunca me queixei dos meus vencimentos; mal pago é quem recebe o ordenado mínimo nacional.
E aí está como, possivelmente com a experiencia de quem faz programas desde o tempo do liceu Camões, em muito poucas palavras se diz mais e se derrota a mensagem do atual governo e dos senhorinhos do FMI.
Etiquetas:
Julio Isidro,
Ópera,
ordenado minimo nacional
segunda-feira, 10 de dezembro de 2012
Thaïs, uma ópera a dedicar ao senhor primeiro ministro
Nota prévia – Como levar o governo atual a mudar de opinião? A aceitar os pontos de vista dos cidadãos que fizeram contas, calcularam os malefícios dos juros que foram fixados e propuseram medidas como as taxas sobre transações financeiras e sobre os movimentos do multibanco, como o alargamento do prazo de pagamento e a redução dos juros e das comissões? Como resolver o conflito que parece insanável da dificuldade em discutir sobre dados concretos e chegar a uma decisão participada independente das opções politicas dos cidadãos? Como combater sem violencia os fundamentalismos entrincheirados?
Como levar o primeiro ministro e o seu ministro das finanças a aceitar pontos de vista diferentes?
Insistindo nas criticas, por mais evidentes que sejam os cálculos fundamentadores e os indicadores económicos, só parece até agora terem por efeito reforçar a teimosia dos senhores governantes.
Apelar ao sentimento do bem comum nada resolve, que eles até fundamentam as medidas que tomam com esse bem comum.
Então pensemos em formas subrepticias de os levar a mudar de opinião. Como repteis coleantes ocupando posições dominantes na estrutura do pensamento.
Thaïs, ópera de Jules Massenet, em versão de concerto no S.Carlos (para ficar mais económica), em dezembro de 2012.
Uma das poucas récitas deste ano, depois do desarticular lento e sádico do principal teatro de ópera do país (não se sabe se em 2013 haverá espetáculos de ópera no S.Carlos), iniciado ainda no tempo do ministério da Cultura do anterior governo.
A ópera poderá ser um espetáculo elitista (custos demasiado elevados para tão poucos espetadores) , mas é uma forma de arte em que convergem as capacidades de expressão dos seres humanos.
Por isso pode ser um espetáculo popular, com aumento dos espetadores e difusão televisiva; pode ser revolucionário, porque trata de assuntos que dizem respeito Às pessoas.
E como tal, por poder ser revolucionário, há muito que o camarote principal do S.Carlos não vê nem o presidente da República, nem o primeiro ministro.
Não se dão bem com a ópera (recordam-se do ar enjoado dos ministros do atual governo quando foram obrigados a comparecer num concerto sinfónico no palácio da Ajuda? Como devem ter sofrido).
A ópera pode ajudar a combater a incompreensão entre culturas diferentes (“A morte do senhor Klinghoffer, de John Adams), a desumanidade dos oligarcas da finança (Banksters, de Nuno Corte Real) ou da hierarquia religiosa (Don Carlo de Verdi).
A ópera não interessa a este governo.
Mas eis que, assistindo à Thaïs, reparo que as semelhanças da ação do herói com a do senhor primeiro ministro são muito grandes.
Por isso julgo de se lhe dedicar a apresentação desta ópera no ano de crise de 2012.
Antes de mais, o barítono no papel de Athanael é fisicamente parecido com o senhor professor João César das Neves, que nas suas crónicas no DN vem defendendo a politica do senhor primeiro ministro, chegando ao ponto de afirmar que Passos Coelho e o senhor ministro das finanças estão a tentar curar uma doença que não geraram (é verdade que não geraram a doença; os gastos públicos com a educação do senhor ministro, referidos por ele próprio, são desprezáveis perante o défice, e os fundos europeus conseguidos pelas empresas de que o senhor primeiro ministro foi anteriormente administrador ou consultor também não terão tido impacto significativo no défice; mas estarem a curar a doença parece uma afirmação mal fundamentada; as tentativas de cura da hipertensão com ventosas e sanguessugas às vezes também resultavam, quando não sobrevinha uma anemia; melhor dizendo: não parece bem o senhor professor João César das Neves dizer que a doença resulta da acumulação da divida externa nos últimos 15 anos, quando o governo do senhor professor Cavaco Silva aumentou excessivamente a despesa pública com o DL 353-A/89 para ganhar as eleições de Outubro de 1991, o que foi há mais de 15 anos; também não fica bem sabermos que a divida externa total é de 386 mil milhões de euros e conhecermos a composição da divida externa publica, mas desconhecermos onde foi utilizada, por tipo de despesa, a divida externa privada).
Apesar das semelhanças físicas, o papel de Athanael adequa-se melhor ao do próprio senhor primeiro ministro.
A ação passa-se no século III DC em Alexandria.
Quando me falam neste local e neste tempo, lembro-me logo de Hipatia e do filme Agora (nome grego para o fórum, centro de decisões da cidade) , com Raquel Weisz, que descreve a tomada do poder por grupos de monges cristãos fundamentalistas inimigos do conhecimento cientifico helenista. Estes sacrificaram Hipatia (o senhor professor João César das Neves responderá com o martírio de Santa Apolónia, padroeira dos dentistas, num confronto desigual porque Hipatia é uma personagem histórica com testemunhos de fontes diversas e Apolónia não).
Lembro-me também do decreto do imperador Teodósio, proibindo irrevogavelmente a escrita hieroglífica (este é um tema interessantíssimo: perante a questão da historicidade das principais figuras fundadoras do cristianismo, faltam fontes contemporâneas dos acontecimentos que sejam historicamente validadas e que confirmem a historicidade das figuras; mas pode colocar-se a hipótese de ter sido a corrente ortodoxa da religião crescente que numa fúria depuradora tenha eliminado todas as referencias históricas não compatíveis com a ortodoxia).
A ópera Thaïs não foca a luta dos monges para impor a sua religião em expansão.
Athanael é um monge cristão cenobita que pede autorização ao seu superior para ir salvar a alma de Thaïs, a mais famosa cortesã de Alexandria, responsável pela dívida pública, perdão, pela devassidão e dissipação que se vivia em Alexandria.
Entre parênteses, excertos do libreto de Luís Gallet, sobre o romance de Anatole France.
(o meu coração está cheio de amargura…a cidade entregou-se ao pecado! Uma mulher, Thaïs, é fonte de corrupão! Por causa dela, o inferno governa os homens.)
O superior bem lhe diz para não se meter nisso (meu filho, não nos misturemos com as pessoas do mundo), mas Athanael é teimoso, convenveu-se de que foi incumbido de uma missão salvífica e quer curar a economia, perdão , Thaïs, com uma dieta rigorosa de orações e austeridade de vida.
(Ensinar-lhe-ei o desprezo da carne, o amor pela dor, a austera penitencia)
Thaïs, como sacerdotisa de Vénus, ainda lhe pergunta como pode ele acreditar no que diz
(que triste loucura te faz fugir ao destino de amar e de conhecer; quem te cegou assim?)
Porem, talvez que a cortesã estivesse já doente. A medicina da altura não obtinha grandes sucessos. Ou, hipótese malévola, talvez que os monges bem organizados lhe tenham incendiado a casa de tolerância e perseguido com atentados os clientes de maiores rendimentos.
Thaïs não resistiu ás modulações da voz do barítono e, temerosa das punições da vida eterna e crédula nas promessas de felicidade na outra vida, deixa-se convencer pelo monge. Depois de uma ultima hesitação e da célebre meditação de Thaïs (oiçam no Youtube)
decide partir com ele para um convento de freiras no deserto.
(Não muito longe daqui há um mosteiro onde as mulheres vivem como anjos em perfeito recolhimento…lá encerrar-te-ei numa estreita cela até à libertação divina)
Mais uma vez se vê um caso em que as vítimas de uma ideia acabam por ser as suas melhores defensoras.
Só que depois de a deixar, Athanael cai irremediavelmente apaixonado pela senhora e muda de ideias.
Corre ao convento mas a economia, perdão, Thaïs estava mesmo doente e a intervenção anterior de Passos Coelho e Vítor Gaspar, perdão,de Athanael só veio agravar a doença.
(só me recordo da tua beleza mortal… desta sede insaciada que só tu saberás apaziguar… menti…o céu, nada existe… nada é verdade que não seja a vida e o amor entre as criaturas… eu amo-te… diz-me, vou viver, tu pertences-me)
Mas Thaïs só lhe responde,
(encanta-me o som das harpas douradas…)
E morreu…
Deste modo, embora tardiamente, Athanael descobriu com a morte que há mais vida para alem da austeridade, que as aspirações e os direitos humanos têm de ter prioridade sobre os interesses financeiros.
No intervalo do espetáculo, entre o 2º e o 3º atos, um espetador transmitia por telemóvel as suas impressões enquanto dava largas passadas no salão nobre do S.Carlos:
"Tens de compreender, isto na vida é assim, há insanidades, há fluxos para um lado e para o outro..."
No intervalo do espetáculo, entre o 2º e o 3º atos, um espetador transmitia por telemóvel as suas impressões enquanto dava largas passadas no salão nobre do S.Carlos:
"Tens de compreender, isto na vida é assim, há insanidades, há fluxos para um lado e para o outro..."
Interessante, não é?
Ver como os autores, no ambiente moralista do fim de século XIX, deixam o herói expor a sua ortodoxia religiosa para no fim lhe dar a volta a 180º, fazê-lo mudar completamente de opinião, e já sem remédio.
Interessante imaginar que o barítono Athanael é o primeiro ministro do atual governo, que Thaïs é a economia portuguesa sujeita à austeridade redentora com a crença num futuro melhor (quem te cegou? Hayeck? Friedman? Reagan? Thatcher?).
Que o seu superior Palemon possa ser o seu antigo chefe Ângelo Correia, a pedir-lhe para não se meter em trapalhadas.
Que pode chegar um momento em que as evidencias levam mesmo uma pessoa a mudar de opinião, e lá se vai a determinação obssessiva.
Que diabo, por que cargas de água os monges fundamentalistas não se sentam à mesa com quem não pensa como eles e com quem conhece as questões, e discutem formas de organização de unidades de produção de bens e serviços úteis para que as pessoas possam beneficiar das suas potencialidades aqui na vida real, em vez de pregar moralismos redentores ?
Etiquetas:
austeridade,
Ópera,
Thaïs
terça-feira, 19 de junho de 2012
Como é diferente o amor pela ópera na Turquia
Não entendam como um convite a um passeio turístico a Istanbul, em época de crise, mesmo com a desculpa de ser cultural.
Mas passou-me pelos olhos o anuncio do festival de ópera em Julho, em Istanbul, interessada que está a Turquia em fazer "charme" à Europa ocidental e central e segura do seu clima mediterrânico e do seu PIB crescente (aguardam-se as negociações com os revoltados curdos).
E lembrei-me da aversão que os nossos governantes têm à ópera.
Com alguma razão, quanto a mim, que ela pode ser subversiva, quando põe a nú as fragilidades do pensamento de quem detem o poder politico (ver o Don Carlos, o MacBeth ou o Boris Godounov) ou o poder financeiro (ver o Banksters, do nosso Corte Real, ou Dias Levantados, do também nosso Pinho Vargas) alem de requerer produções muito caras.
Ver o programa de Istanbul, de 7 a 19 de Julho de 2012, incluindo temas clássicos nos teatros da Europa ocidental e central, como o Rapto no Serralho, e Bajazeto, em:
http://www.istanbuloperafestival.gov.tr/eng/index.htmlhttp://www.istanbuloperafestival.gov.tr/eng/index.html
E lembrei-me também do esforço dos trabalhadores da cultura e da ópera do S.Carlos, reduzidos pelo garrote financeiro a montarem um festival no largo de S.Carlos praticamente sem referencias de ópera, de 30 de junho a 31de julho. Ver em:
http://www.festivalaolargo.com/#
Vejam ainda o programa com que o senhor secretário de estado da cultura convenceu o maestro Vitorino de Almeida a realizar concertos sinfónicos pelo país fora, com base nas várias orquestras descentralizadas existentes, de 14 de Junho a 30 de Setembro. Como de forma algo provinciana, de quem não está à vontade quando fala de musica sinfónica e, muito menos, de ópera, disse o senhor secretário de estado que esta iniciativa, que custou 495 mil euros (tanto, 25 mil euros por concerto? talvez aplicar uma taxa por cada minuto de telenovela nas televisões para cobrir as despesas…), “mostrava o lado informal da musica sinfónica” (o que é o lado informal da música sinfónica?).
Ver em:
http://sol.sapo.pt/inicio/Cultura/Interior.aspx?content_id=51859
Mas não deixem de ver o ar provinciano das fotografias do concerto inaugural com as senhoras ministras e senhores ministros sentados na plateia improvisada no palácio da Ajuda, constrangidas e constrangidos por terem de marcar presença numa coisa tão chata como um concerto sinfónico (vá lá que não era ópera), a que nunca iriam se não fossem ministros dum governo para quem a cultura não interessa, ou só interessa se tiver valor mediático, como as perucas trans-seculares de Joana Vasconcelos nos quartos de Versailles. Que ar de baile de bombeiros e de cerimonial do regime com que ficaram todos.
http://www.portugal.gov.pt/pt/fotos-e-videos/fotos/20120614-sec-orquestra.aspx
http://www.grandeorquestradeverao.pt/programacao/programacao/
Ou, de como, mais uma vez parafraseando Júlio Dantas, como é diferente o amor pela ópera na Turquia.
Mas passou-me pelos olhos o anuncio do festival de ópera em Julho, em Istanbul, interessada que está a Turquia em fazer "charme" à Europa ocidental e central e segura do seu clima mediterrânico e do seu PIB crescente (aguardam-se as negociações com os revoltados curdos).
E lembrei-me da aversão que os nossos governantes têm à ópera.
Com alguma razão, quanto a mim, que ela pode ser subversiva, quando põe a nú as fragilidades do pensamento de quem detem o poder politico (ver o Don Carlos, o MacBeth ou o Boris Godounov) ou o poder financeiro (ver o Banksters, do nosso Corte Real, ou Dias Levantados, do também nosso Pinho Vargas) alem de requerer produções muito caras.
Ver o programa de Istanbul, de 7 a 19 de Julho de 2012, incluindo temas clássicos nos teatros da Europa ocidental e central, como o Rapto no Serralho, e Bajazeto, em:
http://www.istanbuloperafestival.gov.tr/eng/index.htmlhttp://www.istanbuloperafestival.gov.tr/eng/index.html
E lembrei-me também do esforço dos trabalhadores da cultura e da ópera do S.Carlos, reduzidos pelo garrote financeiro a montarem um festival no largo de S.Carlos praticamente sem referencias de ópera, de 30 de junho a 31de julho. Ver em:
http://www.festivalaolargo.com/#
Vejam ainda o programa com que o senhor secretário de estado da cultura convenceu o maestro Vitorino de Almeida a realizar concertos sinfónicos pelo país fora, com base nas várias orquestras descentralizadas existentes, de 14 de Junho a 30 de Setembro. Como de forma algo provinciana, de quem não está à vontade quando fala de musica sinfónica e, muito menos, de ópera, disse o senhor secretário de estado que esta iniciativa, que custou 495 mil euros (tanto, 25 mil euros por concerto? talvez aplicar uma taxa por cada minuto de telenovela nas televisões para cobrir as despesas…), “mostrava o lado informal da musica sinfónica” (o que é o lado informal da música sinfónica?).
Ver em:
http://sol.sapo.pt/inicio/Cultura/Interior.aspx?content_id=51859
Mas não deixem de ver o ar provinciano das fotografias do concerto inaugural com as senhoras ministras e senhores ministros sentados na plateia improvisada no palácio da Ajuda, constrangidas e constrangidos por terem de marcar presença numa coisa tão chata como um concerto sinfónico (vá lá que não era ópera), a que nunca iriam se não fossem ministros dum governo para quem a cultura não interessa, ou só interessa se tiver valor mediático, como as perucas trans-seculares de Joana Vasconcelos nos quartos de Versailles. Que ar de baile de bombeiros e de cerimonial do regime com que ficaram todos.
http://www.portugal.gov.pt/pt/fotos-e-videos/fotos/20120614-sec-orquestra.aspx
http://www.grandeorquestradeverao.pt/programacao/programacao/
Ou, de como, mais uma vez parafraseando Júlio Dantas, como é diferente o amor pela ópera na Turquia.
sexta-feira, 8 de junho de 2012
Boris Gudonov e Putin em S.Petersburg
A ópera continua subversiva.
Com encenação de Graham Vick (encenou a Tetralogia do Anel dos Nibelungos no S.Carlos, há uns anos) e direção de Valery Gregiev, a ópera de Mussorgsky subiu à cena representando os policias de choque de Putin a reprimir as manifestações contra o czarismo do regente Gudonov-Putin e o seu Dmitri-Medvedev (na ópera de Mussorgsky, sobre a peça de Pushkin, o falso Dmitri apresenta-se como filho de Ivan o Terrível, coisa de que Boris Gudonov, o regente, não gosta.
Difícil, a Democracia livrar-se deste conceito, quase religioso, de que há salvadores da pátria.
Independentemente das interpretações, uma coisa que esta ópera tem é que dá a prioridade à movimentação do povo.
Continuo a achar que o atual governo português faz bem, do ponto de vista de defesa pessoal, em não apoiar o S.Carlos.
Embora também ache que faria melhor, do ponto de vista do interesse da cultura popular, fazer como fez com as taxas para o cinema. Talvez taxar os reality-shows e os concursos televisivos em benefício de produções com profissionais portugueses de ópera.
http://www.newyorker.com/online/blogs/culture/2012/06/boris-godunov-in-st-petersburg.htmlhttp://www.newyorker.com/online/blogs/culture/2012/06/boris-godunov-in-st-petersburg.html
Com encenação de Graham Vick (encenou a Tetralogia do Anel dos Nibelungos no S.Carlos, há uns anos) e direção de Valery Gregiev, a ópera de Mussorgsky subiu à cena representando os policias de choque de Putin a reprimir as manifestações contra o czarismo do regente Gudonov-Putin e o seu Dmitri-Medvedev (na ópera de Mussorgsky, sobre a peça de Pushkin, o falso Dmitri apresenta-se como filho de Ivan o Terrível, coisa de que Boris Gudonov, o regente, não gosta.
Difícil, a Democracia livrar-se deste conceito, quase religioso, de que há salvadores da pátria.
Independentemente das interpretações, uma coisa que esta ópera tem é que dá a prioridade à movimentação do povo.
Continuo a achar que o atual governo português faz bem, do ponto de vista de defesa pessoal, em não apoiar o S.Carlos.
Embora também ache que faria melhor, do ponto de vista do interesse da cultura popular, fazer como fez com as taxas para o cinema. Talvez taxar os reality-shows e os concursos televisivos em benefício de produções com profissionais portugueses de ópera.
http://www.newyorker.com/online/blogs/culture/2012/06/boris-godunov-in-st-petersburg.htmlhttp://www.newyorker.com/online/blogs/culture/2012/06/boris-godunov-in-st-petersburg.html
![]() |
| Boris Gudonov no teatro Mariinsky de S.Petersburg, fotografia de Rustem Adagamov, no New Yorker |
Etiquetas:
Boris Gudonov,
Graham Vick,
Ópera,
Putin,
Valery Gregiev
terça-feira, 22 de maio de 2012
Critica de ópera - La rondine (a andorinha) no S.Carlos
La rondine, opera de Puccini, estreada em Monte Carlo em março de 1917, decorria a guerra na Europa. A Itália ao lado da Inglaterra, França e USA contra a Alemanha, Áustria e Turquia. Uma guerra tribal em ponto grande.
Enquanto na preparação das batalhas os generais utilizavam o número de mortos como mais um fator de produção de vitórias, Puccini, italiano, terminava o seu trabalho com os libretistas austríacos e apresentava a sua ópera em Monte Carlo.
Como se vem dizendo neste blogue, a ópera tem uma componente subversiva.
Por exemplo, de Verdi, o Don Carlo combate de forma demolidora a insanidade da Inquisição e do poder absoluto, o Nabuco apela à liberdade de um povo, e Stifelio condena quem condena a mulher adúltera.
Houve até o caso de “La muette de Portici”, de Auber, que catalizou a revolução de 1830 que levou à separação da Bélgica relativamente aos Países Baixos.
| Dora Rodrigues, a cortesã apaixonada ,e Mário Alves, o jovem de boas famílias |
| Marco Alves dos Santos, o poeta boémio, e Carla Caramujo, a camareira da cortesã |
Aparentemente leviana e retratando de forma melodramática as angustias e os amores de um jovem sem problemas de dinheiro e de uma mulher mais madura amante de um banqueiro, a ópera La rondine, que significa andorinha, tem para nós o significado político de ser a única ópera apresentada pelo S.Carlos neste ano, após os cortes determinados pelo governo terem inviabilizado os espetáculos anunciados.
Por outro lado, um dos temas da ópera é a liberdade de movimentos da andorinha e a sua capacidade de emigrar.
Parece que nem de propósito, quando as politicas do governo forçam os jovens do país a fazer como as andorinhas.
| o lustre principal do S.Carlos |
| o camarote presidencial sempre deserto |
| o salão nobre preparado para o lançamento de um modelo automóvel de uma marca de luxo, ou uma forma de reduzir o defice do teatro |
Terá sido uma bofetada com luva branca nos senhores que têm dinheiro para enviar uma delegação ao campeonato da Europa de futebol mas não têm dinheiro para a cultura (governo de um país que dedica à cultura menos de 1% do seu orçamento público não merece grande respeito) nem sequer para combinar uma digressão a Madrid ou Barcelona do excelente espetáculo que o S.Carlos conseguiu produzir.
Duvido que os senhores do governo que tutelam a politica cultural percebam sequer o nível artístico atingido pelos intérpretes, de que me permito destacar a soprano Dora Rodrigues, nem o valor”de mercado”, como eles dizem, das suas prestações.
Aliás, o camarote presidencial do S.Carlos está sistematicamente vazio, não vão os espetadores vaiar eventuais ocupantes, que ainda por cima fariam um esforço insano por ver e ouvir uma ópera.
Etiquetas:
cultura,
La Rondine,
Ópera,
Puccini,
Teatro São Carlos
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
Ópera no S.Carlos
Tarde de domingo de janeiro de 2012.
Como Mutti declararia ao TIME, houve, já de início, uma incomum ovação, clima que se transformou numa verdadeira "noite de revolução" quando sentiu uma atmosfera de tensão ao se iniciar os acordes do coral "Va pensiero" o famoso hino contra a dominação. Há situações que não se podem descrever, mas apenas sentir; o silêncio absoluto do público, na expectativa do hino; clima que se transforma em fervor aos primeiros acordes do mesmo. A reação visceral do público quando o côro entoa - "Ó minha pátria, tão bela e perdida?" Ao terminar o hino os aplausos da plateia interrompem a ópera e o público se manifesta com gritos de "bis", "viva Itália", "viva Verdi".
Não sendo usual dar bis durante uma ópera, e embora Mutti já o tenha feito uma vez em 1986, no teatro La Scala de Milão, o maestro hesitou pois, como ele depois disse: "não cabia um simples bis; havia de ter um propósito particular".
Dado que o público já havia revelado seu sentimento patriótico fez com que o maestro se voltasse no púlpito e encarasse o público, e com ele o próprio Berlusconi.
Fazendo-se silêncio, pronunciou-se da seguinte forma, e reagindo a um grito de "longa vida à Itália" disse RICCARDO MUTTI:
"Sim, longa vida à Itália mas... [aplausos]. Já não tenho 30 anos e já vivi a minha vida, mas como um italiano que percorreu o mundo, tenho vergonha do que se passa no meu país. Portanto aquiesço ao vosso pedido de bis para o Va Pensiero. Isto não se deve apenas à alegria patriótica que senti em todos, mas porque nesta noite, enquanto eu dirigia o côro que cantava "Ó meu pais, belo e perdido", eu pensava que a continuarmos assim mataremos a cultura sobre a qual assenta a história da Itália. Neste caso, nós, nossa pátria, será verdadeiramente "bela e perdida". [aplausos retumbantes, inclusive dos artistas da peça] Reina aqui um "clima italiano"; eu, Mutti, me calei por longos anos.
Gostaria agora...nós deveriamos dar sentido a este canto; como estamos em nossa casa, o teatro da capital, e com um côro que cantou magnificamente e que é magnificamente acompanhado, se for de vosso agrado, proponho que todos se juntem a nós para cantarmos juntos."
Foi assim que Mutti convidou o público a cantar o Côro dos Escravos.
Toda a ópera de Roma se levantou... O coral também se levantou. Vê-se, também, o pranto dos artistas.
Terá sido, provavelmente, a última ópera apresentada no S.Carlos este ano.
E, se a política cultural do atual governo se mantiver, tão cedo não haverá ópera no S.Carlos.
Estão previstos concertos para ir ocupando os músicos, e rentabilização do espaço, como os economistas gostam, como restaurante, entre outros usos.
| S.Carlos como restaurante |
É verdade que existem dificuldades financeiras, mas as manifestações culturais de um povo são também um indicador importante.
Veja-se a imagem do camarote real/presidencial do S.Carlos.
Há muitos anos que não o vejo habitado.
Isso mostra bem a importância que os governos e os presidentes da República dão à cultura.
| Os senhores governantes não gostam de ópera |
Farão bem, do seu ponto de vista, em não irem à ópera.
Como já tenho dito, a ópera é subversiva, os compositores e os libretistas têm sempre segundas intenções.
Veja-se o caso desta ópera, Cosi fan tutte (assim fazem todas) que se receia ser a última por muitos anos: Mozart pôs a empregada doméstica a cantar:
"Que vida maldita, a de criada!
de manhã à noite
sua-se, trabalha-se, faz-se e depois,
de tudo o que se faz, nada é para nós.
Há já meia hora que bato;
o chocolate está pronto, e a mim compete-me
cheirá-lo e ficar com a boca seca?
a minha boca não será, por acaso, igual à vossa, ó elegantes senhoras?"
Nada mal, para século XVIII, em Viena, capital do Império.
| 15 minutos antes do inicio. A sala encheu-se. A taxa de ocupação não justifica os cortes |
Fazem bem, os senhores do governo, em não irem à ópera.
O primeiro ministro hungaro foi vaiado quando entrava na ópera de Budapeste.
Berlusconi, ainda primeiro ministro, teve de ouvir, logo a seguir ao coro dos hebreus, do Nabuco (Vai pensamento, sobre asas douradas...) o maestro Ricardo Muti a protestar contra os cortes na cultura "estou triste com o que se passa no meu país").
Os bárbaros tomaram o poder, mas ainda podemos chamar-lhes bárbaros.
Transcrevo um email recebido:
No último dia 12 de março a Itália festejava os 150 anos de sua criação, ocasião em que a Ópera de Roma apresentou a ópera Nabuco de Verdi, símbolo da unificação do país, que invocava a escravidão dos Judeus na Babilônia, uma obra não só musical mas também, política à época em que a Itália estava sujeita ao império dos Habsburgos (1840).
Sylvio Berlusconi assistia, pessoalmente, à apresentação, que era dirigida pelo maestro Ricardo Mutti. Antes da apresentação o prefeito de Roma, Gianni Alemanno - ex-ministro do governo Berlusconi, discursou, protestando contra os cortes nas verbas da cultura, o que contribuiu para politizar o evento.
Como Mutti declararia ao TIME, houve, já de início, uma incomum ovação, clima que se transformou numa verdadeira "noite de revolução" quando sentiu uma atmosfera de tensão ao se iniciar os acordes do coral "Va pensiero" o famoso hino contra a dominação. Há situações que não se podem descrever, mas apenas sentir; o silêncio absoluto do público, na expectativa do hino; clima que se transforma em fervor aos primeiros acordes do mesmo. A reação visceral do público quando o côro entoa - "Ó minha pátria, tão bela e perdida?" Ao terminar o hino os aplausos da plateia interrompem a ópera e o público se manifesta com gritos de "bis", "viva Itália", "viva Verdi".
Não sendo usual dar bis durante uma ópera, e embora Mutti já o tenha feito uma vez em 1986, no teatro La Scala de Milão, o maestro hesitou pois, como ele depois disse: "não cabia um simples bis; havia de ter um propósito particular".
Dado que o público já havia revelado seu sentimento patriótico fez com que o maestro se voltasse no púlpito e encarasse o público, e com ele o próprio Berlusconi.
Fazendo-se silêncio, pronunciou-se da seguinte forma, e reagindo a um grito de "longa vida à Itália" disse RICCARDO MUTTI:
"Sim, longa vida à Itália mas... [aplausos]. Já não tenho 30 anos e já vivi a minha vida, mas como um italiano que percorreu o mundo, tenho vergonha do que se passa no meu país. Portanto aquiesço ao vosso pedido de bis para o Va Pensiero. Isto não se deve apenas à alegria patriótica que senti em todos, mas porque nesta noite, enquanto eu dirigia o côro que cantava "Ó meu pais, belo e perdido", eu pensava que a continuarmos assim mataremos a cultura sobre a qual assenta a história da Itália. Neste caso, nós, nossa pátria, será verdadeiramente "bela e perdida". [aplausos retumbantes, inclusive dos artistas da peça] Reina aqui um "clima italiano"; eu, Mutti, me calei por longos anos.
Gostaria agora...nós deveriamos dar sentido a este canto; como estamos em nossa casa, o teatro da capital, e com um côro que cantou magnificamente e que é magnificamente acompanhado, se for de vosso agrado, proponho que todos se juntem a nós para cantarmos juntos."
Foi assim que Mutti convidou o público a cantar o Côro dos Escravos.
Toda a ópera de Roma se levantou... O coral também se levantou. Vê-se, também, o pranto dos artistas.
Etiquetas:
cultura,
Ópera,
Ricardo Muti,
S.Carlos
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
Uma noite na ópera - Portugal e a Hungria
Como já se disse neste blogue, a ópera, para alem de criar mecanismos injustificados de rejeição junto de alguns cidadãos e cidadãs, tem uma forte componente interventiva e está intimamente ligada à forma como a sociedade se organiza.
Além de que, apesar de tudo, é um espetáculo popular.
Em Portugal
Em Portugal criou-se a ideia de que não é, o que só ilustra um dos aspetos do pensamento português, de deixar que um grupo restrito dite o que todos devem pensar.
Ora, já é possivel ir ao S.Carlos à ópera, sem gravata.
Verdade que raramente lá se vê o senhor presidente da Republica e nunca o senhor primeiro ministro.
Este é tambem um sintoma do nivel cultural dos cidadãos que desempenham esses cargos e não deve portanto escandalizar ninguem.
As pessoas que não têm cultura são cidadãos como os outros e podem desempenhar esses cargos, sujeitos naturalmente ao juízo e à classificação na história em função da ausencia de nivel cultural nas suas decisões.
Em Portugal, o ataque cerrado dos bárbaros que tomaram conta do poder sobre questões de cultura de âmbito nacional, insistindo na tecla de que "não há dinheiro" (pode ser verdade, mas não de forma absoluta; além de que, sendo verdade, esperar-se-ia a declaração do estado de emergencia, porque um país sem cultura é uma situação de emergencia, salvo melhor opinião, que será talvez a dos governantes), conseguiu anular a apresentação de 3 espetáculos de ópera já programados para o S.Carlos (a programação de ópera é contratada com 2 anos de antecedencia, e os economistas queriam forçar os produtores estrangeiros a reduzir custos, dentro daquela velha máxima de fazer mais com menos, que evidentemente não foi aceite pelos produtores).
E o curioso desta história é que as pessoas do S.Carlos reagiram como eu costumo dizer aos meus jovens colegas que continuaram no ativo: não baixem os braços e criem estratégias de recuo, como o quadrado do condotieri Nuno Álvares.
E assim vamos ter ópera em janeiro: Cosi fan tutte, já programada, e outra em maio, La rondine de Puccini.
Perderam-se as outras, mas ainda temos ópera no S.Carlos, pode ser que os bárbaros tropecem ao longo da temporada, como os inimigos do condotieri em Aljubarrota.
A orquestra, o coro e o cantores vão ainda realizar alguns espetáculos para manter a atividade e não faltará o festival do largo, no verão, para espanto dos turistas que nos visitarem nessa altura, e que estarão à espera de que a cultura tenha desaparecido pelos fundos do orçamento.
O programa que recebi em casa, em carta que começa assim: "Caro assinante: Perante as contingencias provocadas pela delicada situação financeira e económica do país, e na sequencia das indicações do ministério das finanças referentes ao orçamento de 2012 ..." (eu que pensava que o S.Carlos recebia indicações da secretaria da cultura ou da presidencia do conselho de ministros ...) leva-me portanto a aplaudir quem toma decisões e quem trabalha no S.Carlos, e a não ir já este ano ao teatro da Zarzuela em Madrid ou ao da Bastilha em Paris, para ver ópera, o que é bom para a balança de pagamentos.
Na Hungria
Na Hungria, a tradição musical tem outra implantação na classe politica, e o primeiro ministro dirigiu-se ao teatro de ópera para assistir a um espetáculo.
Tenho pena de não saber que ópera era. Talvez o "crepusculo dos deuses", não sei.
Mas o facto é que os manifestantes aguardavam-no à entrada e eram muitos, com cartazes a dizer "eleg volt", que em bom hungaro significa "basta".
"Basta" porque o senhor primeiro ministro quer alterar a constituição para controlar melhor o banco central hungaro, para controlar melhor os meios de comunicação social incluindo a inernet, e para evitar a representação proporcional dos partidos menores que possam opor-se-lhe, numa prática que em Portugal tambem há quem defenda: alterar as regras eleitorais ao arrepio da matemática para conservar o poder.
Engraçado que a comissão europeia tambem não gostou das medidas do senhor primeiro ministro hungaro, embora não tenha autoridade moral para o fazer porque os dirigentes do BCE tambem não submeteram a sua politica a discussão e sufrágio universal.
Aguarda-se a evolução da ópera em Portugal e na Hungria.
Além de que, apesar de tudo, é um espetáculo popular.
Em Portugal
Em Portugal criou-se a ideia de que não é, o que só ilustra um dos aspetos do pensamento português, de deixar que um grupo restrito dite o que todos devem pensar.
Ora, já é possivel ir ao S.Carlos à ópera, sem gravata.
Verdade que raramente lá se vê o senhor presidente da Republica e nunca o senhor primeiro ministro.
Este é tambem um sintoma do nivel cultural dos cidadãos que desempenham esses cargos e não deve portanto escandalizar ninguem.
As pessoas que não têm cultura são cidadãos como os outros e podem desempenhar esses cargos, sujeitos naturalmente ao juízo e à classificação na história em função da ausencia de nivel cultural nas suas decisões.
Em Portugal, o ataque cerrado dos bárbaros que tomaram conta do poder sobre questões de cultura de âmbito nacional, insistindo na tecla de que "não há dinheiro" (pode ser verdade, mas não de forma absoluta; além de que, sendo verdade, esperar-se-ia a declaração do estado de emergencia, porque um país sem cultura é uma situação de emergencia, salvo melhor opinião, que será talvez a dos governantes), conseguiu anular a apresentação de 3 espetáculos de ópera já programados para o S.Carlos (a programação de ópera é contratada com 2 anos de antecedencia, e os economistas queriam forçar os produtores estrangeiros a reduzir custos, dentro daquela velha máxima de fazer mais com menos, que evidentemente não foi aceite pelos produtores).
E o curioso desta história é que as pessoas do S.Carlos reagiram como eu costumo dizer aos meus jovens colegas que continuaram no ativo: não baixem os braços e criem estratégias de recuo, como o quadrado do condotieri Nuno Álvares.
E assim vamos ter ópera em janeiro: Cosi fan tutte, já programada, e outra em maio, La rondine de Puccini.
Perderam-se as outras, mas ainda temos ópera no S.Carlos, pode ser que os bárbaros tropecem ao longo da temporada, como os inimigos do condotieri em Aljubarrota.
A orquestra, o coro e o cantores vão ainda realizar alguns espetáculos para manter a atividade e não faltará o festival do largo, no verão, para espanto dos turistas que nos visitarem nessa altura, e que estarão à espera de que a cultura tenha desaparecido pelos fundos do orçamento.
O programa que recebi em casa, em carta que começa assim: "Caro assinante: Perante as contingencias provocadas pela delicada situação financeira e económica do país, e na sequencia das indicações do ministério das finanças referentes ao orçamento de 2012 ..." (eu que pensava que o S.Carlos recebia indicações da secretaria da cultura ou da presidencia do conselho de ministros ...) leva-me portanto a aplaudir quem toma decisões e quem trabalha no S.Carlos, e a não ir já este ano ao teatro da Zarzuela em Madrid ou ao da Bastilha em Paris, para ver ópera, o que é bom para a balança de pagamentos.
Na Hungria
Na Hungria, a tradição musical tem outra implantação na classe politica, e o primeiro ministro dirigiu-se ao teatro de ópera para assistir a um espetáculo.
Tenho pena de não saber que ópera era. Talvez o "crepusculo dos deuses", não sei.
Mas o facto é que os manifestantes aguardavam-no à entrada e eram muitos, com cartazes a dizer "eleg volt", que em bom hungaro significa "basta".
"Basta" porque o senhor primeiro ministro quer alterar a constituição para controlar melhor o banco central hungaro, para controlar melhor os meios de comunicação social incluindo a inernet, e para evitar a representação proporcional dos partidos menores que possam opor-se-lhe, numa prática que em Portugal tambem há quem defenda: alterar as regras eleitorais ao arrepio da matemática para conservar o poder.
Engraçado que a comissão europeia tambem não gostou das medidas do senhor primeiro ministro hungaro, embora não tenha autoridade moral para o fazer porque os dirigentes do BCE tambem não submeteram a sua politica a discussão e sufrágio universal.
Aguarda-se a evolução da ópera em Portugal e na Hungria.
quarta-feira, 14 de dezembro de 2011
Estais de parabens, não vai haver ópera
Senhores governantes responsáveis pela cultura pública, estais de parabens.
Tinheis uma despesa a suprimir e fizestes mais do que suprimi-la.
Eliminastes a necessidade da despesa.
Para isso deixastes as ervas daninhas da televisão, desde as telenovelas e concursos aos reality-shows, crescerem até afogarem a necessidade de espetáculos culturais.
Já não é preciso ópera.
Parafraseando o senhor deputado: Que sabeis vós de ópera e de cultura para decidirdes assim?
Num orçamento de cultura já de si insignificante, deveis ter poupado muito, sim senhor.
Eu bem dizia que a ópera é um espetáculo popular e subversivo, que o diga John Adams a explicar que entre um palestiniano e um judeu não há diferenças de código genético, ou Verdi a explicar que não se apedreja a mulher adúltera, ou Nuno Corte Real a denunciar o gangsterismo bancário.
Então manda-se recado às produtoras de ópera que tinham sido contratadas há quase dois anos (é, é um mercado em que os contratos se fazem com grande antecedencia) e diz-se que só há espetáculo se fizerem um desconto.
Que terão pensado as produtoras?
E as cláusulas de indemnização por rescisão, terão acionado? (os adjudicatários do TGV para o Caia e para a travessia do Tejo irão acionar as cláusulas? ).
Nesta apagada e vil tristeza assim continuaremos, agora sem ópera.
Consta que ainda deixam apresentar uma das 5 óperas previstas para 2012: Cosi fan tutte, de Mozart. Traduzindo: assim fazem todas. Lá está, uma ópera subversiva para a moral dominante: duas jovens mulheres a flirtar enquanto os noivos não chegam.
E se subvertessemos as coisas e fizessemos como em New York? Subscrições publicas para a produção dos espetáculos, publicidade e venda dos direitos de transmissão.
Ou então, concurso público para concessão do teatro de S.Carlos, talvez ao teatro de Madrid ou de Milão.
Tinheis uma despesa a suprimir e fizestes mais do que suprimi-la.
Eliminastes a necessidade da despesa.
Para isso deixastes as ervas daninhas da televisão, desde as telenovelas e concursos aos reality-shows, crescerem até afogarem a necessidade de espetáculos culturais.
Já não é preciso ópera.
Parafraseando o senhor deputado: Que sabeis vós de ópera e de cultura para decidirdes assim?
Num orçamento de cultura já de si insignificante, deveis ter poupado muito, sim senhor.
Eu bem dizia que a ópera é um espetáculo popular e subversivo, que o diga John Adams a explicar que entre um palestiniano e um judeu não há diferenças de código genético, ou Verdi a explicar que não se apedreja a mulher adúltera, ou Nuno Corte Real a denunciar o gangsterismo bancário.
Então manda-se recado às produtoras de ópera que tinham sido contratadas há quase dois anos (é, é um mercado em que os contratos se fazem com grande antecedencia) e diz-se que só há espetáculo se fizerem um desconto.
Que terão pensado as produtoras?
E as cláusulas de indemnização por rescisão, terão acionado? (os adjudicatários do TGV para o Caia e para a travessia do Tejo irão acionar as cláusulas? ).
Nesta apagada e vil tristeza assim continuaremos, agora sem ópera.
Consta que ainda deixam apresentar uma das 5 óperas previstas para 2012: Cosi fan tutte, de Mozart. Traduzindo: assim fazem todas. Lá está, uma ópera subversiva para a moral dominante: duas jovens mulheres a flirtar enquanto os noivos não chegam.
E se subvertessemos as coisas e fizessemos como em New York? Subscrições publicas para a produção dos espetáculos, publicidade e venda dos direitos de transmissão.
Ou então, concurso público para concessão do teatro de S.Carlos, talvez ao teatro de Madrid ou de Milão.
quarta-feira, 16 de novembro de 2011
Radio on-line
Não é só acabar com as emissões de onda curta. Apesar de tudo ainda se consegue desenvolver uma atividade util e de natureza cultural.
Já funciona a rádio ópera.
É serviço público, caso haja dúvidas depois do relatório do senhor professor diretor da escola superior de economia, pode ser que não a destruam.
É só endereçar
http://www.rtp.pt/radios/online/antena2opera/
e clicar em OPERA .
Vá lá, percam o preconceito.
Ópera não é só criaturas aos gritos (se experimentarem cantar logo vêem como custa).
Tem quase tudo o que aflige e alegra o género humano.
É bom, e até há óperas de interesse de portugueses contemporaneos (Banksters, de Nuno Corte Real, das Marchen, de Emanuel Nunes
, ... ... ).
Já funciona a rádio ópera.
É serviço público, caso haja dúvidas depois do relatório do senhor professor diretor da escola superior de economia, pode ser que não a destruam.
É só endereçar
http://www.rtp.pt/radios/online/antena2opera/
e clicar em OPERA .
Vá lá, percam o preconceito.
Ópera não é só criaturas aos gritos (se experimentarem cantar logo vêem como custa).
Tem quase tudo o que aflige e alegra o género humano.
É bom, e até há óperas de interesse de portugueses contemporaneos (Banksters, de Nuno Corte Real, das Marchen, de Emanuel Nunes
, ... ... ).
Etiquetas:
Ópera,
radios on-line
sexta-feira, 28 de outubro de 2011
Don Carlo, de Verdi, no S.Carlos, em outubro de 2011
Representou-se o Don Carlo, de Verdi, sete vezes no S.Carlos, em outubro de 2011.
Uma produção de nivel razoável, que não desmereceria em teatros de ópera internacionais e que honra quem trabalhou para a realizar.
Mas à entrada, um membro do sindicato dos músicos de cena distribuía um comunicado aos espetadores informando que os cortes decididos pelo governo levaram o orçamento a um nivel inferior aos custos fixos de funcionamento.
Quer isso dizer que não há dinheiro para novas produções, e que os espetáculos programados com a necessária antecedencia estão a ser renegociados com os intérpretes e os respetivos produtores.
O comunicado recordava ainda a definição, por lei, de serviço público no caso do teatro de ópera (e da companhia nacional de bailado) :
- acesso a grandes obras
- divulgação de obras nacionais menos presentes nos catálogos discográficos
- apoio à criação contemporanea
Serviço público esse gravemente ameaçado.
Desceu-se assim mais um degrau, depois das decisões da senhora ex-ministra da cultura, de quem o atual diretor do S.Carlos dizia ser uma senhora inspirada, e apesar da gestão dedicada, inteligente e correta das administrações.
Não deverá cair-se na crítica fácil de responsabilização dos trabalhadores e administradores pelos fracassos.
Penso que o atual governo achará que ópera é um diletantismo para elites ociosas, sem capacidade para atrair os públicos que preferem musica pop ou TV de telenovelas, concursos e reality shows.
E que por isso pode deixar cair-se.
De facto, cada récita só pode acolher 900 espetadores e cada produção ultrapassa a receita de bilheteira.
Talvez se pudesse fazer como em New York. É possivel financiar o teatro e, em troca, o nome do contribuinte aparece no programa. E não mecenas exclusivos.
Mas parece que os mecenas estão reduzindo a sua disponibilidade.
Poderia talvez fazer-se alguma receita com a venda das gravações a televisões estrangeiras e ao cana Mezzo.
Mas ignoro se isso vai poder fazer-se.
Donde, para alem de citar Eduardo Lourenço, para quem cultura é quando o homem se liberta da necessidade inadiável de prover a sua subsistencia, ocorre-me parafrasear o padre Américo. É inutil falar de cultura a quem tem o estomago ameaçado.
Embora as récitas populares de ópera no Coliseu estivessem sempre cheias, consta que a tirania do rebaixamento cultural da TV conduziu a esta situação: a ópera não entra no conceito, esse sim ainda atual, de panem et circenses para desviar a atenção dos eleitores das dificuldades quotidianas.
Nem parece que os comentadores televisivos ou os fazedores de opinião dos jornais, de papel ou da internet, sejam apreciadores de ópera.
Pelo que, dito de outro modo, a barbárie está a tomar conta do panorama operático em Portugal.
Pode ser que aconteça como na lei dos rendimentos decrescentes. Reduzindo os orçamentos estimular-se-á a criatividade dos cantores, musicos, produtores, e serão organizados festivais com patrocinadores que rentabilizem o esforço.
Mas eu não acredito.
É mais fácil aos bárbaros triunfarem e extinguirem a ópera nacional.
Embora me custe aceitar que não há mesmo dinheiro para termos um orçamento da cultura mais próximo de 1% do orçamento total (isto é, não reconheço credibilidade às pessoas que gerem o orçamento, embora isso não queira dizer que elas digam a verdade nem que a estejam a ocultar)
Quem quiser que apanhe um avião "low cost" para Madrid ou Paris e veja ópera por lá.
Ou apanhe o comboio para Madrid com as carruagens-cama de patente Talgo.
É pena que a barbárie triunfe. O maestro Martin André dirigiu a orquestra muito bem, tranquila e rigorosamente. Fez uma coisa que é raro ver-se. Aproveitou o intervalo para adaptar os trombones de varas às condições humidade e temperatura da sala. E assim a violencia castradora e sinistra do grande inquisidor encheu a sala sem falhas musicais.
É para isto que serve a ópera: para mostrar os constrangimentos limitadores nas relações humanas, como a opressão ideológica ou religiosa.
Para isso se ficcionou a realidade histórica (Don Carlo era doente psiquiátrico, de modo semelhante ao seu primo D.Sebastião) e se pôs Don Carlo a cantar pela liberdade da Flandres oprimida pela cegueira (daí a referencia pelos sindicalistas do comunicado aos cortes cegos?) do seu pai Filipe II de Espanha - viva la libertá.
E quanto ao avô de Don Carlo, o celebrado Carlos V , que se endividou até à medula com o banqueiro Fugger, sem grandes preocupações com o seu povo, Verdi e os seus libretistas trataram-no assim: "o seu orgulho foi imenso, o seu erro foi profundo"
É para isto que serve a ópera, para chamar a atenção para que quem tem o poder acha sempre que tem razão.
Orgulho imenso e erro profundo.
Não admira que deixem cair a ópera.
A ópera é subversiva, mesmo quando parece ser contemporizadora e bajuladora do poder.
Veja-se o caso de Mozart.
Políticos, desconfiem da ópera.
Alguns dos melhores artistas que a humanidade produziu dedicaram-se a ela com muito entusiasmo e humanismo.
É natural que os politicos, tão expostos ao complexo de Hubris, não gostem de ópera.
Uma produção de nivel razoável, que não desmereceria em teatros de ópera internacionais e que honra quem trabalhou para a realizar.
Mas à entrada, um membro do sindicato dos músicos de cena distribuía um comunicado aos espetadores informando que os cortes decididos pelo governo levaram o orçamento a um nivel inferior aos custos fixos de funcionamento.
Quer isso dizer que não há dinheiro para novas produções, e que os espetáculos programados com a necessária antecedencia estão a ser renegociados com os intérpretes e os respetivos produtores.
O comunicado recordava ainda a definição, por lei, de serviço público no caso do teatro de ópera (e da companhia nacional de bailado) :
- acesso a grandes obras
- divulgação de obras nacionais menos presentes nos catálogos discográficos
- apoio à criação contemporanea
Serviço público esse gravemente ameaçado.
Desceu-se assim mais um degrau, depois das decisões da senhora ex-ministra da cultura, de quem o atual diretor do S.Carlos dizia ser uma senhora inspirada, e apesar da gestão dedicada, inteligente e correta das administrações.
Não deverá cair-se na crítica fácil de responsabilização dos trabalhadores e administradores pelos fracassos.
Penso que o atual governo achará que ópera é um diletantismo para elites ociosas, sem capacidade para atrair os públicos que preferem musica pop ou TV de telenovelas, concursos e reality shows.
E que por isso pode deixar cair-se.
De facto, cada récita só pode acolher 900 espetadores e cada produção ultrapassa a receita de bilheteira.
Talvez se pudesse fazer como em New York. É possivel financiar o teatro e, em troca, o nome do contribuinte aparece no programa. E não mecenas exclusivos.
Mas parece que os mecenas estão reduzindo a sua disponibilidade.
Poderia talvez fazer-se alguma receita com a venda das gravações a televisões estrangeiras e ao cana Mezzo.
Mas ignoro se isso vai poder fazer-se.
Donde, para alem de citar Eduardo Lourenço, para quem cultura é quando o homem se liberta da necessidade inadiável de prover a sua subsistencia, ocorre-me parafrasear o padre Américo. É inutil falar de cultura a quem tem o estomago ameaçado.
Embora as récitas populares de ópera no Coliseu estivessem sempre cheias, consta que a tirania do rebaixamento cultural da TV conduziu a esta situação: a ópera não entra no conceito, esse sim ainda atual, de panem et circenses para desviar a atenção dos eleitores das dificuldades quotidianas.
Nem parece que os comentadores televisivos ou os fazedores de opinião dos jornais, de papel ou da internet, sejam apreciadores de ópera.
Pelo que, dito de outro modo, a barbárie está a tomar conta do panorama operático em Portugal.
Pode ser que aconteça como na lei dos rendimentos decrescentes. Reduzindo os orçamentos estimular-se-á a criatividade dos cantores, musicos, produtores, e serão organizados festivais com patrocinadores que rentabilizem o esforço.
Mas eu não acredito.
É mais fácil aos bárbaros triunfarem e extinguirem a ópera nacional.
Embora me custe aceitar que não há mesmo dinheiro para termos um orçamento da cultura mais próximo de 1% do orçamento total (isto é, não reconheço credibilidade às pessoas que gerem o orçamento, embora isso não queira dizer que elas digam a verdade nem que a estejam a ocultar)
Quem quiser que apanhe um avião "low cost" para Madrid ou Paris e veja ópera por lá.
Ou apanhe o comboio para Madrid com as carruagens-cama de patente Talgo.
É pena que a barbárie triunfe. O maestro Martin André dirigiu a orquestra muito bem, tranquila e rigorosamente. Fez uma coisa que é raro ver-se. Aproveitou o intervalo para adaptar os trombones de varas às condições humidade e temperatura da sala. E assim a violencia castradora e sinistra do grande inquisidor encheu a sala sem falhas musicais.
É para isto que serve a ópera: para mostrar os constrangimentos limitadores nas relações humanas, como a opressão ideológica ou religiosa.
Para isso se ficcionou a realidade histórica (Don Carlo era doente psiquiátrico, de modo semelhante ao seu primo D.Sebastião) e se pôs Don Carlo a cantar pela liberdade da Flandres oprimida pela cegueira (daí a referencia pelos sindicalistas do comunicado aos cortes cegos?) do seu pai Filipe II de Espanha - viva la libertá.
E quanto ao avô de Don Carlo, o celebrado Carlos V , que se endividou até à medula com o banqueiro Fugger, sem grandes preocupações com o seu povo, Verdi e os seus libretistas trataram-no assim: "o seu orgulho foi imenso, o seu erro foi profundo"
É para isto que serve a ópera, para chamar a atenção para que quem tem o poder acha sempre que tem razão.
Orgulho imenso e erro profundo.
Não admira que deixem cair a ópera.
A ópera é subversiva, mesmo quando parece ser contemporizadora e bajuladora do poder.
Veja-se o caso de Mozart.
Políticos, desconfiem da ópera.
Alguns dos melhores artistas que a humanidade produziu dedicaram-se a ela com muito entusiasmo e humanismo.
É natural que os politicos, tão expostos ao complexo de Hubris, não gostem de ópera.
sábado, 15 de outubro de 2011
Cortes na cultura
Será gordura, a cultura?
Os trabalhadores do S.Carlos foram informados de que todos os organismos dependentes da secretaria de estado da cultura teriam de reduzir 20% dos custos.
Já se renegociam as produções de ópera já contratadas e já se antevêm reduções salariais.
Apesar de a cultura ser um setor em que se pode investir para obter retorno dos investimentos, a orientação é a de adormecer.
Pode ser que a culpa seja da ideia de cultura que os agentes culturais foram desenvolvendo ao longo dos anos.
Eu próprio critiquei há pouco tempo a convicção que os realizadores de cinema portugueses têm de que são muito talentosos.
Mas essas coisas mudam-se com pedagogia.
Cortar cegamente 20% na cultura significa apenas que quem o decidiu não tem cultura.
Longe vai o tempo em que se reivindicava 1% do orçamento de estado para o ministério da cultura.
Agora, em vez de poupar o ministério aos cortes, reduz-se ainda mais a capacidade de investir em atividades culturais rentáveis.
O grande inquisidor de Espanha, que aparece no D.Carlos de Verdi, que inaugurou a temporada lírica, não faria melhor para assassinar a cultura.
Mas oiçamos antes Filipe II, que não fica muito bem na ópera, como aliás não ficou em quase tudo em que se meteu ou quis meter os outros, o que poderia ser uma lição para os solitários do poder, que não devem gostar de ópera.
Os trabalhadores do S.Carlos foram informados de que todos os organismos dependentes da secretaria de estado da cultura teriam de reduzir 20% dos custos.
Já se renegociam as produções de ópera já contratadas e já se antevêm reduções salariais.
Apesar de a cultura ser um setor em que se pode investir para obter retorno dos investimentos, a orientação é a de adormecer.
Pode ser que a culpa seja da ideia de cultura que os agentes culturais foram desenvolvendo ao longo dos anos.
Eu próprio critiquei há pouco tempo a convicção que os realizadores de cinema portugueses têm de que são muito talentosos.
Mas essas coisas mudam-se com pedagogia.
Cortar cegamente 20% na cultura significa apenas que quem o decidiu não tem cultura.
Longe vai o tempo em que se reivindicava 1% do orçamento de estado para o ministério da cultura.
Agora, em vez de poupar o ministério aos cortes, reduz-se ainda mais a capacidade de investir em atividades culturais rentáveis.
O grande inquisidor de Espanha, que aparece no D.Carlos de Verdi, que inaugurou a temporada lírica, não faria melhor para assassinar a cultura.
Mas oiçamos antes Filipe II, que não fica muito bem na ópera, como aliás não ficou em quase tudo em que se meteu ou quis meter os outros, o que poderia ser uma lição para os solitários do poder, que não devem gostar de ópera.
segunda-feira, 22 de agosto de 2011
Virginia, ópera de Mercadante
Saverio Mercadante, compositor napolitano do século XIX, precursor de Verdi,desgostoso com o fracasso da revolução de 1848, em Nápoles e com o regresso do rei Fernando II como monarca absoluto, sem constituição, compôs a ópera Virginia.
Interessante como a ópera pode ter uma função politica.
O que será natural porque a musica ilustra as emoções e o espirito das coisas e das intenções e a ação dramática, pelo seu convencionalismo, desenvolve a capacidade de abstração e de interpretação dos espetadores.
Com o tempo a ópera foi perdendo a popularidade (já são raras as apresentações no Coliseu), e nos tempos que correm já se escrevem poucas óperas.
Mas é justo destacar John Adams, contemporaneo, autor por exemplo, de A morte de Klinghofer (o assalto ao Achille Lauro),a tentar moderar a opinião publica norte-americana, pouco dada a apoiar a causa palestiniana, não obstante as resoluções da ONU.
Tambem não parece oportuno em Portugal estar a escrever óperas com intervenção politica.
Por exemplo, para tentar perceber como o poder politico neste momento continua a servir o poder económico (poupando nos impostos aos grandes grupos, por exemplo) e como, depois de omitir a responsabilidade da crise financeira internacional na má situação portuguesa, defende a mesma ideologia que conduziu à crise (melhor representada agora pelo "tea party").
No entanto, é justo destacar uma ópera portuguesa contemporanea, Banksters, de Nuno Corte Real, inspirada na peça Jacob e o Anjo de José Régio.
Banksters é a associação entre Bankers e Gangsters, o que diz quase tudo.
Honra a Vasco Graça Moura, responsável pelo libreto, e que assim viu o seu nome associado à desmitificação do poder financeiro que o seu partido politico tanto acarinha.
Mas voltando a Virginia, a história passa-se no século V antes de Cristo, na Roma antiga, quando estoira uma revolta dos plebeus, artífices e comerciantes, contra os patrícios, dedicados à guerra e à posse da terra. Estava ainda longe a revolta dos escravos de Spartacus. Em consequencia da revolta, foi permitido aos plebeus participar na vida politica e casar as suas filhas com patricios. Mas Virginia, filha de plebeu e amante de um patricio, já não beneficiou dessa lei.
É o processo histórico. Gerações e gerações que se sucedem sem beneficiar das leis da igualdade, da fraternidade, da liberdade.
Pena já não se fazerem óperas como antigamente, que temas não faltam.
Etiquetas:
Mercadante,
Ópera
domingo, 29 de maio de 2011
Die drei Pintos, ópera cómica de Carl Maria von Weber
Não conhecia esta ópera cómica de Weber, sobre a peça de Carl Seide, Der Brautkampf, mas graças à Gulbenkian tive o prazer de assistir à versão de concerto com texto-comentário de David Pountney. A ópera foi deixada incompleta por Weber, e completada por Gustav Mahler quando ainda jovem, a pedido do neto de Weber. Mahler aceitou a incumbencia e apaixonou-se por Marion, a mulher do neto de Weber. Foi uma paixão proibida, conforme o referido texto-comentário.
Resumo: A ação passa-se em Espanha no final do século XVII (numa época em que o endividamento de Espanha era grande, apesar dos benefícios coloniais, graças às aventuras militares e imperiais e graças à política desastrosa de privilégio de grandes proprietários rurais e de proteção de monopólios privados). O grande proprietário rural da província de Salamanca, Pinto da Fonseca, combinou com o próspero comerciante de Madrid, Don Pantaleone, o casamento do seu filho com a filha deste. O casamento é uma ação win-win, visto que implicará o resgate da dívida de Pantaleone a Pinto da Fonseca que contraiu junto deste numa altura de crise do negócio, quando Don Pantaleone ainda não tinha comprado o título nobiliárquico, não podendo assim usufruir das benesses do governo. Mas a rapariga já tem um apaixonado, Don Gomez, um fidalgote, e um pretendente ocasional, Don Gaston, um recem doutor pela universidade de Salamanca (contexto que Weber aproveitou para fazer musica adequada a grupos corais universitários).O pretendente ocasional e o apaixonado recorrem sucessivamente à carta de apresentação que o pai Pinto da Fonseca entregou ao filho como credencial para Don Pantaleone. Daí o nome de três Pintos. A ópera termina com o triunfo do amor entre a rapariga e Don Gaston sobre o interesse mesquinho da liquidação da dívida. A musica de Weber e as contribuições de Mahler são uma maravilha.
E eis como uma inofensiva história para entreter a burguesia florescente alemã, gozando com o gordo e desajeitado filho de Pinto da Fonseca, se torna num perigoso convite à negociação da dívida e ao respeito pelos direitos humanos.
Infelizmente, duvido que seja essa a mensagem captada na plateia da Gulbenkian (apesar do seu presidente, Rui Vilar, em entrevista recente, ter afirmado que é essencial manter um nível mínimo de investimento em ações produtivas, ou no setor de bens transacionáveis, como se diz agora), possivelmente porque os Pinto da Fonseca dos dias de hoje têm mais força.
Mas foi um belo espetáculo.
Resumo: A ação passa-se em Espanha no final do século XVII (numa época em que o endividamento de Espanha era grande, apesar dos benefícios coloniais, graças às aventuras militares e imperiais e graças à política desastrosa de privilégio de grandes proprietários rurais e de proteção de monopólios privados). O grande proprietário rural da província de Salamanca, Pinto da Fonseca, combinou com o próspero comerciante de Madrid, Don Pantaleone, o casamento do seu filho com a filha deste. O casamento é uma ação win-win, visto que implicará o resgate da dívida de Pantaleone a Pinto da Fonseca que contraiu junto deste numa altura de crise do negócio, quando Don Pantaleone ainda não tinha comprado o título nobiliárquico, não podendo assim usufruir das benesses do governo. Mas a rapariga já tem um apaixonado, Don Gomez, um fidalgote, e um pretendente ocasional, Don Gaston, um recem doutor pela universidade de Salamanca (contexto que Weber aproveitou para fazer musica adequada a grupos corais universitários).O pretendente ocasional e o apaixonado recorrem sucessivamente à carta de apresentação que o pai Pinto da Fonseca entregou ao filho como credencial para Don Pantaleone. Daí o nome de três Pintos. A ópera termina com o triunfo do amor entre a rapariga e Don Gaston sobre o interesse mesquinho da liquidação da dívida. A musica de Weber e as contribuições de Mahler são uma maravilha.
E eis como uma inofensiva história para entreter a burguesia florescente alemã, gozando com o gordo e desajeitado filho de Pinto da Fonseca, se torna num perigoso convite à negociação da dívida e ao respeito pelos direitos humanos.
Infelizmente, duvido que seja essa a mensagem captada na plateia da Gulbenkian (apesar do seu presidente, Rui Vilar, em entrevista recente, ter afirmado que é essencial manter um nível mínimo de investimento em ações produtivas, ou no setor de bens transacionáveis, como se diz agora), possivelmente porque os Pinto da Fonseca dos dias de hoje têm mais força.
Mas foi um belo espetáculo.
Etiquetas:
dívida externa,
Mahler,
Ópera,
Weber
quarta-feira, 20 de abril de 2011
As contribuições para a Maternidade Alfredo da Costa
Tão escandalizadas que tantas pessoas ficaram.
Como diriam os evangelhos, eram capazes de rasgar as vestes, porque a Maternidade pediu contribuições.
Vieram então os publicanos (se fossem os evangelhos a reportar os factos) e demonstraram que não podia ser, que era ilegal, e fizeram uma auditoria (tranquilizai-vos, consciencias, poupai o rasgo das vestes, que já está uma auditoria no "terreno").
Como sempre, houve os que se preocuparam com a realidade essencial (os filhos que nascem), e contribuiram.
E houve os dos princípios que proclamaram a virtualidade acessória, embora pudessem contribuir (claro que quem não pode contribuir não deve ser discriminado), preferindo a má-lingua da acusação de má gestão.
Falando em coisas menos essenciais para a subsistencia da espécie: O Metropolitain Opera House de New York, quando vende bilhetes para os seus espetáculos, que são de elevado nível no panorama internacional, pergunta se o comprador não quer contribuir para alem do preço dos bilhetes, e sugere um valor (o nome do contribuinte pode figurar no programa do Metropolitain).
Nós, portugueses, preferimos abastardar a qualidade da temporada de ópera, mas orgulhosamente e de forma muito nobre, o teatro de S.Carlos tem um mecenas exclusivo e não desce a pedir uma contribuição a quem lhe compra bilhetes.
Este complexo de D.João V que temos e nos estrangula...
Como diriam os evangelhos, eram capazes de rasgar as vestes, porque a Maternidade pediu contribuições.
Vieram então os publicanos (se fossem os evangelhos a reportar os factos) e demonstraram que não podia ser, que era ilegal, e fizeram uma auditoria (tranquilizai-vos, consciencias, poupai o rasgo das vestes, que já está uma auditoria no "terreno").
Como sempre, houve os que se preocuparam com a realidade essencial (os filhos que nascem), e contribuiram.
E houve os dos princípios que proclamaram a virtualidade acessória, embora pudessem contribuir (claro que quem não pode contribuir não deve ser discriminado), preferindo a má-lingua da acusação de má gestão.
Falando em coisas menos essenciais para a subsistencia da espécie: O Metropolitain Opera House de New York, quando vende bilhetes para os seus espetáculos, que são de elevado nível no panorama internacional, pergunta se o comprador não quer contribuir para alem do preço dos bilhetes, e sugere um valor (o nome do contribuinte pode figurar no programa do Metropolitain).
Nós, portugueses, preferimos abastardar a qualidade da temporada de ópera, mas orgulhosamente e de forma muito nobre, o teatro de S.Carlos tem um mecenas exclusivo e não desce a pedir uma contribuição a quem lhe compra bilhetes.
Este complexo de D.João V que temos e nos estrangula...
Etiquetas:
Maternidade Alfredo da Costa,
Ópera
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
Viva il vino spumegiante, viva il vino qu'e sincero
Sem pretender contestar as decisões no domínio da ópera em Portugal da senhora ministra da cultura, que apenas por uma questão etária aguarda a demissão da ministra italiana da igualdade de oportunidades, Mara Scarfagna, para ocupar o lugar de mais bela ministra do mundo, à frente das colegas espanholas, não estando a gentileza das suas decisões à altura desse lugar, conforme se comprovou em mais uma demissão intempestiva, a da diretora geral do livro e das bibliotecas, sugiro que vejam aqui José Carreras entoando o hino ao vinho capitoso e borbulhante da Cavalleria rusticana. Turidu, antes de sair para morrer no duelo com o marido da sua paixão proibida, Santuzza, canta assim. Cavalleria não quer dizer cavalaria, quer dizer conceções sobre o que era ser cavalheiro na Sicilia rural do fim do século XIX.
Etiquetas:
Cavalleria rusticana,
ministério da cultura,
Ópera
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
Blogue comovido
Este blogue ficou comovido nos últimos dias.
Primeiro, foi a voz de Joan Sutherland que se calou.
A ópera é um fenómeno estranho.
É um espetaculo popular, mas começou por ser o que distinguia a corte e os fidalgos do povo e da média e baixa burguesia.
Veja-se o caso da ópera do Tejo, um edifício novo onde hoje está a praça do Município, que o terramoto de 1755 destruiu.
O prejuizo porém não foi pago só por quem ia à ópera, mas por todo o povo (estimativa dos prejuízos em Lisboa devidos ao terramoto: 75% do PIB desse ano).
Quando digo que é um espetáculo popular, é porque quando há ópera no Coliseu ele enche-se.
E quando Verdi estreava as suas óperas o povo entoava logo a seguir as suas árias.
Mas há outra razão por que as óperas são um espetaculo popular, embora o senso comum ache que é uma musica aborrecida.
No meio das ingenuidades dos libretos e das inconsequencias dos argumentos, quase todas as paixões e sentimentos humanos são tratados. E a música sublinha essas paixões e sentimentos, por vezes de forma tocante.
Ou talvez que o autor do blogue seja demasiado sensivel e por isso escreve estas coisas, mas já António Damásio dizia que só se pode ser racional se nos comovermos.
Joan Sutherland teve uma das vozes mais bonitas de soprano.
Classificada como soprano spinto (isto é, dramático) com coloratura (isto é, com capacidade para dar notas ágeis) , embora pudesse fazer papeis de soprano ligeiro.
Outro exemplo de voz assim era a de Maria Callas, mas o timbre da voz de Joan Sutherland era, nalgumas personagens, mais bonito.
Quer isso dizer que a senhora tinha características fora do normal.
E à sua qualidade de cantora excecional aliava outra característica: era uma senhora muito simples que se sentava nos ensaios, enquanto esperava pela sua vez, a conversar com o pessoal da orquestra e dos adereços, e a fazer "tricot".
Falo nisto só para chamar a atenção para que qualquer pessoa pode ser excecional desde que não se aproveite das suas características para querer estar acima dos outros.
Isto é, para estas pessoas a revolução francesa não foi feita em vão e acreditam no trabalho em equipa, sem individualismos (como diz o outro, é assim que se ganham jogos, sem individualismos, não é?).
Bem podiam aproveitar a lição, os senhores empresários que no congresso do BSCD (Conselho empresarial para o desenvolvimento sustentável) insistiram que o objetivo das empresas é ganhar dinheiro e aumentar os lucros para os seus acionistas.
A desregulação deu no que deu, e continuam com a mesma cartilha adam smithista (que me perdoe Adam Smith que certamente não seria tão adam smithista como os seus adeptos)...
E falo no congresso do BSCD porque tambem lá se falou da filantropia de Bill Gates.
O nosso grande empresário presidente da Portucel, Semapa e Secil (não estou a criticar a política ambiental da Portucel, que aliás já foi gabada neste blogue) fez uma afirmação chocante, que foi a de desconfiar da verdade da doação de Bill Gates, acrescentando de forma infeliz que nem sabe o que é a filantropia, e que cada um dê o que quiser.
Alguém comentou inocentemente que não basta às empresas ter um diretor de responsabilidade social.
Porque esse diretor normalmente acumula com a direção da imagem.
E todos sabemos que a imagem lida com a perceção das pessoas e não com a realidade, mesmo que a realidade possa condicionar as pessoas ou ser-lhes ocultada quando não se faça uma campanha, não de promoção da imagem, mas de esclarecimento da realidade.
E também muitos de nós insistem neste ponto: numa empresa tem de haver separação hierárquica entre funções essenciais de natureza diferente; não é bom que o responsável da manutenção acumule com a responsabilidade do controle de qualidade, não é bom que o responsável de uma parte que depende de outra parte para funcionar seja o mesmo dessa parte, não é bom que o responsável da segurança dependa hierarquicamente dum responsável operacional, não é bom que o responsável social seja o responsável da imagem.
São funções que devem ser exercidas como controle mútuo entre órgãos, fora da dependência dum órgão unico.
Porque o órgão único tem tendência para mascarar as falhas, e os órgãos distintos têm tendência para as evidenciar.
São princípios básicos da divisão do trabalho, do controle da qualidade e da fiabilidade e confiabilidade das empresas.
Será que o autor do blogue tem vindo a iludir-se ao longo dos anos com a sua experiencia profissional e tão ilustres empresários são os detentores das verdades? ( e se é assim, se tão ilustres empresários de empresas de tanto sucesso estão tão seguros de que seguiram o caminho certo, porque está a economia portuguesa tão mal e tão sem desculpas apesar da crise internacional?).
Ou terão razão os gurus que defendem a filantropia, a sabedoria das multidões e as 22 + 25 medidas que este blogue anda a comentar? Ou os empresários com sensibilidade, como os dos cafés de Campo Maior, ou os da restauração do lugre Santa Maria Manuela, ou os que tentam salvar a Vista Alegre, ou os têxteis, ou os sapatos.
Por isso gostaria que os ilustres empresários e gestores de sucesso ouvissem Joan Sutherland.
Talvez lhes amaciasse os corações.
Ficassem mais filantrópicos, já que a maioria dos portugueses é como eu, incapaz de montar um negócio ou uma empresa por ações e ganhar muito dinheiro com ela.
Se tiverem paciência, procurem em “you tube joan sutherland”.
Experimentem a “casta diva”, da ópera Norma (a sacerdotisa druida tem um caso com o consul romano e as sociedades da altura eram muito limitativas dos direitos humanos…).
Segundo (segunda razão para este blogue se ter comovido nestes dias, como disse logo no princípio), o caso do resgate dos 33 mineiros é exemplar.
O problema era efetivamente difícil de resolver em tempo curto.
E o método seguido foi o correto: não se escondeu nada, procurou-se informação e ajuda entre técnicos de todo o mundo; não foi só a NASA, veio equipamento do Japão, sa Austria, Alemanha, Austrália, etc, sem esquecer o papel importante da Codelco (empresa pública de minas do Chile – e depois disto ainda haverá adam smithistas que disseminem a mensagem de que “o estado”, palavra feia que serve para afastar a simpatia da pessoas, não tem vocação? O problema não é a empresa ser estatal ou privada, o problema é as pessoas trabalharem bem ou não).
Isto é, não se fez um concurso público para escolher um gabinete de consultoria para fazer o projeto do resgate, seguindo-se um concurso público para selecionar os equipamentos a utilizar.
Simplesmente, dinamizou-se um processo de debate interativo e aberto, e um dos métodos propostos deu resultado.
A estimativa inicial para todas as operações de resgate era de 120 dias e conseguiu-se em 69.
A estimativa para a retirada dos mineiros com a cápsula era de 48 horas e conseguiu-se em 23.
Independentemente de razões psicológicas como foi o caso, um planeamento deve ser feito com prazos realizáveis e, na dúvida, não alimentar esperanças que possam não ser realizadas.
Por isso deveriam os gestores e os decisores deixarem-se de impor prazos, mais ou menos políticos, e perguntar primeiro aos técnicos que prazos podem ser definidos.
Deixem-me acentuar ainda o papel importantíssimo da psicologia. Em qualquer acidente ou em deficientes condições de saúde há regras psicológicas para seguir. Quebrá-las, por exemplo com excesso de exposição mediática, só pode prejudicar.
Por isso está corretissimo o período de 2 dias de quarentena previstos e se teme o impacto das campanhas publicitárias.
Já não é o mesmo caso do filme de Billy Wilder com Kirk Douglas (Ace in the hole - o jornalista conseguiu que se escolhesse o pior método de resgate dos mineiros para fazer render a campanha mediática, com resultados trágicos), além de que poderá recuperar-se algum do dinheiro gasto com a operação (300.000 euro por mineiro salvo), mas conviria haver contenção na exposição.
Enfim, um viva aos mineiros e aos seus salvadores.
Como disse o último mineiro a sair,Luis Urzua, último como se fosse o comandante do navio naufragado, “fizemos o que todos esperavam que fizéssemos, tivemos força para isso e pelas nossas famílias, e isso foi o mais importante”.
E assim fica este blogue comovido, num mundo em que a humanidade também é capaz de fazer as melhores coisas com a capacidade técnica de que dispõe.
PS - Em tempo: corrigi uma informação errada: os prejuízos do terramoto de 1755 foram da ordem de 75% do PIB desse ano, e não 10% como escrevi primeiro (fonte: História de Portugal, ed. a esfera dos livros, coordenação Rui Ramos)
Primeiro, foi a voz de Joan Sutherland que se calou.
A ópera é um fenómeno estranho.
É um espetaculo popular, mas começou por ser o que distinguia a corte e os fidalgos do povo e da média e baixa burguesia.
Veja-se o caso da ópera do Tejo, um edifício novo onde hoje está a praça do Município, que o terramoto de 1755 destruiu.
O prejuizo porém não foi pago só por quem ia à ópera, mas por todo o povo (estimativa dos prejuízos em Lisboa devidos ao terramoto: 75% do PIB desse ano).
Quando digo que é um espetáculo popular, é porque quando há ópera no Coliseu ele enche-se.
E quando Verdi estreava as suas óperas o povo entoava logo a seguir as suas árias.
Mas há outra razão por que as óperas são um espetaculo popular, embora o senso comum ache que é uma musica aborrecida.
No meio das ingenuidades dos libretos e das inconsequencias dos argumentos, quase todas as paixões e sentimentos humanos são tratados. E a música sublinha essas paixões e sentimentos, por vezes de forma tocante.
Ou talvez que o autor do blogue seja demasiado sensivel e por isso escreve estas coisas, mas já António Damásio dizia que só se pode ser racional se nos comovermos.
Joan Sutherland teve uma das vozes mais bonitas de soprano.
Classificada como soprano spinto (isto é, dramático) com coloratura (isto é, com capacidade para dar notas ágeis) , embora pudesse fazer papeis de soprano ligeiro.
Outro exemplo de voz assim era a de Maria Callas, mas o timbre da voz de Joan Sutherland era, nalgumas personagens, mais bonito.
Quer isso dizer que a senhora tinha características fora do normal.
E à sua qualidade de cantora excecional aliava outra característica: era uma senhora muito simples que se sentava nos ensaios, enquanto esperava pela sua vez, a conversar com o pessoal da orquestra e dos adereços, e a fazer "tricot".
Falo nisto só para chamar a atenção para que qualquer pessoa pode ser excecional desde que não se aproveite das suas características para querer estar acima dos outros.
Isto é, para estas pessoas a revolução francesa não foi feita em vão e acreditam no trabalho em equipa, sem individualismos (como diz o outro, é assim que se ganham jogos, sem individualismos, não é?).
Bem podiam aproveitar a lição, os senhores empresários que no congresso do BSCD (Conselho empresarial para o desenvolvimento sustentável) insistiram que o objetivo das empresas é ganhar dinheiro e aumentar os lucros para os seus acionistas.
A desregulação deu no que deu, e continuam com a mesma cartilha adam smithista (que me perdoe Adam Smith que certamente não seria tão adam smithista como os seus adeptos)...
E falo no congresso do BSCD porque tambem lá se falou da filantropia de Bill Gates.
O nosso grande empresário presidente da Portucel, Semapa e Secil (não estou a criticar a política ambiental da Portucel, que aliás já foi gabada neste blogue) fez uma afirmação chocante, que foi a de desconfiar da verdade da doação de Bill Gates, acrescentando de forma infeliz que nem sabe o que é a filantropia, e que cada um dê o que quiser.
Alguém comentou inocentemente que não basta às empresas ter um diretor de responsabilidade social.
Porque esse diretor normalmente acumula com a direção da imagem.
E todos sabemos que a imagem lida com a perceção das pessoas e não com a realidade, mesmo que a realidade possa condicionar as pessoas ou ser-lhes ocultada quando não se faça uma campanha, não de promoção da imagem, mas de esclarecimento da realidade.
E também muitos de nós insistem neste ponto: numa empresa tem de haver separação hierárquica entre funções essenciais de natureza diferente; não é bom que o responsável da manutenção acumule com a responsabilidade do controle de qualidade, não é bom que o responsável de uma parte que depende de outra parte para funcionar seja o mesmo dessa parte, não é bom que o responsável da segurança dependa hierarquicamente dum responsável operacional, não é bom que o responsável social seja o responsável da imagem.
São funções que devem ser exercidas como controle mútuo entre órgãos, fora da dependência dum órgão unico.
Porque o órgão único tem tendência para mascarar as falhas, e os órgãos distintos têm tendência para as evidenciar.
São princípios básicos da divisão do trabalho, do controle da qualidade e da fiabilidade e confiabilidade das empresas.
Será que o autor do blogue tem vindo a iludir-se ao longo dos anos com a sua experiencia profissional e tão ilustres empresários são os detentores das verdades? ( e se é assim, se tão ilustres empresários de empresas de tanto sucesso estão tão seguros de que seguiram o caminho certo, porque está a economia portuguesa tão mal e tão sem desculpas apesar da crise internacional?).
Ou terão razão os gurus que defendem a filantropia, a sabedoria das multidões e as 22 + 25 medidas que este blogue anda a comentar? Ou os empresários com sensibilidade, como os dos cafés de Campo Maior, ou os da restauração do lugre Santa Maria Manuela, ou os que tentam salvar a Vista Alegre, ou os têxteis, ou os sapatos.
Por isso gostaria que os ilustres empresários e gestores de sucesso ouvissem Joan Sutherland.
Talvez lhes amaciasse os corações.
Ficassem mais filantrópicos, já que a maioria dos portugueses é como eu, incapaz de montar um negócio ou uma empresa por ações e ganhar muito dinheiro com ela.
Se tiverem paciência, procurem em “you tube joan sutherland”.
Experimentem a “casta diva”, da ópera Norma (a sacerdotisa druida tem um caso com o consul romano e as sociedades da altura eram muito limitativas dos direitos humanos…).
Segundo (segunda razão para este blogue se ter comovido nestes dias, como disse logo no princípio), o caso do resgate dos 33 mineiros é exemplar.
O problema era efetivamente difícil de resolver em tempo curto.
E o método seguido foi o correto: não se escondeu nada, procurou-se informação e ajuda entre técnicos de todo o mundo; não foi só a NASA, veio equipamento do Japão, sa Austria, Alemanha, Austrália, etc, sem esquecer o papel importante da Codelco (empresa pública de minas do Chile – e depois disto ainda haverá adam smithistas que disseminem a mensagem de que “o estado”, palavra feia que serve para afastar a simpatia da pessoas, não tem vocação? O problema não é a empresa ser estatal ou privada, o problema é as pessoas trabalharem bem ou não).
Isto é, não se fez um concurso público para escolher um gabinete de consultoria para fazer o projeto do resgate, seguindo-se um concurso público para selecionar os equipamentos a utilizar.
Simplesmente, dinamizou-se um processo de debate interativo e aberto, e um dos métodos propostos deu resultado.
A estimativa inicial para todas as operações de resgate era de 120 dias e conseguiu-se em 69.
A estimativa para a retirada dos mineiros com a cápsula era de 48 horas e conseguiu-se em 23.
Independentemente de razões psicológicas como foi o caso, um planeamento deve ser feito com prazos realizáveis e, na dúvida, não alimentar esperanças que possam não ser realizadas.
Por isso deveriam os gestores e os decisores deixarem-se de impor prazos, mais ou menos políticos, e perguntar primeiro aos técnicos que prazos podem ser definidos.
Deixem-me acentuar ainda o papel importantíssimo da psicologia. Em qualquer acidente ou em deficientes condições de saúde há regras psicológicas para seguir. Quebrá-las, por exemplo com excesso de exposição mediática, só pode prejudicar.
Por isso está corretissimo o período de 2 dias de quarentena previstos e se teme o impacto das campanhas publicitárias.
Já não é o mesmo caso do filme de Billy Wilder com Kirk Douglas (Ace in the hole - o jornalista conseguiu que se escolhesse o pior método de resgate dos mineiros para fazer render a campanha mediática, com resultados trágicos), além de que poderá recuperar-se algum do dinheiro gasto com a operação (300.000 euro por mineiro salvo), mas conviria haver contenção na exposição.
Enfim, um viva aos mineiros e aos seus salvadores.
Como disse o último mineiro a sair,Luis Urzua, último como se fosse o comandante do navio naufragado, “fizemos o que todos esperavam que fizéssemos, tivemos força para isso e pelas nossas famílias, e isso foi o mais importante”.
E assim fica este blogue comovido, num mundo em que a humanidade também é capaz de fazer as melhores coisas com a capacidade técnica de que dispõe.
PS - Em tempo: corrigi uma informação errada: os prejuízos do terramoto de 1755 foram da ordem de 75% do PIB desse ano, e não 10% como escrevi primeiro (fonte: História de Portugal, ed. a esfera dos livros, coordenação Rui Ramos)
Etiquetas:
BSCD,
controle de qualidade,
filantropia,
Joan Sutherland,
Ópera,
planeamento,
resgate mineiros chilenos,
segurança
Subscrever:
Mensagens (Atom)
