segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Reflexão sobre o temporal – homenagem aos trabalhadores portugueses


Com muita pena pelo que muitos sofreram com o temporal, que veio juntar-se às condições tão adversas que se vivem, destaco o esforço de muitos para a recuperação. Segundo as informações da imprensa, cerca de 35.000 bombeiros.
Os bombeiros e todos os que trabalharam e trabalham na recuperação, sem discutirem se era sábado de tarde, ganhando pouco e com as perspetivas de mais reduções de salários e aumento de impostos.
Sempre com a acusação de baixa produtividade e de pouca competitividade com que os senhores governantes acham por bem ofender constantemente.
No meu bairro houve poucos estragos, só duas árvores caídas e uma vedação destruída.
Mas ao fim do dia já eram visíveis os resultados das intervenções corretivas.
O povo português sabe responder quando é mobilizado.
Gostaria que para alem das eventuais ajudas a pedir à Comissão Europeia se elaborassem projetos de estufas resistentes ao temporal (de construção em Portugal e com preços controlados, coisa que é obviamente viável de beneficiar de fundos do QREN, desde que os projetos estejam feitos), projetos de reabilitação urbana para resistência das habitações, e que empresas como a EDP não precisassem tanto de recorrer ao “outsourcing” para responder a situações de emergência como esta  (como se sabe, o “outsourcing" permite reduzir os custos internos, numa perspetiva de curto prazo e de normalidade).
Salvo melhor opinião, quando se está na situação deste país, não se devia discutir a reforma disto ou daquilo, idealizar uma nova lei agora sim, perfeita; devia-se mobilizar e recuperar, dos efeitos deste temporal e do outro, da redução da capacidade de intervenção das entidades públicas e das empresas.
Em tempo de guerra não se limpam armas.
Mas se preferem a discussão bizantina ou se bloqueiam os canais de atuação…
Pena, o povo português mobilizar-se-ia.

A velutina nigrothorax, realidade e metáfora


Assunto já aqui tratado, a propósito da extinção do programa da RTP2 Câmara Clara, em http://fcsseratostenes.blogspot.pt/2012/12/o-servico-publico-na-televisao-o-camara.html
Surge agora a informação que a velutina nigrothorax, a vespa asiática que é predadora das abelhas e destruidora de colmeias, já está a colonizar o norte de Portugal, depois de se ter introduzido em França através do porto de Bordéus.
Os ninhos da vespa, em forma de novelo com entradas laterais, podem atingir quase um metro de diâmetro e  estão normalmente a grande altura, em árvores

A expansão em Portugal fez-se a partir do porto de Viana do Castelo.

A metáfora é que esta espécie de vespas serão os grandes grupos financeiros e empresariais globalizados, devorando os pequenos produtores e comerciantes.
O drama é que as abelhas europeias não têm a técnica de defesa das abelhas japonesas que descrevi no “post” acima: grupos de sentinela “convidam” a vespa batedor a entrar na colmeia e aí o bando de abelhas, unidas como um sindicato ou uma cooperativa de produção, queima a vespa, mediante a agitação das asas e dos abdomens, beneficiando da sua menor resistência à temperatura.
Mas é essencial  a antecipação pelos grupos de vigilância, isto é, se se deixa o grupo da escola de Chicago chegar ao poder, é muito dificil os pequenos sobreviverem com dignidade (ou o dinheiro das pensões faz falta para tapar o buraco dos credit swap default).
E importante a intervenção dos bombeiros e organismos agrícolas  (regulador do mercado, operador público…)

A gravidade da ameaça motivou uma pergunta do eurodeputado Nuno Melo e a resposta do comissário europeu remetendo para os programas de apoio apícola de cada Estado a submeter depois à Comissão Europeia (é o costume, só é possível obter apoio da Comissão Europeia depois de elaborar projetos concretos e, neste caso, o defeito não está na CE; é a mesma questão dos fundos QREN e da falta de projetos de infraestruturas, incluindo a tão badalada linha Sines-Madrid-França)

Será que o ministério da agricultura tem técnicos a estudar soluções? Devia informar. Divulgar a fotografia dos ninhos e convidar ao aviso sempre que seja avistado.
A principal solução seria a prevenção. Os bombeiros do Alto Minho já tem um método para o combate, pelo fogo, mas será preciso uma ação oficial a nível mais vasto.
deixá-lo a ver se desiste, ou se poupa algumas regiões, enquanto os pobres pinheiros atlânticos vão definhando?
Ou como as palmeiras, a soçobrar sob os escaravelhos bicudos?http://fcsseratostenes.blogspot.pt/2011/12/ryncophorus-ferrugineus-o-escaravelho.html

domingo, 20 de janeiro de 2013

A ameaça de despedimentos em empresas públicas


A notícia já circula. O governo pretende aproveitar a fusão do metro e da carris para proceder ao despedimento de cerca de 300 trabalhadores.
Compreendem-se os argumentos do governo:
1 - o número de passageiros está a diminuir, permitindo a redução da oferta
2 - da fusão poderão resultar sobreposição de funções, permitindo a dispensa parcial de quem as desempenha
3 - o despedimento permitirá reduzir custos para o futuro explorador privado por concessão
4 - escolhendo os trabalhadores a despedir com o critério, por exemplo, do seu absentismo, será possível aumentar o indicador de produtividade (quociente entre o produto obtido e o número de trabalhadores necessário para o produzir)
5 – reduzir custos de pessoal permite reduzir a despesa pública
6 – encontrando-se congelados os planos de expansão e investimento da rede, tornam-se dispensáveis os trabalhadores a eles adstritos.

No entanto, mesmo sem citar os artigos da Constituição da Republica Portuguesa e da declaração universal dos direitos humanos que incumbem os governos de garantir o direito ao trabalho, é possível contrariar os argumentos do governo, passo a passo:

1 – É verdade que, como consequência da diminuição do PIB e do consumo, o tráfego de passageiros diminui, estima-se que cerca de 10% ao ano.  O mesmo se verifica, por efeito da contração económica,  na maior parte das atividades, desde a diminuição do numero de clientes do comércio tradicinal ou não, até ao espetadores de cinema. Porém, é deprimente verificar que todos os dias se delapidam quantidades enormes de combustíveis fósseis no transporte individual nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto, com o consequente agravamento da balança de pagamentos das importações e das emissões de gases com efeito de estufa. Estimo que a simples transferência de 10% das deslocações do transporte individual para o transporte coletivo permitiria uma poupança anual da ordem de 80 milhões de euros
(ver http://fcsseratostenes.blogspot.pt/2010/08/calculos-para-investimento-em-redes-de.html). Evidentemente que isso exigiria alguns investimentos, como parques de estacionamento na periferia para correspondência, e medidas antipáticas como reforço da fiscalização do estacionamento automóvel e da velocidade nas cidades e introdução de portagens à entrada. Portanto, essa é uma área de aplicação dos fundos europeus do tipo QREN que justificaria a mobilização dos quadros de pessoal das empresas na sua plenitude.


2 – A ideia que de uma fusão resultam sinergias em termos de economia de pessoal pode ser ilusória, especialmente em empresas com uma necessáriamente grande dispersão geográfica, com uma grande componente de trabalho em turnos, com uma grande diversidade de especialidades e com probabilidade significativa de ocorrência de circunstancias de trabalho extraordinário (espetaculos como jogos de futebol ou festivais, necessidade de realização de trabalhos de manutenção ou de construção interna ou externa, eventual insuficiência do quadro de pessoal em categorias indispensáveis à circulação) e só poderá ser avaliada caso a caso.
No entanto, sem querer insistir na ideia feita da produtividade alemã, a capacidade de absorver períodos de menor produção mantendo o mesmo quadro de pessoal foi desenvolvida na Alemanha através do conceito de “kurzarbeit” e é aplicada na Auto Europa:
No fundo, a ideia é ter o quadro de pessoal pronto quando as condições económicas permitirem o crescimento da emrpesa.

3 e 4 – É evidente que a redução de custos torna mais apetecível para um grupo privado a exploração de uma rede. Porém, apesar de a concessão ou privatização ser uma bíblia para a troika e para o atual governo, há riscos de prejuízo para as finanças públicas e há exemplos históricos de situações concretas que as contra indicam enquanto panaceia, de que se citam os casos do metro de Londres e de Paris (o que não quer dizer que possa ser uma boa solução em casos específicos).
Cálculos que desaconselham o recurso à concessão e privatização encontram-se em:
resumindo-se os resultados: só existirá interesse económico para o Estado se, não considerando o serviço das dívidas por investimento e considerando que os indicadores de qualidade se mantêm:
-  a renda a pagar pelo concessionário for superior à soma do diferencial das indemnizações compensatórias depois e antes da concessão, com os resultados líquidos antes da concessão, ou
-  os lucros do concessionário forem inferiores à soma do diferencial dos resultados operacionais depois e antes da concessão, com a indemnização compensatória antes da concessão.
Reafirma-se que a qualificação profissional dos trabalhadores do metro e da carris já está demonstrada através dos indicadores que, como comprovam os estudos de “benchmarking” do Imperial College, comparam sem deslustre com os homólogos estrangeiros.

5 – sempre me chocou a atitude dos gestores muito contentes consigo próprios quando apresentavam os seus powerpoints com os gráficos da redução dos quadros de pessoal e triunfantes diziam que tinham conseguido reduzir 10% de um ano para o outro; mas não tinham experiencia do dia a dia dos problemas concretos  nos locais de trabalho, apenas conhecimento de relatórios e indicadores que podem estar longe da realidade; mais de um administrador ralhou comigo por eu ter a responsabilidade de uma sala de desenho com 12 desenhadores que não conseguia produzir o trabalho que se poderia esperar desse quadro de pessoal – porém, 5 dos trabalhadores não eram desenhadores, não tinham habilitações para isso, tinham sido reconvertidos para desempenharem  tarefas complementares, e outro tinha sido atingido por uma doença grave do foro neuro fisiológico que o mantinha em baixa prolongada. E este é um problema gravíssimo que os governantes e quem discute o conceito de produtividade não quer encarar de frente: grande parte da população portuguesa é atingida por doenças inibitórias do seu pleno rendimento, ou vivem em condições penalizantes (mais de 20% dos portugueses sofre de uma forma de depressão) . É mais fácil para o governo propor o despedimento de quem não consegue trabalhar a pleno rendimento, sem querer saber as razões e sem avaliar as hipóteses de solução. Na verdade, isso exigiria investimento em equipas de assistencia social e de medicina do trabalho com meios para intervirem. Exigiria igualmente o reforço das ações de formação e reciclagem profissional. É mais fácil par ao governo fazer generalizações abusivas e pretender fazer crer que o absentismo é exagerado e que a capacidade técnica dos trabalhadores é insuficiente. Não são, e tive ao longo de muitos anos a experiencia de trabalhar com profissionais de todos os níveis altamente dedicados e qualificados. Aliás, se os senhores governantes parassem um pouco para pensar nisso, concordariam que projetar (dispensava-se o novo riquismo e a monumentalidade de algumas estações, mas garanto que as decisões nesse sentido vieram sempre de cima, independentemente da cor do governo) , construir, fiscalizar, manter  e explorar redes de metro e equipamentos de transporte coletivo é muito complicado e exigente. Mas fez-se e faz-se com quem é acusado nas caixas de comentários de ter regalias excessivas.
Confesso que é difícil gerir todos os setores de uma empresa como o metro e a carris fundidas, mas com uma cultura de respeito pela dignidade das pessoas e com o debate aberto e participado pelos técnicos dos vários níveis hierárquicos e envolvendo todos os níveis profissionais, é possível.

6 -   Um período de estagnação na expansão de uma rede de transportes deverá ser aproveitado para uma reorganização interna que inclua a atualização dos normativos de procedimentos e de projeto, a sua compatibilização com as normas internacionais e o re-exame das condições de manutenção e exploração. Por exemplo, do ponto de vista tecnológico, o metro de Lisboa distingue-se neste momento, comparativamente com os principais homólogos, por não dispor de sistema de proteção e operação automáticos ATP/ATO), e a Carris por não incorporar autocarros elétricos ou híbridos. Adicionalmente, é uma oportunidade para estudar e elaborar o plano de expansão futura e realizar alguns projetos de remodelação e expansão, de que se destacam o equipamento de estações principais com meios para a acessibilidade de pessoas com mobilidade reduzida e as já referidas correspondências com parques de estacionamento na periferia (de que o melhor exemplo será na zona das Amoreiras, no prolongamento da linha vermelha). Dado tratar-se, no primeiro caso, de cumprimento das diretivas europeia sobre a mobilidade, e de uma medida de economia de combustíveis fósseis e redução de emissão de CO2, são investimentos elegíveis para os fundos QREN, desde que os projetos sejam eaborados. Igualmente é de destacar a oportunidade de realizar trabalho de projeto para o estrangeiro de que é exemplo uma das ampliações do metro de Argel, de âmbito aliás suscetível de alargamento.
Tudo isto requer a manutenção de um quadro de pessoal com as devidas qualificações.

Conclusão -  Salvo melhor opinião, que só o será se fundamentada em cálculos, será desejável uma política de pessoal diferente para resolver as questões de absentismo sem a centrar na preocupação dos despedimentos, e uma estratégia diferente para a reorganização e melhoria funcional da nova empresa fundida metro-carris.

sábado, 19 de janeiro de 2013

Continuação do “post” da meia lágrima - o transporte gratuito



Confirma-se o “post” da meia lágrima:

Desta vez a comunicação é oficial e personalizada.
Recebi uma educada e concisa carta da diretora de recursos humanos do metropolitano de Lisboa, informando que a partir de 1 de fevereiro deixarei de ter direito ao transporte gratuito.
Que é por imposição legal, por causa da lei do orçamento de Estado para 2013, mas que o meu cartão Lisboa Viva poderá sempre ser carregado com os montantes correspondentes aos títulos de transporte.
Que desejam um ano com saúde e tranquilidade, na expetativa de obter a minha compreensão.
Termos elegantes e corretos.
Já disse que sim, que compreendo.
E agora fico contente por  poder carregar  o meu cartão.
Acabou o privilégio de que usufruía, o senhor ministro bem tinha avisado que ia acabar com as regalias, vou passar a contribuir para o aumento das receitas do metro, ou melhor, da empresa  Transportes de Lisboa, e para diminuir o défice público.
Só tenho pena de se ter perdido no cabeçalho das cartas do metro aquele vermelho vivo do logótipo.
Mas terá sido também uma boa decisão para economizar na impressão das cores.
Realmente, como justificar o meu passe gratuito, perante a opinião pública, que enche, irada, as caixas de comentários sempre que há uma greve do metropolitano, apelando à privatização, já?
Porque os privados é que sabem gerir melhor, dizem os irados comentadores, surdos aos prejuízos da gestão privada dos metros do Porto e do Sul do Tejo (não é que façam má gestão, é que se o orçamento de Estado não tem as verbas necessárias para pagar os investimentos nas infraestruturas, os juros da dívida vão subindo de forma incomportável).
É verdade que é de uso quem trabalha numa empresa de produção ou de distribuição poder levar para casa uma porção de produto, embora isso seja uma evasão ao fisco porque não é uma regalia, é uma remuneração que foge à contabilização.
E também será um uso que deva acabar, pronto, não vou fora disso, como aquele hábito de distribuir sobrescritos com uma verba não contabilizável lá dentro, a título de prémio de performance (até que ponto é que tudo isto contribui para que na estatística a remuneração e o valor das reformas no setor privado são inferiores ao setor público? Estatística fiável, um problema por resolver em Portugal).
Pouco ligava ao meu cartão Lisboa Viva.
Agora vou dar-lhe mais valor.
Vou querer senti-lo com mais evidencia sobre o meu coração, no bolso esquerdo do casaco.



O meu cartão Lisboa Viva é inseparável de mim e eu tenho muito carinho por ele.
Mas ainda tenho uma questão, que não quero a que se dê seguimento, mas que quero sublinhar.
É que no cartão está impressa a data de emissão, janeiro de 2011.
E a data de renovação, julho de 2017.
Isto é, as condições de utilização do cartão seriam válidas até Julho de 2017.
A menos que se renegociassem com os utilizadores essas condições.
Ora, não houve renegociação, nem com o utilizador nem com estruturas representativas como a comissão de trabalhadores, por exemplo.
A alteração, por imposição legal, como disse a delicada doutora dos recursos humanos, foi então unilateral.
È isso que me engulha. Lembro-me sempre dos alemães e dos ingleses, e também dos franceses.
Antes de fazer qualquer coisa, um cidadão destas nacionalidades pergunta logo onde está o procedimento.
Onde está a norma com os procedimentos.
Em Portugal não, tirando honrosas exceções, em que incluo a maioria dos meus colaboradores dos diferentes níveis, durante a minha vida profissional.
A maioria, porque infelizmente pouca atenção foi dada à função “normalização” pelas hierarquias máximas na reta final dessa vida profissional, quando o âmbito das minhas responsabilidades era significativamente diversificado (importante que é agora, num período de estagnação, atualizar e completar os normativos...).
Não admira assim que as decisões das altas direções das empresas sejam tomadas unilateralmente, sem atenção à norma de procedimento.
Enchem a boca com a disciplina e a produtividade dos alemães (e contudo, também na Alemanha há acidentes intoleráveis, desde choque de comboios a derrocadas de prédios devido à construção de estações de metro), mas não reparam bem no que está escrito nos contratos.
Acham que estão mandatados para tomar decisões segundo a linha vertical da hierarquia da pirâmide, quando melhor fora pensarem na linha horizontal que reparte as responsabilidades, não em pirâmide, mas em forma de bilha (ou losango).
Brinco?
Não, não brinco. A organização de empresas não em pirâmide mas em forma de bilha aprendi eu há muitos, muitos anos, numa revista de uma grande empresa alemã.
Até estou de capaz de recomendar outra vez aquele livrinho sobre como destruir uma empresa:

Ou o livrinho de Elísio Estanque, “A classe média, ascensão e declínio”, ed. Fundação Francisco Manuel dos Santos, de onde retirei este gráfico comparativo de sociedades ou regimes com o grau de democraticidade a crescer para a direita:

Mas em Portugal acha-se que não, que devemos depender de grandes lideres, e continuamos a repetir a receita messiânica que nos mantem o PIB tão pequenino.
Não seguem o procedimento.
O crescimento económico só será possível com a mobilização da maioria da população, não depende principalmente do iluminismo de lideres.
Criticar-me-ão porque muitas vezes defendo que não nos devemos prender ao formalismo da letra da disposição legal.
É verdade, mas como tudo na Natureza, há normas e normas.
Como diz Paulo Morais, há normas feitas por escritórios de advogados que regulamentam atividades que nunca praticaram, especialmente quando envolvem assuntos técnicos de engenharia (o caso da contratação pública é paradigmático), e que são muito úteis para criar dúvidas a serem resolvidas pelos mesmos escritórios.
Há outras normas que não, que foram feitas e discutidas por técnicos da especialidade.
Não há de facto regras universais.
Mas não me importo, já disse, que tenham alterado unilateralmente o contrato do  meu cartão, antes de 2017.
Os reformados são crianças umas mais encarquilhadas que outras, que são muito sensíveis no sentimento da identidade e contentam-se com pouca coisa.
E eu fiquei muito contente por não me terem mandado devolver o meu cartão Lisboa Viva.
Mais grave são os reformados a quem pagam uma pensão insuficiente ou que, sendo pequena, vai sofrendo cortes para que as grandes entidades financeiras possam ir recuperando os seus negócios “as usual” (credit swap defaults por pensões, right?).
E não me venham com a justiça social de nivelar. Quando Otelo Saraiva de Carvalho visitou a Suécia, contava-se uma anedota, evidentemente inventada, que ele teria dito ao ministro sueco que em Portugal tínhamos acabado com os ricos, ao que o ministro respondeu que na Suécia tinham acabado com os pobres. Sem querer comparar Otelo ao MRPP, até parece que este subiu ao poder em Portugal e que a justiça social é nivelar por baixo (só em termos de rendimentos do trabalho ou de pensões, claro).
Mas o meu cartão, o meu cartão Lisboa Viva é fonte de satisfação para mim ficar com ele.
Trago-o sempre comigo, no bolso esquerdo, junto do coração.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Sem abrigo - Condomínio da rua



Condomínio da rua, peça de Nuno Costa Santos no teatro D.Maria II
http://www.youtube.com/watch?v=Ih8OircAF5g&feature=share&list=PL46AF2B2EA9D5567B

Sobre a exclusão social, sem abrigo,  a vida é uma condenação, uma prisão de onde é preciso sair às vezes …

Pareceria que expor esta problemática facilitaria o debate e o estudo de soluções.
Mas não, quando a senhora Lagarde fala (estranho, depois dos discursos de Tóquio, falar agora assim) interessa-lhe mais o sucesso dos indicadores que não o do desemprego.
E contudo, a exclusão social e a condenação a este tipo de vida também se vive nos países desenvolvidos, de PIB per capita elevado.
Deveriam parar para pensar, em vez de entoar loas aos indicadores e a voltar ao business as usual.

18 de janeiro de 1934


Já se vê pouco nos jornais, a referencia à efeméride da revolta da Marinha Grande, em 18 de Janeiro de 1934.
O gauleiter de Leiria foi muito eficaz. Consta que chegou a acorrentar sindicalistas à frente de uma locomotiva para evitar a sabotagem das linhas.
Muitos cidadãos de então terão apoiado a repressão da revolta, para se poder viver a paz salazarista.
Tal como muitos cidadãos agora reprovam as greves contra a politica pró desemprego do atual governo.
Como os economistas explicam com a lei de Philips, aumentar o desemprego é necessário para reduzir a procura e as importações, e assim conter os preços; isto só é possível porque os progressos tecnológicos permitem reduzir os custos de produção; entretanto, o crescimento económico, que poderia evitar o desemprego,  é limitado gravemente devido aos elevados custos de produção da energia primária, que têm de ser artificialmente, isto é, politicamente contidos de modo a evitar o desenvolvimento das energias renováveis.
Enfim,  repito o “post” de 18 de janeiro de 2010:

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Ruinas de Lisboa - Cinema Paris

Na rua Domingos Sequeira, em Campo de Ourique, junto da Estrela, ruínas do cinema Paris. Ameaça de derrocada, apesar de intervenções preventivas. Semelhanças com os cinemas em ruínas na parte antiga de Havana.


interior do cinema Paris, foto retirada do blogue

estado atual da fachada

Estação de metro de Cais do Sodré

Intervenção artística no nível do átrio de bilheteiras.
Úbere, mas penso que temporária.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Reforma do Estado

Mais uma chapelada deste blogue ao cartonista José Bandeira do DN.
Aprecio muito a capacidade de em poucas imagens e em poucas palavras exprimir conceitos essenciais.
Se bem interpreto, a questão está em como dinamizar um debate alargado e participado.
E especialmente não achar que a sociedade civil são uns senhores muito bem postos e cultos (como dizia o representante dos empresários de equipamentos de diversão, Portugal tambem é dos pequeninos).
Ao menos façam a síntese dos tópicos e disseminem (sugestão à organização).
Mas que sejam propostas concretas com respeito pelas pessoas (sugestão aos senhores bem postos).
E a propósito, por falar em reforma do Estado.
Não seria melhor discutir, não necessariamente no palácio Foz, mas por essas freguesias e empresas fora, em grupos de discussão e de sintese das propostas (o sistema até tem funcionado pela internet, em consultas publicas de estudos de impacto ambiental, por exemplo; pese embora depois ninguem ligar ao que os cidadãos disseram, a pretexto de terem passado prazos, por exemplo) mais do que a reforma do Estado, que é uma entidade sem rosto, mas a reforma dos métodos de trabalho das pessoas e de tomada de decisões pelas pessoas, no Estado, entidades públicas e nas empresas e entidades privadas?
Mas é uma questão de organização, de facto, tanto do debate como depois da operacioalização das medidas concretas.

A tormentosa novela do Acordo Ortográfico


Toma, que será a forma portuguesa de dizer Tiens, como os franceses.
Logo dois artigos no DN a desancar o pobre acordo ortográfico.
E quem sou eu para contestar tão doutas opiniões, do escritor e poeta, e dos grandes, Vasco Graça Moura e da senhora ex-ministra da Cultura e professora catedrática Isabel Pires de Lima.
Mas a liberdade de expressão tem destas coisas, permite a um ignorante como eu, valendo-se do atrevimento destemido que caracteriza a ignorância, dizer que os ilustres contestatários do acordo talvez não devessem ser tão perentórios nas suas opiniões.
E aqui chegado, verifico que até agora só violei uma vez o sacrossanto, para os contestatários, acordo de 1945, porque o acordo de 1990 só alterou a palavra peremptório para perentório, e isso porque estamos em Portugal; no Brasil manteve-se peremptório porque assim se pronuncia.
Aliás, no artigo de Vasco Graça Moura, com a nota de não escrito segundo o novo acordo, contei 6 palavras, num total de cerca de 600 palavras,  não escritas segundo o novo acordo; mas posso ter contado mal.
Talvez os incomode, deixar que a forma específica de pronuncia de um país ou uma região seja respeitada.
Serão centralistas, adeptos de formas únicas.
Pena, a diversidade é fonte de progresso mútuo.
Pena também porque o que está em causa é ortografia, não é lexicologia nem etimologia.
É que o problema é mais vasto, como já se viu neste blogue.
É um problema de entendimento, de compreensão entre recetor (ui, lá se foi o p) e emissor, de deficiente conteúdo de informação por parte das palavras.
Querem ver?
Queixamo-nos do acordo ortográfico porque espetador quer dizer assistente ao espetáculo e quer dizer espeto, aquilo ou aquele que espeta.
Mas escatológico também é uma palavra que isolada não contem informação suficiente sobre o que realmente significa.
Um cidadão no meio de uma sala diz escatológico e quem ouve não sabe se ele está a dizer apocalítico ou próprio de excrementos.
A língua portuguesa não é famosa em termos de suporte de informação. Deformámos esse suporte ao longo dos séculos, afastámo-nos da simplicidade e do significado unívoco.
Possivelmente porque evoluímos cerebralmente nesse sentido.
Pobres neurónios que nos dificultam o entendimento mútuo, a organização de equipas, a elaboração de programas interdisciplinares (sem hífen, sem hífen, que o acordo peca por não ter eliminado ainda mais hifens e acentos), a sua execução em esforço coletivo.

Mandou a senhora presidente do Brasil adiar a data de obrigatoriedade do cumprimento do acordo e a sua eventual revisão (curioso, o Brasil pô-lo em vigor, de forma facultativa em 2009, antes de Portugal). Da parte dos PALOP de África e Timor não parece entretanto vir muito entusiasmo, apesar da rica literatura angolana e moçambicana. Talvez haja interesses editoriais vários no meio disto, não sei. Ou simplesmente terá quebrado a ligação de confiança entre os técnicos ortográficos que participaram no trabalho conjunto e os políticos detentores ou representantes do poder (que, se são governantes, certamente serão suficentemente cultos para isso, de forma análoga ao que António disse dos conspiradores contra César).

Entretanto, acho pena, Vasco Graça Moura dizer que quem defende o acordo (que desde 1990 veio promovendo ações de divulgação sem que os opositores o tivessem corrigido; que no seu site oficial diz claramente que está em constante atualização) devia ter vergonha e que pertence ao clube dos pantomineiros da lingua portuguesa (CPLP).
Não me parece argumento, mas essa é outra pecha de como é diferente a discussão em Portugal.

Pena porque qualquer cidadão com acesso à internet pode encontrar no portal da língua portuguesa:

-  uma janelinha de pesquisa, no canto superior direito, que remete para o esclarecimento da palavra em duvida

-  a lista das palavras alteradas em Portugal (e propostas alteradas nos PALOP):

- a lista das palavras alteradas no Brasil:

- o resumo do que muda:

- um conversor ortográfico:


Isto é, novo vocabulário já temos, mas há sempre dificuldade em convergir; talvez seja a tal especificidade dos neurónios portugueses.

Eu diria que não há phleugma para isto (assim se escrevia no tempo do meu avô, quando os letreiros ostentavam orgulhosos a palavra pharmácia e nos lyceus se estudava chymica).


A meia lágrima e o transporte gratuito

Cai-me na caixa de correio dos emails um comunicado da administração conjunta da Carris e Metro.
Esclarecimentos de pormenor sobre os cortes nas remunerações.
E no meio de outras informações, esta de que cessa, em 1 de Fevereiro de 2013, o transporte gratuito para reformados.
Eu sou de temperamento secundário.
Embora tenha sido treinado para analisar friamente e fazer cálculos fundamentadores do que for capaz, reajo emocionalmente.
Sinto que a minha ligação ao Metro sofreu uma agressão.
Mas é uma ligação sentimental, não é uma agressão mensurável ou sequer detetável.
Não é uma regalia grande que cortam, nem vale a pena discutir o montante que provavelmente será poupado.
Nem discutir se o transporte gratuito era discriminação que ofendia os concidadãos que não beneficiavam da regalia.
Aliás, se eu tivesse de fazer os tais cálculos fundamentadores, chegaria não a uma equação mas a uma inequação;  num dos membros as incomensuráveis mesquinhez e falta de respeito pelos velhos (velhos; idosos ou seniores era no tempo do regular funcionamento das instituições), e no outro a pequenez, quase valor simbólico, da regalia.
Na verdade, de acordo com os padrões internacionais de trabalho, não era uma regalia, era uma forma de remuneração e, no caso dos reformados, uma compensação complementar devidamente informada e contratualizada na altura da entrada para a empresa; embora o pensamento dominante ache que não deve passar-se a vida numa empresa, que é como quem diz, o princípio de Peter passou a ser: quando tiver algum nível de competência numa empresa mude, para ser incompetente durante uns tempos noutra empresa.
Nem a administração podia contrariar o desatino da decisão tutelar, proferida com determinação entusiástica e pose estudada, com o espírito de missão de salvar o país pelo sacrificio e redenção.
Provavelmente achando que eu também ajudei a descapitalizar a empresa e o país e apelando aos despeitados das caixas de comentários que diabolizem os trabalhadores das empresas públicas, todas, e os dos transportes principalmente.
Mas como digo, não vale a pena discutir, até porque de facto é pouca coisa, não vale a pena.
Se escrevo isto, é porque eu me emociono.
Sou eu que tenho um temperamento secundário.
E nasce-me uma meia lágrima.
Sei que é uma meia lágrima porque escorreu e secou a meio da face.
Não foi uma lágrima inteira, porque essa nasce-me quando vejo um sem abrigo numa estação do Metro, e de raiva impotente por não poder pôr os senhores financeiros dos centros do poder a debater e a tomar decisões que melhorem a vida do sem abrigo.
Não é isso que diz a Declaração universal dos direitos humanos, perseguir o bem-estar?
(Ler-se-á sem um vergonhoso sorriso escarninho a declaração universal dos direitos humanos nos gabinetes dos financeiros?).
E não vou agora chorar uma lágrima inteira por ficar sem o transporte gratuito no Metro em que criei uma ligação sentimental.
Só meia lágrima, já secou.
Vou comprar um cartão recarregável, desses com nome de marketing de que nunca gostei.
Também tenho a mania de não gostar de certas coisas.
Mas carrego-o à mesma.
Para poder sentir o Metro de perto.
Continuar a senti-lo.

Business as usual



Morreu um dos assassinos de Aldo Moro, é uma das notícias do dia.
Tinha sido libertado, por motivos de saúde, em 1997, depois de condenado em 1983  a prisão perpétua.
O atentado mortal foi cometido em 1978, quando Aldo Moro, antigo primeiro ministro da democracia cristã, defendia um acordo com o partido comunista italiano, o PCI, maioritário nas sondagens.
O assassino fazia parte das brigadas vermelhas, que de vermelho só tinha o nome e o sangue das vitimas.
Mas o assassino matou mais do que Aldo Moro.
Deu uma ajuda à opinião pública e ao presidente norte-americano para que o partido comunista não ganhasse as eleições.
As brigadas vermelhas e o presidente norte-americano não combatiam o bloco soviético, isso combatia o próprio PCI, com todas as suas forças, na esperança de encontrar uma solução que não desse nisto que deu, no triunfo do ultraliberalismo de Thatcher, Reagan e a escola de Chicago.
Foi um assassínio eficaz para manter o sistema financeiro internacional.
Como eficaz terá sido o assassínio das três militantes curdas em Paris, numa altura em que é imprescindível um acordo entre o governo turco e os nacionalistas curdos.
Tudo o que seja evitar acordos, impedir as negociações entre as partes opostas, é bom para manter o sistema financeiro internacional.
Como dizia lord Gloucester por outras palavras (“business is business”), as guerras são muito boas para o negócio.
Ou como diria qualquer financeiro da escola do Goldman Sachs, depois do papel que eles desempenharam, “business as usual”.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Sem abrigo, fotografias de Henrique Rangel

Graças ao DN, encontro no facebook as fotografias de Henrique Rangel, fotógrafo brasileiro:
http://www.facebook.com/henriquerangelz#!/photo.php?fbid=445772405477613&set=a.231761690212020.67319.224595747595281&type=3&theater

São fotografias de pessoas sem abrigo de Lisboa, numa amostra da lei da selva.
Comentário de um fotógrafo belga sobre o tema, transcrito pelo autor:
" Inspiration d'un voyage où pauvreté et beauté cohabitent, en permanence, dans l´indifférence du regard des prisonniers du monde qui nous entoure" 
O pensamento oficial apela às organizações não governamentais para ajudar.
Mas eu penso que devemos insistir na Declaração universal dos direitos humanos e adaptar a economia aos objetivos (não pode ser a lei da selva a resolver, claro).
Salvo melhor opinião.












Henrique Rangel é tambem o autor do blogue Histórias das ruas:

http://www.historiasdasruas.com/2012/09/linhas-de-uma-vida_13.html#!/2012/09/linhas-de-uma-vida_13.html

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Isabel Medina, atriz


A propósito de um assalto à sua casa, Isabel Medina, atriz, foi entrevistada pelo DN.
Pela lucidez com que respondeu, dificilmente se poderia caraterizar melhor a problemática dos assaltos.
Uma pena faltarem os órgãos de análise e de implementação de soluções.
Preferencialmente a nível preventivo,  na origem dos males, esta ideologia que nos deixa entregues à lei da selva.
Transcrevo:
“Devemos parar para pensar, em vez de nos queixarmos. Saber como sair deste impasse económico e social. Se tudo nos retiram, obviamente que ninguém tem a obrigação de trabalhar para a banca e o mercado, poderes sem rosto que manipulam uns quantos fantoches que se dizem governantes. Não é contra os assaltantes que nos devemos virar, mas contra todo um sistema que provoca, alimenta e dá o exemplo... nenhum de nós, que permitiu que a sociedade mundial chegasse a este ponto, tem direito a condenar a pequena criminalidade, mas deve, sim, lutar para que as condições de vida não justifiquem nunca estes pequenos crimes”.

Há pouco tempo, o DN tinha dado a notícia de que um casal de jovens tinha sido preso num assalto a uma superfície comercial. No carro que tinham deixado à porta foram encontrados sacos de batatas fritas, algumas guloseimas, brinquedos, um televisor e o bebé deles, de 2 anos.
Diz o artigo 58º, nº2 da Constituição da Republica Portuguesa, que  “para assegurar o direito ao trabalho, incumbe ao Estado promover a execução de politicas de pleno emprego”.

Se não cumpre o artigo da Constituição, e existindo uma correlação forte entre o desemprego e a criminalidade, e uma ação decidida do governo em aumentar o numero de desempregados, o governo, por força da lógica, torna-se cúmplice.
Salvo melhor opinião, claro.

domingo, 13 de janeiro de 2013

Cenas da vida quotidiana retiradas do DN, nos idos de janeiro de 2013


Estamos em plena fúria de cortes nas despesas do Estado, mas devia haver um departamento público a analisar as cenas da vida quotidiana, tentar as correlações com factos a montante, propor estudos mais aprofundados, com a intervenção de especialistas (sociólogos, psiquiatras, técnicos de serviço social…) e fazer hipóteses de soluções.
Mas este tipo de observatórios anda a ser mal visto.
Podiam então ser as universidades a fazer estes estudos (o presidente da Fundação Gulbenkian, Artur Santos Silva, até  sugeriu isso mesmo para analisar bem as questões do relatório da troika ou o repensar das funções do Estado).
Talvez o façam, mas não são disseminados com eficácia.
Também há think tanks ou Fundações como a Francisco Manuel dos Santos a tentar medir os fenómenos.
Mas continua a não se sentir o impacto na discussão coletiva.

E teria muito interesse, senão vejamos a amostra dos dias 12 e 13 de janeiro no DN:

1 – Luís Figo em entrevista a uma revista espanhola – Não tem fé em que os governantes nos tirem da atual conjuntura internacional ; “creio mais nos gestores profissionais. Devíamos copiar os suecos. Em Espanha temo que um dia haja uma revolta popular e uma guerra civil. Há que ser humilde e copiar aquilo que funciona”.
Seria interessante que os leitores dos jornais desportivos ponderasssem estas palaras sensatas.
Não é provável que a desregulação dos sistemas que conduziu à crise financeira internacional que submergiu a nossa pequena economia (70% da divida privada nacional é divida imobiliária) seja agora a receita milagrosa (minimização do Estado e das despesas sociais, ou pagamento da crise internacional com as pensões dos principais prejudicados).
Também me parece que seria interessante discutir com os escandinavos formas de colaboração em que humildemente pudéssemos beneficiar da sua experiencia. Podíamos pensar no exemplo de Francisco de Sousa Coutinho, embaixador português em Estocolmo em 1641, negociando o tratado comercial com a Suécia para ajudar a independência, em ambiente de falta de liquidez.

2 – 94 pessoas foram presas pela GNR desde novembro de 2012 no distrito de Portalegre por apanha ilegal de 17,6 toneladas de azeitona – Comparando com igual período do ano passado, o aumento de pessoas presas, a maioria de nacionalidade portuguesa,  foi de 3030%.
A explicação é simples. O preço da azeitona subiu, possivelmente pelo seu aproveitamento na produção energética (ver a estratégia ficcionada de produção de bio-diesel em

Os combustíveis fósseis baratos que têm alimentado a economia fizeram esquecer o enorme potencial energético da azeitona e do seu bagaço. As 94 pessoas presas e muitas outras pelo país fora, que vão apanhando ilegalmente palha para o gado, cortiça, alfarrobas, resíduos de bio-massa talvez tenham sido levadas a compreender o valor muitas vezes desperdiçado.
Claro que o que fazem é ilegal.

Mas a omissão pelos governos de medidas para dinamização dos produtos e resíduos agrícolas, à luz da declaração universal dos direitos humanos, que no seu artigo 23º garante à pessoa o direito ao trabalho, classificar-se-á como?

3 – Dois irmãos ligados à exploração de uma propriedade agrícola executaram a tiro um cidadão na via publica por suspeitarem sem provas ser o autor de um furto de cobre e de motoserras na referida propriedade -  Infelizmente, generalizou-se a ideia de que é legitimo andar armado para defender a vida ou a propriedade.
Não é, porque o direito a um julgamento imparcial é também um direito universal, e a execução é irreversível, independentemente do fundamento da acusação.
Mas tratar-se-á apenas de uma correlação entre o contexto económico de desemprego, de insucesso escolar anterior, ou de ausência de estratégia económica, neste caso de investimento agrícola que absorva os cidadãos que andam ilegalmente a recolher produtos ou equipamentos agrícolas.
Mais fácil clamar por mais policiamento e por mais dureza nos castigos.
É uma forma de fugir ao cumprimento da declaração universal dos direitos humanos, ao direito e à obrigação de ter trabalho.

4 – Assassínio na sequencia de uma discussão motivada por cães – Um reformado da GNR matou a tiro um cidadão que trabalhava na sua pequena oficina, numa garagem em Queluz.
São vulgares as divergências entre vizinhos devido a cães e aos incómodos que podem provocar.
Mas a posse de armas pode dar nisto, e qualquer cidadão está sujeito a que o interlocutor puxe de uma arma.
Assunto a merecer intervenção de sociólogos, psiquiatras e técnicos de serviço social (até que ponto o ambiente depressivo que se vive na sociedade portuguesa e nos cidadãos que não têm hipótese de sucesso na crise, determina ou cataliza estes tipo de comportamentos?).
Salvo melhor opinião, julgar  e prender o cidadão prevaricador não basta. Medidas preventivas deveriam tornar mais difícil que isto aconteça.

5 - A propósito destas 4 noticias, eu gostaria de ouvir os senhores governantes e os senhores comentadores e analistas políticos a discutir publicamente as medidas preventivas e de investimento (mais policiamento não chega) para corrigir estas disfunções, se possível com a lucidez de Luís Figo.
Mas será pedir demais, talvez. 

Breve reflexão em frente de um problema de xadrez


Estive muito tempo a tentar encontrar a solução.
Não consegui.
Mais um argumento contra a minha auto-valorização.
Que é um fator essencial para o sucesso, nos tempos que correm.
Mais um insucesso meu.
Não era difícil, o tema era mate pelas brancas em dois lances, e havia que cortar o caminho ao rei negro, mas ao mesmo tempo arranjar um enfiamento para a Dama branca dar o mate na segunda jogada.
Fácil de entender que a imobilização do rei, tipo estratégia da aranha, era colocar a Dama branca numa casa que o fizesse.
Mas ao mesmo tempo essa casa tinha de dar acesso à casa do mate.
Não vi, depois de tempo demasiado a olhar para o tabuleiro.
A casa do mate, e que cobria a mesma casa da imobilização, para que o mate pudesse ser em dois lances, estava do outro lado da zona da Dama branca e não vi.
Se tivesse trocado impressões com alguém talvez lá chegássemos, os dois, ou os três.
Mas o interesse do jogo é tentar de forma individual.

E a breve reflexão é esta:
as combinações e as dificuldades conjunturais do xadrez têm analogias com as da vida real económica e financeira e graus de dificuldade comparáveis, mas são um jogo individual, ao contrário das questões económicas e financeiras que são de todos.

Pobres governantes que querem resolver sozinhos o problema do mate em dois lances, quando era muito melhor fazê-lo em debate coletivo e participativo.
Pobres deles, que não têm capacidade de “insight”   (ver

para perceber que não são capazes de resolver o problema, nem porque tantos estão a discordar deles.
Saberão jogar xadrez?
Não devem saber, a avaliar pelas dificuldades evidenciadas em combinar estratégias de calendário superior ao das legislaturas e por aplicarem receitas de autores de livros de xadrez sem olhar para o tabuleiro e para as suas posições concretas.


sábado, 12 de janeiro de 2013

As idades do mar, exposição de pintura na Fundação Gulbenkian

De 26 de outubro de 2012 a 27 de janeiro de 2013, a Fundação Gulbenkian mostra, agrupadas no que chamou idades do mar, pinturas marinhas.
O critério será talvez rebuscado, mas a exposição é uma maravilha de se ver.
Incluo alguns exemplos, do que mais me interessou:

O enlevo de Europa, de Nikias Skapinakis, ou pensarmos se estar na Europa traz sacrificios, mas se não traz tambem, ou deveria trazer, beneficios, organizados segundo a escala da Declaração universal dos direitos humanos



Noruega, uma sociedade com que deveriamos colaborar mais. Pararmos um pouco para os compreender e o que podemos aprender com eles. Quadro de Carl Nielsen, paisagem com fiord.



A chalupa, quadro de Amadeu Souza Cardoso; os perigos para quem anda no mar



A burguesia de vida desafogada da Lisboa de 1913 já conhecia os encantos da Praia das Maçãs. Quadro de José Malhoa


Este quadro de Philip Sadee, holandês do século XIX, mostra as condições de trabalho de pescadores e peixeiras

e o quinhão dos pobres, ou a condição dos pobres, do mesmo autor


Voltando à burguesia, um quadro de 1911 de António Carneiro, no norte de Portugal, Contemplação


ou outra representante da burguesia endinheirada em 1906, figura de branco em Biarritz, quadro de Joaquim Sorolla y Bastida


Novamente no campo do trabalho duro, apanhador de bivalves, quadro de Jan Toorop, holandês-indonésio do fim do século XIX


e o apanhador de sargaço (rico em carbono, como antigamente já se sabia do valor energético das coisas; como os combustíveis fósseis baratos fizeram esquecer isto), quadro de Anton Mauve, também holandês e de finais do século XIX


Mas tambem temos a fantasia, e a ilusão dsepreocupadas, com a Venus Anadyomene do francês Ingres


ou a sereia de 1893 de Aristide Sartorio, italiano da belle-époque


Que não nos fazem esquecer a história trágico maritima, na interpretação de Maria Helena Vieira da Silva



e as guerras inuteis e tão lesivas para o desenvolvimento económico de Portugal no século XVII, com as provincias unidas, a Holanda (vicio de combater, quando se deve negociar); quadro de Adam Willaerts de 1608, uma esquadra holandesa da companhia das Indias orientais ao largo da costa ocidental africana; impressionante, o poder de fogo dos galeões (o dinheiro que se gastou em armas...)




sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

O "Ano da Arquitetura Portuguesa"

Exmo Senhor Secretário de Estado da Cultura
Tomei conhecimento de que a FERCONSULT, empresa do grupo do Metropolitano, ganhou o concurso para o projeto de uma linha do metro de Alger e que a Secretaria de Estado da Cultura promoveu o "Ano da Arquitetura Portuguesa", para promoção internacional dos serviços de arquitetura.
A FERCONSULT, através dos seus arquitetos, encontra-se já a trabalhar nos projetos de novas estações do metro de Alger num contrato da ordem de 90 milhões de euros.
Existe a possibilidade do âmbito do trabalho ser alargado a novas extensões do metro de Alger, e, complementando o universo da Arquitetura, que a execução da obra, em empreitadas no valor de 10 a 20 vezes mais, seja ganha por empresas prtuguesas.
Porém, a capacidade de projeto e de condução de processos de concurso e execução de obra nas disciplinas das especialidades técnicas complementares (via férrea, eletricidade, eletromecânica, telecomunicações, sinalização ferroviária), detida ainda pelo Metropolitano de Lisboa e pela FERCONSULT através dos seus técnicos, não foi ainda dinamizada com o envolvimento dos referidos técnicos.
Nestas circunstancias, considerando o elevado interesse para o País de colocar os técnicos de Arquitetura e de Engenharia ao serviço da exportação (tornando assim o Metropolitano de Lisboa e a FERCONSULT produtores de bens ou serviços transacionáveis), o que me parece estar sintonizado com os objetivos do "Ano da Arquitetura Portuguesa", venho apresentar a sugestão para que a Secretaria de Estado da Cultura apoie estas empresas no alargamento das suas atividades internacionais.
Esta sugestão é feita no espírito do envolvimento declarado da sociedade civil e, salvo melhor opinião, não deverá ser condicionada pela estratégia do Governo nesta área, com excessiva dependencia do processo em curso de privatização ou concessão dos operadores de transporte coletivo.

Com os melhores cumprimentos e votos de sucesso para a iniciativa "Ano da Arquitetura Portuguesa"

a)

Julio Isidro

Já referi a revista Noticias TV, do DN, como um exemplo interessante de um trabalho feito por bons profissionais em que a maior parte dos temas tratados são de entretenimento acéfalo e estouvado, que em nada contribui, o entretenimento, não os profissionais, para uma melhoria, mesmo que ligeira, do nível cultural das pessoas.
Não quero que isto seja entendido como um desbafo elitista, e por isso cito mais uma vez aquela senhora figurante num dos “reality shows” que, ao ser entrevistada, esclareceu magistralmente a repórter:”sei que isto não é cultural, mas que quer, menina, é disto que gostamos”.
Tudo isto para referir a entrevista de Júlio Isidro à revista, de que cito dois pontos:
- antigamente havia ópera no Coliseu; no Coliseu 5000 pessoas assistiam à mesma ópera a que no S.Carlos assistiam 800; logo, o povo também quer ópera (e eu concordo)
- nunca me queixei dos meus vencimentos; mal pago é quem recebe o ordenado mínimo nacional.

E aí está como, possivelmente com a experiencia de quem faz programas desde o tempo do liceu Camões, em muito poucas palavras se diz mais e se derrota a mensagem do atual governo e dos senhorinhos do FMI.