terça-feira, 3 de dezembro de 2013
Citação do papa Francisco e o livro Escravos e traficantes no império português
2 - "Escravos e traficantes no império portugues" de Manuel Caldeira, ed.Esfera dos Livros
Relaciono estes dois temas porque, graças à Antena 2, tive notícia da edição desse livro extraordinário, e por estranhar que a Igreja católica, parece-me, esboça a condenação dos princípios basilares do sistema capitalista que nos governa.
O livro é extraordinário por revelar aquilo que o ensino oficial esconde: que Portugal foi o principal país traficante de escravos.
Dum total de 12,5 milhões de escravos traficados de 1500 a 1866, 5,8 foram-no em navios de bandeira portuguesa ou brasileira.
Seguem-se a Inglaterra (3,3milhões), a França (1,4), a Espanha (1,1) e a Holanda (0,5).
Que o fez oficialmente, com inicio na casa de Lancaster/Infante D.Henrique e depois com a concessão a privados da exploração do comércio de escravos.
E que a escravatura só foi abolida em 1878.
A associação de ideias que faço é que no século XVI a escravatura era aceite moralmente, tal como os princípios basilares do capitalismo o são agora.
Há registo de muito poucas vozes condenando a instituição escravatura (na verdade, um fator de produção essencial à economia da altura, dada a incipiência da mecanização, pondo-se a hipótese de que a abolição da escravatura nessa altura estimularia o desenvolvimento técnico).
Mas havia quem fosse contra, como frei Fernando de Oliveira, 1507-1582, que passou uns tempos nas cadeias da Inquisição depois de escrever o seguinte: "...a razão humana não consente...comprar e vender homens livres e pacíficos, como quem compra e vende alimárias...os que vão buscar esta gente não pretendem a sua salvação...se lhes tirarem o interesse não irão lá".
O negócio dos traficantes seguiu as leis da economia, foi "regulado" em 1684 por ordem do rei D.Pedro II, fixando as normas minimas de transporte dos negros cativos no "Regimento sobre o despacho dos negros cativos de Angola e mais conquistas e sobre a arqueação (tonelagem) dos navios" , uma atividade perfeitamente "irregulável", tal como as atividades bancárias e financeiras da atualidade.
E foram constituidas sociedades por ações. Em França, um dos principais acionistas era Voltaire, o filósofo da liberdade.
Em Portugal o negócio atingiu o cume já no século XIX, com barcos de vapor (e contudo, a abolição da escravatura serviu tambem para o desenvolvimento industrial), quando os outros países declinavam o negócio.
O célebre conde de Ferreira, filantropo responsável por escolas e hospitais, era traficante, assim como os fundadores do banco Fonseca e Irmão (mais tarde Fonsecas e Burnay).
O palacete onde está o grémio literário, em frente do edificio abandonado do metropolitano para acesso por elevadores à estação Baixa-Chiado, na rua Ivens, foi mandado construir pelo traficante Angelo Carneiro Lisboa, conde de Loures. Os títulos nobiliárquicos revelam a promiscuidade entre o poder politico e o poder económico. Tal como nos tempos que correm.
Enfim, como diria Mr Spock, um livro fascinante.
Será que o papa Francisco está a fazer o mesmo que fez frei Fernando de Oliveira há 500 anos?
E que daqui a 500 anos não haverá escravatura, sob a forma da atualidade, de submissão de seres humanos a formas de trabalho forçado ou de remuneração incompatível com um nível de vida minimo?
Apesar de ainda haver quem se escandalize quando se fala em ordenado mínimo, como as mentes bem pensantes do século XVI se escandalizavam se pusessem em causa a licitude de comprar escravos nos mercados de escravos de África para os vender nas Américas.
sexta-feira, 12 de junho de 2020
Viagens da escravatura pelos europeus
https://slavevoyages.org/voyage/database#timelapse
Com a devida vénia ao site Euractiv:
https://www.euractiv.com/section/transport/news/rail-rejuvenated-aerospace-anxiety-airline-blacklist/
reproduzo da secção "shipping news" uma interessante apresentação sobre o tráfico de escravos de África para o continente americano. São cerca de 31000 viagens registadas, mas elas devem ter sido 5 vezes mais.
Citando a área de Macbeth, "una macchia que e tuttaora" (uma mancha que permanece), não temos culpa do que os nossos antepassados fizeram, mas tambem não precisamos de os exaltar. O infante D.Henrique esteve ligado ao mercado de escravos de Lagos, no Algarve, Voltaire teve rendimentos de ações de companhias traficantes de escravos, traficantes foram o conde de Ferreira e o primeiro proprietário do edificio do Grémo Literário, aliás alcandorado a conde de Loures pelo rei.
Os decisores e quem os apoiava na altura achavam muito bem beneficiar da escravatura, mas já havia, no século XVI, quem manifestasse a discordancia frontal pela sua prática. Por exemplo, o padre Fernando Oliveira, ver
https://fcsseratostenes.blogspot.com/search?q=escravatura
Ou em Espanha, por ter estado em Cuba , o padre Bartolomeu de las Casas.
Pessoas como estes dois são as grandes figuras daquele século, não os aristocratas que os reis embarcavam nas frotas da expansão comercial a que os nossos historiadores chamam "descobrimentos".
terça-feira, 19 de novembro de 2013
Privatização dos CTT, populismo capitalista ou capitalismo popular?
quinta-feira, 21 de outubro de 2010
A conjetura do economista envergonhado
Há economistas assim.
Uma análise psicanalítica poderia colocar a hipótese de ser por insegurança própria, resolvendo-se em vergonha ou inibição.
Têm pudor em explicar os efeitos nocivos das suas leis.
É apenas uma conjetura, a do pudor do economista.
Por exemplo, a lei de Philips, vive escondida, como já tenho dito.
A lei dos rendimentos decrescentes
A lei dos rendimentos decrescentes, também ( em inglês: rate to profit to fall - RTPF).
É uma lei de grande impacto na interpretação de fenómenos históricos e sociais. Aumentando um fator de produção mantendo os outros fixos, chegará uma altura em que a produtividade marginal decrescerá (por exemplo, uma exploração agrícola aumenta a produção e o rendimento total até ao momento em que há excesso de mão de obra; idem para uma empresa em que o número de acionistas ultrapassou o ponto de equilíbrio).
Mas não se fala nela, apesar de Adam Smith e,especialmente David Ricardo, a terem desenvolvido; como se se quisesse manter os cidadãos e as cidadãs na ilusão de que a descida dos rendimentos de um investimento pode evitar-se indefinidamente. Valha a verdade que depois de Adam Smith e David Ricardo foi Marx que desenvolveu as aplicações desta lei, e os economistas de agora não gostam disso.
Porém a lei explica o que aconteceu, por exemplo, em Opidium (a cidade romana a nascente de Óbidos, descoberta com a construção da A8) e em Conimbriga. As cidades floresciam e de repente desertificaram. Disse-se que tinham sido as invasões dos bárbaros. Ora, o conceito de invasão dos bárbaros é muito discutível e parece ser primário, preguiça de se pensar melhor, porque as populações "agarradas" às economias locais, principalmente à produção agrícola, sempre foram prevalecendo ao longo das misceginações que se foram fazendo (ver Claudio Torres sobre este conceito). O que a lei dos rendimentos decrescentes explica é que a economia das cidades romanas assentava na escravatura, e foram aumentando de forma insustentável, como se diz agora, o número de escravos necessários para manter as cidades em funcionamento (poderiam ter utilizado a força do vapor que já era conhecida, mas os decisores políticos da altura não perceberam as variáveis em jogo e insistiram na escravatura) até que o rendimento decrescente levou as cidades ao declínio e à constituição dos montes agrícolas, unidades de produção agrícola autónomas, que depois deram nos feudos e nos conventos religiosos que tinham carater descentralizado e dimensões adaptadas à tecnologia da época. Isto é, a lei dos rendimentos decrescentes, não sendo o único fator, ajuda a compreender o declínio do império romano (e também dos outros) e a ascensão do movimento religioso.
O indicador de Gini da desigualdade de rendimentos
E o indicador de Gini? Já tinham ouvido falar? Eu , pelo menos, desconhecia, apesar de ser um elemento estatístico.
Não, não se fala, mas é um indicador utilizado pelas Nações Unidas para estabelecer uma lista ordenada de países.
O indicador de Gini mede a desigualdade de rendimentos dos cidadãos de um país, ou média de todas as diferenças entre os rendimentos de todos os cidadãos (ver http://en.wikipedia.org/wiki/Gini_coefficient#Credit_risk e http://en.wikipedia.org/wiki/List_of_countries_by_income_equality ).
E o que é mais importante, é que este indicador é um dos critérios de avaliação das agencias de "ranking" do risco do crédito.
Porque são os economistas tão envergonhados que não nos explicam isto mais claramente?
Isto é, mantendo os outros parâmetros, se quisermos taxas de juros mais baixas temos de baixar o indicador de desigualdade de rendimentos.
Por exemplo, o da Dinamarca é da ordem de 0,25, e o de Portugal é de 0,38 (valores limite teóricos: 0 para todos os cidadãos com rendimentos iguais, e 1 para um cidadão detentor de todo o rendimento nacional).
Podem consultar a lista no endereço indicado.
Como dizia Fernando Pessa, e esta, hein?
sexta-feira, 9 de dezembro de 2011
O mercado de escravos
Segundo o cronista Azurara, o infante D.Henrique assistiu ao desembarque.
D.Henrique era um empreendedor, possuidor do "know how" que a casa de Lencastre detinha.
Do ponto de vista do processo histórico, talvez se possa falar no despontar de uma forma de burguesia aristocrática, comercial e investidora na exploração e comércio marítimo.
Dado que no "know how" da casa de Lencastre e do seu ilustre filho, D.Henrique, não se encontrava o domínio da tecnologia do carvão e do vapor, a força de produção mais rentável para os empreendedores da altura era efetivamente o trabalho escravo.
Assim se iniciou, em 1444, um investimento rentável ao longo de 4 séculos.
Por estas e por outras é que os habitantes de Quenns em New York recusaram a estátua da rainha portuguesa Catarina, que está agora no Parque da Expo.
Recusaram mal, porque a História devia unir e não separar as pessoas, mas compreende-se.
O filme Amistad de Spielberg também não ajudou.
Valha-nos que houve quem lutasse sinceramente pela abolição da escravatura em Portugal no século XIX, quando a força de produção do carvão e do vapor já era mais rentável , pelo menos nos territórios europeus, levando os empreendedores ingleses a combater o tráfego de escravos para rentabilizar os investimentos no vapor.
Honra ao alferes português Eusébio de Oliveira, que apresou em Moçambique a barca negreira Charles & George em 1857, um ano depois da inauguração do caminho de ferro e da abolição da escravatura em Portugal. As justiças francesa e inglesa da época defendeu uma, e absteve-se a outra, os esclavagistas franceses.
Assim vou discorrendo, pensando coisas desagradáveis sobre as diplomacias francesa e inglesa, depois de ler o testemunho do senhor primeiro ministro inglês no fim da cimeira europeia de 9 de dezembro de 2011: "Que foi duro estar numa sala em que os outros 26 só diziam que tinha de se deixar de pensar nos interesses nacionais e seguir a multidão (crowd)". Talvez tenha sido por influencia do conflito do senhor governador do Banco de Portugal com o senhor deputado, um problema de "crowding out".
Interesses nacionais britânicos...
domingo, 21 de julho de 2013
Novo aeroporto, novo aeroporto
Fará parte da ideologia do senhor que o que a Vinci decidir será bem decidido, porque é privada.
Eu diria, questão ideológica à parte, que democracia é as comunidades terem uma palavra a dizer e a ser ouvida. E que isso é possível numa democracia, independentemente do seu governo ser de esquerda ou de direita, apesar de raramente ter acontecido na nossa.
A decisão da Vinci será debatida em assembleia de acionistas, sem que os cidadãos aí possam aceder.
É verdade que no tempo da ANA pública também não estava previsto o acesso de cidadãos ao esquema decisório.
Mas isso poderia corrigir-se melhorando a democracia.
Numa empresa privada, cujo principal objetivo é apresentar lucro aos acionistas, isso nunca poderá acontecer.
Por mais forte que seja o “regulador”.
Força essa que nunca poderá ser muito grande porque a partir do momento em que deixou de praticar o negócio começou a perder “know-how”.
É por isso que privatizar e concessionar não tem nada que ver com ideologias, tem apenas que ver onde se quer situar o poder decisório, numa assembleia de acionistas ou num conjunto de órgãos institucionais representativos e com participação de cidadãos (utopia de democracia direta? talvez; no tempo de Thomas More também era utopia viver-se sem escravatura).
Não se está a ver uma assembleia de acionistas da Vinci dar atenção as riscos da inexistência de um pipeline para alimentar a zona de abastecimento dos aviões e que são os riscos de quase uma centena de camiões carregados de combustível pelas vias adjacentes diariamente. Nem ligar muito à violação das diretivas europeias por se ter um aeroporto no centro da cidade (estas coisas evitam-se com projetos bem feitos e submissão aos fundos europeus). Nem questionar-se se 42 movimentos numa pista única não será pedir demais (já se fez o caminho paralelo no norte da pista para evitar o cruzamento nas manobras de taxi?)
Claro que a ANA pública também não ligou muito.
Mas retirar da esfera pública o poder decisório significa abdicar de vez da correção dessa deficiência. Com a agravante do senhor secretário de estado se gabar disso.
quinta-feira, 8 de setembro de 2011
Citações de Vasco Graça Moura e de Manuel Maria Carrilho
1- "o Governo tem agora de confrontar-se com recapitulações assassinas daquilo que foi tantas vezes afirmado pelas cúpulas partidárias, o que é muito desconfortável para quem o apoia"
2 - "torna-se evidente que as politicas de agressão fiscal direta ou indireta a uma classe média que é muito mais média baixa do que média alta ... vão ao arrepio de tudo o que tinha sido garantido"
3 - "o assalto à mão fiscal agora anunciado à queima roupa acarreta para os portugueses uma situação de escravatura intolerável (Vasco Graça Moura ter-se-á lembrado do Ouro do Reno: "Quem te deu o direito de submeteres à servidão o teu próprio irmão?") pela apropriação abusiva dos proventos do trabalho pela voracidade do Estado"
4 - "quem ganhar as eleições não pode dar o dito por não dito e o prometido por não prometido ... a maioria dos portugueses acreditou no que diziam o PSD e o CDS na campanha eleitoral e por isso votou neles"
Do DN de 8 de setembro de 2011, de Manuel Maria Carrilho:
5 - "não se põe em causa a necessidade de reduzir a dívida e o défice, mas o País precisa de um efetivo governo, não basta ter um contabilista, ainda que especialista em cobranças dificeis".
6 - "o ministro das finanças diz que não há milagres, e tem razão ... mas só uma sucessão de milagres tornaria possível ... o crescimento das exportações a 6% num contexto recessivo, a transmutação do investimento de -5,6% para +3%"
7 - "dupla ironia do destino: a ideologia do mais desbragado capitalismo chega ao poder no momento em que a crise sistémica atinge as proporções que conhecemos (como consequencia) do seu próprio paradigma"
A afirmação 4 estará relacionada com uma ameaça típica à democracia (voto dos interessados contra os seus próprios interesses) e pode ser discutida em âmbito interno; o problema a que está associada poderia ser resolvido se os portugueses ultrapassassem a sua velha doença genética de lhes ser dificil trabalhar em equipa.
Mas é dificil, não é impossivel.
Foi possivel trabalhar em equipa nalguns momentos dos governos provisórios, a seguir ao 25 de Abril.
Foi possivel a Melo Antunes trabalhar em equipa com o seu movimento das forças armadas.
Isto para não falar nos sucessos de empresas portuguesas que o DN tanto gosta de exibir. E sem esquecer, imodestamente, que apesar de muito dinheiro mal gasto (e contudo, como dizia Galileu, lembro-me de ter prescindido da aquisição de uma licença AutoCad para mim próprio, porque só a utilizaria 1 ou 2 vezes por mês e ela tinha um valor mensal; é por essas e por outras que não gosto dos cortes cegos, aplicados a quem quer que seja, independentemente do antecedente) , fazer as linhas de metropolitano que foram feitas não está ao alcance de ninguem que não trabalhe em equipa (embora esteja ao alcance de quem não é capaz de as fazer de impedir que elas se façam, isto a propósito da suspensão sine die da obra de expansão do Metro até à estação Reboleira).
E se quisermos exemplos externos, aí está a Islandia, em que a colaboração de partidos e cidadãos na resolução do problema está à vista.
Não é por falta de mecanismos democráticos legalmente expressos.
No caso islandês, o presidente da República e o Parlamento compreenderam a necessidade de envolver todas as sensibilidades na resolução do problema.
Em Portugal não; há uma incapacidade de compreensão disso por parte do senhor presidente da República, para quem os partidos mais próximos da sua ideologia e as regras económicas neoliberais se devem sobrepor à colaboração das outras sensibilidades.
É uma pena.
A afirmação 5 estará relacionada com demasiadas afirmações do senhor primeiro ministro e do senhor ministro das finanças. Dirão muitas coisas certas mas deviam moderar-se (embora eu gostasse de ouvir o senhor ministro das finanças mostrar números sobre a evolução da dívida privada, já que sobre a pública estamos conversados).
Como escrevia um comentador afeto ao partido no poder, "Por favor, não marquem mais datas para anunciar cortes".
Diz o senhor primeiro ministro: "agimos preventivamente, para fugirmos de perigos bem reais" (evidentemente que a capitalização do BPN, o buraco da Madeira e a suborçamentação dos salários e gastos de papel higiénico e de fotocópias eram perigos bem reais, mas não eram surpresas para quem vive no meio, logo não pode aplicar-se a palavra preventivamente; é a diferença dos tarifários pré-pago e pós-pago; e por favor, não volte o senhor primeiro ministro a dizer que não aumentará mais os impostos a menos que haja condicionalismos externos, primeiro porque a frase é vazia de sentido se não fornecer uma escala de medição do condicionalismo, e depois porque os ouvidos, que ainda se recordam das frases de Américo Tomás e de Garrastasu Medici, o que ouviram foi que "não faremos mais aumentos de impostos exceto aqueles que forem excecionais").
Diz o senhor ministro das finanças: "seria inaceitável pedir sacrificios aos portugueses por razões de prudencia".
O que é uma afirmação interessantissima do ponto de vista lógico, porque a prudencia pode implicar sacrificios, donde será inaceitável nesses casos ser prudente, o que poderia sugerir que nesses mesmos casos ou se deveria ser imprudente, ou nem prudente nem imprudente.
Sinceramente, antes o senhor ministro da saude, que já tem feito cortes cegos (classificação de queele não gosta) e já teve de emendar aquela infeliz afirmação sobre os transplantes, mas que vem dizer, no meio do nevoeiro das falencias dos hospitais (os hospitais podem estar em falencia? ou não receberam o dinheiro para cobrir os custos? ai estes termos ditos técnicos; gastaram demais? já escrevi neste blogue: informem-se junto dos administradores hospitalares realmente interessados que ainda existem; eles dirão onde se pode cortar) que tem ido buscar aos próprios hospitais medidas de poupança, o que é lógico, quem está nos locais de trabalho está mais dentro dos assuntos.
A afirmação 6 transcende o âmbito interno e parece só poder ser ultrapassada mediante colaboração com os BRIC e os PALOP, refiro-me às exportações.
Mas é tambem dificil, embora não impossivel.
quinta-feira, 17 de setembro de 2015
Campanha eleitoral, Psicologia social I, teoria do conformismo
De facto, analisar uma questão técnica que tem consequencias no dia a dia e no bolso dos cidadãos cansa, como por exemplo as necessidades de energia primária, ou de infraestruturas de comunicação ferroviária, e é dificil de concentrar e manter a atenção no seu estudo.
Desligados das razões que provocam realmente as coisas, os eleitores podem até votar em quem os prejudique, ou simplesmente absterem-se.
Ficou na história uma petição de escravos libertos, que pediam o regresso à escravatura por ser dificil viver em liberdade.
Então, tudo isto é um problema do cérebro humano quando se vive em grupo.
O cérebro humano acomoda-se às situações por mais incómodas que sejam e receia a mudança.
Não sou eu que o afirmo, encontro esta explicação no "livro da psicologia", de uma equipa de psicólogos, ed.Marcador (Dorling Kindersley, www.dk.com), no capítulo Psicologia Social.
Esta seria uma razão para os governos saídos de eleições não exibirem tanto orgulho na sua vitória. E por outro lado, seria uma boa razão para os partidos abdicarem do monopólio da intervenção política e consentirem numa maior participação na vida pública dos cidadãos e cidadãs, das entidades da sociedade civil, das associações profissionais, das empresas quando deixam que os seus conhecimentos técnicos se sobreponham ao interesse do lucro e da ligação ao poder político... porque as simples campanhas eleitorais não parecem ser suficientes para vencer a acomodação e a resignação.
Sem querer dar razão em todos os assuntos ao autor da citação seguinte, nomeadamente à caraterização da "corrente materialista" (eu diria a submissão ao lucro e ao mercado), parece aplicável a proposta de Alexander Soljenitsine para reduzir a parte emocional nas decisões da vida política:
"Só através de um movimento voluntário de moderação das nossas paixões, serena e aceite por nós, a humanidade pode alçar-se acima da corrente materialista que aprisiona o mundo. Ainda que nos fosse poupado sermos destruídos pela guerra, a nossa vida tem de mudar se não quiser perecer por sua própria culpa"
sexta-feira, 23 de novembro de 2012
Como se fosse a A Liga de Delos em Bruxelas
sexta-feira, 11 de maio de 2012
Voltando à poesia de Sofia de Melo Breyner - os Gracos
:
Os ricos nunca perdem a jogada
Nunca fazem um erro. Espiam
E esperam os erros dos outros
Administram os erros dos outros
São hábeis e sábios
Têm uma larga experiência do poder
E quando não podem usar a própria força
Usam a fraqueza dos outros
Apostam na fraqueza dos outros
E ganham
Tecem uma grande rede de estratagemas
Uma grande armadilha invisível
E devagar desviam o inimigo para o seu terreno
Para o sacrificar como um toiro na arena.
Sofia de Melo Breyner
Os Gracos. I Acto. II Cena – Obras completas - 1968
Os Gracos foram tribunos da plebe na Roma do século II AC. Promoveram leis de reforma agrária e de promoção da plebe que os consules patricios anularam depois. Spartacus conduziu a sua revolta contra a escravatura já no século I AC.
É possivel que Sofia de Melo Breyner tenha visto o filme de 1960 com Kirk Douglas e se tenha lembrado de ir buscar o episódio dos Gracos.
Dum e doutro lado da cortina de ferro, como dizia Churchill, a humanidade produziu duas obras primas pela forma e pela mensagem.
Donde, não parece ser boa prática extremar as posições e pô-las a competir.
Embora ao longo da história se tenha assistido a esta luta entre quem quer generalizar os benefícios e quem os quer reservar a uns poucos.
Não se pretende diabolizar os ricos, embora a disseminação do video sobre os donos de Portugal possa ser interpretado por alguns como isso.
http://vimeo.com/40658606
Nem persegui-los.
Apenas se desejaria que eles se democratizassem, isto é, que as suas famílias não se fechassem tanto, não fossem tão ciosas dos oligopólios.
A humanidade também já conquistou a ideia da não violencia, de Gandhi, e a declaração universal dos direitos humanos (direito ao trabalho, vem lá).
O que já é suficiente, sem necessitar de argumentar com os custos da confrontação, para nos deixarmos de propor a supremacia de uma ideia sobre outra.
Como diz José Matoso, é da diversidade que vem a regeneração, não do consenso que é mais uma forma de opressão de um pelo outro.
Devia ser o critério a seguir na formação dos governos, a participação alargada a todas as sensibilidades.
Mas como no tempo dos Gracos, há sempre alguém que não quer alargar a participação na res publica.
Pena.
segunda-feira, 15 de abril de 2019
Do Atlantida de Viana do Castelo ao Spitsbergen das ilhas Kirkenes
Quero eu dizer com esta história que se mantenha a privatização, mas que se conheça com pormenores toda a incompetência, negligencia, facciosismo e má fé que levaram à privatização.
https://www.jornaldenegocios.pt/empresas/detalhe/mario-ferreira-investigado-pela-pj-e-pelo-fisco?ref=DET_Engageya_JNegocios
terça-feira, 15 de dezembro de 2015
Reflexão sobre a Zara
Mais dizia a notícia que os lucros do grupo foram nesse período de dois mil milhões de euros para um total de vendas de 14,7 mil milhões.
O grupo continua a expandir-se, possuindo em todo o mundo 6913 lojas, das quais 230 abertas nos primeiros nove meses do ano, em 88 países.
Parece portanto longe do ponto da curva dos rendimentos decrescentes.
A notícia do dia 13 de dezembro era que desde 2009 fábricas clandestinas em Mataró, Catalunha, forneciam a Zara, o grupo Inditex e outras marcas internacionais da moda com vestuário confecionado por operários chineses escravizados. Por escravizados entende-se que trabalhavam 15 horas por dia de segunda a domingo recebendo 25 euros por dia, com que tinham de pagar a dívida da viagem desde a China.
A reflexão é sobre a conjetura de Adam Smith, de que talvez fosse mais difícil a uma democracia liberal abolir a escravatura do que a um tirano esclarecido. Porque o lucro é maior se se conseguir, pela força, reduzir a parte do trabalho no rendimento. A Marx pareceu que o progresso tecnológico poderia libertar os operários dessa opressão. Mas assiste-se atualmente à utilização da tecnologia para aumentar o desemprego e assim reduzir oo custo do trabalho. No caso dos fornecedores clandestinos da Zara foi-se mais longe, escravizou-se.
E contudo, os economistas da escola de Chicago e do consenso de Washington continuam, com os jornalistas que os aplaudem, a insistir que a competitividade e a produtividade são a chave do crescimento.
Crêem firmemente, ou querem que acreditemos que crêem, que desregulando, a economia cresce.
No caso da Zara crescem de facto, mas à custa de "dumping". Os senhores economistas devem ter pouca experiencia da vida empresarial. Acreditarão mesmo que é possível vender tão barato sem "dumping"?
Estou cansado dos jornalistas papagaios que insistem na conversa da competitividade e a acusar os trabalhadores portugueses de falta de produtividade (e contudo ela sobe, enquanto quociente entre o produto e a população, também à custa da emigração, porque o PIB diminui menos do que a população, coisa perfeitamente natural porque o quadro de pessoal não é o principal fator de produção).
Leio esta notícia e recordo o caso da barca Charles e George, apresada ao largo de Lourenço Marques no século XIX, com o negreiro francês a beneficiar do testemunho dos escravos algemados, que estavam assim melhor do que libertos porque iam trabalhar.
E também recordo o comentário anónimo citado por Tim Harford, no livro Adapte-se, para tranquilidade dos financeiros, que podem estar descansados, as pensões dos reformados garantirão sempre as suas especulações falhadas.
Acreditarão mesmo nas virtudes dos mercados a funcionar livremente? Ignorarão que a liberdade termina onde a igualdade e a fraternidade começam?
quarta-feira, 14 de novembro de 2012
O melhor povo do mundo
domingo, 11 de maio de 2014
Thomas Piketty, o capital no século XXI
http://en.wikipedia.org/wiki/Capital_in_the_Twenty-First_Century
Os comentadores televisivos de direita e os propagandistas do atual governo andam em pânico com o sucesso internacional do livro, mas não conseguem contestar os dados e a interpretação dos dados.
Fundamentalmente porque ele diz e prova o mesmo que livros como os donos de Portugal e como os sindicalistas e os não sindicalistas das manifestações contra os cortes vêm dizendo: que a economia desregulada (os mercados...) conduz ao pagamento das emergencias pelos salários e pelas pensões (até o senhor doutor Catroga, na entrevista ao DN de 10 de maio de 2014 o diz: "as pessoas, nos países endividados,...são quem tem de financiar os custos do ajustamento") e ao reforço da direção da economia pelas famílias ricas e suas dinastias e pelos super-assalariados que os servem, como os funcionários do FMI e do BCE (isto é, oligarquia e plutocracia, ao invés de democracia; não é possível ter simultaneamente desigualdade e democracia).
E mais em pânico ficam quando Piketty propõe uma medida mitigadora: a taxação progressiva sobre os rendimentos dos capitais (seria esta a ameaça do atual primeiro ministro no caso do chumbo de medidas pelo tribunal constitucional?).
Lá vão os comentadores e propagandistas do governo (aguarda-se a reação de João Cesar das Neves, embora o papa Francisco também não goste de fossos de desigualdade) ameaçar com a fuga dos capitais para a Holanda, Inglaterra e restantes off-shores (a menos que os respetivos governos e os eurocratas tenham lido o livro). Talvez achem que Piketty é marxista e contentam-se em mandá-lo para o inferno e pô-lo no index.
Podiamos começar pelo fim do sigilo bancário. Numa altura em que o comércio ilegal internacional de armas, droga, escravatura e matérias primas é feito de sangue, não seria mau começar por aí.
Que dirá Ban-ki-moon?
Ou podiamos ser mais modestos, em Portugal. Acelerar a taxa Tobin e, de forma inovadora, transformar, por exemplo, 40% da valorização bolsista dos donos de Portugal em propriedade do Estado com fins exclusivos de transação na bolsa e injeção dos proveitos na segurança social. Poupava nas transferencias, não se ia aos depósitos das grandes fortunas, cumpria-se a sugestão de Piketty, combatia-se a desigualdade, não era?
Podia-se discutir isto na campanha eleitoral para 25 de maio...
Curioso reparar na reação do senhor ex-ministro João Salgueiro quando se saiu no programa Olhos nos olhos, perante o espanto de Judite de Sousa e o silencio cumplice de Medina Carreira, que "os últimos dados não dizem que a desigualdade tenha aumentado". Cumplice porque os indicadores de pobreza e o coeficiente de Gini dão resultados diferentes se modificarmos os patamares definidores da pobreza (90 centimos por dia) e a paridade do poder de compra.
Devia mesmo discutir-se isto na campanha eleitoral.
segunda-feira, 13 de dezembro de 2021
La forza del destino, ópera de Giuseppe Verdi, libreto de Francesco Maria Piave, sobre uma peça de Angel de Saavedra
A Força do Destino, ópera de Verdi estreada em S.Petersburgo em 1862, já depois da reunificação italiana.
Verdi foi um pensador progressista que compreendia a natureza humana e as suas limitações e que nas suas óperas muitas vezes contrariou o pensamento da época.
Embora a história contada nesta ópera seja uma tragédia melodramática, contem elementos sempre atuais. É um verdadeiro libelo contra a xenofobia e o racismo, uma vez que o heroi é filho de um nobre espanhol colonizador da América do Sul e de uma princesa inca, o que é motivo de desconsideração pelos nobres espanhois (a desculpa de que na época a escravatura e o racismo eram comumente aceites é mentira, porque há documentos deixados por quem os condenava). Temperou a tragédia com elementos ligeiros, por exemplo, deixa os soldados num acampamento dos aliados espanhois e italianos gritar vivas à luta contra o invasor (Verdi defendeu a reunificação italiana contra o ocupante austríaco), deixa-os gritar que "são felizes, que a guerra é alegria e a vida aventurosa de um militar", mas põe camponeses a pedir esmola "porque a guerra destruiu os nossos campos", contrastando com o canto das vivandeiras "na guerra está a loucura que deve alegrar o acampamento, viva essa loucura que só ela deve reinar"
Seria possivelmente a unica maneira naquela altura de contornar a censura e chamar a atenção para a desgraça da guerra.
Escrevo isto numa altura em que a NATO e os seus homólogos russos se entregam a jogos que se espera não sejam de pré-guerra, com as gentis ministras dos negócios estrangeiros das nações mais ricas a ameaçar a Russia.
Em vez de estabelecer a paz com intercambio e comércio.
Viva Verdi.
https://www.youtube.com/watch?v=drbHCt0lwzo
sexta-feira, 11 de maio de 2012
Foyse gastando a esperança - ou a história económica de 5 séculos contada muito depressa
É provável que seja uma composição de Pero de Escobar, que passou grande parte da sua vida em Espanha.
Um pouco anterior a Camões, que glosou o tema numas redondilhas ("... no meio desta porfia, de quanto bem pretendia , foi-se gastando a esperança ... quando já não era meu, fui entendendo os enganos...").
Não consegui encontrar uma versão para três vozes, conforme o original, mas a adaptação para piano de Nuno Raimundo é uma beleza.
O século XVI em Portugal foi caracterizado por uma grande acumulação de riqueza em faixas restritas da população, graças às mais valias do comércio das especiarias e da escravatura da India e de África, e do intercambio comercial com a Europa central.
Enquanto a nobreza e a realeza contraiam dívidas e a população fornecia mão de obra barata para a expansão.
Esperemos que 5 séculos depois as pessoas deste país não gastem a esperança em vão.
É que os esforços dos habitantes deste país, da sua maioria, dos que trabalham e não têm o poder de decisão, ao longo destes 5 séculos, raramente atingiram a convergencia necessária para melhorias substanciais.
E mesmo assim, nesses poucos casos, apareceram sempre depois alguns conterraneos muito senhores dos seus meios de produção ou fontes de rendimento a repreender a maioria dos seus concidadãos e concidadãs.
terça-feira, 14 de julho de 2009
Vietnam, Vietnam ... Afeganistão, Afeganistão ...
Morreram 59 mil norte-americanos e 2 milhões de vietnamitas.
Para além das mortes, ficaram registados os efeitos das bombas napalm, dos desfolhantes laranja e das dioxinas.
O principal ideólogo da guerra foi o secretário de Estado Robert Mc Namara.
Argumentava-se na altura que era preciso conter o perigo vermelho.
Se utilizarmos critérios meramente economistas, dir-se-ia que era preciso evitar que os meios de produção do Vietnam fossem predominantemente públicos.
Se utilizarmos conceitos adam smithistas, dir-se-ia que era preciso garantir a liberdade económica e a iniciativa privada.
Diriam uns, na altura, porque outros sempre consideraram a guerra do Vietnam uma agressão, e erradamente fundamentada, mesmo com aqueles pressupostos.
Porque outros, na altura, exprimiam claramente a sua oposição à guerra e cantavam “All you need is love” e passeavam o símbolo da paz “Make love not war”.
Os filhos da burguesia do nosso país, já ameaçados pela nossa guerra colonial, apanhavam o avião para Londres e assistiam ao musical Hair e à sua representação da crucificação de mais um soldado norte-americano vítima da guerra (www.youtube.com/watch?v=EhbxI5eVnM4).
When the moon is in the Seventh House
And Jupiter aligns with Mars
Then peace will guide the planets
And love will steer the stars
Era o tempo em que os filhos da nossa burguesia (alguns, claro) contemplavam maravilhados o movimento da primavera marcelista, ouvindo os nossos economistas falar sobre o fim do condicionamento industrial, sobre a necessidade de canalizar os meios desperdiçados com a guerra colonial para a reindustrialização do país: Alqueva, o porto de Sines. Mas o doutor Marcelo preferiu dar ouvidos, receoso, à parte da tropa que ficou conhecida como brigada do reumático, que estava desligada da realidade, e que não gostava de canções de intervenção.
Por isso os filhos da nossa burguesia se deixavam encantar pelos cantores de intervenção contra a nossa guerra colonial e contra a triste ideologia que insistia na sua manutenção: José Afonso, Adriano, Fanhais, José Mário Branco, Manuel Freire, José Jorge Letria, Intróito, Fausto, Ary dos Santos.
Os crentes das virtudes quase divinas do adam smithismo sempre tiveram alergia aos cantores de intervenção. A polícia política da altura também lhes tinha alergia. Também os proibia de cantar nas pequenas colectividades de cultura e recreio por esse país fora.
Até que ponto este pequeno e discreto movimento contribuiu para abrir os olhos aos tenentes e capitães que executaram a revolução de 25 de Abril? Curioso, ter havido um espectáculo com os cantores de intervenção no Coliseu dos Recreios, em 30 de Março, menos de um mês antes… registado no relatório da polícia política como sem problemas.
E como o código genético dos norte-americanos é o mesmo do nosso, também a guerra do Vietnam teve um fim.
O ideólogo Mc Namara teve depois tempo para analisar o que tinha feito e escreveu, 30 anos depois:
“Estávamos horrorosamente enganados”.
Este facto é extremamente importante na história do século XX. O reconhecimento, a trinta anos, do erro da guerra.
Mc Namara compreendeu finalmente que as guerras se ganham na economia (quanto mais não fosse por razões etimológicas: oikos, a nossa casa), com os povos a produzirem e a trocar. Não com dioxinas teratogénicas.
Mas o mal estava feito.
O problema é que continua a fazer-se.
Sintetizando, havia umas pessoas com poder de fazer a guerra em 1959 que a queriam fazer e fizeram.
Havia outras pessoas que não queriam que a guerra se fizesse e passaram os anos seguintes a protestar até que a guerra acabou.
Mais uns anos, e as pessoas que tiveram o poder para fazer a guerra reconheceram que estavam erradas.
Dir-se-ia que estamos todos de acordo.
Mas não, o embuste continua, porque já chegámos todos à conclusão de que a guerra do Iraque foi um erro (não havia as tais armas de destruição maciça, pois não? Foi embuste) embora para isso tivesse sido preciso eleger como presidente dos USA uma pessoa que fosse dessa opinião, mas, e o mas é do tamanho do planeta Terra, mas agora temos a guerra do Afeganistão.
Bom, sintetizando outra vez, agora temos umas pessoas que têm o poder de fazer a guerra e dizem que tem de se fazer a guerra do Afeganistão.
E há outras pessoas que continuam a usar o símbolo e o lema da Paz, “Make love, not war”, e pedem o fim da guerra.
Claro que quem defende o fim da guerra do Afeganistão é agora acusado de tudo.
Mas já temos tanta experiência de sermos acusados de tudo… confesso que corremos o risco de cair no erro do método indutivo: apesar de na situação “n” estarmos certos em condenar a guerra “n”, e no momento “n+1” voltarmos a estar certos em condenar a guerra “n+1”, é sempre possível que na situação “n+j” estejamos agora errados.
E contudo, como é possível haver uma guerra justa? E muito menos santa, claro. Não é verdade que se ensina nas Academias militares que os soldados existem para defender, não para atacar? Podemos divergir na interpretação do que é defesa. Por exemplo, uma granada defensiva está programada para matar num raio superior ao do raio de uma granada ofensiva. Dir-se-ia que será mais uma razão para ninguém atacar ninguém.
Além de que “j” está tomando uma grandeza colossal.
Permitam-me recordar.
1 - Benjamim Franklin foi nomeado embaixador dos jovens USA em França, no período revolucionário. Os sucessivos relatórios que enviou para Washington foram classificados como irrealistas (será que a análise de Henrique Granadeiro é de aplicação mais abrangente do que parecia? Que desempenhar cargos governativos afasta do contexto e da realidade?), até que surgiu a ordem de demissão do embaixador. O comportamento do governo dos USA prejudicou ambos os países, a França e os USA.
2 – o embaixador dos USA em Angola, antes de Novembro de 1975, recomendou insistentemente ao seu governo que apoiasse o MPLA. Gerald Ford e Henry Kissinger acharam que não podia ser porque no MPLA eram todos comunistas. Uma das consequências deste afastamento da realidade foi a guerra civil de Angola.
3 – quanto ao Iraque, é do domínio público. Não havia as tais armas de destruição maciça, havia sim a necessidade de obtenção de petróleo (é do domínio publico a ligação da família do vice-presidente dos USA da altura à empresa de comercialização do petróleo iraquiano), que é de facto um problema fundamental para qualquer povo. Para além das mortes de soldados das forças de intervenção e dos civis e soldados iraquianos, existe outro dano irreversível que parece perseguir os exércitos americanos: perdeu-se uma parte demasiado grande do património do Museu de Bagdad. O valor do que se perdeu, só por si, justificava não se ter feito a guerra. O irónico é que em universidades dos USA existem especialistas do património histórico que são desta opinião. No próprio exército de intervenção houve oficiais que conseguiram salvar alguma coisa. Mas o balanço geral, do ponto de vista museológico, é uma catástrofe (recordo aqui que os edifícios de Pompeia foram danificados, por ordem crescente de destruição: 1-pela erupção do Vesúvio no que não foi conservado pelas próprias cinzas, 2- pela intervenção popular ao longo dos séculos, 3-pelo terramoto que ocorreu poucos anos antes da erupção, 4-pelo bombardeamento pela aviação aliada em 1943).
Como foi possível bombardear as ruínas de Pompeia?
Como foi possível destruir parte do Museu de Bagdad, memória do nascimento da nossa cultura? (revejam os manuais de história: a nossa civilização nasceu centrada entre os dois rios Tigre e Eufrates; isso é sagrado para qualquer especialista nas universidades dos USA).
Então, para que “j” não me deixe ficar mal, tenho de fazer votos para que os historiadores das universidades dos USA expliquem ao seu presidente o teorema dos imperadores romanos:
A distancia das fronteiras do império à capital é definida pela quantidade de energia alimentar (recorda-se que na altura o factor de produção mais importante era a escravatura que dependia da alimentação) que pode retirar-se do interior das fronteiras e distribuir pela população do império, versus a energia militar necessária para conquistar e manter as fronteiras.
Isto é, só deviam ampliar-se as fronteiras se a energia cerealífera que pudesse retirar-se dessa ampliação fosse superior à energia necessária para manter os exércitos e a paz das populações no interior das fronteiras mais a energia necessária para transportar e distribuir a energia cerealífera.
Então, novamente então, talvez os historiadores das universidades dos USA consigam convencer o seu presidente que só é útil, do ponto de vista energético, ocupar o Afeganistão se, e só se, a energia que se retirar dessa ocupação for suficiente para pagar o esforço militar e beneficiar as populações ocupada e dos USA.
A experiência da história universal ensina que raramente (outra vez o problema da incompletude de “j”, i.é, como poderei demonstrar que se “n” é, se “n+1” é, então “n+j” também é?) um esforço militar desta ordem não provoca uma pressão inflaccionista insuperável.
No caso do Afeganistão essa pressão será naturalmente extensiva aos aliados.
Até ao momento em que Washington se convencerá de que a situação será insustentável e dirá: “estávamos enganados”.
“Horrorosamente enganados”. Com consequências irreversíveis.
Horrorosamente, também, pobre Afeganistão.
Porque as suas professoras são assassinadas nas escolas.
Porque as suas mulheres polícias são assassinadas nas ruas.
Porque as meninas são assassinadas no percurso para a escola.
Porque os assassinos só serão vencidos quando uma nova geração for educada acreditando que as mulheres têm direito à educação. As mulheres e os homens. Perde-se tempo com a guerra, quando o problema é de escolas. De escolas onde se ensine que Khadidja (primeira mulher de Maomé) e Aisha (a última mulher de Maomé) eram mulheres livres e instruidas, como todas as mulheres muçulmanas devem ser. Para que todos possam cumprir a lição de todas as guerras anteriores: que é necessária a Paz para produzir e trocar os bens.
Esse, o das escolas, é que deve ser o teatro de operações.
Não a guerra.
Pode ser que os historiadores das universidades dos USA consigam explicar isso.
Ou será que agora, finalmente, sou eu que estou enganado, e o problema não tem mesmo solução? Que estamos perante uma incompletude trágica?


