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terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Citação do papa Francisco e o livro Escravos e traficantes no império português

1 - citação do papa Francisco: "Esta economia mata. Não é possível que a morte por enregelamento de um idoso sem abrigo não seja uma notícia como a descida de dois pontos da bolsa".
2 - "Escravos e traficantes no império portugues" de Manuel Caldeira, ed.Esfera dos Livros

Relaciono estes dois temas porque, graças à Antena 2, tive notícia da edição desse livro extraordinário, e por estranhar que a Igreja católica, parece-me, esboça a condenação dos princípios basilares do sistema capitalista que nos governa.
O livro é extraordinário por revelar aquilo que o ensino oficial esconde: que Portugal foi o principal país traficante de escravos.
Dum total de 12,5 milhões de escravos traficados de 1500 a 1866, 5,8 foram-no em navios de bandeira portuguesa ou brasileira.
Seguem-se a Inglaterra (3,3milhões), a França (1,4), a Espanha (1,1) e a Holanda (0,5).
Que o fez oficialmente, com inicio na casa de Lancaster/Infante D.Henrique e depois com a concessão a privados da exploração do comércio de escravos.
E que a escravatura só foi abolida em 1878.

A associação de ideias que faço é que no século XVI a escravatura era aceite moralmente, tal como os princípios basilares do capitalismo o são agora.
Há registo de muito poucas vozes condenando a instituição escravatura (na verdade, um fator de produção essencial à economia da altura, dada a incipiência da mecanização, pondo-se a hipótese de que a abolição da escravatura nessa altura estimularia o desenvolvimento técnico).
Mas havia quem fosse contra, como frei Fernando de Oliveira, 1507-1582, que passou uns tempos nas cadeias da Inquisição depois de escrever o seguinte: "...a razão humana não consente...comprar e vender homens livres e pacíficos, como quem compra e vende alimárias...os que vão buscar esta gente não pretendem a sua salvação...se lhes tirarem o interesse não irão lá".
O negócio dos traficantes seguiu as leis da economia, foi "regulado" em 1684 por ordem do rei D.Pedro II, fixando as normas minimas de transporte dos negros cativos no "Regimento sobre o despacho dos negros cativos de Angola e mais conquistas e sobre a arqueação (tonelagem) dos navios" , uma atividade perfeitamente "irregulável", tal como as atividades bancárias e financeiras da atualidade.
E foram constituidas sociedades por ações. Em França, um dos principais acionistas era Voltaire, o filósofo da liberdade.
Em Portugal o negócio atingiu o cume já no século XIX, com barcos de vapor (e contudo, a abolição da escravatura serviu tambem para o desenvolvimento industrial), quando os outros países declinavam o negócio.
O célebre conde de Ferreira, filantropo responsável por escolas e hospitais, era traficante, assim como os fundadores do banco Fonseca e Irmão (mais tarde Fonsecas e Burnay).
O palacete onde está o grémio literário, em frente do edificio abandonado do metropolitano para acesso por elevadores à estação Baixa-Chiado, na rua Ivens, foi mandado construir pelo traficante Angelo Carneiro Lisboa, conde de Loures. Os títulos nobiliárquicos revelam a promiscuidade entre o poder politico e o poder económico. Tal como nos tempos que correm.

Enfim, como diria Mr Spock, um livro fascinante.
Será que o papa Francisco está a fazer o mesmo que fez frei Fernando de Oliveira há 500 anos?
E que daqui a 500 anos não haverá escravatura, sob a forma da atualidade, de submissão de seres humanos a formas de trabalho forçado ou de remuneração incompatível com um nível de vida minimo?
Apesar de ainda haver quem se escandalize quando se fala em ordenado mínimo, como as mentes bem pensantes do século XVI se escandalizavam se pusessem em causa a licitude de comprar escravos nos mercados de escravos de África para os vender nas Américas.




sexta-feira, 12 de junho de 2020

Viagens da escravatura pelos europeus


https://slavevoyages.org/voyage/database#timelapse

Com a devida vénia ao site Euractiv:
https://www.euractiv.com/section/transport/news/rail-rejuvenated-aerospace-anxiety-airline-blacklist/

reproduzo da secção "shipping news" uma interessante apresentação sobre o tráfico de escravos de África para o continente americano. São cerca de 31000 viagens registadas, mas elas devem ter sido 5 vezes mais.
Citando a área de Macbeth, "una macchia que e tuttaora" (uma mancha que permanece), não temos culpa do que os nossos antepassados fizeram, mas tambem não precisamos de os exaltar. O infante D.Henrique esteve ligado ao mercado de escravos de Lagos, no Algarve, Voltaire teve rendimentos de ações de companhias traficantes de escravos, traficantes foram o conde de Ferreira e o primeiro proprietário do edificio do Grémo Literário, aliás alcandorado a conde de Loures pelo rei.
Os decisores e quem os apoiava na altura achavam muito bem beneficiar da escravatura, mas já havia, no século XVI, quem manifestasse a discordancia frontal pela sua prática. Por exemplo, o padre Fernando Oliveira, ver
https://fcsseratostenes.blogspot.com/search?q=escravatura
Ou em Espanha, por ter estado em Cuba , o padre Bartolomeu de las Casas.
Pessoas como estes dois são as grandes figuras daquele século, não os aristocratas que os reis embarcavam nas frotas da expansão comercial a que os nossos historiadores chamam "descobrimentos".

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Privatização dos CTT, populismo capitalista ou capitalismo popular?

Tão contentes que andam os senhores governantes.
Já antevêem juntar 750 milhões de euros pela privatização de grande parte dos CTT.
Reduzem a dívida, que continua a aumentar enquanto se mantiverem os juros e a armadilha da pobreza do crescimento, e fazem a vontade aos senhores da troika.
Nem os senhores governantes nem os da troika sabem o valor dos CTT como fator de coesão nacional.
Não sabem, nem viram o filme de Kevin Costner, mas consideram-se legitimados pelo voto a fazer o que vão fazer.
Eu acho que deveriam ser precisos 2/3 de votos no parlamento para o poderem fazer, mas enfim, são eles que detêm o poder.
Ainda por cima vão vender uma coisa que dá lucro, que contrasenso, ficar sem os dividendos.
Nós portugueses, ainda somos apegados às coisas públicas (e contudo, os mais prejudicados não protestam, como dizem o  senhor professor João César das Neves e o senhor politico Portas).
Até por uma questão de prudência.
Não é que os heróis ingleses que são o modelo dos nossos governantes, privatizaram parcialmente o Royal Mail e agora andam a desconfiar do Goldman Sachs que os embarretaram manipulando o preço das ações?
Entusiasmados primeiro com o populismo capitalista da Thatcher (espera, não era capitalismo popular que ela dizia?) de distribuir ações pelos trabalhadores, agora andam desconfiados.
Como se não soubessem que a ganancia é a interpretação que os grandes grupos fazem do conceito de lucro e como se não soubessem uma evidencia, que é a de que os grandes grupos são “irreguláveis”, por definição (senão não eram grandes).
Vai havendo algum sucesso na contenção, umas multasitas a off-shores, ao UBS suiço, ao banco inglês que manipulou a Libor, mas no geral os grandes grupos puxam mesmo os cordelinhos.
Por definição de grandes grupos.
Mas já imaginaram a reação mortífera deles se, por hipótese remota, o SPD alemão se coligasse com o Linke e os Verdes, num conjunto que teria a maioria no parlamento alemão?
De que coisas terríveis eles se lembrariam.
Parafraseando João César das Neves, devia ser o pior que se poderia fazer aos mais pobres (ironizo, claro, que ainda acredito na Humanidade e na Declaração Universal).
Mas podem estar descansados. Tal coligação tem uma probabilidade reduzidíssima de ocorrer.
Embora pudesse ser um primeiro passo para uma democracia mais alargada e participativa, ultrapassando a fase da democracia por delegação e representativa e entrando na fase da participação (que diabo, embora este seja um argumento marxista por assentar na análise dos meios tecnológicos ao serviço do processo histórico, a verdade é que a internet permite recursos viabilizadores da democracia participativa  inexistentes há poucos anos).
E porque não pode acontecer uma coisa destas? nem  acontecer uma votação clara em partidos de esquerda nas próximas eleições para o parlamento europeu? Isso também poderia ser um primeiro passo para a democracia participativa que até os partidos de direita  poderiam aceitar (quanto mais não fosse para controle mútuo entre partidos).
Por outras palavras: porque existindo uma cada vez maior desigualdade, um empobrecimento dos mais pobres pela desvalorização do fator trabalho e uma concentração da riqueza em cada vez menos, os mais prejudicados não votam pelos seus interesses?
Eis uma pergunta que eu já ouvia ao capitão da minha companhia em Mafra, em 1971, quando eu reclamava pela falta de atenção aos companheiros que mais dificuldades tinham nos crosses de 10km: “Nosso cadete, eles que se queixem, queixe-se só das suas coisas”.
Era a defesa de um sistema anti-social contra a solidariedade que ameaçava o último império colonial.
Assim também o sistema económico e financeiro defendido pelos senhores governantes e pelos senhores da troika tentam rechaçar a solidariedade dos que, não sendo pobres, reclamam por eles, ou não sendo reformados pela segurança social, reclamam pelos pensionistas da caixa geral de aposentações.
Mas voltando à questão: porque não são os mais ofendidos aqueles que protestam?
porque se absteem eles nas eleições? porque entre miguelistas e constitucionalistas optavam pelos miguelistas?
Hipótese: os homens e as mulheres não são só racionalidade. A tomada das suas decisões, ou a omissão de tomada de decisões não tem apenas uma base racional. Os homens e as mulheres são elementos de conjuntos físicos como qualquer conjunto na natureza. Os conjuntos tendem naturalmente para estados de maior equilíbrio através do aumento da entropia, medida pelo grau de desordem e de movimentos desordenados que teem como resultante, paradoxalmente, esse maior equilíbrio.
Por isso, as sociedades tendem a reproduzir sucessivamente os estados anteriores, a desconfiar de roturas disruptivas, como dizem agora os teóricos da economia política quando querem combater as mudanças incrementais ou as garantias laborais a que chamam “rígidas” e anti-competitivas.
Antigamente chamava-se à disrupção social a política da terra queimada. Agora chama-se destruição criativa. Mas são apenas figuras de estilo, falsas proclamações de reformas do estado social para o salvar (“calai-vos que pode o povo querer um mundo novo a sério”) porque o objetivo dos senhores governantes e dos senhores da troika é manter o sistema financeiro em equilíbrio (até chamaram contratos de reequilíbrio financeiro às compensações que recebe quando as PPP correm mal).
Por isso os mais oprimidos e prejudicados se entregam aos empregos mal pagos quando o têm, ou tentam alternativas de auto-subsistencia quando não encontram emprego, e não participam na democracia. Vistos à distancia, os seus movimentos são descoordenados como os movimentos  moleculares tendendo para a conservação.
Assim se explica que os prosélitos das religiões encontrem aderentes entre os que sofrem mais (“a religião é o lenitivo dos pobres” – Karl Marx) e que os sobreviventes de catástrofes naturais se refugiem na religião de uma entidade divina que segundo    a  mesma religião é responsável pela catástrofe.
Para mudar, só aumentando a racionalidade, através por exemplo da educação,a qual porém, exige melhores condições de vida.
Por isso as mudanças podem não ser significativas durante um período de observação curto.
Mas, tenderão para um limite conforme o processo histórico mostra: uma das principais fontes de rendimento de Voltaire eram os dividendos das ações de companhias negreiras. No século XVIII a escravatura era aceite por todos os pensadores.
Hoje só os defensores da redução do fator trabalho à última expressão a defenderão, e não expressamente.
E, talvez como Lincoln tenha compreendido, a escravatura tinha de ser abolida para não prejudicar o desenvolvimento industrial e para não ameaçar a competitividade da produção assente na maquinaria.
O pensamento evolui, de facto.
É provável que os dogmas dos senhores governantes e dos senhores da troika de hoje sejam considerados daqui a um século como hoje consideramos a escravatura…
 
PS em 19de novembro - segundo o DN, os lucros dos CTT em 2013 foram de 45 milhões de euros. O produto da venda por 750 milhões, posto a render a uma taxa superior à da Euribor em 3% daria à volta de 23 milhões de euros por ano. Não me parece que seja negócio. Se fosse meu não vendia (e contudo, sou acionista, como contribuinte, sendo que duvido muito que 2/3 dos outros acionistas queiram vender).  
Correção: Serão privatizados 70% do capital dos CTT, sendo 56% destinados a grandes investidores, 10,5% a pequenos investidores (ai o capitalismo popular, ou populismo capitalista, que já deu provas do que é na realidade) e 3,5% a trabalhadores .  De salientar a assessoria da Caixa BI (com vasta experiencia na negociação de PPP, nomeadamente sob a direção do atual senhor secretário de Estado dos Transportes e Comunicações) e do JP Morgan (de público protagonismo na crise financeira internacional), num alarde de BAU ("business as usual"). Eu pouco importo, mas o que está a ser feito não é em meu nome.
PS em 20 de novembro - Vão-se sabndo mais pormenores da privatizaçao em curso. Afinal os 30% que o Estado vai ficar a deter podem ser privatizados ao fim de 9 meses (será a estratégia do "petit a petit" para não chocar muito estar-se a vender uma coisa que dá lucro). Afinal não se sabe se os CTT podem criar um banco postal (isto é, está-se a vender uma coisa sem se saber o que ela pode fazer em toda a sua extensão). Afinal é apresentada como uma vantagem para os trabalhadores passarem para  esfera privada para que no próximo ano possam recuperar o que lhes foi cortado nos salários como funcionários de uma empresa públca (recordam-se dos senhores ministros muito escandalizados   a dizer que os trabalhadores privados eram prejudicados relativamente aos do setor público? agora parece que são beneficiados). Como escreveu hoje Batista Bastos no DN : "Não me interessa nomear todos aqueles que demonstram propensão para o patricídio. Interessa-me, sim, afirmar que são cúmplices de uma das maiores desventuras da nossa história como coletividade e como nação". Ah, é verdade, o JPMorgan foi condenado nos USA ao pagamento de uma multa de 10 mil milhões de euros. Acho pouco, para o mal que fez à Humanidade, mas o juíz terá as suas razões que eu desconheço, possivelmente o não ter jurisdição nas áreas internacionais omo as economias de pequenos países,  em que o comportamento anti-deontológico do JPMorgan possa ter provocado graves danos.
 
 
 
 




quinta-feira, 21 de outubro de 2010

A conjetura do economista envergonhado

Há médicos assim. Inibem-se de dizer a verdade ao doente. Mesmo que o assunto não seja sério, preferem manter a sua ciência longe da compreensão dos cidadãos e cidadãs.
Há economistas assim.
Uma análise psicanalítica poderia colocar a hipótese de ser por insegurança própria, resolvendo-se em vergonha ou inibição.
Têm pudor em explicar os efeitos nocivos das suas leis.
É apenas uma conjetura, a do pudor do economista.

Por exemplo, a lei de Philips, vive escondida, como já tenho dito.

A lei dos rendimentos decrescentes
A lei dos rendimentos decrescentes, também ( em inglês: rate to profit to fall - RTPF).
É uma lei de grande impacto na interpretação de fenómenos históricos e sociais. Aumentando um fator de produção mantendo os outros fixos, chegará uma altura em que a produtividade marginal  decrescerá (por exemplo, uma exploração agrícola aumenta a produção e o rendimento total até ao momento em que há excesso de mão de obra; idem para uma empresa em que o número de acionistas ultrapassou o ponto de equilíbrio).
Mas não se fala nela, apesar de Adam Smith e,especialmente David Ricardo, a terem desenvolvido; como se se quisesse manter os cidadãos e as cidadãs na ilusão de que a descida dos rendimentos de um investimento pode evitar-se indefinidamente. Valha a verdade que depois de Adam Smith e David Ricardo foi Marx que desenvolveu as aplicações desta lei, e os economistas de agora não gostam disso.
Porém a lei explica o que aconteceu, por exemplo,  em Opidium (a cidade romana a nascente de Óbidos, descoberta com a construção da A8) e em Conimbriga. As cidades floresciam e de repente desertificaram. Disse-se que tinham sido as invasões dos bárbaros. Ora, o conceito de invasão dos bárbaros é muito discutível e parece  ser primário, preguiça de se pensar melhor, porque as populações "agarradas" às economias locais, principalmente à produção agrícola, sempre foram prevalecendo ao longo das misceginações que se foram fazendo (ver Claudio Torres sobre este conceito). O que a lei dos rendimentos decrescentes explica é que a economia das cidades romanas assentava na escravatura, e foram aumentando de forma insustentável, como se diz agora, o número de escravos necessários para manter as cidades em funcionamento (poderiam ter utilizado a força do vapor que já era conhecida, mas os decisores políticos da altura não perceberam as variáveis em jogo e insistiram na escravatura) até que o rendimento decrescente levou as cidades ao declínio e à constituição dos montes agrícolas, unidades de produção agrícola autónomas, que depois deram nos feudos e nos conventos religiosos que tinham carater descentralizado e dimensões adaptadas à tecnologia da época. Isto é, a lei dos rendimentos decrescentes, não sendo o único fator,  ajuda a compreender o declínio do império romano (e também dos outros) e a ascensão do movimento religioso.

O indicador de Gini da desigualdade de rendimentos
E o indicador de Gini? Já tinham ouvido falar? Eu , pelo menos, desconhecia, apesar de ser um elemento estatístico.
Não, não se fala, mas é um indicador utilizado pelas Nações Unidas para estabelecer uma lista ordenada de países.
O indicador de Gini mede a desigualdade de rendimentos dos cidadãos  de um país, ou média  de todas as diferenças entre os rendimentos de todos os cidadãos           (ver http://en.wikipedia.org/wiki/Gini_coefficient#Credit_risk    e  http://en.wikipedia.org/wiki/List_of_countries_by_income_equality  ).

E o que é mais importante, é que este indicador é um dos critérios de avaliação das agencias de "ranking" do risco do crédito.
Porque são os economistas tão envergonhados que não nos explicam isto mais claramente?
Isto é, mantendo os outros parâmetros, se quisermos taxas de juros mais baixas temos de baixar o indicador de desigualdade de rendimentos.
Por exemplo, o da Dinamarca é da ordem de 0,25, e o de Portugal é de 0,38 (valores limite teóricos: 0 para todos os cidadãos com rendimentos iguais, e 1 para um cidadão detentor de todo o rendimento nacional).
Podem consultar a lista no endereço indicado.
Como dizia Fernando Pessa, e esta, hein?

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

O mercado de escravos

Com a devida vénia ao DN, que assinalou , a propósito da descoberta de um cemitério de escravos, a efeméride da chegada a Lagos, no Algarve, do primeiro carregamento de escravos, em 1444.
Segundo o cronista Azurara, o infante D.Henrique assistiu ao desembarque.
D.Henrique era um empreendedor, possuidor do "know how" que a casa de Lencastre detinha.
Do ponto de vista do processo histórico, talvez se possa falar no despontar de uma forma de burguesia aristocrática, comercial e investidora na exploração e comércio marítimo.
Dado que no "know how" da casa de Lencastre e do seu ilustre filho, D.Henrique, não se encontrava o domínio da tecnologia do carvão e do vapor, a força de produção mais rentável para os empreendedores da altura era efetivamente o trabalho escravo.
Assim se iniciou, em 1444, um investimento rentável ao longo de 4 séculos.
Por estas e por outras é que os habitantes de Quenns em New York recusaram a estátua da rainha portuguesa Catarina, que está agora no Parque da Expo.
Recusaram mal, porque a História devia unir e não separar as pessoas, mas compreende-se.
O filme Amistad de Spielberg também não ajudou.
Valha-nos que houve quem lutasse sinceramente pela abolição da escravatura em Portugal no século XIX, quando a força de produção do carvão e do vapor já era mais rentável , pelo menos nos territórios europeus, levando os empreendedores ingleses a combater o tráfego de escravos para rentabilizar os investimentos no vapor.
Honra ao alferes português Eusébio de Oliveira, que apresou em Moçambique a barca negreira Charles & George em 1857, um ano depois da inauguração do caminho de ferro e da abolição da escravatura em Portugal. As justiças francesa e inglesa da época  defendeu uma, e absteve-se a outra, os esclavagistas franceses.
Assim vou discorrendo, pensando coisas desagradáveis sobre as diplomacias francesa e inglesa, depois de ler o testemunho do senhor primeiro ministro inglês no fim da cimeira europeia de 9 de dezembro de 2011: "Que foi duro estar numa sala em que os outros 26 só diziam que tinha de se deixar de pensar nos interesses nacionais e seguir a multidão (crowd)". Talvez tenha sido por influencia do conflito do senhor governador do Banco de Portugal com o senhor deputado, um problema de "crowding  out".
Interesses nacionais britânicos...

domingo, 21 de julho de 2013

Novo aeroporto, novo aeroporto

O ar contente com que o senhor secretário dos transportes inaugurou mais áreas para passageiros no aeroporto da Portela e disse que não interferiria mais na decisão sobre o novo aeroporto e que os especialistas não tinham nada que estar a criticar o aeroporto da Portela. Que a Vinci decidiria.


Fará parte da ideologia do senhor que o que a Vinci decidir será bem decidido, porque é privada.

Eu diria, questão ideológica à parte, que democracia é as comunidades terem uma palavra a dizer e a ser ouvida. E que isso é possível numa democracia, independentemente do seu governo ser de esquerda ou de direita, apesar de raramente ter acontecido na nossa.

A decisão da Vinci será debatida em assembleia de acionistas, sem que os cidadãos aí possam aceder.

É verdade que no tempo da ANA pública também não estava previsto o acesso de cidadãos ao esquema decisório.

Mas isso poderia corrigir-se melhorando a democracia.

Numa empresa privada, cujo principal objetivo é apresentar lucro aos acionistas, isso nunca poderá acontecer.

Por mais forte que seja o “regulador”.

Força essa que nunca poderá ser muito grande porque a partir do momento em que deixou de praticar o negócio começou a perder “know-how”.

É por isso que privatizar e concessionar não tem nada que ver com ideologias, tem apenas que ver onde se quer situar o poder decisório, numa assembleia de acionistas ou num conjunto de órgãos institucionais representativos e com participação de cidadãos (utopia de democracia direta? talvez; no tempo de Thomas More também era utopia viver-se sem escravatura).

Não se está a ver uma assembleia de acionistas da Vinci dar atenção as riscos da inexistência de um pipeline para alimentar a zona de abastecimento dos aviões e que são os riscos de quase uma centena de camiões carregados de combustível pelas vias adjacentes diariamente. Nem ligar muito à violação das diretivas europeias por se ter um aeroporto no centro da cidade (estas coisas evitam-se com projetos bem feitos e submissão aos fundos europeus). Nem questionar-se se 42 movimentos numa pista única não será pedir demais (já se fez o caminho paralelo no norte da pista para evitar o cruzamento nas manobras de taxi?)

Claro que a ANA pública também não ligou muito.

Mas retirar da esfera pública o poder decisório significa abdicar de vez da correção dessa deficiência. Com a agravante do senhor secretário de estado se gabar disso.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Citações de Vasco Graça Moura e de Manuel Maria Carrilho

Do DN de 7 de Setembro de 2011, de Vasco Graça Moura:
1- "o Governo tem agora de confrontar-se com recapitulações assassinas daquilo que foi tantas vezes afirmado pelas cúpulas partidárias, o que é muito desconfortável para quem o apoia"
2 - "torna-se evidente que as politicas de agressão fiscal direta ou indireta a uma classe média que é muito mais média baixa do que média alta ... vão ao arrepio de tudo o que tinha sido garantido"
3 - "o assalto à mão fiscal agora anunciado à queima roupa acarreta para os portugueses uma situação de escravatura intolerável (Vasco Graça Moura ter-se-á lembrado do Ouro do Reno: "Quem te deu o direito de submeteres à servidão o teu próprio irmão?") pela apropriação abusiva dos proventos do trabalho pela voracidade do Estado"
4 - "quem ganhar as eleições não pode dar o dito por não dito e o prometido por não prometido ... a maioria dos portugueses acreditou no que diziam o PSD e o CDS na campanha eleitoral e por isso votou neles"

Do DN de 8 de setembro de 2011, de Manuel Maria Carrilho:
5 - "não se põe em causa a necessidade de reduzir a dívida e o défice, mas o País precisa de um efetivo governo, não basta ter um contabilista, ainda que especialista em cobranças dificeis".
6 - "o ministro das finanças diz que não há milagres, e tem razão ... mas só uma sucessão de milagres tornaria possível ... o crescimento das exportações a 6% num contexto recessivo, a transmutação do investimento de -5,6% para +3%"
7 - "dupla ironia do destino: a ideologia do mais desbragado capitalismo chega ao poder no momento em que a crise sistémica atinge as proporções que conhecemos (como consequencia) do seu próprio paradigma"


A afirmação 4 estará relacionada com uma ameaça típica à democracia (voto dos interessados contra os seus próprios interesses) e pode ser discutida em âmbito interno; o problema a que está associada poderia ser resolvido se os portugueses ultrapassassem a sua velha doença genética de lhes ser dificil trabalhar em equipa.
Mas é dificil, não é impossivel.
Foi possivel trabalhar em equipa nalguns momentos dos governos provisórios, a seguir ao 25 de Abril.
Foi possivel a Melo Antunes trabalhar em equipa com o seu movimento das forças armadas.
Isto para não falar nos sucessos de empresas portuguesas que o DN tanto gosta de exibir. E sem esquecer, imodestamente, que apesar de muito dinheiro mal gasto (e contudo, como dizia Galileu, lembro-me de ter prescindido da aquisição de uma licença AutoCad para mim próprio, porque só a utilizaria 1 ou 2 vezes por mês e ela tinha um valor mensal; é por essas e por outras que não gosto dos cortes cegos, aplicados a quem quer que seja, independentemente do antecedente) , fazer as linhas de metropolitano que foram feitas não está ao alcance de ninguem que não trabalhe em equipa (embora esteja ao alcance de quem não é capaz de as fazer de impedir que elas se façam, isto a propósito da suspensão sine die da obra de expansão do Metro até à estação Reboleira).
E se quisermos exemplos externos, aí está a Islandia, em que a colaboração de partidos e cidadãos na resolução do problema está à vista.
Não é por falta de mecanismos democráticos legalmente expressos.
No caso islandês, o presidente da República e o Parlamento compreenderam a necessidade de envolver todas as sensibilidades na resolução do problema.
Em Portugal não; há uma incapacidade de compreensão disso por parte do senhor presidente da República, para quem os partidos mais próximos da sua ideologia e as regras económicas neoliberais se devem sobrepor à colaboração das outras sensibilidades.
É uma pena.

A afirmação 5 estará relacionada com demasiadas afirmações do senhor primeiro ministro e do senhor ministro das finanças. Dirão muitas coisas certas mas deviam moderar-se (embora eu gostasse de ouvir o senhor ministro das finanças mostrar números sobre a evolução da dívida privada, já que sobre a pública estamos conversados).
Como escrevia um comentador afeto ao partido no poder, "Por favor, não marquem mais datas para anunciar cortes".
Diz o senhor primeiro ministro: "agimos preventivamente, para fugirmos de perigos bem reais" (evidentemente que a capitalização do BPN, o buraco da Madeira e a suborçamentação dos salários e gastos de papel higiénico e de fotocópias eram perigos bem reais, mas não eram surpresas para quem vive no meio, logo não pode aplicar-se a palavra preventivamente; é a diferença dos tarifários pré-pago e pós-pago; e por favor, não volte o senhor primeiro ministro a dizer que não aumentará mais os impostos a menos que haja condicionalismos externos, primeiro porque a frase é vazia de sentido se não fornecer uma escala de medição do condicionalismo, e depois porque os ouvidos, que ainda se recordam das frases de Américo Tomás e de Garrastasu Medici, o que ouviram foi que "não faremos mais aumentos de impostos exceto aqueles que forem excecionais").
Diz o senhor ministro das finanças: "seria inaceitável pedir sacrificios aos portugueses por razões de prudencia".
O que é uma afirmação interessantissima do ponto de vista lógico, porque a prudencia pode implicar sacrificios, donde será inaceitável nesses casos ser prudente, o que poderia sugerir que nesses mesmos casos ou se deveria ser imprudente, ou nem prudente nem imprudente.
Sinceramente, antes o senhor ministro da saude, que já tem feito cortes cegos (classificação de queele não gosta) e já teve de emendar aquela infeliz afirmação sobre os transplantes, mas que vem dizer, no meio do nevoeiro das falencias dos hospitais (os hospitais podem estar em falencia? ou não receberam o dinheiro para cobrir os custos? ai estes termos ditos técnicos; gastaram demais? já escrevi neste blogue: informem-se junto dos administradores hospitalares realmente interessados que ainda existem; eles dirão onde se pode cortar) que tem ido buscar aos próprios hospitais medidas de poupança, o que é lógico, quem está nos locais de trabalho está mais dentro dos assuntos.


A afirmação 6 transcende o âmbito interno e parece só poder ser ultrapassada mediante colaboração com os BRIC e os PALOP, refiro-me às exportações.
Mas é tambem dificil, embora não impossivel.

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Campanha eleitoral, Psicologia social I, teoria do conformismo

A senhora jornalista tristemente comentava a quase inutilidade de debater dados e propostas concretos durante a campanha eleitoral, porque as pessoas votam mais por emoção e pelas suas opções de grupo do que por motivos racionais.
De facto, analisar uma questão técnica que tem consequencias no dia a dia e no bolso dos cidadãos cansa, como por exemplo as necessidades de energia primária, ou de infraestruturas de comunicação ferroviária, e é dificil de concentrar e manter a atenção no seu estudo.
Desligados das razões que provocam realmente as coisas, os eleitores podem até votar em quem os prejudique, ou simplesmente absterem-se.
Ficou na história uma petição de escravos libertos, que pediam o regresso à escravatura por ser dificil viver em liberdade.
Então, tudo isto é um problema do cérebro humano quando se vive em grupo.
O cérebro humano acomoda-se às situações por mais incómodas que sejam e receia a mudança.
Não sou eu que o afirmo, encontro esta explicação no "livro da psicologia", de uma equipa de psicólogos, ed.Marcador (Dorling Kindersley, www.dk.com), no capítulo Psicologia Social.
Esta seria uma razão para os governos saídos de eleições não exibirem tanto orgulho na sua vitória. E por outro lado, seria uma boa razão para os partidos abdicarem do monopólio da intervenção política e consentirem numa maior participação na vida pública dos cidadãos e cidadãs, das entidades da sociedade civil, das associações profissionais, das empresas quando deixam que os seus conhecimentos técnicos se sobreponham ao interesse do lucro e da ligação ao poder político... porque as simples campanhas eleitorais não parecem ser suficientes para vencer a acomodação e a resignação.
Sem querer dar razão em todos os assuntos ao autor da citação seguinte, nomeadamente à caraterização da "corrente materialista" (eu diria a submissão ao lucro e ao mercado), parece aplicável a proposta de Alexander Soljenitsine para reduzir a parte emocional nas decisões da vida política:
"Só através de um movimento voluntário de moderação das nossas paixões, serena e aceite por nós, a humanidade pode alçar-se acima da corrente materialista que aprisiona o mundo. Ainda que nos fosse poupado sermos destruídos pela guerra, a nossa vida tem de mudar se não quiser perecer por sua própria culpa"

Alexander Soljenitsine
Ultimato para uma mudança profunda

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Como se fosse a A Liga de Delos em Bruxelas


Como se fosse um episódio da Liga de Delos, vejo o senhor primeiro ministro partir para Bruxelas para discutir o orçamento da UE para 2014-2020.
Porque  a Liga de Delos foi a confederação marítima dominada por Atenas que através do comércio por mar e basendo-se no principal fator de produção, a escravatura, permitiu, no século V AC o desenvolvimento do pensamento grego.
Delos é uma pequena ilha perto de Mykonos, que ainda mostra os vestígios de centro da confederação.
A confederação resistiu aos ataques do império persa, mas sucumbiu ao predomínio de Atenas, que resolveu transferir o tesouro e a sede da tomada de decisões de Delos para Atenas. Seguiu-se a guerra do Peloponeso.
Mas eram outros tempos.
Nos tempos que correm, discutem-se cortes.
A mesma ideologia que permitiu a desregulação absoluta da especulação financeira é a mesma que decide agora os cortes, a fúria privatizadora e a minimização das funções sociais do Estado.
Eu diria que, já que não podemos abandonar a zona euro por estarmos amarrados pelos juros da divida, poderíamos ao menos levantar algumas das diretivas europeias que nos desequilibram a economia. Para tornar possível as proteções alfandegárias, a injeção de dinheiro em empresas púbicas, o condicionamento do fluxo de pagamentos da divida aos resultados das exportações e, especialmente, a subsidiação por fundos comunitários da produção de energia elétrica por fontes renováveis. Acresce a comparticipação a 85% nos investimentos das grandes infraestruturas ferroviárias, marítimas e aeroportuárias, no quadro de financiamento seguinte ao QREN.
A cigarra entoou a cantiga dos cortes e da  minimização do estado, cortou contratos já assinados e parou as obras publicas. O multiplicador de Keynes não demorou a reagir e a procura baixou, o desemprego aumentou e as firmas de construção civil pararam (com tanto trabalho que há para fazer na reabilitação urbana…). Mas a cigarra cantou alegremente, o que não puder fazer-se agora com o QREN porque mandámos parar tudo, fica para depois, para o programa de 2014 a 2020.
As formiguinhas que já tinham os projetos prontos e a andar nas obras paralisadas ficaram muito tristes e agora estão a ver que as verbas do novo quadro de financiamento vão ficar curtinhas. Será que a história real não vai acabar como a fábula? Será que a cigarra vai continuar a entoar os seus cantos modulados de enfeitiçamento da solução única de empobrecimento das formigas?
Ouviu este blogue dizer que o concurso para a via férrea mercadorias/passageiros em travessa bi-bitola de Évora para o Caia está quase pronto. Será verdade? Qual é o planeamento para esse troço e para a ligação completa Sines-Caia? E do lado de Espanha, qual é o planeamento?
Se vozes de burro chegassem ao céu, eu diria que em dois temas em que os senhores políticos não têm muitos conhecimentos, a exigência de fundos estruturais em troca dos sacrifícios do país será essencial: na energia e nos transportes.
O problema é que são precisos os projetos completos e isso é coisa que não se sabe fazer nos ministérios, com a agravante de também não estarem habilitados a avaliar as propostas que possam ir surgindo. Daí a vantagem de debates abertos, mas o secretismo impera e a reserva da tomada de decisões pelos senhores governantes também.
Assim é difícil.
Mantenho a sugestão anterior de centrais solares de concentradores e sais térmicos (claro que o kWh fica mais caro do que nas centrais de gás e de carvão, mas temos de conter o CO2) e de fazer avançar o corredor transeuropeu da rede ferroviária de alta velocidade para passageiros e mercadorias (ligação Lisboa-França, 3ª prioridade da rede europeia).
Duvido que estejam no reportório da cigarra bem cantante.
Mas como sou teimoso, sobre as privatizações e concessões de sistemas de transporte, gostaria de recordar que a diretiva 1370/2007/EC que define a regulação e a abertura à concorrência por contratualização do serviço público de transportes até 2019 prevê exceções em que o operador pode ser publico (ver as diretivas 2004/17 e 18).
Trata-se de um assunto técnico, não politico, para ser avaliado por técnicos com conhecimento do negócio, não políticos.
Como, por exemplo, aconteceu em França, com a refusão da SNCF (a correspondente à CP) com a RFF (a correspondente à REFER) depois de anos de forma de organização “kafkiana”, como disse o ministro dos transportes francês, ao gosto dos burocratas da UE (naturalmente para facilitar a privatização posterior, apesar dos 32 mil milhões de euros de divida; nenhuma empresa de transportes do mundo tem capacidade para recuperar a totalidade dos investimentos nas infraestruturas pesadas).
Seria bom que os adeptos incondicionais da ideologia das privatizações recordassem a frase de Thatcher, que não queria que os transportes fossem o seu Waterloo.
E que não é por a gestão publica ser melhor do que a privada, é porque há questões técnicas e de segurança que são independentes dessa dualidade, e porque as regras da concorrência podem ser perversas e distorcer o fundamento dessas questões (acidentes podem acontecer quando não se poupa na manutenção ou na formação, mas a probabilidade é maior quando se poupa; a experiencia ensina que dificilmente uma maior eficiência na gestão privada compensa essa poupança mais o diferencial entre as indemnizações compensatórias, previstas na diretiva 1370, da gestão publica e privada).


sexta-feira, 11 de maio de 2012

Voltando à poesia de Sofia de Melo Breyner - os Gracos

Voltando à poesia de Sofia de Melo Breyner, graças ás maravilhas da internet e do google, transcrevo uma fala da peça os Gracos, enquanto oiço do youtube a cena de Frigia e Spartacus

:


Os ricos nunca perdem a jogada

Nunca fazem um erro. Espiam
E esperam os erros dos outros
Administram os erros dos outros
São hábeis e sábios
Têm uma larga experiência do poder
E quando não podem usar a própria força
Usam a fraqueza dos outros
Apostam na fraqueza dos outros
E ganham
Tecem uma grande rede de estratagemas
Uma grande armadilha invisível
E devagar desviam o inimigo para o seu terreno
Para o sacrificar como um toiro na arena.

                                    Sofia de Melo Breyner

                     Os Gracos. I Acto. II Cena – Obras completas - 1968


Os Gracos foram tribunos da plebe na Roma do século II AC. Promoveram leis de reforma agrária e de promoção da plebe que os consules patricios anularam depois. Spartacus conduziu a sua revolta contra a escravatura já no século I AC.
É possivel que Sofia de Melo Breyner tenha visto o filme de 1960 com Kirk Douglas e se tenha lembrado de ir buscar o episódio dos Gracos.
Dum e doutro lado da cortina de ferro, como dizia Churchill, a humanidade produziu duas obras primas pela forma e pela mensagem.
Donde, não parece ser boa prática extremar as posições e pô-las a competir.
Embora ao longo da história se tenha assistido a esta luta entre quem quer generalizar os benefícios e quem os quer reservar a uns poucos.
Não se pretende diabolizar os ricos, embora a disseminação do video sobre os donos de Portugal possa ser interpretado por alguns como isso.
http://vimeo.com/40658606

Nem persegui-los.
Apenas se desejaria que eles se democratizassem, isto é, que as suas famílias não se fechassem tanto, não fossem tão ciosas dos oligopólios.
A humanidade também já conquistou a ideia da não violencia, de Gandhi, e a declaração universal dos direitos humanos (direito ao trabalho, vem lá).
O que já é suficiente, sem necessitar de argumentar com os custos da confrontação,  para nos deixarmos de propor a supremacia de uma ideia sobre outra.
Como diz José Matoso, é da diversidade que vem a regeneração, não do consenso que é mais uma forma de opressão de um pelo outro.
Devia ser o critério a seguir na formação dos governos, a participação alargada a todas as sensibilidades.
Mas como no tempo dos Gracos, há sempre alguém que não quer alargar a participação na res publica.
Pena.

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Do Atlantida de Viana do Castelo ao Spitsbergen das ilhas Kirkenes


Caro comentador que tanto se regozijou no seu jornal com os sucessos dos estaleiros de Viana do Castelo  como empresa privada              

Gostaria de comentar a sua pequena nota no DN sobre as trincheiras e os ENVC de dia 13 de abril.
Sobre as trincheiras, manifesto-lhe todo o meu apoio. Citando Ricardo Pais Mamede nas suas conversas com Ricardo Arroja, eu tenho a minha utopia e tu tens a tua, mas podemos entender-nos sobre as coisas. Também eu, estando numa trincheira e o senhor noutra, não pretendo guerrear nem fazer sortidas destrutivas no campo das outras trincheiras. Quando muito esclarecer alguma coisa com very lights.
Como técnico, faço o possível por não meter as coisas na minha fórmula para me livrar dos enganos. O método científico diz que temos de testar as nossas hipóteses e submete-las a referendo dos pares.
Por isso a minha hipótese é que prefiro que nas empresas estratégicas elas sejam públicas. Que os seus membros sejam servidores públicos e o sintam como tal, no sentido que os ingleses lhe deram. Mas testando a hipótese, verifico que os ditos membros são simplesmente incompetentes, deixam a empresa afundar-se. Então não vale a pena. É verdade que noutros casos a concorrência do mercado, em vez de aperfeiçoar a gestão, prejudica o interesse público com o cambão, por exemplo, ou simplesmente degradando a qualidade dos produtos porque o produto mais barato é o mais comprado, e a sua qualidade é inferior (já que falamos em estaleiros navais, o teste da hipótese mostrou que os petroleiros mais baratos sul-coreanos, que levaram ao fecho dos estaleiros da Galiza e da Margueira, afinal eram inseguros, o monocasco apodrecia rapidamente e o Prestige deu no que deu. Lá teve de vir o IMO impor ao mercado liberal a escravatura de fazer petroleiros de casco duplo. Só que os estaleiros da Galiza e da Margueira já tinham fechado (é curioso observar que os ENVC enquanto empresa pública davam prejuízo na construção, mas na reparação não, tal como a Lisnave/Setenave dá lucro na reparação). 
Ou por outras palavras, não é o facto de uma empresa ser pública ou privada que define o que é melhor. Nuns casos a privatização é uma boa solução, noutros casos é a nacionalização que será preferível, depende, mas é preciso quem decide ser honesto e perceber do negócio, coisa difícil. No meu caso, por exemplo, que nunca por nunca tive jeito para negócios, nunca trabalhei numa empresa de mercado livre. Sempre tentei ser um civil servant, e simplesmente não concordo com o argumento de que o Estado não tem vocação para gerir. Tem, tem, digo eu, e desafio os colegas das empresas privadas a demonstrar que o que fiz na empresa pública estava errado. Como técnicos temos critérios para avaliação comparativa. Utilizar aquele argumento, acerca de quem não tem, como eu, vocação para empresas privadas, é o mesmo que chamar-me incompetente. Então demonstrem-no, mas com cálculos e argumentos técnicos, que é o que eu não vejo na maior parte das discussões sobre o tema, independentemente das trincheiras em que possa estar. E não me venham com as imposições de Bruxelas. O Tratado de funcionamento dá aos estados-membros o direito de ter empresas estratégicas, desde que náo concorram deslealmente com as privadas. É um mito urbano dizer que a UE proíbe empresas nacionalizadas.
Mas cingindo-me aos ENVC, que é o principal motivo desta missiva. No contexto atual, não defendo nenhuma reversão para os estaleiros. Concordo que mantenha o estatuto privado.
Mas sinto que devo chamar a atenção para as palavras do presidente da Empordef, que tinha detetado indícios de alta corrupção no passado (caminho preparado para a privatização) e no presente recente. E muito gostaria que o senhor tivesse presente todos os episódios que levaram à privatização. Desde a incompetência e insuficiência de administradores nomeados pelo Estado, a retenção propositada dos pedidos de autorização de compra de peças e material para os patrulheiros que inviabilizaram a rentabilização do seu fabrico (depois queixavam-se da falta de competitividade – interessante observar que na privatização foi todo o know how ganho com a experiencia onerosa dos 2 primeiros patrulheiros), idem para a construção dos asfalteiros venezuelanos que acabou por se extinguir (a propósito, quando é que os senhores burocratas se dignam resolver o problema do pobre petroleiro venezuelano apresado no Tejo?), a recusa do governo em autorizar a conclusão do programa dos 8 patrulheiros e em invocar as exceções do tratado de funcionamento para justificar a injeção de dinheiro para a construção dos patrulheiros inviabilizando assim a diluição dos custos de projeto pelos 8 patrulheiros inicialmente encomendados (se Portugal está na UE, então os patrulheiros são material de defesa da UE e podem receber dinheiro do Estado), o desaproveitamento das contrapartidas dos submarinos e, finalmente, a recusa não fundamentada e o sacrifício do Atlantida.
Por razões de curiosidade técnica, segui o assunto do Atlantida, vendido por 8 milhões de euros num concurso público em que o vencedor apresentou uma proposta de 13 milhões e depois desistiu. Eu gostava de saber porque desistiu, mas nunca tive informações fidedignas. Quem comprou por 8 milhões gastou depois 4 ou 5 milhões e vendeu-o por 17 milhões. O valor do navio à data da venda era de 45 milhões.
Hoje o Atlantida é o Spitsbergen, e "apanhei-o" há pouco:  (http://www.localizatodo.com/html5/Ships/258157000   - a foto ainda é a do Atlantida) perto das ilhas Kirkenes, lá pelo norte da Noruega, a 8,5 nós , bem abaixo dos 17 nós pelos quais o governo regional dos Açores o recusou. Agora tem uma estrutura quebra gelos, toda a parte de transporte de viaturas foi transformada em camarotes, mudaram-lhe os motores principais e montaram duas pequenas piscinas no convés superior. Claro, pode sempre dizer-se que foi a sagacidade do privado que permitiu a venda por 17 milhões. Só que também se pode dizer que a lei da contratação pública não permite leilões abertos como um privado pode fazer (parece que também não permite convocar estrelas do music hall para abrilhantar cerimónias de lançamento à água – afinal a lei discrimina é as empresas públicas).
                                   Este foi em tempos o Atlantida, agora é o Spitsbergen

Quero eu dizer com esta história que se mantenha a privatização, mas que se conheça com pormenores toda a incompetência, negligencia, facciosismo e má fé que  levaram à privatização.
Se tiver paciencia, leia a carta a Cesar e uns comentários sobre o Atlantida:
Se continuar com animo, veja as referencias ao trabalho dos noruegueses na transformação do Atlantida:
Sobre as declarações do presidente da Empordef:
E finalmente, sobre a questão das contrapartidas dos submarinos que nunca foram autorizadas aos ENVC:

Com os melhores cumprimentos e votos de sucessos

PS em 23 de maio de 2020 - Junto uma noticia recente, sobre os pormenores da venda do Atlantida:
https://www.jornaldenegocios.pt/empresas/detalhe/mario-ferreira-investigado-pela-pj-e-pelo-fisco?ref=DET_Engageya_JNegocios

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Reflexão sobre a Zara

Em 11 de dezembro a notícia era  que o grupo Inditex, que inclui a Zara, criou, nos primeiros nove meses de 2015, 13.000 postos de trabalho, dos quais 2391 em Espanha. O total de empregados do grupo é de 146.000 .
Mais dizia a notícia que os lucros do grupo foram nesse período de dois mil milhões de euros para um total de vendas de 14,7 mil milhões.
O grupo continua a expandir-se, possuindo em todo o mundo 6913 lojas, das quais 230 abertas nos primeiros nove meses do ano, em 88 países.
Parece portanto longe do ponto da curva dos rendimentos decrescentes.

A notícia do dia 13 de dezembro era que desde 2009 fábricas clandestinas em Mataró, Catalunha, forneciam a Zara, o grupo Inditex e outras marcas internacionais da moda com vestuário confecionado por operários chineses escravizados. Por escravizados entende-se que trabalhavam 15 horas por dia de segunda a domingo recebendo 25 euros por dia, com que tinham de pagar a dívida da viagem desde a China.

A reflexão é sobre a conjetura de Adam Smith, de que talvez fosse mais difícil a uma democracia liberal abolir a escravatura do que a um tirano esclarecido. Porque o lucro é maior se se conseguir, pela força, reduzir a parte do trabalho no rendimento. A Marx pareceu que o progresso tecnológico poderia libertar os operários dessa opressão. Mas assiste-se atualmente à utilização da tecnologia para aumentar o desemprego e assim reduzir oo custo do trabalho.  No caso dos fornecedores clandestinos da Zara foi-se mais longe, escravizou-se.

E contudo, os economistas da escola de Chicago e do consenso de Washington continuam, com os jornalistas que os aplaudem, a insistir que a competitividade e a produtividade são a chave do crescimento.

Crêem firmemente, ou querem que acreditemos que crêem, que desregulando, a economia cresce.
No caso da Zara crescem de facto, mas à custa de "dumping". Os senhores economistas devem ter pouca experiencia da vida empresarial. Acreditarão mesmo que é possível vender tão barato sem "dumping"?

Estou cansado dos jornalistas papagaios que insistem na conversa da competitividade e a acusar os trabalhadores portugueses de falta de produtividade (e contudo ela sobe, enquanto quociente entre o produto e a população, também à custa da emigração, porque o PIB diminui menos do que a população, coisa perfeitamente natural porque o quadro de pessoal não é o principal fator de produção).

Leio esta notícia e recordo o caso da barca Charles e George, apresada ao largo de Lourenço Marques no século XIX, com o negreiro francês a beneficiar do testemunho dos escravos algemados, que estavam assim melhor do que libertos porque iam trabalhar.

E também recordo o comentário anónimo citado por Tim Harford, no livro Adapte-se, para tranquilidade dos financeiros, que podem estar descansados, as pensões dos reformados garantirão sempre as suas especulações falhadas.

Acreditarão mesmo nas virtudes dos mercados a funcionar livremente? Ignorarão que a liberdade termina onde a igualdade e a fraternidade começam?

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

O melhor povo do mundo









Beneficiando por enquanto da programação com interesse da RTP2, à espera que o seu novo orçamento de 3 milhões de euros, o anuncio do fim das indemnizações compensatórias e a proibição de publicidade (teria a vantagem de se poder reduzir a taxa da fatura da eletricidade…) a asfixiem, vejo um programa sobre o genocídio dos tainos pelos espanhóis.

Os tainos eram o povo índio pré-colombiano que desapareceu enquanto povo com Colombo e os seus sucessores nas ilhas de S.Domingos, Porto Rico e Cuba, devido à guerra, à escravatura em minas de ouro e na agricultura, e às doenças como a varíola.
Apenas subsistiram genes pela mestiçagem com os espanhóis (que tomavam mulheres taino) e os africanos trazidos depois como escravos.

Os documentos históricos que contam a história do fim dos tainos e os vestígios arqueológicos permitem fazer uma análise “darwiniana” da luta entre espanhóis e tainos e são um episódio que ilustra o processo histórico, desde a ganância pela exploração de uma mina de ouro que rapidamente foi esgotada e pela apropriação da força produtiva do povo escravizado, até ao desrespeito pelo sistema ecológico, que culminou com a morte coletiva dos primeiros colonos espanhóis em La Isabela, vitimas da recusa em se alimentarem dos recursos naturais da ilha (o que provocou a morte por deficiencia de vitamina C e escorbuto).

Dos tainos ficaram palavras transmitidas pelos espanhóis, como tabaco, amoque, canoa, barbecue, hurricane (huracan), Cuba (cubacan) … não é engraçado?

E também é muito interessante recordar as palavras de Cristóvão Colombo sobre os tainos na carta para os reis católicos, comunicando-lhes a descoberta das índias ocidentais:
 “Eles são um povo amável e amigável… são o melhor povo do mundo … trouxeram-nos papagaios, bolas de algodão, lanças e muitas outras coisas … darão uns bons escravos … com cinquenta homens podemos subjugá-los a todos e fazer deles o que quisermos”.

Curioso, como Cristóvão Colombo lhes chamava o melhor povo do mundo e como justificava por que lhes chamava isso.

domingo, 11 de maio de 2014

Thomas Piketty, o capital no século XXI

Este blogue já tinha reparado na referencia que Manuel Maria Carrilho tinha feito ao livro, chamando a atenção para a sua tese, fundamentada na análise de dados reais ao longo de séculos, que a desigualdade na distribuição de rendimentos aumenta sempre que a taxa de retorno do capital é superior à taxa de crescimento da economia, que em consequencia existe acumulação de capital no seio dos 1% mais ricos em detrimento da maioria, aumentando a desigualdade.

http://en.wikipedia.org/wiki/Capital_in_the_Twenty-First_Century

Os comentadores televisivos de direita e os propagandistas do atual governo andam em pânico com o sucesso internacional do livro, mas não conseguem contestar os dados e a interpretação dos dados.
Fundamentalmente porque ele diz e prova o mesmo que  livros como os donos de Portugal e como os sindicalistas e os não sindicalistas das manifestações contra os cortes vêm dizendo: que a economia desregulada (os mercados...) conduz ao pagamento das emergencias pelos salários e pelas pensões (até o senhor doutor Catroga, na entrevista ao DN de 10 de maio de 2014 o diz: "as pessoas, nos países endividados,...são quem tem de financiar os custos do ajustamento") e ao reforço da direção da economia pelas famílias ricas e suas dinastias e pelos super-assalariados que os servem, como os funcionários do FMI e do BCE (isto é, oligarquia e plutocracia, ao invés de democracia; não é possível ter simultaneamente desigualdade e democracia).

E mais em pânico ficam quando Piketty propõe uma medida mitigadora: a taxação progressiva sobre os rendimentos dos capitais (seria esta a ameaça do atual primeiro ministro no caso do chumbo de medidas pelo tribunal constitucional?).
Lá vão os comentadores e propagandistas do governo (aguarda-se a reação de João Cesar das Neves, embora o papa Francisco também não goste de fossos de desigualdade) ameaçar com a fuga dos capitais para a Holanda, Inglaterra e restantes off-shores (a menos que os respetivos governos e os eurocratas tenham lido o livro). Talvez achem que Piketty é marxista e contentam-se em mandá-lo para o inferno e pô-lo no index.
Podiamos começar pelo fim do sigilo bancário. Numa altura em que o comércio ilegal internacional de armas, droga, escravatura e matérias primas é feito de sangue, não seria mau começar por aí.
Que dirá Ban-ki-moon?
Ou podiamos ser mais modestos, em Portugal. Acelerar a taxa Tobin e, de forma inovadora, transformar, por exemplo, 40% da valorização bolsista dos donos de Portugal em propriedade do Estado com fins exclusivos de transação na bolsa e injeção dos proveitos na segurança social. Poupava nas transferencias, não se ia aos depósitos das grandes fortunas, cumpria-se a sugestão de Piketty, combatia-se a desigualdade, não era?
Podia-se discutir isto na campanha eleitoral para 25 de maio...

Curioso reparar na reação do senhor ex-ministro João Salgueiro quando se saiu no programa Olhos nos olhos, perante o espanto de Judite de Sousa e o silencio cumplice de Medina Carreira, que "os últimos dados não dizem que a desigualdade tenha aumentado". Cumplice porque os indicadores de pobreza e o coeficiente de Gini dão resultados diferentes se modificarmos os patamares definidores da pobreza (90 centimos por dia) e a paridade do poder de compra.
Devia mesmo discutir-se isto na campanha eleitoral.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

La forza del destino, ópera de Giuseppe Verdi, libreto de Francesco Maria Piave, sobre uma peça de Angel de Saavedra

 A Força do Destino, ópera de Verdi estreada em S.Petersburgo em 1862, já depois da reunificação italiana.

Verdi foi um pensador progressista que compreendia a natureza humana e as suas limitações  e que nas suas óperas muitas vezes contrariou o pensamento da época.

Embora a história contada nesta ópera seja uma tragédia melodramática, contem elementos sempre atuais. É um verdadeiro libelo contra a xenofobia e o racismo, uma vez que o heroi é filho de um nobre espanhol colonizador da América do Sul e de uma princesa inca, o que é motivo de desconsideração pelos nobres espanhois (a desculpa de que na época a escravatura e o racismo eram comumente aceites é mentira, porque há documentos deixados por quem os condenava). Temperou a tragédia com elementos ligeiros, por exemplo, deixa os soldados num acampamento dos aliados espanhois e italianos gritar vivas à luta contra o invasor (Verdi defendeu a reunificação italiana contra o ocupante austríaco), deixa-os gritar que "são felizes, que a guerra é alegria e a vida aventurosa de um militar", mas põe camponeses a pedir esmola "porque a guerra  destruiu os nossos campos", contrastando com o canto das vivandeiras "na guerra está a loucura que deve alegrar o acampamento, viva essa loucura que só ela deve reinar" 

Seria possivelmente a unica maneira naquela altura de contornar a censura e chamar a atenção para a desgraça da guerra.

Escrevo isto numa altura em que a NATO e os seus homólogos russos se entregam a jogos que se espera não sejam de pré-guerra, com as gentis ministras dos negócios estrangeiros das nações mais ricas a ameaçar a Russia.

Em vez de estabelecer a paz com intercambio e comércio.

Viva Verdi.

https://www.youtube.com/watch?v=drbHCt0lwzo





sexta-feira, 11 de maio de 2012

Foyse gastando a esperança - ou a história económica de 5 séculos contada muito depressa

"Foyse gastando a esperança" é uma canção de autor anónimo português do século XVI que chegou até nós através do Cancioneiro de Paris.
É provável que seja uma composição de Pero de Escobar, que passou grande parte da sua vida em Espanha.
Um pouco anterior a Camões, que glosou o tema numas redondilhas ("... no meio desta porfia, de quanto bem pretendia , foi-se gastando a esperança ... quando já não era meu, fui entendendo os enganos...").
Não consegui encontrar uma versão para três vozes, conforme o original, mas a adaptação para piano de Nuno Raimundo é uma beleza.






O século XVI em Portugal foi caracterizado por uma grande acumulação de riqueza em faixas restritas da população, graças às mais valias do comércio das especiarias e da escravatura da India e de África, e do intercambio comercial com a Europa central.
Enquanto a nobreza e a realeza contraiam dívidas e a população fornecia mão de obra barata para a expansão.
Esperemos que 5 séculos depois as pessoas deste país não gastem a esperança em vão.
É que os esforços dos habitantes deste país, da sua maioria, dos que trabalham e não têm o poder de decisão, ao longo destes 5 séculos, raramente atingiram a convergencia necessária para melhorias substanciais.
E mesmo assim, nesses poucos casos, apareceram sempre depois alguns conterraneos muito senhores dos seus meios de produção ou fontes de rendimento a repreender a maioria dos seus concidadãos e concidadãs.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Vietnam, Vietnam ... Afeganistão, Afeganistão ...

A imagem que reproduzo é a do monumento inaugurado em Washington para homenagear as vítimas da guerra do Vietnam, nos 50 anos das primeiras vítimas americanas.
Morreram 59 mil norte-americanos e 2 milhões de vietnamitas.
Para além das mortes, ficaram registados os efeitos das bombas napalm, dos desfolhantes laranja e das dioxinas.
O principal ideólogo da guerra foi o secretário de Estado Robert Mc Namara.
Argumentava-se na altura que era preciso conter o perigo vermelho.
Se utilizarmos critérios meramente economistas, dir-se-ia que era preciso evitar que os meios de produção do Vietnam fossem predominantemente públicos.
Se utilizarmos conceitos adam smithistas, dir-se-ia que era preciso garantir a liberdade económica e a iniciativa privada.
Diriam uns, na altura, porque outros sempre consideraram a guerra do Vietnam uma agressão, e erradamente fundamentada, mesmo com aqueles pressupostos.
Porque outros, na altura, exprimiam claramente a sua oposição à guerra e cantavam “All you need is love” e passeavam o símbolo da paz “Make love not war”.
Os filhos da burguesia do nosso país, já ameaçados pela nossa guerra colonial, apanhavam o avião para Londres e assistiam ao musical Hair e à sua representação da crucificação de mais um soldado norte-americano vítima da guerra (www.youtube.com/watch?v=EhbxI5eVnM4).
When the moon is in the Seventh House
And Jupiter aligns with Mars
Then peace will guide the planets
And love will steer the stars
Era o tempo em que os filhos da nossa burguesia (alguns, claro) contemplavam maravilhados o movimento da primavera marcelista, ouvindo os nossos economistas falar sobre o fim do condicionamento industrial, sobre a necessidade de canalizar os meios desperdiçados com a guerra colonial para a reindustrialização do país: Alqueva, o porto de Sines. Mas o doutor Marcelo preferiu dar ouvidos, receoso, à parte da tropa que ficou conhecida como brigada do reumático, que estava desligada da realidade, e que não gostava de canções de intervenção.
Por isso os filhos da nossa burguesia se deixavam encantar pelos cantores de intervenção contra a nossa guerra colonial e contra a triste ideologia que insistia na sua manutenção: José Afonso, Adriano, Fanhais, José Mário Branco, Manuel Freire, José Jorge Letria, Intróito, Fausto, Ary dos Santos.
Os crentes das virtudes quase divinas do adam smithismo sempre tiveram alergia aos cantores de intervenção. A polícia política da altura também lhes tinha alergia. Também os proibia de cantar nas pequenas colectividades de cultura e recreio por esse país fora.
Até que ponto este pequeno e discreto movimento contribuiu para abrir os olhos aos tenentes e capitães que executaram a revolução de 25 de Abril? Curioso, ter havido um espectáculo com os cantores de intervenção no Coliseu dos Recreios, em 30 de Março, menos de um mês antes… registado no relatório da polícia política como sem problemas.
E como o código genético dos norte-americanos é o mesmo do nosso, também a guerra do Vietnam teve um fim.
O ideólogo Mc Namara teve depois tempo para analisar o que tinha feito e escreveu, 30 anos depois:
“Estávamos horrorosamente enganados”.
Este facto é extremamente importante na história do século XX. O reconhecimento, a trinta anos, do erro da guerra.
Mc Namara compreendeu finalmente que as guerras se ganham na economia (quanto mais não fosse por razões etimológicas: oikos, a nossa casa), com os povos a produzirem e a trocar. Não com dioxinas teratogénicas.
Mas o mal estava feito.
O problema é que continua a fazer-se.
Sintetizando, havia umas pessoas com poder de fazer a guerra em 1959 que a queriam fazer e fizeram.
Havia outras pessoas que não queriam que a guerra se fizesse e passaram os anos seguintes a protestar até que a guerra acabou.
Mais uns anos, e as pessoas que tiveram o poder para fazer a guerra reconheceram que estavam erradas.
Dir-se-ia que estamos todos de acordo.
Mas não, o embuste continua, porque já chegámos todos à conclusão de que a guerra do Iraque foi um erro (não havia as tais armas de destruição maciça, pois não? Foi embuste) embora para isso tivesse sido preciso eleger como presidente dos USA uma pessoa que fosse dessa opinião, mas, e o mas é do tamanho do planeta Terra, mas agora temos a guerra do Afeganistão.
Bom, sintetizando outra vez, agora temos umas pessoas que têm o poder de fazer a guerra e dizem que tem de se fazer a guerra do Afeganistão.
E há outras pessoas que continuam a usar o símbolo e o lema da Paz, “Make love, not war”, e pedem o fim da guerra.
Claro que quem defende o fim da guerra do Afeganistão é agora acusado de tudo.
Mas já temos tanta experiência de sermos acusados de tudo… confesso que corremos o risco de cair no erro do método indutivo: apesar de na situação “n” estarmos certos em condenar a guerra “n”, e no momento “n+1” voltarmos a estar certos em condenar a guerra “n+1”, é sempre possível que na situação “n+j” estejamos agora errados.
E contudo, como é possível haver uma guerra justa? E muito menos santa, claro. Não é verdade que se ensina nas Academias militares que os soldados existem para defender, não para atacar? Podemos divergir na interpretação do que é defesa. Por exemplo, uma granada defensiva está programada para matar num raio superior ao do raio de uma granada ofensiva. Dir-se-ia que será mais uma razão para ninguém atacar ninguém.
Além de que “j” está tomando uma grandeza colossal.
Permitam-me recordar.
1 - Benjamim Franklin foi nomeado embaixador dos jovens USA em França, no período revolucionário. Os sucessivos relatórios que enviou para Washington foram classificados como irrealistas (será que a análise de Henrique Granadeiro é de aplicação mais abrangente do que parecia? Que desempenhar cargos governativos afasta do contexto e da realidade?), até que surgiu a ordem de demissão do embaixador. O comportamento do governo dos USA prejudicou ambos os países, a França e os USA.
2 – o embaixador dos USA em Angola, antes de Novembro de 1975, recomendou insistentemente ao seu governo que apoiasse o MPLA. Gerald Ford e Henry Kissinger acharam que não podia ser porque no MPLA eram todos comunistas. Uma das consequências deste afastamento da realidade foi a guerra civil de Angola.
3 – quanto ao Iraque, é do domínio público. Não havia as tais armas de destruição maciça, havia sim a necessidade de obtenção de petróleo (é do domínio publico a ligação da família do vice-presidente dos USA da altura à empresa de comercialização do petróleo iraquiano), que é de facto um problema fundamental para qualquer povo. Para além das mortes de soldados das forças de intervenção e dos civis e soldados iraquianos, existe outro dano irreversível que parece perseguir os exércitos americanos: perdeu-se uma parte demasiado grande do património do Museu de Bagdad. O valor do que se perdeu, só por si, justificava não se ter feito a guerra. O irónico é que em universidades dos USA existem especialistas do património histórico que são desta opinião. No próprio exército de intervenção houve oficiais que conseguiram salvar alguma coisa. Mas o balanço geral, do ponto de vista museológico, é uma catástrofe (recordo aqui que os edifícios de Pompeia foram danificados, por ordem crescente de destruição: 1-pela erupção do Vesúvio no que não foi conservado pelas próprias cinzas, 2- pela intervenção popular ao longo dos séculos, 3-pelo terramoto que ocorreu poucos anos antes da erupção, 4-pelo bombardeamento pela aviação aliada em 1943).
Como foi possível bombardear as ruínas de Pompeia?
Como foi possível destruir parte do Museu de Bagdad, memória do nascimento da nossa cultura? (revejam os manuais de história: a nossa civilização nasceu centrada entre os dois rios Tigre e Eufrates; isso é sagrado para qualquer especialista nas universidades dos USA).
Então, para que “j” não me deixe ficar mal, tenho de fazer votos para que os historiadores das universidades dos USA expliquem ao seu presidente o teorema dos imperadores romanos:
A distancia das fronteiras do império à capital é definida pela quantidade de energia alimentar (recorda-se que na altura o factor de produção mais importante era a escravatura que dependia da alimentação) que pode retirar-se do interior das fronteiras e distribuir pela população do império, versus a energia militar necessária para conquistar e manter as fronteiras.
Isto é, só deviam ampliar-se as fronteiras se a energia cerealífera que pudesse retirar-se dessa ampliação fosse superior à energia necessária para manter os exércitos e a paz das populações no interior das fronteiras mais a energia necessária para transportar e distribuir a energia cerealífera.
Então, novamente então, talvez os historiadores das universidades dos USA consigam convencer o seu presidente que só é útil, do ponto de vista energético, ocupar o Afeganistão se, e só se, a energia que se retirar dessa ocupação for suficiente para pagar o esforço militar e beneficiar as populações ocupada e dos USA.
A experiência da história universal ensina que raramente (outra vez o problema da incompletude de “j”, i.é, como poderei demonstrar que se “n” é, se “n+1” é, então “n+j” também é?) um esforço militar desta ordem não provoca uma pressão inflaccionista insuperável.
No caso do Afeganistão essa pressão será naturalmente extensiva aos aliados.
Até ao momento em que Washington se convencerá de que a situação será insustentável e dirá: “estávamos enganados”.
“Horrorosamente enganados”. Com consequências irreversíveis.
Horrorosamente, também, pobre Afeganistão.
Porque as suas professoras são assassinadas nas escolas.
Porque as suas mulheres polícias são assassinadas nas ruas.
Porque as meninas são assassinadas no percurso para a escola.
Porque os assassinos só serão vencidos quando uma nova geração for educada acreditando que as mulheres têm direito à educação. As mulheres e os homens. Perde-se tempo com a guerra, quando o problema é de escolas. De escolas onde se ensine que Khadidja (primeira mulher de Maomé) e Aisha (a última mulher de Maomé) eram mulheres livres e instruidas, como todas as mulheres muçulmanas devem ser. Para que todos possam cumprir a lição de todas as guerras anteriores: que é necessária a Paz para produzir e trocar os bens.
Esse, o das escolas, é que deve ser o teatro de operações.
Não a guerra.
Pode ser que os historiadores das universidades dos USA consigam explicar isso.
Ou será que agora, finalmente, sou eu que estou enganado, e o problema não tem mesmo solução? Que estamos perante uma incompletude trágica?