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sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Imagine

Repito o texto da canção Imagine, de John Lennon, cantada na festa de fim do primeiro período das classes infantis e juvenis do conservatório de Lisboa.
É bonito ver tantas crianças e jovens estudando musica, tocando e cantando assim:







Imagine there's no Heaven 
It's easy if you try 
No hell below us 
Above us only sky 
Imagine all the people 
Living for today 

Imagine there's no countries 
It isn't hard to do 
Nothing to kill or die for 
And no religion too 
Imagine all the people 
Living life in peace 

You may say that I'm a dreamer 
But I'm not the only one 
I hope someday you'll join us 
And the world will be as one 

Imagine no possessions 
I wonder if you can 
No need for greed or hunger 
A brotherhood of man 
Imagine all the people 
Sharing all the world 

You may say that I'm a dreamer 
But I'm not the only one 
I hope someday you'll join us 
And the world will live as one 



Imagina que o paraíso não existe
É fácil, basta tentar;
Que não há inferno
E que acima de nós só o céu
Imagina toda a gente 
A viver o seu dia a dia

Imagina que não há países
Não é difícil;
Que não há nada por que matar ou morrer
nem nenhuma religião, também.
Imagina todos 
A viver a vida em paz

Podes dizer que sou um sonhador
Mas não sou só eu;
Espero que um dia te juntes a nós 
e o mundo será aquele mundo 

Imagina não haver a posse
Gostaria,  se o conseguisses;
Não haver necessidade de ganância ou fome
Antes uma fraternidade humana.
Imagina todas as pessoas 
A partilhar todo o mundo.


Podes dizer que sou um sonhador
Mas não sou só eu;
Espero que um dia te juntes a nós 
e o mundo viverá unido


http://fcsseratostenes.blogspot.pt/search?q=imagine


quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Free Pussy Riot

http://freepussyriot.org/

Libertem as Pussy Riot.
Aceitem a ideia de que uns podem acreditar em religiões e outros não, e que todos têm direito à expressão e à caricatura.
Deixem-se de repressões
Oiçam John Lennon no fecho dos Jogos Olimpicos a cantar Imagine, be a dreamer:


Imagine there's no Heaven
It's easy if you try
No hell below us
Above us only sky
Imagine all the people
Living for today

Imagine there's no countries
It isn't hard to do
Nothing to kill or die for
And no religion too
Imagine all the people
Living life in peace

You may say that I'm a dreamer
But I'm not the only one
I hope someday you'll join us
And the world will be as one

Imagine no possessions
I wonder if you can
No need for greed or hunger
A brotherhood of man
Imagine all the people
Sharing all the world

You may say that I'm a dreamer
But I'm not the only one
I hope someday you'll join us
And the world will live as one


PS 1 - o responsável da televisão turca do programa da cerimónia do fecho dos jogos olímpicos, deve ter sentido o mesmo que eu quando ouviu os primeiros acordes do "Imagine": como é possível? (como é possível, no meio de tanta ligeireza, transmitir um apelo à tolerancia contra grupos de dominação? pensei eu; o senhor turco terá pensado: como é possível? nesta canção há um verso contra as religiões!); e rápido e competente, correu a tapar o dito verso; podia deixar passar; ninguem quer acabar com as religiões, que isso é uma decisão que compete a cada um; pretende-se apenas que ninguém imponha seja que religião for a quem quer que seja; é assim tão complicado? não a imposições); mas o senhor turco compreendeu bem a ideia de John Lennon, o que não é abonatório para ele.

PS 2, em 17 de agosto - consta que as moças foram condenadas a 2 anos de prisão, apesar do pedido de clemencia do principal visado na "oração", Putin. Os juizes não quiseram compreender John Lennon

PS 3, em 28 de agosto - para assinar a petição para libertação:
http://www.avaaz.org/en/free_pussy_riot_free_russia_a/?bhAuBab&v=17312

PS 4, em 28 de agosto - para esclarecer eventuais dúvidas de almas religiosas mais sensíveis, repete-se que a evocação do Imagine de John Lennon não pretende "proibir" a prática de nenhuma religião; mas apenas que ninguém tem o direito de usar a religião para limitar os direitos fundamentais de terceiros. Live and let live.

PS 5, em 29 de agosto - confesso que não gosto da musica punk e que me parece fraquinha a musica das pussy riot; mas são bonitas e cantam bem, pelo menos quando entoam a vozes o canto ortodoxo; por isso, free pussy riot:







 

domingo, 11 de abril de 2010

Economicómio XLVII – Imaginem





Imagine there's no Heaven
It's easy if you try
No hell below us
Above us only sky
Imagine all the people
Living for today

Imagine there's no countries
It isn't hard to do
Nothing to kill or die for
And no religion too
Imagine all the people
Living life in peace

You may say that I'm a dreamer
But I'm not the only one
I hope someday you'll join us
And the world will be as one

Imagine no possessions
I wonder if you can
No need for greed or hunger
A brotherhood of man
Imagine all the people
Sharing all the world

You may say that I'm a dreamer
But I'm not the only one
I hope someday you'll join us
And the world will live as one


Ouvi hoje John Lennon num programa da Antena 2 (Um certo olhar) .
Uma das comentadoras das atualidades escolheu esta canção, a propósito dos ideais de união e paz, e para contrapor ao desprezo pelo bem estar das comunidades que vai por aí.
John Lennon não era um ativista político no sentido estrito (embora perseguido pela polícia política de Richard Nixon devido às suas canções anti-guerra do Vietnam).
E talvez seja esse o caminho, retomar o espírito dos anos 70 de libertação humanista.
Recordo-me que a esperança morreu quando Milton Friedman, a Goldman Sachs, o reaganismo e o tatcherismo aproveitaram uma conjuntura económica e energética favorável para impor o neo-liberalismo.
Quase dois anos depois do Lehman Bros, recordo o poema de John Lennon e leio a seguir no DN a entrevista de um dos principais banqueiros portugueses.
Não defende uma estratégia de concentração, não acusa de nada a Caixa Geral de Depósitos, formula votos de que os fundamentalistas do neo-liberalismo tenham aprendido a lição do Lehman Bros, que a economia deve ser real, não especulativa…
Será possível, o futuro?
Imaginem que “Imagine” nunca será esquecida… que será uma espécie de luta usando a não violência, apesar de Gandhi e John Lennon terem morrido assassinados.


Imagina que o paraíso não existe
É fácil, basta tentar;
Que não há inferno
E que acima de nós só o céu
Imagina toda a gente
A viver o seu dia a dia

Imagina que não há países
Não é difícil;
Que não há nada por que matar ou morrer
nem nenhuma religião, também.
Imagina todos
A viver a vida em paz

Podes dizer que sou um sonhador
Mas não sou só eu;
Espero que um dia te juntes a nós
e o mundo será aquele mundo

Imagina não haver a posse
Gostaria,  se o conseguisses;
Não haver necessidade de ganância ou fome
Antes uma fraternidade humana.
Imagina todas as pessoas
A partilhar todo o mundo.


Podes dizer que sou um sonhador
Mas não sou só eu;
Espero que um dia te juntes a nós
e o mundo viverá unido



http://www.paralerepensar.com.br/lennon.htm



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sábado, 15 de abril de 2017

A paz

Quantas vezes terão as balas de canhão de voar, antes de serem banidas para sempre?
Imaginem que não há nada nem ninguém por quem matar ou por quem morrer, nem nenhuma religião, também. Imaginem  todos a viver em paz.


Imaginem a ONU a adotar oficialmente e a divulgar a mensagem de não violencia, de tolerância, de ausência de vingança, de pacifismo, de Gandhi, de Mandela, de Garry Davis.

Para além da violência e das falsas justificações das guerras, temos ainda a viol~encia das sociedades desestruturadas.
Podemos dizer que o sistema político, económico e financeiro falhou. E só pode melhorr depois de reconhecer que falhou.
Junto fotos no DN de 14 de abril de 2017. Em Los Angeles gerou-se um grupo mafioso com imigrantes vindos de S.Salvador. Sequestram para obter resgates e matam, numa sociedade que se apresenta como das mais ricas do mundo. No Rio de Janeiro a polícia mata e morre. 4,4% dos polícias , relativamente ao total de 90 mil nos últimos 20 anos, morreram em serviço, mas também matam.

Existe no cérebro humano , possivelmente nas areas da sobrevivencia, uma tendencia para a violencia, que deriva de insegurança e que leva os grupos a formarem-se, em tribos, em fações, em partidos, em clube, em exércitos, em empresas e em grupos económicos e financeiros, e a exercer violenciasobre os outros grupos, com medo de serem por eles dominados. Criaram-se as religiões para isso. Por um lado recriam a capacidade de efabulação da criança, de pois servem para reforçar o espírito de corpo, de normalização, de integração no grupo. A eles por Santiago, de um lado, morte aos infieis do outro. A divindade a comandar o extermínio do adversário, desde o massacre de Jericó pelo povo eleito à colonização e escravização impostas pela cultura ocidental.

Por isso são um paradoxo, as mensagens de paz das religiões. O deus cristão nessa música maravilhosa de Arvo Parts é requisitado para lutar por nós e assim nos dar a paz. Ora, como Clausewitz explicou, a guerra serve, continuando a ação da diplomacia quando não consegue atingir os seus fins pacificamente, para impor aos vencidos a paz e o que eles não queriam. Tal como o islão, cujo significado é simultaneamente paz e submissão, cujo profeta foi principalmente um chefe político e militar. Tal como a hipótese de Jesus Cristo, que recomendava aos seus discípulos que andassem armados com espadas, ter sido um chefe político de uma pequena fação zelota, como tal punível pela lei do ocupante romano.
Não admira assim que John Lennon tenha imaginado um mundo sem religiões, sem pretextos para o domínio político e económico de uns por outros.
Provavelmente isso só será possivel partindo do interior das próprias religiões, eliminando paulatinamente as cláusulas de agressão sobre os não crentes (começando por deixar de lhes chamar infiéis) em longos processos de preparação dos seus crentes e de transição sem grandes sobressaltos. Um excelente programa para a ONU, contanto que os seus dirigentes não se deixem dominar pelos ideais religiosos.
Mas será também, a extinção das religiões, provavelmente inevitável, por razões de sobrevivência para evitar a auto-destruição... razões que levem à proibição das balas de canhão, como cantou Bob Dylan...






"Blowin' In The Wind", Bob Dylan


How many roads must a man walk down
Before you call him a man?
How many seas must a white dove sail
Before she sleeps in the sand?
How many times must the cannon balls fly
Before they're forever banned?

The answer, my friend, is blowin' in the wind
The answer is blowin' in the wind.

How many years can a mountain exist
Before it's washed to the sea?
How many years can some people exist
Before they're allowed to be free?
How many times can a man turn his head
And pretend that he just doesn't see?

The answer, my friend, is blowin' in the wind
The answer is blowin' in the wind.

How many times must a man look up
Before he can really see the sky?
How many ears must one person have
Before he can hear people cry?
How many deaths will it take 'til he knows
That too many people have died?

The answer, my friend, is blowin' in the wind
The answer is blowin' in the wind.

Imagine, John Lennon



Imagine there's no Heaven 
It's easy if you try 
No hell below us 
Above us only sky 
Imagine all the people 
Living for today 

Imagine there's no countries 
It isn't hard to do 
Nothing to kill or die for 
And no religion too 
Imagine all the people 
Living life in peace 

You may say that I'm a dreamer 
But I'm not the only one 
I hope someday you'll join us 
And the world will be as one 

Imagine no possessions 
I wonder if you can 
No need for greed or hunger 
A brotherhood of man 
Imagine all the people 
Sharing all the world 

You may say that I'm a dreamer 
But I'm not the only one 
I hope someday you'll join us 
And the world will live as one 



Imagina que o paraíso não existe
É fácil, basta tentar;
Que não há inferno
E que acima de nós só o céu
Imagina toda a gente 
A viver o seu dia a dia

Imagina que não há países
Não é difícil;
Que não há nada por que matar ou morrer
nem nenhuma religião, também.
Imagina todos 
A viver a vida em paz

Podes dizer que sou um sonhador
Mas não sou só eu;
Espero que um dia te juntes a nós 
e o mundo será aquele mundo 

Imagina não haver a posse
Gostaria,  se o conseguisses;
Não haver necessidade de ganância ou fome
Antes uma fraternidade humana.
Imagina todas as pessoas 
A partilhar todo o mundo.


Podes dizer que sou um sonhador
Mas não sou só eu;
Espero que um dia te juntes a nós 
e o mundo viverá unido




Da pacem domine, Arvo Part

Dá  a paz, senhor, no nosso tempo,
pois não há ninguém que lute por nós,
senão tu, nosso deus















terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Imagine - John Lennon

Imagine - John Lennon




Por um lado não se avançou muito, 30 anos depois da morte de John Lennon, mas acho que se vai conseguindo. Sempre fica alguma coisa no subconsciente. Também acho que se chamava a má consciência, antes de Freud, e pressa de castigar ou de calar os discordantes, quando se tem o poder.


Imagine there's no countries
It isn't hard to do
Nothing to kill or die for
And no religion too
Imagine all the people
Living life in peace

You may say that I'm a dreamer
But I'm not the only one


http://fcsseratostenes.blogspot.com/search?q=imagine

sábado, 1 de dezembro de 2018

A mulher do rickshaw - cenas de Lisboa aos 18 anos do século XXI

A imagem surgiu-me pouco nítida no limite lateral do meu campo de visão.
Estava numa esplanada do meu bairro com o meu amigo de um outro bairro, comentando as notícias e a baixa taxa de desemprego.
Primeiro, pareceu-me um dos muitos entregadores de comida, pedalando na sua bicicleta e com um cubo isotérmico afivelado às costas.
Depois reparei que era uma rapariga, certamente saudável, pela forma como se deslocava, mas dada a distancia não pude determinar se a pele do seu rosto era delicada ou tisnada pela exposição à intempérie e à má alimentação.
Isto é, se se dedicava àquela atividade para passar o tempo e juntar uns dinheiritos para comprar bilhetes para os seus festivais preferidos, ou se o fazia por simples necessidade.
O meu amigo comentou que era assim que a taxa de desemprego baixava, e que a rapariga tinha fugido aos empregos normais de entrada às 9 e saída às 6.
Eu comentei que havia uma probabilidade elevada de o fazer por necessidade, porque a bicicleta não era elétrica, pelo que o seu trabalho seria especialmente penoso.
E que por isso me recordava o homem do rickshaw, o filme de 1958 de Hiroshi Inagaki, e que isso me desgostava, que com tanta sabedoria todos os dias derramada sobre os consumidores das notícias pelos decisores da política e da economia, com tanto progresso tecnológico, não se consigam empregos para que as raparigas e os homens dos rickshaws possam produzir as suas mais valias sem tanta penosidade.
Lá estás tu, disse o meu amigo, contando, a propósito, que na rua dele há um dono da rua, que toma conta dos caixotes do lixo, pondo-os no passeio e recolhendo-os, que tem as chaves dos carros de alguns moradores ou frequentadores do bairro para os arrumar, que tem também algumas chaves de casas para facilitar entregas. Isto é, é um prestador de serviços que recebe dos condóminos uma avença pelos caixotes do lixo, que guarda as contribuições dos donos dos automóveis quando, vigilante, verifica que não é preciso colocá-las no parquimetro porque os fiscais da Emel não apareceram, e que dá como garantia da honestidade do seu trabalho o ser o companheiro da senhora Adelina, a esforçada empresária de uma loja de arranjos de roupa que mantem a renda barata por causa das obras do metro que nunca mais avançam.
Também ele, arrumador, não estrá inscrito em nenhum centro de emprego e não entra para a estatística dos desempregados.
Não evito o comentário triste para o meu amigo, que não era nada disto que eu esperava quando nos anos 70 ouvia o Imagine do John Lennon .
Mas eis que na nossa mesa surge a senhora da limpeza que levanta os tabuleiros dos clientes e que gosta de trocar impressóes com eles.
A senhora estava consternada com o que quase presenciara no seu bairro e uma vizinha lhe contara.
Um vizinho estava na tarde de domingo na sua cozinha quando chega à janela e vê o seu carro a ser assaltado.
Pega numa faca e vai a correr ao seu encontro.
Mas quando chega já um grupo está a espancar o assaltante, frustrada a sua tentativa de roubar o autorádio.
Ninguém no bairro sabe dizer o que o matou, sem julgamento sequer popular, se a faca do dono do automóvel, se as pancadas repetidas de cinco homens jovens, se o golpe, por trás, de aperto das carótidas.
Só a autópsia o dirá, mas nessa altura já não será notícia, há outros assuntos nos jornais e nas televisões.
A rapariga do rickshaw passava entretanto com a sua nova carga.
Tinha estado no restaurante da multinacional de hamburgueres e tinha sido rapidamente municiada, provavelmente por cavalheirismo dos seus colegas, mais seguros das suas scooters e motos e fatos de proteção.
Reparo num pequeno barrete, o cabelo enfiado pela parte de trás da gola do casaco, que não era impermeável, num dia que ameaçava chuva, nem a roupa parecia de quem se entretinha por desfastio.
Volto a minha atenção para a senhora da limpeza e para o crime e castigo do inábil assaltante de automóveis.
E faço uma associação com o novo presidente do Brasil, com os dedos em riste mimando em ângulo reto o fuzilamento imediato do pequeno criminoso.
Resolvo procurar na internet, quando chegar a casa, que não vou incomodar agora o meu amigo nem a senhora da limpeza, um filme brasileiro com o mesmo tema do linchamento popular do bairro da senhora da limpeza, Mineirinho vivo ou morto, de 1967 e de Aurélio Teixeira, construido a partir do conto de Clarice Lispector, que, como podem ler, está atualissimo:

É, suponho que é em mim, como um dos representantes do nós, que devo procurar por que está doendo a morte de um facínora. E por que é que mais me adianta contar os treze tiros que mataram Mineirinho do que os seus crimes. Perguntei a minha cozinheira o que pensava sobre o assunto. Vi no seu rosto a pequena convulsão de um conflito, o mal-estar de não entender o que se sente, o de precisar trair sensações contraditórias por não saber como harmonizá-las. Fatos irredutíveis, mas revolta irre­dutível também, a violenta compaixão da revolta. Sentir-se dividido na própria perplexidade diante de não poder esquecer que Mineirinho era perigoso e já matara demais; e no entanto nós o queríamos vivo. A cozinheira se fechou um pouco, vendo-me talvez como a justiça que se vinga. Com alguma raiva de mim, que estava mexendo na sua alma, respondeu fria: “O que eu sinto não serve para se dizer. Quem não sabe que Mineirinho era criminoso? Mas tenho certeza de que ele se salvou e já entrou no céu”. Respondi-lhe que “mais do que muita gente que não matou”.Por que? No entanto a primeira lei, a que protege corpo e vida insubstituíveis, é a de que não matarás. Ela é a minha maior garantia: assim não me matam, porque eu não quero morrer, e assim não me deixam matar, porque ter matado será a escuridão para mim.
Esta é a lei. Mas há alguma coisa que, se me faz ouvir o primeiro e o segundo tiro com um alívio de segurança, no terceiro me deixa alerta, no quarto desassossegada, o quinto e o sexto me cobrem de vergonha, o sétimo e o oitavo eu ouço com o coração batendo de horror, no nono e no décimo minha boca está trêmula, no décimo primeiro digo em espanto o nome de Deus, no décimo segundo chamo meu irmão. O décimo terceiro tiro me assassina — porque eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro.
Essa justiça que vela meu sono, eu a repudio, humilhada por precisar dela. Enquanto isso durmo e falsamente me salvo. Nós, os sonsos essenciais.
Para que minha casa funcione, exijo de mim como primeiro dever que eu seja sonsa, que eu não exerça a minha revolta e o meu amor, guardados. Se eu não for sonsa, minha casa estremece. Eu devo ter esquecido que embaixo da casa está o terreno, o chão onde nova casa poderia ser erguida. Enquanto isso dormimos e falsamente nos salvamos.
Até que treze tiros nos acordam, e com horror digo tarde demais — vinte e oito anos depois que Mineirinho nasceu – que ao homem acuado, que a esse não nos matem. Porque sei que ele é o meu erro. E de uma vida inteira, por Deus, o que se salva às vezes é apenas o erro, e eu sei que não nos salvaremos enquanto nosso erro não nos for precioso. Meu erro é o meu espelho, onde vejo o que em silêncio eu fiz de um homem. Meu erro é o modo como vi a vida se abrir na sua carne e me espantei, e vi a matéria de vida, placenta e sangue, a lama viva.
Em Mineirinho se rebentou o meu modo de viver. Como não amá-lo, se ele viveu até o décimo-terceiro tiro o que eu dormia? Sua assustada violência. Sua violência inocente — não nas conseqüências, mas em si inocente como a de um filho de quem o pai não tomou conta.
Tudo o que nele foi violência é em nós furtivo, e um evita o olhar do outro para não corrermos o risco de nos entendermos. Para que a casa não estre­meça.
A violência rebentada em Mineirinho que só outra mão de homem, a mão da esperança, pousando sobre sua cabeça aturdida e doente, poderia aplacar e fazer com que seus olhos surpreendidos se erguessem e enfim se enchessem de lágrimas. Só depois que um homem é encontrado inerte no chão, sem o gorro e sem os sapatos, vejo que esqueci de lhe ter dito: também eu.
Eu não quero esta casa. Quero uma justiça que tivesse dado chance a uma coisa pura e cheia de desamparo em Mineirinho — essa coisa que move montanhas e é a mesma que o fez gostar “feito doido” de uma mulher, e a mesma que o levou a passar por porta tão estreita que dilacera a nudez; é uma coisa que em nós é tão intensa e límpida como uma grama perigosa de radium, essa coisa é um grão de vida que se for pisado se transforma em algo ameaçador — em amor pisado; essa coisa, que em Mineirinho se tornou punhal, é a mesma que em mim faz com que eu dê água a outro homem, não porque eu tenha água, mas porque, também eu, sei o que é sede; e também eu, que não me perdi, experimentei a perdição.
A justiça prévia, essa não me envergonharia. Já era tempo de, com ironia ou não, sermos mais divinos; se adivinhamos o que seria a bondade de Deus é porque adivinhamos em nós a bondade, aquela que vê o homem antes de ele ser um doente do crime. Continuo, porém, espe­rando que Deus seja o pai, quando sei que um homem pode ser o pai de outro homem.
E continuo a morar na casa fraca. Essa casa, cuja porta protetora eu tranco tão bem, essa casa não resistirá à primeira ventania que fará voar pelos ares uma porta tran­cada. Mas ela está de pé, e Mineirinho viveu por mim a raiva, enquanto eu tive calma.
Foi fuzilado na sua força desorientada, enquanto um deus fabricado no último instante abençoa às pressas a minha maldade organizada e a minha justiça estupidificada: o que sustenta as paredes de minha casa é a certeza de que sempre me justificarei, meus amigos não me justificarão, mas meus inimigos que são os meus cúmplices, esses me cumprimentarão; o que me sustenta é saber que sempre fabricarei um deus à imagem do que eu precisar para dormir tranqüila e que outros furtivamente fingirão que estamos todos certos e que nada há a fazer.
Tudo isso, sim, pois somos os sonsos essenciais, baluartes de alguma coisa. E sobretudo procurar não entender.
Porque quem entende desorganiza. Há alguma coisa em nós que desorganizaria tudo — uma coisa que entende. Essa coisa que fica muda diante do homem sem o gorro e sem os sapatos, e para tê-los ele roubou e matou; e fica muda diante do São Jorge de ouro e diamantes. Essa alguma coisa muito séria em mim fica ainda mais séria diante do homem metralhado. Essa alguma coisa é o assassino em mim? Não, é desespero em nós. Feito doidos, nós o conhecemos, a esse homem morto onde a grama de radium se incendiara. Mas só feito doidos, e não como sonsos, o conhecemos. É como doido que entro pela vida que tantas vezes não tem porta, e como doido compreendo o que é perigoso compreender, e só como doido é que sinto o amor profundo, aquele que se confirma quando vejo que o radium se irradiará de qualquer modo, se não for pela confiança, pela esperança e pelo amor, então miseravelmente pela doente coragem de destruição. Se eu não fosse doido, eu seria oitocentos policiais com oitocentas metralhadoras, e esta seria a minha honorabilidade.
Até que viesse uma justiça um pouco mais doida. Uma que levasse em conta que todos temos que falar por um homem que se desesperou porque neste a fala humana já falhou, ele já é tão mudo que só o bruto grito desarticulado serve de sinalização.
Uma justiça prévia que se lembrasse de que nossa grande luta é a do medo, e que um homem que mata muito é porque teve muito medo. Sobretudo uma justiça que se olhasse a si própria, e que visse que nós todos, lama viva, somos escuros, e por isso nem mesmo a maldade de um homem pode ser entregue à maldade de outro homem: para que este não possa cometer livre e aprovadamente um crime de fuzilamento.
Uma justiça que não se esqueça de que nós todos somos perigosos, e que na hora em que o justiceiro mata, ele não está mais nos protegendo nem querendo eliminar um criminoso, ele está cometendo o seu crime particular, um longamente guardado. Na hora de matar um criminoso – nesse instante está sendo morto um inocente. Não, não é que eu queira o sublime, nem as coisas que foram se tornando as palavras que me fazem dormir tranqüila, mistura de perdão, de caridade vaga, nós que nos refugiamos no abstrato.
O que eu quero é muito mais áspero e mais difícil: quero o terreno.
 
clispector assinatura
 
Fonte: http://www.ip.usp.br/portal/  , do livro: Para não esquecer. São Paulo: Ática, 1979 –  e também em  A legião estrangeira. Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1964
 

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

as baterias da Samsung

Notícia: a Samsung anunciou que em 2021 comercializará baterias para automóvel para 600 km de autonomia.

http://zap.aeiou.pt/samsung-apresenta-bateria-revolucionaria-carrega-500km-20m-145109


Eu corro o risco de ficar mal visto se a Samsung cumprir o prometido (não sei se cá estarei em 2021, e mesmo que esteja ninguém se vai lembrar do que eu disse).
Em primeiro lugar, a Samsung está fazendo o mesmo que os fabricantes de automóvel: mentem aos compradores com consumos que os seus automóveis não podem cumprir em condições reais. E mentem com a cumplicidade dos senhores das "regulações" que se permitem definir testes em condições fora da realidade (antigamente chamava-se a isto "alienação").
A Samsung, por experiencia própria, tinha obrigação de saber que o lítio funde a 180º . Uma pequena sobrecarga durante o carregamento, então se for rápido, ou um pequeno defeito de fabrico  (os eletrodos e a camada de eletrólito estão comprimidos, por mais estável que esteja o grafeno, é uima situação de risco) põe o cátodo em contacto com ânodo e dá-se a explosão quer seja a bateria dum smartphone fininho para vender mais, quer seja uma bateria de tração. Bom, então a Samsung abandona o litio e vai para outras baterias. Muito bem, mas essas baterias não são de carregamento, são de substituição de ele´trodos, ou de usar e deitar fora, quase como as pilhas. Em 4 anos acham que vão descobrir a pólvora? Ou então a mecanica  quantica precisa de ser corrigida, com aquela história toda das camadas de eletrões e quarks. 
Bom, convinha saber qual a longevidade prevista, o seu peso,  específico e total e naturalmente a composição dos eletrodos e eletrolito (se tem terras raras mesmo raras não resolve, não é?).
Quanto a números, 80% de 8x24 são 150 kWh. Isto é, em 20 minutos tem de se meter dentro da bateria à volta de 200 kWh. Ou por outras palavras, tem de pôr em jogo 600 kW durante 20 minutos. Nada mau. À volta de 3,5 MW se estiverem 6 manos a carregar.
Quanto à autonomia, um carro elétrico não pesa menos de 2 toneladas, e em utilização normal, incluindo viagens com o carro carregado e em dias de chuva, ventos contrários e temperaturas longe do ponto de rendimento ótimo da bateria, contemos com 0,3 kWh/km. Os 192 kWh anunciados darão portanto para mais de 600km. Aí não parecem mentir. Quanto ao peso, contando com 200Wh/Kg (a tal mecânica quantica não deixa comprimir mais, a menos que se aumente a taxa de explosões), temos aproximadamente 1900 kg de bateria. Imagine-se a companhia permanente de 2 equipas de futebol no nosso carrinho de passeios de fim de semana. Ora bolas.
Depois quando a bateria explodir o fabricante diz que foi o utilizador que fez mau uso, não ventilou, não deu atenção à subida de temperatura, etc. Como se eu não conhecesse as desculpas dos fabricantes. Viram o video do chapanço do Tesla? o fogo de artificio que a bateria fez?
Porque andam com estas tretas em vez de promoverem o sistema rápido de troca de baterias de 100 em 100 km? Ou um gerador rebocável para viagens longas, ou simplesmente tração por hidrogénio e células de combustível como o Toyota Mirai (com as eólicas que temos podia-se fazer como na Califórnia, produção descentralizada de hidrogénio - haverá correlação na Califórnia entre o desenvolvimento de renováveis  e o voto contra o Trump?)

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

De Primo Levi, A chave de estrela e O sistema periódico


Coisa curiosa.
Tenho recebido por email intensa doutrinação pelos comentadores mediáticos da direita portuguesa criticando a ideia de um governo apoiado pelos partidos de esquerda.
Destacam-se os artigos do Observador, cuja administração nega tratar-se de um jornal digital de fação.
Mas é mesmo insistente e intensa a defesa de pontos de vista claramente de direita, se entendermos a classificação de direita, como a defesa do funcionamento mais ou menos livre do mercado, apesar dos constrangimentos da escassez, das externalidades e da assimetria de informação ou de capacidades, e com menor ou maior respeito pelas reservas de Adam Smith no cumprimento das responsabilidades sociais pelos detentores dos meios de produção. E de esquerda, pela subordinação ao primado da segurança social, das obrigações sociais de saúde e educação, e da possibilidade de propriedade pública de meios de produção.
O nível cultural dos colaboradores do Observador é elevado, de modo que achei curiosa a recomendação, numa das edições, de um livro de Primo Levi, escritor italiano que esteve preso em Auschwitz, químico de formação. E que confesso não conhecia.
Depois de breve pesquisa, encontrei este trecho do seu livro A chave de estrela (La chiave a stella), que não se encontra editado em português.
Para mim é interessantíssimo, por juntar as duas culturas, a técnico-científica e a humanista. Evidenciando a sua experiencia profissional e a humanidade das personagens.
Coisa também patente noutro seu livro, O sistema periódico, este já editado em português (ed.Teorema), e de que também transcrevo citações.

De A chave de estrela:



"Ah, não: tudo eu não posso contar. Ou bem lhe digo o lugar, ou então lhe conto o fato - mas eu, se fosse o senhor, escolheria o fato, porque é um fato e tanto. Depois, se o senhor quiser mesmo recontá-lo, basta trabalhar em cima dele, retificar, esmerilhar, tirar as aparas, dar uma insuflada e, pronto, aí está uma bela história; e, apesar de eu ser mais jovem que o senhor, história é o que não me falta. O lugar talvez o senhor adivinhe, assim não precisa acrescentar nada; mas, se eu lhe disser onde fica, eu acabo tendo problemas, porque aquela gente é boa, mas um pouco melindrosa."
Conhecia Faussone havia apenas dois ou três dias. Encontramo-nos por acaso no refeitório, o refeitório para estrangeiros de uma fábrica muito distante, para a qual fui deslocado devido ao meu ofício de químico de vernizes. Nós dois éramos os únicos italianos; ele estava lá havia três meses, mas tinha estado naquelas terras outras vezes e se virava muito bem com a língua, além das quatro ou cinco que já falava, incorretamente, mas com fluência. Tem uns trinta e cinco anos de idade, é alto, seco, quase calvo, bronzeado, sempre bem barbeado. Um rosto sério, quase imóvel e pouco expressivo. Não é um grande narrador: ao contrário, chega a ser bastante monótono, propenso à diminuição e à elipse, como se temesse parecer exagerado, mas muitas vezes se deixa levar e então exagera sem se dar conta. Tem um vocabulário reduzido e frequentemente se exprime por meio de lugares-comuns que talvez lhe pareçam argutos e novos; se quem o escuta não ri, ele repete, como se estivesse lidando com um tonto.
"... porque, sabe, se estou nesse negócio de circular por todos os estaleiros, fábricas e portos do mundo, não é por acaso, e sim porque eu mesmo quis. Todos os jovens sonham em conhecer florestas, desertos ou a Malásia, e eu também sonhei com essas coisas; só que gosto que meus sonhos se tornem reais, senão permanecem como uma doença que a gente carrega pela vida inteira, ou como a cicatriz de uma operação, que volta a doer toda vez que o tempo fica úmido. Havia duas alternativas: esperar ficar rico e depois me transformar num turista ou então trabalhar como montador. Eu optei por ser um montador. É claro que existem outras maneiras - como quem dissesse virar contrabandista etc. -, mas essas coisas não servem para mim, porque eu gosto de conhecer países, mas sou um tipo dentro das regras. Agora já me habituei tanto a esta vida que, se precisasse ficar sossegado num canto, adoeceria: para mim, o mundo é belo porque é variado."
Olhou-me por um momento, com olhos singularmente inexpressivos, e depois repetiu com paciência:
"Se alguém está na própria casa, talvez até esteja sossegado, mas é o mesmo que chupar prego. O mundo é belo porque é variado. Então, como eu estava dizendo, já passei por tantas e boas, mas a história mais sinistra que me aconteceu foi no ano passado, naquele país que prefiro não mencionar, mas posso dizer que é muito longe daqui e também da nossa casa, e, enquanto aqui sofremos um frio danado, lá, ao contrário, faz um calor de rachar durante nove meses do ano, e nos outros três venta muito. Estava lá trabalhando no porto, mas lá não é como em nossa terra: o porto não é do Estado, e sim de uma família, e a família pertence ao pai de família. Antes de começar a trabalhar na montagem, precisei apresentar-me a ele de terno, almoçar, conversar, fumar sem pressa, imagine só, nós que sempre temos as horas contadas. Não por nada, mas é que custamos caro, e esse é o nosso orgulho. Esse pai de família era um tipo meio a meio, meio moderno e meio tradicionalista; vestia uma bela camisa branca, dessas que não são passadas, mas quando entrava em casa tirava os sapatos e também pediu que eu tirasse os meus. Falava inglês melhor do que os ingleses (que, aliás, não lhe agradam muito), mas não me apresentou às mulheres de sua família. Também como patrão devia ser meio a meio, uma espécie de escravocrata progressista: imagine que mandou pendurar sua foto emoldurada em todos os escritórios e até nos depósitos, como se fosse um Jesus Cristo. Mas todo o país é um pouco assim, há um monte de mulas e de monitores, há aeroportos que deixam o de Caselle no chinelo, mas muitas vezes, para chegar a um lugar, é mais rápido ir a cavalo. Há mais boates que padarias, mas se vê gente nas ruas com tracoma.
"O senhor deve saber que montar um guindaste é um trabalho e tanto, e uma ponte rolante é ainda pior, mas não são tarefas que se façam sem uma equipe: é preciso alguém que conheça as malícias do ofício e que coordene tudo - nós - e depois os auxiliares da obra. E é aqui que começam as surpresas. Naquele tal porto, as confusões sindicais também são um grande problema; o senhor sabe, é um país onde, se alguém rouba alguma coisa, cortam-lhe a mão em praça pública: a direita ou a esquerda, a depender do que foi roubado, ou às vezes até uma orelha, mas sempre com anestesia e bons cirurgiões, que estancam a hemorragia num segundo. É verdade, não são lendas, e se alguém começar a espalhar calúnias a respeito de uma dessas famílias importantes, cortam-lhe a língua e pronto.
"Pois bem, apesar de tudo isso, lá eles têm associações muito bem organizadas, que participam de todas as decisões: todos os operários de lá carregam sempre um radinho de pilha, como se fosse um patuá, e se a rádio disser que há greve, tudo para, não há ninguém que ouse levantar um dedo; de resto, se alguém tentasse, era capaz de receber uma facada, talvez não imediatamente, mas dali a dois ou três dias; ou então o sujeito levava uma viga na cabeça ou bebia um café e caía duro. Não gostaria de viver naquele lugar, mas me sinto satisfeito por ter estado lá, porque há certas coisas que a gente só acredita vendo.
"Então eu lhe dizia que estava lá para montar um guindaste de cais, um desses gigantões de braço retrátil, e uma ponte rolante fantástica, quarenta metros de luz e um motor de suspensão de cento e quarenta cavalos; meu Deus, que máquina, me lembre de lhe mostrar a foto amanhã à tarde. Quando terminei de montá-la e fizemos os testes e parecia que tudo ia às mil maravilhas, deslizando feito manteiga, senti como se tivessem me dado um título de comendador e até paguei bebida para todos. Não, vinho não: aquela porcaria que eles chamam de cumfàn, com gosto de mofo, mas que refresca e faz bem - mas vamos com calma. Aquela montagem não foi uma coisa simples, não pelo aspecto técnico, que correu perfeitamente bem desde o primeiro parafuso; não, era mais uma atmosfera que se sentia ao redor, como um ar pesado, quando está para cair uma tempestade. Pessoas que falavam pelos cantos, fazendo sinais e caretas que eu não entendia, e de vez em quando surgia um jornal pregado na parede e todos se amontoavam em volta, lendo ou pedindo que lessem em voz alta, e eu ficava sozinho no alto dos andaimes, como um melro.
"Depois a tempestade desabou. Um dia percebi que os operários se chamavam uns aos outros com gestos e assovios; todos foram embora, e aí, como eu não podia fazer nada sozinho, também desci das estruturas e fui assistir à assembleia deles. Era num grande depósito em construção: ao fundo montaram uma espécie de palco, com cavaletes e mesas; subiam ao palco e falavam um depois do outro. Entendo pouco a língua deles, mas se via que estavam furiosos, como se tivessem cometido uma injustiça contra eles. A certa altura subiu um mais velho, que parecia um mestre-de-obras; o sujeito estava muito seguro do que dizia, falava com calma, cheio de autoridade, sem gritar como os outros, e nem precisava disso, porque diante dele todos faziam silêncio. Pronunciou um discurso tranquilo, e todos ficaram convencidos; ao final, fez uma pergunta e todos ergueram a mão gritando não sei o quê; quando fez a pergunta inversa, nenhuma mão se levantou. Então o velho chamou um rapaz que estava na primeira fila e lhe deu uma ordem. O rapaz saiu correndo, foi ao depósito de ferramentas e voltou num instante, segurando numa das mãos a foto do patrão e um livro.
"Perto de mim havia um especialista em testes que era do lugar, mas não sabia inglês; até estabelecemos certa camaradagem, porque convém sempre agradar aos testadores: a cada santo sua vela."
Faussone tinha acabado de comer uma porção abundante de assado, mas chamou a garçonete e pediu uma segunda porção. A mim me interessava mais a sua história, e não os seus provérbios, mas ele o repetiu com método:
"Em todos os países do mundo é assim, os santos exigem suas velas: eu tinha dado àquele especialista em testes uma vara de pescar, porque é bom agradar aos testadores. Assim ele me explicou que se tratava de uma questão boba: havia tempos os operários pediam que a cantina da fábrica oferecesse refeições com patíveis com a sua religião; no entanto o patrão queria posar de pessoa moderna, embora no fim das contas fosse um ferrenho partidário de outra religião, mas aquele país é um labirinto de religiões no qual qualquer um se perde. Enfim, mandou o chefe de pessoal dizer que ou eles se contentavam com o refeitório do jeito que estava, ou nada de refeitório. Já tinha havido duas ou três greves, mas o patrão não tinha nem piscado o olho, porque afinal as provisões eram magras. Então surgiu a proposta de fazer-lhe a caveira, só por represália."
"Como assim, fazer-lhe a caveira?"
Faussone explicou-me pacientemente que fazer a caveira é como fazer um feitiço, lançar um mau-olhado sobre alguém, fazer uma mandinga:
"... não necessariamente para matá-lo: ao contrário, daquela vez com certeza não queriam que ele morresse, porque o irmão mais novo era pior do que ele. Queriam apenas meter-lhe medo, sei lá, que pegasse uma doença, sofresse um acidente, só para ver se mudava de ideia, e também para deixar claro que eles sabiam se defender.
"Então o velho pegou uma faca, arrancou os pregos da moldura e a destacou do retrato. Parecia que ele tinha grande prática naqueles trabalhos; abriu o livro, fechou os olhos, pôs o dedo numa página, depois abriu de novo os olhos e leu no livro alguma coisa que não entendi, nem o testador. Pegou a foto, fez um rolo com ela e a amassou bem com as mãos. Mandou que buscassem uma chave de fenda, ordenou que a deixassem em brasa num fogão a querosene e a enfiou no rolo amassado. Aí desdobrou a foto e a exibiu, e todos batiam as mãos: a foto tinha seis buracos de queimadura, um na testa, outro perto do olho direito, um no canto da boca. Os outros três se espalharam no fundo, fora do rosto.
"Então o velho repôs a foto na moldura do jeito que estava, amassada e furada, e o garoto partiu para recolocá-la no lugar, e todos voltaram a trabalhar.
"Pois bem, no final de abril o patrão ficou doente. Não disseram com todas as letras, mas a notícia se espalhou logo, sabe como é. Desde o início parecia que era grave - não, não tinha nada no rosto, a história já é bastante estranha do jeito que é. A família quis logo metê-lo num avião e despachá-lo para a Suíça, mas não houve tempo: ele tinha algo no sangue e em dez dias morreu. E pense que era um tipo robusto, que nunca esteve doente, sempre girando pelo mundo de avião e, entre uma viagem e outra, sempre atrás das mulheres ou jogando toda a noite, até o sol raiar.
"A família denunciou os operários por homicídio, aliás, por 'assassínio meditado com malícia': me disseram que lá era assim. Como se vê, eles têm tribunais que é melhor nem passar por perto. E não há um código só, mas três, de modo que eles escolhem um ou outro segundo a conveniência do mais forte ou de quem paga mais. A família, como eu dizia, argumentava que houve o assassinato: houve a vontade de matar, houve ações que visaram à morte e houve a morte. O advogado de defesa respondeu que as ações não pretendiam aquele resultado, no máximo apenas causariam erupções na pele, não sei, abscessos ou furúnculos; disse que, se a foto tivesse sido cortada ao meio ou queimada com gasolina, aí sim teria sido grave. Porque parece que, de acordo com as mandingas, de um furo nasce um furo, de um corte, um corte, e assim por diante; a gente acha a coisa meio engraçada, mas todos eles acreditam nisso, até os juízes, até os advogados de defesa."
"Como terminou o processo?"
"O senhor deve estar brincando: ainda continua, e vai continuar até sabe-se lá quando. Naquele país os processos não terminam nunca. Mas aquele testador que eu mencionei prometeu que me manteria informado, e, se o senhor quiser, eu também posso mantê-lo informado, se é que essa história lhe interessa."


A garçonete veio servir a portentosa porção de queijo que Faussone pedira; tinha uns quarenta anos, era magrinha e curvada, com cabelos lisos e oleosos por causa de algum produto, o rosto triste de cabra assustada. Olhou Faussone com insistência, e ele sustentou o olhar com ostensiva indiferença. Quando foi embora, me disse:
"Parece o cão chupando manga, coitadinha. Mas fazer o quê? A cavalo dado não se olham os dentes."
Fez um gesto com a mandíbula em direção ao queijo e me perguntou com escasso entusiasmo se eu aceitava um pouco. Depois o atacou com avidez e, entre uma bocada e outra, retomou:
"O senhor sabe, aqui, em matéria de garotas, é um fiasco. A cavalo dado não se olham os dentes. Dado pela fábrica, digo."


De  O sistema periódico:

“… o autor não deveria ser totalmente ignorante, mas cada uma das suas páginas exalava a bazófia de alguém que está certo de que as suas afirmações não serão contestadas … pregava como um profeta possesso … como se lhe tivesse sido revelado por Jeová no Sinai ou por Wotan no Walhalla “

“…com efeito, o fascismo exercera influencia sobre nós, como sobre quase todos os italianos, tornando-nos insensíveis e superficiais, passivos e cínicos … o fascismo consolidara-se como custódia de uma legalidade e de uma ordem detestáveis, fundadas na opressão de quem trabalha, no lucro incontrolado de quem desfruta o trabalho de outrem, no silencio imposto a quem pensa e não quer ser escravo, na mentira sistemática e calculada”.

quinta-feira, 26 de março de 2015

A privatização/subconcessão do metropolitano de Lisboa em março de 2015

Finalmente, o governo atual conseguiu anunciar o concurso público e respetivo caderno de encargos.
Este blogue não dispõe de informação privilegiada, pelo que conhece apenas os termos do anúncio.
Esta circunstancia é compatível com o secretismo, contrário às disposições constitucionais que garantem o acesso de qualquer cidadão a informação estratégica para o interesse público, com que o governo atual e os seus mandatários de nomeação política na administração do metropolitano de Lisboa desenvolveram o processo de preparação do concurso.
Este esteve inicialmente marcado para dezembro de 2013, o que mostra a dificuldade do que o governo pretende: explorar uma linha de metro sem prejuízos operacionais e sem indemnizações compensatórias.
Por formação e experiencia profissional, o escriba deste blogue prefere que as empresas de transporte de interesse estratégico a nível nacional ou de grande região sejam públicas ou de capital público significativo, de modo a poder integrar as questões desse transporte na planificação e organização do território, coisa que compete naturalmente aos orgãos públicos.
No entanto, admite que, nos casos em que as instituições públicas nunca investiram na constituição de um corpo técnico ou operacional completo para a exploração e manutenção de um metropolitano, como é o caso do Porto, essas exploração e manutenção possam ser executadas por entidades privadas.
No caso do metropolitano de Lisboa, que sempre assegurou a manutenção e exploração, para o que se dotou de um quadro de pessoal técnico e operacional qualificado e de provas dadas ao longo do tempo com indicadores de qualidade ao nível dos outros metropolitanos, é, salvomelhor opinião , um desperdício subconcessionar o serviço nos moldes anunciados (exploração e manutenção corrente das instalações fixas).
Considerando a experiencia do metropolitano de Lisboa, tal decisão poderá ser atribuida a ignorancia dos decisores governamentais, assessorados por consultores não imparciais, ou a uma sua obsessão ideológica ("os privados gerem melhor" e "vamos acabar com as regalias dos trabalhadores"), uma vez que as normas europeias não impõem a privatização dos transportes. Acresce que as experiencias em Londres da privatização da manutenção do metropolitano não correram nada bem.
Considerando os termos do anuncio, verifica-se que o único critério de adjudicação é "o valor mais baixo".
Depreende-se assim que o concedente está a comprar um serviço. Isto é, o subconcessionário vai pagar, e o concedente receber, uma renda negativa.
Este facto, associado à retirada do âmbito do concurso da manutenção do material circulante e da grande manutenção das galerias, viadutos e estações, configura uma efetiva mas disfarçada entrega ao subconcessionário de uma indemnização compensatória.
Com a agravante de, ao limitar o critério ao "valor mais baixo", ignorar a capacidade técnica dos técnicos do metropolitano de Lisboa para avaliar a qualidade técnica das propostas e dos seyus proponentes.
E isso é extremamente grave por ser uma clara desconsideração da engenharia portuguesa, uma exclusão dos seus profissionais do processo de seleção.
Imagine-se os riscos de adjudicar um serviço hospitalar avaliado apenas por contabilistas sem a participação de médicos e sem a respetiva consideração de critérios médicos.
Penso que é caso para a Ordem dos Engenheiros protestar por estarem a ser tomadas decisões sobre problemas técnicos sem a consideração de critérios profissionais.
Quanto ao equilíbrio financeiro, conceito tão do agrado dos decisores governamentais, mais uma vez este blogue recorda os cálculos justificativos (que gostaria de ver contestados se não estão corretos) que apresentou em:
http://fcsseratostenes.blogspot.pt/search?q=indemniza%C3%A7%C3%A3o+compensat%C3%B3ria

e em:
http://fcsseratostenes.blogspot.pt/2012/10/dedicado-ao-senhor-secretario-de-estado.html

Considerando a renda do subconcessionário positiva ou negativa, e que as indemnizações podem estar disfarçadas na assunção pelo Estado de parte da manutenção, do total dos investimentos ou do serviço da dívida, só tem interesse económico para o Estado subconcessionar se  os lucros do subconcessionário forem menores do que o diferencial dos resultados operacionais antes e depois da subconcessão, devido a uma hipotética "melhor gestão privada" (coisa dificil de conseguir sem baixar os indicadores de qualidade)
Ou por outras palavras, se os resultados operacionais com a gestão privada excederem os resultados operacionais com a anterior gestão pública no valor da soma:
          lucro + a diferença entre o investimento público e privado depois e antes da
         subconcessão + o serviço da dívida pública acumulada anteriormente - a indemnização                      compensatória anterior à concessão

Em resumo, a pretexto do programa da troika ou por ideologia própria, o atual governo assenhoreou-se, depois de ganhar as eleições com mentiras registadas nas reportagens da campanha eleitoral de 2011, dos mecanismos de decisão dos transportes em Portugal, paralisando os investimentos ferroviários, como bárbaros que tomaram o poder e destroem as estruturas produtivas enquanto estimulam o consumo de combustíveis fósseis através dos automóveis privados e tentam o apoio das grandes empresas privadas de transportes, e ignorando afrontosamente a experiencia profissional e a qualificação dos técnicos de todos os níveis do metropolitano de Lisboa.
Resta no entanto a esperança de já não ser possível resolver o concurso até ao final da legislatura por falta de interesse dos concorrentes.
Este blogue lamenta que, apesar de cumpridos os mecanismos formais da democracia, esta não tenha meios, de natureza participativa pela sociedade civil,  para impedir  a prepotencia dos governantes, a desvalorização que fazem do fator trabalho e a subversão dos princípios democráticos a que assistimos em casos como este da subconcessão dos transportes urbanos.

segunda-feira, 2 de março de 2015

Ponto de vista sobre o terminal de contentores do Barreiro

A Administração do Porto de Lisboa apoia a construção de um terminal de contentores no Barreiro.
A sua presidente participou numa deslocação a Bruxelas para patrocínio da candidatura a fundos comunitários (lamento, a propósito, o silencio do governo sobre a eventual apresentação de outras candidaturas ao programa CEF - conneting Europe facility, cujo prazo terminava em 26 de fevereiro de 2015 e foi prorrogado a 3 de março).
A presidente da APL teve a prudência de afirmar que só concordará com a construção do terminal se os seus custos forem assumidos pelo concessionário.
Tendo-a conhecido e admirado a sua atuação em diversas áreas do transporte, nomeadamente na implementação de radares de controle de velocidade em rodovias, tenho pena de a ver associada a um deficiente processo de tomada  de decisão sobre um investimento de interesse público (duvido que um empreendimento desta  natureza seja suportado na prática exclusivamente por capitais privados).

1 - Como em qualquer país desenvolvido, os empreendimentos de interesse público deveriam ser objeto de um planeamento a longo prazo e de uma divulgação atempada que permitisse um debate aberto baseado em análise de custos-benefícios para várias alternativas. Para que estejam integrados na estrutura económica do país e não sejam iniciativas avulsas e descoordenadas. O caso do terminal do Barreiro é típico, nunca fez parte de um estudo estratégico do porto de Lisboa e só recentemente surgiu como alternativa ao local estudado e proposto desde os anos 90: no fecho da Golada.

2 - Convem recordar três evidencias históricas que provam o desprezo dos decisores do país pelo interesse estratégico dos portos marítimos: 1 - até ao século XV Coimbra foi porto marítimo, pois o Mondego era navegável até a Raiva, a montante de Coimbra, pelos navios de navegação oceânica. O assoreamento posterior, em parte devido á deflorestação das margens do rio, acelerando a sua erosão, tornou impraticável a navegação no rio. 2 - a rota mercantil utilizada pelos romanos para o sul de Lisboa consistia no transporte fluvial de Lisboa a Aqua bona (Coina), seguindo por via terrestre para Setúbal e daí atravessando o rio Sado. No século XVIII, numa altura em que se desenvolviam as comunicações fluviais e por canais em Inglaterra, França e Alemanha (porque o transporte em meio aquático é mais eficientemente energeticamente, isto é, exige menos energia para transportar o mesmo peso de mercadorias), não foi julgado importante construir um canal de ligação entre os estuários do Tejo e do Sado. 3 - o frete e o seguro do transporte marítimo do ouro do Brasil, no século XVIII, foi entregue a frotas e companhias holandesas; foram raros os navios portugueses que participaram nesse transporte, porque os decisores da altura resolveram poupar no investimento em navios.

3 - Convem também tomar uma vista aérea do estuário do Tejo e, pensando nos exemplos de portos por essa Europa fora, imaginar como seria a configuração dos portos de Lisboa se a gestão deste território estivesse entregue a holandeses.




4 - Vale ainda recordar as condições reais do estuário do Tejo em termos de fundos de pouca profundidade. Nos anos 90, houve um conflito entre o ministério dos transportes e os pilotos (qualquer navio que demande o porto precisa de embarcar antes da barra um piloto que conhece o estuário). O senhor ministro os transportes achou que podia dispensar os pilotos em greve. Logo um cargueiro foi encalhar ao largo do Barreiro, mais ou menos nas mesmas coordenadas onde podemos imaginar um navio de 8000 TEUs fazendo manobras de atracagem ou desatracagem com os seus 300 metros de comprimento, 43 de largura e 14,5 de calado. Ou mais modestamente, contentar-se-á o porto de Lisboa em movimentar navios de cabotagem de 215m de comprimento, 20m de largura e 10m de calado, quando Algeciras ou Sines podem movimentar navios de 18000 TEus (400m - 53m - 15,5m)?





5 - Já é do domínio público que os estudos prévios para a localização do terminal de contentores no Barreiro foram sujeitos a candidatura dos fundos europeus do CEF (connecting Europe facility), não a construção do porto. Segundo afirmações do senhor secretário de Estado e da presidente da APL, não serão gastos dinheiros públicos, pelo que estaremos dependentes do investimento de um operador concorrente do que detem o monopólio do porto e ampliação de Sines (até os 4 milhões de TEUs). Com as dúvidas sobre os custos anuais das dragagens e dos limites impostos aos navios, parece incerto o interesse dos grandes operadores. A utilidade deste porto seria assim para abastecimento e exportação da área geográfica envolvente, eventualmente até Madrid.

6 - Para serviço da área geográfica envolvente pareceria prioritária, sem prejuízo da futura construção de um pequeno porto no Barreiro, a ampliação com estacaria do porto de Santa Apolónia e a melhoria dos fundos do porto de Setúbal. Sobre o Barreiro, Santa Apolónia tem a vantagem das ligações ferroviárias mais próximas do centro de gravidade da área de consumo, a norte de Lisboa (a ligação ferroviária do Barreiro terá de dar a volta pelo Setil). E Setúbal tem  a vantagem de estar mais próxima da plataforma do Poceirão, para o tráfego de exportação.

7 - Tem circulado pela internet a informação de que toda a zona da ex-Quimigal, adjacente ao local do projetado terminal de contentores do Barreiro, já foi alvo de um estudo prévio de urbanização por um gabinete de arquitetura associado a um vereador da câmara de Lisboa. Não sendo ilegal, tal facto, a não ser verdade, deveria ser objeto de desmentido formal e esclarecedor. Sendo verdade, comprova a promiscuidade entre negócios privados e a coisa pública com a respetiva informação assimétrica e a repulsa por concursos públicos. E comprovaria também que o principal motivo para a localização do porto do Barreiro é a recuperação urbanística da área da ex-Quimigal, o que na verdade tem vantagens para o concelho, mas não é uma boa solução técnica do ponto de vista portuário e de ligação à Europa.

8 - A engenharia existe para, com recurso à ciência e à técnica, vencer dificuldades e tornar possíveis empreendimentos. Mas deve fazer isso sob compromisso económico e após análise dos custos (incluindo prejuízos sociais e ambientais) e dos benefícios (não apenas económicos).
No caso vertente, não é possível neste momento, dadas as caraterísticas do Tejo, prever com exatidão a taxa de reassoreamento após dragagens. O modelo teórico existente, sendo certo que quanto mais profundas as dragagens mais rápido o reassoreamento e a necessidade de novas dragagens, precisa de ser confirmado com dragagens experimentais, o que se aplica também à avaliação do grau de contaminação e dos custos de tratamento dos lodos contaminados.



9 - Localizações do terminal de contentores de águas profundas propostas anteriormente para a Trafaria e para a Cova do Vapor, a poente do terminal cerealífero da Silopor, na Trafaria

visto de Lisboa, ao fundo, o terminal cerealífero da Silopor, na Trafaria. O terminal de contentores na localização Trafaria ou Cova do Vapor ficaria mais à direita



visto da Trafaria, o terminal cerealífero da Silopor. Existe neste momento um contencioso com o concessionário. O terminal de contentores da Trafaria ou da Cova do Vapor ficaria por trás, a poente

o terminal cerealífero da Silopor visto da Cova do Vapor. Localização do terminal de contentores chumbada pela camara de Almada

comparação das duas localizações propostas para o terminal de contentores da águas profundas na Trafaria ou na Cova do Vapor


comparação das duas localizações propostas para o terminal de contentores da águas profundas na Trafaria ou na Cova do Vapor. Notar que o baixio imediatamente a NE do Bugio vai-se assoreando, no sentido do estreitamento da barra do Tejo, à medida que a Caparica perde areia. O processo só será interrompido com o fecho da Golada 

10 - Cartas náuticas com as linhas de igual profundidade

porto de Lisboa - a azul escuro as zonas de baixios; a branco os bancos de areia (imediatamente a NE do Bugio, o banco de areia vai avançando para norte, estreitando a foz, à medida que a Caparica perde areia; consequentemente, a construção de um porto de águas profundas aqui  implica o fecho da Golada

devido à presença do banco de areia a NE do Bugio, o porto de águas profundas teria de estar alinhado com a margem sul para apanhar a linha de profundidade de 20m; na zona do Barreiro verifica-se uma profundidade inferior a 5m e extensas zonas lodosas; o assoreamento é devido não só ao Tejo mas também às ribeiras afluentes dos canais do Seixal, do Barreiro, da Moita e do Montijo


Finalmente, reproduzo o "post" de 1 de julho de 2014 neste blogue. Pouco se avançou, e o que se avançou foi no caminho, segundo este blogue, do erro:

terça-feira, 1 de julho de 2014


Os localizadores. O porto do Barreiro, o aeroporto da Ota e o aeroporto do Montijo

Acredito na boa fé do senhor ministro da Economia.
E que ele acredite sinceramente nos mecanismos intangíveis e invisíveis que transformam o interesse no lucro das empresas no benefício coletivo, desde que não me obrigue a acreditar em tal coisa.
Por isso me trouxe mais um desgosto a sua afirmação de que o novo terminal de contentores de Lisboa ficaria no concelho do Barreiro, embora ainda estivessem a decorrer estudos.
Se estão a decorrer estudos, não se pode concluir que a localização será no Barreiro, a menos que se aplique a velha história: "Faça-me aí um relatório para demonstrar o que eu quero".
Desgosta-me a ingenuidade com que o senhor ministro dará ouvidos a quem lhe diz que sim, o terminal pode ser no Barreiro.
Lamento dizer claramente que é um disparate. Um porto no Barreiro será muito útil como porto de distribuição, de cabotagem e ele já lá existiria se Portugal tivesse marinha mercante que se visse. Mas não como porto de águas profundas. Claro que se pode dragar. Mas custa caro e entra nas despesas de exploração. Além de que está longe do mar e o acesso afunilado pelo estreito de Cacilhas. Os especialistas já estudaram a melhor localização nos anos 90. É o fecho da Golada, para grande desgosto dos ambientalistas. O fecho da Golada reteria as areias da Caparica e protegeria Lisboa do risco de maremotos. Há espaço para poupar a Trafaria. O acesso ferroviário será caro, mas razoável economicamente. O porto de águas profundas da Golada aliviaria Alcantara, vocacionada para cruzeiros. Projetos bem feitos beneficiariam de fundos comunitários.
Mas a corte que rodeia os ministros não quer.
Recordo a história da localização do novo aeroporto na Ota para demonstrar a inépcia dos localizadores de grandes infraestruturas em Portugal quando se constituem em cortes de bonzos a isolar os ministros da realidade.
Era primeiro ministro o atual presidente da República, quando a Força Aérea apresentou o plano de racionalização das suas bases aéreas a propósito do estacionamento dos F-16.
Tudo ponderado, considerando as deficientes condições meteorológicas e aeronáuticas da Ota, a Frça Aérea desistia dela.
Foi quando o senhor primeiro ministro, contente por poder fazer economias, disse que então podia lá ficar o novo aeroporto. A corte de bonzos apoiou, dizendo que até podia ser servido pela linha do norte (ignorantes, nem sequer sabiam que a linha do norte já estava saturada). Um grande gabinete de arquitetura fez um projeto muito bonito, com uma estação de correspondencia com alinha do Norte digna de revistas de arquitetura. Outro grande gabinete de engenharia rejubilou, considerando a tabela de honorários, programando a movimentação de terras e cursos de água, o corte de um morro e dois anos consecutivos de aterros. Passados uns anos e alguns governos, perante o protesto de alguns técnicos que desde os anos 70 sabiam que a localização correta era na zona de Rio Frio (era o mesmo programa do inicio da década de 70 retomado pelo V governo provisório, de que faziam parte o porto de Sines e o aproveitamento do Alqueva), um ministro de obras públicas perguntou à ministra do ambiente se havia contraindicações ambientais em Rio Frio, mas não perguntou se as havia na Ota (com a quantidade de aterros de cursos de água, imagine-se). Claro que a ministra disse que sim, que havia, há sempre prejuízos ambientais, o que quer que se faça ou deixe de se fazer). E assim se decidiu que ficava na Ota. Grandes investidores asiáticos já tinham comprado hectares e hectares à volta. Um grupo de técnicos não desistiu e lá conseguiu demonstrar ao governo contemporaneo da crise do Lehman Brothers que era melhor Alcochete (Rio Frio, Canha). Mas era tarde, tinha-se esgotado o financiamento do QREN para essas coisas.
Vem agora o senhor secretário de Estado dos transportes e a Ryan Air, entusiasmados com a gestão privada da ANA, que estão abertos à localização no aeroporto do Montijo do "apêndice" do aeroporto da Portela ,enquanto não atinge os 22 milhões de passageiros, mas já saturado com 16 milhões .
Relembra-se que as pistas do Montijo são curtas (2100 m a norte-sul, no enfiamento da ponteVasco da Gama, e 2400 m a Leste-oeste, no enfiamento da povoação). E que qualquer adaptação da base aérea custa muito dinheiro. Como estão a custar as "melhorias" na Portela. Faz pena ver  a falta que faz uma ligação ferroviária suburbana à margem sul pelo Montijo (para não falar que na terceira travessia deveria estar incluida a alta velocidade para Madrid, passageiros e mercadorias. Coisas que projetos bem feitos teriam financiamento dos programas QREN.
Mas é exigir demais aos localizadores que tomam decisões.