quinta-feira, 23 de junho de 2011

Ben Bernanke, chefe da Reserva Federal dos USA, antes e depois do Lehman Bros, e os receios da Grécia

O senhor diretor da Reserva Federal dos USA, cuja atuação na crise financeira foi retratada pelo filme Inside job de forma muito negativa, manifestou no seu discurso, conforme a noticia referida:
http://br.noticias.yahoo.com/bernanke-risco-cont%C3%A1gio-gr%C3%A9cia-%C3%A9-significativo-191500681.html
grandes receios de contágio pela crise grega, se for introduzida uma moratória no pagamento da divida.

Como bom economista, ao senhor Bernanke deve ser indiferente o sentido físico das coisas como o humilde escriba deste insignificante blogue as considera (ver
http://fcsseratostenes.blogspot.com/2011/03/fisica-explicada-por-palavras-simples.html      ).
Por isso não se impressiona com a inconformidade dimensional de estar a achar que a economia de um país com um PIB pequeno quando comparado com os da UE e dos USA pode ter tantas consequencias.
Mais uma vez se verifica que a melhor defesa que um criminoso tem é acusar a vítima de ter provocado o crime (é isso, as manifestantes gregas andarão com túnicas demasiado curtas, demasiado provocantes, e depois o crime acontece).
Isto numa altura em que o próprio senhor Bernanke reconhece que o sistema financeiro internacional tem debilidades intrínsecas e não está a recuperar como devia.
Ora preocupe-se mais o senhor com o desemprego, as guerras que os USA espalham pelo planeta (sempre em defesa da democracia, claro), com as desigualdades, com o encarecimento dos alimentos e da energia, tudo coisas incompatíveis com a sua religião liberal.
Se está tão preocupado com o efeito dominó, rode as peças de 90º, que elas já não caem, isto é, o centro de gravidade das peças não sairá do polígono de sustentação. Mas para perceber isso terá de rever os apontamentos de física da "high school" e de abdicar do dogma dos mercados perfeitos, que só na teoria existem. Ou será que faltou às aulas de Física?

domingo, 19 de junho de 2011

Tentativa de resposta a uma questão de Alvaro Santos Pereira num artigo da macroeconomia divertida

Caro senhor Professor

Em primeiro lugar, embora não tenha votado nos partidos do governo, as minhas felicitações e votos das maiores felicidade no dificil cargo, o que será bom para todo o País.
Há uns anos contactei-o no seu blogue, teve a amabilidade de me responder,  mas não dei seguimento ao contacto.

Envio-lhe este comentário, pedindo desde já desculpa para a minha imodéstia em julgar que conheço razões para um problema, porque na sua crónica da Macroeconomia divertida, O valor da Educação,  do NS de 2011-06-18 pediu resposta para a seguinte questão:


Questão de ASP: porque será que se mantém o baixo valor dado à educação pelas gerações de emigrantes portugueses?
Enquadramento:
1- as minhas duas avós eram analfabetas; licenciei-me em 1970, ano em que existiam apenas 30.000 cidadãos e cidadãs portugueses licenciados!!
2 - Portugal atingiu 50% de população alfabetizada no século XX, a Espanha no século XIX, a França no século XVIII, a Alemanha e a Inglaterra no século XVII, a Escandinávia no século XVI, funcionando o respetivo século como indicador do alargamento da capacidade de intervenção na vida económica e no progresso económico por faixas cada vez maiores da população
3 - o que mais me impressionou quando comecei a minha vida profissional no metropolitano de Lisboa, em 1974, foi o baixo nivel de habilitações literárias da maioria dos funcionários (coisa que não se verifica atualmente), quer ao nivel escolar quer ao nivel escolar profissional (o que não impedia o alto nivel profissional de grande parte deles), indiciando a preocupação dos pais em colocar rapidamente os filhos a "ganhar a vida"
4 - só após o 25 de Abril de 1974 se generalizou a preocupação das famílias em assegurar um curso superior aos filhos
5 - a experiencia ensina que, apesar dos acessórios que a tecnologia vai continuamente pondo ao serviço das novas gerações, apesar das melhorias das condições de vida, e apesar do progresso nos conceitos de direitos da mulher, a tendencia natural é as novas gerações reproduzirem os comportamentos da geração anterior, desde hábitos de alcoolismo (ou outras drogas) ao desprezo pela cultura entendida como clássica, ao desprezo pelas regras de segurança rodoviária, ou ao prosaico desprezo pela matemática e pela física (diz o pai para o filho: não te preocupes, que eu no meu tempo tambem tinha negativa a matemática); nos casos extremos, é muito dificil a jovens cérebros (6-10 anos) evitarem danos irreversiveis em termos de capacidade de aprendizagem se o seu desenvolvimento escolar não for bem acompanhado, isto é, dificilmente os filhos de emigrantes mal integrados poderão ser profissionais qualificados mais tarde
6 - neste sentido, apesar da crescente "escolarização" verificada em Portugal, o insucesso e o abandono escolares são outra forma de exprimir o desprezo pela cultura e educação, e de reproduzir o comportamento das gerações anteriores de privilegiar o começar a trabalhar na adolescencia em vez de estudar
7 - pelo que conheço, e que é pouco, das gerações novas, filhos de emigrantes portugueses, verificar-se-ão em quantidades significativas os dois casos:
7.1 - jovens perfeitamente integrados na sociedade, com empregos qualificados a todos os niveis (julgo que isto se verifica mais em França)
7.2 - jovens perfeitamente marginalizados que não beneficiaram de acompanhamento eficaz durante o periodo critico de aprendizagem cognitiva antes dos 10 anos e que por isso reproduzirão a condição de não qualificação ou de não inclusão dos progenitores (são casos típicos os de mães portuguesas que não falam inglês) ou, pior que isso, enveredarão pela criminalidade ou pela não inclusão (julgo que isso se verificará mais nos USA e no Canadá); a atitude de alguns emigrantes de não preocupação com o sucesso escolar dos filhos contrasta com a prática dos emigrantes  mexicanos que têm como objetivo que os filhos falem inglês perfeitamente, embora seja verdade que por razões geográficas e históricas existe emigração mexicana para os USA há mais tempo do que de Portugal
Conclusão - considerando o exposto, a justificação económica para o baixo valor dado à educação por parte das novas gerações de emigrantes será a justificação económica da incapacidade educacional e financeira de acompanhamento do percurso escolar pelos pais das crianças, que assim são vítimas de insucesso escolar e de limitação do desenvolvimento das suas capacidades cognitivas. Ficará assim ao critério de cada um eleger as causas, desde um regime laboral que implica a chegada a casa do pai emigrante esgotado,até à ineficiencia de programas de inclusão e integração das mães emigrantes, à ineficiencia de programas de substituição do papel de pais quando incapazes do tal acompanhamento, às limitações orçamentais que conduzem diretamente a essas ineficiencias, às politicas de estimulo ao desemprego para contenção de custos, etc, etc.

Aproveito, abusando da sua paciencia,  para manifestar as seguintes duvidas:
1 - quando cedemos à pressão publicitária e compramos Mercedes, Hyundais e outros automóveis, e quando compramos Smartphones, qual a percentagem dos 78 mil milhões que vão ser reexportados para pagar estes gadgets?
2 - terá o seu Ministério disponibilidade para divulgar o que pensa das 25 medidas propostas no livro de Luis Monteiro "Os ultimos 200 anos da nossa economia e os próximos 30 anos"
http://fcsseratostenes.blogspot.com/2010/10/economicomio-lxi-as-medidas-contra.html
3 - no caso do TGV Porto-Lisboa-Madrid, terá o seu Ministério disponibilidade para considerar a eficiencia energética (energia consumida por passageiro.km) como um dos principais fatores de decisão por um modo de transporte, o que justificaria reivindicar junto de Bruxelas mais verbas a fundo perdido do que as anunciadas e divulgar o que pensa desta argumentação
http://fcsseratostenes.blogspot.com/2010/09/madrid-lisboa-de-aviao-ou-de-tgv.html    ?

Os melhores cumprimentos

F.Santos e Silva

O News of the World, o PIB das cabeleireiras, a imprescindibilidade e a insolencia

Com a devida vénia ao Noticias Magazine do DN de 19 de junho de 2011, um dia depois da grande manifestação da empresa retalhista de Belmiro de Azevedo na Avenida da Liberdade em Lisboa, junto este ramalhete de 4 entidades mais ou menos abstratas.
1 - News of the World - o seu editor chefe, Andy Oulson, foi nomeado pelo primeiro ministro David Cameron como seu diretor de comunicação. Veio a provar-se que o seu jornal tinha feito escutas e devassas ilegais da vida privada de vários cidadãos e cidadãs. O primeiro ministro demitiu o seu diretor de comunicação. Mas o mal estava feito. Quando o poder político chama a si "democratas" deste tipo, é legítimo a um cidadão desconfiar do poder político, mesmo que este primeiro ministro tenha obtido a maioria dos votos. Como diz o provérbio, "diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és" (até pode ser que se diga que a pessoa é muito ingénua, por acreditar nos outros e por acreditar nos dogmas da sua ideologia)
2 - O PIB das cabeleireiras. A jornalista muito admirativa porque duas imigrantes brasileiras abriram um cabeleireiro nas avenidas novas e trabalham aos feriados e fins de semana até às 9 da noite, a contrastar com os preguiçosos dos portugueses. Tem uma certa razão, mas não é só o PIB das cabeleireiras que aumenta, é o PNB brasileiro que aumenta e o PNB português que baixa. A jornalista deverá saber que os portugueses tambem trabalham assim nos outros paises, e que as inovações tecnológicas e as novas técnicas de gestão permitiriam produzir o suficiente para porder gozar-se até mais feriados. Permitiriam, se a estrutura politica, económica e financeira fosse outra, entendendo aqui estrutura, não no sentido marxista, para não chocar ninguém, mas no sentido de forma de organização e de utilização da tecnologia (por exemplo, se a tecnologia é utilizada para fabricar drones, as mais valias resultantes irão faltar, de acordo com o principio da conservação da matéria e energia, para a produção de bens essenciais; isto para não falar na criação virtual de mais valias através das especulações e empréstimos bolsistas). Ah, é verdade, seria bom tambem a senhora jornalista corrigir o complexo merkeliano, é que na Alemanha há mais feriados (vêem como é verdade? tudo depende da forma como a tecnologia é utilizada, com mais ou menos produtividade e rendimento de utilidade do produto)
3 - a imprescindibilidade. A revista entrevista finalistas jovens promissores. Um deles afirma: o segredo é tornar-nos imprescindíveis. Recordo a minha vida profissional. Eu pensava que ninguem é imprescindível pela simples razão de que todos somos necessários apenas por sermos espécie humana, mesmo que estejamos estendidos num quarto de doentes terminais. "De cada um segundo as suas possibilidades, a cada um segundo as suas necessidades" (Lenine, parafraseando Adam Smith). Mas os jovens lobos querem tornar-se imprescindíveis. No meu tempo chamava-se a isso querer ter coisas na manga para poder pedir aumentos. Está bem, percorra a via da imprescindibilidade, mas deixe as pessoas comuns organizarem-se, como dizia o outro, porque a falta de organização é um dos grandes problemas deste país e, pelos vistos, dos outros.
4 - A insolencia. Mais um anuncio de um novo modelo de automóvel. Na parede por trás do carro ppode ler-se: Insolencia, um defeito magnífico. A mensagem subliminar é que o carro e a forma como pode ser conduzido é insolente e isso é um sinal distintivo. Por Mercurio, o santo padroeiro do que mexe, entrámos em alta velocidade nos domínios da irresponsabilidade, neste país com uma taxa de sinistralidade rodoviária tão elevada...

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Não em meu nome I - a semi-deusa grega

O título deste texto é retirado do movimento contra o desmembramento da Bélgica.
A intenção do seu uso aqui é exprimir a oposição à agressão ao conceito de cultura e civilização europeias pelas forças policiais em Atenas.
Valha a verdade que é melhor do que os tiros assassinos dos exércitos sírio e israelita neste mês de junho de 2011.
Mas porque não deixam a rapariga em paz?








Possivelmente porque recearam que ela lhes batesse nos escudos, com as mãos nuas, como a rapariga da outra fotografia (uma rapariga para dez policias).
Na verdade, há que recear a força da razão quando só se tem a força física.



A rapariga que está a ser arrastada está a sofrer violencia fisica, recebendo uma pena sem julgamento. Na foto vêem-se ela e mais quatro policias...
Não vale a pena argumentar com os doutores da propaganda que repetirão os argumentos do costume, de defesa da ordem e da propriedade, normalmente dos bancos.
A rapariga foi sumariamente julgada pelo policia e condenada à pena de arrastamento pelos cabelos.
Nunca estive numa situação assim.
O mais perto disso foi num dia 5 de Outubro, talvez de 1966.
Nesse tempo, ir ao cemitério do Alto de S.João ou parar para olhar a estátua de António José de Almeida na Av.Miguel Bombarda no dia 5 de Outubro significava exprimir a oposição à barbárie e à indigencia cultural que nos governava.
Por isso os doutores da propaganda da altura explicavam que a policia de choque do capitão Maltês tinha de intervir.
Lembro-me dos olhos assustados do pobre moço policia, debaixo do capacete de aço, com a coronha da espingarda prestes a bater-me,  mas a tremer  e a pedir-me em voz baixa e aterrorizado : "Vá-se embora".
Já Freud explicou há muito tempo que a violencia é a manifestação da insegurança de quem acha que tem o poder.
Mas não a glória.
A rapariga da camisola encarnada parece uma semi-deusa grega. Fez-me lembrar a Venus de Rodes, com a diferença de que era a própria Venus que esticava os seus cabelos.

Zeus terá querido abusar dela, da semi-deusa da manidestação. Ter-lhe-á prometido crédito fácil, acessórios para a sua feminilidade, cavalos à disposição no motor de um carro bonito e promessas de poder. Mas a rapariga repeliu os avanços de Zeus, por demais conhecidas que são as suas práticas, recusou a prestação de serviços que os empréstimos pressupunham e acabou arrastada pelos cabelos nas ruas de Atenas. Atenas, a cidade que acabou com a ideia formosa da confederação grega, com sede em Dilos, a pequena ilha ao lado de Mikonos, quando a ganancia dos seus financeiros impediu que o tesouro da confederação fosse posto ao serviço de todos os gregos da confederação. Depois foi o que se viu, as guerras do Peloponeso e a impertinencia dos invasores persas.
Era contra isso, contra a incompreensão do que é a Europa, a sua cultura e a sua civilização, que as raparigas protestavam.
Os doutores da propaganda acham que não (saberão o que significa Dilos?), e que é preciso manter a ordem.
Não o farão em meu nome, nem no das duas raparigas.
Preocupem-se mais em baixar o coeficiente de Gini e em cumprir a declaração universal dos direitos humanos, e não se dêem tão importantes ares quando aparecem nas televisões.
Porque já evidenciam sintomas da sindroma de Hurbis (do grego falta de humildade e excesso de sobre-estima; sindroma estudada por David Owen, ver em
http://fcsseratostenes.blogspot.com/2011/06/sindroma-de-hubris.html )


Com a devida vénia ao DN pelas fotografias


PS - Se critico os hipócritas, não devo ser hipócrita (mais uma palavra grega). Tenho de concordar que podemos ter de aceitar exceções temporárias ao cumprimento da declaração universal dos direitos humanos. Pode haver situações em que se justificaria arrastar uma cidadã pelos cabelos. 
Se o policia estivesse a arrastar a cidadã que não queria ir trabalhar para uma unidade produtiva de bens transacionáveis indispensável para a recuperação da economia grega, com redistribuição correta das mais valias, estando ela a fazer falta no seu posto de trabalho, então, eu concordaria com o uso da força. 
Mas com o desemprego que vai por aí, não creio que seja o caso da rapariga grega. 
Ela provavelmente não tem um posto de trabalho à espera dela para produzir. 
E o policia tambem é policia porque não tem um posto de trabalho à espera dele. 
Então é mais um exemplo do abissus abissum (abismo atrai abismo, ver Camilo Castelo Branco, ou como antes da lei de Fermat Weber já se tinha a intuição de que qualquer coisa que cresce tem tendencia para atrair mais coisas para se alimentar). 
O desemprego estimula manifestações de rua, que por sua vez estimulam o crescimento da policia, que por sua vez estimula o crescimento de cidadãos que não estão a produzir bens transacionáveis.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Lacrimosa - A árvore da vida

A árvore da vida é um filme estranho.
É um projeto de longa data de Terrence Malick e vê-se que tem muito da sua vida e da sua formação.
Mas parece um filme religioso, a explorar o conceito da árvore da vida como um mistério bíblico, com as interrogações de Job, que Sean Penn  tem de se esforçar para ilustrar no filme.
Pessoalmente não gosto quando o tema de partida é a morte de uma criança, não aprecio a técnica de alguns dos atores, nem a insistencia no modo de vida dos bairros suburbanos com relvado à porta dos anos 50 dos USA (tipo de povoamento altamente ineficiente em termos energéticos e de emissões de gases com efeito de estufa), mas reconheço que o filme tem muito interesse.
Como filme religioso, tem musica maravilhosa.
Tem tambem imagens muito bonitas, a fazer lembrar os programas do National Geographic.
Poderá achar-se o filme aborrecido, mas oiçam esta Lacrimosa do Requiem de Zbigniew Preisner, compositor polaco contemporaneo, que eu não conhecia (a enormidade da ignorancia de um cidadão...).
O que se poderá fazer para convencer as pessoas que dizem que não gostam desta musica a não perderem o prazer de a ouvirem?
É extraordinário como ainda se faz musica tonal tão atraente (e como ainda nenhum programador nacional, se não estou enganado, se lembrou de o trazer cá, embora Teresa Salgueiro, dos Madredeus, tenha já trabalhado com o compositor).

http://youtu.be/7L1lhnGUJWE

segunda-feira, 13 de junho de 2011

A sabedoria de Santo António

comemoração em Lisboa de Santo António
O DN de dia 13 de junho, dia de Santo António, vem cheio de sabedoria.
Um jovem de 19 anos, luso-guineense da Quarteira, desata aos tiros, com uma caçadeira de canos serrados, depois de uns assaltozitos durante a madrugada e umas incompreensões num bar enquanto este encerrava a caixa com a receita da noite (às 7 da madrugada...)
Um miúdo de 9 anos, depois do perigo passar (o moço de 19 anos foi preso pela GNR com o apoio de uma unidade que se deslocou de Lisboa) fala com ar experiente para o reporter: "estou habitudo a ver isto nos filmes, por isso não tive muito medo".
O senhor ministro da administração interna dirá: não há problema porque a criminalidade, de acordo com as estatísticas, está a diminuir (o mesmo ministro que numa cimeira em Viana do Castelo discursava sobre segurança, repetindo já nessa altura que as estatísticas indicavam diminuição da criminalidade, enquanto a dois quarteirões de distancia uma ourivesaria era assaltada com um morto).
Avisadamente, o DN lista os ultimos assaltos em Albufeira, que já incluem turistas mortos, e a afirmação do presidente da associação de hoteleiros do Algarve, que existe uma relação direta (mais precisamente, uma correlação fortemente positiva) entre o crescimento da taxa de desemprego e a criminalidade.
Umas páginas à frente, a notícia de um tiroteio entre moços de comunidades de origem africana num bairro de barracas na Trafaria, na Cova do Vapor.
Trata-se de um local desprezado pelos indecisores do poder central e do poder local, paralizados por conflitos de competencias entre eles de há vários anos e por incapacidade para encontrar soluções.
Será tão dificil de compreender pelos gestores e decisores da coisa publica, que existe uma correlação forte entre a criminalidade e o desemprego, dificuldade de inclusão e insucesso escolar?
Prefere-se continuar a falar nas estatisticas (e os assaltos que não são participados?) e a enviar tropa especial às zonas da classe média que têm problemas localizados com jovens desempregados de comunidades de origem africana?
Será um problema semelhante ao dos transportes?
Os transportes são um problema da classe média e da classe baixa, porque a classe alta não vai de transportes coletivos para as suas ocupações de gestão da coisa pública ou de angariação de grossas mais valias.
O problema da criminalidade só será resolvido nas suas causas quando os jovens de 19 anos de origem africana assaltarem as casa da Quinta do Lago ou fizerem um arrastão na praia do Ancão? (brinco? aconteceu em Washington, há uns anos, a criminalidade baixou drasticamente depois de um assalto com mortos no bairro mais chique).
E as estatisticas, tambem serão como nos transportes? os passageiros queixam-se, mas os gestores mostram estatísticas com  prémios de performance e de índices de satisfação...
Mas o DN também é sábio quando publica esta fotografia de uma manifestação de ciclistas no Chile para reivindicar proteção rodoviária:

Parece que a policia chilena parou a manifestação. 
Não é sábia, a policia, porque, mais do que proteger a nudez dos olhos púdicos, interessa mais reduzir a sinistralidade rodoviária, como dá conta o DN com a campanha da A-CAM (se beber, eu guio, diz a morte de foice e tudo). Apareceram logo virgens ofendidas ligadas à área a dizer que a campanha assim não faz efeito (então porque não fizeram já campanhas que fizessem efeito? de facto, as campanhas devem ser pela positiva, mostrando o comportamento correto, mas pôr a morte a conduzir, à Bergman, atinge alguma coisa, apesar dos mediterrânicos acharem que as desgraças só acontecem aos outros, especialmente quando estão alcoolizados).
E em Madrid também não foi sábia a policia que dispersou os "indignados".
Mais sábio será o cartaz nas costas de um deles: "nuestros sueños no caben en vuestras urnas" (o que obviamente não quer dizer que não se deva votar)
E também sábia a votação na Turquia: se têm dado ouvidos aos detratores de um dos partidos (que utilizou uma das sedes para encontros extra-conjugais), os eleitores teriam dado uma maioria de dois terços para mudar a constituição ao partido democrata-islâmico que ganhou (se existem partidos democráticos cristãos a ocidente, dá ideia que poderá haver partidos democratas islâmicos a oriente...). Não sei se seria bom, não sei se algumas das eleitoras do partido democrata-islâmico poderiam mais tarde tirar fotografias com o cabelo ao vento (e possivelmente acabariam de vez os tais encontros extra-conjugais). Votos de que o partido republicano, laico, herdeiro de Kemal Ataturk, continue a crescer, para que os cabelos continuem ao vento e, já agora, como se costuma dizer em português, que a autonomia curda também possa mostrar-se ao vento. 
Era bom para a União Europeia, eu penso que seria muito bom, e também para todo o médio-oriente (não acham a proposta de mediação do primeiro ministro turco oferecendo asilo político a Kadafi com mais juízo do que a intervenção militar da NATO na Líbia, depois do seu secretário geral dizer que não haveria solução militar?).

Mas há mais sabedoria no dia de Santo António: a dos exportadores de calçado português, a da diretiva da Soares da Costa de exportar serviços para os USA (assim se transforma um bem não transacionável em transacionável, queiram os senhores economistas fazer o favor de tomar boa nota), a do articulista Manuel Vaz da Silva que cita Krugman quando diz que o principal problema de Portugal é o desemprego e propõe como solução o aumento do emprego, do investimento (mesmo que aumente a divida porque trará retorno) , das desigualdades sociais que dão nos tiroteios de jovens de 19 anos que não assustam miudos de 9 anos porque já viram nos filmes, e da diminuição das taxas de juro dos nossos queridos amigos que nos levam taxas superiores às do FMI.
E finalmente, a sabedoria pela voz de Catherine Deneuve, pela mão do cronista Ferreira Fernandes: "Esforço-me por fazer bem as minhas coisas, porto-me bem, faço o que tenho de fazer".
Recordo o sargento da policia do filme de  Ingmar Bergman, pedindo ao trapezista para fazer os seus espetáculos, que se todos fizessem o que têm a fazer, em lugar de irem atrás de falsos profetas (será que o conceito de "marketing" desligado da moral já existiria nos tempos evangélicos?), o ovo da serpente não daria no que iria dar.

Santo António sábio...

domingo, 12 de junho de 2011

Notícias de UK (Reino Unido)

Duas noticias interessantes, num fim de semana de Junho de 2011, vindas de Inglaterra.
Longe deste blogue a ideia de querer imiscuir-se nos negócios internos de outro país soberano, para mais tão soberano como este se auto considera.
Mas estas coisas dizem respeito a todos os cidadãos da União Europeia, desde a contribuição para as dificuldades económicas de todos devidas aos gastos com a guerra no Médio Oriente, até às preocupações com as desigualdades sociais, expressas pelo coeficiente de Gini.
1 - Os cidadãos vão ficar sem informações seguras sobre as condições da morte de David Kelly, perito de armas inglês morto em 2003. Kelly tinha informado a BBC de que o governo inglês tinha "empolado" a existencia de armas no Iraque. Sobre as causas da guerra do Iraque já existem informações suficientes, mas sobre esta morte não vai haver, por decisão oficial. Pena não ficarem as coisas esclarecidas.
2 - O arcebispo de Canterbury acusou o atual governo inglês de perda de contacto com a realidade e de promover reformas radicais sem o apoio popular, afetando o sistema de saúde, a educação e o sistema das reformas.
À luz da síndroma de Hurbis, compreende-se, as orientações dos governos são muitas vezes repetidas, e os seus ministros convencem-se mesmo que são muito úteis.
Mas existe este grande problema, a distancia à realidade, a construção pelas forças mais votadas de modelos e abstrações que simulam mal a realidade.
Parecerá insuficiente a existencia do arcebispado de Canterbury, apesar de ter ligar reservado na Câmara dos Lordes, para poder corrigir-se a trajetória.
Afinal, o problema é universal, não é específico deste país do sul e da periferia ocidental da Europa.
O regime partidário deveria deixar espaço para a iniciativa dos cidadãos, por exemplo, para definir os objetivos principais, que deviam ser, estou certo que o arcebispo concordaria, a melhoria do coeficente de Gini e a aplicação da declaração dos direitos humanos.
Isto para não falar nas ideias de António Coutinho, do Instituto Gulbenkian de Ciencia.
É complicado, mas começa a haver literatura sobre o assunto.
E haveria que pôr na equação a Ciência (citação do prof.Carvalho Rodrigues) e não apenas as receitas académicas das escolas de economia.
Mais uma vez cito A Sabedoria das Multidões sobre a metodologia a praticar...

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Rodoviarium XXVIII - Morte de jovens na estrada

Duas raparigas, de 21 e 23 anos mortas na estrada de Portel para Beja, perto da Vidigueira, cerca das 9:00 de dia 6 de Junho, 2ª feira, a caminho das aulas no Politécnico de Beja, em colisão com um camião.
Um jovem de 21 anos que morre em choque do jipe com um muro, numa noite de sábado para domingo.
Uma senhora de 43 anos que atropela mortalmente um ciclista às 5:30 da madrugada, numa estrada do norte.
Um jovem bombeiro, de regresso de um transporte de doente, que termina a sua vida num despiste de auto-estrada da sua ambulancia.
Duas raparigas que morrem numa auto-estrada depois de sairem da discoteca às 2 da manhã, num pequeno automóvel muito publicitado por o seu fabricante ter conseguido reduzir o peso do carro em mais de 50 Kg (aumentando a insegurança em altas velocidades).
Um jovem que às 4 da madrugada de um domingo atropelou mortalmente outros dois jovens que comiam junto de uma rulote de petiscos à beira da estrada.
Uma rapariga que depois do jantar sai da auto estrada sem rails de proteção e morre após queda  numa ribanceira.
Seis raparigas  que morrem numa furgoneta que tomba e colide com um pesado, na via rápida de Penafiel, quando iam para as aulas.

Existe uma grande indiferença depois do choque das notícias.
Qualquer sistema deve analisar as causas de mau funcionamento e operacionalizar as recomendações para evitar a repetição dos acidentes.
Existem técnicos que investigam os acidentes, mas as recomendações não são aplicadas.
Falta também a integração de todos as variáveis na análise.
A política do ministério da administração interna foi, até agora, de citar estatísticas com a diminuição das vítimas quando comparadas com anos anteriores, nomeadamente há 10 anos.
Do ponto de vista técnico, esta atitude é uma fuga, um refugio num modelo que não representa corretamente a realidade.
São necessárias medidas concretas, a primeira das quais é uma campanha de publicidade dirigida para as técnicas de condução em segurança e, depois, a divulgação das causas e das circunstancias dos acidentes.
Não há falta de técnicos competentes nas entidades próprias para o fazer, mas parece não haver vontade de executar as medidas.

PS em 17junho2011 - noticiada hoje a morte de duas senhoras por colisão provocada pelo despiste de um carro conduzido por um jovem de 26 anos, na via rápida de Penafiel, cerca das 21:00. Há cerca de um mês, perto, também à mesma hora, o atropelamento de uma procissão por outro jovem sem controlar o carro...
As entidades que referi deveriam ter divulgado as causas dos acidentes e as medidas para os evitar. Isso não aconteceu. É de lamentar.Temos assim que a unica atividade publica visivel é a campanha da A-CAM, uma entidade não oficial.

Mais um livro de Vitor Bento: Economia, moral e política

O livrinho vem anunciado nas carruagens do Metro e é editado pela fundação Manuel dos Santos, já aqui falada.
Este blogue também já tinha comentado, em 22 de Abril de 2011, em
http://fcsseratostenes.blogspot.com/2011/04/vitor-bento-e-sua-solucao-para-o-no.html
 outro livro de Vitor Bento,   "O nó cego da economia - como resolver o principal bloqueio do crescimento económico" .
Transcrevo novamente deste livro:   "... o nó cego da nossa economia é a transferencia, desde 1990, da rentabilidade do setor transacionável para o setor não transacionável ... que, sendo o setor de menor produtividade,  vai retirando renda e recursos ao setor transacionável, de maior produtividade, mas que vai assim reduzindo a sua produção ... à volta do setor não transacionável desenvolveu-se uma aliança de interesses que resistirá a qualquer mudança (Estado, empresas públicas e grandes empresas) ...".


A grande questão será assim uma mal orientada transferencia de rendimentos.
Falha de pontaria, de acerto no objetivo da eficácia.
Daí o interesse em conhecer os valores relativos das distribuições de rendimentos, por exemplo, que percentagens vão para cada um dos fatores de produção.


Depois voltou em Maio este blogue ao tema da taxa social unica, conforme o ponto de vista de Vitor Bento, em 

julgando que por falta de atenção a esta análise de Vitor Bento muita ilusão está sendo construida em torno da medida de redução da taxa social unica.

Interessa-me agora transcrever do novo livro , Economia, moral e política, esta pequena pérola:   "... um gestor que, no meio de uma aguerrida competição por resultados, procure respeitar princípios éticos fundamentais e se recuse a usar truques contabilísticos (o escriba deste blogue acrescentaria: e informáticos) para inflacionar resultados ... apresentará piores resultados. Sairá perdedor da competição e terá como consequencia uma menor remuneração... ou será preterido por um gestor mais atualizado com os desvalores da época... Assim se estabelecendo uma hierarquia social ordenada pelo valor socialmente reconhecido como dominante - a riqueza   material. O caminho que conduziu à recente crise financeira internacional está pejado de exemplos deste processo de seleção e dos resultados a que ... acaba por conduzir, demonstrando ...a irracionalidade da moralidade que orienta este processo."

Diria este blogue que é o sistema que se destroi a si próprio, que determina a sua insustentabilidade, enquanto uns quantos dão a volta e conseguem sobreviver e continuar a reproduzir comportamentos (não esquecer que os responsáveis da reserva federal dos USA e da Goldman Sachs continuam no poder em Washington, ao mesmo tempo que os indicadores económicos e as tensões sociais nos USA se agravam).

Também muito interessante  a explicação que Vitor Bento dá do interesse egoista de Adam Smith que ele próprio, Adam Smith, limitava e condicionava pelo interesse público, condenando assim a ganancia que caracteriza os modernos empresários.

Pena Vitor Bento ser tão desconfiado relativamente ao pensamento económico não liberal, classificando-o inapelavelmente como determinista.
Na verdade, qualquer disciplina que meta matemática, nos tempos que correm, não se limita a modelos deterministas, e parece-me que uma economia não liberal pode não ser determinista (Marx que me perdoe, mas ele próprio dizia que as coisas se transformam).
Os físicos já perceberam há muito tempo que a mecânica relativista é uma coisa e a mecânica newtoniana e determinista é outra, mas que esta é válida nos seus domínios.
Não há (pelo menos por enquanto, a lei universal unitária).
Pelo que não deveriamos ser tão dogmáticos.
Salvo melhor opinião, claro.



terça-feira, 7 de junho de 2011

Resultados das eleições de 5 de Junho de 2011

No seguimento do post de dia 2 de junho,
http://fcsseratostenes.blogspot.com/2011/06/o-argumento-inatacavel-para-as-proximas.html
verifico que o trabalho das sondagens foi bem desenvolvido.
Talvez se deva trabalhar melhor a amostragem dos indecisos, mas o afastamento não foi significativo.
Atingimos assim a situação de, em domínios de amostragem bem escolhidos, os sondadores saberem com antecedencia em quem vão votar os eleitores que ainda não decidiram o seu voto.
Por outras palavras, apesar da racionalidade e da especificidade do cérebro humano, há movimentos análogos aos movimentos estatísticos moleculares de que não podemos, nem devemos libertar-nos.

Fez ainda este blogue umas pequenas contas, que não viu feitas nos meios de comunicação social, aliás poucos, que consultou, e que têm a pretensão de avaliar o grau de representatividade das formações políticas.
Sublinho grau de representatividade, que julgo que podemos discutir.
Já a legitimidade não estará em discussão, a menos que se invente melhor sistema do que a democracia, parafraseando Churchill.
Infelizmente pensadores políticos com influencia na forma de pensar da população e poder de decisão, não parecem exprimir publicamente grandes preocupações com o crescimento da abstenção.
No entanto, a hipótese de haver mais abstencionistas do que votantes é de uma gravidade extrema.
Por isso, menosprezar a abstenção e adiantar desculpas (embora seja uma hipótese admissível que 10% dos inscritos já faleceu) é um mau serviço à democracia, do tipo enfiar a cabeça na areia.
Porque abstenção significa principalmente marginalização e marginalização significa que a quem vive de forma desestruturada, como se costuma dizer, sem emprego, com expedientes de venda de droga ou assalto a multibancos, que desistiu de estudar, não interessa votar.
Por outro lado, afirmar que quem se absteve não tem o direito de criticar as soluções governativas que vierem a ser tomadas é um exemplo da gravidade com que inconscientemente se está a tratar o problema da abstenção.
É discutível, mas defensável após debate democrático, limitar  temporariamente o exercício de alguns direitos políticos como penalização por não votar, como fazem os nossos irmãos brasileiros, mas coartar o direito de expressão consignado na constituição e na declaração universal dos direitos humanos não é legítimo, nem para um presidente de república.
Se as pessoas não participam, vamos analisar porquê e estudar medidas corretivas.
Marginalização significa afastamento das pessoas das tomadas de decisão.
E tomadas de decisão por poucas pessoas são normalmente fonte de mal estar.

Vamos então aos números:

Quadro 1 -  considerando a totalidade dos inscritos como 100%


Tem-se assim, se considerarmos a totalidade dos inscritos como 100%, que o partido mais votado teve uma percentagem de 22,75%, significativamente inferior aos 38,63% da contagem oficial, e que, se a abstenção fosse um partido e se fosse possivel encarregar os seus representantes de formar governo, teria ganho.
Como não é possível, podemos experimentar tirar-lhe importancia admitindo que 10% dos inscritos já faleceram e foram deixados nos registos, e que 5% estavam impossibilitados fisica ou mentalmente de exprimir a sua opção.
Teriamos o quadro 2, com uma abstenção já não de 41,10%, mas "apenas" de 26,10%, o que colocaria o partido mais votado em primeiro lugar, com 28,55%.

Quadro 2 - considerando 85% dos inscritos como a totalidade dos eleitores com capacidade de votar


De notar que atendendo à situação do país, à elevada abstenção e à necessidade que os portugueses têm de aprender a trabalhar em equipa conforme sistematizado no livro A Sabedoria das Multidões, seria desejável que o apoio parlamentar do governo fosse superior a 50%, para o que seriam necessários pelo menos 4 partidos, de acordo com as contas do quadro 1, ou apenas 3, conforme o quadro 2.

Infelizmente, não há suporte legal para descontar 15% de eleitores inscritos.
Logo, parece-me legítimo concluir que a solução governativa a escolher, se não incluir pelo menos 4 partidos, não o será em meu nome (lema da campanha belga que defende a criação de um governo de ampla coligação por oposição à opção pela desagregação da Bélgica).
Pelo que terei pena.

PS - Informações posteriores da comissão de eleições dão conta de que os cadernos eleitorais não merecerão tanta desconfiança assim, uma vez que o universo dos portugueses é de cerca de 10 milhões no território nacional e mais 5 milhões no estrangeiro. 
Mesmo admitindo uma percentagem significativa de registos correspondentes a eleitores falecidos, será preferível considerar como válido o quadro 1 anterior. 
Pena que a abstenção seja tão elevada, nomeadamente entre os emigrantes.

A sindroma de Hubris

Na antiga Grécia, Hubris era o crime de retirar prazer da humilhação ou do abuso de uma vítima.
A neurociencia e a psiquiatria inspiraram-se nas tragédias gregas que usaram o tema para definir como sindroma de Hubris a doença psicológica que afeta quase todos os que exercem poder, político ou nas empresas.
Características principais: falta de humildade, arrogancia, sentimento exagerado de auto-importancia, convicção de que se tem razão, presunção, falta de compreensão da realidade e criação de um mundo próprio para ser compatível com o sentimento de ter razão.
Esta doença foi estudada por David Owen, médico e antigo ministro dos negócios estrangeiros inglês no seu livro Na doença e no poder, ed.Dom Quixote.
Esta doença é uma ameaça à democracia, e escapa aos eleitores porque os doentes se refugiam atrás de uma aura de carisma, como se costuma dizer.
A doença vai-se desenvolvendo à medida que o político ou o gestor vai recolhendo cada vez mais apoios dos que os rodeiam, que por sua vez o apoiam cada vez mais para se sentirem seguros, num mecanismo semelhante ao da polarização (ver mecanismos de decisão nos pequenos grupos em A Sabedoria das Multidões) ou da concentração no polo mais forte (ver lei de Fermat-Weber).
O tratamento é divulgar amplamente esta análise de que é mesmo uma doença psicológica que afeta os políticos e os gestores, que só pode concluir-se pela necessidade de descentralizar os poderes de decisão, evitando a concentração, porque quanto mais concentrado for o poder de decisão mais sujeito à doença de Hubris fica o decisor.
Entre os analisados por David Owen está Kennedy, classificado como uma criança doente. Nixon, como paranoico. Bush e Blair, como arrogantes perante a realidade. Tatcher, como presunçosa.
Curiosamente, David Owen diz que Merkel tem os pés bem assentes no chão (é capaz de ter razão, o plano de fecho das centrais nucleares, com custos de 200 mil milhões de euros, aumento das emissões de gases com efeito de estufa e importação de energia elétrica da França, revela bom jogo de rins... não sofrerá da sindroma de Hubris, sofrerá de outras sindromas, de oportunismo, talvez, numa altura em que o seu partido perde eleitores para os Verdes).

Este blogue propõe o livro como leitura obrigatória pelos políticos e pelos gestores de empresas, com prestação de provas posterior para verificação de que foi compreendido.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Encomende um Mercedes classe C Coupé

Encomende um Mercedes classe C Coupé.
Passeie a sua classe, o seu sucesso, o triunfo das suas qualidades e da sua coragem empreendedora no mais irreverente e no mais novo automóvel da família Mercedes.
O classe C Coupé tem uma atitude e uma personalidade próprias.
Se o encomendar durante o verão ser-lhe-á oferecido um sistema de navegação multimédia, para não ter de perguntar pelo caminho à população indígena, cuja capacidade comercial, industrial ou de serviços é muito inferior à sua.
Com o classe C as suas viagens terão mais emoção e mais estilo por hora.
O consumo combinado se mantivesse uma velocidade baixa e se não acelerasse impetuosamente, seria de 8,4 litros por 100 km.
Emitiria assim uma insignificancia de 197 g CO2/km, perfeitamente justificada pelo seu mérito em conseguir as mais valias de acordo com os princípios do funcionamento do mercado.
A Mercedes é uma marca do grupo Daimler que tem como lema The best or nothing e 125 anos de inovação.

As afirmações anteriores, excetuando as referencias às qualidades absolutas e relativas de empreendedorismo, foram extraídas do anuncio de página inteira publicado no DN de 2011-06-06.

Potencia entre os 150 e 300 cavalos.
Preços sob consulta, mas estimo que andem à volta de 100 a 150 mil euros  ( ver www.mercedes-benz.pt@c-coupe   ).

Este blogue imagina que a importação de classes C coupé não será bom para a balança de pagamentos do país, embora a política da marca em Portugal não pareça contrariar a política oficial de incidencia preferencial dos cortes nos fatores de endividamento da divida externa pública (110%), poupando nos sacrifícios dos fatores da dívida externa privada (130%).

Imagina também este blogue que não serão aceites pagamentos em espécie:   angustia de desempregados, doença por incapacidade do SNS ou ausência de seguradora, produtos manufaturados sem TSU, cartões de crédito sem plafond ou quaisquer pedras preciosas cor de sangue.

PS 1 - Este blogue não pretende desmerecer da engenharia da Mercedes nem da utilidade dos seus investimentos na economia da UE. Apenas não concorda com a afetação dos recursos de engenharia ao desenvolvimento de tantos motores diferentes (além de que, salvo melhor opinião, não é economicamente sustentável, a menos que se esteja a "sugar" outras economias) e à gestão de componentes para tantos modelos destinados ao lazer e não às atividades produtivas.
Este blogue nunca criticará a atual campanha da Mercedes em Portugal para dinamizar as revisões do parque automóvel existente, nem o desenvolvimento de modelos de camiões, furgões de trabalho e berlinas para o serviço de taxi.
PS 2 - Segundo artigo de um revista, haverá modelos classe C coupé à venda por cerca de 45.000 euros. Duvido porem que alguns dos modelos, de 6 e 8 cilindros e de potencia da ordem de 300 a 450 CV, o sejam por esse preço.

domingo, 5 de junho de 2011

EMEF - Uma agradável surpresa

De visita às antigas instalações da Sorefame na Amadora.
Pavilhões abandonados aguardando a demolição, onde foram montados e testados os 10 pendolinos da CP.
A extinção da Sorefame é um dos episódios mais negros da história da engenharia portuguesa (porque às ameaças exteriores correspondeu uma tentativa oportunista a partir do interior).
A furia urbanizadora (furia cega, ignorante e provavelmente suicida, porque o esforço de construção civil deveria centrar-se agora na reabilitação do parque habitacional e nunca em condomínios de luxo ou de pretensões média-alta) aguarda oportunidade para avançar.

Mas uma agradável surpresa.
A EMEF instalou aqui o seu nucleo de inovação.
Aqui se faz a reparação de segundo nível da eletrónica dos pendolinos e das automotoras dos suburbanos.
Com economias significativas por negociação com os fabricantes do material circulante ou contacto direto com os fornecedores destes fabricantes, ou aquisição direta de componentes equivalentes (GTOs, por exemplo), ou construção de módulos equivalentes.

Para uma pessoa como o humilde escriba, que já terminou a sua vida profissional, é extremamente agradável ver o entusiasmo dos jovens colegas nestas questões técnicas e ver tambem que esse entusiasmo se traduz em resultados.
Tudo isto tão longe da ignorancia dos decisores, que decretam que as empresas publicas têm de ser privatizadas ou então reduzir as suas atividades à mais apagada e vil tristeza de que falava Luis Vaz.

E que ninguem se lembre de condenar o esforço destes técnicos de uma empresa pública, em nome do interesse das empresas fabricantes, porque as diretivas europeias são muito claras ao definir a obrigatoriedade dos produtos de qualquer fabricante serem compativeis com os produtos de outros fabricantes (isto é, a manutenção de um equipamento não é exclusiva do fabricante).

Destaque para o sistema de telegestão e telecontagem de energia dos comboios, com centralização da informação na Amadora, já em funcionamento, com vantagens para a eficiencia energética com poupanças nos consumos dos comboios, e para  manutenção.

Dadas as afinidades dos componentes e do material circulante, sugere-se o desenvolvimento de mecanismos de cooperação entre, por exemplo, o metropolitano de Lisboa e a EMEF (o humilde escriba recorda uma excelente colaboração já havida com o laboratório de telecomunicações da REFER para medição de intereferncias eletromagnéticas).

António Coutinho, diretor do Instituto Gulbenkian de Ciencia

Este blogue não é apreciador das rubricas de publicitação de casos pessoais de sucesso.
Porque são normalmente apresentadas pessoas excecionais que deveriam ser imitadas pelas pessoas comuns ou, na impossibilidade, simplesmente admiradas.
Ora, do que a luta pelo bem estar das sociedades precisa é de pessoas comuns e não de pessoas excecionais.
Além de que os rituais mais ou menos religiosos de admiração e submissão a ideais correspondem a estadios primitivos na evolução humana.
E também porque as pessoas excecionais são pessoas como as outras, em que uma ou outra caracteristica ocupa os lugares extremos na curva de distribuição, e que estão sujeitas às curvas de amostragem (já vou repetir este termo) , pelo que entre os casos de sucesso que os meios de comunicação social apresentam se encontram exemplos de comportamentos deficientes ou até tendencialmente criminosos (Einstein por exemplo, tinha uma dificuldade inultrapassável em lidar com o filho deficiente; os casos de sucesso cujo valor patrimonial aumenta repentinamente têm uma dificuldade inultrapassável em explicar o que um comum mortal deveria ter feito para ganhar o mesmo).

Mas o que deixo dito não impede que aplauda alguns exemplos, como o de António Coutinho, médico primeiro e depois investigador e especialista de imunologia, diretor do Instituto Gulbenkian de Ciencia, em entrevista no programa Quinta Essencia, na Antena 2   (podem ouvir a entrevista completa, se tiverem paciencia, mas insisto que vale a pena ter paciencia para a ouvir, em
http://tv1.rtp.pt/programas-rtp/index.php?p_id=1152&e_id=&c_id=1&dif=radio  ).

Claro que cada ouvinte dará mais relevo ao que é mais sensível.
a mim por exemplo, chamou-me a atenção a afirmação de que a industria da saude já ultrapassou, nos USA, a industria da defesa.
Para Antonio Coutinho isto é abominável, porque ele, quando médico, recusava pagamentos exteriores ao seu ordenado (curioso, o inventor da vacina contra a poliomielite era o que fazia, tambem, nunca quis direitos de autor; e, já que António Coutinho se recusou a embarcar para a guerra colonial, o escriba humilde deste blogue recorda com saudade uma ida a uma habitação pobre numa ilha do Porto, quando cumpria o serviço militar durante a guerra colonial, para comprovar in loco as condições de vida da família a cargo do jovem que pretendia ser dispensado da mobilização para as colónias por ser indispensável a essa família; eram os chamados processos de inquérito de amparo, a que sistematicamente eu dava parecer de indispensável para o sustento da família, embora nalguns casos fosse evidente o oportunismo do requerente; mas como se tratava de uma guerra colonial, entendia a consciencia do humilde escriba de declarar sistematicamente que o jovem não podia ir para a guerra na terra dos outros porque a sua presença era indispensável na sua terra; à saida, a senhora quis-me dar uma nota de vinte escudos... como diz António Coutinho, "estas coisas não se devem fazer por dinheiro").

Eis então o que o que diz António Coutinho, não um humilde escriba de blogues, mas o diretor do Instituto Gulbenkian de Ciencia, me permite dizer:

A ideia do interesse egoísta como motor económico pode ser muito interessante nas sebentas das universidades dos economistas, mas é um monstro que derrota a dignidade dos profissionais e o bem estar das comunidades e é uma mentira que ilude os eleitores.
Pouco se pode fazer, dado o poder dos grupos económicos ligados à saúde e ao armamento, mas é possível manifestar a discordancia e não participar.
Lamento contrariar os adamsmithistas, mas já há muitas pessoas a pensar assim, para alem do humilde escriba.

Outra ideia curiosa de António Coutinho (terá lido A Sabedoria das Multidões?) é a de que a democracia deve evoluir adaptando os seus formalismos às descobertas cientificas.
Assim, deveria ser reformulado o papel dos partidos, centrando-os na ação formativa, sem prejuizo da sua liberdade ideológica, evidentemente, mas reservando a representação dos cidadãos no Parlamento a técnicas de amostragem (amplamente conhecidas da estatística, da sociologia, das    metodologias das sondagens).
Isso permitiria uma mais perfeita representação da vontade e do sentir da população, e seria um desenvolvimento do que se faz já hoje com os jurados.
É isso, não é só o humilde escriba que diz que a democracia deve ser direta.
Porque, com o tempo, aconteceu aos partidos o que acontece aos tecidos celulares, desenvolveram células cancerosas que impedem o correto funcionamento dos tecidos (imagem de António Coutinho que o humilde escriba subscreve).
Ora, sabe-se que existem técnicas para combater estas patologias.
Pode ser  que, sem cair nos erros e desvios pitagóricos, se consiga assistir a uma evolução benigna nesta questão (tentando formular a questão, como organizar as comunidades para que o bem estar expresso no coeficiente de Gini das desigualdades, progressivamente melhore?).

Finalmente, outra observação de António Coutinho; quando os princípios estão corretos, as regras estão a mais.
Passe a imodéstia, desde há muito que o humilde escriba subscreve a ideia: não vale a pena fazer códigos de contratação pública muito perfeitos quando a corrupção se combate na escola e com profissionais honestos (bom, já agora, com sistemas de controle mutuo de processos).
Não vale a pena gastarmos dinheiro e tempo de profissionais com sistemas informáticos majestáticos e centralizados de processamento de informação que está disponível, incluindo as causas e as circunstancias das anomalias, nos registos dos profissionais da linha da frente.

Salvo melhor opinião, claro e sempre.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

O pudor dos gestores

José Régio tinha pudor de contar certas coisas seja a quem for.
Mas alguns dos gestores que dominam a nossa praça não têm pudor.
Não lêem poesia, ou não a entendem, ou não querem submeter-se a ela.
Não precisam, ou porque não existe uma lei que explicitamente proiba tomar medidas que beneficiem o próprio com base no poder para tomar essas medidas, ou simplesmente porque aplicam o principio do "sauve qui peut" francês ou do "chico-espertismo" português, como quem diz que as oportunidades do mercado são para aproveitar.


O homem tinha sido nomeado pelo governo para presidir à gerencia do metropolitano com a missão de garantir a conclusão das obras de expansão antes da inauguração da exposição universal de 1998.
Não havia naquela altura grandes preocupações de natureza financeira porque os fundos europeus garantiam as expansões do metro.
De forma nova rica, os arquitetos de renome escolhidos sem concurso público tinham recebido carta branca e esmeravam-se em escolher soluções caras.
A principal preocupação era evitar atrasos nas obras, algumas das quais complexas.
O homem vinha precedido de uma fama de salvador de pátrias, de exigencia no trabalho e de aproveitamento das potencialidades de todos, gostando de lidar diretamente com os técnicos, sem grandes preocupações com níveis intermédios.
Pode dizer-se que os objetivos foram atingidos, graças à colaboração dos outros membros da gerencia, que semanalmente reuniam com os tecnicos das várias especialidades de cada frente de empreendimento, e graças ao esforço de todos os técnicos.
E até se pouparam alguns dinheiros, quando foi possivel eliminar alguns gastos sumptuários.
Mas se falo no homem não foi porque ele cometesse coisas de que deveria ter pudor.
Foi porque me permitiu participar na reunião internacional de metropolitanos da américa latina e da peninsula ibérica. 
O Metropolitano alugou uma das salas principais do hotel Tivoli e nela reuniu representantes dos metropolitanos e caminhos de ferro suburbanos da América latina de fala castelhana e portuguesa, de Espanha e de Portugal.
Nessa reunião notei o rigor técnico dos colegas de S.Paulo e de Barcelona, o início da grande expansão do metro de Madrid, uma certa indefinição de objetivos dos restantes.
Mas o que achei mais interessante foi o discurso do senhor argentino que tinha sido ministro dos transportes.
A Argentina tinha entrado na sua crise financeira devido à errada politica cambial face ao dolar americano e à indecisão nas políticas do Mercosul.
A crise foi aproveitada para fazer uma série de privatizações de empresas.
Como ministro dos transportes, o senhor argentino decretou a privatização dos transportes urbanos e suburbanos de Buenos Aires.
No seu discurso, durante a reunião, afirmou que tinha muito orgulho em ter assinado, como ministro, o decreto da privatização.
E que se orgulhava agora de ser o presidente da companhia privada de transportes ferroviários de Buenos Aires.
O interessante da história está na ausência de auto-crítica e da falta de pudor destes gestores da coisa pública quando  fazem estas coisas e quando falam delas.
Por maravilhas de desculpabilização, quem faz isto acha natural.
Em Portugal, no setor dos transportes, daí a pouco tempo, um antigo ministro dos Transportes iria ocupar o cargo de presidente da operadora das travessias rodoviárias do Tejo.
Outro antigo ministro dos transportes iria ocupar o cargo de presidente de uma das principais construtoras de obras publicas, desculpando-se em entrevista na televisão de que era natural que, como antigo ministro, a facilidade com que estabelecia contactos com as pessoas importantes para decidir e fazer avançar as coisas eram uma mais valia ao serviço da empresa para que trabalhava.
Mais tarde, os principais responsáveis da Goldman Sachs e da Reserva Federal dos USA, de atuação comprovadamente ineficiente e prejudicial durante a crise financeira de 2008, encontraram abrigo no seio  do próprio governo dos USA, numa evidencia em sentido contrário aos anteriores exemplos da promiscuidade entre cargos públicos e cargos de grandes empresas privadas.
Em Portugal, haveria depois outro exemplo deontologicamente condenável quando o presidente da empresa pública das estradas de Portugal, nomeado de acordo com as políticas do partido no poder, transitou para o conglomerado concessionário das auto-estradas a quem tinha adjudicado a exploração.
A deontologia pouco pode contra os interesses dos partidos políticos e das grandes empresas, mas é bom que todos os casos sejam amplamente debatidos, para que a opinião pública e os técnicos que dão o seu esforço nas empresas, quer públicas, quer privadas, aceitem como dado adquirido que os critérios políticos devem ser substituidos pelos critérios de isenção , objetividade e capacidade técnicas.
E que não são as nomeações de "salvadores de pátrias" nem as estratégias "top-down" que resolvem os problemas das empresas.
E que o trabalho das empresas deve ser o resultado do trabalho em equipa e da descentralização em rede dos processos de tomada de decisões.
É dificil e ate mesmo os melhores técnicos anseiam por quem "de cima" apareça a querer voluntariosamente avançar.
Mas o caminho é para ser percorrido por todos.
Por isso o debate tem de ser aberto e amplo e tem de se ir deixando pelo caminho o que é acessório e, especialmente, o "chico-espertismo" oportunista. 


E se falei no pudor dos gestores e de José Régio, aqui deixo a toada de Portalegre.




























TOADA DE PORTALEGRE,  José Régio


Em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros,
Morei numa casa velha,
Velha, grande, tosca e bela,
À qual quis como se fora
Feita para eu morar nela ...
Cheia de bons e maus cheiros
De casas que têm história,
Cheia de ténue, mas viva, obsidiante memória,
De antigas gentes e traças,
Cheia de sol nas vidraças
E de escuro nos recantos,
Cheia de medo e sossego,
De silêncio e de espantos,
- Quis-lhe bem, como se fora
Tão feita ao gosto de outrora
Como ao do meu aconchego.
Em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De montes e de oliveiras,
Do vento soão queimada,
(Lá vem o vento soão !,
Que enche o sono de pavores,
faz febre, esfarela os ossos,
Dói nos peitos sufocados,
E atira aos desesperados
A corda com que se enforcam
Na trave de algum desvão ...)
Em Portalegre, dizia,
Cidade onde então sofria
Coisas que terei pudor
De contar seja a quem for,
Na tal casa tosca e bela
À qual quis como se fora
Feita para eu morara nela,
Tinha então,
Por única diversão,
Uma pequena varanda
Diante duma janela.

Toda aberta ao sol que abrasa,
Ao frio que tolhe, gela,
E ao vento que anda, desanda,
E sarabanda e ciranda
De redor da minha casa,

Em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros,
Era uma bela varanda,
Naquela bela janela !
Serras deitadas nas nuvens,
Vagas e azuis da distância,
Azuis, cinzentas, lilases,
Já roxas quando mais perto,
Campos verdes e amarelos,
Salpicados de oliveiras,
E que o frio, ao vir, despa,
Rasava, unia
Num mesmo ar de deserto
Ou de longinquas geleiras,
Céus que lá em cima, estrelados,
Boiando em lua, ou fechados
Nos seus turbilhões de trevas,
Pareciam engolir-me
Quando, fitando-os suspenso
De aquele silêncio imenso,
Eu sentia o chão fugir-me,
- se abriam diante dela,
Daquela
Bela
Varanda
Daquela
Minha
Janela,
Em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros,
Na casa em que morei, velha,
Cheia de bons e maus cheiros
Das casas que têm história,
Cheia da ténue, mas viva, obsidiante memória
De antigas gentes e traças,
Cheia de sol nas vidraças
E de escuro nos recantos, cheia de medo e sossego,
De silêncios e de espantos
À quel quis como se fra
Tão feita ao gosto de outrora
como ao do meu aconchego ...

Ora agora,
Que havia o vento soão
Que enche o sono de pavores,
Faz febre, esfarela os ossos,
Dói nos peitos sufocados,
E atira aos desesperados
A corda com que se enforcam
Na trave de algum desvão,
Que havia o vento soão
De se lembrar de fazer ?
Em Portalegre, dizia,
Cidade onde então sofria
Coisas que terei pudor
De contar seja a quem for,
Que havia o vento soão
De fazer,
Senão trazer
Àquela
Minha
Varanda
Daquela
Minha
Janela
O testemunho maior
De que Deus
É protector
Dos seus
Que mais faz sofrer ?
Lá num craveiro que eu tinha,
Onde uma cepa cansada
Mal dava cravos sem vida,
Poisou qualquer sementinha
Que o vento que anda, desanda,
E sarabanda, e ciranda,
Achara no ar perdida,
Errando entre terra e céus ...
E, louvado seja Deus !
Eis que uma folha miudinha
Rompeu, cresceu, recortada,
Furando a ceta cansada
Que dava cravos sem vida
Naquela
Bela
Varanda
Daquela
Minha
Janela
Da tal casa tosca e bela
À qual quis como se fora
Feita para eu morar nela ...
Como é que o vento soão
Que enche o sono de pavares,
Faz febre, esfarela os ossos,
Dói nos peitos sufocados,
E atira aos desesperados
A corda com que se enforcam
Na trave de algum desvão,
Me trouxe a mim que, dizia,
Em Portalegre sofria
Coisas que terei pudor
De contar seja a quem for,
Me truxe a mim essa esmola,
Esse pedido de paz
Dum Deus que fere ... e consola
Com o próprio mal que faz ?
Coisas que tereis pidor
De contar seja a quem for
Me davam então tam vida
Em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
Coisas que tereis pidor
De contar seja a quem for
Me davam então tam vida
Em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros
Me davam então tal vida
- Não vivoida! Mas morrida
No tédio e no desespero,
No espanto e na solidão –
Que a corda dos derradeiros
Desejos dos desgraçados
Por noites do vento soão
Já várias vezes tentara
Meus dedos verdes suados ...

Senão quando o amor de Deus
Ao vento que anda, desanda,
E sarabanda, e ciranda
Confia uma sementinha
Perdida entre a terra e céus,
E o vento a traz à varanda
Daquela
Minha janela
Da tal casa tosca e bela
À qual quis como se fôra
Feita para eu morara nela !
Lá no craveiro que eu tinha,
Onde uma cepa cansada
Mal dava cravos sem vida,
Nasceu essa acáciazinha
Que depois foi transplantada
E cresceu, dom de Deus !
Aos pés lá da estranha casa
Do largo do cemitério,
Frente aos ciprestes que em frente
Mostram os céus
Como dedos apontados
De gigantes enterrados ...
Quem desespera dos homens
Se a alma lhe não secou,
A tudo transfere a esperança
Que a humanidade frustrou:
E é capaz de amar as plantas,
De esperar dos animais,
De humanizar coisas brutas,
Tais e tantas,
Que será bom ter pudor
De as contar seja a quem for.

O amor, a amizade, e quantos
Sonhos de cristal sonhara,
Bens deste mundo, que o mundo
Me levara,
De tal maneira me tinham,
Ao fugir-me,
Deixado só, nulo, atónito,
A mim, que tanto esparara
Ser fiel,
E forte,
E firme,
Que não era mais que a morte
A vida que então vivia,
Auto-cadáver ...
E era então que sucedia
Que em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos penhascos, oliveiras e sobreiros,
Aos pés lá da casa velha
Cheia dos maus e bons cheiros
Das casas que têm história,
Cheia da ténue, mas viva, obsidiante memória
De antigas gentes e traças,
Cheia de sol nas vidraças
E de escuro nos recantos,
Cheia de medo e sossego,
De silêncio e de espantos,
- A minha acácia crescia.

Vento soão ! obrigado
Pela doce companhia
Que em teu hálito empestado,
Sem eu sonhar, me chegava !
E a cada raminho novo
Que a tenra acácia deitava,
Será loucura ! ... mas era
Uma alegria
Na longa e negra apatia
Daquela miséria extrema
Em que eu vivia,
E vivera,
Como se fizera um poema,
Ou se um filho me nascera.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Crime, disse o blogue

Publicitar telemóveis e desconsiderar a avaliação do aproveitamento dos alunos é crime, diz o blogue
Os teóricos da publicidade conhecem os efeitos subliminares dos seus anuncios.
Que é a ideia que se instala no subconsciente e que condiciona o comportamento do individuo sem o seu (dele) controle.
Por isso existem cidadãos que são de opinião que os anuncios não deveriam usar a técnica dos subliminares.
E existem ainda outros cidadãos que consideram crime publicitar instrumentos de utilização nociva.
No entanto, esses poucos cidadãos também acham que não existe lei que viabilize a formalização de uma acusação de tal crime.
E como sobrecarregar uma justiça sem capacidade de resposta poderia ser conotado com a prática de crime de sabotagem, entendem esses cidadãos não apresentar queixa.
O menino que se vê no anuncio, pelo aspeto e acessórios exibidos, pertence à classe alta-média/alta.
Isso não afeta o alvo do anuncio porque existe o fenómeno da imitação (podemos não viver como os meninos ricos, mas devemos ter acesso aos mesmo brinquedos ou acessórios).
A mensagem é muito clara: ter más notas no liceu não tem importancia. Há outros valores mais altos, que são a possibilidade de usar o telemóvel com a Internet (aqui o problema complica-se, porque fazê-lo encarece sobremaneira o uso do telemóvel, e se a criancinha cujos pais têm baixos rendimentos exigir internet no telemóvel, como quem exije ténis de marca, está a criar graves problemas em casa).
Utilizar o telemóvel com a internet é inspirar o mundo (aí vem à ideia a cultura urbana nova-rica com aqueles filmes de sucesso dos jovens no mundo da internet).
Isto é, podes ter más notas porque isso não importa, o que importa é utilizar o telemóvel.
Tudo isto já é, para este blogue, crime sob a forma de publicidade subliminar, enganosa e de convite a comportamentos anti-sociais (quero com esta dizer que apelar à desconsideração da avaliação do aproveitamento dos alunos é um convite ao insucesso escolar e, portanto, ao insucesso económico e social desses meninos quando forem adultos).
Sinceramente, se o meu telemóvel fosse deste operador, consideraria a hipótese de rescindir o contrato.

Porém, há mais porens.
Vem finalmente a organização mundial de saude reconhecer o principio da precaução relativamente à utilização dos telemóveis por produzirem radiações não ionizantes (as ionizantes são as ligadas à radioatividade) que podem estimular o crescimento de células cancerosas no cérebro (funcionando não como causa direta, mas como catalizador quando, por outros motivos, surge uma célula desse tipo - classificação como "carcinogénico" ao mesmo nivel do chumbo, benzeno e DDT ).
Nestas condições, fabricar telemóveis para crianças ou pôr crianças em anuncios a estimular o seu uso é crime, que querem, ou a lógica é um pepino.
Detesto dizer isto por ser imodéstia, mas desde o princípio (anos noventa) que recomendei o afastamento das estações repetidoras de GSM  no metropolitano relativamente às cabeças dos funcionários e a sua não permanencia nas proximidades (acresce que estas frequencias podem gerar interferencias nos processadores dos sistemas de controle da circulação dos comboios.
Surpreendentemente com algum sucesso, apesar dos relatórios tranquilizantes dos fornecedores e dos consultores que os fornecedores contrataram para tranquilizar os clientes, citando os indices de referencia das normas europeias de exposição às radiações não ionizantes.
Grave também foi a ocultação do estudo de 2005 que já referia o aumento de 40% dos riscos de glioma nos utilizadores frequentes de telemóvel (mais de 30 minutos por dia durante 10 anos) (notar que entretanto a potencia dos telemóveis baixou, diminuindo o risco, sem o eliminar).
O escriba humilde deste blogue não tem acesso a nenhuma fonte de conhecimento que o distinga dos outros mortais.
Porém, como era sua obrigação profissional, divulgou desde o princípio (anos noventa) a experiencia realizada com culturas de células do tipo das células cerebrais, as quais cresciam por efeito térmico quando sujeitas às frequencias dos telemóveis (sim, o efeito de aquecimento molecular e a gama de frequencias são os mesmos dos micro-ondas, dos emissores dos leitores de cartão sem contacto, e dos chips da via verde; e como podem verificar se chamarem um telemóvel que puserem no micro-ondas, sem o ligar, claro, mas com a porta fechada, verão que ele regista a chamada, isto é, a blindagem da porta não é eficaz - também, pelo preço do micro-ondas, como é que a porta podia ser uma blindagem eficaz?) .

Em resumo, mais uma vez se apela à menor utilização possível dos telemóveis (o que contraria obviamente o adam smithismo, mas como podia o homem prever os efeitos das radiações não ionizantes no século XVIII?) e à não permanencia nas proximidades e ao afastamento das cabeças relativamente às estações emissoras e repetidoras.
Entretanto, a corrigir as normas europeias de exposição às radiações não ionizantes.

O argumento inatacável para as próximas eleições

De repente, enquanto conduzo, ocorre-me um argumento inatacável.
É irrespondível e convence qualquer pessoa.
Porque demonstra, na aceção científica do termo, e fá-lo por partes, como o mestre de Platão gostava de fazer com as pessoas simples, como devem as pessoas votar nas eleições do dia 5 de Junho.
Revejo mentalmente os passos da demonstração e lá está, é mesmo inatacável, não tem falhas.
O argumento é independente de qualquer opção ideológica ou de grupo e, portanto, vai  certamente convencer as pessoas.
É a solução que vai contribuir para resolver os problemas do país.
É só chegar a casa, escrevê-lo calmamente, enviá-lo aos comunicadores da nossa praça e disseminá-lo pela internet.
Mas surge um problema.
Sento-me ao computador e não consigo lembrar-me do argumento.
Não me ocorre nenhum dos passos que tantas certezas me deram ainda há pouco.
Nem nenhuma série de perguntas e respostas que o mestre de Platão teria feito a propósito, do género vota de qualquer  maneira, se votares bem ficarás bem com a tua consciencia, se votares mal terás um motivo para filosofar.
É como se se fechassem as portas para o futuro.
Com este problema de memória sinto-me com a insegurança do último dos mohicanos, sempre com receio que da capital venha a ordem da carga da brigada ligeira.
Ou aflito com a angustiante ameaça de extinção do esforço de todo um povo, como a ameaça de extinção do esturjão e do seu caviar.
Sem forças como os pequenos insetos altruistas sem expressão.

Que ousadia e imprudencia a minha, por momentos ter pensado que um problema matematicamente indeterminado tinha solução, e que podia decidir pelas pessoas o que elas devem ou não devem fazer.

Nota: Escrito no dia da divulgação da ultima sondagem antes das eleições do dia 5 de junho - PSD36%; PS31%;CDS11%;CDU8%;BE7%;peq.partidos3%. Esta ordenação determinou a dos 7º a 2º últimos parágrafos. As sondagens, graças à estatística e aos métodos da sociologia e psicologia, tornaram-se uma disciplina científica. Vamos ver se esta respeitou o método científico.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

As outras mortes de Albufeira

Discordo de Rainer Maria Rilke, quando diz que nos momentos supremos uma pessoa está só.
Quando se  morre nem sempre se está só, como este cidadão inglês assassinado a pontapé perto do seu hotel em Montechoro, Albufeira.
Este ano já houve várias mortes violentas de cidadãos estrangeiros no Algarve.
No ano passado também, a que se juntaram vários assaltos a moradias, com os cidadãos no seu interior.
Num país precisando desesperadamente de desenvolver o seu setor transacionável, de que o dinheiro trazido por estrangeiros é parte importante, isto é matar uma galinha de ovos de ouro.
É por isso que a morte do turista inglês não foi solitária.
Nós todos morremos também um pouco com ele.
E deixamos matar a galinha de ovos de ouro a troco de quê?
A troco de economias na "racionalização" das forças policiais.
Mas não apenas por isso.
Este blogue não põe a tónica na repressão, embora desgraçadamente ela agora seja necessária.
Aumentar a presença da policia e da GNR apenas provoca um decréscimo temporário da criminalidade.
Este blogue partilha a opinião de economistas e sociólogos que estabelecem fortes correlações entre o desemprego e a criminalidade, entre o abandono escolar e a criminalidade.
Não se queiram acusar os imigrantes, porque no Algarve há muitos imigrantes que não são criminosos.
Mas se o desemprego se estende aos imigrantes, eles também estarão sujeitos ao convite à criminalidade.
Eu gostaria muito que os senhores economistas compreendessem que quando fecham empresas porque deixaram de ser competitivas,  a correlação daí decorrente vai aumentar a criminalidade e  diminuir as exportações correspondentes ao turismo quando este se retrai com receio dos assaltos no Algarve.
Mas, infelizmente, este blogue não tem esperanças de que os senhores economistas o compreendam.
Para eles é mais barato contratar polícias de intervenção do que procurar financiamento para os investimentos mínimos de que falava Rui Vilar, indispensáveis para combater o desemprego.
Para eles, é um dogma a cumprir, até à falência total, a manutenção dos preços e das taxas de juro baixas (a maneira mais cómoda de manter os preços baixos é manter uma taxa de desemprego elevada).
Seria bom que ficasse bem claro que quem contribui para o aumento da criminalidade é seu cúmplice.
Trata-se dum problema técnico, não político, independente dos resultados eleitorais.

PS - 
1 - Enquanto as entidades com direito a reporte na comunicação social insistem em reforçar as forças policiais esquecendo o tratamento das causas e circunstancias, leio a notícia de que, em pleno dia, numa esplanada junto da Gulbenkian,em Lisboa, dois cidadãos alvejaram a tiro outro cidadão. Ignoram-se as causas e as circunstancias, temendo-se que sejam varridas para debaixo do tapete. Seria interessante saber se para o facto contribuiram o insucesso escolar, o desemprego, o insucesso da integração de imigrantes ou a economia subterranea de comercialização de armas. 
2 - continua a ser preocupante a reação do MAI: perante as preocupações dos cidadãos, cita as estatísticas  da criminalidade registada de 2010, que reduziu 1,3% relativamente à de 2009 (nenhum processo pode melhorar se colocar as estatísticas à frente da resolução das causas e circunstancias reis);
3 - será verdade, como vem noticiado, que por razões de cortes orçamentais, grande parte dos agentes policiais está nos quarteis a realizar tarefas de eletricista, pedreiro, canalizador, em lugar de fazer patrulhas?