terça-feira, 4 de junho de 2024

Comentário a um artigo da APAT e a um seminário da T&N lamentando a baixa quota modal da ferrovia

  




Comentário a um artigo de opinião do presidente da APAT (Associação portuguesa de transitários) e ao seminário da Transportes e Negócios sobre transporte ferroviário de mercadorias em junho de 2024[1]

  

Dividindo o problema, temos o transporte terrestre de mercadorias interno, o transporte para e de Espanha e o transporte para e de além Pirineus. Dado o peso maioritário da rodovia especialmente nos dois últimos aspetos, parecerá que o transporte ferroviário não se desenvolve precisamente por causa da importância e dos lobies do setor rodoviário. Junte-se a isso a natureza da gestão do corredor de mercadorias atlântico RFC4, pelo consórcio “AEIE agrupamento europeu de interesse económico” da IP, ADIF, SNCF e DB, naturalmente interessadas no aproveitamento máximo das infraestruturas existentes e no mínimo investimento evitando as mudanças, condicionando assim as ligações ferroviárias à Europa. Citando Daniel Gros em 2015, quando diretor do Centro de Estudos Europeus,    “Muitos projetos ferroviários e rodoviários também avançam lentamente, devido à oposição local e não à falta de financiamento.”

 

No caso do setor rodoviário parece haver um lobby influente que elimina portagens e subsidia o gasóleo, invocando que contribui muito para as exportações e para o emprego e anunciando à boa maneira portuguesa que já há soluções para camiões de baterias e de hidrogénio (embora não estejam dispostos a investir neles).

 

O seminário de 6 de junho com representantes da IP e dos principais operadores e entidades ligados à logística ferroviária e portuária em Portugal mostrou unanimidade na crítica ao favorecimento do setor rodoviário em comparação com as dificuldades sentidas pelo operadores ferroviários desde a burocracia à taxação e às limitações das infraestruturas. Mas sancionou a política de exclusividade da bitola ibérica consagrada no PFN com o pretexto de conectar as novas linhas com a rede existente (o que alternativamente poderia fazer-se no caso da linha de AV Porto-Lisboa com a tecnologia dos eixos variáveis e intercambiadores).

 

Considerando apenas as ligações ferroviárias à Europa, o fundamento para o seu desenvolvimento é a necessidade de substituir, por razões ambientais e de estímulo ao crescimento das exportações, parte significativa das exportações rodoviárias pela ferrovia.

Em 2023, as exportações por rodovia, segundo o INE, foram:

para a EU         16,287 Mton (42858 M€)

para Espanha   10,761 Mton (16856 M€)

 

 

Pela ferrovia foram (a contabilização pelo INE dos destinos das exportações não implica o transporte das mercadorias desde Portugal além  da fronteira dos Pirineus):

para a EU          0,105 Mton (325 M€)

para Espanha    0,079 Mton (  52 M€)

               ( mais informação em           https://fcsseratostenes.blogspot.com/2024/02/os-numeros-de-2023-das-exportacoes-e.html     )

 

Tamanha discrepância motivaria ações mais evidentes de promoção de uma estratégia de desenvolvimento de soluções para a referida transferência de cargas para a ferrovia. Mas isso é incompatível com a simples manutenção da gestão unicamente concentrada no aproveitamento das infraestruturas existentes, requerendo investimento elevado e uma gestão separada da gestão corrente, investindo em linhas novas com as caraterísticas de interoperabilidade plena normalizadas segundo o regulamento substituto do 1315 das redes TEN-T.

 

 

A primeira fase poderia ser o transporte de semirreboques ou caixas móveis por comboio (autopistas ferroviárias) com dois destinos dos camiões em Espanha: Vitoria e Valencia, negociando o governo português com o espanhol a ligação em bitola europeia das respetivas plataformas a França o mais cedo possível, ainda antes de 2030 . Trata-se de um investimento avultado dado que a nova regulamentação europeia obriga a especificações como o DAC (Digital automatic coupling) , o gabari P400, o comprimento dos comboios, o ERTMS, as pendentes, a bitola UIC em linhas novas,  e a progressiva incorporação dos serviços de mercadorias no corredor atlântico de alta velocidade via Aveiro-Salamanca e via Caceres-Plasencia para sua rentabilização[2].

E neste caso requer-se de Espanha uma atitude mais ativa nas mercadorias  para, numa segunda fase, progressivamente vir trazendo a bitola europeia em via dupla até à fronteira portuguesa.

 

 Será necessário um plano e a sua implementação com datas como:  2025/2027 Vitoria e Valencia; 2030/2032 Medina del Campo e Madrid; 2035/2037 Badajoz e Salamanca/ Almeida/ Mangualde; 2035/2037 Aveiro/Leixões e Poceirão/Lisboa/Sines; 2040 Leixões-Vigo.



Precisamente por ser um investimento avultado e que contribui para a coesão europeia através da rede única ferroviária, a normalização com todos os componentes da interoperabilidade deve ser respeitada também para facilitar o cofinanciamento comunitário. 

Na primeira fase já terão de ser abordados e preparada a resolução dos problemas do ERTMS (a própria regulamentação europeia determina a retirada de sistemas como o CONVEL até 2040), os traçados em via dupla, o recurso a material circulante de eixos variáveis ou de eixos intermutáveis para soluções localizadas de curta extensão ou temporárias, o desenvolvimento da rede de plataformas logísticas nomeadamente o reaproveitamento parcial do terminal rodoferroviário da Bobadela e a implementação do terminal de Castanheira do Ribatejo.

 

Especialmente no caso das autopistas ferroviárias os cadernos de encargos do material circulante deverão prever uma substituição económica de bogies ou rodados de bitola ibérica por bogies ou rodados de bitola europeia.  

O panorama das mercadorias em Espanha não é atualmente famoso, com uma quota modal em 2021 da ordem de 9% segundo o observatório de transporte e logística em Espanha OTLE que registou em 2021 os seguintes volumes em Mton de tráfego nacional e internacional para a rodovia e a ferrovia,  superiores cerca de 7% relativamente a 2019, comparando-se com os volumes em Portugal:

                                                      rodovia      ferrovia

OTLE: Espanha nacional                1541            20

            Espanha internacional           119              4,7

INE:    Portugal  nacional                 120,5            6,6

            Portugal  internacional           22,9            2,7

Nota: os dados do INE são da sua Estatística de transportes de 2022 e incluem os serviços em redes estrangeiras mas da responsabilidade de operadoras nacionais; repetidamente foi afirmado no seminário de 6 de junho que a quota do transporte ferroviário de mercadorias em Portugal será de 13%, mas provavelmente referindo-se a toneladas-km; em toneladas os números do INE conduzem a 5,2% dos modos terrestres para o tráfego nacional e 6,5% para o tráfego nacional e internacional

    

Isto é, também em Espanha o aumento da quota modal não se compadece com o exclusivo aproveitamento e melhoria da rede existente. Eletrificação do troço Badajoz-Puertollano ajuda, mas a ligação a Madrid deveria utilizar a ligação de AV e ponderar a ligação por Aranda de Duero.


Como reconhece o próprio MITMA (ministério espanhol de infraestruturas), a baixa quota modal do transporte de mercadorias em Espanha tem como causas a demografia e a desadequação da rede de bitola ibérica, com troços de via única sem cruzamentos para comboios de 740m, não eletrificados, não equipados com ERTMS, sem terminais intermodais eficientes, sem caraterísticas de atração dos operadores estrangeiros como a DB Cargo, cujo grupo integra a Transfesa, reconhece no seu site             ( ver https://network.dbcargo.com/network-en ) :  "With the expansion of the european standard gauge to Barcelona, it is no longer necessary to change axles at the spanish border. In this way, trains can travel directly to the mediterranean metropolis and easily reach the only spanish port facility in the standard gauge network"  o que implica, enquanto a bitola 1435mm não for prolongada até Valencia, a necessidade de transporte para "various spanish economic centers by means of reloading, axle relocation or truck on-carriage". Trata-se de uma postura bem diferente da que os sucessivos governos portugueses veem defendendo, apoiados na IP, no RFC4 e, como o seminário de 6 de junho mostrou, na opinião da grande maioria dos principais operadores e entidades ligadas à logística ferroviária e portuária.

 

Para sairmos desta situação e aumentar a quota modal da ferrovia, é essencial espanhois e portugueses desenvolverem, em sintonia com o regulamento TEN-T substituto do 1315, e de forma coordenada, o plano referido acima de aproximação da bitola 1435mm dos portos atlânticos, revendo simultaneamente o PFN para assumir o que está inscrito no próprio PFN: "A criação de ligações ferroviárias em bitola padrão (1435 mm) teria inegáveis vantagens no transporte de mercadorias internacional de longa distância, contribuindo para melhorar a competitividade das exportações portuguesas".

 Julga-se que isso só poderá ser feito com uma estrutura corretamente dimensionada em termos de recursos humanos para gestão do desenvolvimento de uma nova rede separada da gestão corrente da rede existente, sem prejuízo do recurso a concursos públicos internacionais para seleção de consultor com experiência internacional em projeto, manutenção e operação de redes de alta velocidade/mercadorias.




PS - ver em   https://fcsseratostenes.blogspot.com/2023/06/seminario-transportes-e-negocios-sobre.html         o relato do seminário ferroviário realizado pela T&N em junho de 2023, verificando-se, não só pelos atrasos da plano ferrovia 2020, especialmente das obras da linha da Beira Alta, que persistem as inconformidades


____________________________

[1] https://www.transportesenegocios.pt/o-mesmo-de-sempre-o-que-nao-muda-nunca/e
         e
      https://seminarios.transportesenegocios.com/ferroviario mercadorias 6jun2024

[2] A Medway e a Tramesa têm já prevista para 2024 a rota Valencia-Madrid e em 2025 Valencia-Puertollano-Badajoz-Entroncamento com vagões plataforma articulados de eixos intermutáveis https://www.transportesenegocios.pt/ae-ferroviaria-valencia-madrid-arranca-em-julho/

segunda-feira, 3 de junho de 2024

A guerra da Crimeia

 1870, a questão da Crimeia

O secretário geral, de músculos da face deslassados e olhar alucinado, alerta e incentiva. O comentador de reconhecido mérito da televisão reforça, analisa e conclui o que devemos pensar e apoiar.

Decidem e expõem as conclusões como o governante ou o administrador da empresa longe do local da obra onde alguns riscos são subsequentes dessas suas decisões.

Eu cidadão, apenas cidadão, sem o vosso suposto domínio das forças em presença, vos digo que a vossa visão é curta.

Recuemos 150 anos, leiamos os jornais dos anos 70 do século XIX. Na secção internacional lá vinha sistematicamente uma notícia da "questão da Crimeia", 20 anos depois da conclusão da guerra da Crimeia.

1853, que faziam lá tantos jovens soldados ingleses, franceses, italianos, tão longe da sua terra?   enquanto Florence Nightingale tentava evitar mortes.

Tantos anos depois, mantem-se a questão da Crimeia, mantem-se o recurso à guerra, insiste-se nela, sabendo-se que repetindo procedimentos semelhantes em condições idênticas  não se produzem resultados diferentes.

Visão curta, vos digo. 


quarta-feira, 29 de maio de 2024

Descarrilamento na estação Alvalade em 24 de maio de 2024 - hipótese de explicação

 

 

 

Descarrilamento na estação Alvalade em 24 de maio de 2024

                               hipótese de explicação

 

1 - Pela observação do vídeo (necessário fazer pausa) a primeira carruagem está fora dos carris mas paralela ao eixo da via      https://x.com/UnderLX/status/1793981602118398178?ref_src=twsrc%5Egoogle%7Ctwcamp%5Eserp%7Ctwgr%5Etweet 

2 - Considerando o comprimento da carruagem, a distancia a que ficou do cais e a distancia da TJD ao cais, terão descarrilado 3 bogies, os 2 da primeira carruagem e o primeiro da segunda carruagem

3 – o considerando anterior permite supor que o descarrilamento ocorreu por galgamento da lança curva da TJD posicionada para o itinerário de convergência duma via adjacente com a via principal onde circulava o comboio que descarrilou (ver o primeiro  desenho abaixo)

4 – sendo o itinerário incompatível com a posição das agulhas, o sinal de manobra teria de estar vermelho e, estando em exploração com passageiros, a circulação estaria a fazer-se em marcha especial com guarnecimento da agulha por um operador e com velocidade baixa, o que limitou os danos na via e no comboio, mitigando a gravidade da ocorrência

5 – se a exploração se estava a fazer em marcha especial, o encravamento da sinalização (interlocking) teria detetado antes uma condição na via incompatível com a segurança inviabilizando o estabelecimento de itinerários e sinais verdes

6 – causas possíveis para o anterior são muitas vezes intervenções noturnas ao nível da sala de sinalização do encravamento ou ao nível da via

7 – intervenções na sala de sinalização por causas do seu exclusivo foro são normalmente dadas por concluídas e declarada a possibilidade de exploração em condições normais com comunicação ao posto central

8 – ora a circulação não estava a ser feita em condições normais  o que suscita a hipótese da causa do estado do encravamento ser externa aos circuitos de sinalização, portanto ou presença de corpos estranhos nos aparelhos de via, ou fratura de componentes seus ou movimentação de veículos em trabalhos de manutenção noturna que tenham danificado  aparelhos de via

9 – por razões estatísticas neste tipo de avarias, a hipótese mais provável é a última, de circulação intempestiva de veículos de manutenção danificando aparelhos de via, mas não o aparelho que acabou por provocar o descarrilamento quando se estava em circulação de marcha especial

10 – junta-se o esquema da TJD com a posição provável das lanças que provocou o galgamento da lança curva e o desvio para a direita pela lança reta, na posição de convergência da via adjacente com a via principal (movimento de B para C)





 

 



 

 

 

 

terça-feira, 21 de maio de 2024

Em maio de 2024, junto da estação de Cais do sodré da linha de Cascais, obras do metropolitano

 

Em 19 de março de 2024 a subestação de tração da linha de Cascais no Cais de Sodré ficou fora de serviço na sequência de um corte de cabos nas obras do metro. Desconhecem-se os resultados do inquérito anunciado:                                                             https://fcsseratostenes.blogspot.com/2024/03/incendio-em-19mar2024-na-subestacao-de.html

Em 16 de maio de 2024 decorriam trabalhos de instalação de estacas de contenção dos terrenos, de natureza de aterro, para a ligação do túnel do metro de Santos a Cais de Sodré.

Juntam-se fotos comprovativas de que os trabalhos decorrem ao mesmo tempo da circulação de comboios da linha de Cascais, estimando uma distância de 15 metros entre o eixo de perfuração e a passagem do comboio. Na zona de trabalhos existe ainda o risco de colisão de máquinas em manobra com um poste de sustentação da catenária.

Deixa-se registada a discordância com estas condições de trabalho. Por razões de segurança a circulação de comboios devia estar suspensa e reforçados meios alternativos para transbordo de passageiros. Este é um princípio de segurança que já antes do acidente de março de 2024 devia ter sido respeitado. Reitera-se ainda a crítica à ausência de informação concreta.


   

Máquina de perfuração e sondagens para instalação de estacas de contenção em ação junto da linha de Cascais em 16mai2024:
https://1drv.ms/v/s!Al9_rthOlbwez3jLCRmSbYzpiFg_                ou:






comboio no sentido para Cascais; poste de sustentação de uma catenária no mesmo recinto de trabalho de máquinas 

comboio no sentido para Cais do Sodré

perfuradora para instalação das estacas



vista no sentido para Cais do Sodré

PS -
operação de betonagem de uma estaca em 27mai2024




Foto em 11jun2024: temos mais uma grua neste recinto; mantem-se a proximidade com a circulação dos comboios e com um cabo de sustentação dum poste da catenária  



    
video  em 11jun2024

 
video em 11jun2024



                video em  2 de julho de 2024; dada a proximidade da perfuradora para estacas com a circulação dos comboios e mantendo-se a não divulgação das causas e circunstancias do acidente de março de 2024, considero incompatível a continuação das obras e a circulação dos comboios o que implicaria  a implementação de transbordo em autocarro na estação Santos, com ligação ao metro em Cais do Sodré e Terreiro do Paço. A complexidade da obra era conhecida muito antes da sua aprovação quando foi proposta e recusada a correspondência da linha de Cascais com o metro em Alcântara Mar.




foto em 2 de julho de 2024
























segunda-feira, 13 de maio de 2024

O momento da segurança rodoviária



1 - Assisto on line a um seminário promovido pela ADFERSIT sobre segurança rodoviária. Registo a convicção dos participantes nas soluções que defendem. Destaque para o desenvolvimento da estratégia nacional da segurança rodoviária e o objetivo da Visão Zero:      https://youtu.be/1LtoRDeK428

 2 - Assisto ao programa da RTP2 Sociedade Civil sobre mobilidade e segurança rodoviária:       https://www.rtp.pt/play/p8130/e761017/sociedade-civil  . Congratulo-me com o progresso da Visão Zero da ANSR e do lançamento em maio de 2024 da campanha contra o telemóvel na condução. Retenho as afirmações de intervenientes, "é preciso redesenhar as nossas cidades", "a mobilidade é indissociável do urbanismo".

3 - Leio a notícia de mais uma morte num acidente de moto de um jovem na estrada marginal.  Ainda há poucos dias me comovi ao saber da morte duma rapariga ligada a um programa de televisão noutro acidente de moto na marginal:                                                                       https://ionline.sapo.pt/2024/05/07/colisao-entre-mota-e-ligeiro-faz-um-morto-na-marginal-em-paco-de-arcos/                                                                                                       https://www.novagente.pt/domingao-elemento-da-producao-morre-aos-22-anos-forma-tragica-e-violenta#google_vignette

 4 - Vejo na newsletter da União Europeia a crítica do ECA (Tribunal de Contas Europeu), 20.000 mortes na estrada por ano, a vontade de aplicar melhor a estratégia de redução das mortes na estrada, o aumento de mortes de ciclistas para 2000 por ano, a inconformidade do risco de morte na estrada ser 4 vezes maior num Estado membro do que noutro:   https://www.euractiv.com/section/road-safety/news/20000-road-deaths-a-year-european-auditors-call-for-closer-coordination/

5 - Passa na televisão mais uma referência ao acidente mortal de dezembro de 2022 de uma cantora do mesmo programa de televisão, É anunciada  acusação de homicídio por negligência do causador do acidente que colidiu com o seu automóvel, sob efeito do alcool, no automóvel da vítima. Comparo as circunstâncias do acidente com outro, também mortal, noutra autoestrada, também com ausência de rail de segurança e ângulos incorretos dos taludes da vala adjacente:    https://fcsseratostenes.blogspot.com/2024/01/acidentes-rodoviarios-na-a2-ao-km85-em.html

6 - É publicado o relatório da ANSR relativo a 2023:   http://www.ansr.pt/Estatisticas/RelatoriosDeSinistralidade/Documents/2023/Relat%C3%B3rio%20Anual%20de%20Sinistralidade%20a%2024h,%20fiscaliza%C3%A7%C3%A3o%20e%20contraordena%C3%A7%C3%B5es%20rodovi%C3%A1rias%202023.pdf 

Sobe o número de acidentes, sobe o número de vítimas mortais. O relatório, provavelmente para combater qualquer tendência de pânico, relativiza.

7 - Recentemente, num fim de tarde, â hora de fecho das escolas, vou de carro buscar a minha neta de 9 anos. Ao virar para uma rua de sentido único tenho de travar porque um cidadão de trotineta, com o filho entre ele e o guiador, surge inesperadamente em sentido proibido. Nenhum dos dois trazia capacete de segurança.


Vou comentar, começando por evocar a reunião de dezembro de 2018 do então secretário de Estado da administração interna com a direção da PSP. O que o senhor secretário de Estado disse à polícia foi que deviam deixar de multar os ciclistas da bicicletas com motor auxiliar que circulassem sem capacete, Para confirmar a ordem providenciou a supressão no Código da Estrada da cláusula que obrigava ao uso do capacete com base noutra cláusula que estabelecia uma equivalência entre bicicletas com e sem motor auxiliar (não devia ter suprimido a primeira cláusula, bastava ter mandado acrescentar à segunda "exceto quando expressamente referido em contrário". Tentou justificar a ordem para não desincentivar o uso de bicicletas, mas na prática cometeu um ato de gestão danosa por ter aumentado o risco dos utilizadores. Ver           https://fcsseratostenes.blogspot.com/2022/05/sinistralidade-rodoviaria-e-trotinetas.html

Pontos 1 e 2 -

Citando este episódio tento chamar a atenção para que é necessário mudar a atitude dos cidadãos para com o problema da segurança rodoviária, propondo que se exija a apresentação pública periódica de relatórios sobre as causas e circunstancias dos acidentes mais mediáticos, com as recomendações para que não se repitam ou, pelo menos, que se minimizem as consequências. Não basta reportar que estiveram no local do acidente  meios. Sem prejuízo das ações para a estratégia nacional e visão zero referidas pelos intervenientes naquelas sessões, penso que a antecipação de medidas como a divulgação dos relatórios de causas e circunstâncias  contribuirá para a melhoria dos indicadores de segurança.

Pontos 3 , 6 e 7 - 

O video seguinte mostra porque morrem motociclistas, não apenas na marginal. Não era necessário o video, basta circular na marginal para ver o sistemático incumprimento dos limites de velocidade e das normas do código da estrada. Veja-se sucessivamente: provável excesso de velocidade da moto, circulação de um automóvel entre as duas vias, ultrapassagem temerária pela direita desse automóvel, seguida de colisão do veículo que ultrapassava com outro que circulava na via da direita, desvio do primeiro automóvel para a esquerda provocando uma manobra da moto que poderia ter provocado o seu despiste:   https://rfm.sapo.pt/atualidade/16626/motociclista-grava-acidente-com-varios-carros-na-marginal-de-oeiras-e-a-internet-nao-perdoa

O comportamento de grande parte dos condutores na marginal justificava campanhas frequentes de observação do tráfego e de sensibilização. 

A divulgação do relatório da ANSR para 2023 confirma a gravidade. Quase 300 mortos em automóveis ligeiros, cerca de 220 mortes em duas rodas e cerca de 74 peões mortos. Estes números correspondem às vítimas mortais a 24 horas vezes o fator 1,3 para estimar as vítimas mortais a 30 dias. Para o cálculo do equivalente ao indicador internacional de fatalidades por mil milhões de passageiros-km estimei o número de veículos de vários tipos que circulam em todo o país e a quilometragem média de cada tipo. Resulta a extrema gravidade da sinistralidade mortal de motos e de velocípedes requerendo rápida intervenção, nomeadamente a obrigatoriedade de uso de capacete de segurança em velocípedes e trotinetas:


Existem várias situações de risco elevado consequência de comportamento de condutores incompatível com o código da estrada, o que sugere a antecipação do lançamento de campanhas na TV para além da anunciada relativa ao telemóvel. São exemplos, para além do excesso de velocidade em função das condições reais, a paragem em segunda fila a a abertura de portas do lado esquerdo, a mudança de via para ultrapassagem pela direita e regresso à via da esquerda, a condução pela via central com a via direita livre, o não abrandamento à aproximação de passadeiras de peões (sugere-se a inclusão no código da estrada de "prioridade nas passadeiras aos peões". A gravidade das mortes por acidente é consequência desta cultura de comportamento do condutor, sugerindo-se a obrigatoriedade de todos os canais de televisão dedicarem um horário fixo e comum em que seriam passados breves videos das campanhas estimulando a emulação de comportamentos corretos,  e análises de acidentes e respetivas recomendações.

Ponto 4 -

A União Europeia adotou a estratégia para a segurança rodoviária no seguimento do seu Green Deal, com o objetivo de reduzir as mortes na estrada de 50% até 2030:                                                      https://eur-lex.europa.eu/resource.html?uri=cellar%3A0e8b694e-59b5-11e8-ab41-01aa75ed71a1.0003.02/DOC_2&format=PDF  
                                                                                                                                                                      A crítica do ECA reflete os resultados insuficientes agravados por grande desigualdade: 22 fatalidades na estrada por ano na Suécia por milhão de habitantes, mas 82 na Bulgária, 55 em Portugal, média da UE 46. É necessário motivar a sociedade civil e sensibilizar as instituições para o esforço necessário. 

Ponto 5 -

O comportamento dos condutores não é a única causa dos acidentes mortais. No próprio dia da inauguração do troço da autoestrada A2 entre Alcácer do Sal e a Marateca morreu um condutor que se despistou e caiu na vala central que não estava equipada com rails de segurança, os quais foram a seguir rapidamente instalados. Por razões económicas, grandes extensões de autoestradas não têm rails de segurança nas bermas e, para facilitar a drenagem (ausência de drenagem já tem provocado graves aluimentos do pavimento das autoestradas) as inclinações dos taludes das valas adjacentes muitas vezes não ajudam a "canalizar" os veículos despistados até uma paragem sem consequências. Trata-se de assunto a merecer um plano progressivo de instalação de rails de segurança e correção dos taludes.

CONCLUSÃO - Espera-se da sociedade civil, das instituições, da academia, do governo, do Parlamento, da Presidência da República, a dinamização da estratégia pela segurança rodoviária para estancar os números de vítimas na estrada, recorrendo ao apoio comunitário e antecipando medidas como campanhas de sensibilização em horário obrigatório nos canais de TV e divulgação pública das análises de causas e circunstancias de acidentes e subsequentes recomendações.


PS em 23mai2024 - uma jovem da minha  família ao iniciar no seu carro a viragem à esquerda com o sinal intermitente (não existe sinal fixo de quem desce a Alameda D.Afonso Henriques e vira à esquerda no sentido ascendente da Av.Almirante Reis; o sinal intermitente acende com o sinal verde para atravessamento da Av.Almirante Reis) sofreu o embate de uma moto cujo condutor não falava português nem tinha seguro (não, não entregador de comida  ou de encomendas).
Dispenso-me de referir  as burocracias e os inconvenientes de ter o carro imobilizado à espera de solução. Interessa-me observar que a polícia não fiscaliza o comportamento agressivo e de risco para os próprios e para terceiros da maioria dos condutores de duas rodas com ultrapassagem sistemática pela direita ou pela esquerda sem respeitar a distancia de 1,5m do código da estrada. No caso vertente o condutor da moto não conseguiu travar a tempo e presumivelmente pretenderia seguir em frente. Se o comportamento fora do código não é fiscalizado isso é um convite ao incumprimento (em 2018 o secretário de Estado da Administração Interna mandou suprimir do código a obrigatoriedade de uso de capacete de segurança em bicicletas com motor auxiliar), logo, se esse comportamento potencia a sinistralidade, a ausência de fiscalização também o faz pelo que as entidades oficiais podem ser consideradas cúmplices do referido comportamento.

PS - Balanço da sinistralidade rodoviária no domingo dia 26 de maio de 2024: 3 mortos em acidentes de automóvel, 2 mortos com motos. 
Até quando sem serem tomadas as medidas propostas?







quinta-feira, 9 de maio de 2024

A propósito de um artigo sobre os investimentos no metrobus

 Comentário a um artigo no Público em 6mai2024   https://www.publico.pt/2024/05/06/economia/noticia/portugal-soma-15-mil-milhoes-euros-projectos-metrobus-2089015


1.500 milhões em projetos de metrobus

A ideia do metrobus começou a ganhar entusiastas mais ou menos quando em Coimbra desesperaram, com a crise, de levar o metro ligeiro de superfície  a Serpins, perdendo toda a esperança de vir a fazer o túnel na Portagem. Figuras gradas da cidade tinham visitado a Austrália e de lá vieram com a certeza de que era a solução (curiosamente, o SATU de Oeiras também começou assim) e fabricantes de autocarros elétricos logo agarraram a ideia. À boa maneira portuguesa de “o que era bom era”, a fé numa solução inovadora cresceu e expandiu-se, além de Coimbra (que pensou com ela uma rede metropolitana completa assente no desmantelamento de uma rede ferroviária), a Braga, Porto e Lisboa, e  a outros executivos municipais.

O artigo do Público contribui para a ilusão citando os 44.000 passageiros por hora e sentido em Bogotá e os 35.000 em três cidades chinesas. Trata-se de valores teóricos que exigem espaço para duas vias por sentido e com intervalos entre autocarros de 20 segundos, o que implica tempos de paragem da ordem de 10 segundos, impossíveis de manter. Comparando com o metro de Lisboa, este não ultrapassa os 11.000 passageiros/hora (ocupação de 4 passageiros/m2 contra 6 passageiros/m2 no caso de Bogotá) porque não há comboios  nem maquinistas suficientes para o limite possível de 32.000 passageiros/hora com intervalo de 90 segundos; para a rede após  conclusão das expansões em obra e em contratação não vão ser suficientes os 74 comboios de 6 carruagens existentes e encomendados para garantir em toda a rede um intervalo de 3 minutos (16.000 passageiros/hora).

O artigo tem porém o mérito de ter ouvido três académicos dos transportes que arrefeceram um pouco o entusiasmo porque os sistemas que se projetam em Portugal são “degradados” quando comparados com os modelos originais. Por exemplo, as vias para o metrobus devem ser exclusivas, sem táxis nem bicicletas, separadas do tráfego adjacente, com cruzamentos desnivelados. A largura da principal artéria de Bogotá é de 118m, em Curitiba e na China 50m (a A5 e a Boavista têm 30m) . No traçado sinuoso e estreito Coimbra-Serpins não sabemos como se vai comportar o sistema de guiamento ótico em função das condições climatéricas. Não terá sido divulgado o fim da experiência do metrobus em Nancy e em Caen. Durante anos os autocarros diesel de Bogotá poluíram consistentemente a cidade (já tem autocarros elétricos de baterias, mas de menor capacidade, e não muito mais baratos do que uma carruagem de metro) enquanto a taxa de motorização do transporte individual, paradoxalmente,  cresceu mais do que em Lisboa. Os custos de construção foram inferiores aos da construção de túneis, mas não muito significativos se considerarmos os impactos num meio de urbanização densa, com cruzamentos desnivelados para evitar a redução da velocidade comercial.

 

  o BRT de Guangzhou
                                          

 

Não sendo académico, mas apenas antigo técnico de transportes, e sem contestar o recurso ao metrobus como complementar de outros modos numa rede de transportes integrada, utilizo outro argumento mais terra a terra, mas para mim essencial por se fundar nas leis da Física, o rendimento ou eficiência energética.

Resultados obtidos para um percurso tipo incluindo uma rampa de 4%:

Comboio/tram:  61 Wh/passageiro-km

Metrobus:           73 Wh/passageiro-km

Isto acontece porque a resistência ao rolamento do pneu contra o asfalto é maior do que a resistência ao rolamento da roda de aço contra o carril.

Se contabilizarmos a energia primária, isto é, do poço à roda (well to wheel), temos:

Comboio/tram: 155 Wh/pass-km

Metrobus:          200 Wh/pass-km

Em termos de eficiência energética, a solução ferroviária com alimentação elétrica por catenária é superior à alimentação elétrica com carregamento de baterias.

 

Em conclusão, se os decisores quiserem ignorar as leis da Física no combate às alterações climáticas e se não se importarem com a poluição visual e os impactos urbanísticos da solução metrobus, nem com os constrangimentos do tráfego e baixas velocidades comerciais em ruas estreitas,  façam favor … não em meu nome.


quinta-feira, 2 de maio de 2024

Notícias da Rail Baltica e dos caminhos de ferro da Ucrania, em abril de 2024

 Notícias da Rail Baltica, a ligação ferroviária dos países bálticos à Polónia e rede única ferroviária europeia de acordo com as especificações da regulamentação TEN-T. Lá vai progredindo paulatinamente a construção, com o objetivo 2030 mas sem preocupações de grandes velocidades (velocidade máxima 249km/h):

https://www.youtube.com/watch?v=spQ4v0Y2FfM

Nós por cá, continuamos a assistir à preocupação dos sucessivos governos em obter isenções e dispensas de cumprimento do regulamento atualizado (já aprovado pelo Parlamento, aguardando-se a aprovação pelo Conselho), dando prioridade por exemplo à linha Porto-Lisboa em bitola ibérica e, receia-se, ao STM (interface entre o sistema ERTMS e o atual CONVEL).


Notícias dos caminhos de ferro da Ucrania, instalação de via de 4 carris (via embricada) num curto troço para ligação à Hungria e Eslováquia :

https://www.railwaygazette.com/infrastructure/ukraine-begins-construction-of-standard-gauge-european-rail-link/66349.article  

Aluimento de autoestrada em Guangzou em 1mai2024

 https://www.msn.com/pt-pt/noticias/ultimas/desabamento-de-autoestrada-mata-19-pessoas-no-sul-da-china/ar-AA1nYgJX?ocid=mailsignout&pc=U591&cvid=9cedd2a9da2c43ccb71b7f03b472d887&ei=39#

É um fenómeno recorrente, uma estrada segue a curva de nível, numa reentrancia na encosta a estrada funciona como represa da linha de água descendente e a pressão da acumulação de água acaba por arrastar os inertes sob a estrada provocando uma cratera. O projeto não terá dada suficiente atenção, não prevendo uma drenagem fácil, e a manutenção não terá monitorizado devidamente a situação. Aconteceu recentemente perto de Águeda no IC2 e na linha do Norte perto da Pampilhosa e também numa autoestrada na Suécia.



A lei da governação

 Em tempos de mudança de governo, recorde-se a lei da governação. Tomei conhecimento na sua forma de expressão vinda de Seabra Ferreira, antigo secretário de Estado de transportes e antigo colega no metropolitano de Lisboa, mas não sei se será original dele:  "A governação divide-se em 3 fases, na primeira descobrem-se ou inventam-se os erros da governação anterior, na segunda fase tenta-se, normalmente ingloriamente, resolver problemas e planear soluções, e na terceira fase preparam-se os erros para a governação seguinte descobrir ou reinventar."

Ao teorema de Seabra Ferreira sobrepõem-se vários corolários:

1 - corolário de Armando Cortês e Francisco Nicholson - o que era bom e já agora, era que os atos de governação fossem transmitidos pela TV   (em programa na RTP dos anos 70)

2 - corolário de António Silva ou da endogamia -  a boa governação consegue-se acordando com os outros candidatos votações recíprocas que só funcionam num sentido e convencendo-os de que a nossa filha é a mais bonita do concurso (em o presidente da junta)

3 - corolário de Peter e Murphy - se um técnico competente tiver êxito na sua função profissional, pode ser que dê um mau ministro, e se pode ser, certamente que o será

Todas e quaisquer semelhanças com a realidade são simples coincidências.




Consulta pública sobre a tomada de água no Pomarão

 

documentação para a consulta pública:
https://siaia.apambiente.pt/AIA.aspx?ID=3668

https://www.publico.pt/2024/04/26/azul/noticia/levar-agua-alqueva-algarve-impacto-ambiental-discussao-publica-2088333

https://www.publico.pt/2023/08/03/azul/noticia/seca-novos-planos-abastecer-regioes-sedentas-algarve-huelva-guadiana-2059061

https://fcsseratostenes.blogspot.com/2024/04/o-aproveitamento-do-guadiana.html


tomada de água existente para Espanha (Huelva)



                 
tomada de água proposta, a 2000m a poente da tomada existente, e traçado do transvaze para a albufeira de Odeleite






No âmbito da consulta pública sobre a tomada de água no Pomarão enviei a seguinte participação:

A presente participação consiste numa concordância, deixando registado o apreço pelo trabalho desenvolvido neste projeto e ao mesmo tempo, de uma maneia geral, pelas infraestruturas hidráulicas no Sotavento algarvio  da responsabilidade da direção regional de agricultura, sem descurar a possibilidade de novos pequenos aproveitamentos semelhantes aos das albufeiras de Alcoutim, Pereiro ou Caroucha.

Acrescento algumas sugestões:

1 - início de negociações com a parte espanhola para um acordo sobre os caudais e as condições de tomada conforme o presente projeto, considerando que a atual tomada do Bocachanza carece de oficialização

2- prevenindo eventuais fenómenos extremos de excesso de precipitação, sugere-se aumentar o diâmetro das condutas do transvaze deste projeto e da ligação Odeleite-Beliche

3 - sugere-se o imediato desenvolvimento do projeto e EIA de barragens em betão armado do Vascão (eventualmente em duas subunidades) e das ribeiras da Foupana e de Cadavais

4 - sugere-se o estudo de reforço da barragem de Beliche ou construção de dique de betão armado a jusante

5 - sugere-se o estudo de dessalinizadora a instalar na margem direita onde predomine a cunha salina

Com os melhores cumprimentos


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Posteriormente ao fecho da consulta pública, tomei conhecimento pelo Público de que o projeto da barragem de aterro do Beliche se encontrava entre a documentação abandonada pela Agencia do Ambiente nos antigos edifícios do ex INAG, que serviram de apoio à construção da barragem e que, ao abandono, têm sido continuadamente vandalizados, as casas e a documentação:

A descrição indicia (não prova) que os elementos necessários para a monitorização periódica da estado da barragem de aterro possam não estar disponíveis, estendendo-se a dúvida à disponibilidade de recursos humanos para a sua execução.
Considerando que, sem manutenção, as barragens de aterro comportam-se mal no caso de excesso de anormal de precipitação, parecerá, por razões de proteção civil, que a APA e a direção regional de agricultura deverão informar publicamente as medidas  tomar. 


domingo, 28 de abril de 2024

Inquérito a Mofina Mendes, já ...

 



Finalmente, passados estes anos todos, o bom juiz de Monsaraz de boas contas, que veio substituir o mau juiz de Monsaraz das perdizes recebidas às escondidas, emitiu o seu laudo. Que urgentemente se faça um inquérito à forma como os patos voadores à guarda de Mofina Mendes foram por ela deixados voar. Que Mofina Mendes seja chamada às Cortes e que esclareça o negócio. Porque se tratou de um negócio, uma vez que foi paga, por quem ficou com os patos, com um ou dois, não se sabe bem, potes de azeite.

O inquérito devia merecer a aprovação do rei, mas os meirinhos mores arranjaram as coisas de modo a poupar trabalho às Cortes, que têm coisas muito mais importantes para fazer, por exemplo, se o castelo de Noudar também deve ser representado no escudo real ou se as próximas festas do grande torneio devem comemorar a batalha de Ourique ou a batalha dos Atoleiros.

Mas não importa, eu conto o que se passou com a Mofina Mendes. Os patos andavam gordinhos e não se afastavam do poiso, mas às tantas, na capital, o vedor mor da fazenda régia enganou-se nos fluxos financeiros e o rei mandou vender coisas que dessem dinheiro.

Mofina Mendes viu-se assim obrigada a desfazer-se dos patos voadores, mas não sem que por alturas do Natal não tivesse combinado com os compradores uma boa paga, dois potes de azeite. Bom, não foram bem dois potes, foi só um, porque o segundo pote ficou prometido mas para muito depois, quando as patas tivessem posto ovos para 50 gerações de patos voadores.

Mofina Mendes não se importou, era uma rapariga esperta, empreendedora e de ideias bem definidas, De modo que lá foi para a feira pela vereda fora, de pote à cabeça, imaginando primeiro o que faria depois de ter o segundo pote das 50 gerações de ovos, mas depois, mais perto da realidade, cogitando o que faria com o dinheiro da venda do primeiro pote. Compraria um terreno para poder tratar de mais patos, vindos de todos os lados. Mas não sabia onde ficaria melhor tal terreno, e por isso, distraída, escorregou numa pedra e o pote estatelou-se com ela no chão.

É por isso que tem de se fazer um inquérito, para apurar o que moveu Mofina Mendes e os fornecedores dos potes de azeite, e para onde há-de ir o novo pátio dos patos voadores.

https://www.rtp.pt/noticias/economia/chumbada-comissao-parlamentar-de-inquerito-a-privatizacao-da-ana_v1566614



quinta-feira, 25 de abril de 2024

O meu 25 de abril

 

Lisboa, Rossio, 25 de abril de 2024


Seriam umas 5 horas da manhã quando me levantei para atender o telefone. Era o meu colega do quartel de Transmissões em Sapadores, que estava de serviço como oficial de piquete no dia 24. Telefonava porque não sabia o que passava e pedia que eu não demorasse, que era eu que estava de serviço no dia 25. O meu colega era irmão mais novo de Rão Kiao, mas era de pensamento muito mais conservador do que o irmão e, por simples aplicação da transitividade, do que eu próprio. Mas falavamo-nos bem. Disse-lhe que estivesse descansado, que à hora do toque do piquete eu estaria lá, mas que ia descansar mais um bocadinho e depois ainda tinha de levar a minha filha e o meu filho a casa dos sogros. 

Eu não sabia que a revolução já estava no seu caminho. Havia dias que de vez em quando via os colegas do quadro permanente a fecharem-se na sala da messe, reunidos com ar de caso. Atribuía à questão do conflito entre os do quadro permanente e os milicianos dos cursos de capitão, ou pior ainda, que pudesse haver aí a mãozinha do general Kaulza, e não pensava mais nisso. Eles sabiam o que eu pensava da guerra colonial, e eu pensava que eles continuavam agarrados à ideia da pátria. 6 semanas antes tinha aproveitado  o fim de semana para acompanhar a minha mulher a um espetáculo de canto de intervenção em Valado de Frades, com o quarteto vocal em que ela cantava, num espetáculo com Carlos Paredes e o poeta José Carlos de Vasconcelos. Tínhamos sido parados por um soldado da GNR que depois de lhe mostrar o meu cartão de alferes miliciano respeitosamente aceitou as minhas explicações que era um passeio de fim de semana com a família. Nada tinha que ver com a coluna militar do golpe das Caldas. 

Como se tudo estivesse normal, pus os meninos nas cadeirinhas do carro, fui pela estrada de Benfica, Sete Rios, em S.Sebastião virei à esquerda , passei pelo quartel general sem imaginar o que se tinha passado durante a madrugada ao portão. Deixei os meninos com a sogra e entrei triunfante com o carro vermelho e velhinho, com um grande autocolante com o símbolo da paz na porta direita (cantava-se por esse mundo fora o "Hair"), digo triunfante porque ao contrário dos outros dias o portão estava fechado e a sentinela teve de o abrir.

A cerimónia na parada correu normalmente e depois fui encontrar na sala do oficial de dia o senhor comandante da unidade, um pacífico aristocrata, e o senhor tenente coronel que poucos meses depois seria dirigente de topo de uma grande empresa de telecomunicações (não, não era o tenente coronel Garcia dos Santos, representante da arma de transmissões no posto de comando da Pontinha) a seguirem atentamente o desenrolar dos acontecimentos no largo do Carmo. Lamentava-se o tenente coronel, que não devia ter participado com muito entusiasmo nas reuniões do movimento dos capitães no quartel das transmissões, do  rumo dos acontecimentos e da triste figura de Marcelo Caetano e Américo Tomás.

Virei-me para o capitão oficial de dia, "e não me disseste nada? estou lixado com vocês", ao que ele me respondeu, no seu alentejano cerrado "não podia dizer nada, pá, daqui a bocadinho vai lá atrás ver se ninguém quer saltar o muro". Tratava-o assim porque tínhamos sido colegas no Técnico, onde discutíamos a política colonial e as eleições de 1969. Ele dizia-me "Só depois de ires às colónias podes criticar" (já não tenho a certeza se na altura ele falou em colónias ou províncias ultramarinas). E de facto, ele e os seus colegas (camaradas de armas) foram e de lá vieram com as ideias mudadas. Recordámos o jantar comemorativo do fim do curso de engenharia eletrotécnica, no Cabo da Roca, em setembro de 1970, quando depois da sobremesa o quarteto da minha mulher cantou o seu canto de intervenção e tu discretamente vieste dizer-me "temos de ir que temos horas de entrada na Academia (Militar)". Recordámos os 6 meses que em 1972 passámos juntos na Arca d´água , no Porto, na instrução dos futuros operadores radiotelegrafistas, eu aspirante miliciano e eles alferes do quadro tirocinantes. O comandante da Escola Prática tinha recebido uma mensagem alertando-o que na leva de milicianos que iam dar instrução e nos instruendos havia infiltrações de perigosos comunistas, mas o tenente Golias, transmontano de gema, comandante da Companhia, pôs água na fervura e até contribuiu para que a festa de fim da instrução tivesse sido feita ao jeito do zip-zip, a série de espetáculos de animação cultural da primavera marcelista, com os velhos capitães de carreira absortos nos corredores a ler os rascunhos das intervenções e do programa da festa que ia fazer-se. Não admira que meses depois, na Guiné, o tenente Golias tivesse começado a preparar com outros heróis o 25 de abril.  

Telefonei para casa, "não saias de casa enquanto as coisas não serenarem", mas claro que não fui ouvido. O quarteto da minha mulher andou aos vivas pelas ruas de Lisboa, quatro semanas depois de terem cantado no Coliseu, abraçados a Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira e Ary dos Santos. Pela janela (abençoada revolução em que não havia perigo de nos chegarmos à janela, tirando o doloroso episódio das mortes em frente da sede da PIDE), à medida que a tarde avançava, comecei a ver o desfile de automóveis passando em frente do quartel, buzinando, com as senhoras com ar doméstico espetando o braço direito para fora, com os dedos em V. E eu pensando, como terão votado estes alegres concidadãos e concidadãs nas eleições de 1969, quando a CDE teve em Lisboa 30.000 votos e a CEUD 8.000?  ou porque não acompanharam a tentativa de renovação económica da ala renovadora do malogrado Pinto Leite no desastre de helicóptero da Guiné?  Mas não valia a pena pensar nisso. Quando no dia seguinte saí depois de almoço para tomar o café no sítio do costume, as pessoas olhavam para nós com alegria e parecia, reconhecimento.

Na tarde do dia 25 tivemos um sobressalto e tivemos de mandar o piquete serenar uma altercação no Intendente, mas sem consequências, e à noite também atendemos umas queixas de quem se dizia perseguido por jovens vingativos que os acusavam de serem agentes da PIDE.

Já não me recordo de quanto tempo ainda tive de ficar no quartel, mas terá sido pouco tempo e assim voltei até à saída da tropa, em agosto de 1974, à minha rotina, que desde fevereiro de 1974 era a de passar as manhãs no quartel e as tardes na divisão de estudos do metropolitano de Lisboa, onde os engenheiros seniores queriam preparar o futuro da rede, então com o apoio de um consultor alemão, cujo excelente plano ainda não está, passados 50 anos, completamente executado, porque ao longo do tempo foram aparecendo uns decisores que se consideravam geniais e, em demasiados casos, mandatados para escolherem as piores opções.


  






terça-feira, 23 de abril de 2024

O aproveitamento do Guadiana


Descrição do aproveitamento do Guadiana em Espanha:

 https://www.eldiario.es/ballenablanca/biodiversidad/exprimir-ultima-gota-rio-viaje-imposible-guadiana-mar_1_10673064.html?utm_source=adelanto&utm_medium=email&utm_content=Socio&utm_campaign=20/04/2024-adelanto&utm_source=elDiario.es&utm_campaign=01be8aceca-ADELANTO_20-04-2024&utm_medium=email&utm_term=0_10e11ebad6-01be8aceca-%5BLIST_EMAIL_ID%5D&goal=0_10e11ebad6-01be8aceca-70565456&mc_cid=01be8aceca&mc_eid=2fbdb73192




Quanto ao Bocachanza, é preciso um bocadinho forçado vir buscar água ao Guadiana em Portugal para levar por transvaze para Huelva, mas enfim, devemos ser ibéricos e europeus e ajudar a Donana. Nesta perspetiva, ir buscar água ao Pomarão para o Algarve é positivo desde que se deixe ao Guadiana chegar a Vila Real com 2 m3/s . Mas como eu sou casmurro, acho que deviamos contrariar os ecologistas e avançar com barragens no Vascão e na Foupana, pelo menos. E claro, com um plano de dessalinizadoras a sério, mas o PRR tem mais com que se entreter.






https://www.publico.pt/2024/04/26/azul/noticia/levar-agua-alqueva-algarve-impacto-ambiental-discussao-publica-2088333

https://www.publico.pt/2023/08/03/azul/noticia/seca-novos-planos-abastecer-regioes-sedentas-algarve-huelva-guadiana-2059061

consulta publica ate 29abr2024 :

domingo, 21 de abril de 2024

Os limites de velocidade

 

https://www.msn.com/pt-pt/noticias/other/limite-de-velocidade-em-autoestradas-segue-tabu-na-alemanha/ar-AA1nnLEZ?ocid=msedgdhp&pc=EDGEESS&cvid=c65af543260349b2a38e7fab6d2554c2&ei=49

Parece haver uma correlação entre os partidos ditos liberais, que defendem uma iniciativa com regulação mínima e autoestradas sem limites ou poucos limites, e os partidos de planeamento abrangente e velocidade regulada. Curiosamente, nas filas ou engarrafamentos vemos automobilistas mudando sucessivamente de via para se posicionarem à frente dos outros que, de acordo com o código da estrada, aguardam que a fila da sua via avance. Não é uma boa metáfora? Assim como assim, não era o que o lobo de La Fontaine dizia ao cordeiro, se eu posso mudar de via porque não o hei-de fazer? (ele dizia doutra maneira mais definitiva, mas por isso é que é metáfora).

Sobre as autoestradas alemãs, suponho que ainda existe a imposição automática de um limite de velocidade em função do atingimento de uma afluência excessiva (porque em situação de excesso de afluência o conjunto de veículos desloca-se em veículos/hora a um valor mais alto a uma velocidade mais baixa do que alta. por um abrandamento dar tempo ao veículo seguinte a abrandar com a mesma desaceleração).