quarta-feira, 31 de julho de 2024

Política ferroviária e traçados - comunicação para a 6ªcomissão (CEOPH) e carta aberta ao ministro das Infraestruturas

 

Caro(a)s deputado(a)s da 6ª Comissão

Transcrevo abaixo a carta aberta que enderecei, como colega, ao senhor ministro das Infraestruturas .  Tentei dar o maior destaque ao tema das exportações por meios terrestres para a Europa além Pireneus (5,55 milhões de toneladas em 2023) que por força da política climática deveria ser transferida para a ferrovia construída com os parâmetros da interoperabilidade (incluindo bitola 1435 mm e ERTMS) e, pelas mesmas razões, à substituição das viagens aéreas Lisboa-Madrid. Julgo ter mostrado que a invocação de desinteresse do governo espanhol nas ligações à Europa não tem fundamento e que o recurso a isenções ao novo regulamento é apenas um adiamento com consequências económicas gravosas no futuro. 

Remeto também, em anexo, o contributo que enviei durante a consulta pública sobre o PFN, criticando o que considero erros técnicos e inconformidades técnicas com o normativo comunitário vinculativo, nomeadamente ao desprezar as vantagens da interoperabilidade plena com a rede única ferroviária europeia, como aliás reconhece explicitamente. Sugiro por isso a aprovação com a ressalva de revisão do PFN com recurso a concurso público internacional para seleção de gabinete da especialidade ou a procedimento semelhante ao adotado para o novo aeroporto, de modo a compatibilizá-lo com os regulamentos europeus.

Dado o volume e o tempo de execução dos investimentos necessários e dos investimentos conexos, como a ordenação das prioridades das linhas de Alta Velocidade, o serviço ferroviário do novo aeroporto e a terceira travessia do Tejo, o debate e as decisões sobre estes temas parecem-me urgentes e de grande interesse público numa tentativa de evitar cometer erros e inconformidades que se anunciam, o que deixo à vossa consideração.

Com os melhores cumprimentos

 

Fernando Santos e Silva

 

 

 

Carta aberta ao senhor ministro das Infraestruturas, Miguel Pinto Luz

 

Caro ministro e colega

Devo antes de mais pedir desculpa pelo tom menos grave desta carta aberta que no  entanto pretende abordar temas de relevância para a saúde económica do nosso país e para o bem estar dos seus habitantes.

É que não é frequente termos um engenheiro eletrotécnico como ministro dos transportes o que me sensibilizou, como seu colega mais antigo, e que por isso espera ser perdoado pelo atrevimento da carta. Até porque como técnico fiquei encantado quando, muito antes da investidura deste governo, dinamizou em Cascais os autocarros de célula de combustível e hidrogénio. É verdade que o rendimento da fonte primária à roda dos autocarros de hidrogénio é inferior ao dos autocarros de bateria, porque a eletrólise é um processo de baixo rendimento, mas mais vale depender de fontes renováveis nossas do que de fabricantes de baterias.

Segui com apreço os seus primeiros movimentos como ministro, evidenciando uma atividade quase juvenil e de aparente encantamento e interesse em conhecer os assuntos à medida que se sucediam as suas intervenções.

Cheguei a preocupar-me quando li nas notícias  que tinha afirmado que os movimentos no aeroporto Humberto Delgado podiam chegar a 45 por hora graças ao novo sistema de gestão do espaço aéreo, mas logo se esclareceu que esse número era para os movimentos na área de Lisboa.

Ou quando disse convictamente que se construía a linha de alta velocidade para Madrid em bitola ibérica sem problema porque chegando a Toledo haveria lá um intercambiador e daí para Madrid seguia-se pela bitola europeia já instalada. Imagino os colegas da IP a industriarem-no nas últimas novidades dos eixos variáveis em Espanha explicando-lhe que de Lisboa a Madrid se poderá fazer o mesmo que de Madrid a Santiago de Compostela, em bitola europeia de Madrid a Ourense , um intercambiador aí e de Ourense a Santiago e Vigo em bitola ibérica.

Imagino também os colegas da IP a repetirem-lhe que a bitola é um não assunto, como dizia o ex ministro Nuno Santos, ou uma ficção, ou outras classificações pejorativas. Como técnicos, centremo-nos antes nos argumentos técnicos, evitando adjetivos.

Interesso-me muito pelo tema do novo aeroporto e já é significativo o volume do que tenho escrito sobre ele, mas não sou especialista do tema e por isso não devo argumentar, limitando-me a coleccionar uma série de argumentos, participando como cidadão no processo de consulta pública. Não digo  o mesmo no tema da ferrovia. Por isso digam-me onde é o novo aeroporto e eu analiso hipóteses para o servir. Não há financiamento comunitário para aeroportos mas o normativo manda que sejam servidos por  redes intermodais (prever terminal rodoferroviário no NAL), que a área metropolitana onde se integre obedeça a um plano de mobilidade urbana sustentável, que a rede de alta velocidade sirva os aeroportos principais e para isso há financiamento comunitário (regulação europeia oblige  - ver      https://fcsseratostenes.blogspot.com/2024/06/aprovacao-do-novo-regulamento-das-redes.html).

Então, se o NAL vai ser no CTFA, tem o caro ministro de decidir, ou de fazer decidir, entre a proposta precipitada da CTI (porque aumenta 50 km ao percurso Porto-Lisboa se usar a TTT Chelas-Barreiro, e 40 km se por Beato-Montijo) e o antigo traçado da RAVE pela margem direita do Tejo. Tenha em consideração que a ligação Porto-Lisboa, assim como Porto-Vigo, integram a rede “core” do novo regulamento, com o objetivo 2030 Lisboa e 2040 Vigo, não é uma linha para a rede suburbana da AML. Não devíamos misturar tráfegos distintos, veja o que acontece ao Alfa do Algarve quando chega ao Fogueteiro, e não será a quadruplicação Areeiro-Braço de Prata e Alverca-Azambuja, aliás credora da construção de um túnel de 5 km Alhandra-Vila Franca de Xira, que assegurará a operação correta da alta velocidade. 

Imagino outra vez os colegas da IP a soprarem-lhe que é caríssimo vir pela margem direita, seria uma solução com um túnel de 20 km e 12 km de viadutos, coisa para mais de 2.000 milhões de euros só de construção civil, quando num viaduto de 30 km pela tranquila margem esquerda do Carregado ao NAL seria à volta de metade (podemos, mas não devemos construir uma linha de alta velocidade numa zona de reserva natural em aterro à superfície, criando uma barreira intransponível, por isso escrevi viaduto).

Perdoará o colega eu sugerir uma atenção especial ao controle de custos de viadutos e de túneis, preocupação que me ficou das obras do metro, apesar de ser um eletrotécnico que não foi além   da cadeira de Resistência de Materiais e Estabilidade (era, nesse tempo os eletrotécnicos tinham de estudar os momentos de inércia), mas era importante, perdoe-se-me a ingenuidade, com tanto que falta construir em Portugal, não ficarmos dependentes apenas das propostas dos concorrentes e otimizarmos os custos de construção com a colaboração da academia e dos técnicos com experiência no tema.

Também  não devemos olhar só para os custos de construção. Se o percurso pela margem esquerda tem mais 40 ou 50 km devemos contabilizar os custos adicionais de operação, multiplicar o número de passageiros-km anuais Porto-Lisboa pelo consumo específico por passageiro-km e pelo acréscimo de tempo para termos os custos adicionais de energia e tempo.

Ainda falta analisar devidamente por onde deve passar a TTT, contar que ela deverá servir o tráfego de mercadorias, dos passageiros dos suburbanos das duas margens (compatibilizado com a quarta travessia por Trafaria-Algés), e claro, o shuttle do NAL e a ligação de alta velocidade Lisboa-Madrid. Falta também avaliar onde deverá ficar a estação de AV de Lisboa (não quererá considerar a hipótese de ficar no AHD, para o caso dele não sair tão cedo, ou não sair completamente?). 

Numa altura em que volta a falar-se na reforma administrativa e na redução das regiões do Continente (não, não as aumentemos com NUTsII de mão estendida, sinecuras e caciques; sim a CCDRs por concurso público aberto a cidadãos da EU) , será que temos capacidade para gerir os instrumentos de gestão territorial, ou para resolver o problema dos grandes investimentos, por onde deve andar a alta velocidade ou a TTT, não será melhor pedir assistência técnica a Bruxelas, como já dizia o ex presidente Juncker?  Ou contentamo-nos com uma nova CTI? É que é urgente.

E estamos caídos na polémica linha de AV Porto-Lisboa. Imagino pressurosos assessores da IP  explicar que não se preocupe muito com o novo regulamento aprovado em 13 de junho pelo Conselho Europeu porque o artigo 17 (texto do regulamento aprovado:    https://data.consilium.europa.eu/doc/document/PE-56-2024-INIT/en/pdf ) diz que se podem pedir isenções temporárias. Confesso que fiquei marcado quando, logo no primeiro ano do curso, na cadeira de Desenho, me apresentaram a Normalização, e mais tarde, durante vários anos, estive numa comissão de normalização ferroviária de aplicações eletrotécnicas. Por isso insisto que normas são para cumprir e isenções só muito, muito excecionalmente.

Deixe-me pôr as coisas neste pé: temos, nós e Espanha conjuntamente, cerca de 2.000 km de vias duplas novas a construir (ou mudar de bitola) para serviço misto de passageiros e mercadorias para se integrarem na rede única ferroviária interoperável, incluindo o objeto dos artigos 17 e 18 do novo regulamento das redes TEN-T, isto é, bitola 1435 mm e ERTMS em 31 de dezembro de 2030 nos corredores da rede “core” (risco de atrasos à conta do CONVEL, apesar do esforço meritório em torno do STM).

Pedir adiamentos será uma boa solução? Poupar agora, continuar com as linhas de pendentes elevadas e consumos adicionais de energia, privilegiando o transporte rodoviário e aéreo, apesar das declarações enfáticas de defesa do planeta , para mais tarde gastar mais, desaparafusando e aparafusando ali, como dizia o novo presidente do Conselho Europeu, ele que só queria ouvir falar de alta velocidade no quadro de financiamento a começar em 2027? Só porque queremos aproveitar os comboios velhinhos de bitola ibérica para poderem circular na nova linha Porto-Lisboa? Quando as regras da concorrência dizem que o operador é que compra os comboios? Quando as celebradas isenções são sempre temporárias?

Vai continuar a acreditar nos defensores a tout prix da bitola ibérica?

É verdade que podem pedir-se isenções, dispensa de fazer as linhas novas em bitola 1435 mm, mas vai ter de falar com os espanhóis, vai ter de mandar fazer uma análise de custos benefícios e uma avaliação do impacto na interoperabilidade com o país vizinho. Tentámos antecipar-nos e fazer essa análise, de acordo com os critérios da EU para apresentação no 10ºcongresso do CRP (centro rodoferroviário português) no LNEC, em julho de 2022. Falhou-nos um prometido apoio de académicos economistas. De modo que tivemos, nós com a limitada literacia económica própria de engenheiros, de fazer uma e apresentámo-la no congresso. Estimámos os custos durante o período das obras e as mais valias ao longo dos anos em operação até ao equilíbrio do investimento. Resultados obtidos para um investimento de 12000 milhões de euros de linhas TEN-T “core” em Portugal, com cofinanciamento comunitário de 40%, crescimento 3% ao ano e transferência até 2030 de 30% da carga rodo para a ferrovia: valor atual líquido VAL (NPV) 486 milhões de euros ; taxa interna de rentabilidade TIR (ERR) 2,23% ; relação benefícios/custos 1,11

(https://1drv.ms/w/s!Al9_rthOlbwewAPiImeJt2AleD8l?e=8een7f)       

 

As mais valias são devidas à substituição pela ferrovia de alta velocidade das viagens aéreas Lisboa-Porto e Lisboa-Madrid e à maior eficiência nas linhas novas com a consequente transferência da carga rodoviária para a ferrovia. Permito-me recordar que em 2023 exportámos por modos terrestres para além dos Pireneus 5,55 milhões de toneladas, à volta de 150.000 camiões por ano ou, se fossem comboios, 4.000 por ano, só para além dos Pireneus, no valor de 26275 milhões de euros, enquanto para Espanha exportámos 10,84 milhões de toneladas mas apenas no valor de 16908 milhões de euros            ( https://fcsseratostenes.blogspot.com/2024/02/os-numeros-de-2023-das-exportacoes-e.html  )   .

Portanto, não  é só no interesse de Espanha e das suas exportações que a curto prazo a bitola 1435 mm chegue de Barcelona a  Valencia no corredor mediterrânico e de Hendaye a Vitoria, no país basco, no corredor atlântico. Deixe-me recordar que em Espanha existem 3083 km de via de bitola 1435 mm, 10829 km de via de bitola ibérica e 322 km de via de 3 carris (simultaneamente 1435 mm e ibérica).

Por isso, não leve a mal que, quando for falar com o seu homólogo espanhol, não faça como o novo presidente do Conselho Europeu na cimeira da Guarda de outubro de 2020 quando disse, perante um Pedro Sanchez embasbacado, quiçá receando a invocação de San Jamás, “Seguramente que Portugal um dia não ficará isolado da rede de alta velocidade”. Acelere o Lisboa-Madrid em alta velocidade como o coordenador do corredor atlântico Carlo Secchi anda a pregar há anos, com todas as caraterísticas da interoperabilidade. Tente recuperar o projeto Poceirão-Caia em má hora recusado e de que ainda não se pagou a indemnização que o tribunal decretou (mas não em via única, por favor). Fale com o coordenador Carlo Secchi e com o comisionado del corredor atlântico do MITMA José Antonio Sebastian. Veja com o ministro Oscar Puente como ele quer com Portugal e França cumprir o objetivo 2030 no corredor atlântico             (https://www.zamora24horas.com/castilla-y-leon/puente-traslada-europa-importancia-portugal-francia-se-impliquen-en-desarrollo-conexiones-transfronterizas_15115234_102.html) e no  corredor mediterrânico   (  https://www.elestrechodigital.com/2024/05/29/el-gobierno-reafirma-su-compromiso-con-los-plazos-del-corredor-mediterraneo/   )      , em passageiros e em mercadorias. Faça como os bálticos com o seu corredor de 870 km diferente da bitola russa pré existente nos três estados e sem partilha entre a  rede de bitola 1435 mm e a rede de bitola russa 1520 mm          (   https://www.railbaltica.org/      ) .          Pergunte aos nossos operadores, Medway e Captrain, se não seria melhor para eles se lhes pusesse à disposição corredores de bitola 1435 mm até à fronteira francesa. Não vá com pretextos de poupar a curto prazo invocando isenções quando o regulamento é claro, linhas novas em corredores internacionais, é com bitola 1435 mm e ERTMS; e isenções, só temporárias e desde que não tenham impacto na interoperabilidade (diz o regulamento, e eu acrescentaria que neste caso  interoperabilidade são as exportações para além dos Pireneus e cumprimento integral do normativo facilita a obtenção de financiamento comunitário).  Lance as autopistas ferroviárias    ( https://www.youtube.com/watch?v=1-MQczdqb4c     ;         https://cdn.mitma.gob.es/portal-web-drupal/mercancias30/doc_final/2022_05_documento_final_mercancias_30_44_autopistasferro.pdf   )       e um plano faseado de progressiva aproximação da bitola 1435 mm dos portos portugueses …

Tanto para fazer e tanto tempo que estamos a perder …

Não leve a mal este desabafo dum seu colega mais velho, algo desiludido com o estado dos transportes depois duma vida profissional dedicada à mobilidade ferroviária.

 

Ao dispor, com os melhores cumprimentos e votos de sucesso para o bem público

segunda-feira, 29 de julho de 2024

Mais um acidente, na A2 km 175,9 , com consequências graves por falta de rail de segurança

Na A2 no sentido N-S ocorreu em 28 de julho de 2024 ao km 175,9  , mais um acidente com consequências graves por falta de rail de segurança.

Recordo os acidentes que vitimaram em dezembro de 2022 a cantora Claudisabel na A2 ao km 85 e uma senhora em janeiro de 2024 na A1 ao km 167. No primeiro caso a colisão por trás do pequeno automóvel, equipado com bancos altos, terá sido insuficiente para provocar a morte da condutora.

Em todos os casos o despiste poderia ter sido evitado se estivesse instalado rail de segurança (o qual deverá ter proteção contra despiste de motociclistas). Na ausência do rail o automóvel bate no talude cuja inclinação é demasiada para poder orientá-lo, como deveria, paralelamente à autoestrada e agrava o acidente por imobilização brusca. Esta é outra inconformidade para além da falta do rail.

São inadmissíveis estas duas inconformidades e a ANSR deveria promover e divulgar os resultados de inquéritos rigorosos e independentes a estes acidentes. Talvez isso contribuísse para reduzir o índice de sinistralidade de Portugal segundo os padrões da UE.


REFERÊNCIAS:

acidente na A2 ao km 175,9
https://cnnportugal.iol.pt/a2/acidente/acidente-corta-a2-nos-dois-entidos/20240728/66a68114d34ea1acf26cbf1b


domingo, 14 de julho de 2024

12 anos passados depois das Pussy Riot na catedral

 Passaram 12 anos depois deste concerto das Pussy Riot numa catedral:
https://fcsseratostenes.blogspot.com/2012/08/free-pussy-riot.html


E continua a desgraça na Russia, Svetlana Petriychuck e Evguenia Berkovich condenadas a 6 anos de prisão  porque a sua peça Finist, o bravo falcão foi considerada pelo tribunal apologia do terrorismo islâmico.  https://www.publico.pt/2024/07/09/culturaipsilon/noticia/encenadora-dramaturga-russas-condenadas-apologia-terrorismo-2097008

Recordo Jorge de Sena,

"A cor da Liberdade

Não hei-de morrer sem saber
qual a cor da liberdade.

Eu não posso senão ser
desta terra em que nasci.
Embora ao mundo pertença
e sempre a verdade vença,
qual será ser livre aqui,
não hei-de morrer sem saber.

Trocaram tudo em maldade,
é quase um crime viver.
Mas, embora escondam tudo
e me queiram cego e mudo,
não hei-de morrer sem saber

qual a cor da liberdade."


E aconteceu, soube. 

terça-feira, 2 de julho de 2024

Sobre passagens de nível

Informação no artigo de Carlos Cipriano no Publico sobre passagens de nível - existem 799 passagens de nível em Portugal. Em 2019 houve 12 vítimas mortais e em 2023 houve 8 :  https://www.publico.pt/2024/07/01/sociedade/noticia/comportamentos-indevidos-passagens-nivel-poderao-filmados-condutores-autuados-2094593 

Por triste coincidência, em 5 de junho de 2024 numa colisão entre o comboio Praga-Budapeste e um autocarro, na Eslováquia, houve 7 vítimas mortais:
https://www.theguardian.com/world/article/2024/jun/27/collision-between-train-and-bus-in-slovakia-causes-multiple-deaths

Trata-se portanto de um problema generalizado que a Comissão Europeia e a UIC já abordaram mas cuja solução exige, para além de planeamento e estudo, intenso financiamento, só justificável por uma operação do serviço ferroviário mais eficiente e de menores emissões do que o rodoviário. Ambos insistem em campanhas de sensibilização dos potenciais transgressores e na automatização das 
barreiras:
https://www.era.europa.eu/system/files/2023-03/Safety%20Overview%202023.pdf
https://fcsseratostenes.blogspot.com/2023/06/acidentes-ferroviarios-em-passagens-de.html

Pessoalmente, sem pôr em causa o meritório trabalho dos colegas que na antiga REFER, na CP, na IP, na EFCEC foram instalando barreiras automáticas em todo o país, considero que a solução correta (mais eficiente do que o guarnecimento humano ou instalação video para posterior multa) são passagens desniveladas para peões e para veículos, porque a temporização entre o início do fecho das barreiras (portanto o último instante em que possa ter sido iniciada uma travessia) e a chegada do comboio pode ser inferior ao tempo necessário para a travessia ser executada por um camião com atrelado, circunstancia que se verificou no acidente da passagem de Peso/Vale de Santarém com a agravante de curva apertada no acesso à travessia, julgando não haver alternativa após demolição da passagem de nível: https://fcsseratostenes.blogspot.com/2020/04/o-acidente-do-alfa-em-vale-de-santarem.html) .

Igualmente a temporização pode ser inferior ao tempo entre a ocorrência de uma imobilização por avaria e a fuga dos ocupantes; ou a distancia de visibilidade a partir da passagem de nível no caso de inexistência de barreiras, ou do seu desrespeito, ser inferior à distancia de travagem do comboio. 

De acordo com o relatório da ERA, 2% dos acidentes não são devidos a comportamento indevido dos utilizadores mas a avarias ou deficiência dos veículos que atravessam. Serão esses 2% que justificarão a insistência na construção das passagens desniveladas.

Comentário ao relatório com sugestões de campanhas publicitárias  anti suicídio e contra comportamentos descuidados :

https://fcsseratostenes.blogspot.com/2023/11/elevada-taxa-de-mortalidade-na-ferrovia.html

Será interessante também saber o ponto da situação sobre a ameaça de processo de infração da Comissão Europeia sobre a falhas de segurança na rede portuguesa:
https://fcsseratostenes.blogspot.com/2020/05/processo-de-infracao-de-bruxelas.html


Outros comentários sobre o tema da segurança:

https://fcsseratostenes.blogspot.com/2023/04/os-gestores-e-os-operadores.html
https://fcsseratostenes.blogspot.com/2017/01/morte-de-duas-adolescentes-em-vila-nova.html
https://fcsseratostenes.blogspot.com/2019/06/a-tragedia-na-passagem-de-nivel-d.html
https://fcsseratostenes.blogspot.com/2023/02/acidentes-na-passagem-de-nivel-de.html
https://fcsseratostenes.blogspot.com/2022/09/bruxelas-quer-uniformizar-ferrovia.html




PS em 5jul2024 - não tendo sido um acidente em passagens de nível, destaco a colisão em 5jun2024 entre o comboio do operador privado RegioJet de carruagens-cama no trajeto Praga-Kosice  e um comboio de  mercadorias da CD Cargo no trajeto Bratislava-Bremerhaven na estação de Pardubice, na Chequia. O comboio de passageiros ultrapassou um sinal proibitivo e colidiu de frente com o de mercadorias. Morreram 4 pessoas.

https://en.wikipedia.org/wiki/Pardubice_
https://www.railvolution.net/news/tragic-accident-in-pardubice

A importancia de analisar esta colisão reside no facto da estação de Pardubice ser uma zona complexa com grande quantidade de agulhas e itinerários e que se encontra ainda em obras . O acidente ocorreu numa linha diferente da linha preferencial para os percursos de longa distancia de passageiros no contexto das obras. Prevê-se a entrada em serviço do sistema ERTMS em toda a zona em janeiro de 2025. O anterior sistema ATP encontra-se neste momento em progressiva desmontagem, o que terá contribuido para o acidente uma vez que não havia dispositivo de travagem automática por ultrapassagem do sinal vermelho.


PS em 14jul2024 -  Mais uma colisão entre automóvel e comboio, desta vez em 12jul2024 na passagem de nível de Poço Barreto sem barreiras (encontra-se a 1km a este da passagem com barreiras de Poço Barreto e a 1,6km a oeste da passagem de nível com barreiras de Caravela. Mais uma vez afirmo que são tráfegos incompatíveis apesar dos automatismos e temporizações porque há sempre a possibilidade de avaria do veículo rodoviário em cima dos carris . A única hipótese seria um detetor de presença de imobilização na passagem e emissão durante essa imobilização de uma ordem de colocação em proibitivo de sinal para o comboio correspondente à sua distancia de travagem antes da passagem. Mas isso seria incomportável para a operação ferroviária, pelo que só o cruzamento desnivelado resolve.

https://regiao-sul.pt/algarve-na-tv/silves-acidente-de-carro-com-comboio-resulta-em-seis-feridos-tres-sao-graves-cnn-portugal/675428















sábado, 22 de junho de 2024

Sobre o protesto da Medway contra a política ferroviária oficial

 

Protesto da MEDWAY em junho de 2024

https://www.tsf.pt/1928279485/medway-avisa-governo-empresa-pondera-sair-de-portugal-e-mudar-se-para-espanha/   

 

 

 

Pessoalmente, eu gostaria de ver no meu país um incumbente operador ferroviário de mercadorias. Por razões, para mim de incompreensão da dimensão do tema e de incompetência ao nível dos governos, não temos esse incumbente. Mas reconheço, sem preconceitos, que os operadores Medway e Captrain desempenham as suas funções de modo eficiente e são, como diz o diretor da Associação Portuguesa de Empresas Ferroviárias, indispensáveis para a economia do país.

Então, pondo de lado questiúnculas partidárias de um governo de um partido ser melhor ou pior do que o governo de outro partido, parece-me que seria interessante os técnicos da especialidade apoiarem os protestos da Medway e não apenas no cumprimento das medidas acordadas e não executadas. Numa altura em que finalmente é revelada a incapacidade da IP de desenvolver efetivamente a ferrovia em Portugal, sugiro o apoio à Medway nos seguintes temas:

1 – rápida satisfação das medidas referidas no protesto

2 - desenvolvimento de um plano faseado de aplicação do novo regulamento das redes TEN-T a Portugal, procurando cumprir os prazos e evitando as isenções, respeitando todos os parâmetros da interoperabilidade, incluindo a bitola 1435 mm e o ERTMS, tendo em vista a transferência de cargas rodoviárias para a ferrovia e o crescimento das exportações por modo ferroviário para a Europa além Pireneus

3 – rápida revisão da problemática da linha da Beira Alta dentro do objetivo do ponto 2, planeando a construção do corredor Aveiro-Almeida em linha nova dupla para tráfego misto com as caraterísticas de interoperabilidade plena, incluindo pendentes máximas de 1,2%

3 – a curto prazo, desenvolver o sistema de autoestradas ferroviárias (transporte por comboio, em vagões plataformas articuladas de 3 bogies e gabari P400, de camiões, semirreboques, caixas móveis) , numa primeira fase em bitola ibérica servindo as plataformas de Vitoria e de Valencia servidas por bitola europeia espera-se que em 2025

4 – simplificação do processo de certificação da plataforma de Lousado (descontaminação de solos)

5 – aceleração, para permitir a entrada das locomotivas Euro 6000 em Portugal, em cooperação com a ERA (Europeam Rail Agency), Hitachi Rail,  Siemens, Critical Software, Stadler, do processo de conclusão e certificação do STM (Specific Transmission Module para compatibilização ERTMS-CONVEL), mas com o respeito integral dos prazos determinados pelo novo regulamento (2030 para o ERTMS nos corredores principais e 2040 para o abate dos sistemas proprietários tipo CONVEL)   

 

 

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Notas

1 - registo de declarações do presidente da Medway, Carlos Vasconcelos, reconhecendo (i) que a existência de linhas em bitola europeia na península seria o ideal https://14-congresso.adfersit.pt/videos/      ver momento 1:22 ;  (ii) que 2 comboios por dia em Irun de bitola ibérica seria incomportável https://www.youtube.com/watch?v=VBhs7u2Q5XI&list=PLjW3hUKuSY4WgI4-cfKow8Y2ukE4W9O4O&index=4&t=1022s      ver momento 1.03.48 ; (iii)

https://www.railwaygazette.com/in-depth/freight-medway-takes-on-the-trucks/59909.article

ver o final da entrevista


2 - artigo no Portugal ferroviário sobre a IP








Aprovação do novo regulamento das redes transeuropeias TEN-T que substitui o 1315

 

O Conselho da União Europeia aprovou o novo regulamento

das redes TEN_T

 

 

 

Uma notícia do Conselho da União Europeia em 13 de junho de 2024 – as redes transeuropeias

Discretamente, através dum press release do Conselho da União Europeia  de 13 de junho de 2024[1] , foi noticiada a aprovação do novo regulamento das redes transeuropeias de transporte TEN-T, que substitui o 2013/1315, com as linhas de orientação para o desenvolvimento dessas redes.

O objetivo das redes transeuropeias, também na vertente ferroviária, está consagrado no art.170 do TFUE, Tratado de funcionamento da União Europeia (curiosamente conhecido como Tratado de Lisboa), exprimindo o seu compromisso desta forma: “… a ação da União terá por objetivo fomentar a interconexão e a interoperabilidade das redes nacionais, bem como o acesso a essas redes. Terá em conta, em especial, a necessidade de ligar as regiões insulares, sem litoral e periféricas às regiões centrais da União.”

Do exposto pareceria que qualquer Estado membro, especialmente se longe do centro económico da Europa, teria todo o interesse em aderir convictamente às linhas de orientação da regulamentação comunitária em tudo o que facilitasse as ligações à Europa. Por exemplo, reduzindo as emissões de gases com efeito de estufa substituindo a maior parte das ligações aéreas Lisboa-Madrid[2] por ligações ferroviárias de Alta Velocidade e substituindo a maior parte do tráfego rodoviário de mercadorias para além dos Pireneus por tráfego ferroviário.

A importância das exportações

Dizem-nos que o principal destino das nossas exportações é Espanha e como a sua rede ferroviária de mercadorias é maioritariamente de bitola ibérica não vale a pena pensar em linhas novas para a Europa de bitola europeia. E contudo, segundo o INE não será bem assim.

Em 2023 as exportações por modos terrestres para Espanha foram 10,84 Mton no valor de 16908 M€ e para o resto da EU  5,55 Mton no valor de 26275 M€. A quota modal ferroviária para a Europa além Pireneus é irrelevante devido à diferença de bitolas, cingindo-se à contabilização dos percursos intermodais e parciais em ferrovia na península. Admitindo comboios de 1400 toneladas teríamos para a transferência de todo esse tráfego para comboios cerca de 4000 por ano ou mais de 10 comboios por dia substituindo cerca de 500 camiões por dia. 

De janeiro a abril de 2024 as exportações em valor para Espanha por todos os modos  foram, para Espanha 6686 M€, para a EU 18797 M€, e para o mundo 26539 M€ (fonte INE). Basta somar o valor das exportações para França, Paises Baixos e Alemanha para ter um valor superior ao para Espanha. A quota modal marítima para a EU tem sido inferior a 15%.

Não parece assim haver suporte para manter a bitola ibérica se quisermos transferir tráfego rodoviário para a ferrovia.

As autoestradas ferroviárias

Há porém uma solução enquanto não dispusermos da ligação a França em bitola europeia, que são as autoestradas ferroviárias ou transporte de camiões, semirreboques ou caixas móveis por comboio, em vagões plataforma articulados e com 3 bogies. O facto da chamada e atrasada modernização da linha da Beira Alta não ter previsto o alargamento ou variantes dos túneis é apenas mais um sintoma da preferência por soluções baratas que adiam os investimentos necessários e eficientes como o corredor Aveiro-Salamanca com as caraterísticas de interoperabilidade das redes TEN-T.

O corredor atlântico no mapa das redes transeuropeias TEN-T

O mapa seguinte faz parte do Anexo III.14  do regulamento. A amarelo o corredor atlântico, com os acrescentos, relativamente ao anterior regulamento 1315, dos portos do sudoeste de Espanha, Galiza e Astúrias. A calendarização reparte-se pelos troços da rede “core” (2030), “extended core” (2040) e “comprehensive” (2050).




Uma  política de coesão deverá reduzir a desigualdade dos níveis do PIB por região o que exigirá investimentos e aumento de ativos de infraestruturas nessas regiões. As análises de custos benefícios referidas no regulamento terão em consideração o que se perde por não investir, as taxas expetáveis de crescimento do PIB e das exportações devido ao investimento em linhas férreas de ligação ao centro da Europa (Mannheim, Strassbourg), a economia devida às caraterísticas das linhas novas, a redução de gases com efeito de estufa devido à transferência dos modos aéreo e rodoviário[3].



O que especifica relativamente à bitola e ao ERTMS o novo regulamento aprovado  pelo Conselho da União Europeia em 13 de junho de 2024

No seu art.17, determina que “Member States shall ensure that any new railway line of the core network and the extended core network … provides for the European standard nominal track gauge of 1 435 mm   e no art.18:  Member States shall ensure that by 31 December 2030  ERTMS is equipped on the railway infrastructure of the core network.

Ora, não há em Portugal neste momento (contrariamente aos países bálticos que estão construindo o Rail Baltica em bitola europeia e não na bitola russa pré existente) planeamento para a construção de linhas de bitola europeia nem para a instalação de ERTMS (controle da circulação dos comboios). É verdade que o próprio regulamento prevê a possibilidade de isenções do cumprimento desta obrigação mas sempre sujeita a análises de custos benefícios e de avaliação do impacto na interoperabilidade e sempre de natureza temporária. Isto é, o recurso a essas isenções apenas funciona como adiamento de decisões que deverão ser urgentemente tomadas.

A argumentação contra a bitola europeia

Não parece correta a noticia do ECO que diz que em Espanha não há ligação entre a rede UIC e a rede convencional quando existem 272 km de via com 3 carris prevendo-se aumento no corredor mediterrâneo. https://24.sapo.pt/atualidade/artigos/alianca-iberica-pela-ferrovia-pede-servico-direto-lisboa-madrid-em-2025 

O presidente do principal operador ferroviário de mercadorias em Portugal, a Medway, apesar de não considerar oportuna a construção de novas linhas em bitola UIC, reconhece que isso seria muito mais fácil[4]

Sibilinamente, dizem-nos a IP e os sucessivos governos que o uso exclusivo da bitola ibérica é imposto por Espanha, cuja rede interna de mercadorias é maioritariamente em bitola ibérica. Sibilinamente porque o comissário espanhol para o corredor atlântico tem, apesar de limitado, um orçamento para investir no seu corredor, esperando-se a curto prazo a ligação em via de 3 carris entre a fronteira francesa e a plataforma logística de Vitoria. Também no corredor mediterrânico se espera a curto prazo a ligação em bitola UIC entre Barcelona e Valencia. Sibilinamente porque apesar das limitações da rede de mercadorias espanhola reconhecida pelo próprio ministério com uma quota modal de 9% [5], a natureza vinculativa da regulamentação comunitária impõe a um Estado membro a obrigatoriedade  de coordenar com o Estado vizinho as ligações transfronteiriças e nunca a possibilidade de constituir um obstáculo às exportações desse Estado vizinho.

Considerando a demora na construção das novas linhas para mercadorias em Portugal e Espanha com as caraterísticas de interoperabilidade com  o resto da Europa, os respetivos governos deveriam coordenar um plano com o faseamento de aproximação da bitola UIC dos portos atlânticos. Julga-se que isso só poderá ser feito com uma estrutura de gestão de infraestruturas corretamente dimensionada em termos de recursos humanos para gestão do desenvolvimento de uma nova rede, separada da gestão corrente da rede existente, sem prejuízo do recurso a concursos públicos internacionais para seleção de consultor com experiência internacional em projeto, manutenção e operação de redes de alta velocidade/mercadorias.





 

A posição dos sucessivos governos e da IP

Infelizmente, os sucessivos governos portugueses têm recusado seguir as linhas de orientação comunitárias que desde 2013 formalizaram uma série de especificações para garantir a interoperabilidade entre todas as redes nacionais, numa única rede europeia[6]. O atual governo aparentemente não sente que incorre no risco de um processo de infração por, por exemplo, dar prioridade à ligação Porto-Vigo (fixada pelo novo regulamento para 2040) em detrimento da ligação a Madrid (fixada para 2030), ou por insistir na exclusividade da bitola ibérica de 1668 mm, quando o especificado é a bitola europeia ou UIC de 1435 mm. Esta opção tem também o risco de inviabilizar o aproveitamento das taxas máximas de cofinanciamento, nomeadamente dos programas CEF , Connecting Europe Facility[7] .

Lamentavelmente, são-nos apresentadas soluções definitivas e indiscutíveis para o  Plano Ferroviário Nacional, o Plano de Investimentos 2030 e os planos para as linhas de Alta Velocidade, a terceira travessia do Tejo (TTT) e o serviço ferroviário do novo aeroporto. Não apenas por recusarem críticas, mas por ignorarem: (i) os princípios legais da gestão territorial numa altura em que a economia do país beneficiaria com o desenvolvimento da regionalização administrativa livre da partidarização e do caciquismo e baseada num número pequeno de NUTs II (ii) as orientações e as especificações da regulamentação comunitária (iii) a ponderação do recurso a concurso público internacional para seleção de um gabinete de engenharia de transportes para elaboração de um plano integrado.

A IP e o governo insistirão que já há muito funciona a tecnologia de eixos variáveis para passageiros e já está homologada para mercadorias e que portanto podemos conservar a bitola ibérica. Esquecem que são raros os fabricantes e os operadores que dispõem dessa tecnologia, o que contraria o princípio da concorrência. Esquecem que é uma tecnologia para a transição duma rede ibérica para uma rede europeia e que não é razoável enviar vagões de eixos variáveis para longe das oficinas de manutenção. Paradoxalmente, recusam-se a aceitar a solução de eixos variáveis para viabilizar  a construção por fases da ligação Porto-Lisboa em bitola europeia de raiz (instalando intercambiadores nos pontos de transição entre os troços novos em europeia e os troços existentes em ibérica, como na ligação de AV Madrid-Galiza com um intercambiador em Ourense).

 

CONCLUSÃO

Para sairmos da situação de impasse na ferrovia de passageiros e na de mercadorias, reduzir as emissões nas ligações Lisboa-Porto e Lisboa-Madrid e aumentar a quota modal da ferrovia interna e de exportações, é essencial espanhóis e portugueses desenvolverem, em sintonia com o regulamento TEN-T substituto do 1315, e de forma coordenada, um plano de progressiva aproximação da bitola 1435mm dos portos atlânticos segundo os traçados do corredor atlântico de utilização mista, revendo simultaneamente o PFN para assumir o que está inscrito no próprio PFN, "A criação de ligações ferroviárias em bitola padrão (1435 mm) teria inegáveis vantagens no transporte de mercadorias internacional de longa distância, contribuindo para melhorar a competitividade das exportações portuguesas", revendo numa perspetiva de gestão integrada do território e da mobilidade os grandes investimentos na ferrovia.



[1] https://www.consilium.europa.eu/en/press/press-releases/2024/06/13/trans-european-transport-network-ten-t-council-gives-final-green-light-to-new-regulation-ensuring-better-and-sustainable-connectivity-in-europe/     O Conselho da União Europeia é composto pelos ministros dos Estados membros conforme a natureza dos temas, de presidência rotativa de 6 meses; é um órgão legislativo juntamente com o Parlamento Europeu vetando, corrigindo ou aprovando as iniciativas da Comissão Europeia (não confundir com o Conselho Europeu composto pelos primeiros ministros dos Estados membros e que define com a Comissão Europeia a orientação geral da política da UE)

[2] Admitindo um consumo específico de energia primária de 260 Wh/pass-km no avião, 70 Wh/pass-km no comboio AV, taxa de ocupação de 90% e 2500 passageiros/dia na ligação Lisboa-Madrid, teremos um consumo diário de 0,36 GWh e 110 tonCO2 se tráfego exclusivo por avião e 0,11 GWh e 30 tonCO2 se por comboio AV  

[3] Embora com limitações, ensaiou-se uma análise de custos benefícios favorável ao investimento no corredor atlântico na comunicação ao 10º congresso do Centro rodoferroviário Português de julho de 2022 consultável em              https://1drv.ms/w/s!Al9_rthOlbwewAPiImeJt2AleD8l?e=8een7f         

[5] Volumes de tráfego em Mton, comparativo Espanha-Portugal (2021):

                                                             rodovia      ferrovia

fonte OTLE: Espanha nacional           1541            20

             Espanha internacional             119              4,7

fonte   INE:  Portugal  nacional            120,5           6,6

             Portugal  internacional              22,9           2,7

 

[6] Alimentação 25 kVAC, 250 km/h passageiros, 100 km/h mercadorias, pendentes máximas 1,2% e tráfego misto passageiros/mercadorias, comprimento comboios 740 m, controle ERTMS, bitola europeia

[7] Regulamento 2021/1153. A preocupação com as condições de  acesso a níveis elevados de cofinanciamento levou um grupo de cidadãos a dirigir uma carta aberta à presidente do BEI a propósito do financiamento de 3000 milhões de euros para a linha de AV Porto-Soure, consultável em   https://1drv.ms/w/s!Al9_rthOlbwe0ROQecRWWYfLt0LJ?e=70VWc0   


sábado, 15 de junho de 2024

Aeroporto, junho de 2024, pela EasyJet

 Chamou-me a atenção uma entrevista do diretor da Easyjet em Portugal sobre o problema do novo aeroporto. https://www.dinheirovivo.pt/8078832790/jose-lopes-dizer-que-a-ana-paga-o-novo-aeroporto-significa-que-serao-as-companhias-e-depois-os-consumidores-a-pagar/

Não sendo especialista  de aviação, apreciei a argumentação apresentada, para mais vinda de alguém com experiência, que me pareceu mais civilizado e cooperante do que o presidente da Ryannair. Destaco a observação muito simples, que um bom meio para aumentar a capacidade aeroportuária de Lisboa é aumentar a capacidade unitária dos aviões. Não gostarão os adeptos do "ponto a ponto" exclusivista por dificultar o preenchimento do avião e exigir comprimentos maiores das pistas. Por isso é uma medida que torna indispensável o prolongamento do taxiway norte/nascente até ao fim da pista 2 (os pontos 13, 14 e 17  das obrigações específicas de desenvolvimento do anexo 9 do contrato com a ANA para saídas rápidas da pista 2 , entradas múltiplas na pista 20 e expropriações para o prolongamento do taxiway que deveriam estar executados até 2021) para evitar o cruzamento da pista.  

É também curiosa a referência à construção do novo aeroporto paga pela ANA e subsequentemente pelo aumento das taxas. Esta posição parece ser partilhada pela CTI ( e pelo XXIV governo, prometendo que os contribuintes não pagariam o novo aeroporto) , sugerindo-se renegociação do contrato. No entanto, este determina que o concessionário apresente um plano de financiamento, não que assegure o pagamento:

Transcrição do art.17 sobre as obrigações da concessionária:



          Transcrição do art 45.3 sobre o relatório inicial:

Transcrição do art.46 sobre o relatório da candidatura:  

A Concessionária deve preparar e apresentar (a expensas suas) ao Concedente, a Candidatura ao NAL, no prazo de trinta e seis (36) meses  … compreendendo relatórios:

(a)             com os comentários dos cinco (5) maiores operadores aéreos  … sobre: (i) o local que preferem para o NAL, (ii) as principais especificações para o NAL e (iii) os níveis das Taxas Aeroportuárias ...

(b)             com a justificação do local proposto e uma síntese do impacte ambiental negativo  …

(c)             com uma proposta de planeamento, da calendarização da construção, da estrutura de subcontratação e um orçamento para a construção do NAL …

(d)             com uma solução de financiamento proposta para o NAL e a confirmação da disponibilidade das instituições financiadoras para financiar a construção do NAL …



Eu concluiria que a concessionária ANA tem a obrigação contratual de desenvolver em  3,5 anos (relatórios inicial e da candidatura) um anteprojeto de um novo aeroporto com capacidade da ordem de 90 movimentos por hora (60 a 70 milhões de passageiros por ano) e angariar um plano de financiamento. Aparentemente nada obriga a ANA a pagar o NAL nem a recorrer ao aumento das taxas embora isso seja referido no art.45.3 integrando  o financiamento.


Os extratos acima do contrato são suficientes para dar razão ao presidente do CA da ANA quando atribui aos sucessivos governos a culpa dos atrasos e inconvenientes devidos à indefinição da localização do NAL. Esses governos não tinham de aceitar a solução Portela+Montijo pela simples razão de que a sua capacidade máxima, 48 + 24 movimentos por hora é inferior em eficiência, embora menos onerosa, do que a especificada no anexo 16 do contrato. Mas a culpa é claramente partilhada pela ANA porque também de forma simples se eximiu ao cumprimento do art.17 que a obrigava `execução de especificações de desenvolvimento no anexo 9 (com a agravante de serem definidas datas de execução dessas obrigações, nomeadamente início em 2018) pelo que não terá direito a nenhuma indemnização pela desistência do Montijo.

Também se estranham as declarações do presidente da ANA, Thierry Ligonnière quando afirmou aos deputados da CEOPH que a Vinci já tinha executado o taxiway requerido para o aumento da capacidade da pista. Terá sido um mal entendido. Há anos que a falta do prolongamento do taxiway U até à extremidade norte da pista 2 (ex 3) pelo lado nascente é um dos principais obstáculos ao aumento da capacidade - os aviões maiores, wide body, terminam a sua aterragem a norte do cruzamento com a antiga pista 17/35 e só podem seguir para o estacionamento pelo taxiway do lado poente para depois atravessar a pista, atrasando as outras aterragens. Esse prolongamento é o conjunto das obrigações específicas 13 (saídas rápidas da pista 3) e 14 (entradas múltiplas na pista 21). O senhor presidente terá confundido com o que foi executado, as entradas e saídas dos troços do taxiway U5 e U6  que ficam longe da extremidade norte da pista 2. Fica por executar a obrigação 17, expropriações dos armazens necessárias para o prolongamento (seria muito estranho ter-se executado o taxiway antes das expropriações).

Recordo ainda a obrigação 16, o aproveitamento da placa de estacionamento de Figo Maduro, também com a culpa pelos atrasos partilhada.

Sobre eventuais reclamações de compensação pelos prejuízos do COVID, tratar-se-á de um tema típico para os juristas, mas parece que o art.25.1.b) determina claramente que as compensações do reequilíbrio financeiro não são aplicáveis em caso de força maior (por definição de Alteração de circunstancias) 

Em resumo, apesar de existir uma comissão de negociação com a ANA para desenvolvimento das obras no AHD para aumento da sua capacidade, os cidadãos não estão suficientemente informados sobre a sua extensão e calendarização. O que, por se tratar de assunto público, é por força do art.48,  uma inconstitucionalidade, receando-se que estejam a  gerar-se atrasos substanciais e que as obras em curso ou em perspetiva possam não ser as prioritárias.