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quinta-feira, 18 de julho de 2013

O descarrilamento de Bretigny

Este acidente é mais um que me deixa a mim e a todos os amigos dos comboios extremamente tristes e chocados.


Resta a consolação de que pouco tempo depois do acidente já existe informação suficiente para formar uma ideia das causas e circunstancias, contrariamente ao que se passa entre nós.

Mantem-se o secretismo sobre os acidentes da linha do Estoril (peça dependurada num comboio que danificou as agulhas e desviou os bogies para a outra via?) e de Alfarelos (deficiencias nos freios? projeto demasiado otimista e simples do Convel? possibilidade de informações erradas de velocidad ao Convel? velocidade regulamentar exagerada?).

Quanto a Bretigny, recolhi algumas informações e parece-me que a zona deveria ter há muito uma limitação de velocidade (aliás, numa das fotografias vê-se que a via dos intercidades para Paris tem uma limitação a 90 km/h porque em maio ocorreu uma avaria na TJD do lado norte por motivo de inconsistencia do balastro; o acidente aconteceu agora na TJD do lado norte na outra via, Paris-Limoges).

1 - Segundo a SNCF a velocidade autorizada era de 150 km/h; pelas razões expostas, de avaria grave na TJD da outra via com origem no balastro, e por se estar em presença de agulhas de ponta e em época de cortes na manutenção, discordo formalmente; deveria haver uma limitação de velocidade

2 - conforme se pode ver no esquema anexo, a zona é complexa, com numero elevado de TJDs, agulhas de ponta  e de movimentos possiveis, sofrendo de utilização multipla (intercidades, RER para 3 destinos diferentes e mercadorias)



3 - para alem da avaria grave da TJD em maio de 2013, eram recorrentes as queixas dos passageiros das vibrações e incomodidades à passagem nas agulhas de Bretigny, conforme os links:
http://portail.circule.org/2013/06/09/problemes-daiguillage-a-bretigny-les-explications/

e
blogue do RER C:
http://malignec.transilien.com/2013/06/05/mieux-comprendre-lincident-de-bretigny-sur-orge-et-ses-consequences/

4 - a SNCF já tinha notado que a fiabilidade das agulhas era má e tem um plano para modernização da operação (aumentar a capacidade) e das infraestruturas, conforme os links:
http://portail.circule.org/2013/04/30/travaux-de-modernisation-du-noeud-ferroviaire-de-bretigny/

http://www.modernisation-rer-bretigny.fr/content/noeud-ferroviaire-de-bretigny-sur-orge-animation-de-la-situation-actuelle-0

http://www.modernisation-rer-bretigny.fr/sites/www.modernisation-rer-bretigny.fr/files/la_carte_des_amenagements.jpg

http://www.modernisation-rer-bretigny.fr/mediatheque?field_theme_tid=All&page=2

5 - A SNCF teve a honestidade de mostrar as fotografias da eclisse encravada na crossima da TJD, conforme as fotografias que anexo.




Ver o link:
http://bourgogne.france3.fr/2013/07/15/en-bourgogne-aussi-la-sncf-verifie-ses-appareils-de-voie-288249.html

Junto tambem um esquema que desenhei com a identificação dos troços de carril nas fotografias da SNCF



6 - Parece portanto que se pode dizer que é quase certo que a causa próxima do acidente foi a dessolidarização da eclisse à passagem da locomotiva e das primeiras carruagens e o seu encravamento na cróssima da TJD, de modo a servir de "trampolim" para os rodados das carruagens seguintes, impulsionado-o para cima e para a esquerda (por só atuar na roda direita). A quarta carrugem (a ultima do grupo de 4 que se separou com a locomotiva das 3 que ficaram nos cais) parece ter sido a primeira a sofrer o impacto descarrilando para a esquerda e tombando para a direita por apanhar a rampa do inicio do cais; o bogie de trás da quinta, com elevada probabilidade, estando já descarrilado, terá sido desviado pela lança curva da agulha de ponta mesmo à entrada dos cais, atravessando a carruagem que subiu atravessada a rampa de inicio do cais

7 - é possivel que os dias de calor anteriores tivessem criado tensões internas na eclisse e nos componentes da TJD, ou afetado as anilhas de freio; porem, pelas fotografias vê-se que pelo menos um dos pernos foi sujeito ao corte (não foi a porca que se soltou, foi a cabeça do perno que foi cortada) O QUE INDICIA VARIAÇÕES NO SENTIDO VERTICAL À PASSAGEM DOS COMBOIOS POR MOTIVO DE DESAGREGAÇÃO DO BALASTRO (COM O TEMPO, O BALASTRO FRATURA, NÃO SENDO POSSIVEL COMPACTÁ-LO NEM GARANTIR A RIGIDEZ O APOIO NUM PLANO DAS 4 RODAS DO BOGIE) . SE É ASSIM, APERTAR AS PORCAS DOS PERNOS NÃO VAI AJUDAR, ANTES PELO CONTRÁRIO; A SOLUÇÃO SERÁ SUBSTITUIR AS AGULHAS POR VIA BETONADA COM TRAVESSAS DE BETÃO



CONCLUSÃO - Talvez a conclusão que se possa tirar é que as empresas ferroviárias não podem economizar muito sem comprometer a segurança; devem ter cuidado com os cortes que fazem nos gabinetes de estudos e na manutenção (é sempre desejável manter as duas funções independentes para não se "perdoarem" mutuamente ou esconderem problemas).
Um dos perigos das economias é a contratação de privados por concurso, correndo-se o risco de perda de "know-how" e da experiencia dos erros passados.
Em período de crise e de progressivo endividamento das empresas (a menos que se aceite a diminuição da qualidade de serviço, como diminuição da velocidade, ou o aumento dos riscos) penso que é fatal concluir que toda a estrutura de preços da sociedade está distorcida, porque não é possivel baixar os custos de produção do transporte ferroviário por mais otimizações que se façam.
Estamos perante um paradoxo que é o de fisicamente o transporte ferroviario, por ser energeticamente mais eficiente, não é mais económico (ou por outras palavras, ou é a Física que está errada, ou é a Economia que andam a ensinar nas faculdades).
Penso que o programa de modernização da zona de Bretigny deveria ser revisto no sentido de redução do numero de agulhas de ponta, não utilização de vias por modos de operação diferentes e instalação de dispositivos de contenção de danos junto das agulhas de ponta (eliminação da rampa do inicio dos cais com barreiras amortecedoras para "reenviar" carruagens descarriladas para o eixo da via). Estas recomendações deeriam ser incluidas na normalização internacional (recordo o acidente do ICE alemão em Eschelde, com descarrilamento de um bogie que seguiu pela via desviada até partir o pilar de um viaduto).
Concluo tambem que os principios de segurança ferroviários aplicados à rodovia implicariam o corte radical nas velocidades e o pagamento de externalidades por prejuizos ambientais que encvareceriam o transporte rodoviário.
Logo, parece imprescindivel que as sociedades, em lugar de ter fé em privatizações ou concessões, deveriam aceitar os custos de manutenção e de engenharia de segurança ferroviários e exigir a sua extensão à rodovia (o exemplo do acidente de Lac Megantic serve tambem ao raciocinio porque vem no seguimento de uma desregulamentação de segurança brutal para facilitar o transporte do petróleo crude de xisto por empresas como a que teve o acidente, com uma taxa de sinistralidade 3 vezes superior à média canadiana; por curiosidade é a mesma empresa que ganhou aprivatização dos caminhos de ferro da Estónia).



Enfim, aguardemos por mais informação da SNCF (e da nossa REFER...)

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Dois anos depois do acidente de Bretigny

Dois  anos depois do acidente de Bretigny foi publicado o relatório definitivo.

http://www.lepoint.fr/societe/accident-de-bretigny-les-recommandations-du-rapport-d-enquete-definitif-18-09-2015-1966040_23.php

Recordo a descrição do acidente, fundamentalmente com origem em deficiente manutenção das agulhas de ponta (agulhas duplas TJD) de entrada na estação, não consideração das queixas dos passageiros sobre as trepidações à passagem por elas (possivel descompactação do balastro ou fratura do carril junto da eclisse)e economia de intervenções esperando a remodelação da zona.

http://fcsseratostenes.blogspot.pt/search?q=bretigny

O relatório definitivo vem recomendar à SNCF, que acatou, a realização de auditorias externas para verificação da longevidade da rede e dos equipamentos, melhorias do controle dos equipamentos, e redução do ritmo da renovação dos técnicos (isto é, manter nas equipas de manutenção tecnicos mais experientes em simultaneidade com os menos experientes, em lugar de deixar estes entregues a si próprios).

Saõ as recomendações que deixo aos decisores, especialmente no que toca às economias com a redução dos quadros de pessoal, numa altura em que a REFER lançou um concurso de outsourcing para a manutenção dos aparelhos de via.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Ainda o acidente de Bretigny de julho de 2013

Existe algum ruído mediático em França com a publicação de um relatório por um perito independente sobre o acidente de Bretigny de Julho de 2013. Esse relatório tinha sido enviado à comissão de inquérito judicial há 4  meses, parecendo assim tratar-se de uma fuga de informação.
Pessoalmente, continuo a preferir o critério anglo-saxónico de investigação aberta de acidentes, mantendo a opinião pública inormada do evoluir dos inquéritos.
Coisa que é o oposto do secretismo em vigor no Portugal dos dirigentes engravatados.
A divulgação agora verificada confirma o que escrevi no comentário ao acidente, apenas acrescentando que a eclisse que provocou o descarrilamento não saltou totalmente, antes rodou sobre um dos pernos que se manteve.
Continuo a pensar que a verificação da consistência do balastro para evitar o jogo vertical que provoca fadiga nos pernos das eclisses e as sua fratura ou desaperto, é essencial em manutenção periódica (sem compactação do balastro não basta apertar os pernos).
Ver

O relatório agora divulgado apresenta uma estatística preocupante sobre o numero de pernos de fixação de eclisses encontrados partidos ou desapertados.
Ver


A SNCF respondeu com

Neste acidente, verificaram-se duas circunstancias a que a SNCF não deu a devida atenção:
1 – tinha reduzido o esforço de manutenção por ter programada uma renovação total da zona a curto prazo e tinha tido dois meses antes de substituir uma TJD na via adjacente, onde impôs uma limitação de velocidade (é uma situação de risco reduzir a manutenção enquanto se espera por uma renovação e não compreender que a intervenção necessária numa TJD indiciava que as outras também necessitariam de intervenção urgente e de medidas de limitação de velocidade; verificou-se uma circunstancia semelhante no acidente da ponte de Entre os Rios: aguardava-se a construção de uma nova ponte);
2 – foram ignorados os protestos dos passageiros que se queixavam de grandes trepidações (motivadas pelo jogo vertical nos aparelhos de via) à entrada na estação.


Aguardemos os resultados do inquérito definitivo, sendo certo que dificilmente fugirão ao que já se sabe, interessando as  medidas para evitar que os acidentes se repitam.

quinta-feira, 8 de junho de 2023

O acidente na India, em Bahanaga Baazar em 2jun2023

 

Em memória das vítimas e que os feridos recuperem.


Aparentemente, com base na informação disponível, a agulha estaria na posição desviada sem que estivesse detetada pelo interlocking (parece muito pouco provável que o interlocking tenha manobrado a agulha com o comboio em aproximação para a posição errada). A agulha estar ou colocar-se na posição errada poderia acontecer ou por intervenção manual desde que o interlocking não estivesse  a detetar e controlar a posição da agulha, ou se após uma intervenção de manutenção não tivessem sido repostas as ligações para essa deteção (subsistindo a dúvida como é que a agulha possa ter sido manobrada a partir do posto de controle junto da estação, isto é, estar fora do controle do interlocking, o que só seria possível se se simulassem os circuitos de via como desocupados) e se o operador se tivesse esquecido de ter deixado a agulha na posição desviada ou se a representação no painel estivesse errada. Isto é, após a manutenção não terão sido efetuados os necessários ensaios de comprovação devido à pressão da reabertura da exploração.

Destaco que é uma hipótese não confirmada, semelhante ao que aconteceu em Itália em Livraga/Lodi em fevereiro de 2020 - desligação das informações para o ATP que deviam vir do aparelho de mudança de via de ponta, o qual foi deixado na posição errada após trabalhos noturnos de manutenção :

https://www.railwaygazette.com/high-speed/frecciarossa-1000-derails-at-high-speed/55737.article

 

Para além da manutenção dos equipamentos de via, é essencial , após intervenções no interlocking, efetuar ensaios de comprovação com todos os itinerários. Em linhas de tráfego intenso ou de alta velocidade não deverá haver agulhas de ponta (recorda-se o acidente de Bretigny     https://fcsseratostenes.blogspot.com/search?q=bretigny ).

Em qualquer caso, conviria evitar a apreciação xenófoba e supremacista de que a Índia é um país desatento na segurança da sua ferrovia. Especialmente depois do  que aconteceu na Grécia e, conforme a descrição dos acidentes de Livraga e de Bretigny,  em  Itália e em França.




https://frontline.thehindu.com/news/odisha-train-tragedy-raises-questions-about-rail-safety-and-signals-system-in-india/article66931852.ece

https://www.railjournal.com/regions/asia/fatal-indian-train-crash-raises-safety-questions/?utm_source=&utm_medium=email&utm_campaign=40190

vídeo explicativo:   https://www.youtube.com/watch?v=l9RQ2zNpI-Q 

https://www.theguardian.com/world/2023/jun/04/what-caused-the-india-train-crash-a-visual-guide-to-what-we-know

PS em 12jun2023:  correta análise, incluindo deficiências anteriores na manutenção, em:








quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Concurso para manutenção de aparelhos de via

Segundo uma notícia de 30 de outubro, a empresa IP, fusão da Estradas de Portugal e da REFER, lançou um concurso para a manutenção, por fornecedor de serviços externo, dos 2800 aparelhos de via da rede ferroviária.
A IP fará a fiscalização da manutenção através de 5 equipas de inspeção.
Não dispondo de mais informação, não poderei ser afirmativo.
Porém, a qualidade da manutenção dos aparelhos de via é essencial para a garantia da segurança da circulação dos comboios. São exemplos de manutenção negligente na origem de acidentes graves os casos de Bretigny e de Hatfield. Ambos tendo na origem a economia de meios.
Manifesto portanto a minha preocupação e esperança em que a situação se reverta, com o devido dimensionamento dos quadros da REFER.

http://fcsseratostenes.blogspot.pt/2015/06/recordando-o-acidente-de-hatfield-na.html

http://fcsseratostenes.blogspot.pt/search?q=bretigny

domingo, 28 de janeiro de 2018

Acidente em Pioltello, perto de Milão

Acidente em Pioltello, na linha Cremona-Milão
A justificação do transporte ferroviário não é apenas a sua maior eficiência energética e menor emissão de gases com efeito de estufa por passageiro.km transportado, para a gama  adequada de volume de tráfego.
É também a sua menor taxa de sinistralidade quamdo comparada com a rodovia.
Por isso, a ocorrência de acidentes na ferrovia traduz-se por uma ameaça ao desenvolvimento dum modo de transporte mais amigo do ambiente, para além, naturalmente, de se lamentarem as vítimas.
Num dos dias da semana passada, à chegada do Alfa à estação do Oriente, vindo do Porto, o revisor sentiu-se na obrigação de justificar o atraso por ter sido “colhida uma pessoa” .
Para além do desagradável da informação, fica a ideia que a operaora se está a desculpar. Eu preferiria que no dia seguinte os jornais reportassem o caso, quanto mais não fosse para pressionar as entidades incumbentes para melhorarem as condições de segurança na envolvente da via férrea. Conhecido o efeito de sucção para as velocidades do Alfa, e a promiscuidade entre os percursos pedonais e a via férrea, estamos perante um problema gravissimo considerando a ausencia de soluções.
No dia seguinte, a notícia do atropelamento mortal pelo Alfa na passagem de nível de Silvalde/Espinho,  de uma senhora que regressava das compras (a 140 km/h o Alfa avança cerca de 40 metros por segundo, a travessia de uma passagem de nível por um peão e a libertação do cone de sucção  pode demorar 10 segundos, ou 400 m para o Alfa).
E no outro dia, a notícia do acidente em Pioltello, perto de Milão.
Juntei alguma documentação sobre o acidente, e recordo que provavelmente a causa do descarrilamento foi, não uma interação deficiente com um aparelho de via, mas antes a fratura de um carril numa junta com eclisse.
Normalmente os carris são soldados, mas pode haver casos em que se monta uma junta com eclisses, apertando as extremidades dos carris com uma eclisse e 4 pernos com rosca. Para assegurar a continuidade dos circuitos de via e da corrente de tração usam-se cabos (“bardets”) soldados ou aparafusados à alma dos carris.
Junto a foto explicativa, mostrando a parte da cabeça do carril que partiu (cerca de 20 cm).


Fratura do carril junto da eclisse. Provável enfraquecimento por soldadura das bardets. O movimento fazia-se da esquerda para a direita. Provavelmente o rodado traseiro da 3ª carruagem saltou dos carris para o lado esquerdo da via em consequencia da falta da cabeça do carril. A falta do perno deve-se provavelmente à sua rotura ao corte devido ao excesso de vibrações por falta de apoio da base dos carris. Este defeito deteta-se também pelo barulho à passagem dos rodados. Este ponto encontra-se a cerca de 2,3 km do local do descarrilamento final

video da estação antes do descarrilamento; a 3a carruagem já está descarrilada e provoca faíscas roçando o cais

imagem do troço percorrido  desde o carril fraturado com a 3a carruagem já descarrilada antes de ficar sem o bogie traseiro e a sua retaguarda  ter sido impulsionada para a esquerda embatendo num poste da alimentação elétrica

zona do descarrilamento final

vista aérea do comboio sinistrado; duas carruagens à frente (a da frente pilota a locomotiva que está na retaguarda)

3 carruagens e a locomotiva na retaguarda; a 3a carruagem é a que está dobrada de encontro a um poste, depois de perder o bogie traseiro que se vê junto da locomotiva; a retaguarda da 3a carruagem foi impulsionada para a esquerda depois de percorrer quase 2 km descarrilada




No caso de Pioltello, os carris estavam para ser substituidos, encontrando-se o novo carril depositado ao lado da via. As normas dizem que os carris devem ser substituidos depois de se atingir 200 e 400 milhões (dependendo do peso unitário do carril) de toneladas de comboios passando por cima, contando com 13 a 22 toneladas por eixo. Mas há um fator que enfraquece o carril : a soldadura dos terminais dos cabos pelo  aquecimento requerido. Por isso devia ser mandatório que essa ligação só se faça por furação e casquilho de aperto.
Tivemos no metropolitano de Lisboa uma fratura semelhante, durante as obras de remodelação da zona entre S.Sebastião I e a Praça de Espanha.
Quando visitei a obra, reparei que as esferas e restos de solda ao pé dos cabos soldados revelavam inexperiencia do soldador. Mas limitei-me a chamar a atenção do empreiteiro. Pouco depois deu-se a fratura do carril junto da eclisse. O maquinista comunicou que tinha sentido uma vibração estranha e o assunto foi imediatamente resolvido e inspecionadas as zonas com montagens semelhantes. Mas podiamos ter tido um descarrilamento e um acidente grave e eu sentir-me-ia responsável. Mostrei as fotos aos meus colegas dos outros metropolitanos e todos concordámos que não se devem fazer soldaduras deste tipo (a soldadura aluminotérmica e a soldadura eletrotérmica dos topos dos carris são de outra natureza).
No caso de Pioltello devemos tirar as seguintes conclusões:
1 – nunca soldar os terminais das bardets, antes recorrer a furações na alma dos carris e casquilhos de aperto
2 – nunca aumentar os períodos de substituição de carris em função da tonelagem
3 – assegurar as rotinas de inspeção da via, nomeadamente com ultrassons
4 – nunca impulsionar o comboio, traccioná-lo sempre (o comboio acidentado levava a locomotiva atrás, tal como no acidente do Metro North em Nova York numa curva)
5 – estudar o afastamento de obstáculos como postes ou pilares do contorno (gabari) do comboio
6 – estudar a instalação de contracarris carriladores antes de obstáculos adjacentes à via
7 – estudar a hipótese de detetores de integridade da composição associada à deteção de perda de contacto roda-carril nas carruagens com emissão de ordem automática de travagem
8 – estudar a hipótese de detetores de lanças de agulhas forçadas com emissão de ordem automática de travagem





Análise do acidente de Bretigny, também com origem numa eclisse:

http://fcsseratostenes.blogspot.pt/2013/07/o-descarrilamento-de-bretigny.html

PS em 31 de janeiro - junto a foto de uma eclisse entretanto eliminada pela instalação de via nova com carris soldados e travessas de betão bibloco em Alfarelos. Era grande a vibração e o ruido à passagem de comboios com risco de corte dos pernos de fixação. Nota-se tambem a indevida soldadura dos cabos de continuidade. Ainda bem que foi eliminado este ponto crítico. Mantem-se a proximidade de elevado risco entre caminhos pedonais e a via férrea.


sexta-feira, 26 de julho de 2013

Acidente ferroviário em Santiago de Compostela









A Galiza está de luto, assim como Espanha e Portugal.
Para nós, ferroviários, é desanimador ver o que deveria ser um modo de transporte seguro e de qualidade evidenciar tamanhas fragilidades, contrastando com o nível elevado da engenharia da rede ferroviária espanhola e o sucesso comercial das suas linhas de alta velocidade.
Embora aguardando os resultados do inquérito, na esperança de que eles sejam divulgados em tempo razoável e tomadas medidas corretivas, é para mim importante sublinhar os seguintes factos:
1 – embora tudo indique que a velocidade do comboio era excessiva, ultrapassando em muito o limite da curva de 80 km/h,  não deverá transformar-se o  maquinista em único responsável e em bode expiatório, pela simples razão de que um acidente desta gravidade, como informa a experiencia, não pode ter uma causa só
2 – por razões de segurança, uma linha de alta velocidade só deve ser operada com a proteção de um sistema automático de controle de velocidade que provoque a paragem do  comboio sempre  que a velocidade autorizada é ultrapassada; em caso de avaria ou de desligação do sistema, esse facto deve ser transmitido por rádio ou por outros meios para o centro de operações e reduzida a marcha sob controle do centro
3 – parece que a linha só dispunha de train stop (travagem automática em caso de ultrapassagem de um sinal proibitivo); este sistema não deteta velocidade excessiva
4 – embora a linha seja de alta veloocidade, tal como o material circulante envolvido no acidente (série 730), as especificações da alta velocidade não são observadas em toda a extensão da ligação Madrid-Ferrol (ausência de sistema automático de controle de velocidade, curvas de raio demasiado pequeno, troços não eletrificados)

5 – o material circulante envolvido resultou de uma transformação da série 130 para permitir a exploração parcial em alta velocidade nalguns  troços; violaram-se assim duas regras importantes: a exploração ferroviária deve ser uniforme ao longo de todo o percurso e qualquer alteração aumenta o risco de acidentes ou de diminuição da fiabilidade; a série 730 é composta por 2 locomotivas elétricas bi-tensão (3 e 25kV), 8 carruagens pendulares e 2 reboques onde estão instalados geradores diesel para alimentar os motores elétricos nos troços não eletrificados, conferindo-lhe assim o carater hibrido; são ainda bi-bitola (largura ibérica nos troços convencionais ou internacional nos troços de alta velocidade) ; encontra-se ao serviço da Renfe desde Junho de 2012




6 – é uma regra de segurança, que parece ter falhado na Renfe por razões de marketing, que os técnicos de infraestruturas contrariem os técnicos da operação que pretendem reduzir tempos de percurso para atrair clientes e que para isso instalem sistemas de proteção em caso de velocidade excessiva
7 – o ponto anterior é aplicável ao estudo de medidas de proteção para atenuar os efeitos, por exemplo, de um descarrilamento; como se pode ver no vídeo divulgado por noticiários, o descarrilamento ocorreu provavelmente no bogie ou no rodado simples (partilhado pelo reboque, em que se encontra o gerador diesel, e pela primeira carruagem – trata-se de uma montagem nada tradicional, que aliada ao centro de gravidade mais elevado do gerador diesel terá contribuído para o descarrilamento) ; uma das carruagens seguintes terá subido o talude segundo o seu perfil ascendente, contribuindo para agravar as consequências do acidente; uma análise de riscos preventiva deverá portanto assinalar medidas corretivas na previsão, junto de pontos difíceis, de risco elevado de descarrilamento (esse é o ensinamento da experiencia dos descarrilamentos do ICE alemão numa agulha junto de um viaduto, do metro de Valença numa curva ante de cunhais nas paredes da galeria, e do intercidades em Bretigny)
8 – O acidente vem confirmar que os critérios de segurança são incompatíveis com soluções precárias ou economicistas (como colocar em serviço uma linha de alta velocidade sem sistema de controle de velocidade, ou poupar na eliminação de curvas ou querer aproveitar troços pré-existentes). Esta afirmação  lança o debate sobre as vantagens comparativas dos diferentes modos de transporte e sobre a naturreza dos custos de produção de cada um. A aparente economia do transporte rodovia´rio e aéreo a pesar de energeticamente menos eficientes e de menor capacidade de transporte, parece indicar que os preços de produção são mantidos artificialmente baixos, que lhes é poupada a cobrança dos custos de externalidades como a manutenção das rodovias e os prejuízos ambientais como o ruído e as emissões de CO2; enquanto para o transporte ferroviário não se explora (por conveniência dos produtores de energia a partir de combustíveis fósseis) a conversão de energia renováveis em energia elétrica de tração dos comboios.

Nota final: no momento presente, os critérios de segurança (e de economia de energia)  impuseram no metropolitano de Lisboa uma limitação de velocidade a 45 km/h. abaixo do valor de projeto de 60 km/h , considerando que o sistema de train stop não tem operacional o modo de travagem de maior desaceleração (enquanto decorre um programa de reabilitação de componentes mecânicos) e que foram desativadas as balizas pontuais de controle de velocidade à entrada das estações; foi igualmente desativado em 2009 o sistema automático de controle de velocidade na única linha equipada com ele, por razões de economia na manutenção, transferindo assim  a segurança de um sistema automático para o maquinista. Espera-se poder voltar ao limite de 60 km/h quando as condições económicas e de investimento o permitirem, o que se espera vir na sequencia de um aumento da procura pelos passageiros.

PS em 26 de julho - corrigi o local do descarrilamento; as imagens do google earth são anteriores à remodelação da via
PS em 28 de julho - sem querer ilibar o maquinista, uma vez que de acordo com os indicios existe responsabilidade criminal (maquinista é uma profissão que deveria ser coberta por seguro contra erros profissionais), penso que deve ser dado destaque, contrariamente ao que a empresa de infraestruturas e a de operação vêm fazendo, que é INTOLERÁVEL, segundo os critérios de segurança, que a aproximação de uma estação, ou qualquer troço de um alinha de alta velocidade, não esteja protegida por um sistema de controle automático de velocidade que compense eventual erro do maquinista (falha momentanea de atenção, perda do sentido de localização), atuando a travagem automaticamente. Esse sistema existe até 3 km antes do local do acidente; no troço do acidente apenas existe sinalização com train stop que não deteta velocidaed excessiva; igualmente penso que deverá ser investigada eventual responsabilidade no acidente do projeto do reboque do gerador, com o centro de gravidade provavelmente elevado; em principio, uma curva deste raio, com a via e o material circulante em boas condições, não provocará descarrilamento até 120 km/h.
Lista de causas de descarrilamento em curva, para alem da velocidade excessiva:
- gripagem do pivot do engate ou do bogie (o sistema de rodados do comboio é misto: bogie nas locomotivas e eixos de 2 rodas independentes entre as carruagens ou sistema Talgo; o sistema Talgo é muito fiável, mas mas tem peças móveis que tambem poderão, com pequenissima probabilidade, gripar):
  

- fratura de roda
- gripagem do verdugo na face interior do carril da fila externa (idem)
- afundamento da via, corpo estranho ou alargamento da bitola
- centro de gravidade demasiado alto (por exemplo, desprendimento do gerador ou do transformador no reboque)
- variação brusca do movimento, por exemplo travagem em plena curva (pela obseração do video, parece ser esta a causa principal) ou deficiente distribuição do esforço de travagem, provocando maior força de impulso sobre o engate traseiro do reboque (o primeiro a descarrilar) do que força de tração sobre o engate (o movimento do comboio deve-se à locomotiva da frente e à traseira, que "empurra" o comboio)
PS em 1 de agosto - a leitura dos registos do comboio confirmou a velocidade excessiva, a travagem na curva (agravando as condições de descarrilamento)e as declarações do maquinista desde o princípio; este não entrou em negação nem quis incriminar ninguem, o que parece confirmar tratar-se de um profissional responsável; erros e falhas de atenção acontecem, está comprovado estatisticamente e por isso d enada serve dizer que o maquinista tinha passado por lá 60 vezes e por isso fica por esclarecer as condições em que se pôs em serviço uma linha em que a transição de um troço com controle automático de velocidade para outro com balizqs simples de autorização ou de proibição sem deteção de velocidade (a 200 km/h é inutil uma sinalização lateral, os sinais são cab-signal, isto é, aparecem numa ocnsola na mesa de condução e está por esclarecer se a forma como o sinal aparece é suficiente para chamar a atenção e se há espaço para uma travagem segura; é desejável que se esclareça isto, não para castigar eventuais decisores que não atenderam a propostas de precaução de técnicos (não acredito que não tenham sido feitas essas propostas, por exemplo instalar balizas ASFA de controle da velocidade de 80 km/h ANTES da curva a uma distancia equivalente à desaceleração de 220 para 80; a esclarecer ainda se as condições de travagem de todo o comboio estavam corretas (isto é, se não houve atraso no comando da travagem e do corte de tração da locomotiva traseira; a esclarecer tambem se o projeto dos reboques com os geradores e todo o projeto da série 730 deve ser revisto; não deverá culpar-se simplesmente o maquinista e permanecerem erros e falhas a nivel superior PS em 2 de agosto - de muito interesse o artigo de opinião de Daniel Deusdado no JN de 1 de agosto, focando questões de segurança e o imobilismo gerador de atrasos graves da politica ferroviária do atual governo: http://ww.jn.pt/Opiniao/default.aspx?content_id=3352597&opiniao=Daniel%20Deusdado

PS em 24 de setembro de 2013 - De acordo com informações da imprensa técnica espanhola, e contrariamente ao que afirmei acima, o sistema ERTMS, embora instalado no troço de 80 km entre Ourense e 3 km antes do local do acidente, NÃO ESTAVA OPERACIONAL NESSES 80 KM POR DIFICULDADES DE SOFTWARE DOS COMBOIOS DA SERIE 730, FUNCIONANDO APENAS O SISTEMA ASFA, O QUAL NÃO CONTROLA A VELOCIDADE (EMBORA PONTUALMENTE POSSA FAZÊ-LO). A GRAVIDADEDESTA SITUAÇÃO É ENORME E DA RESPONSABILIDADE DA PRÓPRIA EMPRESA E DOS ORGÃOS REGULADORES E DA TUTELA. No momento presente, parece (as informações da ADIF - infraestruturas não são esclarecedoras) que as dificuldades de software do ERTMS a bordo foram ultrapassadas, embora continue sem "cobrir" a zona do acidente, o que é feito por controle pontual de velocidade com três balizas ASFA (permitem uma violação deliberada do limite de velocidade) 

ver atualização em
http://fcsseratostenes.blogspot.pt/2013/09/acidente-de-santiago-dois-meses-depois.html


segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025

Colisão de comboios na Roménia, em 19fev2025

 

https://railmarket.com/news/freight-rail/30245-freight-train-disaster-in-southern-romania 

Colisão em 19fev2025 em Mihaesti Olt County na Roménia numa zona de agulhas. Provavelmente um vagão do comboio da Rail Cargo no sentido leste-oeste terá descarrilado e os bogies conduzidos pelas lanças de ponta de uma agulha para o trajeto da locomotiva do comboio Pimk no sentido oeste-leste, cujo maquinista, infelizmente, faleceu. Os vagões do comboio Rail Cargo seguiam vazios e eram porta autos.

Se se confirmar esta análise, oas causas do acidente (descarrilamento de um vagão intermédio em zona de agulhas,  carecendo de rotinas de manutenção rigorosas ou as agulhas ou os vagões) são semelhantes às do acidente de Bretigny em 2013, Ademia em 2017 e Túnel de S.Gothard em 2023. Para além da necessidade de não cortar as despesas de manutenção dos aparelhos de mudança de via    ( ver   https://friendshipbridge.eu/2025/02/20/romania-rail-infrastructure-mihaesti-en/   ) é essencial dar seguimento às diretrizes da União Europeia para implementação dos sistemas automáticos de supervisão da integridade da composição e da operacionalidade em segurança dos vagões e carruagens.



zona de aparelhos de mudança de via (agulhas) em Mihaesti Olt County






segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Acidente de Adamuz - comentário à nota preliminar do CIAF

 

 

 

 

                 Reproduzo a nota preliminar da CIAF de 23 de janeiro de 2026:









 

Saúdo a divulgação da nota pela CIAF através do jornal El País, sublinhando os agradecimentos e a apreciação muito positiva das entidades envolvidas nela contidos. Destaco os seviços de emergencia, a Guardia Civil na recolha de imagens e a solidariedade de muitos.
Continuo porém, sem retirar a elevada competência técnica dos investigadores da CIAF, a valorizar a postura dos organismos anglo-saxónicos de investigação de acidentes que rapidamente organizam conferências de imprensa para divulgação dos sucessivos resultados obtidos e para recolha de colaboração dos cidadãos.  Julgo tratar-se de uma cultura determinada pelos sucessivos governos.

Tento em seguida estabelecer uma hipótese de cronologia das causas, com base na nota da CIAF , em informação divulgada pela comunicação social, e nalguma experiência profissional no metropolitano de Lisboa (tivemos uma fratura de carril numa zona de soldadura detetada imediatamente pelo maquinista, vários descarrilamentos em aparelhos de mudança de via de ponta; muito recentemente ocorreu uma fratura de carril na linha suburbana da Fertagus  próximo de Sete Rios; em qualquer caso, em domínios de velocidades muito inferiores aos 200km/h do acidente de Adamuz, mas reveladores dos riscos de soldaduras aluminotérmicas ou de outro tipo que podem fragilizar o carril por excesso de temperatura). Evidentemente que se trata apenas de uma hipótese, mais alargada do que a da nota preliminar da CIAF, aguardando-se mais informação para eventual confirmação, tirar conclusões e sugerir recomendações.

Repito o esquema de toda a zona do acidente com base nas informações disponíveis.





1 - Os eixos das quatro primeiras carruagens do Iryo (cada carruagem tem 4 eixos, 2 em cada bogie) vão agravando sucessivamente o alargamento da fissura no carril direito na zona da soldadura (deixando as marcas nas superfícies de rolamento das rodas conforme a nota); estando o carril apoiado na travessa A que faz de apoio à flexão, leva à fratura f1 ao corte junto da travessa B  (nota postrior: após a travessa B). Existe a possibilidade de descompactação do balastro devido ao tráfego intenso ou a infiltração de água e arrastamento de inertes, agravando a suscetibilidade ao corte

a nota do CIAF refere apenas a fratura f1, mas também refere que no local da rotura do carril se encontrou um pedaço de carril solto de cerca de 40 cm . Também não refere por que o troço de carril a seguir à travessa C se deitou para o lado direito; uma hipótese seria por choque de roda da carruagem 6 com o topo do carril, deformando-o e arrancando-o das fixações; ou embate lateral dos rodados em movimentos de lacete (oscilação das carruagens de um lado para o outro)     ATT - ver desenho corrigido mais abaixo em função de nova fotografia da zona das fraturas




          Nesta foto não está visível a porção de cerca de 40cm do carril direito que se soltou (ver nova foto mais abaixo da zona de fraturas)


2 - os eixos do primeiro bogie da carruagem 5 provocam  a fratura f2 ao corte junto  da travessa C por flexão do carril, funcionando a travessa B como apoio à flexão. Como referido na nota da CIAF, solta-se um pedaço de carril de cerca de 40cm e o carril a seguir à travessa C deita-se para o lado direito. Nas figuras seguintes pode ver-se a deformação do carril deitado 






o troço de carril deitado desde a rotura na soldadura até junto da ponta da lança curva da agulha em zona de nova fratura f3 . A qualidade da foto não é boa (tirada de um video da Guardia Civil) mas sugere também a hipótese de abatimento de via por infiltrações e arrastamento de inertes



PS em 27jan2026 -   Foi divulgada a seguinte foto, mostrando melhor a fratura f1 da soldadura e a fratura f2   40 cm depois, bem como  a deslocação do carril deitado sobre a direita. É visível a porção de carril arrancada e as datas de fabrico dos carris, que são diferentes dos dois lados da soldadura, (1989 ou 1992 ?)  do lado antigo e 2023 do lado do aparelho de via (a investigação terá de se pronunciar sobre se isso influenciou a suscetibilidade à fadiga e a fragilidade da soldadura e dos carris, por exemplo em razão de composições químicas diferentes). Igualmente terá de se explicar por que foi arrancada ao carril uma porção de cerca de 40 cm e por que se deslocou e deitou o carril (deformação do carril por libertação de tensões internas devidas a variações de temperatura e pressão lateral dos rodados em movimentos de lacete?)




É assim necessário corrigir o desenho acima com as travessas em corte. Junto de seguida o desenho corrigido:

A fratura f1 ter-se-á formado conforme descrito na nota do CIAF (abaixamento do carril sobre a travessa B e sobreelevação do carril a seguir à soldadura) induzindo a fratura f2 arrancando a porção assinalada a cinzento escuro por pressão dos rodados sobre a ccabeça do carril. Ter-se-á seguido a sobreelevação da cabeça do carril por pressão dos rodados entre as travessas C e D e consequente deslocação do carril e arrancamento das fixações e torção do carril até à fratura f3 junto da ponta da lança da agulha


3 - o troço de carril a seguir à travessa C ter-se-á deitado para a direita e deformado provavelmente por compressão longitudinal e reação à compressão após choque de roda da carruagem 6 (ou por movimentos de lacete com embate lateral dos rodados ou reação às deformações por temperaturas extremas) com uma fratura f3 no carril direito junto das pontas da lanças. As deformações visíveis na figura nos carris e nas lanças serão devidas à pressão lateral dos rodados, supõe-se também por movimentos de lacete, considerando que o comboio Iryo ainda tinha tração antes da colisão (não tenho presente as funcionalidades do sistema LZB de controle do movimento, mas penso que havendo uma descontinuidade num dos carris, o sistema deveria dar ordem de travagem, assunto a esclarecer na investigação).

4 - como o carril deitado formou caminho para o interior da lança curva do aparelho de mudança de via os rodados das carruagens 7 e 8 foram puxados para a via contrária, as rodas direitas guiadas pelo interior da lança curva e as rodas esquerdas a galgar a lança reta

5 - dá-se o embate do lado esquerdo do Alvia com o lado esquerdo do primeiro bogie da 8ªcarruagem do Iryo. Este bogie separa-se da carruagem e é projetado a cerca de 300m para fora da linha enquanto a 8ª carruagem (a motora da cauda) é projetada deitada para a via sentido para Madrid. As duas primeiras carruagens do Alvia descarrilam para o seu lado direito e 3ª para a esquerda por efeito de harmónio após imobilização brusca (possivelmente agravado pela tração da 4ª carruagem, a motora da cauda).

6 - os restos do comboio Alvia imobilizaram-se sobre a agulha no sentido para Cordoba e os do Iryo junto da estação técnica de Adamuz, na via de sentido para Madrid.





Observações

1 - a instalação de agulhas de ponta deve ser evitada em qualquer zona para evitar o risco de queda de objeto na parte interior da lança curva desviando a carruagem, especialmente de alta velocidade. exemplos como os de Eschede (inadmissível ensaio de rodas resilientes em exploração normal), de Bretigny (queda de peça nas lanças) e ainda no túnel de S.Gotard (fratura do rodado de um vagão). Em Portugal tivemos o caso do descarrilamento da Adémia (rodado desalinhado de um vagão na entrada de uma agulha) e dois descarrilamentos por queda de peças nas agulhas na linha de Cascais. No caso de Adamuz, pode pôr-se a hipótese das consequências terem sido menores se não estuvesse lá a agulha. À atenção dos projetistas da LAV Porto-Lisboa. Nestas circunstâncias, se tiverem mesmo de existir os aparelhos e a via adjacente deverão estar em via betonada. Considerar a existencia de aparelhos de dilatação para reduzir os esforços mongitudinais nas junções.
2 - podendo não ter sido o caso em Adamuz, a investigação deverá conferir os valores dimensionais dos rodados do Iryo, sendo certo que o ângulo cónico do perímetro de rolamento, o diâmetro das rodas e a tolerancia relativamente à bitola são essenciais contra os descarrilamentos e para redução da amplitude dos movimentos de lacete e respetivas vibrações.
3 - a averiguação da fragilidade nas zonas de soldadura consequencia da fadiga (algumas informações dizem que parte dos carris e suas soldaduras eram da inauguração da linha em 1992), de temperaturas anormalmente baixas e de sucessivos ciclos de dilatação por calor e contração por frio, deverá ser feita, conforme diz a nota da CIAF, por instituto metalográfico especializado, incluindo a definição da composição química ótima do aço dos carris e respetiva comprovação no ato do fornecimento. Igualmente deverão ser indicados os equipamentos de inspeção de via com meios automáticos e móveis para deteção de zonas de fragilidade e redes de fibra ótica com deteção e transmissão de vibrações anormais ou anomalias na via. Deverão reduzir-se ao mínimo indipensável quaisquer soldaduras (continuidade de circuitos e cabos, por exemplo) substituindo-as por furação de fábrica dos carris e casquilhos para os cabos ou para as placas de junção ("fishplates"). Eventualmente, analisar a hipótese de circuitos de aquecimento para os períodos de baixas temperaturas, com alimentação solar.
4 -  deverá ser seguida a atual evolução no sentido da instalação nos engates e nos bogies de circuitos de sensores de correção do movimento  com deteção automática de descarrilamento , integridade da composição, vibrações anormais, temperatura anormal dos rolamentos, fratura de rodados ou deteção de anomalia na via e integração no sistema ERTMS e em sistema de transmissão para balizas na via, esta  também com sensores nos pontos de maior risco
5 - deverá ser revisto o sistema de tração distribuida ao longo das carruagens da composição, atendendo a que nalgumas condições a continuação do esforço de tração nas carruagens da cauda pode agravar as consequencias dos descarrilamentos.
6 - a analisar os limites de carga por eixo (13 toneladas/eixo ?) e, considerando o objetivo de partilha com o serviço de mercadorias nalgumas linhas de alta velocidade, estudar a viabilidade de comboios de mercadorias com esse limite com vagões de 4 eixos.
7 - finalmente deverá ser analisada a eventual necessidade de reforço dos meios técnicos e humanos dos operadores e gestores de infraestruturas no estudo, projeto, construção, manutenção, inspeção e operação  das infraestruturas e material circulante na ótica do serviço público e no cumprimento dos normativos comunitários.


Reitero que o que deixo escrito não pretende desvalorizar o trabalho da CIAF ou de quem de boa fé tem participado no debate, e que , tal como a CIAF refere, o mais importante, depois de apoiar os feridos e os familiares das vítimas, é determinar com a melhor aproximação as causas e circunstâncias do acidente e propor as recomendações necessárias para o evitar ou mitigar as consequências.
Mais uma vez afirmo que a cultura anglo saxónica no tratamento da averiguação de acidentes é mais eficiente, com conferencias de imprensa no mais curto prazo possível e o debate público das possíveis causas e recomendações. Trata-se até dum direito constitucionalmente previsto em Portugal (art.48 da CRP) cujo desenvolvimento ajudaria a conter o aproveitamento para fins diferentes, como o apelo ao castigo imediato sem provas consistentes, e a muita desinformação.



Notícia da Railway Gazette de 27jan2026:


PS em 30jan2026:
 - video com testemunhos de passageiros da carruagem 5 que reportam o ruido do impacto seguindo-se movimentos laterais que poderão ter deitado o carril

- esquema simplificado do choque duma roda com o carril imediatamente a seguir à fratura da soldadura
Flexão do carril á esquerda, colisão com o carril da direita; para além da compactação constante do balastro ou a instalação em via betonada, aparentemente a soldadura deverá ser calçada para evitar a flexão (placas e blocos fixados ao carril tipo SINAV,  por exemplo)


- Sugestões:



PS em 2fev2026 - informação sobre os períodos de inspeção nas linhas de AV (última inspeção com ultrasons com o comboio-laboratório Seneca terá sido realizada em 10nov2025, última auscultação geométrica em 13out2025, última medição dos parâmetros dos aparelhos de mudança de via em 7jan2026  e reduzido o limite de velocidade a 250km/h tal como na linha Madrid-Barcelona por deteção de vibrações), sobre testemunhos sobre a necessidade de melhorar o investimento e os procedimentos na manutenção e inspeção, e sobre os comboios-laboratório:




Especificações do equipamento de auscultação da via, incluindo medição da geometria dos aparelhos de mudança de via:


- Sem prejuízo das futuras recomendações do inquérito da CIAF a decorrer, os acidentes já verificados com perda de vidas e perdas económicas (tunel de S.Gotardo, por exemplo) já justificam o desenvolvimento, a nível da União Europeia e para regulamentação das redes europeias, de um sistema de sensores embarcados em comboios de passageiros ou de mercadorias  com deteção principalmente de vibrações anómalas com origem na via, em deficiências nas rodas e ou rolamentos e transmissão por rádio para uma central ou por bluetooth para balizas na via integrantes de rede de fibra ótica. Igualmente para sensores na via em pontos de maior risco.

PS em 7fev2026 - a comunicação social e a sociedade civil espanholas continuam a contribuir para o total esclarecimento das causas e circunstancias do acidente. Depois do levantamento das condições em que foram realizados os contratos de manutenção e de subcontratação, incluindo a realização da soldadura que fraturou, parece indispensável que a Comissão Europeia e os Estados membros revejam a regulamentação da subcontratação externa ("outsourcing"), nomeadamente na monitorização das condições de segurança e definição do limite  em toneladas de suporte de passagens sobre troços e soldaduras de carril e de desgaste de carril. Não estou a defender a proibição da subcontratação, mas sim a sua regulação mais rigorosa. Não se trata de uma questão de ideologia de mercado ou não, trata-se de uma questão de segurança. Baseio-me nesta informação;