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quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

O cais das colunas

As colunas, uma das quais nova
Tambem algumas das pedras são novas; desmontagem e reconstrução por conta do metropolitano de Lisboa
Alguns dos elementos em segundo plano fazem parte do plano original aprovado  pelo IGESPAR;  lamenta-se o fundamentalismo deste ao insistir em preservar tal e qual a intervenção Cotinelli Telmo e as suas excrescências
                                     
A serra da Arrábida ao fundo
                                       
A praia do Terreiro doPaço
                                     
Vista mais geral da praia, semeada com estacas de contenção dos terrenos à volta do tunel do metro, na sua vertical; zona perigosa para a navegação
Canal de águas pluviais
                                     
Outra vista do canal de águas pluviais; as águas residuais são conduzidas a Alcantara-Mar, donde são bombeadas para a ETAR da Av.Ceuta

Os "posts" dos dias anteriores sobre Santa Apolónia e o Terreiro do Paço acordaram-me sentimentalismos.
Durante as obras dos tuneis para a estação Baixa e para a estação Cais do Sodré, reunia todas as segundas feiras no estaleiro junto do Tejo com os colegas da construção civil e com o membro do conselho de administração  encarregado de acompanhar o empreendimento de modo  a que a sua entrada em serviço coincidisse com a da linha que serviria a Expo98.
Ainda não tinha ocorrido o acidente do Terreiro do Paço, mas já se tinha abandonado a ideia de chegar a Santa Apolónia juntamente com a extensão a Baixa e Cais Sodré.
Eu funcionava como cliente impaciente dos colegas de construção civil, aguardando que os seus empreiteiros concluissem os seus trabalhos, ou pelo menos atingissem um estado que permitisse a entrada dos empreiteiros ou fornecedores dos sistemas e equipamentos, sem os quais os comboios não circulariam em segurança, e sofrendo com os seus atrasos sucessivos.
E foi atingido o objetivo em abril de 1998 para o Cais do Sodré e em agosto para a ligação Restauradores-Baixa, com grande escândalo dos economistas e do tribunal de contas, atendendo aos desvios orçamentais da obra (na realidade, os concursos tinham sido lançados com muitas indefinições, e a natureza aluvionar e de aterro dos terrenos dava à obra uma complexidade técnica não entendível por economistas ou juristas, sendo certo que na altura não havia, internacionalmente, muita experiencia na construção de tuneis em terrenos deste tipo; mais ou menos na mesma altura o metro de Londres teve sérias dificuldades junto da abadia de Westminster, enquanto no Japão e na Holanda se dominava a tecnologia).
O acidente sobreveio em  junho de 2000, nas circunstancias já referidas neste blogue:
http://fcsseratostenes.blogspot.com/2011/01/terreiro-do-paco-9-de-junho-de-2000.html?showComment=1295446088150#c1878702850844960404

Recordo a ironia do metropolitano ter devolvido verbas da comissão europeia por ter adjudicado sem concurso publico a construção do tunel entre a Baixa e Santa Apolónia, onde veio a dar-se o acidente, e depois ter feito um concurso publico para construção da estação Terreiro do Paço, a qual obrigava à destruição de parte do tunel.
O empreiteiro que ganhou o concurso não foi o mesmo que o tinha construido.
Como se sabe, qualquer bem perde a garantia quando um terceiro intervem de forma destrutuiva e com o desconhecimento revelado ao provocar o acidente.
Pode assim dizer-se que o acidente foi consequencia indireta do rigoroso cumprimento das regras de contratação publica, coisa que evidentemente o tribunal de contas não quererá reconhecer. (Seria um estudo académico interessante, a avaliação da viabilidade de um pedido de indemnização à comissão europeia por iposição de regras que conduzem ao desastre; embora a dita comissão pudesse utilizar o argumento das exceções devido à complexidade técnica, expresso nas diretivas 17 e 18 de 2004).
Mais tarde, já depois do acidente, mudou a estratégia de acompanhamento das administrações, confirmando assim a regra genérica de que a tendencia é para piorar; mas continuei a reunir com os colegas da construção civil, embora noutro local mais distante, e a visitar a obra.
Infelizmente, tambem por opção das administrações, não se prescindiu da prática mecenática de contratar, sem concurso público, arquitetos e artistas plásticos, que impuseram soluções sem dar ouvidos aos técnicos que tentavam explicar-lhes os inconvenientes do ponto de vista de custos de construção e de manutenção, por exemplo.
Mas o que interessa agora é rentabilizar o espaço bonito que o metro pagou (o metro pode dever ainda uma parte aos bancos, mas parecerá que o Estado deve ainda toda a divida ao metro, não será?) e enchê-lo de turistas, como antigamente.
Convinha confirmar se as fotografias do cais das colunas vêm em todos os guias turisticos.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Cais das colunas - Recordação de 2008

As imagens bonitas do cais das colunas, os primeiros passageiros do dia e o poema "Quando a harmonia chega"  do programa Câmara Clara que referi no "post" de ontem fizeram-me lembrar um email que enviei ao senhor presidente da câmara de Lisboa, quando ele declarou publicamente que pretendia fechar a estação de Santa Apolónia e transformá-la em apoio ao terminal de cruzeiros.
Este já lá está, não na estação ferroviária, mas no cais.
O senhor presidente estaria provavelmente influenciado por um senhor ex-ministro da economia, que lamentava o dinheiro gasto na expansão do metro a Santa Apolónia (e na reconstrução do cais das colunas, acrescente-se), quando o transporte de passageiros poderia ser feito por barco (na verdade podia, mas o transporte fluvial de massas tem os inconvenientes da incomodidade, da rápida saturação de tráfego fluvial, da limitação da capacidade de transporte acima de 10 barcos por hora)
Felizmente a estação ferroviária ainda funciona, em correspondencia com a estação de metropolitano.

Eis o email que em 2008 enviei ao senhor presidente da câmara:






O martírio  de Santa Apolónia
                                                                 "O que nos une é uma mesma ignorância."
                                                      (Pedro Paixão, Rosa vermelha em quarto escuro)
  
Exmo Senhor Presidente da Câmara Municipal de Lisboa

O Senhor Presidente da Câmara participou, sorridente, na cerimónia de inauguração da chegada do metropolitano a Santa Apolónia.
No metro já desesperávamos, e por isso entregámo-nos aos trabalhos que deixamos que chamem “de acabamentos”, neste caso também conhecidos por “especialidades ferroviárias”, e que o senso comum  compreende que são os mais demorados, mas que aqui não foram e assim conseguimos que o senhor presidente da câmara estivesse sorridente naquele dia 14 de Dezembro de 2007 e que nós escapássemos ao castigo de inviabilizarmos tão esperada consagração, embora ainda agora continuemos nos trabalhos e ensaios finais.
Graves foram os erros cometidos em todo o processo construtivo.
Corrigimos os erros.
Pagámos (somos tanto Povo como o Povo).
Demolimos os tampões de betão que protegeram o metro enquanto o túnel era consolidado com as obras de reforço.
Fixámos os carris ao fundo do túnel.
Estendemos os cabos eléctricos  e os cabos de comunicações que aguardavam  a demolição do betão protector para prolongar a rede até Santa Apolónia.
Pusemos a funcionar o posto de ventilação do pátio do Arsenal da Marinha que devia ter começado a funcionar em 1998.
Enchemos  as estações novas com tudo o que nos habituámos nas outras estações.
Orgulhámo-nos de ver, finalmente, os comboios cheios de cidadãos e cidadãs que chegam da Azambuja, de Vila Franca, do Barreiro, do Lavradio, na sua caminhada diária para o PIB.
 E vem agora o Senhor Presidente propôr o martírio de Santa Apolónia, mandando parar os comboios no Oriente, vendendo terreno e aproveitando o convento da santa para terminal de cruzeiros.
Eu digo martírio porque para nós é doloroso ver quebrar-se o elo de ligação do metropolitano aos comboios da Azambuja.
 Felizmente os colegas da CP já vieram dizer que os terrenos são precisos (não digo que umas franjazinhas de terreno não se pudessem converter em euros…) para alojar infraestruturas; isto de comboios é uma maçada, não são só os comboios, há sempre necessidade de mais coisas para eles funcionarem, às vezes até um núcleo museológico para os colegas do estrangeiro, na reforma, cá virem deixar mais umas divisas, e que o serviço até Santa Apolónia se justifica também com a ligação ao metro.
Não terá estado o Senhor Presidente à altura do contributo que deu para a melhoria dos transportes colectivos quando venceu a corrida com o Ferrari, essa ficou o metro a dever-lhe, e a resposta correcta da CP não é suficiente para nos tranquilizar.
Terá havido um aconselhamento de economista.
Mas o Senhor Presidente sabe que o economista sabe quanto custam as coisas mas ignora quanto valem as coisas (definição dada por um economista).
Se ele soubesse, sabia que a chegada de comboio a Santa Apolónia daqueles cidadãos e cidadãs vale mais, muito mais do que as mais valias ganhas com a venda de terrenos para cobrir o deficit da REFER.
 E se lhe vierem dizer que o projecto da RAVE para a linha do Oriente já tem infraestruturas que chegam para dispensar todas as de Santa Apolónia, seja cartesiano, não acredite.
 E se mesmo assim o economista lhe disser que já há correspondência com o metro na estação Oriente, então diga-lhe calmamente que os transportes urbanos numa cidade não são linhas, são redes de linhas, para que os cidadãos e cidadãs possam distribuir-se por várias linhas e por vários nós de correspondência.
É por isso que esta missiva começa com aquela citação de Pedro Paixão.
Poderá parecer deselegante, mas o objectivo é chamar a atenção para a complexidade dos problemas dos transportes urbanos, a que corresponde uma grande ignorância das soluções, e que todos partilhamos.
Deixem-nos porém, já que temos obrigação de ser um bocadinho menos ignorantes em questões de transportes, continuar a transportar os passageiros da Azambuja pela cidade dentro.
 E não leve a mal pedir-lhe que acredite nos técnicos de transportes. Quando De Gaule pediu o helicóptero para ver as “embouteillages” em Paris, em 1956, deu apenas uma ordem: “Resolvam-me esta merda” . Não disse como, nem disse ao ministro dos transportes para lhe explicar como. E foi assim que nasceu o RER (suburbanos de Paris).
 E muito menos leve  a mal que chame a sua atenção para um problema gravíssimo, em termos de transportes, que se gerou em Alcântara, graças a governos e câmaras anteriores (recorda-se do disparate de um anterior Presidente de Câmara propondo a supressão do caminho de ferro entre Alcântara e o Cais do Sodré e a venda do terreno para urbanizações de luxo? Como pode a Democracia, como podem os cidadãos defender-se destes ataques?) – a natureza geológica dos terrenos em Alcântara e a proximidade do caneiro e da sua foz recomendam que as estações futuras do metro e da CP sejam em viaduto (não vale falar em agressões ambientais quando estiveram previstas as duas torres Siza, ainda se pensa nos blocos Jean Nouvel e os edifícios novos que lá estão têm 6 pisos) e que os cruzamentos rodoviários se lhes subordinem. 
Caso para dizer agora que terão de ser os técnicos da especialidade a descobrir como fazer um terminal de cruzeiros sem erguer um muro segregador de 6 m de altura nem violar o convento de Santa Apolónia.
 Mas, por favor, que não sejam técnicos só de uma entidade, para haver um bocadinho de diversidade (é a diversidade a mãe das grandes soluções, diria o Padre António Vieira se as técnicas de gestão já estivessem no tempo dele tão evoluídas como agora), e não acontecer  o que aconteceu com a Ota e com o TGV (ai as soluções sigilosas…).
 E que não venha assim a haver nenhum martírio, que seria histórico, de Santa Apolónia, a virgem alexandrina heroína de um martírio lendário no século III, precursora do martírio real de Hipátia de Alexandria, a matemática lapidada por fundamentalistas cristãos um século e meio depois.
E se chamo Apolónia (a cultura que emerge)  e Hipátia (a cultura que resiste), é porque são bons exemplos de que é fácil escrever a história quando se tem o poder; e fechar ou deixar a funcionar a estação ferroviária de Santa Apolónia será sempre a melhor solução se, quem o decidir, fôr quem tiver o poder de deixar escrito que terá sido a melhor solução, deixando porém a amargura em alguns:  como evitar uma má solução para os transportes colectivos em Lisboa?

Pedindo desculpa pelo tempo tomado, apresenta os melhores cumprimentos, o cidadão munícipe de Lisboa